quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Deixa-me só dar um jeitinho à casa

Já lá vão uns bons meses desde que Francisco Marques começou a divulgar e-mails de conteúdo comprometedor a envolver o Benfica, a arbitragem e os bastidores do futebol português. Até à data, as consequências práticas das divulgações semanais foram zero. Nada mudou, não houve punições, o Benfica segue impune. A única valia, até à data, foi a exposição do modus operandi que fez do Benfica tetracampeão e um eventual condicionamento para as épocas que se seguem.

Desde então, todos os que pretendem esclarecimentos sobre este caso - o FC Porto nunca acusou diretamente o Benfica de corrupção; o que fez foi expor matéria e apelar a sucessivas investigações - aguardam tomadas de posição públicas por parte das instâncias competentes. Passaram-se semanas sem haver uma única busca por parte da Polícia Judiciária. 

No verão, o MP e a PJ terão tentado levar a cabo buscas ao Benfica, mas o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa não cedeu as procurações. E segundo a revista Sábado, tal foi obra do juiz Jorge Marques Antunes, no seu último dia de serviço na instrução criminal, antes de ser transferido para outro tribunal. Foi o único esboço de uma tentativa de uma busca ao Benfica nos últimos meses.

Até que segunda-feira, no início desta semana, tivemos a confirmação de que as buscas ao Estádio da Luz estavam para breve. Como? Através desta declaração de João Correia, porta-voz da equipa de advogados do Benfica.

É absolutamente essencial que o Ministério Público e a Polícia Judiciária venham aqui a esta casa e verifiquem se aquilo que é divulgado pelo Porto Canal corresponde ou não à realidade.” Frase publicada no site oficial do Benfica há três dias. 


Portanto. Estão há meses, na praça pública, conteúdos que urgem ser alvo de investigação. E por milagre das coincidências, só hoje, três dias após este comunicado do Benfica, é que a PJ se apresenta no Estádio da Luz para começar a fazer buscas no caso dos e-mails!?

Isto faz lembrar aquela dona de casa muito preocupada com a forma como vai receber os convidados, que pede ao marido para empatar um pouco as visitas no hall de entrada enquanto dá um último jeitinho à sala. Então, enfim, tem a certeza que a sala está um brinquinho, pronta para receber as pessoas.

Como é claro, a partir do momento em que o Benfica incentiva a PJ a comparecer no Estádio da Luz, já tem a garantia de que a sala está bem arrumadinha. A PJ não vai encontrar absolutamente nada. Já estão a ver onde isto vai redondar: caso arquivado por falta de provas nas buscas. 

Isto faz lembrar todo o caso dos vouchers, em que também havia matéria para punir o Benfica por práticas ilícitas, em todo o dossier da Liga Aliança

Bruno de Carvalho revelou, no início de outubro de 2015, as ofertas ilegais que o Benfica fazia a equipas de arbitragem de todos os seus jogos. Só um ano depois é que foram feitas buscas no Estádio da Luz. Um ano depois! E qual foi a reação do Benfica a essas buscas? O Benfica emitiu um comunicado a afirmar que foi a própria SAD a convidar a PJ a fazer buscas na Luz. 

Ora, precisamente o mesmo que acontece agora no caso dos e-mails. Não é surpresa que, poucas horas após as buscas da PJ, o Benfica já tenha emitido um comunicado a realçar que foi o próprio clube a apelar à investigação: «Desde o primeiro momento [o Benfica] requereu e disponibilizou-se a fornecer toda a informação necessária a um cabal esclarecimento de toda esta situação». A papel químico. 

Este passo faz parte da lavagem já orquestrada e cujo desfecho já se antevê. A PJ não vai encontrar provas. Os cartilheiros virão a público, de peito cheio, afirmar que não houve provas nenhumas, que o clube colaborou com a investigação, que abriu a sua casa e que ninguém conseguiu encontrar nada. Tudo isto até ao passo final: caso arquivado. 

O FC Porto prometeu, no final de julho, que «o melhor ainda está para vir». É caso para se prepararem para expor «o melhor», porque se depender destas buscas da PJ, o Benfica sairá do caso dos e-mails da mesma forma que saiu dos vouchers: a rir-se e de forma livre e impune. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Puxão à terra

Saltemos desde já todos esses exercícios de falência de criatividade que envolvam analogias entre a Red Bull e asas. Muitos concordavam, à partida para este grupo, que se tratava de um lote de equipas extremamente equilibrado, no qual qualquer clube era simultaneamente candidato à qualificação direta e ao último lugar. Mas curiosamente, os jogos têm sido tudo menos equilibrados.

O FC Porto perdeu com o Besiktas porque foi muito inferior; venceu o AS Mónaco porque foi muito superior; e perdeu com o Leipzig pois foi muito inferior. Equilíbrio não tem sido, de todo, algo presente nos jogos do FC Porto na Champions.

Vamos ao elefante na sala, a titularidade de José Sá. José Sá não tem, nunca teve, nunca revelou estofo para a titularidade do FC Porto. E passar de suplente do atual suplente do Sporting à titularidade na Champions, apenas com joguitos de Taça e pouco mais pelo meio, não é coisa que se recomende. É o mesmo que recordar a linhagem que apontava Paulo Ribeiro como sucessor de Baía ou Hugo Ventura como herdeiro de Helton. Ou Mika como futuro guarda-redes da seleção A, só porque fez um bom Mundial de sub-20. Como José Sá fez alguns bons jogos nos sub-21. 

Mas foi por causa de José Sa que o FC Porto perdeu na Alemanha? Não. Perdeu porque o Leipzig foi muito melhor. Porque o Leipzig foi melhor equipa e os seus jogadores, sobretudo do meio-campo para a frente, foram muito superiores aos do FC Porto. A derrota começou num erro de Sá? Sim, como Iker também errou no 2x1 do Besiktas, ou na época passada em Kiev. Mas o maior problema no jogo não esteve nas bolas que foram à baliza, mas em tudo aquilo que o FC Porto não foi capaz de fazer com bola. 




Aboubakar, os golos e pouco mais (+) - Houve algo de admirável na primeira parte: como o FC Porto, jogando tão pouco, ainda assim conseguiu fazer dois golos. Notável, em dois lances de bola parada muito bem trabalhados, nos quais os jogadores posicionam-se bem, ganham na marcação e conseguem trocar a bola sem deixá-la cair, até ao remate final. Aboubakar fez um bom golo e fartou-se de trabalhar, muitas vezes desapoiado e longe das zonas de decisão, tanto que tocou mais vezes na bola no meio-campo defensivo do que nos últimos 30 metros. Iván Marcano (mal no 3x1, mas a redimir-se logo a seguir) e Alex Telles também fizeram jogos razoáveis, numa noite em que quase tudo saiu mal ao FC Porto.




Zero com bola (-) - O futebol tem destas coisas. O FC Porto venceu e brilhou no Mónaco pois soube dar a posse de bola e a iniciativa de jogo ao adversário, mas sem com isso deixar de controlar o jogo. Em Leipzig, provavelmente os planos passavam pela mesma estratégia, mas tudo correu mal: o adversário soube o que fazer com bola, foi agressivo, muito forte entre linhas (Forsberg isola-se para o 2-1 no meio de seis jogadores do FC Porto!), e cedo se percebeu que o facto de o FC Porto não ter bola já não era estratégia: era incapacidade de a ter.

Há algo que ilustra todas estas dificuldades: a quantidade anormal de vezes em que o FC Porto falhou passes no seu próprio meio-campo. Falhou muito mais no seu meio-campo do que no do Leipzig.

Um festival de passes falhados
Outro grande problema foram os cruzamentos: em 19 tentativas, o FC Porto só conseguiu acertar dois, um deles num pontapé de canto e outro já no minuto 90, por Layún. Sem capacidade para ter bola no meio-campo e não sendo capaz de ter profundidade para criar perigo pelas laterais, reuniram-se condições para o FC Porto pouco ou nada conseguir fazer na Alemanha. Não é por acaso que os golos nascem de lances de bola parada: no jogo corrido, o FC Porto teve 90 minutos que roçaram o zero. 

Subrendimento geral (-) - Vamos repeti-lo pela milésima vez: sabemos que o plantel é curto. Mas não encontrar outra alternativa que não ter sucessivamente Marega a cumprir os 90 minutos, mesmo sem dar uma jogada para a caixa, é preocupante e a maior ilustração de falta de alternativas no plantel. Este dado do Goalpoint resume tudo: «Marega é o único jogador da UCL que perde a bola em mais de metade das vezes que a tem». Em 133 ações com bola, perdeu 52,6% das jogadas. Marega acertou 5 passes em todo o jogo. Cinco, três deles no próprio meio-campo. Criou zero jogadas de perigo, falhou os 2 cruzamentos que tentou, falhou o único drible que tentou e falhou seis receções de bola daquelas que se treinam todos os dias nos iniciados. 

No Mónaco foi decisivo, com duas assistências (o que não invalidou que, na maioria das jogadas, foi bola perdida), mas manter no ataque um jogador que em 90 minutos não acerta uma jogada que seja é surreal. Ainda assim, o subrendimento foi praticamente geral.

Brahimi foi dos poucos a ganhar lances de 1x1, mas foi sempre bem marcado pelo Leipzig e não conseguiu criar desequilíbros no último terço. Danilo e Sérgio Oliveira foram engolidos no meio-campo, no qual Herrera não conseguiu ser eficaz na missão de pressionar e dar velocidade ao jogo. Layún deu nas vistas pela quantidade de vezes que perdeu a bola (35, batendo os recordes de Marega), mas em quase todas as suas subidas pelo corredor não encontrava ninguém para tabelar, ninguém para abrir espaço. Layún chegou oito vezes à linha da quina da grande área, mas perante a falta de apoio, não lhe restava solução que não o cruzamento. E do banco, entre Óliver, Corona e Hernâni, não surgiu nada que mudasse o rumo do jogo. Jogou-se muito, muito pouco.

A vitória no Mónaco não abriu as portas do apuramento e a derrota na Alemanha não as fechou. Da mesma forma que o FC Porto perdeu na visita ao Leipzig, pode vencer dentro de 15 dias, no Dragão, e voltar desde logo aos lugares de apuramento para os 1/8. Mas que não vai vencer muitas vezes repetindo exibições destas, é certinho. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sem espinhas

Seriedade, compromisso e empenho num jogo que convidava a algum relaxamento? Check.
Oportunidade para lançar uma equipa alternativa e alguns jovens? Check.
Golos bonitos e bom futebol? Check. 
Prémio Puskas para Hernâni? Não, porque esse já está reservado para Loures. 

Tudo o que se podia pedir neste contexto de Taça de Portugal foi cumprido com distinção, a poucos dias da deslocação à Alemanha, onde o Leipzig tem como mais recente cartão de visita uma vitória em Dortmund. Promete.

Aboubakar (+) - Os regulamentos que condicionaram a composição do 11 para a partida eram não só desconhecidos por grande parte dos adeptos como pela própria imprensa, mas Sérgio Conceição fez questão de os lembrar. Aboubakar teve que jogar, num jogo em que o FC Porto acabaria sempre por vencer, com menor ou menor dificuldade. Aboubakar, em dois minutos, assegurou que a equipa o faria com menor dificuldade, com duas boas finalizações, em particular o golpe de cabeça.

Diogo Dalot (+) - Este jogo não foi um teste à qualidade de Diogo Dalot, pois a verdade é que qualquer adversário do FC Porto B na Segunda Liga tem mais qualidade do que este Lusitano. Mas na sua estreia oficial pela equipa principal foi desinibido, entendeu-se bem com Brahimi do lado esquerdo (embora tenha feito toda a formação do lado direito) e arrancou um cruzamento perfeito para a cabeça de Aboubakar. Está, há muito, a um nível muito acima do da sua geração e o FC Porto pode ter aquilo um lateral para muitas épocas - embora a SAD não tenha historial de manter os talentos da formação no clube. 



O envolvimento da equipa (+) - Muitos destes jogadores estavam a jogar juntos pela primeira vez, mas foi visível a existência de rotinas e jogadas-padrão. Sérgio Conceição sabe que não tem um plantel vasto, mas não há elemento que não esteja totalmente integrado no colectivo da equipa, o que permite surpresas como ver Sérgio Oliveira saltar para a titularidade sem um minuto de jogo. E entre alguns rasgos de criatividade e minutos em que pareciam ausentes do jogo, Otávio e Hernâni acabaram por mostrar serviço e contribuir com dois bons golos. 

Segue-se a Champions. Entretanto a SAD já divulgou o Relatório e Contas da época passada. A análise habitual d'O Tribunal do Dragão será publicada dentro de alguns dias.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dois pontos perdidos?

O FC Porto queria sair líder de Alvalade: e saiu. O Sporting queria passar para o primeiro lugar: e falhou o seu objetivo. Basta isto para se concluir que o FC Porto saiu do clássico por cima do adversário. Com um sabor agridoce, pois foi a melhor equipa e fez, sobretudo na primeira parte, os melhores 45 minutos que o FC Porto fez em Alvalade desde o ano da última vitória, em 2008. Mas sair do estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal invicto, líder da I Liga, com mais soluções no plantel e a jogar bom futebol só pode ser encarado como muito positivo.

Não, Sérgio, não foram dois pontos perdidos (embora se entenda e subscreva a ambição): foi confiança ganha, soluções ganhas, equipa mais forte e coesa, e ao contrário do que aconteceu em 2014-15, época na qual o FC Porto perdeu a liderança logo após a ter recuperado, desta feita a equipa dominou o Sporting e agarrou-se ao primeiro lugar com todo o mérito. Vila do Conde, Braga e Alvalade já lá vão, três deslocações a casa de equipas dos seis primeiros lugares da tabela e com ambições europeias. Perfeito. 




A primeira parte (+) - Não fosse a eficácia e teriam sido 45 minutos perfeitos, nos quais o FC Porto reduziu o Sporting a um único lance de algum perigo, o cabeceamento de William Carvalho (e mesmo no segundo tempo, o lance de maior aflição foi um remate de Bruno Fernandes para as couves). O FC Porto ganhou o meio-campo, teve sempre profundidade, foi capaz de ser criativo (Brahimi e Aboubakar bem a criar, mas faltou pragmatismo e sentido prático na hora de rematar) e obrigou o Sporting a correr muito, muito mais. Taticamente, tudo saiu bem ao FC Porto, que controlou o jogo com e sem bola. Naquele que foi o primeiro clássico de Sérgio Conceição, meteu no bolso Jorge Jesus.

Outra vez, Brahimi (+) - E novidades? Perdeu gás na segunda parte (assim como toda a equipa), mas encheu o campo na primeira parte. Saíram dos seus pés as principais jogadas de perigo, assegurou que Piccini não dormiu bem na última noite e foi quem melhor soube aproveitar o espaço entre linhas. Tem que apostar mais no remate à entrada da grande área, pois quem ganha espaço e se enquadra com a baliza como Brahimi não pode estar sempre à espera que apareça mais um jogador para fintar. À margem desse pormenor, começa este mês como acabou o último: o melhor em campo.


Os três pilares (+) - Casillas só teve que fazer uma defesa em todo o jogo e o Sporting foi reduzido a cinco tentativas de remate. A equipa defendeu bem em bloco, mas há que realçar a importância de Marcano, Felipe e Danilo Pereira. Ganharam todos os lances aéreos nos últimos 25 metros, fizeram apenas 3 faltas e bloquearam 29 tentativas de ataque do Sporting no último terço, entre cortes e alívios. Defensivamente, tudo correu à equipa, também com um papel importante de Herrera e Sérgio Oliveira em manter o meio-campo composto. Casillas tocou na bola metade das vezes de Rui Patrício (22-44), o que diz tudo de uma noite que, num clássico, não costuma ser tão tranquila para os guarda-redes. 




Pormenores (-) - A hesitação que levou ora Brahimi, ora Aboubakar a perderem tempo e espaço para rematar nas melhores condições; a finalização de Marega na cara de Rui Patrício; o lance em que Herrera, tendo Layún solto na direita e Aboubakar a correr para o segundo poste, decide rematar; o lançamento de Alex Telles para uma zona proibida do campo, que forçou o erro de Danilo. Tudo isto são pormenores, mas foram todas jogadas candidatas a decidir um clássico. Não deram prejuízo, mas também não deram o lucro mais desejado. Já se sabe: os clássicos decidem-se nos pormenores, e estes merecem maior acerto nos momentos-chave.

A quebra física (-) - O FC Porto fez 60/65 minutos de elevada intensidade, e isso refletiu-se no rendimento da equipa durante a segunda parte. Era necessário mexer, mas Sérgio Conceição deparava-se com um problema: não havia músculo/pulmão no banco. A decisão era difícil, mas a entrada de Otávio, para a saída de Herrera, fragilizou naturalmente a equipa na dimensão física do meio-campo. Soares e Corona entram também já relativamente tarde, mas era dos pés de Aboubakar e Brahimi, desgastados, que poderia sair o caminho para a vitória em Alvalade. Sérgio Conceição está a fazer milagres, ao reinventar/resgatar jogadores como Marega, Sérgio Oliveira ou o próprio Herrera, mas não pode jogar o que não tem no baralho. 

Líderes à 8ª jornada, pela primeira vez desde 2013, e curiosamente, tal como na época com Paulo Fonseca, logo após um clássico com o Sporting, que permitiu passar a somar 22 pontos em 24 possíveis. Recomenda-se, por isso, que a calma que seja companheira da confiança ao longo da época. Mas quando um treinador sai de casa de um candidato ao título insatisfeito porque jogou muito melhor e manteve o primeiro lugar, isto diz tudo da mentalidade competitiva que habita no balneário do FC Porto. Não é só à Porto: é à Conceição. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Os Pentas: Setembro de 2017

Um mês irrepreensível no Campeonato, no qual o FC Porto continua líder invicto e 100% vitorioso, e do inferno ao céu na Champions, prova em que os dragões, depois de uma pálida e insuficiente imagem diante de um Besiktas muito superior, lavaram a cara e brilharam ao mais alto nível no Mónaco. Todos concordarão: o FC Porto termina este mês mais forte, mais confiante e com mais soluções do que há quatro semanas atrás. E para O Tribunal do Dragão, estes foram os cinco melhores de Setembro. 

5. Danilo Pereira

Após ter começado a época longe da melhor forma física e a cometer erros impróprios para um jogador do seu calibre, o rendimento de Danilo disparou nos últimos jogos. Contribuiu ativamente para a vitória em Vila do Conde, com o seu primeiro golo da época, e continua a destacar-se na simplicidade de processos - é o jogador com maior eficácia de passes no 11 (89,6%), mas isso não significa que esteja sempre a jogar curto e para o lado (o seu passe médio é de 20 metros, o que mostra que, apesar de ocupar uma posição específica no meio-campo, não deixa de oferecer amplitude à equipa). A palavra-chave: firme

4. Alex Telles

Repete o lugar no top 5, destacando-se uma vez mais na forma como consegue municiar o ataque. Continua a ser o jogador com mais passes para finalização no Campeonato, com 22 ofertas (uma estatística sempre influenciada por bater as bolas paradas, um pouco à imagem da primeira época de Layún no FC Porto), e dois dos golos marcados neste mês saíram de pontapés de canto batidos pelo brasileiro. Em nenhum dos laterais do FC Porto o seu ponto forte é defender, mas Alex Telles continua regular e fiável nesse aspecto, além de já ter igualado Óliver Torres como melhor assistente da equipa, com quatro passes para golo. Repete-se a palavra-chave: municiador.

3. Moussa Marega

Três golos, três assistências e lugar cativo no onze de Sérgio Conceição, que não prescinde um minuto que seja do maliano no ataque. Se é certo que Marega continua a ter a pior percentagem de passes no plantel (atrás de Casillas) e lidera a lista de perdas de bola e posse, também é verdade que conseguiu três assistências durante Setembro, acrescentando a isso três belíssimas finalizações nas últimas três jornadas, contornando com a palavra-chave deste mês as suas limitações técnicas: eficácia. Marega está a contribuir com um golo por jogo para a equipa, ora na finalização, ora a servir os colegas. Um bom mês para Marega, que mostrou que o futebol nem sempre se faz apenas de artistas. 

2. Vincent Aboubakar

Quatro golos no último mês e uma assistência, apesar de ter falhado a receção ao Besiktas. Aboubakar continua a pecar por vezes na finalização (e está a ser muito bem servido pelos colegas, pois 23 dos 29 remates que leva no Campeonato foram feitos dentro da grande área), mas está para já a cumprir a época mais goleadora da sua carreira e sua influência no ataque é notória, ora a jogar em profundidade, ora em aguentar a posse, ora em criar espaços. A sintonia com Marega e Brahimi acentuou-se no último mês e Aboubakar só não leva o «Penta» do mês para casa pois alguém decidiu roubar o palco nas últimas semanas, mas o percurso de Aboubakar vai-se descrevendo na palavra que os avançados mais gostam de ouvir: goleador

1. Yacine Brahimi

Esteve presente em todos os «Bonés» d'O Tribunal do Dragão em Setembro e foi eleito três vezes o MVP pelos leitores do blogue. E não é coincidência. Brahimi reencontrou-se com o nível que o coloca muito acima do Campeonato português, foi dos poucos a dar luta e a mostrar clarividência diante do Besiktas e partiu a loiça no Mónaco. A sua presença na lista de marcadores pode parecer curta (dois golos e uma assistência no último mês), mas todos sabem que Brahimi é muito mais do que isso.

É com larguíssima distância o melhor driblador da Liga (32 lances eficazes, mais do dobro de Gelson Martins), para já o 2º melhor da Champions (atrás de Neymar) e está a passar melhor a bola, sobretudo no passe longo - no Mónaco ficou na retina a bola para Marega no lance do 2x0, e no Campeonato Brahimi é o portista que menos tem errado nos passes longos. O perfil de individualista também é contrariado por, entre os atacantes dos candidatos ao título, ser aquele que mais passes completa no Campeonato, com 288 em sete jogos. O futebol não se faz apenas de artistas, mas Brahimi não só o é, artista, como reclama todo o palco para ele.


Ainda assim, há algo que continua a faltar nas fichas de Brahimi: aquela grande exibição num clássico (com ele na equipa, o FC Porto venceu apenas 4 de 11 jogos contra Benfica ou Sporting, sem qualquer golo ou ação decisiva do argelino). O arranque de Outubro é uma boa oportunidade para mudar a história e começar a definir os Pentas do próximo mês.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A outra grandeza

Vamos lá tentar resumir isto: o FC Porto venceu por 3x0 em casa do Mónaco, campeão francês e equipa-sensação na Europa na última época, com Sérgio Oliveira no meio-campo, Marega no ataque, 90 minutos de superioridade tática e num jogo em que Herrera travou mais remates do que Iker Casillas. Agora imaginemos que nos tinham contado esta há três meses. Quantos acreditariam?


Um homem tornou isto possível: Sérgio Conceição. Prometeu que ia mostrar à Europa a grandeza do FC Porto, mas fez algo mais: reafirmou a sua grandeza enquanto treinador. Num jogo em que teve uma opção que traz à memória as noites europeias em que os treinadores parecem imaginar o que não imaginaram em nenhum outro momento na época (vidé Pitbull na frente num 5x3x2 em Milão ou Nuno André Coelho a trinco em Londres), Conceição ganha em toda a linha. E com ele todos nós.




Marega (+) - No jogo frente ao Portimonense, O Tribunal do Dragão destacou este facto sobre Marega: «Apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi». E agora, o que aconteceu no Mónaco? O mesmo que tem acontecido em quase todos os jogos: Marega voltou a ser o jogador com mais perdas de bola e mais passes errados, inclusive acima de Casillas e Benaglio. Marega completou apenas 14 passes e perdeu 42% das bolas de que dispôs. E o que é que também fez? Duas grandes assistências, primeiro ao servir na perfeição Aboubakar, depois ao ter a calma num lance de enorme confusão para entregar o 3x0 a Layún.

Sim, é o jogador de campo com mais perdas de bola entre os que já completaram a 2ª jornada da Liga dos Campeões. E já é também um dos melhores assistentes, com dois passes a régua e esquadro para o golo. E entre todas as suas gritantes anomalias técnicas, em 9 jogos oficiais já teve colaboração direta em oito golos. E este FC Porto de Sérgio Conceição, que nos entusiasma, tem um denominador comum desde o primeiro golo da época 2017-18: Marega esteve sempre em campo, não falhando um minuto. Sérgio Conceição tem as suas razões para não prescindir dele. E o homem já mostrou que percebe qualquer coisa disto. Marega até pode falhar 15 passes em Alvalade e perder 25 bolas. Mas basta uma ou duas no sítio certo. 

Yacine Brahimi (+) - Um minuto de silêncio em memória dos rins de Lemar. Brahimi voltou a estar endiabrado e a mostrar que está num dos melhores momentos de forma desde que veste a camisola do FC Porto. Esteve na jogada do 2x0, foi responsável pela esmagadora maioria dos desequilíbrios individuais, correu, defendeu, pressionou, tabelou com os colegas e garantiu sempre o rasgo de criatividade que, com este 11, pode nem sempre abundar. Brahimi gosta das noites de Champions, mas nos clássicos do futebol português ficou sempre um pouco aquém das expetativas. Será desta que a história muda?



Aboubakar (+) - 15 jogos na Champions, 11 golos. Uma média que fala por si. Voltou a mostrar uma enorme atração por carambolas/recargas no lance do 1x0, mas finalizou com enorme precisão o segundo. Teve alguma dificuldade em distribuir a bola no último terço, mas apareceu no sítio certo, em dose dupla, para colocar o FC Porto na rota dos três pontos. O seu oportunismo fez crer que, com ele em campo, talvez a história da primeira jornada pudesse ter sido diferente. Ah, uma pequena nota: daqui a três meses pode assinar livremente, a custo zero, por outro clube. E jogadores que garantem golos na Champions não costumam passar despercebidos. 

Sérgio Conceição (+) - Esta vitória começa na derrota frente ao Besiktas. Na primeira jornada, Sérgio Conceição tinha duas hipóteses: ao mantinha o esquema que estava a dar resultado no campeonato, ou reforçava o meio-campo e aproximava-se do 4x3x3. Foi fiel às suas ideias na primeira jornada e o FC Porto revelou-se insuficiente não só frente ao Besiktas, mas deixando uma imagem clara de que faltava ali pedalada para a Champions.

O treinador reviu os erros e corrigiu tudo. Literalmente tudo. Todos os erros que o FC Porto cometeu frente ao Besiktas foram corrigidos frente ao Mónaco. Sim, foram só 90 minutos, mas foi um jogo, na sua totalidade, a roçar a perfeição. O FC Porto soube entregar a iniciativa de jogo ao Mónaco sem nunca perder o controlo, foi forte no contra-ataque e no momento de transição, esteve sempre impecavelmente organizado e soube anular os pontos forte do Mónaco, a ponto de Iker Casillas só ter sido chamado a intervir duas vezes, apesar de uma bola ter ido à trave. Em noites de Champions, em que os jogos fora de casa são sempre complicados, é impossível pedir mais. 

Uma das melhores exibições do último ano e da qual ainda ficaram de fora jogadores como Maxi, Óliver e Soares e na qual Sérgio Oliveira saltou do nada para o 11 pela primeira vez com Sérgio Conceição (nem no Nantes lhe tinha dado a titularidade). Sérgio Conceição voltou a admiti-lo no fim do jogo: o plantel tem poucas soluções. Mas que ninguém duvide: temos o homem certo para aproveitá-las ao máximo ainda que, convém lembrar, estamos apenas no final de Setembro. 

Segue-se o jogo mais difícil do calendário nacional, em Alvalade. Será muito pedir mais do mesmo?

domingo, 24 de setembro de 2017

A sétima

Sete jogos, sete vitórias e confiança renovada antes de um difícil ciclo de três jogos fora de casa, em que estarão em jogo a liderança do campeonato e, muito possivelmente, o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. 


A Champions representa outro tipo de exigência e Alvalade é o estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal, mas todo o percurso da equipa de Sérgio Conceição até ao momento só merece elogios e vai dando provas de superação. Pegar num plantel já sem cultura de campeão, numa lista de dispensas e sem ter direito a um único reforço e, ainda assim, ter um dos 3 melhores arranques da história do clube, o segundo melhor ataque em 60 anos e a segunda melhor defesa em duas décadas dispensa quaisquer tipo de elogios: é uma qualidade de trabalho que fala por si própria. 

Sérgio Conceição reergueu o espírito competitivo do FC Porto em dois meses de campeonato e leva-o a Alvalade invicto e na liderança isolada. Um percurso que não se idealizaria com este plantel e, provavelmente, com nenhum treinador no início da temporada. 

Quando chegou, Sérgio Conceição disse que, para ele, jogar bem era vencer. A equipa joga bem e vence. Que mais se pode pedir?




Yacine Brahimi (+) - Uma noite em cheio. Sorte no primeiro golo, mestria na condução e conclusão no segundo. Uma vez mais, voltou a ser o jogador que mais vezes recuperou a posse de bola, falhou apenas um drible e atirou 4 vezes à baliza, tendo sido bem mais incisivo e prático junto à grande área quando comparado com os últimos jogos. Falhou alguns passes, mas nas ações individuais tudo lhe correu de feição para o seu melhor jogo nesta temporada.


Miolo (+) - Certinhos, dinâmicos, rijos. Herrera e Danilo asseguraram uma eficácia de passe de 95% no meio-campo e, sem a criatividade e amplitude de Óliver na zona central, o mexicano compensou com velocidade, agressividade e um jogo mais direto que favoreceu a equipa. Herrera fartou-se de correr, interceptar e pressionar, e ainda assim ainda foi o jogador que mais ocasiões de golo criou (três). Abusou no número de faltas e não ficou bem no primeiro golo do Portimonense, mas libertou muitas vezes Danilo do trabalho defensivo - praticamente só teve que ganhar lances pelo ar e não falhou um único passe. Ninguém poderá questionar Sérgio se optar por manter este miolo, ainda que continue a ser difícil imaginar que o melhor FC Porto não tenha Óliver no 11.

Eficiência africana (+) - Um golo e uma assistência para Marega, um golo e uma (com a colaboração de Herrera) assistência para Aboubakar. O camaronês, uma vez mais, parece que tem mais facilidade em marcar carambolas ou recargas, enquanto Marega teve uma finalização perfeita após grande jogada de Corona (grande envolvência nos dois golos, mas com a forma intermitente que já lhe é caraterística). Isto atesta influência e eficiência mesmo sem necessariamente fazer grandes jogos no envolvimento coletivo da equipa. O que não continua, de todo, a ser o caso. 

Há a opinião e há os factos. Dizer que é bom ou mau é opinião. Isto são os factos: Marega voltou a ser o jogador que mais vezes perdeu a bola, só passou uma vez por um adversário e foi o que mais passes falhou - fez apenas dois passes para a frente em 90 minutos, de resto sempre a jogar para trás (Aboubakar similar, com apenas quatro jogadas para a frente). Isto não é teima ou desvalorização, é o que aconteceu em campo. O que aconteceu também em campo é que Marega não desperdiçou a oportunidade de matar o jogo e que, apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi. Isto foi o bom. O resto foi mau. E o bom sobrepôs-se ao mau, porque rendeu golos ao FC Porto. 11 golos em 7 jornadas, e seis delas tiveram golos da dupla africana reabilitada por Sérgio Conceição, pelos atletas e, também, pelos adeptos, que souberam puxar por jogadores outrora proscritos. 




Acorda, rapaz (-) - Nenhuma equipa desaprende a defender em três jogos. Mas como é claro, sofrer 6 golos em 3 jogos, em vésperas de 3 difíceis deslocações em que o FC Porto muito possivelmente atacará menos do que os adversários, é motivo de preocupação. E nesse epicentro está Felipe, de há umas semanas para cá uns furos abaixo dos colegas. Tem adornado demasiado na saída de bola, complica o que antes resolvia com um pontapé, está a perder vários lances no corpo a corpo e foi completamente comido no lance do 3x1, com um mau timing de entrada sobre o adversário e corte falhado - no lance do 5x2, reparte culpas com Marcano, pois o defesa do Portimonense finaliza entre os dois centrais. Felipe tem que subir de rendimento para os jogos que aí vêm, até porque vai ter muito mais trabalho do que o que vem tendo nos últimos jogos.

A concluir: o FC Porto regressa à liderança isolada do Campeonato, pela primeira vez desde dezembro de 2015. Na altura, depois da subida ao primeiro lugar, seguiu-se uma derrota em Alvalade, despediu-se o treinador e a equipa mergulhou numa declarada crise de confiança e resultados; serve também isto para lembrar que um percurso de 644 dias pode ser destruído no espaço de duas semanas. Cabe aos adeptos não permitirem que isso se repita, pois Sérgio Conceição e o plantel não merece outra coisa que não total compromisso e apoio.