O FC Porto não personalizou a resposta às críticas, mas sentiu-as. Assim se explica a reação após Rui Moreira ter criticado o projeto Visão 611, cinco anos após o mesmo ter sido enterrado, e ter visado Antero Henrique.
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| Críticas do baú |
Para começar, saúde-se o facto do FC Porto ter, cinco anos depois, apresentado uma espécie de balanço do Visão 611. O pequeno Thumber saiu defraudado na filosofia que deu a conhecer ao mundo, mas basicamente a SAD emitiu um pequeno comunicado a defender que o projeto foi um sucesso.
Rui Moreira, face ao cargo que ocupa na cidade, faz com que as suas críticas tenham um mediatismo superior. Mas há que enquadrá-las. Quantos dos problemas do FC Porto se podem relacionar com o falhanço do Visão 611? Faz sentido lamentar agora um projeto enterrado há 5 anos? Na essência, parece claro que o FC Porto falhou por completo nos pressupostos do projeto, que visavam aumentar a quantidade de jogadores da formação na equipa A; contrariamente, desde o encerramento do projeto os gastos com contratações dispararam, nasceu a moda dos contratos de scouting, os erros de casting acumularem-se e a eficácia de contratações tem deixado muito a desejar, além da crescente influência/dependência dos fundos nas movimentações do FC Porto no mercado.
O que mais surpreende é que, há 15 dias, Rui Moreira votou na reeleição de Pinto da Costa para a presidência do FC Porto, tendo deixado uma mensagem de confiança. Mas não sabemos se não riscou o nome de Antero Henrique do boletim. Se o fez, estas críticas já fariam mais sentido - até porque há uma grande facção de adeptos que dizem confiar em Pinto da Costa, mas não nos seus parceiros do Conselho de Administração. Algo que não faz muito sentido, diga-se: como é que podemos confiar em alguém se esse alguém vai confiar nas pessoas erradas?
De qualquer forma, bastou Rui Moreira falar no Visão 611 para meter o seu balanço em discussão. O FC Porto nunca fez um balanço a propósito do projeto, e este comunicado na SAD ignora aquilo que eram as bases do projeto.
Nas análises já aqui feitas ao Visão 611, foi destacada a eficiência de o clube ter facilitado a ponte clube-escola, a modernização do modus operandi (mesmo que em muitos casos isto sejam planos teóricos que não produzem efeitos na prática) e a aposta especializada nos treinos (não treinar apenas um plantel: treinar defesas, treinar médios, treinar avançados). Isto foram os pontos positivos do Visão 611. Mas naquilo que interessava, o projeto foi um falhanço completo.
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| A importância desconhecida |
O FC Porto previa ter, a partir de 2011,
6 jogadores da formação na equipa A. Como o clube fez uma época memorável em 2010-11,
ninguém se incomodou com a ausência de jogadores da formação. Mas não foi cumprida a premissa mínima de qualquer projeto de formação: meter miúdos na equipa A.
No comunicado, o FC Porto associa a conquista da Liga Europa ao sucesso do Visão 611. Um disparate. A não ser que os jogos que Ukra fez contra o Genk e o Rapid Viena (Castro jogou 21 minutos contra as duas equipas, depois foi emprestado em janeiro) tenham sido decisivos rumo a Dublin. Não parece de todo ter sido o caso. Mas na defesa ao Visão 611, há quem amplie o seu propósito a todo o mercado, e assim defenda que contratações como Sapunaru, Guarín ou James foram da responsabilidade do Visão 611. Uma tentativa de defender o seu sucesso.
O FC Porto não passou a apostar mais na formação desde o encerramento do 611. Reparem que na última época antes do início do projeto, o FC Porto utilizou Hélder Barbosa, Postiga, Bruno Alves, Ivanildo, Hugo Almeida e Ricardo Costa. 6 jogadores da formação, que era quanto o projeto visava incluir a partir de 2011. Já em 2011-12... Kadú jogou 8 minutos na Taça de Portugal. Só isto.
«O impacto do projeto Visão 611 pode ainda ser percetível nas dezenas de jogadores formados pelo FC Porto e que se encontram a disputar os campeonatos profissionais portugueses». Como disse? Mas o FC Porto criou este projeto de formação para meter jogadores na equipa A ou para andar a fornecer jogadores ao Rio Ave, ao Paços de Ferreira ou ao Vitória de Setúbal?
Em 2009, o FC Porto apresentou no Vitalis Park as duas equipas de sub-13 e sub-14 que iriam ser a bandeira para os próximos anos. Da equipa de sub-13 não sobra ninguém no clube. Na equipa de sub-14 contam-se pelos dedos os sobreviventes: Andorinha, Diogo Verdasca (se o Visão 611 tivesse sido um sucesso tão grande, se calhar tinha sido ele a jogar nestes últimos meses; aliás, o FC Porto sempre teve uma grande escola de centrais, mas nos últimos 10 anos não formou nenhum central para se afirmar na equipa A), Rui Moreira (ironicamente, um homónimo do presidente da CM Porto) e Rúben Macedo.
Entretanto, quando Rúben Neves apareceu na equipa A e Lopetegui deu alguns minutos a Gonçalo Paciência, tentou retirar-se o 611 da gaveta, ao recordar o Projeto de Jogador de Elite. Faltou só dizer que quando Pepijn Lijnders saiu para o Liverpool, o projeto morreu. É um facto que esta vertente de treino ajudou a desenvolver alguns dos nossos jogadores (Rafa, Podstawski, Rui Moreira, Graça, Leandro, Macedo, Sérgio Ribeiro, Bruno Costa, Rui Pedro, entre duas dezenas de jogadores). Falta saber se isso vai ter impacto na equipa A, que é o que interessa. Mas com a saída de Pepijn, viu-se que era mais um projeto de um homem do que um projeto de um clube.
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| Revolução sem proveito |
Além disso, é difícil identificar que jogadores formados do FC Porto durante o projeto Visão 611 estão a brilhar nas «
principais ligas europeias». A sério, ajudem. Já para não falar que o FC Porto não fez nenhuma grande venda com jogadores da formação durante esse período. Tendo como referência as despesas inerentes a contratações/negociações de jogadores como Kayembé, Djim ou Abdoulaye, o dinheiro gerado com a venda de jogadores saídos da formação do FC Porto cobre sequer o dinheiro gasto em jogadores estrangeiros que nunca chegam a ser opção válida de equipa A?
Aquando da apresentação do projeto, Antero Henrique garantiu também a existência de uma «equipa sombra», que o FC Porto tinha como referência antes de cada ataque ao mercado. Neste momento, alguém acredita na existência, ou utilização, dessa «equipa sombra»? E quais são os custos da elaboração de uma equipa sombra? Implicam contratos de scouting?
Como grande curiosidade, este texto da «
revolução chamada Visão 611», muito elogioso para com o FC Porto e publicado em 2009, é da autoria de Francisco J. Marques, agora mais conhecido entre os portistas pelos textos do Dragões Diário, e na altura explicava que o projeto ia muito além da formação, pois também estava implicado no modelo de compra-valorização-venda. Mas há a destacar este excerto: «
Em 2006 houve uma mudança radical na forma de trabalhar e os resultados só devem começar a surgir na plenitude dentro de seis, sete anos». Se tomarmos como referência os sete anos, desde 2013 o FC Porto não voltou a ganhar títulos e desde então atravessa uma das maiores crises desportivas da sua história.
Concluindo, e pegando nas críticas de Rui Moreira: é tudo culpa do projeto Visão 611? Não, certamente não. Mas se o Visão 611 visava ser solução para alguma coisa, deixa muito a desejar.
PS: As malas é que estão a dar. De todo este barulho que não leva a lado algum, Carlos Pereira, presidente do Marítimo, deixou uma afirmação muito sugestiva: «Isto pode virar-se contra o Benfica». Ele sabe porque é que afirmou isso. O Benfica também. E o Sporting também. O Benfica sabe porque é que tanto questionou o choro do Arnold. E sabe porque é que mandatou Pedro Guerra para falar das malas para o Vitória de Guimarães: porque não há vergonhosa, escrúpulos e reina a hipocrisia para os lados da Luz. E o Sporting também sabe porque é que pode estar tranquilo neste assunto: porque do outro lado não há moral para falar.
E com isto, na óptica do FC Porto para a época 2015-16, os adeptos questionam: o que é possível fazer com vista a punir os eventuais incentivos oferecidos por Benfica e Sporting para perderem pontos contra os respetivos adversários?
Se estivéssemos a falar de uma competição sob tutela da FPF, haveria matérias para as duas equipas perderem pontos:
Mas o que acontece numa competição que é da responsabilidade da Liga?
Eis a nossa liga. No campeonato português, o máximo que pode acontecer a um clube que oferece ilícitos a clubes terceiros é pagar uma multazita. Não perdem pontos, não são suspensos, não são desqualificados. Nada. O máximo que acontece é pagarem uma multa. Quem tem dinheiro para meter por baixo da mesa para motivar os adversários, também tem dinheiro para pagar multas de 25 mil euros. Peaners. Aliás, reparem bem: Pedro Guerra disse que foram oferecidos 350 mil euros ao Vitória de Guimarães (o Sporting não ajudou o José Pina a descobrir quanto oferece o Benfica? Então, Bruno?). A multa máxima prevista nos regulamentos é de 25,5 mil euros. Ou seja, pagar a multa por oferecer incentivos é quase 14 vezes mais barato do que o próprio incentivo do Sporting. Sai mais barato do que pagar IVA. Eis o nosso futebol.
Por isso, isto é uma discussão de manifesta inutilidade, porque o próprio Regulamento Disciplinar da Liga não oferece consequências graves a quem recorrer ao jogo da mala. Irão Pedro Proença, presidente da Liga, José Fontelas Gomes, novo presidente do CA, e José Manuel Meirim, o novo presidente do CD, propor alterações a este nível? Esperem deitados, porque sentados causaria dores no cóccix. O futebol português não tem interesse em punir as equipas que oferecem e aceitem incentivos. Vá-se lá saber porquê.