domingo, 5 de junho de 2016

Não faz sentido, Zé

O Tribunal do Dragão celebra hoje o seu 2º aniversário. E desde o primeiro dia, há um dilema que se mantém. Por um lado, a defesa do clube, dos seus jogadores; por outro, não perder o sentido crítico quando ele se impõe, e entender que a postura de um portista não deve ser um filme realizado por Peyton Reed em 2008.

Daí que as contratações de Marega e Sami tivessem sido, neste espaço, criticadas ainda antes dos jogadores poderem mostrar o seu valor. Mas o problema é esse: saber/prever, à partida, que não iriam ter valor suficiente para mostrar ao serviço do FC Porto.

Nenhum clube acerta em todos os jogadores. Mas há casos tão flagrantes que chega a ser assustador imaginar que alguém, no FC Porto, viu qualidades em determinado jogador para chegar à equipa. 

Os adeptos, muitas vezes, deixam-se levar pelo impulso. Basta ver 15 minutos, ou um best-off no Youtube, e já conseguem imaginar mil e uma qualidades que não existem, ou que só se revelam em determinado contexto. Mas num clube profissionalizado como o FC Porto, com um departamento de scouting de eleição e no qual se implica máximo rigor na observação de potenciais reforços (por questões desportivas e também financeiras), isso não pode acontecer. 

As críticas não são feitas aos jogadores: são feitas à contratação dos jogadores. Sami ou Marega não têm culpa que lhes tenham apresentado contratos de longa duração, os melhores que alguma vez teriam em toda a carreira, à frente. Assinaram, com grande felicidade, e de certeza que estavam a viver um sonho. Provavelmente, sentem mais alegria e gratidão em assinar pelo FC Porto do que um Imbula ou um Osvaldo. Mas depois sobra um problema: não ter qualidades para jogar a este nível.

E com isto chegamos a Zé Manuel, uma contratação que não faz sentido absolutamente nenhum, e chega a ser irrisória a forma como o jornal O Jogo se pronuncia sobre a sua contratação: assinou até 2021, mas depois Nuno Espírito Santo é que saberá se fica com o jogador. É para rir? Dão-se contratos de 5 anos a jogadores para os quais nem se sabe se haverá planos?

A contratação de Zé Manuel não faz sentido, seja de que perspetiva for. Lembremos o que escreveu o MaisFutebol: «O avançado Zé Manuel, do Boavista, assinou contrato com o FC Porto até junho de 2021. A ligação do atacante é válida por cinco anos, apurou o Maisfutebol, e foi rubricada no passado mês de fevereiro»

Então, Zé Manuel terá assinado em fevereiro. Vejamos o que andava Zé Manuel a fazer por essa altura no Boavista...


Portanto, estamos a falar de um suplente do Boavista. Uma alternativa a jogadores como Luisinho ou Renato Santos. Que qualidades terá alguém vislumbrado em Zé Manuel para o imaginar como reforço do FC Porto nessa altura? Falamos de um jogador de 25 anos que só chegou à primeira liga, em 2013, por ter sido promovido juntamente com o Boavista. O mesmo Boavista onde nem sequer era titular - e se era, era por as alternativas não serem da mais elevada qualidade.

Mas imaginemos que o FC Porto não contratou Zé Manuel em fevereiro. Se assim for, esta contratação faz ainda menos sentido. Pinto da Costa disse isto na sua última entrevista: «Para estabilizar a equipa, os jogadores têm que vir para ganhar e ficar. O objetivo não é comprar cinco ou seis futebolistas, mas acertar nos que queremos, dar-lhes a estabilidade possível e mantê-los o maior número de anos».


Apostar na contratação de titulares, dizia o presidente. Bem, para começar, contratámos um suplente do Boavista. Depois, segundo o que diz O Jogo, nem sequer sabemos se a primeira contratação para a época 2016-17 terá lugar no plantel. Nada, nada faz sentido. 

Não são palavras simpáticas para Zé Manuel, mas o que está em causa não é o jogador: é a sua contratação. Zé Manuel não tem qualidade para ser reforço do FC Porto. O FC Porto tem uma dúzia de avançados nos seus quadros melhores.

Um exemplo? Ivo Rodrigues. 21 anos, um dos talentos da nossa formação, com uma boa época no Arouca na sua estreia na primeira liga (tendo em conta que os quatro meses que passou emprestado ao V. Guimarães foram uma asneira). Ivo Rodrigues, no Boavista, seria titularíssimo. Sami também. Hernâni também. Kayembé também. Licá também. Kelvin também. Qualquer um destes jogadores é melhor do que Zé Manuel e não tem/teve espaço/qualidade para jogar no FC Porto. Então o que esperam exatamente de Zé Manuel?

Que sinal é este para os recém-consagrados bicampeões de juniores Bruno Costa, Mesquita ou Luís Mata? Que sinal é este para talentos muito superiores como Rúben Macedo ou Ivo? E para jogadores como Gleison e Ismael, que não pertencem (ainda) ao FC Porto e viram Zé Manuel ser contratado antes deles? E mais: que sinal é este para os adeptos, que (ou)viram Pinto da Costa prometer a contratação de titulares e um maior critério na abordagem ao mercado?

Quem leva Zé Manuel para o FC Porto deveria vir a público explicar a sua contratação. Não foi José Peseiro quem o pediu, nem Lopetegui, e contrataram Nuno sem saber o que fazer ao jogador. Se os treinadores não podem ser implicados, então quem viu qualidades em Zé Manuel que nos ajude a descobri-las. É que já em jogadores como Sami e Marega não tivemos ajuda e acabámos por não conseguir ver qualidades nos jogadores.

O Jogo diz que Zé Manuel terá um vencimento de 12 mil euros mensais. São valores brutos ou líquidos? É que mediante o caso, podemos estar a falar de um contrato de mais de 1,2M€, tirando eventuais comissões e prémio de assinatura, por um jogador que não calçará no FC Porto. Quantos contratos profissionais poderiam esses 1,2M€ fazer para os nossos bicampeões de sub-19?

Mas se o caso correr mal com Zé Manuel, então talvez possamos contar com a ajuda de João Pinheiro, da Goldfoot, que em abril tinha negado que Zé Manuel tivesse acordo com o FC Porto. Foi esta empresa que apresentou Slimani ao Sporting em 2013 (o mesmo ano em que o FC Porto pagou 10 vezes mais por Ghilas - que se calhar marcaria 15 golos neste Boavista). E João Pinheiro disse isto a Bruno de Carvalho:

«Bruno de Carvalho estava mesmo apostado em Slimani e perguntou-me: é jogador para o Sporting? Garanti-lhe que sim e disse-lhe mais, que se o jogador não correspondesse, a empresa ressarcia a SAD nos 300 mil euros».

Se quiser, o Sporting fará já de Slimani o jogador mais caro da história do clube (convenhamos que não será difícil, pois para fazer a 2ª maior venda da sua história, em 2010, o Sporting teve que vender o seu capitão ao FC Porto). Falamos de um jogador que marcou 31 golos no último ano, com talento natural para fazer golos e que foi um achado para o Sporting. E a Goldfoot diz que prometeu ao Sporting reembolsar a SAD se não gostassem do jogador (de certa forma, a mesma promessa de Jorge Mendes aquando do caso de Adrián López).

Assim sendo, esperemos que o FC Porto tenha salvaguardado os seus interesses e que tenha assegurado junto da Goldfoot as mesmas garantias que a empresa apresentou ao Sporting com Slimani. Diga-se que a Goldfoot (que representa jogadores que saíram a mal do FC Porto, Fucile e Rolando) ainda não confirmou qualquer envolvimento na transferência de Zé Manuel, mas são informações que a seu tempo virão a público por via oficial.

Até lá, resta aguardar que alguém explique o que pode a contratação de Zé Manuel oferecer ao FC Porto.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

As contas do 3º trimestre 2015-16

- A SAD teve proveitos de 57,367M€ até ao momento (leia-se, até 31 de março). Como não houve receitas da UEFA no terceiro trimestre, esta rúbrica aumentou apenas 14,613M€ nos últimos três meses. Destaque para as receitas de publicidade e sponsorização, que quase dobraram no espaço de três meses, para 10,721M€. A barreira dos 13M€ parece estar ao alcance, o que permitirá à SAD tentar bater o recorde de receitas de publicidade em 2015-16.


- No segundo trimestre, o ponto «Outras Prestações de Serviços» tinha rendido 3,903M€. Agora, no 3º trimestre, a SAD indica que rendeu 3,873M€. Tendo em conta que todas as alíneas da rúbrica de proveitos incluem, por norma, os últimos nove meses, e não apenas os últimos três, anote-se a diferença. 

- Os custos com pessoal são praticamente idênticos aos do 3º trimestre de 2014-15, na linha do que estava previsto. A redução de 700 mil euros dever-se-á essencialmente às saídas de Imbula, Tello ou Osvaldo, jogadores que eram dos mais bem pagos no FC Porto, caso contrário a massa salarial seria maior. Quando se mantém a elevada estrutura de custos, perdem-se (ou não se chegam a ganhar) receitas da UEFA e ainda não se gerou as mais-valias necessárias com jogadores, só pode resultar em prejuízos enormes.

- No primeiro trimestre, o FC Porto gastou 17,22M€ em salários. No segundo, 19,578M€. No terceiro, 16,732M€. Para cumprir com os valores que estavam orçamentados, no último trimestre não pode gastar mais do que 15,362M€. 

- Prejuízo de 37,904M€ ao fim do terceiro trimestre. Para cumprir o orçamento, a SAD necessita de apresentar lucro de 1,793M€ no final de junho. Além de haver quase 40M€ para recuperar até 30 de junho, a não sustentabilidade da SAD, que tem mais despesas do que receitas operacionais, implica que será necessário ainda mais para recuperar.


- De lembrar que para cumprir o orçamento a SAD tem que apresentar um resultado líquido de 1,793M€. Já para cumprir o fairplay financeiro, não pode apresentar prejuízos superiores a 8,6M€.

- Tudo depende, como se sabe, da venda de jogadores. O resultado com a venda de transações de passes foi, até ao momento, de 29,989M€. A SAD tinha previsto um resultado de 72,591M€, pelo que a SAD terá que fazer mais 42,6M€ até 30 de junho para chegar a estes valores. Não esquecendo que estavam previstos 27,347M€ de receitas da UEFA, agora situadas nos 11,698M€ (por não ter ido aos 1/8, nem conseguido o apuramento direto para 2016-17). Ou seja, também será necessário cobrir o défice da UEFA.

- Os capitais próprios desceram 37,066M€ desde o início da época, estando agora nos 46,037M€. O ativo está situado nos 336,894M€ (menos 12,786M€) e o passivo nos 290,857M€ (aumento de 14,725M€). Apesar da queda abrupta, a situação de falência técnica está afastada da SAD, essencialmente graças aos efeitos que ainda prevalecem da operação Euroantas. É a única SAD dos três grandes a ter capitais próprios positivos, mas também é a única a ter que lidar com um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14 nas contas para o fairplay financeiro.

- A SAD comprou mais 2,5% do passe de Aboubakar por 300 mil euros, tendo agora, à partida, 40% do seu passe. Suk custou 1,5M€, por 70%, e Marega 3,8M€, por 100%. A SAD não discrimina o preço de José Sá e as comissões envolvidas nos reforços de inverno.

-  Os encargos relacionados com aquisições de passes de jogadores aumentaram 1,912M€ comparativamente a janeiro, pelo que aqui poderão estar incluídas as comissões pagas por Suk, Marega e José Sá (neste caso também o preço do guarda-redes).

- O valor total de aquisições para o plantel ascende a 56,045M€, para um total de 13,171M€ de encargos (23,5% de impacto). O segundo maior impacto da SAD, só ultrapassado por 2013-14 (ler mais aqui), curiosamente duas épocas em que o FC Porto acaba no 3º lugar do campeonato. Sempre se pagaram comissões, mas nunca se pagou tanto por tão pouco retorno desportivo.

- No 1º trimestre, a SAD informou que pagou serviços de intermediação a 14 agentes/empresas. No 2º trimestre, manteve 14 entidades, mas com duas alterações: Ricardo Rivera e Pedro Regufe deixaram de estar na lista, e por sua vez entraram a C.B.Nafricatalentssport a Gopro Sport Management. Agora entram: «Vela Management Limited RAMP - Management Group International[,] Jorge António Berlanga Amaya, Team Management, Ricardo Calleri, Onsidefoot Malta Limited». A lista da FPF não ajuda a perceber estas intervenções. Na lista da FPF não há nenhuma operação a envolver Ricardo Calleri ou a Onsidefoot (há apenas menção de intermediação de Fabián Cuero, para o Braga B); da RAMP sabe-se ter estado envolvida em Chidozie, com a novidade de estar associada a uma empresa do universo Doyen; sobra Berlanga Amaya, que negociou Layún e Gudiño, no início da época. Curiosamente, na lista da FPF aparecem intermediários de Marega (Ben Aissa Abdelaziz) e Suk (Paulo Filipe Duarte Dias) que não são mencionados neste R&C da SAD.

- Imbula, conforme previsto, gerou uma mais-valia de 3,867M€. A intermediação foi feita pela Kick International Agency B.V., sociedade próxima de Luciano D'Onofrio. 

- O FC Porto teve proveitos de 2,315M€ com jogadores emprestados, mas contrariamente teve custos de 2,835M€. 

- O FC Porto comprou mais 10% do passe de Hernâni, enquanto esteve emprestado ao Olympiacos. O FC Porto comprou mais 0,5% do passe de Diego Reyes enquanto esteve cedido à Real Sociedad (curiosa a questão dos 0,5% - já tinha sido cedido uma idêntica percentagem aquando da contratação de Otávio). Embora a SAD tenha anunciado a compra de mais 10% de Aboubakar, na lista dos ativos do plantel o avançado continua com 37,5% do passe. 

- O FC Porto informa que deixou de ter qualquer percentagem do passe de Caballero, avançado «alienado a outro Clube ou Sociedade Anónima Desportiva durante a época desportiva 2014/15». Há um ano tinha 70% (quando foi contratado era a 100%, desconhecendo-se a quem e por quanto foram cedidos 30%) e no R&C do primeiro semestre o seu nome não apareceu. Recordemos que Caballero fez capas n'O JOGO como potencial sucessor de Jackson (teve direito a manchetes antes de André Silva) e, há três anos, segundo o seu advogado custaria 365 mil euros por direitos de formação; o caso envolveu um litígio e a FIFA posteriormente deu razão ao FC Porto e declarou que Caballero chegaria «como jogador livre»; mas a SAD pagou 1,53 milhões de euros à sociedade MHD, S.A. Agora, aparentemente, Caballero já não pertence ao FC Porto. E ninguém deu por isso.

- A dívida de 2,125M€ de Fluminense por Walter, que estava intocável há já vários trimestres, já não se encontra na lista de clientes da SAD (entretanto apareceu uma dívida de 0,5 do Atlético Paranaense). O Marselha também deixou a lista de clubes devedores. O FC Porto tem a receber 47,793M€ de outros clubes no prazo de um ano; e mais 9,623M€ em prazo não corrente, por Alex Sandro e Imbula. Apareceu uma dívida de 300 mil euros da Real Sociedad, possivelmente por Diego Reyes. A dívida do São Paulo é a mesma que no final de dezembro, o que indicia que Maicon terá sido emprestado sem encargos. A rúbrica de Fornecedores não aparece no R&C (em dezembro a SAD devia 41,846M€ a outros clubes).


- No final de março, esta era a situação da SAD no dinheiro em caixa:

- Nos empréstimos bancários, a dívida total reduziu de 170M€ para 158,48M€. A dívida corrente baixou mais de 11M€, enquanto a não corrente manteve quase inalterável.  A taxa média anual aumentou de 5,79% para 6,07%.

- A SAD já começou a recorrer às receitas de patrocínios da MEO/PT, tendo já hipotecado as da época 2015-16 e 2016-17. Isto devido a um empréstimo de 7,45M€ feito no mês de março com o Banco BIC, que vence em julho de 2017 e será amortizado mensalmente a partir de 1 de agosto. 

- A dívida de 10,5M€ ao Banco Carregosa, que tinha sido aberta em outubro de 2015 e tinha data de vencimento em outubro de 2017, já foi toda paga, pois o passe de Imbula estava penhorado. Como Imbula já foi vendido, a dívida já foi paga. A redução da dívida bancária do FC Porto deve-se então essencialmente à saída de Imbula. 

- Já não há Letras Descontadas na SAD, após terem sido pagos 5M€ ao Montepio, pelos direitos televisivos a receber da PPTV. Faltam 10,1M€ para acabar de pagar o Estádio do Dragão, o que está previsto para 2018.

O R&C final da época 2015-16 será conhecido em outubro.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

38 passos para a transparência

Chegou o dia em que O Tribunal do Dragão tem um elogio para a Federação Portuguesa de Futebol. Na verdade, nem chega a ser um elogio, pois não está mais do que a cumprir a sua obrigação, mas tecnicamente, com as novas regras para intermediários de jogadores, cada empresário passaria a ter direito a receber apenas 3% de uma transferência ou 3% do contrato do jogador que intermediasse. Não é isso que se tem verificado na esmagadora maioria dos clubes. 

Com as novas regras da FIFA, todas as Federações passam a estar obrigadas a declarar a que intermediários os clubes pagaram por cada jogador. Só não estão discriminados os valores envolvidos por cada jogador. Era pedir muito, talvez.

De qualquer forma, a FPF já divulgou a lista, que compreende o primeiro ano em análise, de 1 de abril de 2015 a 31 de março de 2016. Mas aparentemente isto não foi notícia em nenhum órgão de comunicação social. Não era de interesse público? Sim, é. E por isso cá vai:


Sem surpresa, FC Porto e Benfica são os clubes que mais comissões pagam. O FC Porto é quem mais gasta, com 11,789M€, e o Benfica também supera os 10M€. O Sporting gastou quase um terço do FC Porto no mesmo período, com pouco mais de 4M€. 

Curiosamente, 9 jogadores apareceram no papel de outorgante, contratualizando um total de 65,8 mil euros em comissões. O mais conhecido é Coates, do Sporting.


Esta lista mostra relações entre jogadores e empresários que se desconheciam dos R&C das diversas SAD. No universo FC Porto, que é o que mais importa, destaca-se o facto de terem sido feitos 38 pagamentos diferentes a empresários que trataram de transferências ou renovações de contrato de jogadores do FC Porto.

Por ordem alfabética, Alexandre Zahavi foi o intermediário das renovações de Héctor Herrera e Bruno Costa, dos sub-19. Deco, que agora trabalha próximo de Jorge Mendes, foi o intermediário da renovação de João Graça, um dos melhores da equipa B. Tanto Zahavi como Deco são empresários já conhecidos, mas também surge a intervenção de nomes desconhecidos para o grande público.

É o caso de Ben Aissa Abdelaziz, o intermediário de Marega. Carlo Cutropia trouxe Casillas e a Cantera Latina intermediou Jesús Corona (um exemplo de informação que já se conhecia dos R&C do FC Porto). 

Carlos Gonçalves foi o responsável pela renovação de Gonçalo Paciência e pela vinda de Miguel Layún. Delmenico Maurizio, conhecido parceiro de Luciano D'Onofrio, trouxe Imbula. Edmund Chu, ligado à Vela (empresa do universo Doyen), foi o responsável por Chidozie e Chidera Ezeh. Confirma-se também a intervenção de Paco Casal por Maxi Pereira.

Frank Justin Trimboli, com este nome, só podia ter o intermediário de um jogador: Pablo Osvaldo. Frederico Mathias Moraes intermediou dois brasileiros: a venda de Kléber e a chegada de Ronan, para a equipa B.

Gines Carvajal Seller trouxe Alberto Bueno, Hélio Martins tratou da renovação de Andorinha e a Gopro Sport Management foi responsável pela compra de Víctor García. O empresário João Pedro Cardoso Araújo interveio na contratação de André André e na renovação de Diogo Leite, um dos campeões europeus de sub-17. 

Jorge António Berlanga Amaya esteve envolvido no negócio Gudiño e na contratação de Miguel Layún, ao qual também esteve associado Carlos Gonçalves. 

José Caldeira, além da já conhecida intervenção na renovação de Rúben Neves, também tratou da renovação de outro jovem da formação, Sérgio Ribeiro. José Pedro Silva Maia Pinho, da Energy Soccer (de Alexandre Pinto da Costa), surge aqui como intermediário na vinda de Fede Varela. Já Jussara Mary Silva Correia, da Onsoccer, tratou da renovação de Rafa Soares. 

Kevin Caruana foi o intermediário da vinda de Sérgio Oliveira e Luís Machado esteve encarregado da renovação de Silvestre Varela. Matías Bunge, muito ativo no mercado mexicano, também esteve a cargo do empréstimo de Ismael Díaz. Palmer-Brown, emprestado à equipa B, veio pela mão de Michael Gartland.

Mohamed Afzal, conhecido pela proximidade com Antero Henrique, intermediou a vinda de Aly Cissokho. Oliver Cabrega surge confirmado como o intermediário por Danilo Pereira. Paulo Duarte Dias intermediou Suk e Pedro Regufe trouxe Ayoub do Barcelona. A Proeleven recebeu uma comissão pela cedência de Josué ao Bursaspor. 

Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente. 

Ricardo Rivera também surge confirmado como tendo tido intervenção em Jesús Corona, tal como a Cantera Latina. A terminar, aparece em último lugar da lista a Vela, pela renovação de contrato com Brahimi. 

Uma lista por certo muito incompleta, mas que ajuda um pouco à transparência do nosso futebol, nomeadamente no mercado de transferências.

Para download da lista completa.

PS: Nuno Espírito Santo e a sua equipa técnica já foram confirmados e apresentados no FC Porto. Nada mais resta do que esperar pela pré-época. Até lá há um plantel para (re)construir e uma época para preparar. Não foram declarados objetivos concretos para os próximos 2 anos (ao contrário do que fez José Peseiro quando chegou em janeiro), o que até seria prematuro fazer, tendo em conta todo o trabalho que haverá a desenvolver nas próximas semanas. Como disse Nuno, «Porto é muito mais do que palavras», por isso feitas as apresentações e cerimónia dos habituais lugares-comuns, é tempo de trabalhar, pois agosto já será um mês de grandes decisões. Até lá, continuamos a análise ao plantel de 2015-16 e ao recém-publicado Relatório e Contas do 3º trimestre da SAD

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Manifesto da fé possível

No processo de escolha do treinador, é mais ou menos consensual que a escolha não seria... consensual. Nunca é, diga-se. Mas há perfis que correspondem mais às necessidades do presente do que outros.

A escolha de Pinto da Costa
Neste caso, a escolha de Pinto da Costa, Nuno Espírito Santo, mostra que o FC Porto não vai mudar. Vai continuar a apostar num treinador que vem para o FC Porto para tentar vencer pela primeira vez, em vez de procurar apostar num treinador já experimentado, com títulos, com experiência internacional (algo que é difícil conjugar com um bom conhecimento do campeonato nacional, diga-se), capaz de apostar em jovens enquanto faz evoluir jogadores e capaz de se ajustar a um plantel sob constantes alterações.

Não é que o FC Porto não seja capaz de os ir buscar. Claro que é, pois quem teria dinheiro para cobrir o contrato de Jorge Jesus com o Sporting, ou teve dinheiro para comprar Marega em janeiro, então tem dinheiro para um bom treinador. Não vai porque não quer, não é por não haver capacidade financeira. 

Mas Pinto da Costa insiste na sua fórmula de sempre. Como Mourinho, como Villas-Boas, como Paulo Fonseca, como Lopetegui: treinadores sem títulos a nível de clubes, com pouca experiência, que vêm para o FC Porto para tentar ganhar pela primeira vez. A questão é: o FC Porto é um clube que proporcione essas condições?

Tomemos o exemplo de Rui Vitória. Não era um treinador para chegar a uma equipa grande e ser campeão. Prova disso é que os seus primeiros meses foram um desastre e esteve à beira de sair do Benfica. Mas conforme foi analisado aqui, aguentou-se com circunstâncias que dificilmente existiriam no FC Porto. Ter a influência que o Benfica tem na Federação, na Liga e nas pastas da arbitragem ajuda. E não ser isolado sempre como o único/principal responsável pelos maus resultados da equipa também. 

Não deixa de ser curioso que quem subscreve esta contratação de Nuno Espírito Santo fala essencialmente sobre uma coisa: sobre a garra, sobre a mística, sobre o Ser Porto. Isso é tudo muito, muito importante. Mas não basta o ADN do Ser Porto: é preciso o ADN da competência.

Pinto da Costa não chegou a melhor presidente da história do futebol por ser portista: fê-lo por ser um portista competente. Nomes sagrados da nossa história, como João Pinto, André, Fernando Gomes ou Baía, não se tornaram ícones do futebol apenas por serem portistas: mas sim por serem portistas competentes. Jesualdo Ferreira ou José Mourinho não eram portistas: mas eram competentes. Licá é um grande portista: mas a nível técnico-tático não é suficiente.

Portanto, não vale a pena alimentar os romantismos e imaginar que basta entender a tal mística. Não basta Nuno Espírito Santo chegar à apresentação e falar da mística e do Ser Porto (expressão que por certo vai repetir algumas vezes). É fácil empolgar os adeptos do FC Porto no curto prazo, basta gritar as tais palavras de ordem, falar da garra e da mística. Mas no médio prazo, o que fará a diferença será sempre a competência de Nuno Espírito Santo naquilo que possa controlar. Quando o play-off da Champions terminar, já vai haver muita gente a mudar a opinião sobre Nuno; resta saber se para o bem ou para o mal. 

Mais do que discutir neste momento o portismo, interessa discutir o que pode Nuno oferecer ao FC Porto nas funções de treinador. É um treinador pouco experiente, e não é por ter trabalhado junto a José Mourinho que isso muda (quantos ex-jogadores ou adjuntos de José Mourinho estão a ter grandes carreiras a solo? E porque é que Rui Faria nunca quis arriscar? Pois...). Há uma teoria que diz que guarda-redes nunca chegam a grandes treinadores, mas a regra só existe até haver exceções.

A época 2013-14 de Nuno, no Rio Ave, foi francamente má. Depois de um início bastante razoável em 2012-13, onde foi 6º classificado (o mesmo que Pedro Martins este ano, portanto), o Rio Ave foi uma das equipas que pior futebol praticava. Foi apenas 11º no campeonato, com destaque para o facto de ter ganho apenas 2 jogos em casa e de ter marcado apenas 10 golos. É muito pouco.

Fora de casa, o Rio Ave era mais forte, porque jogava como Nuno queria: linhas mais baixas, transições rápidas. Sempre que jogava em campos sem espaço, o Rio Ave de Nuno tinha imensas dificuldades. É por isso que era uma equipa que não conseguia assumir o jogo quando jogava em casa. Fez uma boa campanha na Taça de Portugal, ao ir à final, mas essa competição não foi a regra, foi a exceção. A Taça até Pedro Emanuel ganhou-a.

No Rio Ave, Nuno teve condições sem igual. Jorge Mendes colocou ou estava ligado a muitos jogadores no Rio Ave (Marcelo, Felipe Augusto, Tiago Pinto, Ederson, Ukra, Diego Lopes, Alberto Rodríguez, Roderick, Luis Gustavo...), o que não é surpresa. Jorge Mendes é um empresário que está a apostar muito em Nuno. A amizade deles já é conhecida. 

Rezam as crónicas que se conheceram numa discoteca em Caminha, tinha Jorge Mendes 30 anos e não mais do que um pequeno clube de vídeo e um acordo publicitário no Lanheses. Nuno foi o primeiro jogador que ele ajudou a intermediar, e a partir daí nasceram os laços que se conhecem. Colocou Nuno duas vezes no FC Porto, e de todas essas passagens só se guarda uma grande exibição de Nuno (em Braga, na noite do hat-trick de Jankauskas), com destaque para o facto de ter ganho a Intercontinental sem ter feito uma única defesa (pé frio não deve ser, de certeza). 

Que outro treinador, em plena conferência de imprensa, telefona ao empresário a dizer que o adora? Só Nuno. E que outro treinador admite, sem rodeios, que só foi para determinado clube por causa de Jorge Mendes? Nuno, que admitiu que só foi para o Rio Ave e, posteriormente, Valência por ser representado por Mendes. 

A ligação de Jorge Mendes a Nuno Espírito Santo não há-de ser a coisa mais prejudicial para o FC Porto. O FC Porto só contrata jogadores ligados à Gestifute se assim o quiser. Aliás, o FC Porto poucas vezes contrata jogadores da Gestifute - o que faz é recorrer a Jorge Mendes quando chega a hora de vender os jogadores, por ser o empresário que melhores negócios faz. De certeza que o facto de Nuno ter Mendes como empresário não há-de gerar mais conflitos de interesse do que pagar comissões a irmãos ou filhos de membros do Conselho de Administração. 

O trabalho de Nuno no Rio Ave não recomenda em nada a sua ida para o FC Porto. E no Valência? Na primeira época houve claramente uma grande evolução. O seu Valência já era capaz de assumir-se a jogar em casa (onde só perdeu uma vez na Liga), e acabou por cumprir os objetivos no limite. Se é verdade que ficou a um ponto do 3º lugar, também é verdade que só chegou ao 4º lugar por um ponto. Menos um ponto e tinha falhado os objetivos no Valência.

A segunda época no Valência foi francamente má, e Nuno acabou por sair. Veio Neville, e foi ainda pior. Faz lembrar a questão Lopetegui vs. Peseiro. O primeiro pode não ter feito um bom trabalho, mas se o sucessor era pior só podia ser... pior. E o Valência, tal como o FC Porto do passado recente, não é o clube mais estável para um treinador. Uma nota: esperemos que o FC Porto tenha feito muito bem o trabalho de casa sobre o relacionamento de Nuno com os jogadores no balneário do Valência e do Rio Ave. O FC Porto não pode ter craques, vedetas, mas também necessita de um treinador que seja bem acolhido pelo grupo, que resolva problemas e não que os crie. 

No Valência, Nuno também teve recursos sem igual. Nas duas pré-épocas de Nuno no Valência, o clube investiu mais dinheiro que nas últimas 7 épocas juntas. É verdade que os orçamentos não ganham campeonatos, mas Nuno teve, até hoje, a sorte de estar em dois clubes que estão em fase de investimento pela ligação a Jorge Mendes. 

Certamente que Jorge Mendes não poderá ser tão interventivo no FC Porto como foi no Rio Ave ou no Valência. O empresário está aí para sugerir jogadores (e deve fazê-lo à SAD, não ao treinador) e para negociá-los se tiver procuração para tal. Não é para torcer que jogue A em vez de B, nem  fazer nada que possa interferir no trabalho diário do treinador.

No Rio Ave, Nuno saiu após uma má época no campeonato. Foi para o Valência, de onde acabou por sair no fim de novembro, também por maus resultados (e por alguns lhe terem querido fazer a cama, algo a que qualquer treinador do FC Porto tem que estar habituado). As duas passagens anteriores de Nuno recomendam a ida para o FC Porto? Não, de todo. Mas é exatamente o tipo de escolha que Pinto da Costa sempre fez. Não muda o seu registo.

É sem dúvida questionável como é que se vai buscar Peseiro em janeiro (o mesmo mês em que se criticou a postura de Jorge Mendes no negócio Adrián), quando Nuno estava livre, para ir agora buscar Nuno. E tendo em conta que Peseiro não veio de graça, mais questionável ainda. Ou seja, Nuno Espírito Santo, em janeiro e estando livre, não interessou; mas nestes meses que passou sem clube passou a interessar. Já nasceu a teoria de que Nuno estava a trabalhar por fora há algum tempo. Se fosse verdade, o lógico teria sido fazer o que se fez com José Mourinho em 2001-02, não ir buscar Peseiro. 

Nuno Espírito Santo passará hoje a ser o treinador do FC Porto. Foi a escolha de Pinto da Costa, o mesmo presidente que 79% reelegeram em abril. Como Pinto da Costa não definiu nenhum treinador para o 14º mandato, foi uma vez mais demonstrado que a estrutura é mais importante do que o treinador; é por isso que reelegeram Pinto da Costa, e não um presidente que tinha um treinador previsto (que é o que acontece nas eleições de muitos outros clubes). 

Não é uma escolha que mereça subscrição, mas se Nuno Espírito Santo é a resposta de Pinto da Costa ao seu pior mandato à frente do FC Porto, e a um dos momentos mais críticos da história do clube... Tem que acertar. Como teria quando foi dispensado o treinador bicampeão. Como teria quando fomos buscar um treinador sem experiência em clubes. Como teria quando Lopetegui foi dispensado em janeiro.

A Nuno Espírito Santo, enquanto defender os superiores interesses do FC Porto, e conseguir que o portismo e a competência estejam juntas, será defendido neste espaço. Será sempre defendido, julgado ou analisado pelas suas funções enquanto treinador, apenas e só. Como é um treinador que nunca ganhou nada nem chega ao FC Porto com bagagem que o justifique, o seu sucesso será louvável e recheado de mérito; o contrário não será uma derrota sua, do treinador, mas de outrém, e um mero espelho do trabalho antes de chegar ao FC Porto. 

PS: A análise ao R&C do 3º trimestre será publicada depois, uma vez que impunha-se o post antes da apresentação do treinador.

domingo, 29 de maio de 2016

Moncho López, o treinador à Porto

Nas discussões sobre o sucessor de José Peseiro, vemos muitos adeptos pensarem em nomes, em vez de pensarem em perfis - e depois sim, enquadrar nomes no perfil definido. Posto isto, o melhor treinador possível para o FC Porto seria este: um Moncho López do futebol.

Não é pelo título: é por todo o percurso percorrido até chegar a este inesperado título. Quando o FC Porto optou por fazer reset na modalidade, Moncho López já levava três anos de clube, tendo ido sempre à final do campeonato nacional e vencido o título em 2011. 

Com apenas dois anos de clube, já levava seis troféus e dizia isto: «He interiorizado lo que es ser del Oporto». E nada o demoveu dessa dedicação. Que outro treinador estrangeiro, em Portugal, decide meter a tocar antes dos jogos a Pronúncia do Norte ou o Porto Sentido, como Moncho fazia antes dos jogos com o Benfica? «São estimulantes para nós. A última, acompanhada pelo vídeo com imagens da cidade do Porto, ajuda-me muito a concentrar e a relaxar.» Mais do que entender o clube, Moncho López entende a cidade, a região, a mística. Entende o que é a rivalidade com Lisboa, clube, cidade e treinador. Moncho sabe o que sente cada portista. 

No ano em que o FC Porto (lamentavelmente) suspendeu a equipa sénior, anunciando que ia reduzir drasticamente o orçamento para a modalidade, Moncho López tinha uma proposta mais vantajosa financeiramente do estrangeiro. Mas deixou claro que pretendia ficar no FC Porto. Renovou por três anos e acreditou no projeto Dragon Force. «É uma responsabilidade maior e uma motivação extra», dizia. 

OJOGO, 20-08-2012
JN, 20-08-2012
Onde muitos veriam reunidas circunstâncias para fazer as malas e ir embora, Moncho López viu a oportunidade para fazer história: recomeçar das cinzas e relançar a equipa profissional do FC Porto, rumo ao regresso à Primeira Divisão. Fez ainda melhor, com o título conquistado no ano do regresso. 

Uma palavra para a atmosfera do Dragão Caixa. Quem sente que a mística e a paixão pelo FC Porto estão em vias de extinção só precisa de ver um jogo no pavilhão. Há questões que se levantam com os bilhetes, mas os adeptos do FC Porto têm tido a capacidade de transformar sempre o Dragão Caixa num mini-inferno para quem o visita. Aqui nunca são apenas 5, 6 ou 7 jogadores: são (quase) sempre mais de dois mil, todos a puxar para o mesmo lado. Transportar essa atmosfera para uns metros ali ao lado seria um dos melhores reforços da próxima época.

A concluir, é claro que não há romantismos: não podemos dizer que este título se deve totalmente às bases do Dragon Force. Afinal, do projeto inicial, restam apenas dois jogadores, Pedro Bastos e João Galina. Nenhum clube ganha títulos só com jogadores da formação, por isso é impossível imaginar este título sem a contribuição de nomes que vão desde Troy DeVries a Tinsley. Outros foram recrutados ainda na Proliga, como Miguel Queirós, e embora não tenham começado no projeto de 2012 foram parte integrante destes últimos 4 anos. 

Mas quando temos um treinador que entende o clube, os adeptos, a mística e a cidade, qualquer processo de integração se torna facilitado. E nunca descurando o mais importante de tudo: a competência. A avaliação por um treinador deve começar por aí, pelas suas valias técnico-táticas. Com Moncho López, temos tudo. Tem contrato por mais 4 anos, mas só se pode desejar que continue por muitos, muitos mais.

PS: Não podemos esquecer o quão importante foi Carlos Lisboa enquanto combustível para o FC Porto. Recordemos as sábias e eternas palavras de Moncho López. «Estive presente em fases finais de Campeonatos da Europa, em Jogos Olímpicos, competições internacionais de clubes, ganhei muitas finais, também perdi muitas, mas sempre vi o treinador campeão a levar a mão ao peito, ao coração, mostrar carinho aos seus adeptos, porque é aí que se sente o clube. Levar os dedos àquela parte... cada um sente o clube onde quer.»


PS2: No dia da apresentação de Moncho López, a 19 de maio de 2009, o presidente do FC Porto disse isto ao treinador. «Espero que este seja o primeiro de muitos contratos. Pode estar seguro que está num clube que lhe dará todas as condições e dirigentes do melhor que há em Portugal. Este é um projecto novo que procura um novo rumo». Não podemos desejar nada mais do que ouvir Pinto da Costa dizer, na próxima semana, exatamente as mesmas palavras ao futuro treinador da equipa principal de futebol do FC Porto. 

sábado, 28 de maio de 2016

Análise 2015-16: os laterais

No dia em que analisamos os laterais, o FC Porto deu a conhecer que «chegou a acordo com o Watford» para a contratação de Layún. Chegar a acordo pressupõe que o Watford esteve envolvido nas negociações, o que indicia que a cláusula de compra não foi batida - o que não significa que Layún não tenha custado 6M€, mas quiçá com um faseamento de pagamento diferente do que estaria previsto na opção de compra. Aliás, desconhecem-se publicamente todos os pormenores (quanto custa, duração de contrato, etc.)

Compra. Reforço?
Layún é uma boa compra do FC Porto, resta saber se será uma contratação para a próxima época. A possibilidade de renegociar o jogador até ao final de junho não é descartável, tendo em conta que Layún fez uma grande época e despertou a atenção de outros clubes e mercados.

Face à necessidade de apresentar resultados com passes de jogadores de 72,59M€ até 30 de junho, ou a SAD já estudou uma forma de fazer as mais-valias necessárias até ao fim do mês (na medida em que apresentar um prejuízo superior a 8,6M€ poderia trazer consequências no fair-play financeiro), ou este investimento em Layún já é feito a contar com uma futura venda. Até porque esta compra de Layún é o oposto da política da SAD nos últimos anos. Aliás, o acordo original com o Watford previa que o FC Porto tinha que pagar 3M€ até 15 dias depois de informar que iria comprar o jogador; se vendesse o jogador nas próximas duas semanas, poderia até pagar Layún com o dinheiro da venda a um terceiro clube. 

Desportivamente, Layún foi uma mais-valia para o FC Porto. Basta dizer que se não tivesse sido contratado no fecho do mercado, os laterais para esta época teriam sido José Ángel e Cissokho (tendo em conta que Rafa não estava integrado na equipa A). Esteve em 26 dos golos marcados pelo FC Porto esta época. Além disso, sempre personificou em campo aquilo a que os adeptos gostam de chamar um jogador à Porto.

É melhor a atacar do que a defender, certamente. Mas num contexto de campeonato português, os nossos laterais passam mais tempo a atacar do que a defender. Não era por causa de Layún que a equipa estava constantemente exposta contra Aroucas, Tondelas e afins. Cometeu alguns erros, como outros cometeram, mas Layún foi sempre mais vezes parte da solução do que do problema.

Neste momento é uma boa compra, pois se a SAD quiser já o vende com lucro e necessita de gerar mais-valias no próximo mês. Mas desportivamente, seria recomendável manter Layún no plantel, por ter tudo aquilo que o FC Porto necessita: qualidade, profissionalismo e dedicação. Se se concretizar a possibilidade de fazer o que o Hellas Verona fez com Iturbe, é necessário identificar outra solução de qualidade. E aí Rafa diz olá.

Contrato até 2018
Do outro lado, Maxi Pereira. Fez uma época bem razoável, embora nas últimas semanas tenha acusado claramente o desgaste (estamos a falar de um jogador de quase 32 anos que nunca sofreu uma lesão grave, e que é sempre titularíssimo por onde passa), com a sua condição física a deixar a desejar (não raras vezes víamos jogadores ganharem-lhe metros em pouco espaço). 

É também ele um jogador caro (podem dizer que não veio para o FC Porto pelo dinheiro, mas também não foi por lhe oferecem menos do que ganhava no Benfica), já sem grandes perspetivas de uma boa venda (só mesmo no Oriente ou nas Arábias), mas que foi influente na equipa. Maxi Pereira fez 13 assistências - em lances de bola corrida, fez mais assistências do que Layún, e foi sempre uma peça importante pela profundidade que dava ao corredor. Defensivamente, cometeu algumas falhas. 

Tem mais dois anos de contrato, por isso a continuidade no plantel parece um passo natural. Há uma boa alternativa na equipa B, chamada Víctor García, que já devia ter sido integrado num plano de rotação com Maxi esta época. Ricardo Pereira tem mais um ano de contrato com o Nice, por isso não entra nestas contas. 

Sobra José Ángel, um dos «patinhos feios» de que os adeptos nunca prescindem. Comete demasiados lapsos defensivamente, o que é uma pena, tendo em conta que é excelente a cruzar. A sua contratação, em 2014, foi boa e teve toda a lógica desportiva: era um lateral com escola, titular em bons campeonatos e boas equipas, jovem e que chegou ao FC Porto sem encargos imediatos (a Roma repartiu o passe com a SAD, que depois cedeu 5% à ARB Sport Asesores, de Alfredo Nora).

José Ángel, jogador que entretanto desapareceu do catálogo de jogadores que a Doyen Sports exibe no seu site, esteve sempre na sombra ora de Alex Sandro, ora de Miguel Layún. Quando era chamado, ora fazia um jogo consistente, ora estava diretamente ligado a um mau resultado no jogo seguinte. Não temos garantias de que Layún vá ficar no plantel, mas perante a promoção de Rafa é natural que José Ángel procure outra solução para o seu futuro. Tem contrato por mais dois anos e dificilmente partirá para uma 3ª época sendo suplente do FC Porto. Não dá garantias para o presente e o futuro não passa por ele. 

Não vale a pena falar de Cissokho, pois não?

Contrato até 2018
À partida, o FC Porto perdia qualidade nos laterais para esta época. Há uma diferença entre ter dois laterais de seleção brasileira vendidos ao Real Madrid e à Juventus, por mais de 55M€, e entre contratar um lateral que após 8 anos de Benfica só teve convite de um rival (Maxi) e outro que na época passada estava na segunda liga inglesa (Layún). Mas não foi, de todo, por Layún e Maxi que o FC Porto fez uma má época.

A primeira função de um lateral, logicamente, é defender bem. Mas os números no ataque são o que mais surpreende: Layún (26) e Maxi Pereira (14) tiveram intervenção direta em 40 golos do FC Porto. Danilo e Alex Sandro, há um ano, tiveram intervenção em 18. Ou seja, com Maxi e Layún, os laterais do FC Porto participaram em mais do dobro dos golos; mas na época passada o FC Porto teve a melhor defesa da Europa, enquanto este ano qualquer equipa, por maior ou menor vocação ofensiva que tivesse, conseguia marcar ao FC Porto com facilidade. Maxi e Layún tiveram as suas culpas no cartório defensivo, mas foram mais vezes solução do que problema.

Pergunta(s): Maxi e Layún devem manter o lugar para 2016-17? Quem deverão ser as alternativas nos corredores?

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Análise 2015-16: os guarda-redes

Podemos regressar ao início da época e a uma frase d'O Tribunal do Dragão que na altura gerou alguma discórdia: a de que «desportivamente, Iker Casillas não faria uma grande diferença no FC Porto».

Esta afirmação resultou em muita confusão em alguns leitores. «Então Casillas não é melhor do que Fabiano!?» Sim, claro que é. «Então como é que desportivamente não vai fazer diferença!?» Simples, entendendo o que é o papel de um guarda-redes do FC Porto no campeonato português.

Casillas, 35 anos
Voltemos por um momento a 2014-15. No espaço de 6 meses, o FC Porto perdeu primeiro Helton, por lesão, e depois Otamendi, Fernando e Mangala. E mesmo com o contestado Fabiano nas balizas, conseguiu sofrer apenas 13 golos, sendo a melhor defesa de toda a Europa.

Este ano, já sem o contestado Fabiano mas com o ícone Casillas na baliza, o FC Porto sofreu 30 golos. Mais do dobro da época passada (tema debatido aqui), e a terceira pior defesa da história do clube numa liga a 34 jornadas. Quando O Tribunal do Dragão opinou que, desportivamente, Casillas ou Fabiano na baliza não fariam muita diferença, foi precisamente a pensar nisto: porque o modelo de jogo e os defesas do FC Porto têm tanta ou mais influência do que o guarda-redes.

O FC Porto já teve grandes guarda-redes, já ganhou muitos títulos. Mas houve algum título que tivéssemos ganho sobretudo graças a um guarda-redes?

Há quem diga que o FC Porto sofria poucos golos devido a uma posse de bola estéril de Lopetegui. Os mitos nunca resistem aos números: com José Peseiro (e com o agravamento de o mercado de janeiro ter deixado o plantel pior do que estava) a equipa piorou objetivamente em tudo. Não marca mais golos, sofre mais do dobro, remata menos, permite que os adversários rematem mais, cria menos ocasiões de golo e falha mais passes. Ora a tal posse de bola estéril, além de permitir que o FC Porto atacasse e marcasse mais, dava uma segurança defensiva que o FC Porto nunca teve com José Peseiro. Aliás, em dezembro Casillas até era o guarda-redes menos batido das ligas europeias. No mês seguinte começou a derrocada, com a troca de treinadores e o enfraquecimento do plantel, e a partir daí foi sempre a descer.

Que culpas se podem enquadrar aqui em Casillas? Poucas. Porque fez o que por norma os guarda-redes do FC Porto fazem no campeonato: ajuda a ganhar alguns jogos e comete erros que custam alguns pontos. Foi brilhante contra o Benfica e o Tondela, mas errou em Guimarães ou na Champions.

Desportivamente, Casillas pouco mudou porque há poucas coisas que um guarda-redes do FC Porto possa mudar. Para um guarda-redes, há uma diferença entre uma equipa com um meio-campo sólido e outra exposta a qualquer transição rápida; há uma diferença entre ter Otamendi e Mangala à frente e ter jogadores mais inexperientes e/ou limitados.

O impacto de Casillas seria sempre mais mediático e comercial do que desportivo. É claramente um bom guarda-redes, grandíssimo profissional (a maior surpresa para todos os que trabalham com ele), mas nunca iria ser por ele que o FC Porto ganharia o campeonato. Nem por Helton, nem por Baía, nem por Mlynarczyk, nem por Zé Beto, nem por Américo.

Iker Casillas é um guarda-redes como todos os outros, com qualidades e defeitos, e que ao longo de toda a carreira sempre fez sobressair as suas qualidades. Mas é, de facto, um guarda-redes muitíssimo caro para aquilo que rende desportivamente. E é por isso que, quando o R&C da época for publicado, é importante perceber se Casillas é um guarda-redes que de facto se paga a si próprio.

Ao que tudo indica vai continuar no FC Porto. Casillas e o clube já admitiram avançar para o ano de opção no contrato, até 2018, mas isso ainda não foi oficializado. Até porque o Real Madrid só comparticipa o salário de Casillas até 2017 (se Casillas fizer a época 2017-18 no FC Porto, o salário será na íntegra pago pela SAD), logo o salário teria que ser drasticamente reduzido para ficar no FC Porto.

Em Casillas vs. Emirates, vimos que a contratação de Casillas estava a ser muito benéfica financeiramente, mas é importante calcular os números finais no R&C. Até porque um clube que tem um guarda-redes com salário anual bruto de cerca de 5M€ não pode abdicar de um investimento num bom treinador, nem pode andar com a equipa coxa durante toda a época. A manta tem que dar para cobrir ombros e pés. E quando avaliamos um jogador como Marega em mais de 4M€, então a manta devia dar para cobrir Dragão, Aliados e a Ponte do Freixo. 

A primeira época de Casillas no FC Porto não deixa saudades, devido à ausência de títulos. Oxalá as coisas mudem no próximo ano, de preferência sem sofrer outra vez 30 golos. Nunca esquecendo que é o guarda-redes quem fica com os golos sofridos, mas nem Lev Yashin ou Vítor Baía conseguiriam sobreviver a tanta asneira na defesa esta época. O Casillas da Luz é um guarda-redes que ajuda a ganhar campeonatos, mas o FC Porto nunca ganhará campeonatos se precisar que o guarda-redes faça tantas defesas como as que fez nesse jogo.

A melhor forma de proteger a baliza não é ter um guarda-redes que defende tudo: é fazer com que o guarda-redes tenha que defender o menos possível.

Helton, 38 anos
E agora Helton, o capitão. Todos sabem que Helton, embora seja um jogador acarinhado e carismático, não tem um feitio fácil, pois detesta ser suplente (quem não detesta?). Esteve irrepreensível na Taça de Portugal... até à final, onde sofreu os primeiros 2 golos, não ficando bem na fotografia. Aos 38 anos, Helton dificilmente tirará o lugar a Casillas em 2016-17 - nenhum clube tem Casillas se não for para jogar. Tem mais um ano de contrato, por isso coloca-se a questão: uma última época como (mais que provável) suplente ou o adeus antecipado?

Helton tem um lugar cativo na história do FC Porto. Foram 18 títulos neste clube. Tudo dependerá do entendimento entre as partes. Quando ou se Helton quiser, seria certamente uma mais-valia integrá-lo nos quadros técnicos do clube. Mas se ainda entender que está em condições para jogar ao mais alto nível, está no seu direito.

José Sá, 23 anos
José Sá, conforme esperado, não chegou a jogar na equipa A, tendo sido apenas utilizado na equipa B. Tem que ser emprestado para, pela primeira vez na sua carreira, fazer uma época completa como titular de primeira liga.

José Sá já vai para o seu 5º ano de sénior e ainda não fez uma época completa e regular numa primeira liga. No FC Porto, a não ser que lhe seja garantido o lugar de 2º guarda-redes (com titularidade nas Taças e esporadicamente na B), não faz sentido continuar. Foi uma contratação, não um reforço. 

Raúl Gudiño teve a sua primeira experiência na primeira liga, pouco positiva. Deu dois ou três frangos que o marcaram no União da Madeira. Ainda assim, este foi apenas o seu primeiro ano de sénior, e a margem de evolução continua toda cá.

Gudiño, 20 anos
Ter um bom treinador de guarda-redes é essencial (Bruno Freitas, o treinador do União, teve como expoente máximo da sua carreira profissional a titularidade no Ribeira Brava). Já não vai contar como jogador formado no FC Porto, devido a este empréstimo, pelo que agora deve continuar a procurar-se um enquadramento de primeira liga (o Chaves já o pediu).

Na temática dos guarda-redes, deseja-se ainda que a nova equipa técnica inclua um treinador de guarda-redes de provas dadas, habituado a trabalhar com diversos guarda-redes, desde jovens, que precisam de evoluir, a mais experientes, que precisam de manter a forma física. Nada pode ser descurado.

Os guarda-redes ligados ao clube, mas que não iniciaram a época no FC Porto, serão analisados no post destinado aos emprestados.

Pergunta(s): Quem deve ser o número um e o 2º guarda-redes para 2016-17?