segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Rafa

É o nome mais incontornável deste defeso, numa novela que se arrasta há semanas e que será pela primeira vez analisada neste espaço. Rafa pode, simultaneamente, ser uma boa adição ao plantel e um mau exagerado negócio no contexto atual. Um paradoxo, sem dúvida, mas que não é exceção (Hulk também foi uma excelente adição ao FC Porto, mas o custo do seu passe foi altamente sobrevalorizado). Tudo dependerá dos custos envolvidos. Rafa não vale 20 milhões de euros. E é difícil aceitar que valha sequer metade. Recuemos um ano no tempo.

A última Coca-Cola (?)
«Se (o Rafa) vale 20 milhões, se calhar o Gonçalo Paciência ou o Ricardo Pereira valem 25 milhões. E o Ivo Rodrigues valeria 20». Palavras sábias de Pinto da Costa, que admitiu o interesse no jogador, mas reconhecendo que pagar 10 milhões de euros na altura por Rafa (correspondentes a 50% do passe que o Braga detinha) era, citando, «uma burrice». 100% de acordo. Podemos gostar de Rafa, mas não estamos a falar de um jogador que valha nem sequer perto os valores que estão a ser veiculados.

Vejamos. Há um ano, Rafa era um suplente dos sub-21. Hoje, é um suplente da seleção A, que foi ao Euro 2016 para jogar apenas 1 minuto contra a Áustria. O Euro2016 não valorizou Rafa, a não ser que considerem que o simples facto de marcar presença nos bancos de um Europeu faz com que o valor do passe dobre.

No Braga, o que foi a época 2015/16 de Rafa? Objetivamente, foi muito melhor do que a época anterior. Valorizou-se, sim. Passou a 20 milhões de euros? Não brinquem.

Estamos a falar de um jogador que não tem propostas de Inglaterra, não tem propostas de Itália, não tem propostas de Espanha. Rafa teve uma proposta do Zenit, que não lhe suscitou interesse, e tem o convite do FC Porto, que há um ano não lhe despertava interesse mas agora, com perspetivas de titularidade e percebendo que não está a despertar o interesse de nenhum outro clube (nem com Jorge Mendes associado), já encara o FC Porto com bons olhos. 

Mas compare-se o rendimento de Rafa com o do seu colega de equipa Pedro Santos. Rafa, em 30 jogos na Liga, fez 8 golos e 2 assistências. Já Pedro Santos, em 23 jogos, fez 7 golos e 6 assistências. Há mais para além de golos e assistências, claro. Por exemplo, ver a eficácia e número de remates (1,9 e 16% por jogo), as tentativas de drible eficazes (38%), o número de situações de golo criadas por 90 minutos (apenas 1.2) e a eficácia de passe em zona de perigo (74%). E em todos estes aspetos, estatisticamente, Rafa perde em todos os dados para Corona, Otávio e Brahimi em 2015-16. 

Tendo em conta que o FC Porto, ainda que não controlando a totalidade dos seus passes, não chegou a pagar 20M€ por Corona, Otávio e Brahimi juntos, não faz sentido aceitar por Rafa tal avaliação, tendo em conta que Rafa não garante, no curto prazo, nada acima de Brahimi ou Corona. Tirando, sem dúvida, a velocidade. Mas como aproveitar essa velocidade?

Pensar em tirar proveito de um jogador veloz não pode ser pensar apenas em correr, caso contrário Hernâni hoje estaria aqui. Um exercício: abram um vídeo qualquer de Rafa, no Youtube, e vejam como e onde ele faz a diferença. Em 80% dos lances em que se destaca, Rafa sobressai pelas suas arrancadas. Quando arranca com bola, sempre coladinha ao pé, é quase sempre imparável. É essa a sua grande valia. Se tem espaço, arranca e não o param.

Comparando com Brahimi, que está de saída, a diferença é que Rafa é mais direto. É forte nas diagonais e as suas arrancadas são mais orientadas, procurando sempre a baliza, enquanto Brahimi, por exemplo, retia mais a bola. Mas Brahimi, mesmo entre as suas rotundas, acabava por rematar mais e melhor (2,9 remates/jogo, com eficácia de 29%), finta melhor (55% de eficácia) e passa melhor (86%) no meio-campo adversário. Rafa pode aumentar os seus números jogando num FC Porto de ataque? Sem dúvida que sim. Mas é um produto inacabado. E o FC Porto não pode entrar em loucuras por produtos inacabados.

O FC Porto não tem um jogador com as caraterísticas de Rafa no plantel, mas Rafa vai ter que se adaptar a uma nova realidade. Aqui não terá tanto espaço para jogar e vai sofrer marcações mais apertadas. Rafa não é um João Moutinho - o mais caro entre transferências de jogadores portugueses (Rafa não vale o que Moutinho valia em 2010) -, que tinha caraterísticas para chegar e encaixar na equipa. Rafa não poderá ser no FC Porto o que era no Braga. Muito menos o que era nos sub-21 ou na seleção A. Isto, claro, se o negócio se concretizar.

O Braga controla, neste momento, 80% do passe de Rafa, depois de se ter comprometido a pagar 4M€ para recuperar 40% do passe que pertenciam a Jorge Mendes. Esta recompra avaliaria Rafa em 10M€, embora isso nunca seja linear. Mas o Braga só terá que pagar essa recompra depois de transferir Rafa. Ou seja, António Salvador estará pressionado a vender nesse sentido - jamais iria já recuperar a % do passe se não fosse para vender. Mas António Salvador nunca, nunca deu um bom negócio ao FC Porto. Pelo contrário, o FC Porto já deu ao SC Braga uma dúzia deles.

O que tirou o FC Porto da ligação ao Braga na última década? Escolham se gostaram mais de Kieszek, de Andrés Madrid ou de Orlando Sá. O SC Braga foi sempre bem mais proveitoso para o Benfica. Benfica esse também atento a Rafa, mas só com disponibilidade para avançar se vender Carrillo e/ou Salvio. Mas o mais curioso é que, embora Jorge Mendes já não controle o passe de Rafa, pode indiretamente ajudar o Benfica, com propostas daquelas mirabolantes pelos referidos jogadores por parte de clubes como o Mónaco, Atlético ou Wolves. O Sporting também desejava Rafa, mas dependeria da venda de João Mário e outro jogador.

Rafa, concretamente, é um jogador com pouco mercado, o que por si só justificaria que o FC Porto jamais aceitasse entrar em loucuras por ele. É simplesmente impossível que o competente departamento de scouting do FC Porto não seja capaz de identificar jogadores com as caraterísticas de Rafa que custem um terço. E às vezes nem é preciso ir muito longe - todos viram o exemplo de Diogo Jota, que despontou no Paços, aos 18 anos, para fazer uma época superior à de Rafa no campeonato. O clube vendeu 60% do seu passe por 65 mil euros em 2014. Será que a Pacheco & Teixeira, que comprou 20% do passe por 30 mil euros, tem quem perceba mais de futebol do que o FC Porto? Certamente que não.

Rafa pode ser útil? Pode. Se vale 10, 15 ou 20 milhões de euros, então toda a Europa do futebol parece estar a dormir. É que entre clubes espanhóis, ingleses, alemães, franceses ou italianos, endinheirados, nenhum pareceu interessado em avançar por Rafa. Já o FC Porto, que vem de uma época de prejuízo colossal e não gerou as mais-valias necessárias (acima de 40M€), tendo manifestas limitações neste momento na capacidade de investimento (e ainda sem vender ninguém), é que parece ser o único clube a considerar que Rafa é a última Coca-Cola do deserto. O FC Porto ou, a bem da verdade, muitos dos seus adeptos.

Então: o FC Porto precisa de um jogador com as caraterísticas de Rafa... ou precisa mesmo do Rafa? Não há justificação possível para, neste momento, colocar Rafa num pedestal e fazer dele um dos jogadores mais caros da história do FC Porto e o mais caro da história do Braga. Se António Salvador puxa a corda, boa sorte a tentar conversar com outro clube. O FC Porto já esteve dependente de alguns jogadores que fizeram parte deste clube, como Madjer, Deco ou Hulk. Mas nunca esteve dependente de jogadores que não chegaram a ser contratados. 

Não será pela ausência de Rafa que o FC Porto deixará de ter menos hipóteses de lutar pelos seus objetivos. A não ser que todos os restantes clubes da Europa estejam condenados ao insucesso, pois, tirando o Zenit, aparentemente nenhum deles se lembrou de Rafa. Se António Salvador quiser continuar a esticar a corda, cá vai um refresco de memória do quão arriscado isso pode ser: em 2013 disse que recusou 23M€ por Éder e 14M€ por Douglão. Que grande desvalorização sofreram até à hora de saída.

Se não houver acordo por Rafa, por desacordo de verbas, não haverá problema nenhum, pois pelo preço exigido pelo SC Braga o FC Porto encontra - ou deveria encontrar - facilmente alternativas a Rafa. O problema não será se não vier Rafa: é se o FC Porto depositar exclusivamente as suas fichas em Rafa e, no final, não vier ninguém. Mas quem vier, já vem tarde, pois vamos para o play-off sem extremo, sem Rafa, sem Brahimi (que sentido faria jogar contra a Roma se não foi opção para a 1ª jornada?). Vão fazer falta? Esperemos que não. Nem quarta-feira nem durante a época. 

domingo, 14 de agosto de 2016

Para moralizar, não para iludir

A história é sempre a mesma. Na primeira jornada, não importa se há ópera [inserir estilo musical favorito], o que importa é ganhar. Na 2ª vai ser igual. E na 3ª. E em qualquer jornada em que seja essencial ganhar pontos, ora para aumentar ou encurtar distâncias em relação aos rivais, ora para mantê-las. Nunca chega a haver muito bem uma necessidade de futebol deslumbrante, mas sim de pontos e vitórias. Sabendo que bom futebol deixa sempre qualquer equipa mais próxima de vencer.

O FC Porto fez o que importava, estreando-se a vencer, mas sem deixar de espelhar as dificuldades próprias de uma pré-época que deixa imenso a desejar, inclusive e sobretudo na gestão de ativos. Os casos de Brahimi e Aboubakar, que deixam Nuno Espírito Santo a ter que responder perante questões incómodas, são ilustrativos. O FC Porto não deveria nunca deixar de tirar partido dos seus ativos, estando eles ou não próximos da saída. Vejam-se os casos de Falcao e Hulk, que iniciaram a época antes de serem transferidos. 

Poderão dizer que Brahimi e, sobretudo, Aboubakar não têm a influência que Hulk ou Falcao tiveram. Mas outrora o FC Porto vendia jogadores quando atingiam o pico de valorização e já tinham ajudado a equipa a conquistar títulos. Nos casos de Indi, Brahimi e Aboubakar, não só não atingiram o tal pico como saem sem colaborar na conquista de títulos; além de que saem primeiramente pela necessidade do FC Porto de vendas, não por já serem, à imagem de Falcao ou Hulk, jogadores com imenso mercado e procura. 

A 15 dias do final do mês, a construção e redefinição do plantel continua atrasada de forma muito preocupante (palavra mais simpática possível neste contexto), mas a primeira vitória já cá está. Com a balda defensiva já tradicional, mas com uma reviravolta, palavra essa tão estranha ao FC Porto no passado recente. Agora vamos ao mais difícil, com a certeza de que o FC Porto conseguiu responder às adversidades no primeiro jogo da época. 





Otávio (+) - Num só jogo, Otávio quase consegue ir a mais disputas de bola do que Quintero em toda a sua carreira no FC Porto. E é aí que vai nascendo a diferença. Otávio tem a capacidade de conseguir colocar a bola onde quer, mas com o upgrade de saber ser agressivo no meio-campo adversário. Otávio fez 6 desarmes na partida, o que não é muito próprio num médio-ofensivo (emprestado à ala esquerda - o tempo o dirá se por convicção de NES, ou por ausência do substituto de Brahimi), pressiona, corre, não se esconde do jogo. Mais do que saber ler o jogo, sabe ler os companheiros - já sabe de cor as movimentações de André Silva. O seu talento nunca suscitou dúvidas, restava saber se haveria lugar para ele num contexto de equipa. Não só há como o FC Porto não pode, neste momento, dispensar o seu virtuosismo.


Efeito mexicano (+) - Mesmo encondendo-se do jogo muitas vezes, Corona foi objetivamente dos mais perigosos do FC Porto. Fez um bonito golo e procurou dar sempre o corredor a um algo desgastado Maxi Pereira, com quem nem sempre combinou da melhor forma. Ainda assim, meteu duas bolas em zonas de finalização e as vezes em que arriscou no 1x1 foram bem sucedidas (6 em 8). Quando Corona aparece, aparece bem. Mas precisa de aparecer muito mais. Já Héctor Herrera, numa posição mais recuada do que o recomendável (já lá vamos), foi o poço de energia habitual, abriu e transportou jogo, também faturou e foi o mais esclarecido do meio-campo.

Outros destaques (+) - Ao primeiro jogo oficial, um efeito positivo de meter os laterais a procurar a linha em vez do espaço interior (foi assim que Alex Telles cruzou para o 1x1). André Silva jogou com a disponibilidade e versatilidade habitual e marcou o ponto, mas se for para bater penaltys vai ter que praticar muito, pois nunca foram uma especialidade sua. Jogo bastante sereno e positivo de Marcano.





Meio caminho (-) - Resumidamente: André André não pode jogar tão à frente e Herrera não pode jogar tão atrás. Pode ser circunstancial, pois a chegada de um extremo pode levar NES a rever os seus planos para Otávio, mas André André é uma formiguinha de trabalho, talhado para jogar na posição 8 quando está bem fisicamente; mas nunca vai ter aquele palmo de criatividade necessária para jogar mais próximo de André Silva. Por outro lado, Herrera melhorou muito na segunda metade de 2015-16 por ter subido no terreno. É certo que Herrera, jogando mais recuado, tem mais soluções para pegar no jogo, mas não pode ficar tão próximo do raio de ação de Danilo. Além de que Herrera é o melhor médio do FC Porto a aparecer em zonas de finalização e também aquele que mais rapidamente consegue recuperar posição numa transição. Esta estrutura de meio-campo dificilmente desbloqueará jogos mais difíceis ao longo da época.

Passividade (-) - Os primeiros 30 minutos foram francamente maus para o FC Porto. A equipa melhorou, mas sem deixar de permitir ao Rio Ave mais ousadia do que seria admissível. O Rio Ave meteu 9 bolas em zona de finalização, contra 8 do FC Porto. Felizmente, a eficácia fez a diferença a favor do FC Porto. Além disso, por 29 vezes o Rio Ave conseguiu meter a bola na grande área do FC Porto (que meteu 30 na área adversária). No passado recente, vimos qualquer equipa a marcar facilmente ao FC Porto, nem que só atacasse uma vez. Dar tanta iniciativa ao Rio Ave (que fez 13 remates, contra 12 do FC Porto, ainda que grande parte de meia distância) não é um bom presságio.

A rever (-) - Não é que se possa esperar que Felipe, com 27 anos, pouco mais de dois de futebol a sério e em estreia na Europa, não vá ter algumas dificuldades na adaptação ao futebol europeu. Mas a insegurança e o nervosismo foram claros - e Felipe não tem em Marcano um central que vá, propriamente, assumir-se como patrão durante a sua adaptação. Felipe sentiu o dilema entre pontapear ou tentar construir. Coisas que terá que melhorar num ciclo de jogos dificílimo. Ingenuidade de Alex Telles na expulsão (e simultaneamente perceber que aqui pode ver cartões com muita facilidade), Maxi Pereira (13ª época sempre a jogar, sem lesões graves) acusou algum cansaço. É bom lembrar que Maxi Pereira recusou um período de férias, depois da Copa América, para começar a trabalhar mais cedo no FC Porto. Esperemos que o descanso não lhe faça falta, pois será difícil Maxi Pereira voltar a fazer uma época com 40 jogos. Por fim, pede-se um pouco mais de rapidez e destreza no ataque do FC Porto, que obrigue o Rio Ave a recorrer mais vezes à falta (o Rio Ave só fez 9 faltas em todo o jogo e 5 foram sobre Otávio, enquanto o FC Porto fez o dobro).

Neste momento, o FC Porto é líder da Primeira Liga. O mais difícil não é chegar à liderança, é mantê-la. Mas o primeiro passo já foi dado.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Pontapé de saída

Quem não se lembra do colinho que até atropelou os regulamentos da FIFA? Tiago Martins e Fábio Veríssimo foram promovidos a árbitros internacionais contra as diretrizes da FIFA, que indicam que os árbitros «devem ter arbitrado regularmente na principal divisão do seu país durante pelo menos dois anos».

Tiago Martins foi promovido quando tinha dois jogos de Primeira Liga, enquanto Fábio Veríssimo, no espaço de um mês, passou de árbitro na distrital a árbitro internacional.

Entretanto, mudou a mosca, mas o resto permaneceu intacto. Saiu Vítor Pereira, entrou José Fontelas Gomes. Mas não sem em novembro último Vítor Pereira pisar, uma última vez, as recomendações da FIFA. João Pinheiro, então com 27 anos e apenas dois jogos de Primeira Liga, foi promovido a internacional, juntamente com Sérgio Piscarreta, que em 2015 passou do C2N3 para a primeira categoria. E que bem correu.


Piscarreta foi despromovido no ano seguinte não só à sua promoção à primeira categoria mas também no seu ano de estreia como árbitro internacional. Isto no ano seguinte à histórica descida de Marco Ferreira, que logo depois abandonou a arbitragem e revelou o que passava nos bastidores. Nunca será de mais lembrar. 


O Conselho de Arbitragem não só promove árbitros contra as diretrizes da FIFA como é capaz de, no ano seguinte, despromover o mesmo árbitro. É histórico para Piscarreta. Nenhum outro campeonato na Europa tem um caso idêntico. 

E agora vemos a ascensão de João Pinheiro, um jovem árbitro, agora de 28 anos, que foi promovido a árbitro internacional em novembro de 2015 - um mês após ter apitado pela primeira vez um jogo grande, no caso um jogo do Benfica na Taça de Portugal. Tirando isso, tal como Tiago Martins, tinha apenas 2 jogos de Primeira Liga na carreira. 

João Pinheiro foi um de 11 árbitros a declarar apoio a José Fontelas Gomes na corrida à presidência do Conselho de Arbitragem, num elenco de luxo que contava com nomes como João Capela, Carlos Xistra, Bruno Paixão, Jorge Ferreira e Manuel Mota. E agora, na primeira época completa que terá Fontelas Gomes como presidente do CA, o jovem árbitro vai estrear-se num jogo grande da Primeira Liga.

Qual? O Tondela - Benfica. Oxalá o jogo corra bem, pois seria tramado um jovem e promissor árbitro, internacional aos 27 anos, ficar desde logo manchado pela histórica dificuldade do Benfica em começar os campeonatos a vencer.


Está dado o pontapé de saída para a carreira de Fontelas Gomes à frente do CA, na mesma jornada em que Fábio Veríssimo, outro internacional precoce, vai arbitrar o FC Porto, enquanto Carlos Xistra vai dirigir o Sporting. Sporting esse que merecerá todo o interesse em ser seguido durante a época 2016-17, em particular a sua equipa de juvenis, que contratou o talentoso Alexandre Gomes. Que só por mera e impertinente coincidência é filho de José Fontelas Gomes. Aquela perguntinha que irrita: o que se diria se fosse o FC Porto?

PS: Já foi dito praticamente tudo sobre o caso Depoitre. Ninguém sabia que o jogador não podia ser inscrito para o playoff da Champions. Mas a quem gere os destinos do FC Porto é sempre exigível muito mais. E nem é exigir assim tanto, basta saber os regulamentos das provas em que o clube está inscrito. O presidente confirmou que o assunto foi tratado com máxima celeridade, enquanto estava a acompanhar a Volta, e Depoitre chegou ao Porto na companhia de D'Onofrio às 2 da manhã. Pinto da Costa diz que foi inscrito com o objetivo de estar disponível para a Champions. Ou seja, não houve nenhuma reserva ou cautela assumida, pois a verdade é que o FC Porto julgava que o jogador podia jogar. Não podia, até porque o regulamento não permite diferentes interpretações. Felizmente o «esclarecimento» publicado pelo FC Porto não é assinado pelo Conselho de Administração, senão a vergonha seria ainda maior. Ou então é maior ainda por não ser diretamente assumido, e por ter que ser Nuno Espírito Santo (já começa!) quem teve que responder às questões sobre esse tema.

Depoitre vs. pré-época
Mas de facto, é confusa a questão de contar com Depoitre já para o playoff da Champions. Conforme foi defendido no post anterior, o FC Porto passou toda a pré-época a treinar e a trabalhar um esquema no qual Depoitre não encaixa (pelo menos nunca tão bem como André Silva). E era com uma semana de trabalho que ia já ser opção contra a Roma? As caraterísticas de Depoitre são mais importantes do que os mais de 50 treinos que Nuno fez com o plantel? É verdade que meter um ponta-de-lança forte na grande área para o chuveirinho não é a tática mais complicada de se trabalhar, mas o FC Porto teve quase 2 meses para preparar uma dinâmica de jogo forte, em que se assuma e possa confiar em André Silva. Se Depoitre iria fazer falta, tinha que ser contratado muito antes, não em cima do fecho das inscrições. A demora tem uma palavra, a mais utilizada nos últimos três dias: amadorismo. Um erro que não víamos em Portugal desde que o Sporting, de Godinho Lopes, tentou inscrever Marius Niculae (com as devidas diferenças, de bem maior gravidade pendente para o FC Porto). Bater no fundo não é perder com o Tondela, é ter um ato de gestão só à altura do Sporting de Godinho Lopes. 

Embora Depoitre tenha sido contratado com o objetivo de estar já disponível contra a Roma, não foi contratado para jogar apenas o playoff. A época será longa e oxalá consiga revelar utilidade em jogos futuros. De preferência antes do final do mês. Porque se acham que já seria útil com uma semana de treinos, então isso só pode deixar água no boca para quando tiver um mês de trabalho.

O FC Porto começa amanhã um campeonato para o qual não é favorito. Não, o FC Porto não é favorito para ser campeão em 2016-17. E o que é isso de ser favorito? Basicamente, aquilo que o Bayern Munique era na final da Taça dos Campeões Europeus de 87, ou aquilo que o Manchester United era nos oitavos de 2004, ou aquilo que a França era no Euro 2016. O padrão está bem claro: o favoritismo cai quando se depara contra uma equipa onde todos remam para o mesmo lado, em prol do bem comum e maior. O problema existe quando acham que isto tem que começar pelos internautas, e não pelos superiores. A Nuno Espírito Santo e ao plantel uma mensagem de força e incentivo. Enquanto lutarem pelo FC Porto, os portistas lutarão com vocês.

PS2: Só para lembrar. O International Board aprovou uma série de alterações nas leis de jogo para esta época, que o FC Porto vai estrear em Vila do Conde. Era só mesmo para lembrar. Não vá alguém esquecer-se dos regulamentos. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Quanto tempo esperou Nuno por Depoitre?

Voltemos até 2006. Co Adriaanse queria Jan Vennegoor of Hesselink. O chamado «pinheiro». Pediu-o uma, duas, três vezes. Queria-o tanto que ameaçou bater com a porta. Pinto da Costa disse que não, uma, duas, três vezes. Porque era caro, porque (citando) não podia «hipotecar as contas por este ou aquele jogador», e que «se fosse para tirar os pés do chão iríamos buscar o Deco ou o Ricardo Carvalho». Ou seja, o equivalente a ir buscar o Boly por 6M€, ou o Rafa por 20M€. Se fosse para perder a cabeça, não iria por aí.

Marc Janko Laurent Depoitre
Co Adriaanse não teve o seu pinheiro e depois acabou por sair. E depois dele sair, o futuro deu razão a Pinto da Costa. Hesselink assinou pelo Celtic no mesmo ano e marcou apenas três golos, apesar de ter tido problemas físicos. E desde então, nunca mais se revelou goleador. E de 2006 em diante, o FC Porto foi tricampeão e ninguém sentiu a falta do pinheiro.

Dez anos depois, Nuno teve o que Co Adriaanse não teve. Pediu um pinheiro e teve-o, apesar do desconhecimento total de Pinto da Costa em relação a Laurent Depoitre. Mas importa colocar desde já a questão: quanto tempo esperou Nuno por este pinheiro?

Desde o início da pré-época, Nuno Espírito Santo tem apostado num esquema que dispensa por completo o pinheiro. Ao ponta-de-lança, no caso André Silva, é pedida maior mobilidade, que descaia muitas vezes para os flancos, que tenha capacidade para levar a bola e encaixar numa transição rápida, seja com bola no espaço ou no pé. Depoitre não corresponde, de todo, a estas caraterísticas.

Depoitre encaixa num esquema que não foi trabalhado pelo FC Porto nos jogos de pré-época. Falta saber porquê. Nuno só se lembrou agora que quer ter soluções numa dinâmica diferente, que implique o tal tanque perto da grande área, ou está desde o início da pré-época à espera que lhe deem esse pinheiro? E Depoitre acaba por ir direto à lista de inscritos da UEFA, sem treinar, empurrando para fora da lista Aboubakar (se sair, o FC Porto necessita de um terceiro avançado - Gonçalo Paciência seria uma boa e pertinente aposta, a nível desportivo e financeiro), que fez toda a pré-época. Tudo soa a má preparação/gestão, ou pelo menos bem tardia. 

Experimentar um esquema com um homem de área, um ponta-de-lança mais fixo, quiçá até enquadrando André Silva para um 4x4x2, deveria ter sido algo preparado desde o início da pré-época. Neste caso, o pinheiro só chega depois de terminada a pré-época - a mesma pré-época que supostamente teria sido iniciada em abril.

Felizmente, numa coincidência tremenda, Luciano D'Onofrio apareceu para - citando o presidente - desbloquear o negócio. Foi uma sorte Nuno Espírito Santo querer um ponta-de-lança que estivesse no raio de ação de D'Onofrio, que todos os defesos vai fazendo negócios com o FC Porto. Salutar coincidência. 

Antes de falar do jogador, podemos já notar um dos padrões deste defeso. João Carlos Teixeira, Felipe e Depoitre foram todos apresentados ao lado de Pinto da Costa. Zé Manuel (para todos os efeitos uma contratação neste defeso) e Alex Telles não. Mas João Carlos, Felipe e Depoitre têm todos algo em comum: Pinto da Costa diz que foram todos contratados mediante a preferência de Nuno Espírito Santo.

Sobre João Carlos, Pinto da Costa disse que foi um dos nomes pedidos por Nuno na primeira reunião de preparação para esta época. Sobre Filipe, disse que Nuno estava sempre a telefonar para saber quando chegava. E agora, sobre Depoitre, diz que nem conhecia o jogador, mas que era um pedido de Nuno. Por outras palavras, se correr bem, Nuno Espírito Santo recolhe o mérito, por ter olho para o jogador; se correr mal, Pinto da Costa já responsabilizou o treinador pelas escolhas. É uma abordagem bem diferente da feita com Lopetegui, na qual Pinto da Costa só falou do subrendimento de Imbula ou Campaña depois de Lopetegui sair. Neste caso, já todos ficam a saber que são pedidos de Nuno Espírito Santo. Qual Mateus 27:24-25.

Pinto da Costa também mostra uma postura diferente da sua última entrevista. «Contratei jogadores que não conhecia, só por causa do parecer dele», disse, sobre Lopetegui, dando depois do exemplo de Campaña e garantindo que não voltaria a contratar jogadores sem os conhecer. Neste caso, assumiu sem rodeios o contrário em relação a Depoitre. 

E agora aí temos Depoitre. E não vale de muito aprofundar a análise individual sobre Depoitre. Pois é simples: será tão útil quanto o caudal ofensivo do FC Porto e as bolas que lhe derem na grande área. Depoitre é um jogador limitado tecnicamente, que está na grande área para finalizar, para servir de referência, para arrastar os centrais. Não pode fazer quase nada do que André Silva fez na pré-época, embora não seja tão lento quanto a sua estampa física possa sugerir. O rendimento de Depoitre vai depender da dinâmica do FC Porto, e de uma abordagem totalmente diferente da que foi feita na pré-época. A partir daí pode dar um Vinha, pode dar um Tiago Caeiro, pode dar um Graziano Pellè.

O FC Porto não revelou o custo de Depoitre. Desmentir os 12M€ que a RTBF, a RTP lá do sítio, avançou já seria um bom começo (embora possa enquadrar-se no tão patético que nem merece resposta). Já os valores noticiados em Portugal, 4+2,5 milhões de euros, também parecem francamente elevados. O FC Porto é o primeiro clube a pagar alguma coisa por Depoitre, que nunca foi dado como hipótese concreta para outro clube, tirando os habituais rumores da imprensa inglesa (falaram em Stoke, WBA e Tottenham no início do ano, mas nada durante a pré-época), que quase nunca podem ser levados a sério.

O percurso de Depoitre
Senão vejamos. Do top 10 da liga belga, Depoitre foi o que de mais tempo precisou para marcar, com um golo a cada 207 minutos. Considerando todos os avançados que chegaram à dezena de golos, Depoitre teve mesmo a segunda pior média na relação minuto/golo (pior só Zinho Gano, outro pinheiro).

Depoitre fez a sua melhor época em 2014-15, quando foi essencial para que o Gent conquistasse o primeiro título da sua história. Na altura, o Transfermarkt, o site que muitos usaram para o avaliar em 6,5M€, avaliava-o em 2,5M€. Esta época, Depoitre fez 14 golos na liga belga e um na Champions. Foi isso que justificou que o seu passe valha agora três vezes mais? Certamente que não. Terá sido o único jogo que fez pela Bélgica? Improvável, pois o valor de Licá também não triplicou quando fez o seu único jogo por Portugal. É de facto intrigante avaliar Depoitre em 6,5M€, tendo em conta que o Gent nunca vendeu um jogador por tanto dinheiro.

A valorização de Depoitre, Transfermarkt
Quem não se lembra de Vossen, avançado belga que chegou a ser uma paixão de pré-época de adeptos do FC Porto? Vossen, em três épocas no Genk, fez 78 golos. O dobro dos que Depoitre marcou nos últimos 3 anos. Mais barato, mais experiente, mais qualidade, e que talvez seria mais útil ao FC Porto do que Depoitre. É certo que nenhuma estatística vai abonar a favor de Depoitre, que teve números modestos no Gent e começou a carreira profissional já tarde. Janko, por exemplo, tinha muito mais serviço mostrado e custou 3M€ no mercado de inverno (quando os preços estão mais inflacionados) de 2012 ao FC Porto. E teve logo colocação no fim da época, após ter ajudado a chegar ao título.

André Silva é um jogador que pode envolver-se na construção da equipa. Já Depoitre é um jogador que precisa que construam para ele. Fisicamente é forte, segura bem a bola, é bom de cabeça. Mas não lhe peçam para ganhar uma bola nas costas da defesa, para conduzir um contra-ataque, para se destacar no 1x1. Depoitre está lá para tentar encostar o que lhe derem. Mas isso não pode ser a mesma coisa que jogar exclusivamente para a pontaria de um ponta-de-lança, coisa que o FC Porto não faz desde os tempos de Jardel. Esse não será nunca o caminho.

E agora? Agora é esperar que as bolas cheguem a Depoitre e que chamar-lhe «tronco» seja uma coisa positiva.

PS: Post publicado antes do FC Porto informar que Depoitre não pode jogar o play off da Champions.

domingo, 7 de agosto de 2016

Não desistam da Paciência

Os talentos de hoje nem sempre são os de amanhã. Mas muitas vezes, o que separa a promessa da concretização é uma simples oportunidade. André Silva está a tê-la e a aproveitá-la, e agora percebem o porquê deste post, de julho de 2014, em que O Tribunal do Dragão defendia como prioridade segurar André Silva para o futuro.

O futuro já chegou, e agora André Silva é o ponta-de-lança do presente. Neste caso, não se trata do presente para António Teixeira, mas sim para a época 2016-17 do FC Porto, na qual André Silva está pronto para ser o 9, apesar de ter ficado com a camisola 10, honrando o antigo ídolo Deco. 

Mas não é de André Silva que falamos desta vez, mas sim de Calleri, atualmente nos Jogos Olímpicos e que fez um bonito golo na sua estreia. Ups, afinal não foi Calleri, foi Gonçalo Paciência a marcar. Mas o que se diria se aquele golo tivesse sido de Calleri? 

É interessante que, nos habituais plantéis virtuais que os adeptos formam e partilham em fóruns e redes sociais nas pré-épocas, Calleri tenha sido um nome muito utilizado. Provavelmente, muitos não o incluiriam se o seu nome não tivesse aparecido na imprensa. Mas o mais inquietante é que muitos o admitam apesar do valor exigido pelos investidores por Calleri: 20 milhões de euros, fosse por transferência ou empréstimo com opção de compra.

Calleri, que vai para o West Ham, e Gonçalo Paciência são jogadores de caraterísticas totalmente distintas. Mas é apenas um dado indicativo do quão pode ser diferente o tratamento/expetativa em relação a um jogador que chega, por exemplo, da América do Sul e outro que venha da formação.

Não é que o FC Porto não tenha tido grande sucesso no recrutamento de avançados sul-americanos - ninguém recusaria um Lisandro, um Falcao ou um Jackson -, mas a diferença é notória. O avançado estrangeiro tem o direito a ser muito caro, a ter período de adaptação e entrar em plantéis virtuais quando muitos nem sequer o viram jogar além de um best-off no Youtube. O jogador da formação não tem essa sorte.

Se calhar, alguns esperavam que Gonçalo Paciência chegasse a uma Académica ultradefensiva, mal trabalhada a todos os níveis, e que marcasse 20 golos. Quiçá os mesmos que iam torcendo o nariz em relação a André Silva até à final da Taça de Portugal. Nada se consegue sem paciência... e sem o contexto correto. 

Apesar da afirmação de André Silva, o FC Porto continua a necessitar de mais um ponta-de-lança, sem dúvida - e se Aboubakar sair, então poderão ser dois. É verdade que a juventude de André Silva recomenda uma alternativa mais experiente, mas a bem da verdade não é tarefa fácil contratar um avançado já mais rotinado, que garanta 15 ou 20 golos por época e que não venha ganhar mais do que André Silva. Isto além de ter que ser uma solução simultaneamente capaz de aceitar o banco enquanto dê garantias a titular. Um Aboubakar confiante e sem o bloqueio psicológico resolveria muitos problemas (o facto de ter sido apresentado, ao contrário de Indi, indicia que ficará no plantel se não houver uma boa proposta)... E aí, porque não Gonçalo Paciência?

De facto, há que compreender as caraterísticas de Gonçalo Paciência. Ao contrário de André Silva, Gonçalo não é jogador para receber a bola em profundidade, descair para os flancos e assumir o 1x1 ainda longe da grande área. Os jogos de pré-época deixaram claro que Nuno vai pedir isso aos avançados (o FC Porto vai ter menos posse de bola, controlar menos os jogos e depender mais da aceleração no último terço do terreno, tipo de futebol que não é propriamente o cartão de visita das equipas que têm ganho campeonatos).

Gonçalo não é um ponta-de-lança muito veloz, como nunca o foram Ibrahimovic, Sheringham ou Berbatov. Se lhe pedirem para jogar em profundidade, vai ter sempre dificuldade. Gonçalo tem um perfil diferente. Tem que jogar mais perto da grande área, com menor amplitude de jogo, pois Gonçalo é fortíssimo a segurar a bola, de costas para a baliza, a descobrir os espaços em drible curto e em arrastar os defesas. É forte fisicamente, tem um remate potente e ótimo no jogo aéreo. Gonçalo Paciência precisa de uma equipa que o «deixe» jogar mais perto da grande área... mas o FC Porto de Nuno Espírito Santo parece necessitar de avançados mais velozes e móveis.

Ainda assim, e cada vez mais no futebol português, haverá alturas em que os avançados terão que encostar aos centrais, bem perto da grande área, e aí faria todo o sentido confiar em Gonçalo Paciência. É curioso que Pepijn Lijnders, que trabalhou Gonçalo no Projeto Jogador de Elite, tenha dito isto sobre ele: «É um jogador capaz do impossível, que por vezes falha mais no possível». É uma grande verdade. Gonçalo Paciência é um jogador capaz de inventar a mais incrível jogada, coisas que a maioria dos avançados não consegue fazer, mas depois tem faltado o tal killer instinct. Mas trabalhar avançados para encostar é bem mais fácil do que ter o talento nato que Gonçalo tem, a capacidade de inventar quando os jogos estão fechados.

Se tivesse um toque mais hispânico no nome, um Gonzalo Paciencia, viesse da América do Sul e alguém tivesse compilado o seus melhores momentos e publicado um vídeo no Youtube com o título «El Nuevo Ibrahimovic», se calhar fazia correr mais água na boca. Mas sendo portista e nosso, o que deveria contribuir para haver ainda mais confiança, parece haver o sentido contrário.

Depois dos Jogos Olímpicos, sabe que tem as portas do seu «pai no futebol», Nuno Capucho, abertas no Rio Ave. Mas que ninguém pense em fechar-lhe as do FC Porto, seja nesta época ou na próxima. Fica o conselho, o mesmo sobre André Silva há dois anos. Basta ter um pouco de Paciência.

sábado, 6 de agosto de 2016

Loucura

Vamos à matemática. Quanto dá loucura x 10? É a conta que se impõe depois do FC Porto ter, no treino aberto aos adeptos, conseguido colocar quase 20 mil portistas no Dragão, apesar da pré-época estar a ser, na sua globalidade, mal preparada e gerida. Não necessariamente no plano técnico-tático, mas na construção e redefinição do plantel, com o efeito dominó resultante da ausência de vendas e da queda de receitas na UEFA.

Ter 20 mil portistas em apoio aos jogadores e ao treinador, nesta fase, é louvável. Poderíamos dizer que foi uma «loucura azul», mas isso seria mentir. «Loucura» foi quando o jornal A Bola se rendeu aos «milhares de adeptos» presentes no treino aberto do Sporting. E por milhares, entenda-se pouco mais de 2 mil.



Mas a «loucura» pode significar muito mais. «Loucura» foi quando o Benfica, que ao contrário do FC Porto atravessa um dos melhores períodos do seu historial, abriu as portas aos adeptos. E neste caso, por loucura entenda-se isto, segundo o JN: «Cerca de 2700 adeptos».


Portanto, se ter 2000 ou 2700 adeptos num treino é uma «loucura», o que dizer de 20 mil? Mais: os que foram ao Dragão não foram movidos por vitórias ou por uma boa fase do FC Porto. Foram adeptos que querem começar já a puxar pela equipa para a nova época. Neste caso, não é a equipa a puxar pelos adeptos, é o contrário.

É mais que óbvio que, à 3ª jornada do campeonato, as opiniões dos portistas já serão revistas, seja pela negativa ou pela positiva. É sempre assim. Nuno Espírito Santo, não deixando nunca de ter sido uma aposta de enorme risco, tem sido genericamente bem acolhido pela massa adepta, mas no final de agosto, depois do jogo com o Sporting e do playoff com a Roma, já haverá muita gente a mudar de opinião. Para o bem ou para o mal.

Não é fácil preparar uma época com tantas indefinições. Os adeptos não podem nunca ser insensíveis ao facto de treinador e jogadores não terem culpa do atraso na (re)definição do plantel (no caso do treinador, não pode dispensar um jogador se não tiver garantias de que virá outro). Agora só podemos contar com uma coisa: é com este treinador, e com estes jogadores, que o FC Porto terá que se bater para tentar entrar na fase de grupos da Liga dos Campeões.

Não vale a pena pensar em reforços-surpresa hoje ou em contratações-relâmpago até segunda-feira. É com quem já cá está que o FC Porto terá que tentar bater a Roma, favorita - aquela palavra que o FC Porto aprendeu a ultrapassar na sua história - para o playoff.

Nuno Espírito Santo, por mais limitações que possa ter, já tem que saber com que o 11 o FC Porto vai começar a luta contra a Roma. É impensável que um jogador seja contratado e que, com 1 ou 2 treinos, entre logo para um playoff - a não ser que se tratasse de alguém que já trabalhou com NES e que saiba o que o treinador quer.

Isso não invalida em nada a má preparação da SAD desta época. Pinto da Costa assumiu, no início de abril, que a época anterior tinha acabado e que os jogadores estavam numa espécie de «pré-época» para esta temporada. Cinco meses depois, a uma semana do arranque da época, o FC Porto não só tem posições carenciadas como não conseguiu nenhuma venda relevante.

O plantel foi avisado, no início de abril, que a preparação para a época 2016/17 já tinha começado. Mas talvez tivesse sido boa ideia afixar o mesmo aviso na SAD.

E agora? Agora vamos com as armas que temos. É o ideal? À partida não. Mas se Pinto da Costa afirmou que «já todos perceberam que esta será uma equipa à Porto», então não temos motivos para estar preocupados. A Roma que se cuide, pois Pinto da Costa não é senhor de se limitar a chavões e frases de ordem só para apaziguar as águas. Pois não? Isso sim, seria uma «loucura».

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Três semanas depois

Três semanas após o último post, as contas do plantel do FC Porto só tiveram subtrações. Desde a confirmação da compra de Alex Telles, Nuno Espírito Santo tem passado as semanas e jogos de pré-época a riscar quem considera que não serve, quem realmente não serve, a treinar quem no dia seguinte poderá já não estar no clube e à espera de reforços seus.

Não surpreende, na medida em que era facílimo prever, através do orçamento projetado para a última época e do R&C do terceiro trimestre, que não haveria compras significativas no FC Porto enquanto não houvesse vendas (desde a saída de Alex Sandro que o FC Porto não gera uma mais-valia considerável). É normal que os adeptos questionem, então, como é que Alex Telles e Felipe chegam por mais de 12M€. Simples, negócios com condições específicas, só possíveis através de determinado parceiro. E esperamos que, com a chegada de Alex, a defesa do FC Porto não se torne numa escola de samba, como dizia Pedroto.

De certa forma, até também por ser tratar de uma operação ligada ao BMG (em forma nesta pré-temporada), fazem lembrar o caso de Otávio, um dos jogadores que mais têm agradado na pré-temporada. Otávio assinou contrato no final de agosto de 2014, mas no seu primeiro ano não custou um cêntimo ao FC Porto. Assinou não porque a SAD tivesse disponibilidade para investir no jogador naquele momento (até porque não era um pedido do treinador), mas porque permitia assegurar desde logo um miúdo com talento, sem grandes implicações financeiras no ano que se seguia (algo que por vezes pode correr mal, como foi o caso com Adrián López, mas estava em causa um valor bem mais reduzido), e negociando com parceiros habituais. 

Entretanto, no segundo trimestre de 2015-16, a SAD pagou os 2,5M€ (correspondentes a 33% do passe - a SAD tem agora 32,5%) ao Coimbra Esporte Clube, clube usado pelo BMG para transferir jogadores. Otávio não deixará nunca de ser um jogador caro (os 2,5M€ por 33% do passe não significam que o jogador estava avaliado em 7,5M€ - era ainda mais caro, pois a opção de compra de mais 35% do passe é de 5M€), mas foi um exemplo de um negócio sem custos imediatos, conseguido só através de determinada parceria.

Além de Felipe e Alex Telles, só Miguel Layún foi comprado para a nova época (João Carlos Teixeira, uma aposta interessante, chegou a custo zero e Zé Manuel, o dono da velocidade vertiginosa, foi uma contratação que só pode envergonhar quem o levou para o FC Porto). A opção de compra por Layún previa que o FC Porto teria que pagar 3M€ agora e mais 3M€ até o final de 2016-17. Valia bem o investimento, tendo em conta que o FC Porto já poderia ter lucrado com Layún (numa espécie de Iturbe-Hellas-Roma). Se não o fez, é porque tem bons planos para o jogador.

De resto, ainda não houve compras, mas houve saídas de jogadores que haviam sido anunciados como reforços. Depois de Rafa, foi a vez de Josué e Hernâni receberem guia de marcha, deixando assim Otávio como o único jogador prometido por Pinto da Costa que vai, de facto, integrar o plantel principal. E não deixa de ser (pausa para encontrar a palavra mais apropriada)... Discutível como é que, da equipa do FC Porto B que ganhou a Segunda Liga, não há nenhum jogador promovido definitivamente à equipa A (Chidozie e André Silva foram promovidos a meio da última época).
Contrato até 2019

Mas as dispensas mais recentes - Josué, Hernâni e Quintero - merecem uma análise mais profunda. Começando por Hernâni, jogador cuja contratação ao Guimarães foi na altura avaliada negativamente pel'O Tribunal do Dragão, por considerar que Hernâni estava para aquele Guimarães como Licá estava para o Estoril. Assim foi, sem surpresa, pois Hernâni nunca revelou ter caraterísticas para jogar no FC Porto, nem para valer o investimento de mais de 3M€. Há muitos portistas que tinham/têm algum apreço por Hernâni, mas talvez por de facto nunca ter tido assim tantas oportunidades. Ainda assim, não é surpresa nenhuma que esteja desde já condenado a empréstimos sucessivos. O FC Porto, em alguns casos, tem-se deixado entusiasmar muito por pouco com alguns jogadores em Guimarães. Assim foi com Tiago Rodrigues, assim foi com Hernâni. Que não se volte a cometer o mesmo erro já neste mercado.

Contrato até 2017
O caso de Josué também tem um desfecho previsível, mas por motivos diferentes. É um jogador com qualidade e caraterísticas que são úteis para ser ter num plantel. Mas o FC Porto decidiu prescindir dele, e após três empréstimos diferentes, Josué tem todo o direito de recusar um quarto. E fossem todos assim: não faz sentido o FC Porto andar a renovar sucessivamente com jogadores para os emprestar. Que haja mais Hugos Leais - após meio ano cedido à Académica, percebeu logo que não tinha futuro no FC Porto e quis sair, apesar de ter mais três anos de contrato. E a única coisa que pediu para rescindir foi três lugares no camarote, abdicando de todo o dinheiro que teria a receber. E seguiu o seu caminho. 

Veja-se o exemplo de Mikel, que já tem mais renovações de contrato do que jogos na equipa A. Ou Abdoulaye, que anda desde 2010 a ser emprestado e que voltou a renovar contrato para continuar a rodar por outros clubes. Lá para 2024 deve estar no ponto para resolver os problemas na defesa.

Josué está no seu direito de não querer renovar. Vai fazer 26 anos, já fez três empréstimos, já fez parte do plantel principal e, neste caso, ouviu da boca de Pinto da Costa que iria fazer parte do plantel. Quem tem que decidir quem faz parte do plantel é o treinador, não é o presidente, mas Josué cresceu num FC Porto em que a palavra de Pinto da Costa sempre foi sagrada e suprema. Se ouve o presidente garantir-lhe um lugar no plantel e acaba dispensado, é normal que não sinta motivação em renovar. Josué, provavelmente, nunca conheceu um FC Porto em que a palavra de Pinto da Costa não fosse cumprida. 

Se marcou na final da Taça, a culpa foi de quem o deixou ir para Braga, pois um jogador, quando está em campo, defende a camisola que tem vestida, não o clube que tem o seu passe. Josué poderia ser útil ao plantel, embora dificilmente tivesse espaço cativo na equipa titular. Resta tentar garantir o melhor encaixe possível com uma venda imediata - eventualmente garantindo uma parte significativa de uma futura transferência, pois é um jogador que se pode valorizar, e estando a um ano do final do contrato nenhum clube vai querer pagar muito por ele.

E com isto chegamos a Quintero, com vontade de bofetear uma cabeça que não faz jus aos pés que tem. Nuno Espírito Santo tentou, mas Quintero não quer saber. Sobra a questão: como é que, desde 2013, houve tanta incapacidade em antecipar que Quintero era um caso perdido e o porquê de tanto investimento progressivo num jogador que não correspondia?

Contrato até 2021
O caso mais preocupante já nem é a compra dos restantes 50% do passe, por 4,5M€, durante a curta (e única) boa sequência de jogos que Quintero fez com Lopetegui. O problema foi, em janeiro, renovar com Quintero por mais 4 anos, para ele logo depois ser afastado pelo Rennes. Foram cerca de 10M€ investidos num jogador sem retorno. E a renovação de contrato já não vai ao encontro da teoria da proteção do investimento, pois a SAD já pagou tudo o que tinha a pagar por Quintero. Concluir que Quintero não ia a lado nenhum era algo que deveria ter acontecido antes de se renovar por mais 4 anos e ter mais despesas com uma renovação de contrato, não depois de se ter reforçado, por duas vezes, o investimento nele.

E agora? O que se faz a um jogador com contrato por mais 5 anos que desperdiçou todas as oportunidades que lhe foram dadas no FC Porto? Dá para garantir royalties com todos os CDs de reggaeton que lançar até 2021? Já se recuperava uma parte do investimento. Neste caso, neste momento não resta mais do que tentar recuperar tanto quanto possível o investimento feito em Quintero. Até lá, metam-lo a dar voltas ao Olival e liguem o sistema de rega. Pode ser que a cabeça refresque.

Pergunta(s): Concordam com o afastamento de Quintero, Josué e Hernâni? Que temas gostariam de ver serem abordados nos próximos posts?