terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Publicidade, Sponsorização e Warrior: um ponto de situação

Como ponto de partida de uma questão de um leitor d'O Tribunal do Dragão, um olhar às receitas com publicidade e sponsors e à transição da Nike para a Warrior. Os números oficiais nunca foram referidos publicamente, até porque estes contratos são sempre definidos por objectivos e patamares (ser campeão vale mais do que ser 3º classificado, por exemplo). Logo não é possível conferir ao certo se a Warrior já está a render mais ou menos do que a Nike, mas era sabido que o crescimento, a existir, não seria muito significativo.

Na época passada a Publicidade e Sponsorização tiveram um peso de 19% nas receitas da SAD, 13,594M€ (essencialmente através dos 3 sponsors principais, PT, Nike e Unicer). Um crescimento de pouco mais de 400 mil euros face a 2012-13, época melhor em tudo em termos desportivos. A juntar a isto há o merchandising, com um peso de 5% e 3,72M€.

Ou seja, em 2013-14 a Publicidade, Sponsorização e Merchandising tiveram um peso de 24% nas receitas operacionais da SAD. Em 2014-15 está previsto que a Publicidade e demais tenha um peso de apenas 14,4%. (no orçamento resumem tudo a esta rubrica). Em ano de estreia da Warrior, a SAD vai receber menos em publicidade e patrocínios.

Relatório e Contas da SAD do primeiro trimestre de 2014-15

Isso já se reflecte no R&C do 1º trimestre. Nos primeiros 3 meses da época, a SAD recebeu 3,087M€, quase meio milhão a menos do que em 2013-14. Há um ponto positivo: o Merchandising cresceu 180 mil euros, para 1,618M€, e segundo o R&C isso deve-se à parceria com a Warrior. As camisolas cor-de-rosa são responsáveis em grande parte por esse aumento.

Warrior sem
grande impacto
Foi uma aposta aqui elogiada enquanto se desmistificava aquela história de que o Benfica é um clube muito mais poderoso em termos de patrocínios e sponsors. É um daqueles mitos que se repetem e alimentam até ao dia em que alguém se lembra de o questionar. FC Porto e Benfica têm tido registos equilibrados quanto às receitas com publicidades, patrocínios e merchandising. Há trimestres em que ganha mais o FC Porto, outros o Benfica. 

No 1º trimestre, o FC Porto, no conjunto da rubricas, ganhou 4,705 milhões de euros. O Benfica ganhou 85 mil euros a mais. São estes 85 mil euros que ditam um fosso de grandeza? (Bastava o Benfica não ter o naming no Seixal para receber menos). Fosso de grandeza, a existir, não é entre FC Porto e Benfica, é em relação ao Sporting, que nos primeiros 3 meses ganhou apenas 1,536M€ em publicidade e patrocínios. Uma diferença natural face àquilo que é a dimensão dos 3 clubes.

O FC Porto, num contexto de futebol português, está no topo daquilo que os patrocinadores nacionais podem oferecer. É irrealista imaginar mais do que 5 milhões de euros entre merchandising, publicidade e patrocínios em 3 meses. A alternativa seria apostar num Naming de estádio a uma escala internacional, uma opção que devemos considerar seriamente a curto prazo (o Estádio Jorge Nuno Pinto da Costa não vai existir pela vontade do próprio presidente). 
Unicer. A resistente
também já lá vai

Recuando à questão da diminuição das receitas publicitárias. Como é sabido a PT vai deixar de ser patrocinadora e já aqui avaliámos o impacto do fim dessa ligação. Quase que já podemos encarar a PT como uma ex-patrocinadora, na medida em que o dinheiro a receber em 2014-15 vai para o Internationales Bankhaus Bodensee AG, um banco alemão, para liquidar as prestações de um crédito de 2,244M€. Já agora, referir que o dinheiro a receber pela fase de grupo da Champions também vai todo para aqui: 8 milhões de euros por um crédito que venceu em Outubro.

Em termos de patrocínios, já se foi a Nike, acaba-se a PT e sobra a Unicer, com quem renovámos até 2016. Mas o dinheiro da Unicer também já serve como colateral para dois créditos com o BIC, de 3 milhões de euros, que vencem em Fevereiro de 2016.

Conclusão: o problema não é o FC Porto estar a receber menos em patrocínios. O problema é que todos os patrocínios a receber já têm destino para pagar à banca ou liquidar créditos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Justiça e fartura

Uma vitória que nos deixa de barriguinha cheia, sem esquecer como foi difícil preparar esta refeição. O aperitivo foi óptimo e deixou-nos antever que vinha aí um banquete, mas durante o prato principal foi-se mastigando, mastigando, mastigando... Quase até engasgar. No final veio a saborosa sobremesa que deixou toda a gente satisfeita, mas sem esquecer com foi difícil degustar aquele prato principal. Mas como há sempre quem se levante depois do prato principal, nem todos provaram a bela da sobremesa.

Metáforas à parte, foi difícil como se esperava que fosse. Este é o Rio Ave que deu 5 no Estoril e ao qual o Benfica se viu borrado para ganhar por 1-0. O próprio FC Porto teve dificuldades para aguentar o 1-0. O Rio Ave é equipa para o top-8 do campeonato, tem um bom treinador e tenho a certeza que ainda há-de pescar pontos às equipas mais acima da tabela. O FC Porto tinha obrigação de ganhar? Tinha. Ganhou? Ganhou. Com justiça? Sim. Com qualidade? Em muitos momentos do jogo. E até deu para golear e passar a ter a melhor D.G. do Campeonato. Havemos de ver exibições melhores com resultados piores e resultados melhores com exibições piores.

Agora a nossa Champions é o Campeonato. Na próxima jornada há uma deslocação difícil a Coimbra onde a margem de erro é 0, pois depois há recepção ao Benfica para decidir quem come as uvas passas como líder do Campeonato. 2 jogos, 6 pontos. Lopetegui tem um 11 base cada vez mais definido e está confirmada a nova dupla de centrais, Marcano-Indi. Pode sair Óliver e pode entrar Quintero, o melhor Tello é neste momento melhor do que o melhor Quaresma. Quanto ao resto não há-de diversificar muito mais.





A primeira substituição (+) -  Todos sabemos aquilo que Brahimi sabe fazer. Faz parte do grupo de predestinados que numa jogada resolve um jogo. Como Quaresma e Hulk, para dar exemplos recentes, muitas vezes fizeram no FC Porto. Por serem capazes de resolver 1 jogo num minuto, havia sempre tendência para dizer algo do género «está um bocado apagado, mas a qualquer momento pode sair dali qualquer coisa, por isso o treinador não o deve tirar». Por outras palavras, a história do «está a jogar mal mas é melhor ficar em campo porque pode resolver» só quer dizer uma coisa: lugares cativos. Mas o FC Porto não tem apenas um jogador que pode inventar qualquer coisa a qualquer momento. Tem 6 ou 7. Ao tirar Brahimi, Lopetegui deu um sinal forte de que a rotação pode agora ser menor, mas os lugares cativos não existem mesmo.

Danilo (+) - Minuto 92, a ganhar por 4-0, e o Danilo corre como se o jogo dependesse daquela arrancada, com uma fúria de saiam da frente carago senão atropelo-vos. Que grande golo, que grande exibição, que grande jogador. Foi o mais inconformado ao longo de todo o jogo, fartou-se de galgar terreno, dar apoio, puxar marcações, criar desequilíbrios. Aprendeu a ser aquilo que é um jogador à Porto, uma imagem de garra e de espírito de inconformismo constantes.

Tello (+) - Mais objectivo, mais perigoso. O golo na Bielorrússia fez-lhe bem. Num espaço de 4 metros consegue dar 3 de avanço ao defesa. Combinou bem com o lateral e fez o melhor uso das suas principais características; aceleração, drible orientado para a baliza e remate forte. Três coisas simples que podem ajudar a resolver muitos problemas... como hoje.

Óliver (+) - Está em 3 dos 5 golos do FC Porto. Muitas vezes destacamos o papel operário de Herrera, mas é quase sempre Óliver quem faz mais quilómetros. Além disso não se limita ao papel de trabalhador mas também de construtor, de médio mais criativo do meio-campo. Depois da saída de Brahimi foi jogar para a direita e também encaixou bem. Aproveitou o magnífico passe de Quintero para fazer um golo merecido (estão cercados por 8 jogadores do Rio Ave e sozinhos conseguem fazer um golo). Craque(s).





O que fazer sem bola (-) - Não acho que a primeira parte tenha sido má. O FC Porto teve 1, 2, 3 boas ocasiões para marcar, esteve sempre no controlo do jogo e viu-se empenho dos jogadores. O problema foi depois do primeiro golo: o FC Porto não soube posicionar-se sem bola. Ficou perdido entre a transição defensiva e o querer posicionar-se para sair logo para o ataque. O Rio Ave esteve 4 minutos seguidos dentro do meio-campo do FC Porto, coisa que não me lembro de ver outra equipa fazer no Dragão. É um adversário de qualidade, mas a equipa foi demasiado passiva. Ser mais pressionante e agressivo na recuperação sem com isso perder o posicionamento defensivo é mais um desafio para Lopetegui, porque se o Barcelona, o Bayern ou a Juventus estiverem 4 minutos no meio-campo do FC Porto a coisa pode correr mal.

O que falhou? (-) - Não tanto uma crítica, mais uma reflexão: foi o colectivo que não evidenciou as individualidades ou foram as individualidades que não potenciaram o colectivo? As individualidades apareceram. Viu-se no golo de Tello, no de Jackson, no de Danilo. Mas Herrera hoje não esteve bem e até aparentou estar cansado. Brahimi não acertou um drible. E Jackson antes do golo estava sempre em desacerto. Os 3 jogadores mais influentes da época do meio-campo para a frente estiveram em sub-rendimento durante grande parte do jogo e a equipa ressentiu-se em demasia. Por mais que as individualidades tenham valor, o colectivo não pode falhar. Paradoxo a rever.

PS: Alô Messi, alô Ronaldo. Quando marcarem um golo de calcanhar à meia volta e em chapéu ao guarda-redes, depois de fazerem um túnel ao adversário, telefonem.


sábado, 29 de novembro de 2014

O essencial do primeiro Relatório e Contas da época

O Tribunal do Dragão apresenta os principais dados do R&C do primeiro trimestre da época 2014-15, que contempla os meses de Julho, Agosto e Setembro, com análises e reflexões nos diversos tópicos. 

- Resultados. Mesmo com a receita extraordinária da Champions, sem transação de passes o FC Porto tem um prejuízo operacional de 1,9M€ nos primeiros 3 meses. Com a transação de passes, o resultado líquido é de 13,469M€. A necessidade de gerar mais-valias já é sabida e vão ser necessários à partida mais 40 milhões até 30 de Junho.

Fernando Gomes
- Passivo vs Activo. O passivo total subiu 35,687M€ para 269,15M€, ainda que o passivo remunerado tenha baixado 14,952M€. Em contrapartida o activo disparou 49,161M€ para 249,557M€, basicamente graças às contratações para esta época. Assim os capitais próprios negativos reduziram para 19,59M€, o que é sempre importante, mas a SAD continua em situação de falência técnica (a operação Euroantas só entra no 1º semestre). Sobre a Euroantas, ler aqui e aqui.

Preocupante e nada de novo (o Braga tem a única SAD que não está em falência técnica, que tem um activo que cubra o passivo), mas com a operação Euroantas no segundo trimestre os capitais próprios já serão os maiores do futebol português (12,5M€), não esquecendo que tal só foi possível recorrendo ao Estádio - quem quiser a perspectiva positiva, o Sporting já usou todo o estádio e está afundado em falência técnica há anos e para os próximos (são mais de 100 milhões), e o Benfica vai continuar nessa situação, embora em menor grau (resta saber como ou se Gaitán, Enzo, Salvio e etc. resolvem a situação que tende a agravar a curto e médio prazo). Nada que nos interesse, mas há sempre quem goste de um ponto de referência. Como ponto negativo e já habitual, o grande défice entre o passivo e o activo correntes, que é de 95,133M€. Tal implica dependência da banca e de créditos para fazer face às despesas mensais e muita ginástica na tesouraria da SAD, uma situação que se repete ano após ano.

- Proveitos operacionais. Crescem de 17,5M€ para 26,65M€ graças à Liga dos Campeões, essencialmente. No primeiro trimestre já entraram 11,6M€ da Champions. As receitas de bilheteira subiram (mais jogos em casa), houve uma receita extraordinária no jogo do Deco e num concerto, de resto nada significativo. Como gerar mais receitas operacionais é o desafio.

- Custos operacionais. Um total de 28,56M€ nos primeiros 3 meses da época, sem contar com transferências. O custo do plantel já se reflecte: de 10,9M€ para 15,5M€, essencialmente a única rubrica com grande aumento, apesar dos FSE terem aumentado 1,3M€ (uma rubrica que tem sido consideravelmente e cada vez mais dispendiosa - mais informação aqui).

- Comissões. Mudou o responsável pela pasta financeira, mudou também a forma de prestar a informação. Neste caso, não prestar a informação. O FC Porto pagou 6M€ em comissões a empresários este trimestre. De recordar que só estão apresentadas 7 contratações no R&C, além de um bolo de «outros jogadores» de 1,175M€ (Andrés?). Ora para 7 contratações vemos... pagamentos a 15 empresas/empresários em comissões ou serviços de intermediação. Isto de tratar de uma transferência é extremamente trabalhoso, tanto que até é necessário dividir a tarefa por uma média de dois empresários para cada jogador. A maioria das empresas não tem informação significativa na internet, logo não há muito por onde explorar. De realçar aqui que o FC Porto não só deu 5% de Jackson Martínez a Henrique Pompeo como ainda lhe pagou um serviço de intermediação (de quanto? Não se sabe), isto ignorando a hipótese de ele estar associado a outro jogador do plantel (o que seria ainda mais preocupante).

Otávio: 32,5%
- Contratações. Marcano custou 2,65M€ por 100% do passe, valor dentro do noticiado. Evandro foi mais caro do que o inicialmente noticiado: 2,35M€ por 100%, havendo ainda o empréstimo do Tozé e a partilha de direitos económicos com o Estoril. Quanto a Otávio. A avaliação está relativamente dentro do noticiado (7,5M€, um milhão a mais do que o que saiu na imprensa), mas neste caso o preço foi 2,5M€ por 33% do passe, comprados a um clube à Rentistas, fundado há poucos anos (curiosamente em... Minais Gerais, terra do Banco que deu nome ao Museu), e não ao Internacional. 12% já terão ficado noutras mãos. É também sabido que Otávio foi uma aposta da SAD, não de Lopetegui, apesar de ser um miúdo de talento. Resta saber quando o veremos, e com isto é mais um jogador caro que praticamente só vai jogar na B. Apostas que só se justificam se forem integradas no plantel principal a médio prazo.

- Faseamento de pagamento. Outra das informações que não é disponibilizada. Havia expectativa sobretudo para conhecer quanto já custou efectivamente Ádrian até ao momento (relacionados aqui e aqui), mas a SAD não detalha nenhuma informação sobre isso. Dos 42,9M€ investidos na contratação de reforços, há um efeito de atualização de 2,2M€, a propósito de uma parcela que vence de 5 jogadores: Indi, Ádrian, Brahimi, Evandro e Otávio. 

- Mangala e Defour. Confirmado que geraram uma mais-valia de 25,48M€. Negócios positivos, sobretudo o de Mangala. Teria sido interessante ver a intermediação, mas mais uma vez essa informação agora deixou de aparecer.

45% de «Lich» vendidos
- Empréstimos dão prejuízo. Nos primeiros 3 meses da época, os jogadores emprestados pelo FC Porto custaram 831 mil euros, e em contrapartida renderam 230 mil euros. Ou seja, o FC Porto mantém jogadores emprestados que só dão prejuízo e muito provavelmente dificilmente voltarão a vestir a camisola do FC Porto. Olhando para esta tabela do sempre atento Reflexão Portista, quantos teriam/terão lugar no plantel? No final da época é importante varrer a casa. Se agora temos equipa B, não faz sentido continuar a ter um plantel de emprestados pela Europa fora.

- Percentagens alienadas. O FC Porto pagou 1,837M€ por Lichnovsky, mas já só tem 55%. O FC Porto começa por informar que comprou 33% de Otávio, mas na listagem dos activos depois só aparece 32,5%. De Andrés Fernández temos 90% do passe (não há informação sobre os outros 10%, mas o Osasuna vendeu tudo o que tinha). Entre os jogadores que a SAD considera activos valiosos na perspectiva do mercado, não há nenhum em final de contrato e há 5 com vínculos que terminam em 2016: Danilo, Alex Sandro, Quiñones, Kléber e Kelvin. Kayembé, Brahimi, Ádrian e Otávio são os jogadores com os maiores contratos (até 2019).

- Excedentários. O FC Porto ainda tem 50% de Prediger, 70% de Soares e 25% de Souza. São os únicos 3 ex-jogadores dos quais o FC Porto ainda tem uma percentagem declarada.

A qualidade paga-se...
e bem paga
- Clientes. O Atlético de Madrid deve 344 mil euros ao FC Porto. O Man. City deve 11,3M€ por Fernando e Mangala. O Fluminense deve 2,125M€ por Walter. O Lyon ainda está a pagar Cissokho e Lisandro (deve 750 mil euros). O Kasimpasa deve 1,05 por Castro. E há outros clubes não discriminados que devem 1,59. Além disso, o Anderlecht deve 1,5 por Defour + 3 não correntes. Por fim, a Doyen deve ao FC Porto 2,5M€ + 2,5M€ não correntes (em causa o dinheiro de Brahimi, que deverá ser usado para efeitos de liquidez a curto prazo). O Chelsea, o Zenit e o Valência já acabaram de pagar Atsu, Hulk e Otamendi. Tirando Defour e a Doyen, o dinheiro em falta vai entrar todo no decorrer do exercício.

- Recuperar Brahimi. Como foi dito na altura, a história de que era possível recuperar os 80% de Brahimi por 8M€ estava muito mal contada. O FC Porto pode recuperar até 55% até 2017, enquanto a Doyen pode vender os seus 80% até essa data. Por quanto? Não se sabe. É o que falta às operações com os fundos, transparência. Se não é possível saber quem, pelo menos que se saiba quanto. Disse que Brahimi iria ser como Hulk: vai tornar o caro barato na altura de recuperar o passe. Mas se de facto a Doyen pediu 20M€ ao Sporting por Brahimi, é bom preparar o estômago para quanto pode custar recuperar o passe deste mago da bola, que é bom lembrar, só chegou ao FC Porto por via da Doyen. E uma qualidade destas paga-se... E bem.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

As expectativas já cumpridas e o que virá a seguir

Desportivamente, o FC Porto está no caminho certo da Champions. Primeiro passou o play-off, agora garantiu a vitória na fase de grupos, uma das melhores de sempre. Como é norma, se as coisas correm bem desportivamente, financeiramente a máquina funciona. Neste caso, está muito bem encaminhada para isso.

O FC Porto está a cumprir e ultrapassar as expectativas orçamentais para 2014-15. Para esta época a SAD orçamentou 28,229M€ em receitas da UEFA. Isso previa o apuramento para os oitavos-de-final, mas a possibilidade de chegar aos 16 pontos não estava prevista.

Em 2014-15 o FC Porto já ganhou 18,7M€ e pode ganhar mais um milhão contra o Shakhtar. De recordar que em 2013-14 não entrou o dinheiro pelo acesso à fase de grupos da Champions, por causa do play-off, e a SAD apontou para um buraco de 10M€. Acabou por haver uma mais-valia: o FC Porto recebeu um extra de 2,1M€ que não é habitual, por causa do play-off.

Mas isso já estava previsto nas contas, tal como está previsto que o FC Porto se apure directamente para a fase de grupos da Champions de 2015-16, ou seja que fique entre o 2 primeiros lugares do campeonato (mais concretamente o 1º, tendo em conta que os custos com pessoal já devem prever o pagamento das variáveis aos jogadores por títulos, de outra forma não se justificaria um aumento de mais de 40% nesta rúbrica).

Por isso, somando os 18,7M€ aos 8,6M€ já esperados para a próxima época, Lopetegui e os jogadores conseguem o que estava orçamentado pela SAD. Podem até superar, se vencer o Shakhtar. Mas há outra receita que deve ser tida em conta: o market pool.

Sabem aquela história de que é bom para Portugal ter os 3 grandes na Liga dos Campeões? Do ponto de vista de market pool, não é verdade. O ideal é que o FC Porto esteja lá sozinho. Isto porque o market pool, receitas televisivas e publicidade estática, é dividido por todas as equipas do mesmo país que disputem a Champions.

Em 2013-14 o FC Porto ganhou nesta rubrica 3,618M€, cerca de 350m mais do que o Benfica, tendo em conta que o campeão nacional tem direito a uma percentagem ligeiramente superior. Este ano como o Sporting está na Champions, o market pool é dividido por 3. Mas há uma boa notícia: a partir dos oitavos o valor de market pool sobe bastante, Para o FC Porto, nesta rubrica o ideal era que o Sporting não fosse aos oitavos da Champions, pois assim consegue uma maior fatia de market pool.

Independentemente disso, está a desenhar-se tudo para o FC Porto atingir os 30M€ de receitas da UEFA para ser contabilizadas em 2014-15, não esquecendo que para isso é preciso a qualificação directa para 2015-16. Se será possível chegar aos quartos, em Fevereiro veremos. Para já é preciso apostar tudo e o máximo no Campeonato, sobretudo porque o rival Benfica já não está na Europa, por isso vai poder dedicar quase toda a atenção no Campeonato, independentemente dos efeitos que a sua eliminação na Europa possa ter no mercado de Inverno. A eliminação do Benfica na Europa só ajuda o FC Porto no ponto de vista financeiro, não no desportivo. E no FC Porto o sucesso desportivo e financeiro estão ligados por cordão umbilical.

De recordar abaixo o que foi a proposta de orçamento para 2014-15. Com o apuramento para os oitavos-de-final garantido, está tudo a seguir conforme o alinhavado (tirando o 3º lugar no Campeonato, mas dependemos de nós para terminar Dezembro na liderança), por isso fica a faltar... o mais importante, que são as mais-valias com transferências: é preciso 66,5M€.


Para 2014-15 vão entrar Defour e Mangala, que vão gerar cerca de 25M€ de mais-valias. Não confundam valor de transferência com mais-valias. A mais-valia só é contabilizada depois de a) excluir o valor contabilístico do passe (o valor do jogador é calculado através do preço total da transferência, repartido pelo número de anos de contrato) b) prémios de fidelidade c) terceiras partes detentoras de direitos económicos d) comissões e intermediações, sem esquecer que paga-se IVA pelas transferências.

Por isso o FC Porto vai ter que fazer pelo menos 40M€ de mais-valias em 2014-15, segundo o orçamento. Mas é possível que até não o faça, com a transição de resultados para 2015-16, até porque para tal seria preciso vender pelo menos 2 titulares até 30 de Junho, e normalmente os tubarões não atacam o mercado tão cedo (veja-se como o FC Porto teve que vender Quaresma, Hulk e outros à pressão). São contas para fazer mais tarde, precisamente porque quanto mais lucrativos formos através da vertente desportiva em 2014-15, mais condições reunimos para reduzir a necessidade de venda de jogadores.

Isto para realçar que na UEFA as expectativas orçamentais podem ser superadas mesmo sem contar com o apuramento para os 1/4. Se o FC Porto passar os oitavos, pode ser a diferença entre vender 2 titulares, ou vender apenas 1 titular e alguns jogadores de segunda linha que saiam valorizados. Ou até pode não alterar os planos de venda, pois é normalmente isso que acontece - no início de cada época a SAD planeia quem vai transferir -, mas pode reforçar as condições de investimento.

Ir ou não ir aos quartos da Champions pode ser a diferença entre conseguir ou não conseguir manter ou contratar um titular para o 11, sabendo-se que o risco é o modelo de gestão de Pinto da Costa há 30 anos. Ou seja, o que cair numa mão, vai ser batido com a outra. O sucesso desportivo gera condições para ser bem sucedido desportivamente, um ciclo que se repete e que não pode falhar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Héctor, you're simply the best!

Nunca um momento de guilty pleasure foi tão apropriado. Acaba o jogo e os bielorrussos resolvem meter The Best a tocar no estádio. Herrera, ainda não eras nascido quando esta virou disco de vinil pela voz da Tina, mas ia jurar que foi escrita para ti, a pensar neste jogo. You're simply the best, better than all the rest. Herrera foi mais do que the best, foi the beast!

Neste caso não há nada de novo a elogiar, apenas a repetição de elogios feitos em posts anteriores. Herrera é jogador à Porto. Dos pés à cabeça. Aquele jogador com o qual podemos contar com uma coisa: vai lutar e correr até cair para o lado, vai sempre meter o pé quando tiver que ir ao choque, e vai sempre arranjar força para mais um sprint quando o colega do lado não puder. «Mas isso não chega», claro que não. 

Também é preciso qualidade. E hoje que se viu? Qualidade de sobra. Tinha-lhe pedido para arriscar mais no remate de meia distância e hoje finalmente decidiu fazê-lo, para um grande golo. E para quem se queixa que o Herrera não acerta um passe, perguntem ao Jackson e ao Tello o que acham e deitem uma olhada no quadro ao lado.


Tinha dito que Lopetegui devia aproveitar estes 2 jogos de Champions para rodar a equipa. Não o fez, mas entendo. Após 15 dias sem competir, decidiu meter algo próximo do 11 base, para tentar enraizar novamente as rotinas de jogo e recuperar o ritmo. Afinal foram 2 semanas sem trabalhar com muitos titulares e ainda há muito por aperfeiçoar. Não era um jogo fácil, como se viu na primeira parte. Contra o Shakhtar sim, não há desculpa para não rodar à vontade. É que 4 dias depois há jogo com o Benfica para decidir, esperemos, a liderança.

Oitavos garantidos ao 4º jogo, primeiro lugar ao 5º, mais um milhão de euros e a segunda melhor época na fase de grupos igualada, com possibilidade de repetir a melhor época de sempre se ganharmos ao Shakhtar. O primeiro lugar pode não dar garantias de nada, sobretudo se pensarmos que o Barça é 2º no seu grupo. Mas na Champions o percurso tem sido irrepreensível e atingiu as expectativas desportivas e financeiras (o orçamento previa o apuramento para os 1/8 e esse objectivo já está garantido).





A primeira parte (-) - Vamos por partes. Aquele relvado era medonho. Jogar sob graus negativos é sempre difícil, sobretudo numa equipa que joga um futebol pensado, organizado e que não se limita a correr à maluca. E o BATE soube usar bem o autocarro. Ora tirando o frio, isto é o que o FC Porto vai encontrar em grande parte dos jogos da primeira liga: um mau relvado e um adversário à defesa. O que se viu? Muito pouco. Não me recordo de uma boa ocasião de golo na primeira parte. E é bom lembrar que o que nos permitiu fazer o 1-0 não foi o plano de jogo, porque o golo é uma recuperação de bola e um remate espontâneo. Até lá já ia quase uma hora de jogo sem saber como dar ao volta ao BATE, e tirando Herrera e Casemiro era difícil de encontrar algum de positivo no FC Porto.





Herrera, claro (+) - Não há muito a acrescentar ao que foi dito acima. Há quem diga que é parecido com a Rosa Mota. É verdade, corre que se farta, do minuto 1 ao 90. Outros dizem que parece o Dobby. Também é verdade, aparece e desaparece em todo o lado e hoje mostrou que também sabe fazer magia. E outros ainda dizem que parece aquele mexicano do Mundial 2014. Também têm razão. Eu cá digo que é o mesmo tipo que contratámos em 2013, com as mesmas virtudes e defeitos. E não há defeitos que façam com que deixe de apreciar e enaltecer as suas virtudes.

Cas6miro (+) - Com 6, assim. É verdade que o BATE não é um teste para nenhuma defesa, mas Casemiro fez o que se lhe pedia quase na perfeição. Errou poucos passes, deu sempre linha de passe, cobriu sempre as subidas dos laterais ou do Herrera, nunca perdeu o sentido posicional e o FC Porto quase não deixou que o BATE aproveitasse o espaço na rectaguarda (também mérito para Indi-Marcano, apesar de algumas falhas na 1ª parte). A Selecção fez-lhe bem.

Outros destaques (+) - Óliver. O menino também veste o fato de macaco. Por incrível que pareça, correu ainda mais do que o Herrera. A UEFA devia pagar uma indemnização por obrigar aqueles pés de ouro a terem que pisar um relvado tão mau. Esteve em todo o lado, só pecou por não ter arriscado no remate (precisamos de mais meia distância para arrombar autocarros) nem aparecido em zonas de finalização (quando Jackson baixa a área fica deserta). Jackson. Uma oportunidade, um golo, muito trabalho e muita luta, como sempre. Tello. Finalmente o primeiro golo. Ia dizer que naquela situação tem que passar a bola ao colega, mas como implicar com alguém que marca o seu primeiro golo?





Temos uma nova duplaMarcano é o substituto do Maicon? Não. A dupla Marcano-Indi é que é a substituta da dupla Maicon-Indi. Isto porque Maicon joga sempre pela direita, mas Marcano foi jogar para a esquerda e Indi pela direita. Quer isto dizer que não está em causa uma rotação de um jogador, mas sim a definição de uma nova dupla de centrais. Além disso Maicon estava à bica e precisava de ver hoje um cartão para limpar a folha. Fará sentido jogar contra o Shakhtar colocando em risco a sua utilização nos oitavos? Não. Tudo leva a crer que Lopetegui vai passar a apostar na dupla Indi-Marcano. Maicon perdeu espaço, Reyes pode rodar em Janeiro e o mercado está à porta... A meu ver sem necessidade, diga-se já.

domingo, 23 de novembro de 2014

Só ele sabe porque não fica em casa

Ele está em todo o lado. Dá conferências em Londres onde promete inovadoras experiências interactivas para os adeptos que já se praticam no Estádio do Dragão, vai aos Emirados falar de futebol de praia, passa pela África do Sul e pelos EUA e é recebido como um Messias na UEFA, a avaliar por este pequeno texto do jornal Record. Seja qual for o final de época, o Sporting já deve ser campeão em milhas acumuladas.

Fim dos fundos: eles riem-se
Mas isto a propósito do visionário Bruno de Carvalho que deixou a FIFA e a UEFA a seus pés com as suas propostas anti-fundos. Só se lamenta que Bruno de Carvalho não tenha sido tão visionário aquando das eleições para a LPFP (bastava escolher um candidato e ter o apoio de três clubes para concorrer contra Luís Duque). Se há tanta visão para o futuro do futebol português, porque não nem uma sugestão? É a chamada gestão à José Régio. Bruno de Carvalho não sabe para onde vai, mas sabe que não vai por aí (e por aí entenda-se o sentido de voto de FC Porto e Benfica).

Mas não deixa de ter pensamento estratégico. O caso mais interessante foi a entrevista com os directores dos 3 jornais desportivos. Chamou-os para uma entrevista que rapidamente se tornou num ataque, onde utilizou um inteligente jogo de palavras para iludir os desatentos. Cumpriu os seus objectivos: atacou os 3 directores e os sportinguistas rejubilaram, espumaram-se, celebraram. Rejubilaram tanto que esqueceram-se por um momento do 8º lugar na liga. Bruno de Carvalho sabe chamar as atenções para si próprio e fazer com que se esqueçam do importante. Acreditem, não é fácil fazer isto. Tem mérito.

Mas quando o tema são os fundos, já não se trata de desviar as atenções. Trata-se mesmo de ignorância face ao que aí vem. Continuam a tratar Bruno de Carvalho como o valente cavaleiro da cruzada contra os fundos, que vai acabar com os fundos na UEFA e na FIFA. Percebe-se este empenho de Bruno de Carvalho: enquanto Benfica e FC Porto mantiverem parceiros estratégicos, o Sporting não cheira. Mas a Bruno de Carvalho interessa corrigir rapidamente o erro que fez no Sporting: fazer com que mais nenhum fundo queira negociar com o clube.

Porque é isso que está em causa. Não é só o Sporting a romper com os fundos. São os fundos que já não querem negociar com o Sporting. A maneira como rasgam o contrato com a Doyen Sports, tratando tal como um empréstimo sem taxa de juro que ia triplicar ou quadruplicar o lucro da instituição, mostra que não tem uma SAD pronta a honrar os compromissos que assina. Nenhum parceiro quer negociar com um clube assim.

Por isso é tão conveniente a história de que os fundos vão acabar. Mas é tão conveniente como mal contada. A FIFA não vai proibir os fundos de investimento, vai proibir a partilha de passes com fundos de investimento. Os fundos vão continuar a existir, como sempre. Na prática o que acontece é que os fundos vão passar a operar como se fossem uma instituição bancária: avançam com o financiamento da contratação e depois são reembolsados, ou com taxa de juro previamente definida, ou a troco de uma percentagem de uma futura transferência. Já ouviram a aquela história de que os fundos são proibidos em Inglaterra? Ouviram mal. O que não é permitido é o third-party ownership. Os fundos existiam, exitem e continuarão a existir, em todos os campeonatos.

Portanto a história do herói Bruno de Carvalho, que anda a batalhar na FIFA e na UEFA, é para inglês ver. Vai acabar a partilha de passes por terceiros. Mas os fundos vão continuar a operar como instituições bancárias. E vão continuar a financiar transferências para clubes onde saibam que a) os jogadores vão ser valorizados; b) os clubes vão cumprir os compromissos assumidos.

O Sporting, além de rasgar contratos quando lhe apetece, não valoriza os jogadores para um patamar que Benfica e FC Porto alcançam. Em toda a sua história o Sporting só vendeu um jogador acima dos 15 milhões, foi há 7 anos e até lhes foi emprestado de graça. E para fazer a segunda maior venda da sua história em 2010 o Sporting teve que vender o seu capitão ao FC Porto. Que interesse podem os fundos ter num clube assim?

A dependência dos fundos não é saudável para ninguém. Mas que são importantes para conseguir jogadores como Mangala, James ou Brahimi, são. O que se pedia era a transparência do processo. Coisas tão simples como a) conhecer os accionistas ligados aos fundos; b) revelar logo no momento da alienação quanto custa recuperar o passe; c) definir uma taxa máxima de valorização dos activos. Três coisas tão simples que acabavam com o problema. Mas sabem porque é que estas 3 coisinhas nunca foram opção? Porque nem a FIFA nem a UEFA têm interesse.

A FIFA e a UEFA querem que os fundos continuem a existir, porque é um negócios paralelo que envolve centenas de milhões. Vai proibir o third-party ownership, mas os fundos vão continuar a operar. Não muda nada. Bater palminhas por se fechar uma janela quando a porta continua aberta? A única porta que se fechou foi para o Sporting, e foi dos fundos.





- A saudade de ver o nosso FC Porto jogar é tanta que para ter tema tive que o centrar em Bruno de Carvalho. Isto porque não posso aceitar a sugestão de um estimado amigo portista, que sugeriu que falasse sobre os elogios a Pinto da Costa em Angola. Ver o FC Porto, na presença do seu presidente, ser reconhecido lá fora é sempre importante. Mas para quem tanto se queixa de imprensa tendenciosa e do regime, dedicar uma única palavra ao Jornal de Angola seria de uma hipocrisia e falta de coerência considerável. Pobre do FC Porto no dia em que necessitar de um panfleto estatal para massajar o ego. Fica a nota por Pinto da Costa mais uma vez exportar a imagem do FC Porto no estrangeiro, com expectativas de ver se terá importado algo.

- Não li a entrevista de Lopetegui à UEFA. Mas o jornal Record diz algo como «seremos campeões ou lutaremos até ao fim» e esta frase deixou alguns portistas incomodados, por Lopetegui admitir a possibilidade de não ser campeão. Claramente um motivo para indignação, ora vejamos o que disse Guardiola em meados de 2011-12: «Ser campeón? Solo queda luchar hasta el final». Ou então o que diz Mourinho depois de passar para a frente da liga inglesa em 2013-14: «Não somos candidatos ao título, o City é que tem obrigação de ser campeão». Seguindo a coerência, Guardiola e Mourinho não têm capacidade para treinar o FC Porto, porque são treinadores que admitem não ser campeões. Ah, esperem, são mind-games para aliviar a pressão sobre a equipa? Ah, tudo bem! Que pena que Lopetegui não tenha feito o mesmo na sua entrevista à UEFA... [Irony alert]. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

As redes que não precisam de mais peixe

Desde 2005-06, quase se pode afirmar que o FC Porto só teve 2 guarda-redes titulares: Helton e Fabiano. Helton foi o sucessor de Baía e só deixou a baliza por culpa da sua grave lesão. Tirando Helton e o agora titular Fabiano, só jogava quem entrava no esquema de rotação nas taças.
O digno sucessor de Helton

Mesmo só havendo 2 guarda-redes titulares nos últimos 8 anos, a verdade é que o FC Porto contratou desde então 10 guarda-redes. Além dessas 10 contratações que incluem o agora titular Fabiano, o FC Porto teve Paulo Ribeiro, Hugo Ventura, Tiago Maia e Kadu a rodarem como 3º guarda-redes do plantel.

Não se pode ignorar que a baliza é uma posição que requer rotação no mercado. Ninguém se conforma eternamente com o estatuto de número 2. Se não jogam, procuram sair e rodar noutro lado. O melhor exemplo disso é Beto. Estava tapado por Helton, foi para Braga, depois para Sevilha e hoje é titular num dos melhores campeonatos do mundo e não deve nada além de alguns centímetros ao titular da Selecção.

É também uma posição onde os jogadores atingem a maturidade mais tarde e onde podem levar anos e anos até evoluírem para um patamar que justifique o FC Porto. Mas nada disto que se acaba de referir justifica uma coisa: ter mais recursos do que aqueles de que se necessita e se pode usar.

Este foi o quadro de contratações de guarda-redes dos últimos anos:

2007-08 - Nuno Espírito Santo
2008-09 - Nenhum
2009-10 - Beto
2010-11 - Pawel K.
2011-12 - Bracalli
2012-13 - Fabiano, Stefanovic 
2013-14 - Bolat e Matos
2014-15 - Andrés e Ricardo

Só em 2008-09 o FC Porto não contratou nenhum novo guarda-redes. De resto tem sempre sido contratado um ou mais guarda-redes por época, muitas vezes por intermediários repetentes. Dos últimos 10 contratados, só Fabiano foi titular e só Beto mostrou capacidade para ser o número 1 (quanto a Andrés ainda é cedo para tirar conclusões). Mas passamos a avaliar a pertinência de cada contratação.

Nuno, eterno suplente
Nuno Espírito Santo - Na primeira passagem foi a sombra de Baía, na segunda a de Helton. Teve uma segunda vida no FC Porto pela mão de Jorge Mendes, ou não tivesse sido ele o primeiro jogador a ser representado pelo empresário (conheceram-se numa discoteca em Caminha, com 30 anos, ainda Jorge Mendes não tinha mais do que um pequeno clube de vídeo e um acordo publicitário no Lanheses). Um dos guarda-redes mais caros da história do clube, que mesmo sem ter sido titular e comprometendo muitas vezes (o melhor momento foi o jogo do hat-trick de Jankausas em Braga) conseguiu tornar-se acarinhado pelos adeptos.

Beto - Um bom suplente de Helton, que como mostrou mais tarde podia perfeitamente ser o número 1. Guarda-redes de Teixeira da Silva, saiu do Leixões abaixo da cláusula de rescisão (750 mil€) e depois saiu para o Braga a custo zero. O FC Porto ficou com 50% do passe e depois recebeu cerca de 500 mil€ (não confirmados) pela transferência para o Sevilha.

Pawel Kieszek - Guarda-redes de Gaspar Freire, não fez um único jogo no Braga no campeonato antes de vir para o FC Porto (onde ia ser o suplente de Helton e de Beto). Contratação que não obedeceu a qualquer lógica desportiva. Enterrou na Taça da Liga, fez dois jogos na Taça, 10 minutos no campeonato e foi emprestado ao Roda. Depois saiu. Assinou um contrato de quatro anos, num péssimo negócio que nada justificava.

Bracalli - Guarda-redes de António Araújo, falou-se num contrato de 3 anos, não confirmado. A sua contratação empurrou Beto para o Cluj no último dia do mercado. Mostrou alguma qualidade no Nacional, era um guarda-redes experiente. Fez alguns jogos nas taças e um ano depois foi encostado, dando lugar a outro guarda-redes. Rezam as crónicas que tinha uma relação difícil com Will Coort e também saiu pela porta pequena.

Fabiano - Único guarda-redes contratado desde Helton que conseguiu ser titular. Guarda-redes de Gaspar Freire, terá custado 1,2M€, valor não confirmado. Teve que esperar pela lesão de Helton. Uma infelicidade na base de outra felicidade. 

Nome sem história
Stefanovic - Guarda-redes de António Araújo, uma contratação surreal. Chegou no Verão que fez 24 anos e nas equipas B só há espaço para 3 jogadores maiores de 23. Queimou-se assim uma vaga na equipa, algo absolutamente desnecessário, violando-se logo a lógica da equipa B ser para lançar os jovens jogadores - neste caso foi-se ao mercado, não se sabe por que valores, contratar um jogar de idade superior aos regulamentos. Nem o Arouca o quis e nem no Chaves joga. Contrato de 3 anos.

Bolat - Pouco a acrescentar ao que já tinha sido analisado aqui. Teve direito a um contrato de 5 épocas. Na primeira época mal jogou enquanto cá esteve. Na segunda foi emprestado para ser suplente de Muslera ao Galatasaray. Ou seja, o FC Porto preocupou-se em arranjar um clube que lhe pagasse o salário em vez de encontrar um clube onde pudesse jogar regularmente. Lógica desportiva nem vê-la na estrada de ligação a Liége, que recentemente trouxe os irmãos Djim e um interessante extremo (ou lateral?) que tinha acabado o contrato com o Standard, mas que afinal custou 2,615M€. O sucesso com Mangala não pude justificar tudo.

Matos - É caso para dizer, Stefanovic, estás perdoado. Um guarda-redes de 34 anos que não jogava no Leixões foi contratado para ser suplente da equipa B. Como é claro não houve interesse desportivo nesta contratação. Mas há quem diga: é importante para o Kadu e para os mais jovens terem um jogador mais experiente a treinar com eles. Essa desculpa quase que faz sentido, mas acontece que existe uma coisa chamada treinador de guarda-redes que dedica 100% do seu tempo e atenção aos guarda-redes.

Não há espaço para Ricardo
Ricardo - Podia ter sido importante nas inscrições para a Champions, mas afinal foi irrelevante, porque o FC Porto inscreveu os 2 GR estrangeiros. Disse-o no dia em que foi contratado: é um razoável guarda-redes, mas que tinha muito boa imprensa na Académica, pois há sempre simpatia para portugueses que jogam em clubes de menor dimensão e pegar nestes casos de jogadores portugueses dava sempre jeito para embirrar com o Paulo Bento. Contrato de 4 anos, sem qualquer pespectiva de futuro no FC Porto. Em princípio vai ser emprestado à Académica em Janeiro. Tem 32 anos e está em fileira para se juntar ao clube dos que chegam, vêem e vão-se embora sem jogar. Tendo em conta que Lopetegui já estava contratado e já se sabia que queria um novo guarda-redes (Navas opção 1, Andrés opção 2), a contratação de Ricardo queimou tempo, dinheiro e o próprio jogador, que até agora a única coisa que pôde fazer foi desfilar com o equipamento. Merecia mais, até porque (não) está a jogar no clube do coração.

Andrés Fernandez - Cedo para fazer juízos de valor, embora tenha dito na pré-época: a contratar um guarda-redes, que fosse para ser titular. Fabiano surpreendeu Lopetegui e para já é o número 1, tendo já renovado contrato. Vai ser difícil para Andrés ganhar o lugar mas há uma contratação para justificar.

Este foi o balanço dos últimos 10 guarda-redes contratados. Neste momento o FC Porto tem 11 guarda-redes no clube com contrato profissional, 2 deles emprestados. Tudo isto para dizer desde já: não é necessário contratar nenhum guarda-redes em 2015-16. E quando digo que não é necessário, não significa que não possa haver uma saída e que seja necessário colmatar uma vaga. Mas se ninguém sair, que não se contrate A para empurrar B. Estamos bem servidos de guarda-redes.

O futuro passa por aqui
Helton à partida vai reformar-se no fim do ano. Ficam Fabiano e Andrés a lutar pela titularidade, duas excelentes opções. Ricardo, temo, vai rodar, rodar e rodar. Não faz sentido continuar cá para ser 3º guarda-redes. Stefanovic vai sair no fim da época e sobra o caso de Bolat para resolver. Na equipa A. não é preciso mais nenhum guarda-redes.

E na B? Kadu tem tido sucessivas oportunidades, mas apesar de ser um miúdo trabalhador e portista continua sem mostrar capacidade para a equipa A (uma opinião que não é consensual). Caio já merecia ter tido uma oportunidade. De qualquer forma, defendo que seria interessante tirar Kadu da zona de conforto e tentar emprestá-lo na próxima época, ainda que não imagine que algum clube lhe dê a titularidade na primeira liga. 

Além de Kadu e Caio, há Raul Gudino, que ainda é sub-19. Mexicano, está emprestado e há cláusula de compra. Já mostrou algumas qualidades e o Chivas diz que o FC Porto vai comprá-lo no fim da época. Por quanto? Não se sabe. Mas que a sua contratação obedeça a uma lógica desportiva e não à contratação da praxe para a baliza. Se não for para ser um dos 2 GR da equipa B, não vale a pena contratá-lo.

Mas para 2015-16 o FC Porto já tem 2 guarda-redes com grande potencial para a equipa B: Andorinha e Filipe Ferreira. Andorinha é o guarda-redes mais promissor do FC Porto. Junior de segundo ano, nada justifica que não seja um dos 2 GR da equipa B da próxima época. Depois há Filipe Ferreira, que esta época está tapado por Gudino e Andorinha, caso contrário podia estar a mostrar o seu potencial.

Tirando Helton e Stefanovic, que vão terminar contratado, e Gudino, que está emprestado, para 2015-16 há Ricardo, Fabiano, Andres, Bolat, Kadu, Andorinha, Caio e Filipe Ferreira para dividir entre equipa A e B. O ideal seria ter 2 GR na equipa A e 3 na B, sendo que o 3º guarda-redes da equipa A seria o 1º da B. Há pelo menos 8 guarda-redes garantidos para a próxima época, por isso nada justifica contratar mais. Nada. Estamos bem servidos. 





- Com a confirmação das renovações de Ivo e André Silva, não resta nenhuma promessa em fim de contrato. Notícia a registar com agrado, resta encontrar espaço competitivo para eles. Na equipa A a curto prazo será difícil (defendo que na Taça da Liga devemos usar os jovens), por isso resta tentar desenvolvê-los tanto quanto possível na equipa B e depois pensar num empréstimo ou numa subida à equipa A. Tudo isto para dizer que a lógica dos guarda-redes se deve aplicar às outras posições na equipa A e B: é tempo de espremermos os recursos que temos, não de pensar já em ir buscar mais. A situação financeira da SAD não recomenda mais do que ataques cirúrgicos ao mercado, pelo contrário, recomenda e bem que se aproveite todos os recursos que já temos à disposição. E Ivo e André Silva são 2 dos mais promissores desses recursos.