segunda-feira, 21 de maio de 2018

A permanência de Iker e a saída de Ricardo

Caminhos opostos para duas figuras importantíssimas na caminhada do FC Porto para o título 2017-18. Iker Casillas fica mais um ano, Ricardo Pereira já assinou pelo Leicester City e torna-se a primeira de várias saídas - umas com mais impacto do que outras, naturalmente - que inevitavelmente terão lugar neste plantel. 

Começando pela renovação de Iker, que aceitou uma redução salarial para permanecer no FC Porto. Não é qualquer atleta que o faz. Embora o guarda-redes seja um futebolista mais do que afortunado, com mais dinheiro do que aquele que possa contar, a verdade é que é comum os futebolistas em final de carreira optarem por um futebol mais periférico para acumularem mais alguns milhões antes da reforma. Casillas, aos 37 anos, trocou isso por mais uma época de FC Porto, mais uma época de Champions, mais uma época a tentar lutar por títulos. 

De qualquer forma, o FC Porto não poderia decidir, ao final do terceiro ano de contrato, que afinal Iker Casillas era caro. Isto já foi explicado neste post. Quando o espanhol foi contratado, em 2015, Pinto da Costa garantiu que Casillas ganhava tanto como Andrés Fernández (que já saiu) e Fabiano (que está longe de integrar a fileira dos mais bem pagos) juntos. A diferença entre ter um grande guarda-redes e dois guarda-redes razoáveis. 


Caso Iker Casillas tivesse saído, a baliza tornar-se-ia um problema, pois não há, no atual plantel, um guarda-redes com o estofo necessário para assumir desde já o posto de número um. Assim, temos guarda-redes para mais um ano, e mais um ano para trabalhar a sucessão, até porque a herança das balizas costuma ser um tema complicado para o FC Porto. Veja-se o exemplo de Vítor Baía: o FC Porto só conseguiu verdadeiramente substituir Baía quando voltou a ir buscar Baía ao Barcelona; e quando o português se retirou, aí sim, o presente estava assegurado com Helton, que já era campeão e internacional brasileiro e tinha já considerável experiência e provas dadas na I Liga. Agora, um guarda-redes que era suplente do atual suplente do Sporting, ou outro que tem uma época de Feirense, são rédeas curtas. 

A continuidade de Iker Casillas é uma boa notícia. Já a saída de Ricardo Pereira, como é natural, não pode ser vista da mesma maneira, pelo menos na dimensão desportiva. E na financeira?

O FC Porto anunciou a transferência por 20 milhões de euros, mais eventuais 5 milhões em variáveis. Como as variáveis por norma são apenas para inglês ver, tanto que as SAD muitas vezes nem se dão ao trabalho de explicar como podem ser atingidos esses objetivos, teremos como referência os 20 milhões de euros. 

Ricardo Pereira, a um ano do final de contrato, sai basicamente pelo mesmo valor de Paulo Ferreira e Bosingwa, um transferido em 2004, outro quatro épocas depois. O mercado de transferências, desde então, inflacionou consideravelmente. Mas poderá o mesmo ser aplicável ao mercado dos laterais-direitos em particular?

Vejamos o top 12 dos laterais-direitos mais caros de sempre:


Desde logo, assinala-se o facto de quatro dos 12 laterais-direitos mais caros da história terem sido transferidos pelo FC Porto. E tirando Dani Alves, não vêem por aqui nenhum nome consagrado do futebol mundial.  O segundo em termos de palmarés será por certo Paulo Ferreira, seguido por Bosingwa.

O mercado de laterais-direitos é, por norma, propício a valores baixos. Mas vemos que a tendência é isso estar a mudar, como são exemplos as transferências recentes de Aurier, Zappacosta, Conti ou Nélson Semedo - nenhum deles é melhor do que Ricardo Pereira e todos eles foram transferidos por valores superiores. 

Por isso, 20 milhões de euros, considerando a qualidade e potencial atuais de Ricardo Pereira, são um número capaz de satisfazer os adeptos em plenitude? Provavelmente não, sobretudo quando tivermos em conta que a mais-valia poderá ser mais bem reduzida.  

Ricardo foi comprado ao Vitória de Guimarães em Abril de 2013, por 1,6 milhões de euros a troco de 80% do passe, mais 100 mil euros de encargos. No último R&C semestral da SAD, o FC Porto anunciou ter 88% do passe do lateral-direito. Na altura da transferência, Júlio Mendes disse que o Vitória de Guimarães ficou com uma parte de uma futura venda, mas não esclareceu se se estaria a referir à percentagem dos direitos económicos ou mesmo a uma futura transferência. 

Por exemplo, o FC Porto tem efetivamente 88% do passe de Ricardo, mas aquando da salgalhada que foi a transferência de Carlos Eduardo e de um dos irmãos Djim para as Arábias (leia-se, o facto de o FC Porto ter permitido/precipitado um negócio quando o Nice tinha direito de preferência sobre Carlos Eduardo) o Nice acabou por ficar com 15% de uma futura venda. 

Ou seja, o Nice não tem, na prática, direitos económicos de Ricardo Pereira, mas tem direito a receber 15% da futura venda do FC Porto. O caso de Marega também é ilustrativo: o FC Porto tem 100% dos direitos económicos do maliano, mas o Vitória de Guimarães tem direito a 30% da futura venda, percentagem que ficou definida aquando da transferência de Soares. 

Agora resta saber: o Leicester é quem paga os 12% do Vitória e os 15% do Nice?; o Leicester é quem paga o mecanismo de solidariedade FIFA?; o Leicester é quem paga as mais do que esperadas comissões pela concretização do negócio? A definição de todas estas parcelas é que ajudará a decidir quão boa - ou menos má - pode ter sido esta venda de Ricardo Pereira.


De qualquer forma, há que considerar ainda o factor «tempo». Sim, o FC Porto é campeão nacional. Mas a situação económica da SAD não mudou. Ser campeão em Portugal, por si só, não dá dinheiro - pelo contrário, acaba por dar é ainda mais despesa, pois a SAD tem que pagar os prémios pela conquista do Campeonato aos jogadores.

Logo, não é o facto de ser campeão em Portugal que melhora a situação financeira - o que permite isso é o factor UEFA, nomeadamente a qualificação direta para a Liga dos Campeões, que a partir de 2018-19 vai multiplicar os prémios e permitir um maior encaixe financeiro (ainda que, em contrapartida, a qualificação para a fase de grupos da Champions e para os próprios 1/8 de final se torne mais complicada de atingir).

Ora, e «tempo» era algo que o FC Porto não tinha no dossier Ricardo Pereira. O lateral ia entrar em final de contrato e a SAD não poderia permitir que um ativo chegasse a janeiro nesta condição contratual (Herrera e Brahimi estão na mesma situação, por isso ou renovam ou saem já). Logo, havia pressa em vender, sobretudo porque a SAD tem metas a cumprir por ter falhado o fair-play financeiro da UEFA. Há quem defenda que o Mundial 2018 poderia ser uma montra, mas sejamos francos; primeiro, não há garantia de que Ricardo seja titular na Rússia; segundo, os clubes interessados passaram uma época inteira a observar Ricardo, logo não haveria de ser por 2 ou 3 jogos num Mundial que iam decidir dobrar as suas propostas.

É de recordar que a SAD orçamentou, para 2017-18, um prejuízo de 17,27 milhões de euros. No final do primeiro semestre, o resultado negativo era de quase 24 milhões. Nos proveitos operacionais definidos a SAD não deverá ter dificuldades em cumprir as principais alíneas, mas há um setor sempre alarmante: os proveitos com transações de passes de jogadores.

Excerto do acordo entre a UEFA e o FC Porto para o FPF
No final do R&C do primeiro semestre 2017-18, a SAD teve proveitos de apenas 8,4 milhões de euros, tendo basicamente tido apenas uma venda relevante - a transferência de Bruno Martins Indi para o Stoke. 

Tendo em conta que a SAD projetava custos operacionais de 19,7 milhões de euros negativos, mais 35,5 milhões de euros em amortizações de passes, o FC Porto teria que registar, em 2017-18, 55 milhões de euros em proveitos com transações de passes de jogadores. Ora, a venda de Ricardo Pereira mantém o FC Porto longe desse valor, por isso podemos esperar que mais um titular possa ser alvo de uma transferência a curto prazo.

Para já despedimo-nos de Ricardo Pereira, com votos de sucesso em Inglaterra, e deixamos uma sugestão para o lugar de lateral-direito. Há por aí um miúdo bem jeitosito, de apenas 19 anos, mas com qualidade para o curto prazo e potencial enormes; anda há meses a ser observado por clubes como Bayern e Barcelona, e apesar de ter pouca experiência de equipa A já houve um clube a acenar com uma proposta bem próxima dos 20 milhões de euros da sua modesta cláusula de rescisão. Chama-se Diogo Dalot. E está também a entrar em final de contrato. Renovar com Dalot colmata, desde logo, a saída de um titular e assegura um lateral de qualidade e portismo inquestionáveis para as próximas épocas. Querem melhor? 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Campeões e recordistas

Não há maior testemunho da reabilitação competitiva que Sérgio Conceição injetou no FC Porto: ainda adeptos, jogadores e clube estavam na «ressaca» da conquista do Campeonato e já o treinador se tinha proposto ao recorde de pontos num Campeonato a 34 jornadas. Ninguém entrou em campo em Guimarães já a festejar, com cara e cabelo pintados e meramente para cumprir calendário. Não, havia um recorde a alcançar.

E o FC Porto tornou-se a equipa com maior pontuação de sempre num Campeonato a 34 jornadas (não confundir com aproveitamento máximo de pontos - essa marca foi estabelecida em 2010-11, com 93,3% de pontos conquistados). O Benfica também fez 88 pontos em 2015-16, certo, mas com uma vantagem de apenas dois pontos sobre o segundo classificado. Logo, os 88 pontos do FC Porto ganham especial relevância por terem deixado o Benfica a um Celta de Vigo de distância, leia-se, a sete pontos. 

Concluiu-se assim uma época que pode ser resumida numa palavra: superação. Sérgio Conceição não teve pudor em assumi-lo: não tinha o melhor plantel, não tinha os melhores jogadores, não teve reforços no mercado de verão. Não passou a ter um plantel vasto e completo no decorrer da 
época. Mas construiu uma equipa, que jogou até ao limite. É certo que a qualidade exibicional do FC Porto decresceu bastante desde o final de fevereiro - desde então, a esmagadora maioria das vitórias foram conseguidas pela margem mínima -, mas isso não retirou os estatutos de melhor ataque e melhor defesa ao plantel. Nem de melhor futebol.

Campeões nacionais com 7 pontos de avanço, objetivos cumpridos na Liga dos Campeões, e as finais da Taça da Portugal e da Taça da Liga ficaram à distância de um pouco mais de felicidade nas grandes penalidades. Plantel valorizado em várias unidades e comunhão absoluta entre adeptos e equipa. Segue-se um merecido descanso, com a garantia de que na próxima época será muito, muito difícil fazer melhor; mas que ninguém duvide que a meta de Sérgio Conceição será precisamente essa - mais e melhor.




Iván Marcano (+) - Na sua mais do que provável despedida do FC Porto, assinou o golo da vitória e entrou para a lista dos 10 defesas mais goleadores da história do clube. Exibição muito sóbria na defesa, com os atacantes do Vitória a não darem muito trabalho, por isso foi na grande área adversária que Marcano mais se distinguiu, tendo ainda criado uma ocasião de golo. A caminho de completar 31 anos, está no pico de maturidade e experiência, e arrisca deixar um vazio que o plantel, neste momento, não tem condições para preencher.


Alex Telles (+) - Fechou a época com a 14ª assistência no Campeonato, 20ª na época, e termina a temporada como o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a época - 95 no total. É certo que o brasileiro bate as bolas paradas, algo que ajuda a reforçar os números, mas é mais do que Brahimi (50 ocasiões) e Herrera (40), o 2º e 3º mais influentes, juntos. Certinho na defesa, disponível no ataque, voltou a estar na génese das principais jogadas de perigo dos dragões. Termina a época como uma das tentações do mercado de verão... e um forte candidato a ver o seu estatuto reforçado no Dragão em 2018-19.

Héctor Herrera (+) - Nem parecia que estava na ressaca de uma semana de festa e relaxamento. Foi de longe o jogador com mais ações com bola (90), ganhou 9 dos 14 duelos que disputou, criou uma ocasião de golo e esteve surpreendentemente bem no passe longo, ao acertar 6 das suas 7 tentativas. Encheu o meio-campo e acumulou um total de 16 intervenções na defesa, entre cortes, desarmes e recuperações de bola. Um jogo de pulmão cheio.

O regresso de Fabiano (+) - Um pouco à margem do jogo, mas é um momento que merece ser assinalado. Para quem não se recorda, Fabiano foi o guarda-redes menos batido das Ligas europeias em 2014-15. Uma prova de que o futebol e as balizas podem ser mundos tão complexos que o mais difícil - não sofrer golos - pode não ser de todo suficiente para encher as medidas a treinadores e adeptos. Perdeu a titularidade e o lugar no clube depois dos 6x1 de Munique. O mesmo jogo onde também estiveram jogadores como Marcano, Herrera ou Brahimi, agora «heróis» da época 2016-17.

Fabiano foi dispensado e emprestado ao Fenerbahçe, depois de Casillas ter sido contratado (ao contrário do que chegou a dizer Pinto da Costa ao El País, tendo afirmado que a hipótese Casillas só surgiu depois de Fabiano ter ido para a Turquia). O brasileiro dificilmente teria muito espaço para jogar no Fenerbahçe, pois Demirel é quase intocável para o clube e adeptos. Esteve duas épocas no Fenerbahçe, mas sofreu uma lesão grave. Voltou a Portugal e ao FC Porto meramente para tratar da lesão, mas Sérgio Conceição decidiu incluí-lo no plantel como sendo jogador da equipa A. Um ano depois da grave lesão, voltou a jogar, para ser campeão. A emoção no final não é indiferente a nenhum adepto: ver um jogador superar tamanho calvário, até à emoção de voltar a ser campeão no FC Porto, chega a ser simbólico e algo no qual cada adepto se pode rever. 

Terminou a época 2017-18, que será sempre recordada com orgulho e satisfação. A época do «Mar Azul».

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A obra completa de Conceição

Há três anos, numa entrevista de Pinto da Costa ao El País, uma agora célebre frase ficou marcada. «Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar». Uma declaração na altura infeliz, por desvalorizar aquilo que foi o trabalho dos últimos treinadores campeões pelo FC Porto (AVB e Vítor Pereira), mas que agora pode ser parafraseada face àquele que é o desfecho da época 2017-18.

Com Sérgio Conceição como treinador, foi o contrário: foi indiferente o plantel que lhe calhou em mãos. Não tinha um Hulk, não tinha um James, não tinha um Falcao. Herdou um grupo de jogadores sem cultura de campeão, a lista de dispensas da época passada, não teve um único reforço na pré-época e nem sequer pôde ter o requisito básico de ter dois jogadores por posição. Sérgio Conceição pegou em tudo isto... e fez uma equipa. Uma equipa que acaba de conquistar um dos títulos mais marcantes da história do FC Porto. Não por marcar o fim de um jejum ao qual as últimas gerações não estão habituadas, mas pelas circunstâncias que rodearam o futebol português nos últimos anos. 


O que acontece nas últimas jornadas tem sempre o poder de mudar a perspetiva sobre como os adeptos olham para o resto da época, mas insiste-se no que foi dito no início da época: esta não foi uma época preparada para ganhar o Campeonato. Não foi. A administração do FC Porto foi a única a ser alvo de uma punição por parte da UEFA por ter violado o fair-play financeiro em 2016-17. Logo, a prioridade ficou clara, embora nunca assumida pela administração: não havia margem para investir, havia que capitalizar os recursos já existentes e a prioridade seria cumprir com as metas da UEFA para evitar males maiores. 

E Sérgio Conceição escolheu encarar isso como o maior desafio. Não chegou ao FC Porto trazendo com ele uma ideia de jogo particularmente sedutora nos clubes por onde passou. Cumpriu objetivos por onde andou, mas sem nunca mostrar um futebol condizente com quem tem que assumir jogos e que não pode jogar para o pontinho. Mas tudo isso ficou à porta do Olival. 

O treinador olhou para o plantel a aplicou-lhe o conceito de jogo possível. Temos bons laterais? Então vamos aproveitar a sua profundidade e projeção ofensiva. Brahimi é o que mais se aproxima de um match-winner no plantel? Tudo bem, vamos metê-lo a tirar um, dois, três do caminho e a tentar o último passe. Herrera não se adapta a jogar em posse? Não faz mal, vai ser box-to-box. Corona, Hernâni ou Otávio são demasiado intermitentes para garantir um 4x3x3? Sem problema, temos avançados fortes e velozes, vamos metê-los a cair em cima da linha defensiva adversária, a massacrar os defesas e a jogar em profundidade. 

Sérgio Conceição não fez ometeles sem ovos. Fez bolos, fez o banquete inteiro. Cometeu erros? Certamente, mas teve a sensibilidade e inteligência de saber quando ou como os podia ou devia corrigir. Iker voltou à baliza; Felipe saiu do 11 quando tinha que sair e voltou quando estava bem para regressar; mudou o meio-campo e a forma de jogar em vez de tentar descobrir um novo Danilo - que não havia - no plantel; pegou em Marega, que pouco mais oferecia do que força e velocidade, e fez com que não precisasse de mais do que força e velocidade para ser o melhor marcador portista na Liga; Soares, que podia ter ido para a China em ruptura com o treinador, foi transformado no melhor «reforço» de inverno. E podíamos continuar a enumerar exemplos que só reforçam um treinador que, perante uma enxurrada de problemas, respondeu sempre com soluções. 

É um título de Sérgio Conceição, do grupo liderado por Sérgio Conceição e de constantes provas de superação. Cumpriu os objetivos na Liga dos Campeões, ficou às portas das finais da Taça de Portugal e Taça da Liga devido às grandes penalidades e garantiu matematicamente a conquista do título de campeão nacional quando ainda faltavam disputar dois jogos. E agora está a uma vitória de bater o recorde de pontos do FC Porto numa Liga a 34 jornadas. Sem exigências, sem queixas, sem desculpas, mas com muito trabalho. 

Haverá muito mais a discutir sobre a construção do plantel e sobre o trabalho de Sérgio Conceição no final da temporada, mas para já é tempo de celebrar o feito deste grande grupo de trabalho, responsável pela alegria de milhões de portistas nas últimas horas. Nem padres, nem missas, nem afins: 2017-18 será sempre a época do FC Porto de Conceição.






Yacine Brahimi (+) - Foi o responsável pelo momento alto da noite no jogo de consagração do título, ao marcar com mestria o 2x0. Além do golo, Brahimi criou mais duas situações de finalização, teve 7 dribles eficazes e totalizou 81 ações com bola. Foi o principal agitador de um jogo em que, admita-se ou não, os efeitos de uma noite de festa não poderiam deixar de se fazer sentir.


Sérgio Oliveira (+) - Jogo com grande disponibilidade para chegar à grande área adversária - apareceu cinco vezes em zonas de finalização para tentar o remate, mais do que Soares, Marega e Aboubakar juntos. Foi dessa forma que conseguiu inaugurar o marcador, numa partida em que teve 89% de acerto no passe e priveligiou uma circulação mais segura e curta. 

Ricardo Pereira (+) - Não estava a brincar quando, no meio dos festejos, alertou que no dia seguinte havia jogo. Para Ricardo, foi como se os três pontos em causa fossem determinantes para a conquista do Campeonato. Aos 90 minutos ainda andava a percorrer todo o corredor com grande fulgor, ele que contribuiu com 13 ações defensivas e reforçou o seu estatuto de jogador com melhor eficácia de desarme no Campeonato (99 em 119 tentativas). Além disso, ainda criou duas ocasiões de golo, uma delas flagrante.

Tempo de celebrar e desfrutar, mas sem esquecer que ainda há um jogo para se disputar, em Guimarães. O FC Porto está a uma vitória de se tornar o clube com melhor desempenho num Campeonato a 34 jornadas. Que a sede de ganhar seja para manter. Por outras palavras: que Sérgio Conceição seja para manter, por muitas e boas épocas!


terça-feira, 1 de maio de 2018

O (pen)último passo

A equipa que saiu do Restelo no 2º lugar, após desperdiçar uma vantagem de cinco pontos, está agora a um empate de se sagrar campeã nacional. Pode acontecer em Alvalade, pode acontecer no Dragão. Um ponto é tudo o que separa do FC Porto de um dos títulos mais marcantes da sua história - pelas circunstâncias da época desde a sua preparação, pelo passado recente, pela defesa da história do clube e, acima de tudo, por todo o trabalho desenvolvido por este grupo desde o primeiro dia. 


Entende-se a euforia pelas circunstâncias que circulam o momento atual, desde a partida para a Madeira, passando pelo golo de Marega e até à receção no Porto, mas ainda ninguém gritou que o Porto é campeão. Pelo contrário, gritam o mesmo desde o primeiro dia: «Eu quero o Porto campeão!».

E ninguém quer mais do que este grupo. Ninguém merece mais do que este grupo. Falta um ponto!




Brahimi (+) - Foi já sem o argelino em campo que o FC Porto chegou à vitória, mas ninguém procurou mais o golo do que Brahimi, de regresso às boas exibições. Conseguiu invariavelmente colar a bola ao pé, ir à linha e procurar o último passe, mas foi sempre difícil encontrar os colegas no meio da floresta de pernas da defesa do Marítimo. Ainda assim criou quatro ocasiões de golo, fartou-se de pressionar e também ajudou na recuperação, com 10 ações defensivas.

Ricardo Pereira (+) - Alex Telles contribuiu mais no ataque (assistência e quatro ocasiões de golo), mas o lateral-direito foi uma autêntica locomotiva ao longo dos 90 minutos. Inteligente a subir, aproveitou bem o espaço nas costas da defesa para, uma, duas, três vezes, aparecer em posição privilegiada para o cruzamento - ainda que tenha pecado neste aspeto. Foi o jogador com mais ações com bola em campo, ganhou 8 dos 10 duelos que disputou e cumpriu com o pouco que teve que fazer defensivamente.

Marega (+) - Marcou o golo da vitória e que deixou o FC Porto a um ponto do título, o que por si só já vale destaque. Mas a principal nota vai para o facto de Marega ter batido o recorde de dribles eficazes ao serviço do FC Porto: seis em seis tentativas. Ganhou a maior parte dos lances que disputou, 9 em 16, algo também acima da sua média habitual, e ainda criou uma ocasião de golo. Há também que reconhecer a eficiência dos números: Marega não marca nos jogos grandes, nem Champions nem clássicos, mas leva 22 golos em 27 jornadas de bola corrida (sem penáltis, Bas Dost tem 21) e arrisca-se a ficar na história como sendo o melhor marcador num dos ataques mais produtivos do FC Porto nas últimas décadas. O Tribunal do Dragão gosta muito de estatísticas, verdade, e estas são a melhor resposta de Marega.


Héctor Herrera (+) - Há algo que nunca poderemos esquecer: o FC Porto perdeu aquele que era, provavelmente, o jogador mais importante do «coletivo» a meio da época, Danilo. Não havia substituto, por isso Sérgio Conceição teve que mudar de esquema. E aí a importância de Herrera redobrou. Teve que jogar e trabalhar por dois. Ajudou a «puxar» o melhor de Sérgio Oliveira e, muitas vezes, tem que compensar/corrigir o colega. Corre, distribui, pressiona, leva cacete, chega à grande área adversária e está sempre a dar soluções aos colegas. É o pulmão esta equipa. E respira Porto. 

A denúncia anónima (+) - Obrigado. É a única coisa a dizer: obrigado. Não sabemos se a denúncia anónima a envolver o guarda-redes do Marítimo partiu do Benfica, de alguém a mando do Benfica, ou de algum benfiquista que não tinha mais nada que fazer. Mas foi essencial para que o FC Porto chegasse à vitória.

Porquê? Sejamos francos: quem é que sabia quem era Amir, o guarda-redes do Marítimo, antes deste jogo? Poucos. Amir era um guarda-redes tranquilo, sem protagonismo, e que estava bem na baliza do Marítimo - com ele, a equipa esteve 12 jogos consecutivos sem perder, e só na visita ao SC Braga sofreu a primeira derrota. O que é que a denúncia anónima fez? Focou todos os holofotes em Amir, algo a que o iraniano não estava minimamente habituado. Amir sentiu a necessidade de corresponder, de mostrar que era íntegro, que ia ajudar o Marítimo a pontuar.

E foi precisamente isso que provocou a correria ao minuto 40, na qual Amir sai da baliza, na tentativa de ser mais rápido do que o ataque do FC Porto e a defesa do Marítimo. Só um guarda-redes com sangue na guelra tenta fazer aquela saída. Só alguém que sente a pressão e que tem algo a provar. Lamentamos, Amir, que tenhas sido o prejudicado no meio disto, mas há que agradecer a quem mexeu com a tua cabeça: se não tivessem intranquilizado e, consequentemente, «expulsado» o guarda-redes do Marítimo, quiçá não estaríamos neste momento a lamentar outro resultado. 




Primeira parte (-) - A derrota do Benfica frente ao Tondela não só retirou pressão ao FC Porto como relaxou, em demasia, a equipa. Primeira parte que até começa com uma boa ocasião para marcar, mas que depois revelou uma equipa frouxa, de pouca intensidade, a criar poucas jogadas de perigo nos últimos 20 metros e pouco interessada em marcar cedo. Otávio nunca conseguiu entrar no jogo, Soares desperdiçou as ocasiões que teve (embora tenha arrancado uma expulsão). Não a jogar para o empate, mas a jogar com o empate na cabeça. Foram 45 minutos de encontro ao rendimento das últimas semanas (dificuldade em fazer golos, sobretudo em bola corrida), algo que teve meramente como exceção a primeira parte frente ao Vit. Setúbal. Não é o melhor momento da época em termos exibicionais, e há que reconhecê-lo; mas é o momento em que os pontos e o resultado valem mais do que a performance. E o título está a um ponto.

Um ponto. Ser campeão em campo é sempre mais saboroso, mas veremos o que acontece em Alvalade. 

Duas notas: faz hoje sete meses que Sérgio Conceição, depois do empate a zero em Alvalade, gritou na roda: «Nós vamos ser campeões!» E foi há uma volta atrás, frente ao Feirense, o próximo adversário no Dragão, que Brahimi, na cara de Fábio Veríssimo, bateu no peito em frente ao árbitro e deixou a promessa: «Nós vamos ganhar!» Dito isto, nomeiem Fábio Veríssimo para a receção ao Feirense. A sério. Ele merece testemunhar aquilo que lhe foi prometido há uns meses.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Cinco antes dos seis milhões

Uma viagem curta aos números. 79 pontos em 31 jornadas. Melhor, em toda a história do FC Porto, só em 1995/96, com Robson, também essa a única época em que os dragões tinham mais golos do que agora (80 contra 78). São bons predicados antes de um dos jogos mais importantes da história recente do FC Porto, a visita ao Marítimo. 

Nos Barreiros, onde o FC Porto não conseguiu vencer nas suas últimas seis visitas, não vão jogar apenas Marítimo e FC Porto: vai jogar também o Benfica, e tudo aquilo que isso implica. É o jogo mais difícil do ano. Aquele em que menos poderemos errar, aquele em que mais teremos que nos dedicar. 

Um Marítimo de qualidade, que joga uma cartada europeia, forte em casa, que faz poucos golos mas amarra bem o jogo e que perdeu apenas dois jogos em 20 nesta temporada. Um Marítimo que vai, certamente, apresentar mais dificuldades do que o Belenenses no Restelo ou o Paços de Ferreira no Capital do Móvel. Cabe ao FC Porto mudar a história. Com inteligência, eficácia, capacidade de sacrifício e o pragmatismo que for necessário. A forma como o Benfica vai entrar em Alvalade dependerá muito da forma como o FC Porto sair da Madeira. 

É só e apenas um jogo determinante na luta pelo título de campeão nacional e na defesa do estatuto de único pentacampeão do futebol português. É apenas a oportunidade que querem e pela qual lutam há cinco anos. É apenas o tipo de jogo em que William Shankly pensou quando criou a sua mais célebre frase.




Alex Telles (+) - Certinho a distribuir (93% de passe), aguerrido e produtivo  a atacar (4 ocasiões de golo), fechou com chave de ouro uma boa exibição com um livre direto daqueles que parecem ser uma raridade no Dragão. Passou a maior parte do jogo a jogar sobre o meio-campo adversário e esteve na génese de mais dois golos do FC Porto. Quando pensamos num jogador que merece ser banhado de aplausos lá para maio, Alex Telles encabeça a lista. 

Ricardo Pereira (+) - Rebentou na segunda parte, ele que vinha sendo talvez o jogador mais incansável dos últimos jogos. Não subiu tanto como Alex Telles, mas foi eficaz quando o fez: assistiu Corona para o 4x1 e ganhou 12 dos 16 duelos que disputou. Cumpriu defensivamente, num jogo também seguro da dupla Felipe-Marcano.

Marega (+) - Um jogo... à Marega. Abriu o marcador com oportunismo e, aos 16 minutos, aguentou toda a pressão da defesa do Vit. Setúbal até conseguir o passe atrasado para Brahimi faturar. Foram os pontos altos de uma exibição em que o maliano voltou a alternar a eficácia com a displicência, tendo perdido 9 dos 12 duelos que disputou e desaparecido da manobra coletiva da equipa após o 3x0, algo explicado por problemas físicos e que levou posteriormente à sua substituição. 

A sua presença física e velocidade continuam a ser determinantes para ajudar o FC Porto a esticar o jogo e a ter profundidade, algo que curiosamente joga muitas vezes contra Marega - acabou o jogo com 4 faltas cometidas e nenhuma sofrida; mas, tem que ser dito, qualquer outro jogador provavelmente teria ido ao chão, para ganhar a falta, antes do lance do 3x0. Marega continuou e já participou em 26 golos na Liga. Falha mais do que os outros, mas também não há ninguém a acertar mais do que ele. 


Segue-se o Marítimo. Vamos facilitar a palestra pré-jogo de Sérgio Conceição: é só colar isto nos balneários. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Caça ao golo em quatro finais

Ao sétimo e último clássico da época, a primera derrota frente a um dos rivais. As grandes penalidades voltaram a ser uma realidade na qual o FC Porto não encontrou a felicidade, ironicamente novamente com os ferros à mistura. Para trás ficam 660 minutos (sete jogos + um prolongamento) nos quais o FC Porto confirmou dois predicados nos clássicos esta época: uma equipa que defende bem, mas que também denuncia muitas limitações na dimensão ofensiva. 

Em Alvalade, repetiu-se um filme que não era inevitável, mas que já havia sido anunciado. Recordando aquele que foi o único «Machado» do jogo da primeira mão, em que o FC Porto venceu por 1x0, golo de Soares. 


No post anterior também já tinha sido feito o alerta: o Sporting venceu todos os jogos que disputou em Alvalade, a nível interno, desde o início de novembro e sempre sem sofrer golos (se der para prolongarem essa sequência até à receção ao Benfica, a malta é capaz de agradecer). Mas o que aconteceu ao longo dos quase 90 minutos em Alvalade? O FC Porto fez o que quis. 

Sérgio Conceição montou uma equipa para anular o Sporting. E conseguiu-o, quase até ao final. Essa foi uma constante nos clássicos desta época: o FC Porto poucas vezes concedeu grandes ocasiões de perigo aos rivais. Basta dizer que foram apenas 2 golos sofridos: o de Rafael Leão, no Dragão, e o de Coates, numa jogada de ressaltos/bola parada. É atípico sofrer tão poucos golos em clássicos. 

O Sporting, obrigado a ganhar e à reviravolta, foi quase inexistente ao longo dos 90 minutos. Bas Dost não se viu a incomodar Casillas, Bruno Fernandes não teve espaço para a meia distância nem para o último passe, os laterais foram barrados e o pouco que Gelson produziu não chegou para pôr à prova Casillas. No que toca à missão defensiva, o FC Porto esteve quase sempre no controlo.

Mas faltou pensar no outro lado. Pois se é verdade que o FC Porto secou o Sporting, também há que reconhecer que o FC Porto foi absolutamente inexistente no ataque. Rui Patrício não fez uma defesa. E, cúmulo das ironias, também não teve que defender nenhum penálti para seguir em frente. O Sporting pouco conseguiu fazer, mas Rui Patrício também não teve que fazer quase nada. Não combina com algo positivo. 

Na primeira parte o FC Porto teve momentos de boa circulação, soube jogar em apoio e com as linhas mais próximas do que o fez na Luz, mas a equipa praticamente não teve presença nos últimos 18 metros. Admita-se ou não, o FC Porto jogou sempre com o 1-0 da primeira mão no pensamento, e não admitiu nunca que o Sporting pudesse chegar ao golo e forçar o prolongamento. 

Um momento muito contentado pelos adeptos do FC Porto foi a última alteração de Sérgio Conceição, a entrada de Diego Reyes. E a verdade é que essa alteração, dentro das opções existentes, é de fácil compreensão.

O FC Porto esteve sempre em controlo do jogo. O Sporting, mesmo após a entrada de Montero para jogar ao lado de Bas Dost, não estava a colocar bolas na zona de finalização. Mas Sérgio Conceição quis antecipar-se à possível reação do Sporting. Felipe e Marcano estavam a jogar para dois avançados do Sporting. E, para os mais esquecidos, o FC Porto não só não tem Danilo como não tem nenhum outro médio-defensivo no plantel. Ali, naquele momento, foi a alteração que qualquer treinador faria: colocar um tampão na zona central, para evitar que os centrais fiquem expostos a uma situação de 2x2.

E poderia perfeitamente ter funcionado. Tanto que o golo do Sporting acontece depois de duas situações que nada têm a ver com a composição tática da equipa: uma bola parada e, logo depois, um corte incompleto de Marcano. Foi o pior que podia ter acontecido: no momento em que reforça o setor defensivo, e até ganha mais argumentos para as bolas paradas defensivas, o FC Porto sofre um golo que é raro de ver acontecer nesta equipa (uma falha de um central na grande área).

Nas grandes penalidades, Sérgio Conceição fez o inverso ao que é comum nos jogos: colocou os defesas a bater primeiro. E Herrera, Aboubakar e Brahimi, que tinham falhado na Taça da Liga, ficaram fora da lista dos 5 batedores. O único a falhar foi Marcano (que tinha marcado na vitória no Campeonato), que até conseguiu enganar Rui Patrício, mas o poste voltou a fazer a diferença. 

Mas foi pelos penáltis que o FC Porto se pode queixar de falhar o Jamor? Não. Foi por um lance de infelicidade na grande área e por não ter tido a ambição de procurar um golo que mataria a eliminatória em Alvalade. O FC Porto esteve tão concentrado e empenhado na missão de anular o Sporting, algo que conseguiu quase até ao fim, que se esqueceu de impor a sua própria força. 


A dificuldade do FC Porto em fazer golo nos grandes jogos já foi aqui diversas vezes analisada, desde a Champions aos clássicos. Mas curiosamente, isto vai de encontro à filosofia que Sérgio Conceição assumia antes de chegar ao FC Porto. 


Com Sérgio Conceição, os clássicos não são jogos para 4x3. São jogos para 1x0. Uma equipa que defende bem, anula bem o adversário, mas que depois acaba por se limitar a ela própria no ataque. Há que reconhecer que o FC Porto, nos sete clássicos disputados, teve muito mais volume ofensivo do que os adversários, mas para a história ficam apenas quatro golos - ou cinco, contando com o que foi anulado a Herrera na receção ao Benfica. 

A última imagem é sempre a que fica. Por isso recordamos sempre o golão de Herrera na Luz, aos 90 minutos, e ficámos a ver uma exibição de muito empenho, garra, luta e dedicação até ao final. Mas a verdade é que, até ao golo de Herrera, a última vez que o FC Porto tinha criado perigo foi no remate em arco de Brahimi, aos 66 minutos. Desde então, foram quase 25 minutos em que o FC Porto não metia bolas na frente, não chegava à grande área e não criava situações de remate. Não tivesse existido o golo de Herrera e provavelmente muitos encontrariam, na exibição do FC Porto na Luz, tantos ou mais defeitos do que os viram nas meias-finais da Taça em Alvalade. 

Mas a que se deve essa seca de golos? À dinâmica da equipa? Ou ao subrendimento individual? Basta olhar para a seca de golos dos avançados para perceber que passa por aí. Porque as lesões não só limitam o FC Porto nas suas opções. A lesão, além de afastar um jogador dos relvados, quebra o momento de forma/ritmo que esse atleta vinha tendo.

Aboubakar é um exemplo disso. O maior, aliás. Em dezembro era o segundo avançado mais concretizador da Europa, só atrás de Cavani. Mas nos últimos três meses e meio só conseguiu um golo. Soares marcou oito golos em fevereiro. Desde então não voltou a faturar. Brahimi, nas últimas 13 jornadas, teve intervenção direta em apenas 3 golos. Marega, o melhor marcador no Campeonato, não serve para os jogos grandes (leia-se, Champions, clássicos, eventualmente os jogos com o SC Braga - Marega não marcou nenhum golo nos principais desafios). Waris e Gonçalo Paciência foram reforços de inverno para o ataque, mas não só não faturaram como estão na cauda das opções para o ataque. 

Os avançados do FC Porto não estão a conseguir faturar. Entre lesões e azares, já lá vão dois meses desde a última vez em que os avançados do FC Porto fizeram golos (Marega e Soares, em Portimão). É certo que há o desgaste da época, e que a equipa atravessa a fase de maior exigência e dificuldade da temporada. Mas nos últimos dois meses, o FC Porto fez apenas 7 golos - nos 135 minutos anteriores a este ciclo, em Portimão e no Estoril, tinha feito oito. 

O Jamor já lá vai. O FC Porto não vai à final da Taça de Portugal, mas terá quatro finais pela frente. As próximas duas jornadas são de uma importância nuclear. Se o FC Porto passa o Vit. Setúbal e o Marítimo, pode ter uma oportunidade para matar o Campeonato na 33ª jornada. Sendo que não pode haver ilusões: se o FC Porto não fizer a sua parte, rapidamente corre o risco de ver o Sporting ficar mais próximo do que propriamente a liderança do Campeonato. Margem de erro zero. Há expetativas de ver o Benfica escorregar em Alvalade, mas o FC Porto só terá interesse em meter olhos nesse jogo se fizer seis pontos nas próximas duas jornadas. 

O Vit. Setúbal empatou na época passada no Dragão. E para quem não se recorda, o Benfica tinha empatado em Paços de Ferreira. Ou seja, se o FC Porto tivesse vencido os sadinos, passava para a liderança da Liga, à 26ª jornada, mas falhou. No espaço de um ano, o Vit. Setúbal empatou na Luz, ganhou ao Benfica no Bonfim, tirou pontos ao Sporting e, há duas semanas, só não voltou a empatar contra o Benfica por culpa de um penálti arrancado nos descontos. Máxima exigência, máxima seriedade.

Quatro finais para ganhar o Campeonato. Hoje podem ficar a faltar apenas três. E não vão ser 90 minutos. O Vit. Setúbal não vai deixar jogar 90 minutos. Nem metade. Quanto mais tardar o golo, mais a equipa adversária poderá dedicar-se à missão de atrasar a reposição da bola em campo, passar tempo a rebolar no chão e tentar enervar a equipa do FC Porto. No final não queremos uma equipa a queixar-se do anti-jogo: queremos sim, desde o início, uma equipa que não vai deixar o adversário fazer anti-jogo, pois vai atacar, massacrar e marcar cedo. 

Depende de vós.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primeiro Alvalade, depois o Vit. Setúbal

O clássico continua na próxima segunda-feira, às 20.00, no Estádio do Dragão, frente ao Vitória de Setúbal. Porque nada do que se conquistou ontem à noite na Luz terá valor se o FC Porto não der continuidade a esse resultado já na próxima ronda, frente a um adversário que na temporada passada empatou na Invicta. 

A margem de erro é diminuta e o FC Porto sabe que, vencendo o Vitória de Setúbal e o Marítimo, pode muito bem sentenciar o título na 33ª ronda. Para já, no entanto, nada é mais fulcral e difícil do que bater o Vitória de Setúbal. Isto no que ao Campeonato diz respeito, pois já na quarta-feira há uma final duríssima em Alvalade, frente ao Sporting, contra um adversário que vai ter que atacar desde o primeiro minuto e que, desde novembro, venceu todos os jogos das provas nacionais em casa e sempre sem sofrer golos.

Foi de uma justiça poética que Herrera, a quem foi anulado o legítimo golo da vitória na primeira volta, tenha sido autor do golo que decidiu agora o jogo na Luz. Mas foi difícil, muito difícil. Benfica melhor na primeira parte, FC Porto muito melhor na segunda. Jogo decidido num detalhe, na terceira vez na história do FC Porto em que o golo da vitória frente ao Benfica apareceu ao 90 minutos ou na compensação. Também foi assim com Bruno Moraes e Kelvin, em épocas em que o FC Porto foi campeão por um ponto. Por um ponto se ganha, por um se perde. Daí que nada importe mais, neste momento, do que o Vit. Setúbal.





Ricardo Pereira (+) - Entrou algo nervoso, o que o levou a cometer alguns lapsos defensivos, mas rapidamente se desinibiu e partiu para uma exibição que fez dele o melhor em campo ao longo dos 90 minutos. Cansou só de o ver correr por todo o campo, ora junto ao corredor, ora nos movimentos interiores. Foi responsável por quatro das cinco ocasiões de golo que o FC Porto criou na Luz, duas delas nas quais serviu de bandeja Marega na grande área, além de ter estado perto do golo num remate desviado pelo maliano. 

Foi o jogador em campo com mais ações com bola, 91 no total (o segundo melhor do FC Porto, Alex Telles, teve apenas 62), tendo-se ainda destacado na forma prática como defendeu (10 alívios, 10 bloqueios de passes/cruzamentos/remates). Uma exibição completa, na qual foi ainda o atleta com mais duelos ganhos (14). Fernando Santos estava a ver e só resta mesmo perguntar: como é que este rapaz nunca fez um jogo oficial (não particular, oficial) por Portugal?

Centrais (+) - Não foi o melhor jogo da dupla Marcano-Felipe, mas na visita ao melhor ataque da Liga dificilmente se poderia pedir mais. Marcano e Felipe secaram por completo Raúl Jiménez, estiveram quase sempre bem posicionados defensivamente e, contra uma equipa especialista em arrancar faltas, cada um deles cometeu apenas uma falta em 90 minutos. Jogaram muito mais adiantados no terreno do que, por exemplo, a dupla do Benfica, algo que contribuiu e muito para a subida de rendimento na segunda parte.

Iker Casillas (+) - Se Pizzi aproveitasse aquela oportunidade, quiçá estaríamos, neste momento, preocupados com o Sporting e com o 3º lugar. Iker Casillas apareceu quando foi necessário, com uma intervenção decisiva, e continua sem saber o que é perder com o Benfica ao serviço do FC Porto. Talismã.

Héctor Herrera (+) - Porquê sempre ele? Por exibições assim. Num meio-campo no qual as fivelinhas Otávio e Sérgio Oliveira, sobretudo na primeira parte, sentiram muitas dificuldades, Herrera teve que trabalhar por dois. E não havia Danilo. Foi uma exibição de trabalho do mexicano, que foi quem mais faltas sofreu (6), quem mais passes completou (38), teve 13 ações defensivas e foi o médio com mais duelos ganhos (10). E olhem, resolveu um clássico que inverteu a classificação do Campeonato no minuto 90, a jogar em casa do maior rival. Sérgio Conceição admitiu, um dia, a dúvida: «Um mexicano a capitão do FC Porto?». E não, um mexicano não: mas um jogador à Porto sim. Como Héctor. E obrigadinho por dar uma folga ao TdD por, segundo tantos, defender em demasia Herrera. Hoje lhe têm a agradecer a liderança e um travão ao penta do Benfica.






Primeira parte (-) - Divididos entre o receio e números de circo, foram 45 minutos de fazer arrancar os cabelos. Otávio incapaz de apertar Fejsa e de receber no miolo. Brahimi sempre a pegar na bola demasiado longe e a querer fintar em zona proibida. Soares com mais faltas cometidas do que remates ou jogadas de perigo. Marega novamente a aparecer no sítio certo, mas para falhar as melhores oportunidades. Sérgio Oliveira bem a ganhar no primeiro metro, mas depois a deixar-se entalar entre os jogadores adversários. E gritos, muitos gritos de Sérgio Conceição, que sabia que a coisa não estava a funcionar.

A primeira parte revelou uma vez mais uma equipa com muitas dificuldades em construir. O pouco que a equipa fez nasceu das investidas de Ricardo. Jogadores demasiado distantes uns dos outros, dificuldades em segurar a bola no ataque, bolas em profundidade que não resultavam em nada e imensas dificuldades em progredir em apoio. A segunda parte mudou e, embora o golo de Herrera tenha nascido de um ressalto e se desvie de toda a lógica de um plano tático, há dois detalhes que não se podem desvalorizar: é Óliver quem ganha metros com bola e «puxa» Brahimi, que vai finalmente recolher a bola no espaço interior e, rapidamente, tenta a tabela com Marega. A sorte também se procura, e esta acabou por ser merecida.


Já dissemos que é preciso ganhar ao Vit. Setúbal? Pronto. Mas primeiro vem aí mais um clássico. Duas festas em quatro dias na Luz e em Alvalade seria inédito na história do FC Porto e deixaria a equipa com uma mão na Taça de Portugal. Há semanas piores.  

Um pormenor: Herrera preferiu mostrar o símbolo na frente do que o nome nas costas