segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Quando um portista aparece

«Bola no Porto... Passe mortal... Marco Ferreira aparece! Douglas falha! Ninguém para empurrar! Vamos Derlei! Bate! Bate! Bate!...»

O resto é história. Uma história que todos os portistas sabem de cor e que abriu um dos mais belos capítulos de um livro de honra de vitórias sem igual. Sevilha, Gelsenkirchen, Yokohama. O bis na raça de Derlei, a classe de Deco, o olhar de Pedro Emanuel... Mas há um detalhe que antecedeu tudo isto, imortalizado no relato acima citado.


Marco Ferreira «apareceu». Não rematou, não passou, não driblou; não recuperou a bola, não ganhou um ressalto, não se sabe muito bem se chega a tocar nela ou o que fez no lance. Mas o detalhe é este: apareceu. Marco Ferreira apareceu e este lance mudou a história do FC Porto. Bastou aparecer. 

Segunda-feira, 13 de novembro de 2023, os portistas apareceram. Contra muitas expetativas, desejos e planos, apareceram. A ordem de trabalhos visava a aprovação dos novos Estatutos do Clube e a tradicional "meia hora" para discutir assuntos de interesse. Mas cedo se percebeu que as motivações para tal afluência ultrapassavam o desejo de participar num simples sufrágio. 

A cronologia dos eventos já é por demais conhecida entre adeptos, associados e imprensa - os únicos que ainda não a conhecem aparentam ser os próprios responsáveis do FC Porto, que perante os registos das câmaras, os testemunhos de presentes e, pasme-se, os seus próprios olhos continuam sem conseguir identificar responsáveis com vista à abertura de processos disciplinares. Tudo redonda no mesmo: silêncio, indiferença, cobardia, medo.

Medo de quê? Medo de uma derrota anunciada que um grupo de «gratos» fez questão de se esforçar por tentar acelerar. Um atropelo aos mais básicos princípios da democracia e aos direitos e deveres de qualquer sócio do FC Porto. Sim, do FC Porto. O que une, ou deveria unir, todos os associados presentes é o amor ao FC Porto. Ao clube, não a um homem, seja ele qual for. E sobretudo não a um homem que, perante o poder de parar as tristes cenas que despontavam nas bancadas do Dragão Arena, respondeu com desdém e indiferença. Os seus adeptos atacados na sua casa: silêncio de Pinto da Costa e da sua cúpula administrativa.

Foi esta a grande derrota da noite. Pinto da Costa, para muitos, já não é um presidente à altura do FC Porto, mas poucos imaginariam que não seria um presidente à altura dos portistas. Por muito que os adeptos se possam dividir face ao seu futuro no clube, todos concordariam que quando Pinto da Costa pede a palavra, o portista deve o respeito de ouvir. Continua a ser o presidente democraticamente eleito e a figura máxima da história do clube; e o que fez com este estatuto e reconhecimento enquanto portistas eram ameaçados, intimidados e coagidos? Nada. Fechados na mesma redoma com que gerem o dia a dia do clube. 

Tudo isto, e não enganemos ninguém, por causa de um nome: André Villas-Boas. O futuro e único candidato à presidência do FC Porto que realmente inspira receio aos que se querem agarrar ao poder (ou, no caso dos que gritavam «Ingratos!», agarrados aos frutos do poder). Com o devido respeito por Nuno Lobo e José Fernando Rio, não eram nomes temidos por ninguém no FC Porto, mas ainda assim «tiraram» quase um terço dos votos a Pinto da Costa no último ato eleitoral. Se dois nomes pouco cativantes e mediáticos conseguiram isto, o nome Villas-Boas fez soar o alerta no Dragão.

Da candidatura de Villas-Boas nada se sabe publicamente. Nada. Nem quem o acompanha, qual o projeto, nada. Poderíamos dizer o mesmo sobre Pinto da Costa, que é eleito não pelo que faz hoje nem pelo que fará amanhã, mas pelo currículo de décadas passadas. Mas no FC Porto sabe-se (teme-se) o essencial: que Villas-Boas pode efetivamente fazer estragos contra Pinto da Costa.

Uma heresia, dizem aqueles determinados a manter Pinto da Costa na presidência do FC Porto nem que cheguem a uma sequela de Weekend at Bernie's. «Pinto da Costa tem que ser o presidente até ao último dia da sua vida, a não ser que queira sair antes!» Pois. A questão é que Pinto da Costa não quererá sair. Primeiro, porque ama o FC Porto e dedicou a sua vida a esse cargo. Segundo, porque vive fechado numa redoma que o venera e bajula a cada piscar de olhos. Não conhece contestação, discórdia ou insatisfação no seu dia a dia; continua a ser «o melhor presidente do Mundo». Mas não, a presidência de Pinto da Costa não pode ser um desejo do próprio, nem de uma dúzia seletiva, mas sim de uma maioria de portistas.

Pinto da Costa foi uma grande ameaça ao benfiquismo e ao centralismo; agora querem fazer dele uma ameaça ao portismo? Ai, a gratidão! Não, para ser eleito presidente do FC Porto não é preciso um exercício de gratidão. Quem o diz é o próprio Pinto da Costa, que sempre defendeu que a sua liderança assenta em quatro pilares: «Rigor, competência, ambição e paixão». Estes quatro parâmetros estão a ser cumpridos sob a sua presidência? Cada portista terá a sua opinião e cada sócio o seu voto; desde que o possam exercer livremente. 

Mas voltamos ao ponto de partida. A coação, a ameaça e a intimidação estão literalmente instaladas nas bancadas do Dragão. Terá a AG sido uma vez sem exemplo? Não se o FC Porto e os seus dirigentes não agirem em conformidade. Mas para quem tem esperança que tal aconteça, é aconselhável que adotem a mesma postura da administração da SAD enquanto portistas eram agredidos e arrastados para fora do pavilhão: de cadeirinha, para não se cansarem.

«Mas não têm os portistas o direito a continuarem a apoiar Pinto da Costa se quiserem?» Claro que sim. Mas então esforcem-se um pouco por defenderem o vosso candidato preferido. Porque aquilo que os já declarados anti-AVB estão a fazer é a passar um gritante atestado de incompetência a Pinto da Costa. Então querem que Pinto da Costa seja presidente do maior clube português se não é sequer capaz de derrotar um (ex-?)treinador sem experiência no dirigismo? Não confiam na eloquência e no dom da palavra de Pinto da Costa para esgrimir argumentos com AVB num eventual debate? Não tem Pinto da Costa mais dias de FC Porto do que Villas-Boas de vida? Então, qual é o receio da candidatura de AVB? Sinceramente, Pinto da Costa, por tudo o que já fez, merecia mais respeito e consideração por parte dos seus fiéis escudeiros. O presidente do FC Porto tem que ser a pessoa mais poderosa do clube, não alguém que querem esconder de qualquer batalha. 

«O problema são as pessoas que estão por trás da candidatura de AVB!» Pois. Disso, publicamente, ainda nada se sabe, ou se algo há para se saber. Mas uma coisa é certa: não se sabe quem está por trás da candidatura de AVB, mas sabe-se que quem está à frente da SAD deixa muito a desejar. E neste caso nem se fala da performance desportiva ou da saúde financeira (perdão, doença, porque de saúde há pouco), mas sim das mais básicas funções para qualquer presidente eleito democraticamente: assegurar que a mesma democracia que o elegeu não é beliscada sob a vigência. 

A Pinto da Costa e a Villas-Boas, fica o desafio: puxem o melhor Marco Ferreira que há em cada um de vós. Um se quer manter o lugar, outro se quer avançar. Apareçam. Que Villas-Boas apareça, como promete que o vai fazer; e que Pinto da Costa apareça, mesmo que os seus apoiantes não queiram que precise de o fazer. E se antes de Abril pudermos ter um debate televisivo no Porto Canal, perfeito. É que o material de filmagem e edição que foi poupado na última segunda-feira poderia assim finalmente ter uso. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Relatório e Contas 2018-19 (três anos depois...)

Faz amanhã, 12 de outubro, três anos. Fernando Gomes, responsável financeiro da SAD do FC Porto, assumiu, mediante a apresentação de custos com pessoal de 75,8 milhões de euros, que era altura de «conter e tomar um novo rumo». A folha salarial atingiu custos incomportáveis para qualquer clube português e, sobretudo, para um clube que viria a ser visado pelo incumprimento do fair-play financeiro da UEFA. Por isso, foi altura de traçar um plano:

Jornal O Jogo, 12-10-2016
Fernando Gomes traçou e assumiu o plano e os objetivos. A folha salarial do FC Porto tinha ultrapassado os 75 milhões de euros. Era, por isso, intenção da SAD fazer com que ela fosse reduzida em 20 milhões de euros, passando o FC Porto a ter assim custos com pessoal na ordem dos 55 milhões de euros. «Três anos», foi o prazo traçado por Fernando Gomes e pela SAD. Cumpridos esses três anos, eis os resultados.

Relatório e Contas da FC Porto, SAD, 2018-19
A conclusão é óbvia. Não só a SAD não conseguiu reduzir a folha salarial em 20 milhões de euros como quase a conseguia aumentar nesse valor. Ao invés dos estimados 55 milhões de euros, o FC Porto fechou a época 2018-19 com custos com pessoal de 91,64 milhões de euros, os mais altos da história da SAD.

Fernando Gomes, aqui citado pelo JN, tem uma justificação: «Deveu-se, sobretudo, a três situações. As rescisões de contrato com os jogadores Bueno e o Bazoer, ao ajustamento dos contratos pela conquista do campeonato da época passada e os prémios extraordinários face à passagem da fase de grupos da Liga dos Campeões».

Portanto, rescindir o contrato de dois jogadores, um deles que até estava apenas emprestado, passar a fase de grupos da Liga dos Campeões (e a chegada aos quartos-de-final, certamente também considerada) e a revisão dos contratos pela conquista do Campeonato justificam este abismal aumento? Nada que surpreenda, tenho em conta que já tinha sido esta a linha de orientação de Fernando Gomes na apresentação das contas da época passada: ««Tínhamos previsto reduzir os Custos com Pessoal e eles subiram por uma questão muito simples: como fomos campeões nacionais, tivemos de pagar prémios ao plantel e à equipa técnica. Isso representou um encargo adicional de 6 milhões de euros, mas ainda bem que o tivemos». 

Apresentar as contas da SAD portista aparenta ser uma das tarefas mais fáceis no universo financeiro. Não se cumprem metas ou objetivos? Ou se culpa o insucesso desportivo (a não-qualificação para a Champions terá o devido impacto na apresentação do orçamento 2019-20), ou culpa-se o sucesso desportivo («pagámos mais do que o previsto porque tivemos que pagar prémios»). Não esquecer que o FC Porto, à partida, prepara cada época a pensar em ser campeão nacional e em passar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Chegar ao final da temporada e alegar a surpresa de ter que ter pago prémios por rendimento desportivo, quando este já estaria orçamentado, é um tanto ambíguo. 


Aguardamos a publicação do Relatório e Contas completo da época 2018-19 para a devida e mais profunda análise. Ficam, para já, os principais tópicos dos Proveitos e Despesas Operacionais.

No orçamento de 2018-19, a SAD estimava custos de 135 milhões de euros (sem incluir despesas com transações de passes). Os custos atingiram os 150 milhões de euros, essencialmente pelo aumento nas despesas com pessoal e por mais uma subida nos FSE. 

Em relação aos Proveitos Operacionais, estamos perante os maiores da história da SAD, muito graças ao rendimento de Sérgio Conceição e dos jogadores na Liga dos Campeões 2018-19. O FC Porto estimava proveitos de 156 milhões de euros, mas os resultados atingiram os 176 milhões. Só as receitas na UEFA significaram um encaixe de 80 milhões de euros, mas o R&C apresenta uma alínea que não estava prevista no Orçamento: «Outras Prestações de Serviços», que acrescentaram 8,5 milhões de euros às contas. 

Conforme esperado depois da boa campanha da Champions e das excelentes vendas de Felipe e Éder Militão, o FC Porto terminou a época financeira 2018-19 com lucro, que ascendeu a 9,47 milhões de euros (há um ano, a SAD estimava 1,5 milhões de lucro).

O passivo e o ativo sofreram ambos reduções.  O ativo total líquido caiu em 52,75 milhões de euros, um pouco menos do que o passivo (-56 milhões), «que se situa agora nos 408,1 milhões, essencialmente devido à diminuição do valor global dos empréstimos», especifica a SAD. Este saldo significa capitais próprios negativos de 34,8 milhões de euros, o que mantém a SAD numa situação de falência técnica. A análise ao R&C será aprofundada quando o resultado completo for disponibilizado na CMVM.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Ode triunfal

Do inferno ao céu. Onze dias separam a derrota frente ao Krasnodar e o consequente afastamento da Liga dos Campeões da vitória do FC Porto, por 2x0, em pleno Estádio da Luz. Meia dúzia de sessões de treino. O mesmo plantel, o mesmo treinador, apenas um pouco mais de tempo de preparação. 

O mesmo grupo que ficou negativamente marcado na história do FC Porto por ter «quebrado» o recorde de presenças na fase de grupos da Liga dos Campeões presenteou os adeptos com aquela que foi, provavelmente, a mais brilhante vitória da história dos dragões no Estádio da Luz em jogos do Campeonato. Um sinal de que treinador e jogadores sentiram a responsabilidade, sentiram a necessidade de resposta, sentiram o peso do clube. Nada do que aconteceu na Luz vai mudar o que aconteceu frente ao Krasnodar, mas abre perspetivas renovadas para uma época na qual há quatro títulos para atacar.


Sim, esta foi muito provavelmente a melhor exibição da história do FC Porto numa visita ao Benfica em jogos da Liga. O resultado, por si só, já o defende: apenas por uma vez o FC Porto tinha conseguido, em jogos do Campeonato, ganhar por mais de um golo na Luz - na longínqua temporada de 1950/51. Mas como todos sabemos, os resultados não descrevem tudo. No caso do FC Porto, foram dois golos, mas podiam ter sido mais. No caso do Benfica, sim, o resultado foi demonstrativo: zero.

Foi isso que o Benfica foi durante 90 minutos frente ao FC Porto: zero. Porque a forma como Sérgio Conceição preparou o jogo e a execução tática dos jogadores em campo não permitiram mais do que isso. O FC Porto foi constantemente superior ao longo de 90 minutos. O Benfica, uma equipa de golo fácil no contexto de Campeonato português, muito forte nas diagonais, nos corredores e na profundidade foi reduzida a zero ocasiões de golo na partida. Marchesín só teve que esboçar uma defesa. Pizzi não teve para onde passar, Rafa não teve por onde correr, os corredores do Benfica foram barrados e a dupla de avançados foi reduzida a um papel fantasmagórico nas proximidades da grande área.

A estratégia de Sérgio Conceição foi perfeita. Taticamente, foi provavelmente o melhor jogo da sua carreira de treinador. Secou por completo o adversário enquanto preparou o FC Porto para ter as suas oportunidades - os momentos de procura de profundidade não existiram como modelo de «construção» da equipa, mas sim como arma de ataque ao último terço quando o espaço se abriu. O FC Porto teve um sentido posicional perfeito, roubou as linhas de passe e o espaço interior ao Benfica e teve uma pressão perfeita sobre o portador da bola. O Benfica não sabia o que fazer, não teve resposta e o FC Porto dominou por completo. Nunca é de mais recordar que o Benfica mantém uma grande base de jogadores da última época, enquanto o FC Porto apresentou-se na Luz com mais de meia equipa nova. No entanto, entendimento e sintonia só mesmo do lado azul e branco. 

Marchesín pouco teve para fazer, jogou mais com os pés do que com as mãos, mas transmitiu sempre serenidade à defesa e ganha cada vez mais peso como voz de comando. Corona, face a uma concorrência que inclui o inapto Saravia, o insuficiente Manafá e o inexperiente Tomás Esteves, provavelmente fixou-se como primeira, segunda e terceira opção para lateral-direito, no teste mais difícil que poderia ter na I Liga. Pepe e Marcano meteram Seferovic e De Tomás no bolso e formaram uma muralha à frente de Marchesín. Telles, pelo equilíbrio tático da equipa, teve liberdade para atacar, desequilibrou e cumpriu.

Danilo Pereira e Uribe foram uma das chaves da vitória e mostram ser insubstituíveis na equipa. O colombiano quase dispensou o período de adaptação e encaixou na perfeição no 11, com um papel de equilíbrio fundamental pela meia direita. Recupera, preenche, distribui. Já o capitão de equipa voltou ao seu nível e teve um sentido posicional perfeito no miolo, mas nunca se inibindo de dar amplitude ao jogo da equipa.

Romário Baró tem sido uma das apostas surpresa de Conceição e, se na Rússia pareceu «perdido» vários momentos na equipa, na Luz foi importante para o equilíbrio da equipa na direita e surgiu bem mais maduro em campo. Meia dúzia de treinos depois, mostrou um crescimento que talvez só se alcançaria com meses de trabalho. Não estamos a falar de um jovem talento que aparece com liberdade num clássico, mas sim num miúdo que carregava uma importante missão tática e que a conseguiu cumprir. 

Luis Diaz, por sua vez, está a revelar-se uma surpresa. Não por não trazer potencial da Colômbia, mas pela prontidão e rapidez com que está a ganhar espaço na equipa. É muito raro um jogador sair diretamente da Liga colombiana para um grande clube europeu (por norma dão primeiro o salto para México ou Argentina), mas Diaz está a ter um impacto tão precoce quanto brutal. Ganha metros com bola, é rápido e incisivo no 1x1 e sabe escolher que terrenos pisar. 

Zé Luís, o terceiro jogador a fazer 5 golos nos primeiros 5 jogos pelo FC Porto nos últimos 40 anos, já conquistou os adeptos. A qualidade e as caraterísticas do jogador faziam todo o sentido num clube como o FC Porto. Possante, capacidade técnica, jogo aéreo, capacidade de finalização e de trabalho de costas para a baliza, ataque à profundidade ou no espaço curto... O cabo-verdiano tinha, tem, tudo. No contexto e companhia certas é jogador de 30 golos por época. Não esquecer que era um jogador muito bem referenciado pelo departamento de scouting do FC Porto quando ainda estava no Gil Vicente. Esteve, como disse Conceição, a «marinar» na Rússia, mas no FC Porto encontra finalmente o espaço certo para revelar toda a sua qualidade. Não vai marcar em todos os jogos, mas com ele em campo o FC Porto estará sempre mais perto do golo.

Marega foi... Marega. Capaz de nos levar ao desespero com mais um falhanço em clássicos e, minutos depois, matar o jogo. Lutou e correu a toda a largura do campo, criou duas ocasiões de golo e entendeu o seu papel na reta final da partida: era o momento de ataque à profundidade, de cair nas costas da defesa do Benfica, e aí destaca-se a leitura perfeita de Otávio e a arrancada para o 2x0. 

Foram 90 minutos em que a equipa superou qualquer momento menos bom das individualidades. O discurso de Zé Luís no final da partida disse tudo sobre o entrosamento e a união que os jogadores levaram para este jogo. Cada jogador entendeu o colega e correu por ele. Sérgio Conceição aprendeu com os erros do último clássico e não teve medo de ser ambicioso. Não teve medo de ser melhor e de querer mais do que o Benfica. Vitória em toda a linha.

Entre todos os elogios a 90 minutos que merecem cada um deles, sobra isto: foram apenas 3 pontos. Ontem não estava tudo perdido e hoje não está nada ganho. O FC Porto continua fora do primeiro lugar e, ao mínimo deslize, pode passar novamente para trás do Benfica. O próximo adversário é um exemplo perfeito de que não podemos relaxar, nem com uma vantagem de 2x0 no Dragão. Equipa e adeptos recuperaram a confiança, mas como sabemos, esta tem sempre um prazo de validade que se esgota ou renova jogo após jogo. O Campeonato vai ser longo, mas do Estádio da Luz trazemos algo que bem nos pode acompanhar toda a época: quando o FC Porto eleva os seus níveis de competência ao limite, não há Benfica que consiga competir com isso.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Carta aberta a Sérgio Conceição

Caro Sérgio,

Permite-me que recue até junho de 2017, quando te dei as boas vindas ao FC Porto e te desejei a melhor sorte como treinador principal. 

«Nenhum adepto sabe ainda se Sérgio Conceição vai jogar em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Se vai jogar em posse, em transição rápida, se vai ser híbrido. Não é, até à data, um treinador que tenha diferenciado os clubes por onde passou com um estilo de jogo particularmente brilhante ou positivo. O Paços de Paulo Fonseca jogou melhor futebol que o Braga ou o Guimarães (apenas 8 vitórias em 2015-16) de Conceição, por exemplo. O que não é garantia de nada, mas que sugere uma coisa: o FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo. 

Está, isso sim, a contratar sede de vencer e um homem que vai ao encontro das dificuldades, trocando o conforto pelo risco. Sérgio Conceição não é, provavelmente, a melhor escolha para treinador. Mas como homem, já começou a vencer pelo FC Porto: está disposto a queimar-se a ele próprio para ajudar a tentar a reerguer o clube que aprendeu a respeitar e a amar.»

Adivinha o que aconteceu, Sérgio. O esperado. Enquanto ganhamos, somos brilhantes, e ai de quem questione a exibição e todos os aspetos técnico-táticos quando o resultado é favorável. Agora, quando perdemos, tudo se resume ao treinador. Injusto, claro, mas já mais do que habitual.

És o 14.º treinador do FC Porto (contando com interinos e a passagem fugaz de Delneri) do pós-Gelsenkirchen. Sabes o que todos eles, exceto André Villas-Boas (que tão rápido teve enorme sucesso como saiu), tiveram em comum? Os adeptos, na sua aparente maioria, torceram a determinada altura pela saída do treinador. Ninguém escapou. Nem Co Adriaanse, nem Jesualdo, nem Vítor Pereira, que mais tarde se sagraram campeões. No FC Porto, qualquer treinador está a três ou quatro maus resultados de, para a generalidade, não servir e tomar mil uma opções que ninguém consegue compreender. 

Serão estas críticas justas, Sérgio? Vamos por partes.

Época 2017-18. O que fizeste? Adaptaste-te ao que tinhas. Sem reforços, mas como o tempo o revelou, esta temporada de contenção viria a revelar-se a mais cara da história da SAD. O futebol nem sempre foi o mais virtuoso, mas chegou para cumprir e superar as expetativas, consagradas com o título de campeão nacional e com a «nega» do penta ao Benfica. Tudo isto aliado a uma sempre importante qualificação para os oitavos-de-final da Champions. Título + passagem aos 1/8 da Champions? Perfeito, mesmo nunca gostando da Maregodependência e reconhecendo que bastava Herrera não ter rematado aos 89 minutos na Luz para mudar a forma como a massa olhava para a época.

Chega 2018-19 e, uma vez mais, levas o FC Porto a todas as decisões. É algo que só pode ser valorizado: com Sérgio Conceição, o FC Porto luta (quase) sempre, até ao fim, por todas as competições. A campanha na Champions teve resultados brilhantes, até cair nos quartos-de-final perante um Liverpool de calibre de campeão europeu. Nas Taças, tal como nas meias-finais de há um ano, a cruel ineficácia nas grandes penalidades, pela qual nunca um treinador pode ser sumariamente responsabilizado. 

E no Campeonato? Podias, devias, ser neste momento o treinador bicampeão nacional. É de uma insuficiência e injustiça tremenda lembrar esta época como sendo aquela em que o FC Porto desperdiçou uma vantagem de 7 pontos. É evidente que os pontos deixados no Minho e em Vila do Conde, já para não falar na receção ao Benfica, coincidiram com muita incompetência do FC Porto dentro de campo. Mas nem tudo se pode resumir a isso. Não podemos nunca ignorar que, da mesma forma que o FC Porto perdeu pontos quando não foi suficientemente bom, o Benfica também deveria tê-los perdido. O que aconteceu na Feira, em Braga ou em Vila do Conde manchou a história e a justiça do desfecho do Campeonato. 

85 pontos e 74 golos na I Liga 2018-19. Como mero termo de comparação, embora cada época tenha a sua história, o FC Porto campeão europeu de Mourinho fez 82 pontos e 63 golos. E aqui não há Decos ou Derleis. Para a história fica que perdemos. Mas não nos podemos esquecer de como a história foi sendo escrita. Sobretudo nós, as vítimas do som do apito, da doutrina divina e do som do Enter ao enviar e-mails. 

Mas de uma coisa não duvides, Sérgio. Poderias, neste momento, ser o treinador bicampeão nacional e eu dir-te-ia a mesma coisa: o teu modelo de jogo está completamente esgotado. O futebol como o imaginas, neste momento, tornou-se um modelo previsível, inconsequente e facilmente anulável por qualquer treinador do nosso Campeonato. Reafirmo-o, com sinceridade e preocupação.

Na primeira época, tivemos que te dar o mérito. Encontraste uma fórmula que funcionou. Longe dos tempos de um 4x3x3 com extremos virtuosos, um goleador no eixo, um meio-campo que combinava combatividade com classe. Mudaste tudo, apostaste numa dimensão mais física, pegaste na lista de dispensas e transformaste o FC Porto. Nesse momento, tiveste todo o mérito do Mundo, pois moldaste o FC Porto à tua imagem perante as circunstâncias.

Mas os tempos passaram e a ideia que foi ficando foi outra. Se calhar, esse não apenas o modelo que achavas que melhor servia o FC Porto naquela altura. Esse é o único modelo que concebes para o FC Porto. E, neste caso, não poderemos nunca estar de acordo, Sérgio.

Reforço o mérito que tiveste no teu trabalho nas duas primeiras épocas. Valorizarei um treinador que vai sempre às decisões e que luta sempre por títulos. Os adeptos mais exigentes dirão «não, no FC Porto só valorizamos quem ganha, não é quem vai às finais para perder!» E isso é ignorar as difíceis circunstâncias que encontraste no FC Porto desde a primeira hora. Poderíamos, neste momento, ter um Benfica hexa em Portugal. Não o temos pelo teu trabalho, Sérgio, pela forma como reinventaste a equipa. 

Defendi, por isso, que 2019-20 tinha que ser a tua época. Era a época em que finalmente irias construir o plantel, ter mais palavra na escolha de jogadores e de reforços, poderias trabalhar outra ideia de jogo. Mas não é isso que vemos. E é isso que temos que mudar.

Chega de tocar o bombo, Sérgio. O FC Porto, neste momento, resume-se a isto: eterna procura pela profundidade e jogo direto; bola que vai do defesa às costas dos laterais adversários; extrema dependência das bolas paradas; resistência a circular a bola, procurar espaço entre-linhas, tabelar em zonas interiores. A transição defesa-ataque é uma pobreza neste FC Porto. Digo-te agora, que és o treinador que caiu com o FC Porto para a Liga Europa, e dir-te-ia na época passada se fosses, como merecerias, o treinador bicampeão que esteve nos 8 melhores da Champions. 


Qualquer equipa adversária percebe que se fechar os corredores e não deixar que os avançados caiam nas suas costas anula o FC Porto. Prova disso é que um Gil Vicente que há uns meses estava no Campeonato de Portugal e que tem um camião de jogadores novos, cuja grande maioria nunca tinha jogado a este nível, conseguiu fazê-lo. Poderia ter sido diferente se tivéssemos aproveitado as oportunidades quando estava 0x0. Mas a crítica continuaria a ser a mesma: este FC Porto, com esta identidade e estilo de jogo, é curto. É previsível. É insuficiente. É, lamento, uma miséria a jogar à bola.

Fala-se demasiado em trabalho. Chega. Temos que falar em qualidade. Uma equipa dominadora, capaz nos quatro momentos do jogo. Organizada, equilibrada, com boa ligação entre os setores, onde um jogador saiba o que o colega vai fazer e como se deve posicionar. Saber que só podemos marcar se tivermos a bola e, se a tivermos, não vamos sofrer. Perceber que o espaço nas costas da defesa deve ser explorado perante a circunstância e oportunidade do jogo e não como jogada-padrão. 

E depois de tudo isto, reconheço. Será que tu próprio tiveste tempo para trabalhar novas ideias? Ou será que, perante as circunstâncias, tentaste trazer a base do ano passado para tentar ganhar no curto prazo?

Vejamos. O FC Porto perde 5 titulares no verão. Casillas, Felipe, Militão, Herrera e Brahimi. Perde a experiência de Maxi Pereira, e perde o 12º jogador mais utilizado e aquele que, insisto, foi o único nos 2 primeiros anos que manifestamente aproveitaste mal, Óliver. O teu melhor FC Porto teria que ter sempre Óliver no 11. O melhor futebol foi sempre aquele que teve Óliver em campo. Nunca compreenderei a forma como este jogador foi desaproveitado por ti. 

Adiante, há algo a ter em conta. A situação de Casillas foi um infortúnio, mas desde o ano passado que a SAD sabia que Herrera e Brahimi iam sair, Militão foi confirmado no Real em março e Felipe no Atlético em maio. As vendas que o FC Porto necessitava de fazer já tinham sido feitas em maio. Não temos aqui a desculpa da demora na chegada de reforços pela necessidade de antes sair alguém. Não, porque já tinham saído. 

Nenhum treinador tem o plantel composto no arranque da pré-época, mas a importância e a urgência da pré-eliminatória da Champions obrigava a SAD a uma rapidez que não pudemos testemunhar no mercado. Chegaram 7 caras novas, jogadores caríssimos e estamos perante o maior investimento da história do FC Porto no mercado de verão. São mais de 60 milhões de euros. E já vimos que os dedos estão apontados a ti. «Escolhemos o plantel dentro daquilo que ele queria», diz o presidente.

Mangala? Bruma? Pedro? Roger Guedes? Pavon? Rongier? Reine-Adélaide? Tudo nomes que fizeram correr tinta antes da chegada do arranque da pré-época. Temos que compreender que nenhum clube contrata todos os jogadores que quer. É normal passar do plano A para o plano B. Mas não podemos resumir a aposta no mercado a preferências de Sérgio Conceição. Não, se é o treinador da estrutura, a estrutura tem que partilhar responsabilidades com o treinador. Este não pode ser o plantel «dentro daquilo que ele queria». Tem que ser o plantel que o FC Porto quer. 

Uma equipa que perde tantos titulares e vai buscar jogadores a outro continente necessita de tempo. Tempo esse que, infelizmente, o FC Porto não teve e que custou caro. A derrota contra o Krasnodar mancha a época e uma era - o FC Porto deixa de ser recordista de presenças na fase de grupos. Mas a má preparação não esteve apenas na equipa. Héctor Herrera é um dos 10 jogadores com mais jogos da história do FC Porto na Champions. Goste-se ou não, a experiência na Champions tem um peso enorme. Onde estava o seu substituto na preparação para esta eliminatória? Amadorismo puro na gestão desde caso. Pinto da Costa admitiu a impossibilidade de renovar com Herrera em outubro. O seu substituto, Uribe, já depois de falhadas outras alternativas, não chega a tempo de estar devidamente pronto para a Champions. O próprio Marchesín mal tem tempo de conhecer os nomes dos companheiros antes de ser lançado às feras. Inqualificável.

E agora, Sérgio? A Champions já se foi e começamos o Campeonato a olhar para cima, já sob um clima de contestação e dúvida fortes. Qualquer treinador precisa de tempo para remodelar a equipa. Jamais a responsabilidade poderá ser resumida ao treinador. Mas tu próprio também terás que mudar, Sérgio.

Peço-te que faças o que fizeste na primeira época cá: adapta-te. Neste caso, é necessária uma mudança clara no futebol da equipa. Essa mesma mudança já deveria ter sido trabalhada desde o início de julho, mas não aparenta ser o caso. Ainda vamos a tempo. Estamos em agosto. Não há épocas ganhas nem perdidas em agosto. Mas o FC Porto, que à data de hoje tem uma equipa menos forte do que a da época passada, tem que evoluir. Só pode evoluir. Vamos defrontar um Benfica forte e dominante, dentro e, sobretudo, fora dos relvados. E não vai ser a tocar bombo que iremos longe. 


Tens que reconquistar o grupo e os adeptos. Os próprios jogadores «cansam-se» da insistência nos mesmos métodos. Tem que haver novos desafios, novos estímulos. Os jogadores têm que sentir que, treinando contigo, vão evoluir enquanto futebolistas, e não apenas serem formatados para este tipo de jogo. Têm que sentir que vão conquistar coisas. Têm que sentir que são temidos pelos adversários quando entram em campo. Têm que saber o que vão fazer. 

Sérgio, neste momento, tens no Olival o grupo responsável por ter «destruído» o recorde de presenças do FC Porto na fase de grupos da Champions. Pensem em todos os treinadores, jogadores e equipas que representaram o FC Porto desde a criação da Liga dos Campeões. Fizeram deste clube recordista e um nome ao qual todos se habituaram a ver na Champions. Em meros e míseros 35 minutos contra o Krasnodar, uma equipa que nunca sequer meteu os pés na Champions, destruíram tudo isso. 

Tens que dar a resposta. Tens que mudar a equipa, o estilo de jogo, tens que cativar os jogadores. Já frente ao Vitória de Setúbal, tem que haver uma resposta clara e contundente. É difícil, como sabias que era desde o primeiro dia. E esta época não será mais fácil do que as anteriores. Mas pegaste no FC Porto num dos momentos mais delicados da sua história, quebraste a hegemonia do Benfica e mantiveste o clube na disputa de todas as competições. Mas é tempo de mudar. Disseste que vinhas para ensinar, não para aprender. Mas tu próprio tens que aprender para evoluir. É impossível não teres aprendido alguma coisa nos últimos dois anos e, sobretudo, nos últimos dois jogos. É impossível não veres que a mudança é imperativa.

É verdade, nós não vemos os treinos. Mas aquilo que temos visto nos jogos também não pode ser o que tu vês nos treinos, pois é manifestamente fraco. O que se testemunhou em Barcelos e na Champions não pode ser o resultado de nenhum plano ou de trabalho, tamanho que é o caos e a desorganização.

Erros todos cometem. E todos têm redenção, exceto um: continuar a insistir no mesmo erro, à espera de resultados diferentes. Muda a equipa. Ouve os jogadores. Aceita a crítica. Podes cair enquanto treinador do FC Porto com as ideias de sempre ou reerguer novamente o clube aceitando a necessidade de mudar. Ninguém pode duvidar ou pôr em causa a tua dedicação e vontade de vencer no FC Porto. Arriscaste muito para teres sucesso aqui. Para ajudares o FC Porto a ter sucesso. E por ter noção do quão te dedicaste a esta causa é que não desisto de ti.

Reúne as tropas e prepara-te, pois há muito a ganhar esta época. Vocês são, à data de hoje, o grupo que tirou o FC Porto da lista de recordistas da Champions. Isso já não vão mudar. Mas podem mudar a forma como olharão para vocês em maio. Campeonato, Taça de Portugal, Taça da Liga e Liga Europa. Não vamos ganhar sempre, mas temos que lutar e jogar sempre para ganhar. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Porto de Champions

Sexta vitória consecutiva, terceira na Champions e um ponto a separar o FC Porto do objetivo. Ganhar os dois jogos, com sete golos marcados, à equipa do Pote 1 do grupo não só é inédito como significa um passo de gigante para os dragões na competição, com a capacidade de saber encontrar a eficácia nos momentos-chave mesmo entre períodos em que a qualidade não se consegue revelar tanto quanto gostaríamos - ou não estivéssemos nós a falar da Liga dos Campeões.

Certo é que os últimos jogos revelaram um salto qualitativo na equipa, que encontrou novas soluções para chegar ao golo nos palcos europeus e já não depende tanto das bolas paradas para fazer a sua escalada na Champions. Como Sérgio Conceição relembrou (e bem), o FC Porto perdeu Aboubakar, que na época passada fez cinco golos na Champions. O próprio Brahimi, porventura o mais virtuoso jogador do plantel para as noites europeias, resume até à data a sua participação na Champions a uma modesta assistência. Mas tal não impede o FC Porto de ter tantos golos marcados como Lokomotiv, Schalke e Galatasaray até ao momento. 


Num grupo que se podia revelar muito perigoso e traiçoeiro, o FC Porto tem-se distinguido com todo o mérito e está muito perto de atingir todas as metas desportivas e financeiras nesta competição. Mérito total para Sérgio Conceição e o seu grupo de trabalho, naquela que tem sido uma ótima Champions: pontuar fora de casa, ganhar em casa, marcar em todos os jogos. Melhor e mais não se pode pedir. 




Héctor Herrera (+) - Voltou à titularidade, marcou e deu a marcar e já é o 4º médio com mais golos na história do FC Porto na Champions (só atrás de uns tais de Deco, Lucho e Zahovic). O FC Porto evoluiu imenso na sua capacidade de ter bola na Champions, mas o perfil box-to-box de Herrera continua a ser importantíssimo nos grandes jogos, quer na recuperação e pressão sobre os adversários, quer na ocupação de espaços.

Marega (+) - Um momento importantíssimo para o maliano, que se estreou a marcar em jogos grandes à margem de bolas paradas. Não que marcar de grande penalidade (sobretudo tendo em conta o historial recente do FC Porto na marca dos 11 metros) ou na sequência de um canto seja menos importante, mas era uma barreira que separava Marega da eficiência nos grandes jogos. Ainda assim, o melhor momento de Marega na partida nasceu logo ao minuto 2, com uma leitura perfeita na jogada do 1x0 (bem também Maxi), ao criar o espaço entre 3 jogadores do Lokomotiv antes de servir de Herrera. É também um lance que marca o distanciamento do papel dominante de Marega na época passada: desta vez é o maliano a trabalhar para a equipa, em vez de ser a equipa a despejar bolas no avançado. Evolução, de parte a parte.

Fortes nas alturas (+) - Pode parecer um destaque atípico tendo em conta a forma como o Lokomotiv fez o seu golo (já lá vamos), mas Felipe, Militão, Danilo e companhia já merecem este destaque: o FC Porto é a equipa da Champions que mais duelos aéreos vence por jogo, com uma média de 21 por partida, tantos quanto a Roma. Tendo em conta que clubes como o Man. United, o Real Madrid, o PSG ou o Barcelona não chegam aos 13 duelos ganhos por jogo (o que pode não deixar de indiciar mais bolinha pelo chão e menos pelo ar...), é bom ver o FC Porto impor-se nas alturas e ganhar mais bolas do que qualquer adversário.

Soluções (+) - Tanto Corona como Otávio são aquele tipo de jogadores que sabemos que têm muito talento, que podem resolver um jogo numa jogada, mas que também muitas vezes adormecem e alheiam-se do jogo e do seu melhor potencial. Mas o mexicano e o brasileiro voltaram a ter interferência direta no marcador e cada um já teve intervenção direta em sete golos esta época. Mesmo que o melhor 11 não contemple, para já, nenhum deles, ter armas prontas a entrar na equipa que têm golo é algo que faltava na época passada e que não foi adicionado ao plantel numa ida ao mercado. A única esperança era, por isso, que Corona e Otávio acordassem, e os sinais têm sido finalmente animadores.




Modernices (-) - É uma crítica antiga neste espaço, que transcende o FC Porto ou Sérgio Conceição. No futebol moderno, os treinadores desistiram de colocar jogadores a cobrir os postes nos pontapés de canto, em detrimento de poderem povoar mais a grande área, dividindo-se entre marcação à zona e marcação homem a homem. Mas neste caso, o povoamento da grande área não impediu um jogador de 1,78m de cabecear sem grande oposição para o golo. Nem ninguém para evitar o cabeceamento, nem ninguém a cobrir o poste. Para refletir.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

No momento certo

Ganhar 6 pontos em 2 jornadas ao rival direto, logo após uma derrota na Luz, é tão raro quanto satisfatório. Somar 5 vitórias consecutivas, algo que o FC Porto ainda não tinha conseguido em 2018, é igualmente motivador. Mas não é motivo para farfalhar, pois as duas últimas jornadas da Liga se calhar dizem mais sobre a competitividade do Campeonato que temos pela frente do que de eventuais facilidades na luta pelo título. Belenenses e Moreirense tiraram pontos ao Benfica como o fizeram ao FC Porto na época passada, e testemunham o exemplo de um Campeonato em que basta um ou dois jogos para mudar as disposições e motivações dos candidatos ao título, os perfis de favoritismo e a maneira como se olha para a abundância ou falta de soluções no plantel. 


Na Madeira, ao longo de 70 minutos, o FC Porto dividiu-se num misto de paciência e de falta de ideias até desfazer o 0x0. Mas não foi apenas esperar: foi procurar a oportunidade. Foi mexer na equipa com sinais claros de que não era jogo para se empatar, foi ser eficaz nos momentos em que pôde matar o Marítimo, foi saber trancar o jogo e não mais perder o controlo perante uma vantagem de 2x0.




Óliver Torres (+) - Esteve na génese dos dois golos do FC Porto: primeiro, é ele quem senta Bebeto e se liberta da pressão de 3 jogadores do Marítimo antes de lançar Brahimi no corredor; depois, intercetou a bola e lançou a corrida de 50 metros até à conclusão do 2x0. Tudo isto numa exibição em que foi o jogador com mais ações com bola (85), completou 91% dos passes, acertou 11 das 14 bolas longas que tentou e ainda recuperou 14 vezes a posse de bola. Foi a primeira vez que jogou duas jornadas completas consecutivas com Sérgio Conceição e só há motivos para continuar.

Otávio (+) - Entrou, marcou e deu a marcar, tudo isto num espaço de cinco minutos e num jogo no qual o FC Porto não estava a criar ocasiões de golo - e a situação poderia agravar-se pela sempre negativa carga psicológica de desperdiçar uma grande penalidade. Mesmo sem ser sempre regular e consistente, e muitas vezes desligando-se da partida e da equipa, Otávio já leva 6 participações em golos na Liga - o dobro das que conseguiu em toda a época passada. E fica também a nota por a sua entrada para o lugar de Maxi Pereira ter sido uma ordem para puxar a equipa para a frente e para a vitória. Empatar na Madeira numa jornada em que o Benfica perde em casa não seria desdenhado por muitos treinadores, mas Conceição teve ambição e com ela a recompensa mais desejada. 

Trancar o jogo (+) - Tendo em conta que já vimos o FC Porto desperdiçar uma vantagem de 2x0 esta época, foi revigorante ver a equipa gerir e controlar com total tranquilidade o resultado logo após o segundo golo. Calma, circulação no meio-campo adversário e muita segurança na posse - em todo o jogo, só por uma vez o Marítimo conseguiu desarmar um jogador do FC Porto no meio-campo defensivo. É certo que a equipa madeirense tem-se revelado muito pobre em termos ofensivos (tem o pior ataque da Liga), mas controlo foi a palavra dominante na equipa.




Com vista a Braga (-) - Noite quase para esquecer para Soares. Arrancou uma falta para grande penalidade e teve um toque precioso na jogada do 2x0 (bem também Marega no lance), mas ao longo dos 74 minutos em que esteve em campo poucas vezes conseguiu entrar no jogo. Falhou 5 dos apenas 9 passes que tentou, perdeu 8 dos 10 duelos que disputou e teve uma única tentativa de remate, à figura. Não estará com a equipa na receção ao Lokomotiv, mas é essencial que Soares esteja ao melhor nível na receção ao SC Braga, equipa que ainda não sabe o que é perder esta época.