segunda-feira, 16 de março de 2015

Uma alternativa «interna» à PT

Muitos leitores têm pedido para abordar a questão dos patrocínios para a próxima época, pois a partir de 2015-16 acaba a ligação à PT. Sobram a Unicer e a Warrior (substituta da Nike) como patrocinadoras principais do FC Porto. Fernando Gomes já anunciou que estão à procura da third wheel, que desconheço quem seja ou possa ser. 

O impacto do fim da ligação à PT já aqui foi analisado. Estamos a falar de uma verba fixa que só cobre 3,19% das despesas operacionais para 2014-15. Mas consultando o Relatório e Contas da SAD vemos que as verbas a receber esta época servem de colateral para um crédito com um banco privado alemão, no valor de 2,244M€ (que já terá sido pago, pois venceu em Janeiro). Esta mesma instituição tem a receber 5,5M€, em duas prestações até Junho, com verbas a receber do apuramento para os 1/8 da Liga dos Campeões e das receitas de market pool da UEFA.

Nos últimos 10 anos, os encaixes com patrocínios não têm sofrido grandes oscilações. Mas o valor esperado para 2014-15 será o mais baixo dos últimos 8 anos, um dado que entra em claro contraste com o facto de este ser o orçamento mais elevado da história da SAD. 

Fonte: Relatórios e Contas da SAD | O Tribunal do Dragão
Na última década (o período tido em conta), só por uma vez a rubrica Publicidade e Sponsorização teve menos impacto nas receitas operacionais, isto tendo em conta os valores que foram apresentados no orçamento. Mas no que toca à fatia que cobre nos custos operacionais, é mesmo a percentagem mais baixa dos últimos 10 anos. A PortoComercial, sociedade participada, também angaria publicidade e a PortoMedia também o faz através do Porto Canal. Mas ainda assim, o FC Porto nunca atingiu a barreira dos 15M€. Consegui-lo-á na próxima época? Seria preciso a SAD sacar um trunfo de grande valor para inverter este ciclo.

Mas para já garantido está apenas o fim da ligação à PT. Sabemos que rende/rendia em média 3,65M€ por ano, fora variáveis por resultados desportivos (ser campeão, ir à Champions, etc.). Embora os patrocinadores tenham importância além do dinheiro que rendem (nomeadamente do ponto de vista estratégico), uma sociedade que apresenta orçamentos na casa da centena de milhões de euros não pode nunca dramatizar perante estes números. Sobretudo quando há despesas que se podem cortar que cobrem este valor.

E com isto chegamos aos jogadores emprestados. Nos primeiros 6 meses da época, o empréstimo de jogadores deu um prejuízo de 1,5M€.

Relatório e Contas do 1º semestre 2014-15 da SAD
Se tivermos em conta que em Janeiro saíram jogadores com vencimentos mais altos, como Tiago Rodrigues, Kelvin, Otávio, Rolando ou Kayembe, este valor tem tudo para terminar a época com mais do dobro (é possível que haja uma ligeira redução nos custos com pessoal do plantel, no entanto). Daí que urja arrumar a casa no fim da época, reduzindo a massa salarial através da saída de excedentários e do fim da dança de empréstimos entre jogadores que nunca vão jogar, e alguns que talvez nunca deviam ter jogado, no FC Porto.

Assim se suprime a saída da PT da lista de patrocinadores. Jamais será justificável, ou sequer admissível, dramatizar o fim desta ligação quando temos muito por onde cortar.

PS: O naming do Estádio do Dragão pode e deve ser considerado (vai acabar por acontecer com os 3 grandes, é uma questão de tempo). Não se chama Estádio Jorge Nuno Pinto da Costa por vontade do próprio presidente, logo não faz sentido pensar numa homenagem post mortem com algo rejeitado em vida. O «Dragão» ficaria sempre intacto (tal como no Dragão Caixa), logo não haveria um problema de identidade. Apenas um segundo nome que podia render uma importante fonte de receitas para as próximas épocas e que não beliscaria em nada a identidade do clube e do recinto.

domingo, 15 de março de 2015

Uma rasteira que não fez o Dragão tombar

Sétima jornada consecutiva a vencer, sempre sem sofrer golos. Enorme pressão pela distância em relação ao Benfica, lesões, castigos, jogadores naturalmente a sonhar e pensar na Champions, dualidades de critérios cada vez mais gritantes e uma balança que Lopetegui já percebeu que não vai equilibrar. Mas o FC Porto não vacila. Na adversidade se forjam os campeões.

http://www.zerozero.pt/img/galerias/054/252054_galeria_fc_porto_v_arouca_liga_nos_j25_2014_15.jpg.jpg
Com 10, sem sofrer
A expulsão de Fabiano no limite aceita-se (com relutância, pois Claro domina a bola sob a pressão do Ricardo, não sozinho). O que não se aceita é um árbitro que consegue avaliar esse lance mas que não vê uma patada na cara na grande área. Mas se estamos perante um árbitro que subiu à primeira categoria há 4 anos e que só agora serviu para arbitrar um jogo do FC Porto no campeonato, nada que espante.

E agora podemos perguntar ao senhor Vítor Pereira: porque é que só ao fim de 4 anos é que decidiu chamar Jorge Tavares para arbitrar o FC Porto no campeonato? Estamos a falar do terceiro pior árbitro da última época, que acabou com média negativa, abaixo de 3,5 valores. Numa jornada em que o Benfica ia encontrar o seu carrasco anterior, parece uma extrema coincidência. Mais uma prova da falência moral e de competência do Conselho de Arbitragem. Aliás, competência tem havido muita, mas não é para servir a integridade do futebol português.

Até quando Lopetegui e os jogadores conseguirão aguentar isto? Pior: acham mesmo que Lopetegui e os jogadores vão combater isto sozinhos? Não é preciso adicionar destinatários à pergunta, mas a memória depois não será curta.





O patrão da defesa (+) - O nosso engenheiro está cada vez melhor. Foi o nome sugerido por Lopetegui assim que Rolando saiu do plantel. Bendita a hora. Chega a ser irónico que muitos tenham suspirado por Manolas há um ano, quando na verdade a solução, bem mais barata e madura, estava no seu colega de defesa. Iván Marcano não fez uma única falta em todo o jogo, é o central que melhor constrói e não perde um lance de um para um. Com Maicon, Indi ou Casemiro ao lado, já não restam dúvidas: está no topo da hierarquia.

Tampão (+) - Percebe-se as alterações de Lopetegui ao intervalo. Casemiro não podia estar dividido entre a defesa e o meio-campo. Tinha que estar no lugar dele, à frente da defesa, para interceptar lances, impor a sua presença física e manter o meio-campo seguro e equilibrado. Mais um bom jogo de Casemiro. A bola começa a não queimar tanto no pé e mais uma vez sofre mais faltas do que aquelas que comete.

http://www.zerozero.pt/img/galerias/062/252062_galeria_fc_porto_v_arouca_liga_nos_j25_2014_15.jpg.jpg
Decisivo
Defeitos e virtude (+) - Irritei-me com Quaresma uma, duas, três vezes. Adornava, perdia tempo quando devia cruzar de primeira, não era capaz de devolver a bola ao primeiro toque. Mas tira 3 cruzamentos excelentes, faz a assistência para golo, os lances de perigo são quase todos dele e depois dele sair o FC Porto não voltou a criar perigo. No meio de todos os defeitos, foi a principal virtude do FC Porto. Objectivamente, criou mais perigo que Brahimi.

Picar o ponto (+) - Aboubakar, o jogador que mais correu hoje. Desde que Jackson se lesionou, assistiu para a vitória em Braga, marcou na Champions e hoje fez o golo que deu 3 pontos. Lesionou-se o jogador mais influente, então Aboubakar assumiu-se como decisivo. Pareceu-me extremamente arriscado não levar Gonçalo para o banco, mas Aboubakar voltou a dar conta do recado. Vai evoluir muito mais.

Outros destaques (+) - Alex Sandro, outra vez a um grande nível. Hoje deu razão aos elogios à sua condição física. Não tem o jogo interior de Danilo e muitas vezes demora a soltar a bola e perde a oportunidade de tabelas rápidas no flanco, mas vê-mo-lo raçudo, empenhado e em alto rendimento. Helton, seguríssimo e tranquilo. Não parecia que não jogava no campeonato há um ano. O problema não foi a expulsão de Fabiano, foi passar a jogar com 10, pois Helton fará sempre parte da solução. Indi e Herrera cumprem bem mesmo fora das posições de origem. Óliver Torres deu o seu toque de classe e inteligência ao meio-campo, mas naturalmente ainda longe da melhor forma.





CANTOS! CANTOS! CANTOS! (-) - Já não há paciência. Já não bastava o FC Porto estar muito mal no aproveitamento dos pontapés de canto esta época. Agora, um canto a nosso favor consegue terminar na expulsão do nosso guarda-redes. O erro é de Fabiano na saída, mas a equipa está completamente desposicionada e não está preparada para o contra-ataque do Arouca. Inadmissível. Esta é a maior, senão única, crítica ao FC Porto de Lopetegui. A equipa não evoluiu nada nestes lances desde o início da época. Fazemos golos de livres como já não se via desde os tempos de Deco, mas isso não é trabalho colectivo, é fruto da capacidade técnica individual dos jogadores. Nos pontapés de canto estamos mal, mal, mal, e este lance foi o cúmulo. Pior que não criar perigo nos cantos, é esses lances serem ainda mais perigosos contra nós.

Num jogo com estas circunstâncias, pós-Champions, tudo o que termine com a conquista dos três pontos é positivo. Mais um teste superado. Faltam 9 finais, 27 pontos. Temos mais 12 pontos do que o ano passado, onde demos uma péssima imagem na Choupana. Sábado é tempo de a corrigir. E já agora, um bocadinho mais de competência na arbitragem, pois não nos esquecemos que há um ano João Capela validou erradamente um golo ao Nacional e invalidou mal um do FC Porto. E citando uma célebre capa do jornal A Bola, decidiu o que estava decidido. Continuaremos a lutar contra o que querem voltar a decidir e que já estaria decidido não fosse a resistência de Lopetegui e dos jogadores.

sábado, 14 de março de 2015

Ser preparado ou preparar-se

As conferências de imprensa são uma das coisas mais aborrecidas do futebol português. Diz-se que se espera um jogo difícil, que a equipa está confiante, que vão lutar pelos 3 pontos e elogia-se o adversário (se estiver no topo da tabela destaca-se esse factor, se estiver abaixo diz-se que a equipa vale mais do que diz a classificação). Todos os treinadores seguem este ciclo. Por isso é com agrado que vemos as refrescantes intervenções de Julen Lopetegui, que mostra a diferença entre preparar-se e ser preparado, que consegue sempre dar algum sumo além dos referidos clichês (que obviamente também usa).
Defesa à altura

Ser preparado encaixa-se na gestão gabrielana, construída com a experiência de 10 anos de assessoria na Presidência da República: o arcanjo escreve, o treinador ou o presidente leem. Tão simples quanto isso. E por estarem tão familiarizados com este processo, não faltou quem viesse desde já afirmar que Lopetegui se limitou a reproduzir aquilo que lhe disseram sobre o ex-ministro adjunto de Santana Lopes. Au contraire.

Lopetegui prepara-se em toda a linha. Quis saber quem era esse vice-presidente que atacava o FC Porto, o Braga e que é capaz de colocar em causa a integridade e seriedade do campeonato passando impune (não estamos a falar de um adepto/comentador, estamos a falar de um dirigente). Não recebeu um recado, pediu foi informação sobre o sujeito. E quando lhe contam que Rui Gomes da Silva já foi o responsável pela tutela do Desporto, como qualquer pessoa de bom senso que não conheça os meandros da política nacional só pode ficar escandalizado.

Adiante e pensando no que podemos controlar. Ganhando ao Arouca fazemos 61 pontos. São mais 12 pontos do que os que tínhamos à 25ª jornada da época passada. Mais até do que no primeiro título de Vítor Pereira, em dois dos títulos de Jesualdo Ferreira, no título de Co Adriaanse e em dois anos do penta. O nosso compromisso tem que ser a melhoria constante.

O que se passou na Luz, após a campanha de minimização ao SC Braga, foi natural e esperado. O Sporting foi a única equipa a ir buscar pontos à Luz e foi numa fase precoce da época, numa carambola. O Benfica sofre pouquíssimos golos e está a saber cativar e usar a massa adepta, instrui ex-dirigentes e espaços de opinião, pois sabe que só consegue ganhar com ruído. Será difícil combater isto.

Há sorte e há azar
Tiago Gomes infelizmente teve muito azar: já tem 10 anos de profissional, mas a primeira expulsão da carreira no campeonato tinha logo que acontecer contra o clube que o formou. E estamos a falar de um jogador que até este jogo nunca tinha visto mais que 3 cartões na mesma época. Já o dizia Lopetegui, há sorte e há azar. E falar em facilitismo contra o FC Porto quando o Braga nunca ganhou na Luz (no Dragão até já deu 3 e despediu um treinador) em jogos do campeonato mostra o quão selectiva e falaciosa é a argumentação que por aí vai.

Esta pressão é extremamente desgastante para os jogadores do FC Porto, que semana após semana sentem que vão sendo deitados fora dias e dias de trabalho, pois o rival não escorrega. Se Lopetegui consegue manter uma equipa concentrada e competitiva semana após semana, agora frente ao Arouca, só tem mérito pela gestão da condição anímica do plantel. Por mais simples que isto possa parecer, não é. 

Normalmente, um clube que tem a pior época desportiva em muitos anos, e uma sociedade anónima que apresenta o maior prejuízo da sua história, na época seguinte assume um «ano zero». O FC Porto não o fez, porque a sede de vitórias é intrínseca. Ninguém prometeu o título, nem Lopetegui nem a SAD, como nunca se pode fazer. Mas o compromisso com a vitória é um laço tão grande que é impossível de desfazer. É a vontade de ganhar que nos motiva a cada dia e é esse o objectivo que resta: 10 jogos, 30 pontos. Mas temos que reconhecer que o Benfica tem claro favoritismo e vantagem na luta pelo título. Tal como teve em 2011-12, tal como teve em 2012-13.

Mas a maior derrota não seria perder o título para o Benfica. Seria baixar a guarda e desviar-nos um segundo que seja do compromisso de luta até ao fim. Uma época sem títulos é admissível desde que estejam a ser criadas condições para uma equipa mais forte na próxima temporada e para um ciclo de evolução. Esta equipa tem dado provas de um crescimento constante e dá garantias de evolução para a próxima temporada, mas esta ainda não terminou. A luta continua amanhã, contra o Arouca.

PS: Favor puxar pelo Tello, que atravessa uma situação familiar difícil.

PS2: Monsieur Platini tem feito muitas coisas boas na UEFA. O fair-play financeiro, os incentivos para o futebol jovem, o crescimento dos prémios na Champions, etc. Mas quando o FC Porto ganhou a Liga Europa, em 2011, com 5 internacionais portugueses na ficha de jogo, esta foi a sua reacção:


Ora depois do PSG ter eliminado o Chelsea com um único jogador francês em campo, o sr. Platini só vê coisas boas. Sempre bom ver a estima que Platini tem pelos clubes portugueses quando comparados com os seus compatriotas.

sexta-feira, 13 de março de 2015

O craque que trabalha na sombra

Ser um adjunto numa equipa técnica é sempre uma tarefa algo ingrata. Como é natural, o treinador principal é sempre o protagonista, seja para o bem, seja para o mal. E às vezes quando os números 2 saem da sombra então se revelam e mostram o quão contribuíram para o sucesso do treinador principal. É o caso de Vítor Pereira, que já ganhou muitas coisas sem Villas-Boas; já Villas-Boas continua sem ganhar nada sem Vítor Pereira.

Isto para falar de um nome que tem passado despercebido e que já merece reconhecimento: Juan Carlos Martínez, o preparador físico da equipa técnica de Lopetegui. O adjunto até é Julián Calero, mas Lopetegui trabalha com Juan Carlos Martínez há mais tempo e é por isso que o preparador físico vai para o banco durante os jogos, troca opiniões directamente com Julen e é olhos e ouvidos ao longo da semana.

Um trabalho com nota positiva
Mas o que mais importa destacar é a excelente preparação física do plantel do FC Porto, a pouco mais de 2 meses do fim da época. Já houve algumas lesões musculares e mazelas, mas abaixo do que costuma ser frequente nas equipas ao longo da temporada. O FC Porto, exceptuando castigos, nunca ficou com mais que um titular indisponível de uma só vez (Óliver luxou duas vezes o ombro, ou seja, não é uma lesão que indicie má preparação física, mas sim um infortuito do jogo - à imagem do que aconteceu com Danilo). São poucos os treinadores que trabalham com tão poucas condicionantes. Além disso, ainda não se ouviram queixas do FC Porto face ao desgaste do calendário e também à enorme pressão psicológica que é ter que andar a correr atrás do prejuízo no campeonato. Não dá para secundar a importância deste factor. Mens sana in corpore sano.

Outro pormenor importante é a capacidade de jogadores pouco utilizados no FC Porto entrarem na equipa sem que se note falta de rotinas ou preparação física A primeira parte deve-se ao trabalho táctico desenvolvido por Lopetegui nos treinos, a segunda ao trabalho de preparação física. Se já existiram problemas de falta de rodagem, foram de ordem táctica, não física. Jogadores como José Ángel, Campaña, Ricardo e até Evandro conseguiram entrar na equipa sem que esta se ressentisse. 

Outro dado que comprova o bom trabalho de Juan Carlos Martínez é... Alex Sandro. Sobretudo na última época, era muitas vezes criticado por ser molengão e aparentar estar cansado. A verdade é que Alex Sandro está numa forma física impressionante e é neste momento o defesa com mais quilómetros percorridos na Champions: 88,78. São mais de 11 quilómetros por jogo.

Defesas com mais quilómetros na Champions
Já elogiámos Julen Lopetegui pela construção e evolução do plantel, agora é hora de reconhecer que a equipa técnica também foi bem composta com vista à preparação física dos jogadores. Aguenta, coração, pois à entrada para a fase decisiva da época pulmão não falta.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Motivação ou tresandar a medo

Não há memória de um clube português com tão favoráveis condições para ser campeão. Quatro pontos de vantagem, calendário mais acessível, vai receber o segundo classificado em sua casa e um novo fracasso nas competições europeias até deixou a agenda mais folgada. Isto sem falar na forma como a liderança tem sido forjada. E no meio disto tudo, ainda se ouve os ossinhos a tremelicar.

Já não bastava a forma suja e inética como se têm referido ao Sporting de Braga na praça pública, desvalorizando a forma totalmente meritória como o FC Porto se impôs aos bracarenses. A forma como procuram disfarçar que Benfica e SC Braga têm uma proximidade muito superior quando comparado com o FC Porto tresanda a desespero. Agora saiu esta:


Está muito bem observado. De facto o SC Braga, ou neste caso o seu responsável de multimédia, colocou um vídeo onde mostra os golos das duas vitórias contra o Benfica. Só uma perguntinha ao nosso ex-deputado: que vídeo de motivação é que era suposto o SC Braga fazer contra o FC Porto, tendo em conta que só tinha jogado uma vez esta época e perdeu esse jogo?

E agora recuemos até 2013. Depois de Jorge Jesus ajoelhar no Dragão, as esperanças do Benfica ainda ser campeão estavam no Paços de Ferreira, um clube muitas vezes conotado como tendo proximidade em relação ao FC Porto. Pois, mas nunca ninguém do FC Porto fez vídeos para motivar o Paços de Ferreira frente ao Benfica. Será que podem dizer o contrário?

Clicando aqui, vemos um vídeo épico de três minutos a motivar o Paços de Ferreira para o jogo com o FC Porto, da última jornada de 2012-13. E reparem que o Paços diz «obrigado Guilherme Cabral pelo excelente trabalho». Quem é Guilherme Cabral? «Um jovem que trabalha para o Benfica ao nível de edição multimédia e que já fez uma série de outros vídeos de motivação para várias equipas encarnadas», conta aqui o MaisFutebol.

Ninguém do FC Porto reclamou e o clube fez o que lhe competia: deixou as distrações de fora, ganhou em Paços de Ferreira e foi campeão. Mas porque é que o Paços de Ferreira achou pertinente colocar um vídeo motivacional antes de defrontar o FC Porto e não o fez antes dos jogos contra o Benfica? Certamente que o ex-deputado Rui Gomes da Silva, como personagem atenta a este fenómeno que mostrou ser, saberá explicar isso segunda-feira na SIC Notícias.

PS: Justiça lhe seja feita. Em meio século, não há benfiquista que tenha estado tão perto da taça da Champions. E ainda teve o bónus de ver o que mais de 100 anos de história não viram: uma Taça Intercontinental. E já agora, há que reconhecer que sabe escolher a gravata bem melhor que o ex-primeiro ministro.

Do risco ao jackpot

Triunfo dos protagonistas
«No início desta aventura da Liga dos Campeões, em agosto, não tínhamos bilhete para esta competição». Lopetegui já o disse e importa sempre recordar. Havia um enorme peso em cima da equipa técnica e do plantel. Se por um lado a SAD apostou em elevar claramente a qualidade do plantel (e tinha que o fazer), muita dessa responsabilidade e pressão recaiu sobre Lopetegui e os jogadores.

Tudo isto porque a SAD definiu que o FC Porto ia apurar-se pelo menos para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões e ia garantir a qualificação directa para 2015-16. Para se ter noção da pressão que recaía sobre Lopetegui e os jogadores, basta dizer que se o FC Porto não superasse o playoff deixaria de ganhar 21M€ de prémios da UEFA já garantidos desde então (a Liga Europa rende muito pouco financeiramente). E se não tivesse bem encaminhado o apuramento directo para 2015-16, seriam menos 8,6M.

Por isso, aquela história de que o treinador deve simplesmente concentrar-se no treino não encaixa minimamente no FC Porto. Havia um enorme risco e esperanças depositadas em Lopetegui. Tinha plantel para superar todos os adversários até aqui? Com certeza. Mas da teoria à prática vai uma enorme diferença. Todas as épocas há exemplos disso, de grandes equipas que caem aos pés de equipas teoricamente mais fracas na Champions. 

Daí que todo o mérito e louvor seja pouco. Temos que ter a convicção absoluta que vamos entrar directamente na Champions em 2015-16. E com isso, aquilo que Lopetegui e os jogadores já garantiram foi que a SAD não tivesse um buraco extra de mais de 30M€ nas contas de 2014-15. Porque nunca, nunca dependemos tanto da receita europeia como esta época, conforme podemos ver no quadro abaixo.


Claro que a receita de 2014-15 está inflaccionada pelos 8,6M€ do acesso à Champions entrarem apenas esta época (os 2,1M€ do playoff entraram em 2013-14). Mas nada estava garantido no início da época. Nem quartos, nem oitavos, nem sequer a fase de grupos. O plantel tem mais qualidade, mas era totalmente novo. E também chegou um treinador que de facto pouco conhecia do futebol português e ia viver praticamente a sua primeira experiência a nível de clubes. Existia risco a todos os níveis, mas todos os obstáculos foram ultrapassados e as melhores expetativas superadas.

No que toca aos prémios da UEFA, em 2014-15 o FC Porto já garantiu 21M€ (os 2,1M€ do play-off entraram em 2013-14). Além disso, a SAD já orçamentava o acesso directo em 2015-16, por isso já conta com mais 8,6M€. Só em prémios, então Lopetegui e os jogadores já garantiram 29,6M€, que supera as expectativas da SAD.

As receitas operacionais (estimadas em 89,22M€) vão ser maiores do que o esperado. Com base no historial do que tem sido a gestão da SAD, isto não significa uma redução da necessidade de mais-valias, mas sim um reforço para os gastos operacionais ou para o ataque ao mercado. Tendo em conta que o FC Porto muito dificilmente deixará de vender os tais dois titulares no fim da época, esta boa campanha na Champions fortalece teoricamente as possibilidades de reforçar o plantel. Investindo, claro, em quem já cá está.
Expectativas superadas

É cedo para pensar nas meias-finais e é impensável orçamentar uma receita além dos 1/8 da Champions. Mas os ganhos até vão ser superiores aos 29,6M€. Não só pela receita de bilheteira, o mediatismo e a valorização dos jogadores na maior montra europeia, mas também pelo market pool.

As regras da UEFA no que toca ao market pool defendem os países que mais pagam pelos direitos televisivos. Portugal é dos países que menos recebe. Para se ter noção, a Juventus há um ano foi eliminada na fase de grupos e recebeu 32M€. O FC Porto, com este apuramento para os 1/4, se receber um décimo desse valor já será bom.

O market pool vai ter que ser dividido entre FC Porto, Benfica e Sporting. Ter três clubes na mesma edição da Champions é prejudicial nesta perspectiva. O campeão nacional em título tem por norma uma percentagem superior. Por exemplo, em 2011/12 o FC Porto foi eliminado na fase de grupos e recebeu quase 2,8M€, um pouco mais do que o Benfica, que foi aos 1/4. Este ano, como há 3 clubes portugueses na Champions, não podemos esperar grandes ganhos (em 2015-16 será superior). Felizmente, a equipa além de ter feito uma excelente fase de grupos ainda conseguiu apurar-se para os 1/4. Era impossível pedir mais e melhor.

Há ainda a empatia entre clube e adeptos. Esta época já tivemos 3 jogos de Champions com assistência acima dos 38 mil adeptos (contra o Lille foram mais de 45 mil, contra o Basel 43 mil), coisa que não tivemos em nenhum dos 6 jogos europeus de 2013-14. A juntar a isto há a sempre importante valorização dos jogadores. Mesmo jogando sem os dois frutos mais apetecidos (Danilo e Jackson Martínez) e sem o motor que meteu a máquina de Lopetegui a funcionar (Óliver), o FC Porto faz uma exibição que recolhe elogios em toda a Europa e valorizou activos seus (sobretudo Alex Sandro e Herrera) e outros sobre os quais tem uma palavra a dizer (Casemiro e Tello).

Notável. Financeiramente, já ninguém duvida, os objectivos vão ser cumpridos, com extremo mérito de Lopetegui e dos jogadores. Desportivamente, que ainda é ou deve ser o foco principal do FC Porto, continuamos na luta contra adversidades que todos conhecem. Mas porque fazer análises pós-jogo é fácil, diga-se (neste caso reafirme-se) já que Lopetegui já deu todas as provas de que merece continuar o seu trabalho no FC Porto na próxima época. A saúde desportiva e financeira do clube agradece.

O jackpot não saiu na Champions. Saiu no treinador.

quarta-feira, 11 de março de 2015

A semente, os frutos e a colheita

Alegria, orgulho e gozo. Muito gozo. Dá gozo ver este FC Porto crescer. Há não mais que um ano víamos o FC Porto atravessar a sua pior época desportiva em muitos anos. Caótico, de rastos, com pouco ou nada que se relacionasse com os pergaminhos do clube.

Hoje vimos um FC Porto que faz 10 jogos consecutivos na Liga dos Campeões invicto. Um FC Porto que goleia e dá espectáculo, que satisfaz os adeptos e impressiona por essa Europa fora. Um FC Porto que tem vários jogadores de classe mundial e cobiçados a essa escala. Um FC Porto que fez da qualidade e da garra amigas íntimas.

10 jogos, 0 derrotas
Dá gozo. Dá gosto ver o crescimento do FC Porto de Lopetegui que muitos, inclusive portistas, condenavam ao insucesso. Ainda não ganhámos nada, não. Superámos as expectativas financeiras e desportivas na Champions, mas ainda não ganhámos nada e ninguém se dá por satisfeito.

Há quem julgue que ter «cultura de exigência» é o mesmo que ter que vencer obrigatoriamente todas as épocas. Essa é uma realidade à parte à qual ninguém corresponde mais do que o FC Porto. Cultura de exigência não significa obrigatoriadade de vencer. Significa a obrigatoriedade de lutar por todas as vitórias e de crescer e evoluir no sentido de chegar a essas vitórias. E agora temos garantias nesse sentido.

O FC Porto está entre as 8 melhores equipas da Europa. Não vale a pena dizer muito mais sobre a Champions. Quando o adversário for sorteado, certamente que a equipa técnica de Lopetegui vai estudar a melhor solução para o FC Porto potenciar as suas qualidades e inibir as do rival. Em relação ao campeonato, está difícil. Vamos lutar pelos 30 pontos que restam sem as garantias de que seja suficiente. Mas com ou sem título, o FC Porto tem a melhor defesa europeia, pratica um futebol ao alcance de poucos, desenvolveu um punhado de jogadores para a nata financeira do futebol europeu e volta a afirmar-se como grande clube europeu.

Conseguir tudo isto numa época com nova equipa técnica, novo plantel e logo após uma das piores épocas das últimas décadas... É de facto necessária uma «cultura de exigência» especial para não se perceber a importância e a magnitude do que o FC Porto de Lopetegui está a construir.

Este apuramento é fruto do que foi plantado no início da época. E a colheita não se vai limitar à época 2014-15.





O futebol de Lopetegui (+) - Lembram-se do FC Porto que mastigava o jogo em trocas entre os centrais e Casemiro e que dependia da profundidade dos corredores? A evolução desta equipa em todos os seus processos é notória. Fortíssimos na transição defensiva, organizados e objectivos na construção, quase perfeitos na pressão e na recuperação (quase sem fazer faltas!). Quando um grande clube espanhol precisar de um treinador, de certeza que o nome de Lopetegui não vai faltar na imprensa espanhola.
Futebol de equipa grande

Defesa (+) - O próximo a dizer que o Martins Indi tem que jogar merece levar com um balázio do Casemiro no nariz. A dupla Maicon-Marcano merece crédito absoluto. Há não muito tempo opinava-se que o FC Porto precisava de um grande central para fazer dupla com Indi. E de repente, zás, temos uma grande dupla. Martins Indi é um enorme central (e vai ter que jogar nos 1/4), mas quando temos uma dupla de centrais a render a este nível não há discussão possível. Alex Sandro está em grande forma e vem de uma sequência de enormes exibições. Hoje foi competentíssimo na direita. Indi também mostrou que é alternativa caso acontecessa alguma coisa a Alex Sandro na Europa. 

Casemiro (+) - Comparar o jogo do Casemiro em Basel com o jogo no Dragão é comparar realidades paralelas. Tem sido dos jogadores mais elogiados aqui nas últimas semanas e volta a merecer total destaque. Não é forte no início de construção, mas tendo o apoio de Evandro ou Herrera fica tudo mais simples. Defensivamente está um muro, é fortíssimo no desarme (faz cada vez menos falta e melhorou imenso no timing das entradas), dá dimensão física ao meio-campo do FC Porto e até teve o seu momento Hugo Almeida na Champions. Isto não é um bom momento. É evolução.

Controlo e equilíbrio
Herrera e Evandro (+) - Óliver estava no banco. Óliver estava no banco. Óliver estava no banco. É preciso repetir, porque a forma como Evandro e Herrera jogaram e se completaram hoje fez parecer que tínhamos dois Ólivers em campo. Herrera volta a aparecer num nível muito superior. Forte no transporte, no apoio a Casemiro e aos extremos, na ocupação dos espaços e na pressão. E depois há Evandro, um equilibrador perfeito, forte nas transições (por incrível que pareça, sobretudo na defensiva), oferece sempre soluções e linhas de passe, também pressiona e recupera bem. Como é que só aos 28 anos chegou à Champions? Já agora: com Evandro em campo, o FC Porto nunca perdeu. Acreditem em coincidências.

Brahimi (+) - Bons olhos te vejam, Yacine! Já sentíamos saudades daquela rotação, da maneira como desafia o seu centro de gravidade e torce os rins aos adversários, daquele serpentear estonteante. Em época de estreia na Champions, são já 5 golos e 3 assistências. É provavelmente o extremo mais produtivo da história do FC Porto numa só UCL.

5 golos, 3 assistências
Evolução à frente (+) - Tello, mesmo não tendo marcado hoje, faz sobretudo duas coisas que me deixam satisfeito. A primeira é logo no primeiro minuto fazer um sprint de 30 metros para ir tentar ganhar uma bola. A segunda é já nos descontos fazer um sprint de 30 metros para tentar ganhar uma bola. É isto que faltava ao futebol de Tello, o inconformismo, a capacidade de pressionar, usar a velocidade nos momentos defensivos e de pressão. O resto vem por acréscimo. E como foi bom ver Aboubakar. Aboubakar, quando chega ao FC Porto, é um jogador que encosta no último central e fica sempre de pé à frente, à espera de poder correr e jogar direto para a baliza. Hoje o que vimos foi Aboubakar durante 90 minutos a tentar fazer o papel de Jackson, a ir receber a bola nos lançamentos laterais e a jogar de costas para a baliza. Lopetegui está a fazer um excelente trabalho com ele (e Gonçalo vai pelo mesmo caminho). E no meio de tudo isto, ainda faz um golo Àbombakar. Não olha para o lado, não levanta a cabeça. Aquele momento era dele, e merecia-o. Três golos na Champions para um avançado suplente não está nada mal.





Quem se esqueceu de falar? (-) - Quando goleamos por 4x0 na Champions e reduzimos o adversário a pó não é possível apontar grande coisa. Mas porque é a saúde de um dos nossos que estava em causa, é preciso ser rigoroso na avaliação do lance: a pancada de Fabiano a Danilo nasce de uma falha de comunicação na defesa. Pior que custar um golo, é custar a saúde de um dos nossos. Felizmente Danilo está bem, mas isto começa numa falha de comunicação que não pode acontecer na Champions, nem no campeonato, nem sequer num treino.

E agora já todos queremos que chegue rapidamente ao dia 15, para vermos novamente o FC Porto de Lopetegui. É esta ânsia de querer que o próximo jogo chegue rapidamente que nos dá as certezas de que estamos no caminho certo.