É o nome mais incontornável deste defeso, numa novela que se arrasta há semanas e que será pela primeira vez analisada neste espaço. Rafa pode, simultaneamente, ser uma boa adição ao plantel e um mau exagerado negócio no contexto atual. Um paradoxo, sem dúvida, mas que não é exceção (Hulk também foi uma excelente adição ao FC Porto, mas o custo do seu passe foi altamente sobrevalorizado). Tudo dependerá dos custos envolvidos. Rafa não vale 20 milhões de euros. E é difícil aceitar que valha sequer metade. Recuemos um ano no tempo.
![]() |
| A última Coca-Cola (?) |
«Se (o Rafa) vale 20 milhões, se calhar o Gonçalo Paciência ou o Ricardo Pereira valem 25 milhões. E o Ivo Rodrigues valeria 20». Palavras sábias de Pinto da Costa, que admitiu o interesse no jogador, mas reconhecendo que pagar 10 milhões de euros na altura por Rafa (correspondentes a 50% do passe que o Braga detinha) era, citando, «uma burrice». 100% de acordo. Podemos gostar de Rafa, mas não estamos a falar de um jogador que valha nem sequer perto os valores que estão a ser veiculados.
Vejamos. Há um ano, Rafa era um suplente dos sub-21. Hoje, é um suplente da seleção A, que foi ao Euro 2016 para jogar apenas 1 minuto contra a Áustria. O Euro2016 não valorizou Rafa, a não ser que considerem que o simples facto de marcar presença nos bancos de um Europeu faz com que o valor do passe dobre.
No Braga, o que foi a época 2015/16 de Rafa? Objetivamente, foi muito melhor do que a época anterior. Valorizou-se, sim. Passou a 20 milhões de euros? Não brinquem.
Estamos a falar de um jogador que não tem propostas de Inglaterra, não tem propostas de Itália, não tem propostas de Espanha. Rafa teve uma proposta do Zenit, que não lhe suscitou interesse, e tem o convite do FC Porto, que há um ano não lhe despertava interesse mas agora, com perspetivas de titularidade e percebendo que não está a despertar o interesse de nenhum outro clube (nem com Jorge Mendes associado), já encara o FC Porto com bons olhos.
Mas compare-se o rendimento de Rafa com o do seu colega de equipa Pedro Santos. Rafa, em 30 jogos na Liga, fez 8 golos e 2 assistências. Já Pedro Santos, em 23 jogos, fez 7 golos e 6 assistências. Há mais para além de golos e assistências, claro. Por exemplo, ver a eficácia e número de remates (1,9 e 16% por jogo), as tentativas de drible eficazes (38%), o número de situações de golo criadas por 90 minutos (apenas 1.2) e a eficácia de passe em zona de perigo (74%). E em todos estes aspetos, estatisticamente, Rafa perde em todos os dados para Corona, Otávio e Brahimi em 2015-16.
Tendo em conta que o FC Porto, ainda que não controlando a totalidade dos seus passes, não chegou a pagar 20M€ por Corona, Otávio e Brahimi juntos, não faz sentido aceitar por Rafa tal avaliação, tendo em conta que Rafa não garante, no curto prazo, nada acima de Brahimi ou Corona. Tirando, sem dúvida, a velocidade. Mas como aproveitar essa velocidade?
Pensar em tirar proveito de um jogador veloz não pode ser pensar apenas em correr, caso contrário Hernâni hoje estaria aqui. Um exercício: abram um vídeo qualquer de Rafa, no Youtube, e vejam como e onde ele faz a diferença. Em 80% dos lances em que se destaca, Rafa sobressai pelas suas arrancadas. Quando arranca com bola, sempre coladinha ao pé, é quase sempre imparável. É essa a sua grande valia. Se tem espaço, arranca e não o param.
Comparando com Brahimi, que está de saída, a diferença é que Rafa é mais direto. É forte nas diagonais e as suas arrancadas são mais orientadas, procurando sempre a baliza, enquanto Brahimi, por exemplo, retia mais a bola. Mas Brahimi, mesmo entre as suas rotundas, acabava por rematar mais e melhor (2,9 remates/jogo, com eficácia de 29%), finta melhor (55% de eficácia) e passa melhor (86%) no meio-campo adversário. Rafa pode aumentar os seus números jogando num FC Porto de ataque? Sem dúvida que sim. Mas é um produto inacabado. E o FC Porto não pode entrar em loucuras por produtos inacabados.
O FC Porto não tem um jogador com as caraterísticas de Rafa no plantel, mas Rafa vai ter que se adaptar a uma nova realidade. Aqui não terá tanto espaço para jogar e vai sofrer marcações mais apertadas. Rafa não é um João Moutinho - o mais caro entre transferências de jogadores portugueses (Rafa não vale o que Moutinho valia em 2010) -, que tinha caraterísticas para chegar e encaixar na equipa. Rafa não poderá ser no FC Porto o que era no Braga. Muito menos o que era nos sub-21 ou na seleção A. Isto, claro, se o negócio se concretizar.
O Braga controla, neste momento, 80% do passe de Rafa, depois de se ter comprometido a pagar 4M€ para recuperar 40% do passe que pertenciam a Jorge Mendes. Esta recompra avaliaria Rafa em 10M€, embora isso nunca seja linear. Mas o Braga só terá que pagar essa recompra depois de transferir Rafa. Ou seja, António Salvador estará pressionado a vender nesse sentido - jamais iria já recuperar a % do passe se não fosse para vender. Mas António Salvador nunca, nunca deu um bom negócio ao FC Porto. Pelo contrário, o FC Porto já deu ao SC Braga uma dúzia deles.
O que tirou o FC Porto da ligação ao Braga na última década? Escolham se gostaram mais de Kieszek, de Andrés Madrid ou de Orlando Sá. O SC Braga foi sempre bem mais proveitoso para o Benfica. Benfica esse também atento a Rafa, mas só com disponibilidade para avançar se vender Carrillo e/ou Salvio. Mas o mais curioso é que, embora Jorge Mendes já não controle o passe de Rafa, pode indiretamente ajudar o Benfica, com propostas daquelas mirabolantes pelos referidos jogadores por parte de clubes como o Mónaco, Atlético ou Wolves. O Sporting também desejava Rafa, mas dependeria da venda de João Mário e outro jogador.
Rafa, concretamente, é um jogador com pouco mercado, o que por si só justificaria que o FC Porto jamais aceitasse entrar em loucuras por ele. É simplesmente impossível que o competente departamento de scouting do FC Porto não seja capaz de identificar jogadores com as caraterísticas de Rafa que custem um terço. E às vezes nem é preciso ir muito longe - todos viram o exemplo de Diogo Jota, que despontou no Paços, aos 18 anos, para fazer uma época superior à de Rafa no campeonato. O clube vendeu 60% do seu passe por 65 mil euros em 2014. Será que a Pacheco & Teixeira, que comprou 20% do passe por 30 mil euros, tem quem perceba mais de futebol do que o FC Porto? Certamente que não.
Rafa pode ser útil? Pode. Se vale 10, 15 ou 20 milhões de euros, então toda a Europa do futebol parece estar a dormir. É que entre clubes espanhóis, ingleses, alemães, franceses ou italianos, endinheirados, nenhum pareceu interessado em avançar por Rafa. Já o FC Porto, que vem de uma época de prejuízo colossal e não gerou as mais-valias necessárias (acima de 40M€), tendo manifestas limitações neste momento na capacidade de investimento (e ainda sem vender ninguém), é que parece ser o único clube a considerar que Rafa é a última Coca-Cola do deserto. O FC Porto ou, a bem da verdade, muitos dos seus adeptos.
Então: o FC Porto precisa de um jogador com as caraterísticas de Rafa... ou precisa mesmo do Rafa? Não há justificação possível para, neste momento, colocar Rafa num pedestal e fazer dele um dos jogadores mais caros da história do FC Porto e o mais caro da história do Braga. Se António Salvador puxa a corda, boa sorte a tentar conversar com outro clube. O FC Porto já esteve dependente de alguns jogadores que fizeram parte deste clube, como Madjer, Deco ou Hulk. Mas nunca esteve dependente de jogadores que não chegaram a ser contratados.
Não será pela ausência de Rafa que o FC Porto deixará de ter menos hipóteses de lutar pelos seus objetivos. A não ser que todos os restantes clubes da Europa estejam condenados ao insucesso, pois, tirando o Zenit, aparentemente nenhum deles se lembrou de Rafa. Se António Salvador quiser continuar a esticar a corda, cá vai um refresco de memória do quão arriscado isso pode ser: em 2013 disse que recusou 23M€ por Éder e 14M€ por Douglão. Que grande desvalorização sofreram até à hora de saída.
Se não houver acordo por Rafa, por desacordo de verbas, não haverá problema nenhum, pois pelo preço exigido pelo SC Braga o FC Porto encontra - ou deveria encontrar - facilmente alternativas a Rafa. O problema não será se não vier Rafa: é se o FC Porto depositar exclusivamente as suas fichas em Rafa e, no final, não vier ninguém. Mas quem vier, já vem tarde, pois vamos para o play-off sem extremo, sem Rafa, sem Brahimi (que sentido faria jogar contra a Roma se não foi opção para a 1ª jornada?). Vão fazer falta? Esperemos que não. Nem quarta-feira nem durante a época.


















