quinta-feira, 9 de julho de 2015

Orçamento, um problema semântico

Perceber 150 milhões
O futebol português tem um grave problema de semântica. Isto a propósito da notícia de que o orçamento do FC Porto poderá chegar aos 150 milhões de euros na próxima época. Se pensarmos que Bruno de Carvalho diz que tem um orçamento de 25 milhões para ser campeão, é normal que se gerem dúvidas quanto ao que o FC Porto vai gastar. Mas na verdade tudo não passará de um problema de semântica.

O que é orçamento? Esta é a grande questão. O que é que se entende por orçamento numa SAD? Por norma, numa empresa, orçamento é uma previsão detalhada dos custos e das receitas para um determinado período. Se o saldo final for positivo há lucro, se for negativo há prejuízo. É simples. Mas no futebol isso não faz sentido.

FC Porto, e também Benfica e Sporting, não existem para gerar lucros. Seguem uma política em que as suas receitas servem para financiar, em ciclo, a sua própria atividade. A receita é investimento aplicado no imediato. Logo, não faz sentido pensar num orçamento para uma SAD no saldo entre receitas e despesas.

O que é que se deve entender por orçamento? Por exemplo, quando o carro avariou, fui à oficina e pedi o orçamento da reparação. Ora o orçamento é, simplesmente, a despesa que vou ter. Não há cá lucros a considerar. O mecânico dá-me um preço, depois pago-o. Por orçamento no futebol o mais correto será considerar todas as despesas que se vai ter ao longo de um ano. Simples. Depois cabe à SAD, com as suas próprias receitas, correntes ou mais-valias, cobrir as despesas. 

Assim se compreende como é possível afirmar que o orçamento do FC Porto para 2015-16 será de 150 milhões de euros. A surpresa? Nenhuma, pois está em linha com o que foi gasto na última época. De recordar:



Estas eram as despesas orçamentadas pelo FC Porto para 2014-15. Podíamos falar de um orçamento de 114 milhões para o último ano? Até podíamos. Mas importa sempre considerar aquilo que são os gastos com transferências. No caso, em 2014-15 o FC Porto teve gastos (em termos de contabilização, não de dinheiro investido durante o exercício) com aquisições de passes de 45,8M€. Assim, quase que se falaria de um investimento global de 160 milhões de euros, que foi superior ao que está a ser projetado para 2014-15. 

Mas depois entramos no campo semântico. Por exemplo, como contabilizar as transferências? Temos o caso de Imbula, de quem tomemos por referência os 20M€. É uma operação de 20M€, mas não necessariamente uma despesa de 20M€ em 2015-16. Há dois aspetos a considerar: o momento em que as tranches são pagas e o método de amortização do investimento. Neste caso, tendo Imbula assinado por 5 épocas, são deduzidos 4M€ por ano. A fórmula é sempre a mesma: preço total da contratação a dividir pelo número de anos (ou meses) de contrato. Logo, se em 2014-15 o FC Porto tivesse contratado apenas Imbula, também se poderia falar de 114 + 4 milhões. É tudo uma questão de interpretação.

Agora, a propósito dos 150 milhões. Seguindo a mesma fórmula, porque é que ninguém se escandalizou com o que o Benfica gastou para ser campeão e evitar o tetra do FC Porto em 2013-14? Talvez fiquem surpreendidos com o que foi o orçamento do Benfica para essa época: 109 milhões de euros de gastos operacionais + 49,3 milhões em reforços. Se fizermos as continhas e seguirmos a mesma lógica semântica aplicada ao FC Porto, concluímos que o Benfica teve um orçamento de 158,3M€ para ser campeão. Ou seja, quase idêntico ao que o FC Porto de Lopetegui, que diziam ser o mais caro de sempre, teve para 2014-15. 

E os 25 milhões do Sporting? Bruno de Carvalho engana quem quer. 25 milhões foi exatamente aquilo que o Sporting gastou, só em custos operacionais (ou seja, sem contratações), durante os primeiros 6 meses da época 2014-15. Então, no segundo semestre joga tudo de graça e ninguém paga a ninguém em Alvalade? Aparentemente, o presidente do Sporting quis associar a palavra orçamento àquilo que são os salários a pagar ao pessoal, pois foram gastos 12,1M€ em salários no primeiro semestre. Assumindo que no segundo a folha de vencimentos dobra, aí têm os 25M€. Lá está, semântica. Pode enganar quem quiser e quem quiser que se deixe enganar, mesmo com os números chapados à distância de uns clicks.

Semântica à parte, há a considerar a receita. O FC Porto já não terá, em 2015-16, a desvantagem de ter um prejuízo gigantesco a transitar do exercício anterior (cerca de 38M€ de 2013-14). Em 2014-15 estavam previstas receitas de 90M€, mas a SAD superou essa marca. Possivelmente a Champions não dará tanto dinheiro em 2015-16 (mesmo com o aumento de prémios, a não ser que se chegue aos 1/4), mas é difícil crer que as receitas do FC Porto sejam inferiores a 85/90M€ na próxima época.

O resto, já se sabe, tem que ser colmatado com a gestão de mais-valias. Ainda não se sabe quanto será necessário, pois o orçamento ainda não foi apresentado, mas podemos sempre contar com a já clássica necessidade de vender dois titulares. O que se deseja é que a SAD não pense que todas as épocas teremos capacidade para fazer cerca de 70M€ em mais-valias. Isso é exigir ao plantel e à equipa técnica aquilo que a própria SAD tem que alcançar: conseguir gerar mais receitas operacionais e reduzir a dependência de mais-valias, sobretudo se vamos continuar neste modelo orçamental de risco.

Fernando Gomes, não esquecer, disse em Maio que o orçamento para 2015-16 será inferior ao desta época. Mas reparem no que ele afirmou. «No entanto isso não significa que haja menor investimento na equipa de futebol». E não significa mesmo. Seja qual for o caminho semântico que a SAD deseja tomar, o que se pede é um orçamento exequível, que reduza a necessidade de mais-valias face a 2014-15, que permita manter todos os compromissos financeiros em dia, que não agrave o passivo e que o défice operacional seja coberto pela receita de transação de passes, sem que isso sacrifique 3 titulares de uma assentada. Parece fácil? Não é. É por isso que precisamos de (continuar a) ter uma gestão de excelência. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Casillas, Helton e a sombra da sucessão

Eu, portista, me confesso: em 1999, quando Peter Schmeichel assina pelo Sporting, achei de facto que o fim do mundo estava próximo. Levava 8 anos a ser titular indiscutível em Manchester e nesse mesmo ano tinha acabado de ganhar Premier League e Liga dos Campeões. Foi um dos negócios mais inacreditáveis e surpreendentes que alguma vez vi. E hoje leva goleada daquilo que está muito perto de se concretizar.

Oportunidade sem igual
Iker Casillas no FC Porto. O guarda-redes campeão europeu e mundial, titular do Real Madrid há 16 anos, reconhecidamente um dos melhores da história do futebol. Continua a ser difícil de acreditar. Há entendimento alinhavado, as partes estão hoje reunidas, se tudo correr bem o FC Porto será uma atração ainda maior quando começar o estágio na Holanda. Esperemos que um endinheirado qualquer não se atravesse.

Que se pode dizer? A partir do momento em que o FC Porto anuncia a contratação de Casillas, pouco mais se pode fazer do que imitar aquele célebre gif. (pronunciem lá como quiserem) de Lopetegui. É simplesmente uma transferência bombástica, sem paralelo. Mas se Casillas esteve quase a ir para a Roma, não é assim tão surpreendente que acabe no FC Porto. 

Aqui, Casillas continua a jogar a Champions, vai lutar por títulos, fica perto de Madrid e da sua família. A questão salarial é sempre um impasse, mas felizmente as relações entre Real Madrid e FC Porto estão ótimas. E se o Real quiser vender Casemiro, tem que pagar uma indemnização de mais 7,5M€ ao FC Porto. Esse valor já ajudava e muito a suportar grande parte do salário de Casillas.

Continua a ser um jogador muito caro? Sim. Como são sempre os melhores do mundo. Mas é melhor a SAD andar a sustentar um Casillas do que andar a pagar por Bolats, Andrés e Ricardos para nunca sequer os utilizar. O problema não são os jogadores caros que rendem. São os baratos que não chegam sequer a ter oportunidade para render.

Desportivamente, claro que há questões a debater. Se Casillas é contratado é para ser titular, sem discussão. É uma estrela e sentir-se-á como tal no FC Porto. Não lhe peçam que seja um portador de mística, porque não o vai ser. É um guarda-redes que ganhou tudo o que há para ganhar, que pode jogar em qualquer clube no mundo. Tem 34 anos? Ok, é dois anos mais velho do que Mlynarczyk quando chegou ao FC Porto. Tem todas as condições para jogar ao mais alto nível enquanto - esperemos - Gudiño evolui no sentido de se tornar o número 1 do FC Porto.

A braçadeira também se
usa fora de campo
E há Helton, que renovou contrato até 2017. É um dos jogadores mais acarinhados pela massa adepta. Mas é também um jogador que convive muito mal com o banco, sobretudo pela sua própria auto-estima face àquilo que já ganhou pelo FC Porto. Helton sente que é parte da história do FC Porto, e sente-o bem. Mas isso não confere titularidades por decreto. Infelizmente para ele, contratar Casillas é quase dar-lhe a titularidade por decreto. Como é óbvio, Casillas não viria para Portugal para ser suplente, para ser mais um num grupo de trabalho. Helton pode sentir a sua história ser desrespeitada, mas... até Vítor Baía, a determinada altura, teve que passar o testemunho a um jogador que vinha da União da Leiria, por causa de ter dado um frango contra o Estrela da Amadora. Não foi a mais honrada passagem de testemunho, mas aconteceu.

Helton já pisou o risco muitas vezes desde a lesão. A mensagem enigmática nas redes sociais, a flash-interview em que deu recados internos, a entrevista em que o silêncio sobre Lopetegui acaba por ser demasiado barulhento (simples: pedia ao jornalista para não publicar nada que fosse para falar sobre o treinador, não a sua resposta tão vaga). Helton tem 18 títulos pelo FC Porto. Lopetegui nenhum. Helton pode sentir que isso lhe dá um estatuto que não pode ser colocado em causa, mas não dá. Helton não era nada no FC Porto no dia em que se tornou o sucessor de Baía. Todos começam do zero neste clube. A não ser que tragam na bagagem tantos anos de sucesso ao serviço do Real Madrid e de uma das seleções mais fortes da história... 

Se Helton ficar no plantel, tem que honrar a braçadeira de capitão. A responsabilidade é a mesma, seja em campo, no banco ou no balneário. É um jogador adorado pela massa adepta e não queremos que isso seja deitado a perder. Mas é preciso compreender os efeitos que a contratação de Casillas também gerará no balneário. 

Ainda na questão da idade. Contratar um jogador trintão faz todo o sentido, se: a) tiver qualidade imediata para entrar no 11 e render ao mais alto nível; b) seguir uma lógica de sucessão dentro do próprio plantel. Para Casillas, seria bom ver Gudiño evoluir na sua sombra. E se quisermos falar noutra possibilidade, não seria um desdém para Aboubakar, Gonçalo ou André Silva passarem um aninho a treinar com Drogba e a crescerem com e ao lado dele.

PS: A transferência de Garay para o Zenit foi ainda melhor do que se pensava. Para bom entendedor, um Danilo, um Casemiro ou um Casillas bastam. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

O resgate de um reforço

Champion in the making. Começou a pré-época e ao segundo dia de treinos já se registou uma excelente notícia: a reincorporação de Silvestre Varela no plantel, com contrato renovado até 2019.

É cedo para dar por garantido que fará de facto parte do plantel - ainda há hipótese de ser transferido para outro clube, o que só se compreenderia a título definitivo -, mas faz todo o sentido que assim o seja. Lopetegui queria-o em 2014-15, mas a tal promessa que é um clássico na gestão segundo Pinto da Costa, de ficar mais um ano e sair, já tinha sido feita e refeita.

Contrato até 2019
Infelizmente, não houve clube que pagasse o que Varela valia e queimou-se um jogador que teria sido importante e útil para o FC Porto, se estivesse de cabeça limpa. O jogador acabou por ficar mal na fotografia quando Pinto da Costa falou sobre a sua situação em entrevista ao Porto Canal. Mas isto é algo que teria forçosamente que ser ultrapassado, até porque tratou-se da pior entrevista dada pelo presidente em muitos anos. Basta lembrar os três nomes que falou como apostas na formação a curto prazo: Abdoulaye, Pedro Moreira e Tozé.

Com Varela reintegrado, o FC Porto só tem a ganhar. Trata-se de um extremo inteligente, equilibrado, que cruza e finaliza bem, garante uma boa média de golos e assistências por época e é o melhor amigo de qualquer lateral. Saíndo Quaresma, recuperar Varela é a melhor solução possível. Por mais contraditório e polémico que isto possa soar, se calhar a maioria dos laterais prefere jogar com Varela à frente do que com Quaresma. Isto porque, apesar de Quaresma ter melhorado defensivamente, Varela é mais forte taticamente, sabe dar o correr ao lateral, é forte no movimento interior e fecha muito bem o flanco. Por motivos que nunca compreendi, por vezes era uma espécie de mal amado. Por cá, é bastante apreciado e torço para que fique, definitivamente, no plantel.

Adiante. Uns entram, outros saem... e a outros ainda não se sabe o que fazer. Isto a propósito dos jogadores que têm contrato com o FC Porto, mas não fazem sequer parte do grupo de trabalho para iniciar a pré-época.

Nos primeiros 9 meses da época 2014-15, os jogadores emprestados pelo FC Porto custaram ao clube 2,83M€. Nunca o FC Porto teve a falha salarial tão sobrecarregada às custas de jogadores cedidos a outros clubes. Por exemplo, na época passada, nos primeiros 9 meses só tinham custado 145 mil euros. Por isso, emprestar um jogador, se não houver perspetivas de evolução e reintegração no plantel, é igual a prejuízo. Tanto que as receitas com emprestados em 2014-15 foram de apenas 736 mil euros até ao R&C intercalar.

Portanto, há que varrer a casa. Só assim se pode suportar a massa salarial de Imbulas, Casillas ou Maxis. Não é só a questão salarial para 2015-16 - é também o dinheiro que se poupa em salários futuros, em comissões de empréstimos, e o próprio retorno que uma venda a título definitivo pode significar. 

A situação de Carlos Eduardo  pode servir como exemplo. Que jogador de mais de 25 anos voltou ao FC Porto após um empréstimo? Se Carlos Eduardo não contava para 2015-16, provavelmente nunca mais iria contar. Então arranjou-se saída a título definitivo, por uma quantia que se julga ser razoável. Provavelmente não 7M€, pois um valor desses motivaria todo o interesse em que fosse comunicado à CMVM (apesar de Carlos Eduardo não estar na lista de ativos que a SAD declara em todos os R&C), mas emagre a lista de excedentários, a massa salarial e gera lucro. Fossem todos assim.

Saudando o regresso de Varela, ficam apenas votos de que haja capacidade de repetir o processo de reintegração com Rolando. São casos diferentes, mas se resolvidos acabam com o mesmo resultado: o FC Porto só tem a ganhar. 

sábado, 4 de julho de 2015

Mais depressa se apanha uma Fénix do que um Vieira

No futebol como na política e em qualquer outro sector da nossa sociedade: quem comete práticas ilícitas e tira, desta forma, benefícios pessoais deve ser sujeito a explicações e, se comprovadas irregularidades, a punição. Serve para o Zé, para o Manel, para o Toni e para o Antero. 

CM 02-07-2015
A Operação Fénix deteve 15 pessoas suspeitas de extorsão, associação criminosa, tráfico de droga e ofensas à integridade física. Mas a notícia já não é isso. A notícia é que Antero Henrique, vice do FC Porto (e não vice de Pinto da Costa), e a SPDE, responsável pela segurança nos recintos do clube, foram alvo de investigação. E foi um saltinho até chegar à principal claque do FC Porto. A partir daqui, temos novela para o defeso.

Capas de jornais, aberturas de noticiários, até nos espaços que deviam ser destinados a comentadores desportivos mas que de repente tornam-se sociólogos e criminologistas de bancada. Porque o que está em causa já não é Fénix, nem Antero, nem uma investigação a empresas de segurança: é o tornar o FC Porto no centro de suspeitas. Começou em Antero, puxou-se Pinto da Costa, chegou-se à claque e já se fala em espionagem.

Curioso o conceito. Por espionagem deveria entender-se o que Daniel Sampaio denunciou no Sporting, que incluía o controlo de telemóveis e vida íntima dos jogadores. Agora, assegurar que ninguém viola o horário de recolha e que nenhum jogador (que como quaisquer jovens cheios de dinheiro gostam de festas) anda na borga em horas impróprias? Isso não é espionagem, é prática habitual em qualquer clube, é assegurar que o jogador e o ativo seguem as condutas de ética e bom comportamento que lhes são exigidas. 

Mas não é este o foco, mas sim a forma como este assunto está a ser amplamente noticiado. Vamos fazer uma comparação: lembram-se de quando Luís Filipe Vieira foi alvo de buscas por parte da PJ e foi acusado de proteger suspeitos dos mesmos crimes que visam a Operação Fénix? Não? Normal, pois na altura não mereceu um décimo da atenção que está a merecer o caso atual.


Ok, Vieira foi alvo de buscas por burla a um banco no qual o Governo torrou centenas de milhões de euros e que lesou os contribuintes. Reparem que até um jornal cotado como o Expresso não conseguiu mais do que citar a revista que avançou com a notícia, a Sábado. O resultado foi este:

Não vale a pena repetir a legítima indignação à qual muitos chamam populismo. Mas eis o resultado: contribuintes a pagar milhares de milhões em lixo tóxico para o presidente do Benfica usufruir disto. Alguma imprensa falou disto na altura, como é lógico. Mas falou-se sempre em Luís Filipe Vieira, não no «presidente do Benfica». Neste caso, não falam em Antero Henrique. Falam do «vice do FC Porto», do «vice de Pinto da Costa». Nem fala da SPDE, falam da «empresa responsável pela segurança no Dragão».

O FC Porto fez o que lhe competia: disse que ia colaborar com a investigação. Que fez o Benfica quando foram efetuadas buscas a Vieira? «O Benfica não comenta, referindo tratar-se de uma questão pessoal de Filipe Vieira.» Eis a diferença.

Continuando, e insistindo que se comprovadas quaisquer irregularidades Antero Henrique deve prestar explicações e ser julgado dentro dos parâmetros da lei. A Operação Félix visa, como já se disse, apurar práticas de extorsão, associação criminosa, tráfico de droga e ofensas à integridade física. Vamos recordar no que andava metido Luís Filipe Vieira há um tempito.

Ora, de acordo com um jornal com grande proximidade com o Benfica, tanto que até colabora e troca conteúdos com a televisão do clube, Vieira protegeu sujeitos suspeitos das práticas ilícitas que incluem «droga, armas, roubos, incêndios e espancamentos a adeptos rivais». O presidente que se queixou que lhe incendiaram o Estádio da Luz, mas que deixa adeptos entrar com tochas, segundo o relatório da PSP.

Ah, e agora que se discute a proximidade de Eduardo Silva com Antero Henrique, é interessante ler aqui que Vieira «despede o chefe de segurança do clube por ajudar a PSP a identificar os criminosos – e almoça com o comandante da polícia para lhe pedir que "facilite" na presença policial junto dos No Name Boys». E enquanto os Super Dragões são um grupo organizado, eis o relatório da PSP que diz que «os No Name Boys nunca se quiseram legalizar como associação para não serem identificados». E Vieira apoia.

E continuando a citar o relatório da PSP e este jornal parceiro do Benfica: «Mas a direcção do Benfica 'não cumpre a lei e cede bilhetes a preço reduzido e instalações' a um grupo que, nas últimas épocas, intensificou 'a violência sobre a polícia e adeptos rivais'. Além de deflagrarem as 'tochas, petardos, very-lights e potes de fumo nos estádios', 'incitam à violência com o lançamento de tochas, isqueiros e cadeiras' e 'vendem droga no decorrer dos jogos'. No final, seguem, espancam e roubam as pessoas».

Eis mais um exemplo flagrante de dois pesos e duas medidas envolvendo Benfica e FC Porto. Concluindo, mais depressa se apanha uma Fénix do que um Vieira.

A melhor aposta do defeso

Uma excelente aposta
Conforme foi explicado há semanas, o tempo para atualizar o blogue deixou de ser o maior. Ainda há vários temas pendentes, que vão desde Helton a Quaresma, do mercado ao plantel, mas há uma novidade a saudar.

Há vários pontos para definir a pertinência e boa decisão numa contratação (isto é, o momento da contratação, não o seu balanço). Idade do jogador, qualidade imediata e margem de progressão; Preencher uma carência no plantel, estar familiarizado com clube e campeonato, falar o idioma, ter escola; O preço da contratação, o salário e a projeção de uma futura venda; o caráter do jogador, a sua postura durante um processo negocial e a aprovação da equipa técnica.

Posto isto, a contratação de Danilo Pereira é, para já, a melhor da época para o FC Porto. Um jogador em que deposito grandes esperanças e que é, sem tirar nem pôr, o nome que mais desejava ver no lugar de Casemiro. A SAD ainda não tornou públicos os detalhes do negócio, que se soube complexo, mas não sendo declarado já à CMVM indica que a operação foi considerada «irrelevante para o mercado».

PS: A sobrelotação de médios tem sido muito discutida entre adeptos. É cedo para afirmar isso, pois ainda há dois meses de mercado pela frente, uma pré-época para fazer, saídas para tratar e um esquema alternativo assente em 4x4x2. Isso, como é óbvio, tira um pouco de força à lógica da continuidade com Lopetegui. Mas se até José Mourinho precisou de variar (e bem) para a segunda época completa no FC Porto, venham os treinos, os jogos de preparação e logo se verá se há, ou não, médios a mais. À data de hoje, 4 de julho, o FC Porto não fez nenhuma contratação impertinente. De recordar que há um ano Lopetegui só tinha Evandro e Óliver como reforços quando começou a pré-época. Paciência, que a procissão ainda nem ao adro chegou.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Imbulição

35M€ por 95% do passe
Faltava menos de uma hora para o soar do gongo, mas às 23h04 surgiu o fumo branco na CMVM. O FC Porto vende um ponta-de-lança de quase 29 anos por 35 milhões de euros, uma das mais brilhantes transferências (do ponto de vista financeiro, pois no desportivo deixa um enorme vazio) da história da SAD. Temos só um pequenino problema semântico: «Irá exercer a cláusula de rescisão». Irá, mas quando? Melhor das sortes a Jackson Martínez e que no R&C anual não seja necessário avançar para um Show me the money, parte III.

Esta foi uma época verdadeiramente atípica. Foi necessário avançar para a operação Euroantas para cumprir o fair-play financeiro. Não é dinheiro real, mas fará uma grande diferença no balanço para calcular o FPF (em 2017-18 já não poderemos contabilizar o lucro de 20,3M€ de 2012-13 e vamos ter que incluir o prejuízo de 40,7M€ do ano seguinte, sabendo-se que não podem ser apresentadas perdas superiores a 30M€), que foi encarado com muita negligência. 

Além disso, em 2014-15 tivemos contabilizados 97M€ brutos com a venda de três titulares (Mangala, Danilo e Jackson), foram incluídos dois prémios de participação na Liga dos Campeões, uma rara ida aos 1/4 da Champions e ainda outras fontes de receita extraordinária. Em 2014-15 teremos certamente a época com maiores receitas da história da SAD. E isto não vai acontecer todos os anos. Teremos capacidade para vender 3 titulares por pelo menos 30M€ cada todos os anos?  Se calhar até há capacidade para isso. Preocupante é precisar dessa capacidade para subsistir, e de haver quase sempre o mesmo denominador: Jorge Mendes.

Com o patrocinador ainda por resolver (sendo que não vai gerar uma verba muito significativa, por mais que se dramatize esta questão - basta ver o impacto da PT aqui e aqui) e desconhecendo-se ainda, no domínio público, os termos da renegociação/liquidação do maior empréstimo do Novo Banco, a SAD está neste momento com boas condições financeiras, fruto das receitas extraordinárias esta época. E qual é a primeira coisa que se faz com algum dinheiro extra? Imbula. 

Uma loucura, a qualquer preço
20 milhões de euros, o jogador mais caro da história do FC Porto. Apenas mais um milhão do que Hulk, que teve um investimento progressivo, num espaço de 5 anos (5,5M€ + 13,5M€). Começando pela parte desportiva. Imbula, se não tiver problemas de adaptação, tem tudo para singrar no FC Porto, ajudar a ganhar títulos e sair por um bom dinheiro (é difícil querer e ter mística quando já se faz contas à saída de um jogador no momento da chegada). É uma boa contratação, que acrescenta potencial e qualidade ao plantel. E é também uma verdadeira loucura.

O FC Porto não entra, como é lógico, com 20M€. Nem sequer com metade. Com o fim da partilha de passes, a SAD passa a ser obrigada a comprar 100% do passe dos jogadores. Mas os fundos continuam a operar normalmente, e neste caso é a Doyen Sports a permitir ao FC Porto contratar Imbula.

Que quer isto dizer? A Doyen entra com o financiamento e o FC Porto tem que ressarcir o fundo progressivamente. Se em 2016 Imbula não estiver valorizado? Paguem uma tranche. E se em 2017 já evoluiu mas ainda pode render mais? Paguem mais um bocado e aguentem mais um aninho. E se em 2018 já vale 35M€? Esqueçam lá o resto, vendam e passem para cá o lucro. É uma das maneiras de contrariar a limitação da FIFA. 

É uma aposta de imenso risco. Ponto prévio, a apostar grandes quantias em grandes jogadores, que seja em qualidade imediata, que não deixe de ter potencial para o futuro. Para Imbula vai ser chegar, jogar e fazer jogar. Mas há sempre o risco de um jogador - não tem que ser Imbula - contratado a 100% e por uma grande quantia não se afirmar. E aí de certeza que não vai ser o fundo a arder, mas sim a SAD, que tem que pagar. Mas como se sabe, o risco é o modelo de gestão do FC Porto de Pinto da Costa e restante SAD.

Com Walter, que foi contratado por 6M€ com 75% e envolveu um financiamento da For Gool, correu mal, muito mal, tanto que o FC Porto foi obrigado a renovar com ele até 2017, para ainda dar mais uma oportunidade ao ativo para se valorizar e ressarcir o fundo. Como não se valorizou, torna-se um fardo. Isto tudo por causa de 6M€. Imaginem por 20M€. Felizmente, Imbula tem um enorme potencial, tem mercado e tem tudo para dar certo no FC Porto. Mas para cometer estas loucuras vai ser preciso ser altamente incisivo no ataque ao mercado. O fundo dá-nos algo a ganhar. Mas é o clube quem fica com tudo a perder.

Como não é possível fragmentar o passe, o FC Porto não pode, por exemplo, começar por comprar apenas uma parte. A SAD esgotou tanto quanto possível essa possibilidade nos últimos 2 anos, de Reyes a Quintero, de Brahimi a Aboubakar. Agora, é preciso ter a 100%, logo os investimentos vão ser maiores, mesmo que o dinheiro seja pago às tranches a longo prazo. Hulk foi contratado inicialmente por 5,5M€, e 5 anos depois custou mais 13,5M€. Se fosse hoje, o jogador custaria no imediato 19M€ (sendo a SAD perdeu 10% do jogador antes de comprar a última parcela), mesmo que o FC Porto só acabasse de pagar esse valor daqui a 5 anos.

Só duas notas de preocupação. Como é que, segundo a bem informada imprensa francesa que antecipou a transferência, o pai/empresário de Imbula vai receber 2M€ com as novas restrições da FIFA? Com os 3% em vigor, temeu-se aqui que muitas transferências tivessem inflação para, paralelamente, aumentar a chucha dos 3%. Mas isto rebenta a escala e não corresponde ao regulamentado. A esclarecer.

Outra nota é o problema que isto pode trazer a curto prazo na gestão de mais-valias. O FC Porto comprava barato, valorizava e vendia caro. Vendia bons jogadores por 20M€. Agora compra por 20M€. Tendo em conta que em 2014-15 foi necessária uma mais-valia de 66M€ com jogadores (numa época com dupla participação na Champions), quanto mais caras forem as contratações mais difícil será gerar uma mais-valia significativa. Pagar 20M€ também implica que se confie imenso no potencial do jogador e que este investimento possa, no futuro, ser dobrado. Mas pode ser a diferença entre cumprir o orçamento com a venda de dois jogadores... ou precisar do dobro.

Tempo de apoiar Imbula, que não só vai ter que ajudar o FC Porto a conquistar títulos como vai ter nas costas a pressão de ter que evoluir para corresponder a um investimento alto. Um investimento de que o jogador não tem culpa, logo não será a ele que a fatura desta loucura terá que ser cobrada no futuro. Seja pelo lucro, seja pelo prejuízo. É uma loucura. Resta saber se sairá barata ou muito cara.

Pergunta(s): Reações à contratação e ao investimento em Imbula?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Show me the money, parte II

A época 2014-15, em termos contabilísticos e financeiros, acaba amanhã, dia 30. Neste momento tudo se resume a isto: ou a venda de Jackson Martínez é fechada até à meia-noite de terça-feira e o orçamento será cumprido e superado em termos de expetativas de lucro, ou a SAD vai apresentar prejuízo anual dois anos consecutivos pela primeira vez desde o pós-Gelsenkirchen. 

Já todos perceberam que algo de errado se passa. Nélio Lucas e Galliani brindam à contratação de Jackson no avião, o presidente anuncia que Jackson escolheu o Milan, depois aparece o Atlético e Pompeo dá-o por garantido em Madrid, tal como o próprio jogador. Temos tudo para uma novela mexicana. Ou colombiana. 
Querem? Paguem.

Ponto prévio: Jackson Martínez é/foi capitão do FC Porto, três vezes Dragão de Ouro (o recordista) e passou três épocas a levar a equipa às costas, com máximo profissionalismo e capacidade de sacrifício dentro de campo (que é o que importa, não é as palavras bonitinhas fora dele). Provavelmente nunca tivemos um jogador tão bom em 3 épocas tão atribuladas. Logo, não queriam começar a vender o filme de que a culpa é do jogador.

Foi de facto o FC Porto quem trouxe Jackson para a ribalta europeia. Trouxe, não descobriu, porque na altura já era um nome muito falado para a Premier League, e talvez só não tenha assinado antes pelo Liverpool pois era difícil atribuir licença de trabalho na altura. Mas para a história fica que foi o FC Porto quem abriu as portas da Europa a Jackson Martínez. Depois, surge a célebre promessa de Pinto da Costa. Como Deco, Quaresma ou Falcao a tiveram. Como até o próprio Varela teve e depois foi encostado. «Ficas mais um ano e depois sais». 

Mas claro, para isso acontecer, há que haver um comprador disposto a pagar o que o FC Porto quer. Por vezes corre mal, como foi exemplo Varela e até Quaresma, que em 2008 passou de 39,999.999M€ para 18,6M€, com o perdido Pelé à mistura. Para Jackson não há esse problema, pois é um jogador com mercado e que tem características quase únicas no futebol europeu. Se calhar há melhores pontas-de-lança. Mas como Jackson não há mais nenhum. E vender um ponta-de-lança que vai fazer 29 anos acima dos 30M€ é simplesmente brilhante. 

E todos se aperceberam disso desde o início. A matilha começou cedo a cercar o osso, a começar pela controversa troca de agentes, de Manso para Pompeo, com uma bifurcação na SAD pelo meio, sendo que um dos desvios nem integra o mapa de órgãos sociais - e nunca há-de integrar. Qual foi o interesse em Pompeo passar a representar Jackson? Absolutamente nenhum. Um empresário sem rede, sem contactos para grandes transferências. O FC Porto atribuiu-lhe, na renovação de Jackson, 5% de uma futura transferência. E para quê, se na hora de vender para o Milan teve que ser pelo tipo do costume (Jorge Mendes)? Que fez Pompeo para o FC Porto lhe atribuir um potencial valor de 1,75M€? Jorge Mendes sim, justifica grandes comissões, pois tem sido um ganha pão para FC Porto e Benfica. Agora Pompeo?

Na verdade, Pompeo (na condição de procurador para Jackson) acabou por apresentar a proposta do Atlético de Madrid, que decidiu agir numa operação-relâmpago quando tudo se conjugava para Jackson rumar a Milão. E Pompeo vem agora ameaçar dar nomes aos bois. Só há um pequenino problema para este empresário: ele disse que o Atlético ia pagar a cláusula de rescisão. Logo, tudo isto quer dizer, tal como se temia aqui, que o Atlético não se disponibilizou, até à data de ontem, a pagar cláusula nenhuma.

Se o Atlético quisesse de facto pagar a cláusula, Pompeo não tinha que andar a pedir reunião nenhuma. Era muito fácil, bastava Jackson notificar a SAD - até podia ser por fax, como Villas-Boas fez - com vista à rescisão e o Atlético fazer o depósito dos 35M€ à ordem. Como parecia ser mais lógico, o Atlético até pode estar disposto a pagar os 35M€, mas nunca a pronto.

Assim, a SAD só vende se quiser. E tal como Jackson Martínez não estava obrigado a ir para Milão, o FC Porto também não está obrigado a vendê-lo ao Atlético. A solução? Tudo sentado à mesa, a pensar nos superiores interesses do FC Porto, e não em decidir quem faz ponte para onde. Tal como em campo não ganham os jogadores, mas sim o clube, fora dele quem deve ganhar é sempre o FC Porto. 

Se as restrições da FIFA forem de facto aplicadas, no máximo será atribuída uma comissão de 1,05M€, além dos 1,75M€ a que à partida Pompeo terá direito. Se o Atlético quisesse de facto pagar a cláusula, não se começaria a discutir Moya - não vale a pensar falar em Óliver pois já era ponto de interesse antigo, que dependerá sempre da pré-época que fizer com Simeone. Assim sendo, que façam valer as suas boas relações, que se sentem à mesa e que se concretize o melhor para o FC Porto, que é o dinheirinho ser contabilizado até à meia-noite de dia 30. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Falemos de Maxi Pereira

Opinião sobre todo
o processo de contratação
Escrever, não escrever, esperar que o circo mediático acalme, que o próprio FC Porto decida que posição/versão quer assumir publicamente... Opinar em função do desfecho e em comunhão é fácil. Mas é uma questão que merece ser debatida, independentemente do seu desfecho, porque um facto já não podem contornar: houve intenção, negociação e proposta para que Maxi Pereira seja jogador do FC Porto.

No final podíamos todos rejubilar por obrigar o Benfica a subir a parada na sua proposta de renovação, e em última instância até dizer que isto foi tudo um bluff de mestria para obrigar o rival a aumentar a sua proposta. Não queiramos enganar ninguém, pois isto não é poker.

Neste momento, com a saída de Danilo, Maxi Pereira é o melhor lateral direito do futebol português. A estatística dá sempre dados curiosos e contra-natura: Danilo fez 6 golos e 4 assistências no último campeonato. Maxi Pereira fez 5 golos e 8 assistências. O Benfica sofreu apenas mais 3 golos do que o FC Porto. Danilo é muito melhor do que Maxi, a todos os níveis. Mas é sempre curioso verificar que na estatística, pelo menos em termos ofensivos e coletivamente no número de golos sofridos, o rendimento não é muito díspar. Tudo isso porque os laterais não são match-winners.

Podemos recordar que Danilo custou 13M€ (mais encargos) quando chegou. Já aqui foi defendido que Danilo não poderia nunca ser a referência para justificar um grande investimento, mas estávamos a falar de um atleta de grande potencial e margem de progressão. Falar de Maxi Pereira é falar de um jogador experiente a todos os níveis, capaz de entrar diretamente num 11, de jogar acima da média no futebol português. Mas não vai evoluir, nem potenciar uma grande transferência.

Por isso, não há maneira de compreender como é possível propôr a Maxi Pereira um contrato de 4 épocas, de valor bruto de cerca de 16 milhões de euros (o que daria 2M€ limpos por ano). Está claro que se o FC Porto quer Maxi, tem que oferecer mais do que o Benfica, pois se a proposta fosse igual ou inferior é claro que Maxi iria preferir continuar em casa, onde é adorado e até uma referência. Justifica que se perca a cabeça por ele? Não, de forma alguma. Baixar o vencimento e encurtar o contrato para 2 ou 3 anos? Seria mais admissível. Mas se não oferecermos mais do que o Benfica, certamente que Maxi não teria interesse em mudar.

Curiosamente, as maiores preocupações que se leem nem é do investimento: é do simples facto de Maxi Pereira vestir a camisola do FC Porto. Porque é um «caceteiro», basicamente. Não sejamos hipócritas: se Maxi Pereira estivesse no FC Porto há uns anos, diriam todos que é um jogador à Porto. Porque tem raça, garra, dá tudo em campo, tudo aquilo que caracteriza um jogador à Porto. Mas como é natural, se um jogador tem essas caraterísticas mas está num rival, é normal que não gostemos dele.

Maxi Pereira já está muito identificado com o Benfica, já teve picardias com o FC Porto, logo é normal que isto seja mais difícil de aceitar. Mas se João Pinto, Jorge Costa ou Paulinho Santos jogassem no Benfica (dá arrepio só de imaginar), nenhum portista gostaria deles. Tal como se Maxi Pereira fosse do FC Porto, nenhum benfiquista o suportaria. Isto é absolutamente normal. O maior problema não era Maxi Pereira vestir a camisola do FC Porto. Afinal, o que é o jogador à Porto senão aquele que dá tudo em campo em prol da sua equipa? O melhor jogador à Porto que podemos ter tem um nome muito simples: é o jogador profissional. Queremos o jogador à Porto das selfies, das produções de moda e dos amuos ou o profissional que vai dar tudo pela equipa?

Mas claro, há outro problema: a motivação de Maxi para vir para o FC Porto é sobretudo financeira. Tanto dele como do seu empresário, Paco Casal, bem conhecido durante o negócio de Cristian Rodríguez, que já lhe deu uma reforma bem jeitosa - em 2012-13, quando já tinha saído, ainda andámos a pagar uma percentagem do passe de Rodríguez, por 1,66M€.

A ambição de Maxi Pereira, neste momento, não é desportiva. Ele quer o grande contrato que qualquer trintão quer. Receber 8M€ limpos até quando fizer 35 anos? Um grande jackpot. Se o Benfica só lhe dá 4.5M€ limpos em 3 anos, é fácil perceber para que lado a balança tomba. O tal profissionalismo de Maxi Pereira, que poderia ser visto como um jogador à Porto, fica seriamente comprometido a partir do momento em que troca 8 anos de história num clube pelo rival, meramente por um melhor salário. O profissionalismo de todos os jogadores tem um preço. E este é bem caro.

Há muitos portistas que ainda não querem acreditar que Maxi Pereira possa vestir a camisola do FC Porto. Isso já se tornou relativo, pois é um facto que o jogador já recebeu, via empresário, a proposta para jogar cá. Logo, a SAD do FC Porto legitimou essa possibilidade. Até podia acordar amanhã, sentir-se benfiquista, pensar que quer continuar a dar passeios em Lisboa em paz e roer a corda. Mas não mudaria nada, pois o FC Porto já quis contratar Maxi Pereira. Ponto.

É curioso que Liedson não tenha gerado metade desta revolta. Um jogador que, por exemplo, simulou uma não agressão de Jorge Costa, mandou calar os nossos adeptos no Dragão... Mas veio em circunstâncias completamente diferentes - empréstimo de 6 meses e ambição de fazer no FC Porto o que não conseguiu no Sporting: ser campeão. Maxi Pereira não vem por 6 meses, nem vem procurar no FC Porto aquilo que não conseguiu no Benfica. Vem porque pagamos mais. O Benfica não quer Maxi no FC Porto, obviamente, tanto que até retransmitiram na Benfica TV uma entrevista antiga de Maxi Pereira a falar do golo de Maicon na Luz. Mas foi incapaz de aumentar a proposta de renovação.

Não podemos ignorar que foi às custas de correr maiores riscos financeiros que conseguimos desviar do Benfica nomes como Danilo, James Rodríguez ou Falcao. Mas nesse caso estávamos a falar de atletas com grande margem de progressão, com quem poderíamos recuperar e multiplicar o investimento mais tarde. Com Maxi Pereira, nada disso. Dispensa período de adaptação, é verdade, e pode chegar e jogar. Mas não vai ter capacidade para jogar 4 épocas, nem sequer permitir que recuperemos o investimento mais tarde.

Além disso, Maxi Pereira tem um empresário extremamente limitado, que não vai arranjar um clube do Qatar ou dos Emirados que daqui a um ano pague um bom dinheiro. Reparem que não foi capaz de arranjar uma única alternativa para Maxi Pereira sair do Benfica para o estrangeiro. E se não fosse o FC Porto a avançar, se calhar não teria mais nenhum clube a oferecer mais do que oferece o Benfica (o Sporting também lhe apresentou uma proposta, mas de valores inferiores). Então se nenhum clube quer pegar em Maxi Pereira agora, de graça, hão-de querer pagar algum dinheiro ao FC Porto daqui a um ano?

E agora falemos de outro aspecto maravilhoso. Paco Casal pediu 2,5M€ de intermediação ao Benfica pela renovação. Recordemos as novas regras da FIFA para intermediação de jogadores. Supostamente, cada empresário só pode receber 3% do valor da transferência ou 3% dos salários brutos do contrato do jogador. Ah, pois, então e as transferências a custo zero? Essa preocupação foi aqui expressada no final de março e, pelos vistos, não há restrições aplicáveis a transferências a custo zero. 

Imaginando que o FC Porto oferece 2M€ a Paco Casal. Para o empresário receber uma comissão desse valor numa transferência, Maxi Pereira tinha que ser transferido por 66,6M€. Absolutamente absurdo e pornográfico. Com esta artistada da FIFA, se calhar vamos deixar de ver empresários a pressionarem jogadores e clubes para venderem jogadores; vão é começar a pressionar jogadores para não renovarem contrato, pois assim saem a custo zero e já podemos exigir comissões sem restrição.

E que prémio de assinatura para Maxi Pereira? Se se confirmassem os 2M€, isso significaria que consegue ganhar mais do que João Moutinho (1,8M€ pagos a três anos), capitão do Sporting, quando assinou pelo FC Porto. A diferença é que João Moutinho pôde evoluir e render financeiramente no futuro. Maxi Pereira não.

Sem contar com as comissões, assumamos a despesa de 16M€ em Maxi Pereira. Então com um plafom de 16M€ a quatro anos, Maxi Pereira é o melhor lateral direito que a SAD, juntamente com equipa técnica e departamento de scouting, consegue identificar? O FC Porto distinguia-se por encontrar barato, valorizar e vender caro. Agora vamos buscar quem é caro, não se irá valorizar e que não pode ser vendido? Com 16M€, renovávamos por muito tempo com Alex Sandro, com quem poderíamos recuperar o investimento mais à frente, e ainda dava para pagar/renovar muita coisa.

Concluindo. Se Maxi Pereira assinar, vamos deixar de apoiar a equipa, rasgar os cartões de sócios e assobiar um jogador que enverga a camisola do FC Porto? Claro que não. Aplaudiremos cada corte que fizer, cada golo que marcar, cada minuto em que representar o FC Porto. Porque o problema não é o fim (a contratação). É o meio para o fim (todo o investimento).

Pergunta(s): O meio justifica o fim?