Assim pensou o FC Porto na Luz. A equipa e o treinador sentiram que era melhor segurar o empate do que arriscar perder na procura pela vitória. Só os três pontos colocariam o FC Porto a depender de si próprio, mas no final a equipa sentiu mais confiança em esperar que outra equipa - porventura o Sporting - tire pontos ao Benfica, em vez de arriscar sair da Luz sem um ponto (dessa forma, o Benfica doravante teria que escorregar em duas jornadas, enquanto assim continua a bastar uma - que de nada valerá se o FC Porto não fizer o seu trabalho). Mais do que tentar ganhar, o FC Porto mostrou que o que importava era sair daquele jogo vivo. E saiu.
Foi a primeira vez que o Benfica de Rui Vitória foi superior num clássico, algo que deve merecer claramente preocupação do FC Porto. Mas convém não esquecer este pormenor: o melhor Benfica dos clássicos não marca um golo de bola corrida. Só o consegue de penalty, ainda que para isso tenha voltado a valer San Iker.
É um tricampeão de carne e osso que está do outro lado, que no clássico foi melhor do que o FC Porto, mas que não tem vindo a fazer um campeonato em nada superior. Mas merece a preocupação que o Benfica, a quem bastava o empate, tenha feito mais na procura pela vitória do que o FC Porto. Sem que lhe tenha valido de muito.
Demos um passo atrás nas duas últimas jornadas (o FC Porto passa a ter menos um ponto, menos golos marcados e mais sofridos do que na última época em que esteve na luta pelo título até ao final), mas o Benfica também não deu nenhum em frente. Todos os portistas vão ter grandes expetativas de que o Sporting dê uma ajuda, mas para isso há que fazer a nossa parte - o V. Setúbal tem que servir de exemplo, e o resto do calendário vai oferecer jogos bem mais complicados. Sem margem para errar.
Iker Casillas (+) - Casillas é um dos raros históricos do Real Madrid que é relativamente respeitado pelos adeptos do Barcelona. Admirável, tamanha a rivalidade entre os dois clubes, até porque Casillas passou 16 anos no Real Madrid. No FC Porto, não está há sequer há dois anos... e já entende a rivalidade com o Benfica ao extremo. Não é elegante, mas é ilustrativo: aquele gesto mostrou bem o quão Casillas quer ganhar o Campeonato. Não só ganhar o Campeonato, mas também ganhar o Campeonato ao Benfica. E contribuiu tanto quanto pôde, com dois pares de defesas que aguentaram o pontinho. Quando se fala do bom balneário do FC Porto este ano, não é possível ignorar o papel de Casillas: um profissional que fala não pelo seu passado no Real Madrid, mas por entender aquilo que é o FC Porto. Ah, perdeu tempo? Perdeu. Certamente porque lhe disseram que tinha que segurar o empate. E segurou.
Maxi Pereira (+) - Não dá para disfarçar: os quase 33 anos de Maxi Pereira pesam cada vez mais nas pernas. É notório que lhe custa a recuperar cada vez mais no corredor, sobretudo num jogo em que Alex Telles, no flanco oposto, pouco conseguiu subir. Maxi Pereira não está no auge da sua frescura física, mas podem contar com uma coisa: vai continuar a lutar pelo FC Porto até cair para o lado. O que lhe faltou em pernas compensou com determinação, garra e inconformismo. Foi lá à frente, na raça, fazer o golo do empate e manter o FC Porto de pé na luta pelo título. E por ele, o FC Porto continuará de pé nessa luta. Pelo menos até que Maxi caia para o lado.
Yacine Brahimi (+) - Todos os defesas já sabem o que é que Brahimi vai fazer: vai rodar sobre a bola, tentar puxar para a linha de fundo, aproximar-se da pequena área e fazer o passe atrasado. E mesmo assim, caem sempre: poucos conseguem tirar a bola a Brahimi. Tem o dom de ser imprevisível sendo previsível. O ataque do FC Portos só existiu nos seus pés, na forma como arrastou e rasgou a defesa do Benfica, numa noite em que Corona, Soares e André Silva pouco conseguiram fazer em sentido prático. Falta uma coisa no seu futebol, que é a capacidade de rematar mais quando arranja espaço à entrada da grande área, mas nem isso desta vez o impediu de ser o mais rematador em campo. E uma vez mais vimos muito trabalho de Brahimi sem bola, com 16 duelos ganhos e 12 recuperações. Tem sido um símbolo de inconformismo neste plantel e um oásis numa equipa à qual falta rasgo individual. Com Brahimi, haverá sempre uma solução. Se dá para chegar ou não ao título, veremos. Mas com ele dá para acreditar.
Uma palavra para um bom jogo de André André, o melhor do meio-campo.
Deixar o Benfica crescer (-) - A boa exibição do FC Porto frente ao Benfica, no Dragão, deveu-se sobretudo à forma como a equipa apertava logo o rival no início de construção. Não dava espaço, obrigava o Benfica a falhar na saída de bola, e depois sim apostava nas transições rápidas que NES tanto aprecia. Na primeira volta funcionou enquanto a equipa declarou essa estratégia. Na Luz, nada disso. O FC Porto entrou a medo, nervoso, com as linhas recuadas. Se é certo que ninguém pode entrar na Luz a oferecer espaço nas costas, o Benfica de Rui Vitória treme sobretudo quando se depara com um rival que assume o jogo e que é forte na pressão.
O FC Porto esteve perdido em campo durante os primeiros 20 minutos, altura em que Óliver fez o primeiro remate e a equipa começou a crescer e a ganhar confiança. Não foi o dia mais feliz para o muitos jogadores, desde Felipe a Corona, passando por Danilo, mas uma equipa que quer ser campeã não pode permitir que o Benfica assuma com tanta facilidade o jogo. Sobretudo quando ainda não o tinha conseguido fazer em clássicos com Rui Vitória.
Sozinh9s (-) - Percebe-se a intenção de NES em reforçar o meio-campo. E entre Soares e André Silva, a opção nunca seria totalmente consensual. Mas tanto um como outro passaram por enormes dificuldades frente ao Benfica: quase sempre longe da grande área, descaídos para o flanco sem sucesso (Brahimi, apesar da intenção de fazê-lo passar para a zona interior, acabava sempre por criar o desequilíbrio a partir do lado esquerdo), expostos a um trabalho que não devia ser o seu. O caso de Soares vem sendo discutido há algumas semanas: é sofrível a forma como é invariavelmente desarmado no 1x1. E não é culpa do jogador, pois não tem caraterísticas para aquela função. Soares faz a diferença na grande área, ou a atacar a profundidade (excelente a forma como sentou Nélson Semedo, porventura o único momento em que conseguiu tirar um defesa da jogada), não a servir de bengala do lado esquerdo para um ataque que, assim, fica sem referência no eixo e na grande área. André Silva também não entrou bem na partida, num clássico muito difícil para os pontas-de-lança do FC Porto, e que a dinâmica ofensiva da equipa não facilitou. Ou havia Brahimi, ou tinha que haver Yacine. Não houve outra solução para o FC Porto.
Meio-campo de rastos (-) - André André e Óliver lutaram, lutaram, lutaram tanto quanto puderam. Mas foi notório, sobretudo à entrada para os últimos 20 minutos, que o meio-campo do FC Porto estava completamente rebentado. Nuno tomou a opção de refrescar a linha da frente, sem mexer no trio do meio-campo, mas o setor já mal dava resposta em campo. E se o FC Porto estava, declaradamente, à procura de segurar o resultado, ter bola era essencial. A opção passou por mudar as peças de um ataque que mal existia, ao invés de refrescar um meio-campo que não estava a conseguir segurar o Benfica. A exibição de Corona ia pedindo a saída, mas não ter reagido à perda do meio-campo podia ter custado muito caro - Pizzi jogou solto e fez 7 passes para zona de remate, mais do que toda a equipa do FC Porto junta. Deixar o playmaker do adversário com tanto espaço não é bom sinal em qualquer parte do mundo.






















