sexta-feira, 6 de maio de 2016

Contratações, não reforços

Há uma grande diferença entre contratações e reforços. Infelizmente, José Peseiro confirmou aquilo que já se perspetivava em janeiro: Suk e Marega não foram reforços, foram contratações (e a esses poderíamos juntar José Sá).

Por norma, o mercado de inverno implica a contratação de jogadores capazes de encaixar de imediato na equipa. José Mourinho teve Maciel: começou logo a jogar. Co Adriaanse recebeu Adriano: pô-lo logo a marcar golos. Jesualdo Ferreira recebeu Cissokho: direto ao lado esquerdo da defesa. Vítor Pereira teve Lucho e Janko: lá para dentro. Paulo Fonseca recebeu Quaresma: direto à titularidade.

É essa a função dos reforços de inverno. Jogadores capazes de chegar e jogar. Tanto Suk como Marega já eram, à partida, jogadores sem caraterísticas para encaixarem no FC Porto. Mas nem tiveram tempo de jogo que defendesse pertinência nas suas aquisições.

José Peseiro disse isto: «Tanto o Suk como o Marega chegaram muito em cima, muitas vezes jogaram sem conhecer o ambiente e numa altura em que muito mudou, inclusive o treinador. Isso também não contribuiu para a integração plena. Eles sabem que não serão avaliados só com base nisso.»

Contrato até 2020
É certo que a troca de Lopetegui por Peseiro em janeiro foi um erro, mas para Suk e Marega não é desculpa: tanto um como outro não fizeram um único treino com Lopetegui. Logo, no FC Porto só trabalharam sob as ideias de Peseiro. Mas não tendo sido jogadores pedidos por José Peseiro, o treinador não tem culpa que as contratações não tenham sido adequadas às suas necessidades.

Suk é um jogador que agrada aos adeptos pela raça, por ser muito combativo e não dar uma bola por perdida. Mas não iria ser ele a solução para a falta de golos do FC Porto. Suk não garante mais golos do que Aboubakar: marca um a cada 350 minutos com a camisola do FC Porto, enquanto Aboubakar marca um a cada 167 minutos. Não é uma ciência exata, mas é sempre uma referência. Uma dúzia de golos no V. Setúbal não é um atestado de garantia de golos num grande.

Suk movimenta-se bem na grande área e é forte no jogo aéreo, mais até do que Aboubakar, mas tem dificuldade em jogar sem espaço, contra linhas defensivas recuadas, demora a soltar a bola e é difícil para ele jogar de costas para a baliza. É um jogador com algumas qualidades, mas seria difícil formatá-lo para encaixar no FC Porto em janeiro. Foi até, sem grande surpresa, ultrapassado por André Silva nas opções de Peseiro - se o rapaz da equipa B, que já cá estava, acaba por jogar mais do que os caros reforços de inverno, isso já diz tudo do seu sucesso.

Contrato até 2020
Quanto a Marega, infelizmente, é o confirmar das expetativas sobre a sua contratação. Não mostrou uma única qualidade que recomendasse ou justificasse a sua contratação, sobretudo pelo seu preço. Não é possível dizer muito mais sobre este jogador, pois quem tem que o fazer foi quem viu nele qualidades para jogar no FC Porto. Se nós, adeptos (sendo certo que houve quem gostasse da sua contratação), não vimos razão alguma desde o início, não somos nós quem tem que justificar coisa alguma.

Neste caso, Marega não pareceu ter sido um caso de um jogador que ficou caído nos braços de Peseiro. Peseiro já era o treinador quando Marega foi contratado. Se o tivesse pedido e não o estivesse a utilizar, poderia ser responsabilidade sua; mas se além de contratarem um novo treinador lhe derem jogadores que não pediu, nem encaixam nos seus planos, então a responsabilidade é de quem avançou para Marega. Sobretudo quando este não era um talento desconhecido: a sua capacidade estava aos olhos de todos. 

Numa jornada que só serve para cumprir calendário, incluída na série de jogos nos quais era suposto os jogadores mostrarem «caráter», Suk e Marega vão para a bancada. Não será uma grande surpresa se Suk e Marega não fizerem parte do plantel para 2016-17. O mais preocupante não é isso: é que desde janeiro se previa que não seria uma surpresa.

Pergunta(s): Que papel para Marega e Suk em 2016-17?

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ilusão 611 e a mala da hipocrisia

O FC Porto não personalizou a resposta às críticas, mas sentiu-as. Assim se explica a reação após Rui Moreira ter criticado o projeto Visão 611, cinco anos após o mesmo ter sido enterrado, e ter visado Antero Henrique. 

Críticas do baú
Para começar, saúde-se o facto do FC Porto ter, cinco anos depois, apresentado uma espécie de balanço do Visão 611. O pequeno Thumber saiu defraudado na filosofia que deu a conhecer ao mundo, mas basicamente a SAD emitiu um pequeno comunicado a defender que o projeto foi um sucesso.

Rui Moreira, face ao cargo que ocupa na cidade, faz com que as suas críticas tenham um mediatismo superior. Mas há que enquadrá-las. Quantos dos problemas do FC Porto se podem relacionar com o falhanço do Visão 611? Faz sentido lamentar agora um projeto enterrado há 5 anos? Na essência, parece claro que o FC Porto falhou por completo nos pressupostos do projeto, que visavam aumentar a quantidade de jogadores da formação na equipa A; contrariamente, desde o encerramento do projeto os gastos com contratações dispararam, nasceu a moda dos contratos de scouting, os erros de casting acumularem-se e a eficácia de contratações tem deixado muito a desejar, além da crescente influência/dependência dos fundos nas movimentações do FC Porto no mercado.

O que mais surpreende é que, há 15 dias, Rui Moreira votou na reeleição de Pinto da Costa para a presidência do FC Porto, tendo deixado uma mensagem de confiança. Mas não sabemos se não riscou o nome de Antero Henrique do boletim. Se o fez, estas críticas já fariam mais sentido - até porque há uma grande facção de adeptos que dizem confiar em Pinto da Costa, mas não nos seus parceiros do Conselho de Administração. Algo que não faz muito sentido, diga-se: como é que podemos confiar em alguém se esse alguém vai confiar nas pessoas erradas?

De qualquer forma, bastou Rui Moreira falar no Visão 611 para meter o seu balanço em discussão. O FC Porto nunca fez um balanço a propósito do projeto, e este comunicado na SAD ignora aquilo que eram as bases do projeto.

Nas análises já aqui feitas ao Visão 611, foi destacada a eficiência de o clube ter facilitado a ponte clube-escola, a modernização do modus operandi (mesmo que em muitos casos isto sejam planos teóricos que não produzem efeitos na prática) e a aposta especializada nos treinos (não treinar apenas um plantel: treinar defesas, treinar médios, treinar avançados). Isto foram os pontos positivos do Visão 611. Mas naquilo que interessava, o projeto foi um falhanço completo.

A importância desconhecida
O FC Porto previa ter, a partir de 2011, 6 jogadores da formação na equipa A. Como o clube fez uma época memorável em 2010-11, ninguém se incomodou com a ausência de jogadores da formação. Mas não foi cumprida a premissa mínima de qualquer projeto de formação: meter miúdos na equipa A.

No comunicado, o FC Porto associa a conquista da Liga Europa ao sucesso do Visão 611. Um disparate. A não ser que os jogos que Ukra fez contra o Genk e o Rapid Viena (Castro jogou  21 minutos contra as duas equipas, depois foi emprestado em janeiro) tenham sido decisivos rumo a Dublin. Não parece de todo ter sido o caso. Mas na defesa ao Visão 611, há quem amplie o seu propósito a todo o mercado, e assim defenda que contratações como Sapunaru, Guarín ou James foram da responsabilidade do Visão 611. Uma tentativa de defender o seu sucesso.

O FC Porto não passou a apostar mais na formação desde o encerramento do 611. Reparem que na última época antes do início do projeto, o FC Porto utilizou Hélder Barbosa, Postiga, Bruno Alves, Ivanildo, Hugo Almeida e Ricardo Costa. 6 jogadores da formação, que era quanto o projeto visava incluir a partir de 2011. Já em 2011-12... Kadú jogou 8 minutos na Taça de Portugal. Só isto.

«O impacto do projeto Visão 611 pode ainda ser percetível nas dezenas de jogadores formados pelo FC Porto e que se encontram a disputar os campeonatos profissionais portugueses». Como disse? Mas o FC Porto criou este projeto de formação para meter jogadores na equipa A ou para andar a fornecer jogadores ao Rio Ave, ao Paços de Ferreira ou ao Vitória de Setúbal?

Em 2009, o FC Porto apresentou no Vitalis Park as duas equipas de sub-13 e sub-14 que iriam ser a bandeira para os próximos anos. Da equipa de sub-13 não sobra ninguém no clube. Na equipa de sub-14 contam-se pelos dedos os sobreviventes: Andorinha, Diogo Verdasca (se o Visão 611 tivesse sido um sucesso tão grande, se calhar tinha sido ele a jogar nestes últimos meses; aliás, o FC Porto sempre teve uma grande escola de centrais, mas nos últimos 10 anos não formou nenhum central para se afirmar na equipa A), Rui Moreira (ironicamente, um homónimo do presidente da CM Porto) e Rúben Macedo.

Entretanto, quando Rúben Neves apareceu na equipa A e Lopetegui deu alguns minutos a Gonçalo Paciência, tentou retirar-se o 611 da gaveta, ao recordar o Projeto de Jogador de Elite. Faltou só dizer que quando Pepijn Lijnders saiu para o Liverpool, o projeto morreu. É um facto que esta vertente de treino ajudou a desenvolver alguns dos nossos jogadores (Rafa, Podstawski, Rui Moreira, Graça, Leandro, Macedo, Sérgio Ribeiro, Bruno Costa, Rui Pedro, entre duas dezenas de jogadores). Falta saber se isso vai ter impacto na equipa A, que é o que interessa. Mas com a saída de Pepijn, viu-se que era mais um projeto de um homem do que um projeto de um clube. 

Revolução sem proveito
Além disso, é difícil identificar que jogadores formados do FC Porto durante o projeto Visão 611 estão a brilhar nas «principais ligas europeias». A sério, ajudem. Já para não falar que o FC Porto não fez nenhuma grande venda com jogadores da formação durante esse período. Tendo como referência as despesas inerentes a contratações/negociações de jogadores como Kayembé, Djim ou Abdoulaye, o dinheiro gerado com a venda de jogadores saídos da formação do FC Porto cobre sequer o dinheiro gasto em jogadores estrangeiros que nunca chegam a ser opção válida de equipa A?

Aquando da apresentação do projeto, Antero Henrique garantiu também a existência de uma «equipa sombra», que o FC Porto tinha como referência antes de cada ataque ao mercado. Neste momento, alguém acredita na existência, ou utilização, dessa «equipa sombra»? E quais são os custos da elaboração de uma equipa sombra? Implicam contratos de scouting?

Como grande curiosidade, este texto da «revolução chamada Visão 611», muito elogioso para com o FC Porto e publicado em 2009, é da autoria de Francisco J. Marques, agora mais conhecido entre os portistas pelos textos do Dragões Diário, e na altura explicava que o projeto ia muito além da formação, pois também estava implicado no modelo de compra-valorização-venda. Mas há a destacar este excerto: «Em 2006 houve uma mudança radical na forma de trabalhar e os resultados só devem começar a surgir na plenitude dentro de seis, sete anos». Se tomarmos como referência os sete anos, desde 2013 o FC Porto não voltou a ganhar títulos e desde então atravessa uma das maiores crises desportivas da sua história.

Concluindo, e pegando nas críticas de Rui Moreira: é tudo culpa do projeto Visão 611? Não, certamente não. Mas se o Visão 611 visava ser solução para alguma coisa, deixa muito a desejar. 

PS: As malas é que estão a dar. De todo este barulho que não leva a lado algum, Carlos Pereira, presidente do Marítimo, deixou uma afirmação muito sugestiva: «Isto pode virar-se contra o Benfica». Ele sabe porque é que afirmou isso. O Benfica também. E o Sporting também. O Benfica sabe porque é que tanto questionou o choro do Arnold. E sabe porque é que mandatou Pedro Guerra para falar das malas para o Vitória de Guimarães: porque não há vergonhosa, escrúpulos e reina a hipocrisia para os lados da Luz. E o Sporting também sabe porque é que pode estar tranquilo neste assunto: porque do outro lado não há moral para falar. 

E com isto, na óptica do FC Porto para a época 2015-16, os adeptos questionam: o que é possível fazer com vista a punir os eventuais incentivos oferecidos por Benfica e Sporting para perderem pontos contra os respetivos adversários?

Se estivéssemos a falar de uma competição sob tutela da FPF, haveria matérias para as duas equipas perderem pontos:


Mas o que acontece numa competição que é da responsabilidade da Liga?


Eis a nossa liga. No campeonato português, o máximo que pode acontecer a um clube que oferece ilícitos a clubes terceiros é pagar uma multazita. Não perdem pontos, não são suspensos, não são desqualificados. Nada. O máximo que acontece é pagarem uma multa. Quem tem dinheiro para meter por baixo da mesa para motivar os adversários, também tem dinheiro para pagar multas de 25 mil euros. Peaners. Aliás, reparem bem: Pedro Guerra disse que foram oferecidos 350 mil euros ao Vitória de Guimarães (o Sporting não ajudou o José Pina a descobrir quanto oferece o Benfica? Então, Bruno?). A multa máxima prevista nos regulamentos é de 25,5 mil euros. Ou seja, pagar a multa por oferecer incentivos é quase 14 vezes mais barato do que o próprio incentivo do Sporting. Sai mais barato do que pagar IVA. Eis o nosso futebol.

Por isso, isto é uma discussão de manifesta inutilidade, porque o próprio Regulamento Disciplinar da Liga não oferece consequências graves a quem recorrer ao jogo da mala. Irão Pedro Proença, presidente da Liga, José Fontelas Gomes, novo presidente do CA, e José Manuel Meirim, o novo presidente do CD, propor alterações a este nível? Esperem deitados, porque sentados causaria dores no cóccix. O futebol português não tem interesse em punir as equipas que oferecem e aceitem incentivos. Vá-se lá saber porquê. 

domingo, 1 de maio de 2016

Um clássico do passado recente

Começando por uma curta comparação. Notaram algo na defesa do Sporting? Schelotto, Rúben Semedo, Coates, Zeegelaar. Que têm todos eles em comum? Foram reforços de inverno do Sporting, contratados através dos mais diversos métodos (jogador livre, regresso após empréstimo, empréstimo e compra).

O Sporting sentiu a defesa desfalcada e reforçou-a convenientemente, a ponto de ter conseguido ir jogar ao Dragão com uma defesa totalmente nova, mas sólida. Já o FC Porto, que tinha muitos mais problemas defensivos do que o Sporting, o que fez em janeiro? Foi buscar o Marega. Por um preço que sustentaria toda a defesa do Sporting. 

Isto é apenas um exemplo do quão mal preparada e gerida foi toda a época. E no final do jogo, após uma derrota dura, ainda temos que ouvir que o Sporting merece ser campeão. Ainda faltam duas jornadas, mas o FC Porto terminou 2014-15 com mais pontos, mais golos marcados e menos sofridos do que este Sporting de Jorge Jesus (que nem passou à Champions), que ganhou uma boa parte de jogos graças a golos nos últimos minutos. Pena que na altura não se tenha ouvido que o FC Porto foi a melhor equipa de 2014-15 e que merecia ser campeão. 

O detalhe chamado competência
Em certa parte, este jogo fez lembrar o FC Porto x Sporting da Taça de Portugal de 2014-15. O FC Porto não entrou mal, mas o Sporting marcou primeiro. O FC Porto chega ao empate, mas leva o 2-1 em cima do intervalo. Na segunda parte, há um penálti que pode mudar a história - a diferença é que há dois anos Jackson falhou-o, enquanto desta vez foi Artur Soares Dias a falhar. E no final, o Sporting lá mata o jogo com o 3-1, depois de o FC Porto ter desperdiçado algumas oportunidades para empatar, num jogo equilibrado mas no qual o FC Porto nunca revelou ter o estofo necessário para se impor. 

Mais uma derrota no estádio que, há 3 anos, era considerado o mais temido da Europa. Tudo o que se possa dizer sobre José Peseiro já soa a repetição, mas resumindo o mais possível: errar não é o que José Peseiro está a fazer: errar foi tê-lo contratado em janeiro, sem razão absolutamente nenhuma para tal, pois Peseiro não fez nada que justificasse a ida para o FC Porto nos últimos 10 anos. Enquanto adeptos do FC Porto e percebendo o quão difícil é treinar este clube, haverá sempre a tentativa de apoiar/compreender o treinador, sobretudo porque ninguém (entre os treinadores ao alcance do FC Porto na altura) viria fazer melhor do que Lopetegui estava a fazer. Mas a comparação é inevitável, pois se B foi contratado para substituir A a meio da época, sabendo que as trocas de treinador dão quase sempre asneira, então A tinha que ser melhor do que B. Mas neste caso não tinha, pois nunca vimos José Peseiro dar sinais de capacidade para chegar, ver e vencer nestas circunstâncias. Não podia, no FC Porto e nestas circunstâncias, revelar-se melhor do que alguma vez foi. E é preocupante que alguém tenha visto o contrário, mas foi este o caminho que (a maioria d)os adeptos do FC Porto escolheram. 





Héctor Herrera (+) - Um FC Porto de Herrera e mais 10. Mesmo que Herrera, por vezes, só jogue a metade das suas capacidades. É sempre o primeiro a atacar e o último a desistir. Honra a braçadeira de capitão que tem no braço, com uma disponibilidade imensa em campo. Farta-se de fazer piscinas, sempre à procura de esticar o jogo, dar apoio aos corredores, na saída de bola, ir à zona de finalização... Ser Herrera, neste FC Porto, é uma trabalheira. Tivessem todos metade da disponibilidade, dedicação e profissionalismo dele. Uma palavra para a exibição de Danilo Pereira, juntamente com Herrera o único a sair com nota positiva.





A defesa (-) - Um desastre absoluto. Maus defesas + um treinador que sempre teve equipas que defendiam mal dá nisto. No primeiro golo, Ángel fica muito mal na fotografia, ao deixar passar João Mário, mas depois Chidozie acusa uma vez mais toda a sua inexperiência. Não há jogo em que o mau posicionamento de Chidozie não dê problemas. Até na Luz o golo do Benfica acontece após uma falha sua, mas a grande exibição de Casillas quase colocou este jovem defesa num pedestal. Erradamente. Chidozie não tem culpa porque está a cometer os erros próprios de um jogador sem escola, que pouca formação tem como central e no qual não se nota grande de evolução do ponto de vista tático. Slimani conseguiu ganhar-lhe dois metros enquanto João Mário deu um passo. E Peseiro andou a meter Danilo à defesa para depois voltar a lançar Chidozie às feras num clássico? Logo contra um dos pontas-de-lança mais difíceis de marcar em Portugal? O que se diria noutros tempos? Bruno Alves, Jorge Costa ou Ricardo Carvalho não jogavam no FC Porto aos 19 anos por um motivo. O mesmo que está a penalizar Chidozie: inexperiência e falta de devida preparação.  

Martins Indi não ganha uma bola de cabeça. Slimani bate-o com grande facilidade no 2x1, mas antes disso vemos Maxi Pereira a escorregar, deixando passar Bryan Ruiz, e Corona a ficar a olhar, quase a dizer «já não chego, vai lá tu». É só fazer a soma: um ponta-de-lança fortíssimo de cabeça contra uma defesa onde um central está muitas vezes mal posicionado e outro não ganha uma bola de cabeça... Pois. Além disso, Indi ainda conseguiu falhar 11 passes, algo impróprio para um central, e não conseguiu desarmar um único jogador do Sporting em lance de bola corrida. 

No 3º golo do Sporting, quem fica mal é Maxi Pereira (parece estar limitado fisicamente nesta reta final de época - Víctor García serve para quê?). Deixa Bruno César entrar entre ele o central e ainda o deixa ganhar 4 metros antes de bater Casillas, que também voltou a deixar escapar o defensável. Neste momento, estavam 7 jogadores do FC Porto em momento defensivo, contra apenas dois jogadores do Sporting nos últimos 40 metros: um para fazer o passe, outro para entrar entre o lateral e o central e acabar com um clássico. Brincamos? Inadmissível. Tivemos a melhor defesa da Europa de 2014-15, esta época temos uma das piores (não necessariamente em termos de qualidade, mas de rendimento) da história do clube. Mas a culpa era de Maicon. Ou se calhar culpa é do Marega, que ao ser contratado em janeiro, em detrimento de reforçar a defesa, devia marcar 4 ou 5 golos por jogo. Só isso justificaria contratar um avançado para a bancada em vez de reforçar uma defesa com carências no 11 titular.

A exibição (-) - É um pouco contraditório destacar as exibições de Danilo e Herrera e, ao mesmo tempo, criticar o meio-campo. Mas há uma justificação: a inoperância do FC Porto na ocupação dos espaços, na pressão ao portador da bola e na marcação. O Sporting conseguia desmontar o meio-campo do FC Porto com o recurso a três ou quatro passes. Adrien, Ruiz e João Mário chegavam. O Sporting quase não precisava de meter os laterais a dar profundidade (ninguém se lembra de uma jogada perigosa dos laterais do Sporting junto à linha de fundo), pois o seu meio-campo já chegava. Curiosamente, os dois golos do Slimani nascem de cruzamentos pelos flancos, mas nem foi preciso os laterais subirem para cruzar: são golos que nascem por Bryan Ruiz e João Mário, que ao mesmo tempo que garantiam a profundidade pelos flancos asseguravam a ocupação do espaço nos movimentos interiores. 

Além disso, o FC Porto voltou a ser muito pouco objetivo no ataque à baliza adversária. Havia sempre alguma hesitação perto da grande área. Ou mais um toque, ou mais um passe, ou a hesitação para tentar mais uma tabela... E as bolas perdiam-se. É certo que o FC Porto enviou duas bolas aos postes, mas a equipa voltou a revelar-se fraca nos remates enquadrados: apenas 4 em 16. Para se ter noção da insuficiência desta estatística, Slimani fez 6 remates à baliza em 7 tentativas. Ou seja, Slimani obrigou Casillas a mais defesas do que toda a equipa do FC Porto perante Rui Patrício. Ninguém ganha clássicos assim. 

Brahimi ainda desenhou alguns dos melhores lances do FC Porto na primeira parte, mas depois veio o eclipse. Já Corona passou ao lado do jogo por completo, além de ter deixado o Sporting subir pelo corredor a seu bel-prazer. Aboubakar sofre o penalty que podia ter mudado a história do jogo, mas de resto foi quase inexistente, dando ares de que funcionaria melhor num 4x4x2 como segundo avançado do que estando sozinho no 4x3x3 - porque Aboubakar não tem presença na grande área para ser um finalizador no FC Porto; é o avançado que mais golos falha no campeonato. Tem muitas valias técnicas, mas pelo menos este 4x3x3 nunca vai favorecê-lo. Sérgio Oliveira já não se pode queixar de falta de oportunidades: 7 jogos seguidos sempre a titular. Dificilmente voltará a repeti-los, sendo de lamentar a falta de intensidade em alguns momentos do jogo e a forma como não conseguiu perturbar o jogo interior do Sporting (se Herrera é o médio mais adiantado e Danilo Pereira o mais recuado, Sérgio Oliveira tinha que multiplicar-se no meio-campo, pois o Sporting envolvia sempre mais gente no jogo interior; não teve foi culpa de José Peseiro não ter nunca percebido que o meio-campo do FC Porto estava sempre em inferioridade). 

Do banco nada saiu para melhorar a exibição do FC Porto. Nem por parte dos jogadores lançados, nem por parte da cabeça do treinador.

De realçar que uma vez mais Jorge Jesus teve acesso, atempadamente, a informações sobre a equipa e a forma com que o FC Porto ia jogar. Já tinha acontecido no Estádio da Luz, na época 2014-15. Se calhar está desvendado o segredo: Varys trabalha para Jorge Jesus, e os seus little birds sobrevoam o Olival regularmente. Parece mais legítimo do que acreditar que alguém do FC Porto possa fazer chegar as informações a Jorge Jesus: primeiro para arrumar com Lopetegui na Luz, agora para fazer o mesmo com Peseiro e/ou dar condições ao Sporting para vencer o jogo e continuar atrás do Benfica. Fiquemo-nos pelo universo de George R. R. Martin.

Jamor is coming. Oxalá o FC Porto também decida aparecer por lá.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Paixão até ao fim

O FC Porto já está fora da luta pelo título, mas há fenómenos interessantíssimos que não podemos deixar de observar. Como por exemplo, nas nomeações para a 32ª jornada do campeonato, onde se pode decidir a luta pelo título.

É bom lembrar que estamos nas últimas semanas do reinado de Vítor Pereira, que anteriormente explicou que as nomeações têm em consideração a «graduação de Normal, Médio e Difícil» quanto à dificuldade de cada jogo, tendo sempre em conta «a classificação, a rivalidade e factores recentemente ocorridos».

Face à conjuntura para estas jornadas, tanto o FC Porto x Sporting como o Benfica x Vitória SC são jogos de grau de dificuldade difícil. Teoricamente, quem são (ou deveriam ser) os melhores árbitros? Os internacionais. Por isso Vítor Pereira admitiu o princípio de nomear os árbitros internacionais para os jogos de máximo grau de dificuldade.

Ora, para o Dragão foi nomeado Artur Soares Dias, internacional e eleito o 2º melhor árbitro da época passada (atrás de Jorge Sousa). Trata-se até de um árbitro já experiente em clássicos, apesar de já ter sido muito criticado de parte a parte, com mais ou menos razões para isso. 

Já para o Benfica x Vitória SC... Não foi nomeado nenhum internacional. Dos 8 árbitros internacionais da FPF, não escolheram nenhum: a escolha foi Bruno Paixão, que perdeu as insígnias de internacional em 2012, após ter ficado por duas vezes abaixo do 12º lugar da lista de melhores árbitros. Na altura recorreu aos tribunais, alegando que era uma injustiça. De facto, que grande injustiça que foi: em 2012-13 foi 12º e em 2013-14 cometeu a proeza de ser 20º classificado, um dos piores árbitros do ano em Portugal.

Já em 2014-15, numa época atípica em todas as classificações de árbitros (basta lembrar que o árbitro escolhido para a final da Taça, Marco Ferreira, na altura por ter feito uma boa época, acabou por ser despromovido de categoria), Bruno Paixão ficou no top 12. E isso já se consegue justificar, pelos regulamentos, a sua nomeação para a próximo jogo do Benfica.

Pois os regulamentos, embora recomendem a nomeação de árbitros internacionais para os jogos de grande dificuldade, incluem a possibilidade de chamar um árbitro do top 12 da época anterior. Mas sendo Bruno Paixão, segundo uma acusação do próprio Sporting, benfiquista, a nomeação não deixa de ser discutível por todos os motivos. Até pelo próprio saldo do Benfica a jogar em casa em jogos arbitros por Bruno Paixão.

Em 12 jogos com Bruno Paixão na Luz, o Benfica venceu os 12. Além disso, Bruno Paixão apitou uma única vez um jogo entre Benfica e Vitória SC em toda a sua carreira. O resultado foi este:


Vítor Pereira e o Benfica levam a sua Paixão até ao final. Não vá ela ser necessária no último suspiro.

PS: O timing do Football Leaks volta a ser deveras interessante. Quando divulgaram o mapa da percentagens de passes do FC Porto, já tinha sido levantado o véu da condição contratual de Tony Djim. Mas na semana passada colocaram o contrato na íntegra com a Danubio GMBH, empresa ligada a Luciano D'Onofrio e que tem estado envolvida em todos os jogadores que chegam do Standard Liège (Bolat, Opare, Kayembé, irmãos Djim), fica com percentagens de passes e cobra grandes quantias por jogadores que chegam livres de qualquer contrato ao FC Porto. 

Quase como que a adivinhar uma iminente renovação, o Football Leaks publicou o contrato que mostra que a partir do momento em que Tony Djim renovasse, o FC Porto teria que comprar 10% do passe por 1M€, avaliando assim Djim, com pobres resultados na relação tempo de jogo/rendimento, em 10M€. Tony Djim, à data de hoje, não vale sequer um décimo desse valor, nem mostra potencial que justifique a sua compra nestes moldes. É sem dúvida um jogador empenhado, mas que não se faz destacar por nada mais que a sua capacidade física nos sub-19. 

Se Tony Djim está já avaliado em 10M€, então quanto custarão os bem mais talentosos Gleison e Ismael Díaz? Se fizer 5 jogos na equipa A, a SAD, segundo o contrato que foi divulgado (não sabemos se houve alguma adenda ou modificação face ao que foi assinado em 2014), tem que pagar mais 1.5M€ por 20% do passe. Provavelmente Djim não chegará a fazer esses jogos, à imagem de Generoso, mas confirmando-se estes valores trata-se de um negócio sem cabimento nem pertinência, tal como tem sido esta ligação à Danubio. O Relatório e Contas provavelmente pouco ou nada dirá desta operação, tendo em conta que também não foi nada esclarecedor no caso de Célestin Djim (nunca foi clarificado quanto a SAD pagou por ele - o tal 1M€ por 10% antes da venda -, nem sequer especificaram que foi vendido com Carlos Eduardo para as Arábias). O outro irmão Djim tem 12 minutos ao serviço do Metz em França. Há idas à casa-de-banho que demoram mais tempo.

A Tony Djim a melhor sorte (o rapaz é o último culpado, pois não obrigou ninguém a contratá-lo ou a pagar por ele, e tem o sonho de ser um bom futebolista, como todos os outros), pois há muita gente a depender da sua evolução. Por exemplo, Luciano Djim, 37 anos, já criou 4 empresas diferentes (Nutrilite, Sport Promotion, World of Sport e Luciano Djim Soccer Talents Management), todas com o mesmo número de telefone, mas todas elas não parecem/pareceram passar de projetos de pouca dura. 

Luciano Djim com Dominique D'Onofrio, irmão de Luciano D'Onofrio
Esta foi a primeira renovação de contrato anunciada desde a reeleição do Conselho de Administração para um novo mandato. Está dado o pontapé de saída para o futuro. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Semana de clássico

Isto deveria ser uma não-questão, mas infelizmente não parece ser. Há antis em todos os clubes, e não gostar do Benfica ou do Sporting é natural face à histórica rivalidade que existe. Mas há algo que vem em primeiro lugar: o FC Porto. E depois do FC Porto, vem o FC Porto. E depois sim, então vem o... FC Porto.

O 3º lugar da liga está garantido e a luta pelo título já não diz respeito ao FC Porto. Mas é natural que alguns portistas possam ter alguma preferência final, ou porque têm um amigo benfiquista, ou porque têm um tio sportinguista, ou porque detestam mais um do que o outro. A cada um as suas razões.

Se alguém preferir que o Sporting seja o campeão está no seu direito. Agora, desejar que o Sporting seja campeão, sabendo que isso implica uma derrota do FC Porto pelo caminho, seria, como já aqui foi defendido, o maior atestado de pequenez da história do clube. Provavelmente este vídeo, onde há sportinguistas a vibrarem com o golo de Kelvin, envergonha muitos adeptos do Sporting, que não se reveem nisto. 

Portistas antes de antis
Mas naquele jogo não estava implicado o Sporting. Neste caso, para o Benfica ainda ter hipóteses de perder o título, então isso implica que o FC Porto tenha um mau resultado perante o Sporting. E não é tolerável que nenhum portista admita isso. Qualquer portista, seja um grupo de adeptos anónimos ou a maior claque do FC Porto, podem preferir que o Sporting seja o campeão; mas não podem admitir, nem incentivar a outra coisa que não seja uma vitória do FC Porto no clássico. Não é «não querem o Benfica campeão». É «querem que o FC Porto ganhe ao Sporting». Se não, declarem-se anti-benfiquistas antes de portistas. 

O clássico de 2009-10, em fim de época frente ao Benfica, também já não ia valer nada em termos pontuais ao FC Porto. Mas foi o pontapé de saída para uma grande época, pois o jogo foi uma prova viva de que o espírito de dragão estava vivo; com 10 desde os 50 minutos, o FC Porto venceu, impediu a festa do Benfica e Belluschiiiiiiii fez um jovem comentador inglês atingir o clímax durante o relato. Este clássico com o Sporting é a oportunidade de o FC Porto deixar uma afirmação de força para a próxima época. 

E em semana de clássico, vamos apimentar as coisas, começando por um pequeno exercício: Lopetegui tinha um contrato de 3,37M€ por três épocas. Quando o FC Porto eliminou o Basel na Champions, a SAD ganhou 3,9M€. Agora imaginem que Lopetegui, no final do jogo, diz isto: «Ya he pagado todo el dinero que el Oporto me va a pagar hasta el final del contrato. No necesito hacer nada más en Oporto». 

Basicamente, todos os portistas teriam mandado Lopetegui para o c***lho País Basco. Se Lopetegui dissesse, com a vitória sobre o Basel, que já tinha pago todo o dinheiro que o FC Porto lhe ia pagar nos 3 anos de contrato ficaria de imediato em fogo cruzado.

O mesmo para Paulo Fonseca, cuja equipa foi eliminada na fase de grupos. Imaginem que o treinador dizia que os 2M€ de prémios que ganhou pelos 5 pontos (em 18 possíveis) que fez «já davam para pagar todo o meu contrato com o FC Porto». Ninguém, no FC Porto ou na praça pública, toleraria tal afirmação. 

Mas foi isso que fez Jorge Jesus, ao dizer que com o apuramento para a Liga dos Campeões já pagou o seu contrato de 3 anos com o Sporting. Isto dito pelo treinador que, em toda a sua história, só passou uma vez uma fase de grupos da Champions (tanto Lopetegui como Rui Vitória já o fizeram), e que esta época falhou o apuramento contra o CSKA, lesando o Sporting em 10M€ (já lá vamos). Mas agora diz que já dá para ficar «à sombra da bananeira», pois o Sporting já garantiu os tais 12M€ da Champions (que só dão para pagar 80% do contrato de JJ, já agora).

Declarações que envergonhariam qualquer treinador/clube/jogador
Jorge Jesus é um treinador especialista em desilusões europeias (pode aclamar as finais da Liga Europa quantas vezes quiser, mas 99% dos adeptos nem sabem quem foi o treinador finalista vencido da última edição da Liga Europa - simplesmente porque a história não recorda os seus nomes), mas a forma como uma vez mais sobrepõe o seu ego ao próprio plantel é irrisória. O Slimani é que andou a marcar golos, o João Mário a comandar a equipa e o Bryan Ruiz a dar pinceladas de craque: mas tudo o que eles fizeram esta época foi em vão, pois afinal este apuramento para a Liga dos Campeões serve apenas para pagar o contrato do treinador. Imaginem a cara com que os jogadores ficaram quando ouviram isto. 

E ainda há quem sonhe com Jorge Jesus, o treinador que foi tantas vezes campeão nacional como Jesualdo Ferreira (com a diferença que Jesualdo só precisou de três campeonatos para ser tricampeão; e nunca foi eliminado numa fase de grupos da Champions), no FC Porto. Não, obrigado. A não ser que os nossos jogadores aceitem jogar de graça: assim ir à Champions já dá para pagar ao treinador. Jorge Jesus é sem dúvida um bom treinador em Portugal (não na Europa, em Portugal), mas é excessivamente caro para aquilo que garante.

Na perspetiva de Jorge Jesus, é normal que tente manter sempre uma porta aberta para o FC Porto. Porque saindo do Sporting, é provavelmente a única via que lhe resta. Nenhum grande clube europeu, que lute por títulos, quis pegar em Jorge Jesus depois de 6 anos no Benfica. Daí que o FC Porto, e a conhecida admiração de Pinto da Costa por ele, sejam a sua eterna tábua de salvação; enquanto estava no Benfica, o fantasma do interesse do FC Porto foi sendo recorrentemente usado para garantir melhores condições contratuais, os jogadores que queria e afins. Agora no Sporting não será diferente.

O egocentrismo de Jorge Jesus não conhece limites, e isso foi patente através do recurso à decisão do TAS no caso Rojo, já citado pela imprensa. O Sporting explicou que a sua situação financeira deteriorou-se a partir de setembro, com o aparecimento de um défice de 10M€ nas contas. É fácil depreender que se trata do dinheiro que não entrou da Champions. 

O clube que não se apurasse diretamente para a Champions ficaria com um grande problema para resolver até 30 de junho. Nesse caso, acabou por ser o FC Porto a ficar com um défice similar ao que sobrou para o Sporting esta época, por não poder integrar os 12M€ da Champions nas contas. Mas isso não significa que o Sporting respire saúde financeira e que não esteja num momento crítico.

Senão vejamos. Bruno de Carvalho, mestre em desviar atenções e semear distrações para a sua massa adepta, diz que o Sporting tem «uma dupla almofada» para pagar à Doyen. A mesma Doyen a quem o Sporting nada iria pagar, pois o Sporting ia ganhar o caso, conforme tantas vezes Bruno de Carvalho garantiu. Mas o Sporting foi condenado, conforme esperado (ver fundos vergarem clubes nas instâncias desportivas e judiciais não é bom para o nosso futebol, de todo, mas o Sporting não tinha base nenhuma para ganhar o Caso Rojo). Mas os sportinguistas podem estar descansados, pois têm uma «almofada».

A almofada
Saúde-se a eficiência de Bruno de Carvalho. Não sabemos a que camas foi buscar a almofada (a Doyen diz que são os prémios da UEFA), mas é uma posição bem diferente daquela que foi manifestada junto do TAS. Na altura, basicamente o Sporting disse que não tinha dinheiro para pagar. «A tesouraria e o crédito do Sporting disponível a 16 de janeiro de 2016, ajustado para as aquisições e transferências de jogadores durante o mercado de inverno, ascende a cerca de 9.3 milhões de euros». Ou seja, todo o dinheiro que o Sporting tinha em caixa não daria para pagar à Doyen. 

Os 12M€ que entrarão pelo apuramento para a Champions já quase cobrem esse valor - ou então é para pagar o contrato de Jorge Jesus. Mas a situação do Sporting revela-se mais dramática do que o esperado. Apesar de terem feito uma boa reestruturação financeira, a obsessão assumida e precipitada em chegar ao título esta época comprometeu o Sporting.

Por exemplo, se o Sporting fizer mais de 8,4M€ com vendas de jogadores, 50% de tudo o que for acima desta receita vai direto à banca. Tendo em conta que o Sporting tem prejuízo operacional e tem que atingir o break-even esta época, por não ter cumprido o fair-play financeiro anteriormente, o Sporting terá que vender jogadores até 30 de junho (tal como o FC Porto, que tem que fazer mais dinheiro; a diferença é que o Sporting poucas vezes conseguiu fazer grandes vendas de jogadores). 

Isto é o clichê do costume, de afirmar que não é preciso vender jogadores, quando as contas facilmente denunciam o contrário. Bruno de Carvalho usou-o como tantos outros dirigentes do nosso futebol. Há muita gente sem perceber que estamos em 2016, onde qualquer adepto pode olhar para um Relatório e Contas e perceber facilmente as necessidades e obrigações do seu clube. Mas o próprio recurso do Sporting diz o seguinte: «O Sporting poderia financiar o pagamento da sentença através da venda de jogadores». Assim sendo, o Sporting especifica que seria necessário fazer 25,5M€ em vendas de jogadores até ao fim de junho (na medida em que não era possível vender jogadores com o mercado de inverno fechado), de modo a ter dinheiro para pagar. E ainda houve espaço para a melhor justificação que o TAS já ouviu: «Tendo em vista a solidez financeira da Doyen, a Doyen não será exposta a nenhuma dificuldade financeira se o montante que lhe foi destinado pelo TAS não for depositado imediatamente». 

Ou seja, é esta a solução para o futuro do FC Porto: comprar jogadores ao Barcelona, ao Real Madrid, ao PSG e a todos os clubes sem dificuldades de tesouraria; depois é só mandá-los esperar, pois eles não precisam do dinheiro do FC Porto para subsistirem. Não é preciso negociar com mais fundos, nem procurar fontes alternativas de receita: é ficar a dever e mandá-los esperar até aparecer uma almofada. B de Bruno, B de Brilhante.

Sábado a rivalidade passa para o relvado. De um lado o FC Porto, do outro o Sporting de Jorge Jesus e Bruno de Carvalho. Quem estiver preocupado com o Benfica que fique à porta. 

domingo, 24 de abril de 2016

A memória de um golo

Aqui está uma frase provavelmente nunca antes construída: Rúben Neves fez lembrar Pepe. Em 2006, em plena pré-época, o FC Porto defrontou o Manchester United. Provavelmente, poucos se lembrarão desse jogo, de quem jogou, do resultado, mas lembram-se do balázio que Pepe enfiou na baliza inglesa.

Um golo para recordar
O dia de ontem (curiosamente também um jogo de pré-época), daqui a 10 anos, não será muito diferente. Um passe para dentro da baliza, um passe de Rúben Neves para as redes. Que grande golo. Poucos se recordarão da exibição, da equipa, mas lembrarem-se-ão desta obra prima de Rúben Neves, o mais parecido que vimos desde aquele golo de Lucho González em Hamburgo

Pouco mais haverá a reter. O FC Porto garantiu matematicamente o 3º lugar e não há mais a fazer do que conquistar a Taça de Portugal. O clássico deve ser encarado como ponto de honra e é para ganhar, obviamente. A luta pelo título já não diz respeito ao FC Porto, não interessa se quem vai ser campeão é o Benfica ou o Sporting. O que se sabe é que, no dia 30 de Abril, 11 jogadores vão subir ao relvado com o símbolo do FC Porto e que do outro lado vai estar o Sporting. Qualquer sentimento de desvalorização por perder com o Sporting, alegando que assim podem tirar o título ao Benfica, seria o maior atestado de pequenez da história do clube - bem mais vergonhoso do que os que festejaram o golo de Kelvin na casinha. 

Uma nota antes da análise ao jogo. Subitamente já há críticas a José Peseiro por fazer exatamente o mesmo que fazia Lopetegui: dizer que todos os jogos são difíceis, que todos os adversários são bons. Mas depois dos elogios maioritariamente injustificados ao Nacional, vimos José Peseiro dizer isto sobre a Académica: «Jogámos contra uma equipa que sofre poucos golos». Uma coisa é valorizar o seu trabalho com recurso aos chavões do costume, como por vezes Lopetegui fazia, outra é dizer inverdades destas, pois a Académica tem a 2ª pior defesa da liga e é a equipa que sofre mais golos em casa. José Peseiro é um otimista, mas pede-se um pouco mais de rigor nestas questões, mister. Pelo menos até 22 de maio.






Maxi Pereira (+) - O que define um jogador à Porto não é a ausência de erros, pois todos erram: é a forma como se reage a esse erro. Maxi esteve na origem do golo da Académica, com uma má cobertura defensiva, mas depois tomou-se por um inconformismo que o levou a ser um poço de força no corredor direito. Atacou, tabelou, cruzou, entrou na grande área, procurou o remate e não descansou enquanto não se redimiu do erro. No final do jogo, o merecido descanso.



Danilo Pereira (+) - A Académica foi apenas mais uma equipa que, com apenas dois homens no contra-ataque, consegue logo intimidar a defesa do FC Porto. Mas Danilo chegou para (quase) tudo. Muito bem nas dobras, a impor a capacidade de física e a ser referência não só no início de construção como na grande área adversária. Tudo isto aliado a uma capacidade de liderança que se faz sentir cada vez mais - Corona e Sérgio ficaram com as orelhas a arder durante o jogo.

Outros destaques (+/-) - Finalmente, Rúben Neves a apostar mais na meia distância. É um capítulo que precisa de melhorar no seu jogo - e curiosamente, os seus 2 golos esta época nascem de remates de longe. Imaginem o que seria Pirlo sem a capacidade de rematar. José Ángel continua a ser o jogador que melhor cruza de primeira e de forma tensa - o problema é que os outros aspetos do seu jogo não se aproximam da sua capacidade de cruzar. André Silva esteve incansável na pressão ao início de construção da Académica e movimentou-se sempre bem na grande área, embora vá sendo tempo de materializar o seu empenho num golo, que vai aparecer. Corona precisa de melhorar imenso a recepção de bola, mas está a melhorar bastante no passe - 85% de acerto e fez cinco passes para zonas de finalização (mais do que os 3 médios), além do seu papel defensivo, com sete ações de recuperação/desarme; faltou-lhe mais objetividade na procura do remate e no um para um. 






Condição física (-) - Estamos em abril, pelo que é normal que alguns jogadores já não estejam no seu melhor fisicamente. Mas José Ángel é pouco utilizado, e o próprio André Silva só tinha feito 89 minutos nas últimas duas semanas e meio. Ainda assim, vários jogadores estavam rebentados, inclusive com Ángel e André a sentirem cãibras. Por um lado, é bom: mostra que os jogadores estavam a dar tudo. Por outro, a condição física dos jogadores tem vindo a cair nos últimos dois meses - bem diferente do que aconteceu em 2014-15, em que a equipa estava muito melhor fisicamente. Não querendo associar isso diretamente à troca de preparadores físicos, uma equipa que luta por várias frentes tem que ter a certeza que está o melhor servida possível neste aspeto. Estará?

Descompensação (-) - A Académica não precisou de meter muita gente na frente para criar perigo, o que vem sendo crónico nos adversários do FC Porto. Só marcaram numa bola parada, mas a cobertura defensiva do FC Porto deixou sempre a desejar, sendo também um reflexo da ausência de Danilo do meio-campo - Rúben Neves não tem a capacidade física e defensiva do compatriota, embora dê outra capacidade de circulação à equipa. A linha defensiva do FC Porto nem sempre esteve - passe a redundância - alinhada da melhor forma, tanto que apesar da Académica procurar muitas vezes o espaço nas costas da defesa nenhum dos seus jogadores caiu na armadilha do fora-de-jogo. Depois quando faltam pernas, como faltou a Maxi no lance do livre, pode sair caro.

Subrendimento (-) - Varela apoia sempre bem as subidas dos laterais e procura bem o espaço interior, mas objetivamente não criou nenhum lance de perigo - nem um cruzamento ou um remate na retina. Para um jogador que está a queimar as últimas oportunidades de ir ao Euro 2016, esperava-se mais. Herrera, desta vez, acusou a falta de espaço no meio-campo da Académica e não conseguiu dar tanto nas vistas no ataque - à imagem de Sérgio Oliveira, muitas vezes a ir atrás pegar no jogo, mas sem servir os avançados, abrir espaços ou até tentar a meia distância. André André fez mais em menos tempo, com menos ritmo. Está a ter a sequência de jogos que Lopetegui achava que não merecia, por isso só depende dele próprio.

Uma semana para preparar um clássico em que nada mais interessa do que a honra de vencer. Muita coisa pode ter mudado no FC Porto, mas repugna imaginar que algum portista possa encontrar conforto num empate ou numa derrota num clássico. Primeiro o FC Porto, depois o FC Porto, depois o FC Porto. Só depois dos rivais.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Voucher Federação

Fernando Gomes vai, sem surpresa, ser reeleito presidente da FPF no início de junho. Quase numa espécie de périplo do futebol português, foi recolhendo apoios dos clubes pouco a pouco. Pinto da Costa questionou, na entrevista do início de abril, e bem, onde fica a Liga no meio de tudo isto: para que serve a Liga, que supostamente representa os clubes, se depois os clubes andam a conta-gotas a anunciar apoios a Fernando Gomes?

Não há que confundir as coisas. Fernando Gomes foi um bom gestor financeiro do FC Porto, que esteve diretamente associado ao ciclo de maior sucesso do clube e ao crescimento da SAD. Já enquanto presidente da FPF, Fernando Gomes tem contribuído para o tratamento marginal que o FC Porto tem recebido, como foi exemplo o ignorar de duas das maiores figuras do futebol nacional durante a Gala dos 100 anos da FPF, José Maria Pedroto e Pinto da Costa. As águas, pelo menos aqui, não se misturam. Apreço pelo homem que foi administrador da SAD do FC Porto, nada de positivo a dizer sobre o presidente da FPF.

Dito isto, aquilo que mais destaca da lista de Fernando Gomes: José Manuel Meirim passa a presidente do CD da FPF e José Fontelas Gomes é o novo presidente do CA. 

Na primeira entrevista do mês, Pinto da Costa disse que não podia apoiar Fernando Gomes, por não conhecer a sua lista. Já na sua última entrevista, o presidente disse isto, a propósito dos sucessores de Vítor Pereira e Herculano Lima: «Não sei quem vai para lá, porque o FC Porto não interfere nem tem nada a ver com isso». Ficou assim conhecida a posição do clube face a este tema na entrada para o novo mandato da SAD.

José Manuel Meirim foi uma surpresa. Era habitualmente o homem a quem a imprensa recorria para comentários sobre a justiça desportiva. Por hábito, poupa-se a considerações pessoais (uma mais valia) e limita-se a tentar interpretar e enquadrar os regulamentos. Agora vai presidir ao Conselho de Disciplina da Federação. Um grande passo, e desejemos que faça o melhor possível pela justiça desportiva. 

Mas recuemos até 2013 e a uma competição que não tem grande apreço por parte do FC Porto, a Taça da Liga. Todos se recordam do caso das 72 horas, a envolver Fabiano, Abdoulaye e Sebá. O CD concluiu e deliberou que o FC Porto não infringiu nenhuma regra. Mas se José Manuel Meirim fosse na altura presidente do CD da Federação, se calhar esta célebre capa do jornal A Bola já teria sido verídica.


Com isto podemos passar para a célebre história dos vouchers. A defesa do Benfica - aliás, de benfiquistas, pois o clube esteve sempre calado em todo o processo - que alternativa lhe sobrava? - insistiu sempre no tal limite de 200 francos, omitindo que esta norma é aplicada pela UEFA às competições europeias, não à liga portuguesa. Já os regulamentos da FPF, esses sim, indicam que só eram admitidas ofertas de valor simbólico e não-comercial. Mas as ofertas do Benfica, conforme foi analisado aqui, tinham valor comercial e não tinham defesa em quaisquer regulamentos. Ora e o que pensa José Manuel Meirim de tudo isto?


Com isto chegamos ao sucessor de Vítor Pereira, José Fontelas Gomes, o protagonista da palhaçada fresquinha, para quem oferecer jantares e artigos de valor comercial aos árbitros é normal, mas ceder material de banho a um árbitro - algo que segundo o CM o FC Porto fez a Artur Soares Dias - já deve ser passível de uma averiguação. Igualmente, Fontelas Gomes também sempre defendeu a prática do Benfica ao longo de todo o processo.

De recordar o seu papel na época 2014-15. Quando Lopetegui, praticamente o único elemento do FC Porto a contestar as arbitragens, se atreveu a dizer que não podiam ser o árbitros a decidir o campeonato, José Fontelas Gomes ficou ofendido. Curiosamente, a APAF nunca ficou ofendida com nenhuma das afirmações de Jorge Jesus ao longo dos últimos anos, nem quando João Gabriel falou de um campeonato que era «um tributo aos árbitros».

Nos últimos anos nenhum treinador do FC Porto acusou diretamente um árbitro de errar deliberadamente, de querer prejudicar o FC Porto ou beneficiar o Benfica. Jorge Jesus, não raras vezes, proferiu declarações bem mais graves em torno das arbitragens. Mas nunca mereceu nenhum reparo. Limpinho. Descubra as diferenças:


Fontelas Gomes conseguiu o apoio de ilustres árbitros como João Capela, Manuel Mota, Jorge Ferreira, Bruno Paixão ou Carlos Xistra, e enquanto presidente da APAF habitou-se a condenar publicamente o FC Porto sempre que falava das arbitragens; já sobre os ataques do Benfica, nem uma palavra. Quando João Gabriel disse que o título do FC Porto era um tributo aos árbitros, ninguém da APAF se revoltou; já aquando Pinto da Costa criticou Soares Dias em 2014, Fontelas Gomes levou de imediato as declarações do presidente do FC Porto ao Conselho de Disciplina.

Isto para concluir: José Manuel Meirim e José Fontelas Gomes. O que têm em comum? Ambos já se manifestarem publicamente de forma desfavorável em relação a FC Porto, ao mesmo tempo em que defenderam a legitimidade da prática do Benfica no caso dos vouchers. Condenaram o FC Porto, defenderam o Benfica, agora chegam a dois dos cargos mais importantes do futebol português.

Mas «o FC Porto não tem nada a ver com isso».