sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O orçamento da época 2017-18

A SAD já deu a conhecer a proposta de orçamento que será submetida a aprovação na Assembleia Geral de 27 de novembro. Depois de meses em que as (poucas) intervenções dos dirigentes da SAD apontavam para um caminho de contenção de custos, redução da despesa e de dar passos rumo à auto-sustentabilidade, este orçamento era, é, a oportunidade de conferir se há realmente planos para isso ou se eram meras palavras. E como é hábito, resta deixar os números falarem por si - e também deixarem claro que, se queremos razões para festejar esta época, só podemos mesmo contar com Sérgio Conceição e os jogadores.


Há um ano, a SAD apontava para custos operacionais (sem despesas com passes de jogadores) de 116,5 milhões de euros - o valor final acabou por atingir os 121,8 milhões. Desta vez, a SAD prevê gastar mais do que o que havia sido orçamentado há um ano: 118,5 milhões de euros

Isto indica desde logo uma coisa: a folha salarial praticamente não baixa, apesar de ter havido um desinvestimento no plantel para esta época. A SAD prevê custos com pessoal de 69,4 milhões de euros esta época. Aliás, há uma pequena redução face ao orçamento da época passada, mas não chega aos 100 mil euros. Já em relação aos resultados finais da temporada passada, que atingiram os 73,26 milhões de euros, a redução aproxima-se dos quatro milhões de euros.

Portanto, a partir deste orçamento, concluímos que a SAD propõe uma redução dos custos com pessoal de 74 mil euros em relação ao orçamento de 2016/17 e de 3,822 milhões de euros face ao Relatório e Contas final da temporada passada. Isto leva-nos desde logo a questionar de onde saíram estas previsões particularmente animadoras. 


Além deste relato do jornal O Jogo, o site oficial do FC Porto cita Fernando Gomes: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». De custos com plantel para salários, de 3,822 milhões de euros para 20,8 milhões, há aqui um triângulo das Bermudas qualquer, entre semântica e matemática, que faz as coisas não baterem certo. Onde está a poupança com 26 jogadores? Oportunidade para se explicar dia 27. A não ser que estejam à espera do mercado de inverno para emagrecer a folha salarial, quiçá com ativos bem remunerados que não estão a ser opção inicial para Sérgio Conceição. Especulação, nada mais. 

Os proveitos operacionais previstos também aparecem dentro da mesma linha. Na época passada, a previsão era de 98,4 milhões de euros, e ficou meio milhão acima da metade traçada. Agora, a SAD aponta para 98,8 milhões de euros. A maior fatia volta a ser esperada na UEFA, em que a SAD conta com a qualificação para os 1/8 de final da Liga dos Campeões. Mesmo havendo restrições nas opções de Sérgio Conceição e que não lhe tenham dado um único reforço para a Champions. 

Tudo isto resulta num prejuízo operacional de 19,737 milhões de euros, resultado que acaba por ser superior às previsões da época passada (18,1M€).

O resultado final esperado é então de um prejuízo de 17,277 milhões de euros (o prejuízo de 2016-17 transitará para este exercício), após serem considerados/esperados proveitos de 55 milhões de euros com transações de jogadores na próxima época. Posto isto, torna-se difícil de encontrar algo nesta proposta de orçamento que aponte para uma mudança de rumo, de redução de custos ou de aproximação da auto-sustentabilidade. Mas calma: Fernando Gomes por certo explicará, dia 27, que este é apenas o «ano zero» e que a verdadeira recuperação começará já em 2018-19. 

Coisa que nos leva a imaginar qual seria a disposição dos adeptos se um treinador do FC Porto que, estando há três anos e meio no cargo e que tenha estado envolvido nos piores resultados da história do clube, se desse ao luxo de prometer «calma que isto vai melhorar, estamos no caminho certo e a partir do próximo ano vamos começar a jogar futebol a sério». Tem tudo para correr bem. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os Pentas: Outubro de 2017

Novembro já deu ao FC Porto duas saborosas vitórias, mas é tempo de análise ao desempenho do plantel em outubro último. Um mês que arrancou com um empate em Alvalade, resultado que manteve o FC Porto na liderança e cuja vantagem foi dobrada na jornada anterior. A primeira etapa da Taça de Portugal foi superada sem problemas, mas a Taça da Liga continua a ser um fenómeno difícil de compreender. A derrota na visita ao Leipzig custou, mas no Campeonato os triunfos dilatados sobre Paços e Boavista reafirmaram uma candidato forte ao título. Em mês de Taças há maior rotatividade de jogadores, o que torna mais difícil definir um top 5, mas estas são as escolhas d'O Tribunal do Dragão. 

5. Ricardo Pereira

Só jogou em três dos seis jogos do FC Porto disputados em outubro, mas curiosamente (ou não) esteve em todas as vitórias do clube. Duas assistências e um golo ao Paços de Ferreira, numa das exibições que foi das melhores a nível individual de todo o plantel esta época, e uma exibição particularmente bem conseguida na visita ao Boavista. Parece ter agarrado de vez a titularidade no lado direito da defesa e aproximou-se do rendimento de Alex Telles, embora o brasileiro continue a ser o rei dos passes para finalização, embora muito graças às bolas paradas. 

4. Moussa Marega

Continua na senda da combinação agridoce de um jogador que lidera várias estatísticas de passes falhados, más receções e bolas perdidas com muita luta, golos importantes e algumas assistências. Voltou a ser útil no Campeonato, no qual conseguiu dois golos e duas assistências no último mês, mantendo a sua contribuição de um golo por jornada. É o mais rematador do plantel (3,8 remates por jogo) e o segundo que mais faltas arranca (atrás de Brahimi), embora na Champions as suas limitações sejam mais evidentes. Na I Liga, no entanto, a sua dimensão física continua a fazer de Marega mais vezes solução do que problema, para surpresa e agrado. Estará ausente ao longo do mês de novembro e será a altura de fazer o balanço: o FC Porto é mais ou menos forte com Marega?

3. Iván Marcano

Voltou a mostrar a sua vocação goleadora, ao marcar dois golos no último mês, um na Taça e um na Champions. Apesar dos três golos sofridos na Alemanha, Marcano continua a somar exibições que combinam autoridade, inteligência e uma enorme capacidade no jogo aéreo. Tirando Maurides, irmão de Maicon e que tem uma capacidade forma do normal para jogar de cabeça, Marcano é o central que mais bolas de cabeça ganha no Campeonato e o que mais tackles ganha, com 73%. Em 11 jornadas disputadas, continua a ser notável a sua forma limpa de jogar (fez apenas 8 faltas, o que lhe dá menos de uma falta cometida a cada 120 minutos). E porque não custa lembrar: pode assinar a custo zero por qualquer clube dentro de menos de dois meses. 

2. Vincent Aboubakar

Voltou a ser o homem-golo do último mês, ao contribuir com cinco remates certeiros e uma assistência. Destacou-se no Bessa, ao inventar e finalizar a jogada do 1x0 depois de uma primeira parte fraca da equipa. Já é o 6º melhor marcador da história do FC Porto na Champions e é o terceiro portista com melhor média de golos na competição, só atrás dos heróis de Viena Madjer e Juary. Já leva intervenção direta em 38% dos golos da equipa, sendo o mais influente nesse capítulo. Na pré-época entendeu-se com Soares, depois com Marega e agora prepara-se para guiar o ataque do FC Porto a solo. Está bem entregue.

1. Yacine Brahimi

Repete a eleição de melhor jogador do mês, sem que possa haver grande surpresa. Três assistências e um golo no último mês, mas todos sabem que a magia de Brahimi não encontra meramente nos golos o melhor espelho. Foi o MVP no Bessa e em Alvalade e trata-se de um desequilibrador de uma dimensão à parte neste campeonato, com já 56 dribles eficazes, mais de metade do segundo melhor - um nome que merece atenção para o mercado de inverno... Gonçalo Paciência, com 24. É também o jogador que mais duelos ganha no Campeonato (96), tendo inclusive a melhor eficácia de 1x1 em toda a Liga - 73% dos lances resultam em jogadas de perigo. À margem da criatividade do ataque, destaca-se cada vez mais nas recuperações de posse e na forma como se envolve na primeira linha de pressão. Tem contrato até 2019, vai fazer 28 anos e o FC Porto dificilmente conseguirá, algum dia, fazer uma venda que faça jus à valia e qualidade de Brahimi. O melhor mesmo é continuar a desfrutar dela dentro de campo. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Um belo 31

Imaginar, no início da época, que no início de novembro o único central suplente já teria que jogar a médio-defensivo, perante a falta de alternativas de raiz no plantel, e que já haveria jogadores a acusar uma quantidade preocupante de desgaste seria coisa para motivar e justificar todo o tipo de preocupações.


Mas o saldo é este: líder à 11ª jornada, com 31 pontos, com a 2ª melhor marca da história do clube e com 4 pontos de vantagem sobre o 2º classificado; melhor ataque; melhor defesa; e uma demonstração de força e estofo mesmo quando a equipa não consegue jogar da melhor forma. No início da época perspetivava-se um campeonato muito equilibrado, com as equipas teoricamente mais pequenas a tirar pontos várias vezes aos candidatos ao título, mas o FC Porto ainda não conheceu nenhum mau resultado nesta Liga - o que não deixa de atestar as dificuldades presentes na Liga, tanto que o 2º classificado deste Campeonato já foi buscar 8 a 10 pontos (com VAR à mistura) nos minutos finais. 

Já o FC Porto, com exceção do clássico em Alvalade, nunca chegou à última meia hora sem já conhecer a vantagem no marcador. O coração agradece, ainda que na mais recente vitória só em cima do minuto 90 foi possível respirar de vez de alívio. 




Héctor Herrera (+) - Está definitivamente a atravessar a sua terceira vida no FC Porto. Quando chegou ao Dragão, Paulo Fonseca não viu nele um sucessor à altura de João Moutinho e Herrera teve uma utilização intermitente; na segunda época, brilhou com Lopetegui, mas na temporada seguinte caiu em desgraça na primeira metade da época; depois da chegada de José Peseiro, recuperou a forma e foi possivelmente o melhor jogador portista da segunda volta; com NES voltou a ser uma unidade de subrendimento, mas agora com Sérgio Conceição está novamente a recuperar o seu espaço.

Está a jogar à Costinha nas bolas paradas, escondido ao segundo poste, e foi daí que nasceu o primeiro golo; depois, já quando faltavam pernas, serviu Aboubakar para o 2x0 após uma corrida de 40 metros. Muito antes, destacou-se no passe (91% de eficácia) e na distribuição de jogo, além de ter criado 4 situações de finalização (tantas quanto Brahimi, Hernâni, Aboubakar, Corona e Galeno juntos). Falhou algumas ações defensivas, mas foi no meio-campo adversário que foi capaz de ser a diferença. Há poucas coisas que possam justificar o desaparecimento de Óliver das opções; esta exibição de Herrera é uma delas.



Diego Reyes (+) - Nota bastante positiva a jogar numa posição que é relativamente nova para si. Foi o jogador mais solicitado em campo, esteve no lance do 1x0 e não se inibiu de subir até aos últimos 30 metros, procurando empurrar a equipa para a frente. Não foi tão eficaz nos duelos individuais como Danilo (perdeu um terço das jogadas pelo ar e pelo chão), mas mostrou ser uma solução válida - se é que é possível que o 3º central seja também o 2º médio-defensivo num plantel que ambiciona lutar por todas as frentes.

Outros destaques (+) - Frieza e classe no golo de Aboubakar, que passou grande parte do jogo longe da grande área, muitas vezes descaído sobre a meia direita, a tentar abrir espaços e a arrastar os centrais. Teve apenas duas oportunidades para rematar, mas numa delas acabou com o jogo. Nota também positiva para Alex Telles, que voltou a jogar sobretudo no meio-campo adversário, criou duas ocasiões de golo e voltou a ser o jogador com mais quilómetros nas pernas. 




A bola nas costas da defesa (-) - Um novo meio-campo, o regresso ao esquema com um avançado, um Hernâni que se enquadrava bem na grande área mas depois parecia ter medo de aleijar a bola a rematar. Ingredientes difíceis para o ataque do FC Porto, mas o problema esteve na forma como a bola (não) lá chegava. Invariavelmente, a equipa abusou da tentativa de bater a bola para as costas da defesa, mesmo que o Belenenses não tivesse a equipa particularmente avançada. A tentativa de apanhar Aboubakar nas costas pelo lado direito, ou de tentar aproveitar logo a profundidade de Alex Telles, deu poucas vezes resultado. Houve dificuldades em criar e encontrar espaço e os sucessivos pontapés longos para a linha da frente não foram solução.

Mais cabeça (-) - A linha que separa os centrais agressivos, duros e impetuosos daqueles que podem deitar tudo a perder numa única entrada mal calculada é ténue. Felipe sabe, ou deve saber, que se pôs a jeito. A dificuldade na abordagem aos lances tem-se acentuado nos últimos jogos, com Felipe a expor-se demasiadas vezes ao risco - e com ele a equipa. Desta vez, ganhou apenas um terço dos lances de cabeça que disputou e foram poucas as vezes que recuperou a bola e soube sair a jogar - os lances em que mais se destacou foi quando, na grande área, não inventou e chutou para longe. Felipe já conquistou titularidade e estatuto no FC Porto, por isso são erros que se poderiam esperar quando chegou do Brasil, não agora que já tem experiência de futebol europeu. É preciso mais cabeça, até porque não nos podemos dar ao luxo de ter Felipe e/ou Marcano em má forma.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Andamento de bola parada

Líderes invictos e isolados na I Liga, com 10 bons resultados em 10 jornadas, e numa posição de apuramento para os 1/8 da Champions a 2 jornadas do final da fase de grupos? Perfeito. Se a lei da Champions diz que o apuramento se consegue com três vitórias em casa e um ponto fora, a equipa sabe o que fazer nos restantes jogos, ainda que a vitória sobre o Leipzig tenha voltado a expor o quão difícil será essa tarefa - bastou a lesão de um avançado para obrigar Sérgio Conceição a mudar o esquema de jogo. Felizmente, as bolas paradas abriram o caminho para a vitória, sendo de realçar que o FC Porto faz quatro golos dessa forma ao Leipzig, além de um tipo de golo que raramente acontece na I Liga (defesa adversária subida e espaço de 45 metros para a bola em profundidade). 

Agora o Belenenses. Istambul pode esperar. 




Danilo Pereira (+) - No seu centésimo jogo pelo FC Porto, a sua presença na grande área adversária foi decisiva. Esteve na jogada do 1x0 e fez ele próprio o 2x1, o que por si só já faz dele o homem do jogo. Defensivamente esteve quase impecável - perdeu apenas um lance de cabeça e um corte sobre Keita, sem prejuízos para a vantagem no marcador. O 4x4x2 continua a ser algo novo e difícil para um médio-defensivo que é dos melhores da Europa em 4x3x3, mas Danilo cumpriu e brilhou. Novamente.

Héctor Herrera (+) - O passe e a posse de bola é um problema para o FC Porto nesta Champions (já lá vamos), mas ninguém pensa nisso quando se pensa em Herrera. Tem jogado neste 4x4x2 por ser mais direto no seu jogo, ataca os espaços livres, pressiona, ajuda Danilo na missão defensiva e chega ele próprio várias vezes à grande área adversária. Com ou sem bola, Herrera é uma constante unidade de combate. Está novamente num bom momento e tem sido essencial no combate à inferioridade numérica no meio-campo.


Os laterais (+) - Apesar de o golo de Werner ter entrado num espaço proibido (entre o lateral e o central), Ricardo Pereira e Alex Telles voltaram a ser postos à prova e a rubricar boas exibições. Enquanto na I Liga jogam sobretudo no meio-campo adversário, na Champions têm menos liberdade para subir, mas ainda assim Ricardo e Alex chegaram várias vezes à linha de fundo e criaram seis situações de finalização. Foram os dois jogadores com mais ações com bola do lado do FC Porto. Essenciais no bloqueio do jogo exterior do Leipzig na segunda parte.

Um dia de folga (+) - Dois médios a marcar e o terceiro golo marcado por um lateral/médio-ala saído do banco. Ainda que Aboubakar tenha feito a assistência para o 3x1, é refrescante ver o FC Porto fazer golos e vencer jogos sem a marca goleadora do habitual trio africano. Não que não ver golos de Brahimi, Aboubakar ou Marega seja positivo, mas é sempre bom ver diversidade de goleadores no plantel e saber que, no dia em que os avançados falham, há mais jogadores prontos a encontrar a baliza. 




Alergia à bola (-) - Sérgio Conceição nunca escondeu que pretende impor no FC Porto um estilo de jogo mais direto, acutilante, agressivo, sempre na procura de atalhos para a baliza. E conseguiu, mas sem deixar de ser autoritário na gestão das partidas. O FC Porto é a equipa da I Liga que mais tempo joga do meio-campo para a frente, controla os jogos com bola e tenta circulá-la em toda a largura do campo. Na Champions isso não acontece. Diferentes adversários obrigam a diferentes estratégias, mas há que refletir sobre o facto de o FC Porto ser a segunda equipa que menos circula a bola na Champions (pior só o APOEL) e ser a quarta que mais passes falha (curiosamente, Mónaco e Besiktas estão no mesmo top, o que mostra que isso tem sido uma tendência neste grupo).

O FC Porto foi eficaz nas bolas paradas e soube suster as ameaças do Leipzig (José Sá só teve que fazer duas defesas), mas tem tido dificuldade em relacionar-se com a bola na Champions. Ter sido obrigado a mudar de esquema de jogo a frio não ajuda, mas permitir ao adversário ter tanto tempo a bola pode tornar-se complicado se o poderio dos adversários aumentar. E se o FC Porto tiver de facto de passar a jogar em 4x3x3, devido à ausência de Marega, não será possível jogar tantas vezes em profundidade e a tentar explorar a sua dimensão física pelo lado direito. A rever, até porque em breve haverá visita à Turquia e receções a Benfica e Mónaco. 

Do Dragão leva-se o bom resultado e o moral novamente reforçado. Agora importa vencer o Belenenses, antes da pausa para as seleções, que poderá ser útil para recuperar alguns jogadores. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Três alegres africanos

Na época passada, o FC Porto levava 21 pontos em 30 possíveis, era 3º classificado, estava já a 5 pontos da liderança e tinha 19 golos marcados.

Esta época, depois da vitória no Bessa, o FC Porto chegou aos 28 pontos em 30 possíveis, é líder isolado e Aboubakar, Marega e Brahimi, sozinhos, já marcaram 20 golos só no Campeonato, onde o FC Porto revela a maior produtividade ofensiva desde a longínqua época de 1955/56. 

Tendo em conta que Aboubakar e Marega, por razões distintas, tinham sido dispensados na época passada e Brahimi era suplente há um ano, o contexto atual mostra que qualquer paralelismo com o passado é um atestado de qualidade e de rendimento no presente. Sim, três jogadores que há um ano não contavam já levam mais golos do que toda a equipa na época passada. Mérito do seu próprio esforço e, também, de Sérgio Conceição na sua recuperação. 

Brahimi: há um ano levava apenas um jogo a titular até à 10ª jornada
No Bessa não houve uma grande exibição, mas houve uma grande vitória, com assinatura dos três africanos que simplificaram aquilo que poderia ter sido - aliás, que foi - um triunfo suado e saboroso, como mandam as regras dos dérbis. Seguem-se três jogos consecutivos no Dragão, essenciais vencer por diferentes motivos.







Yacine Brahimi (+) - Pouco se viu dele na primeira parte - e o mesmo pode ser aplicável à grande maioria dos jogadores do FC Porto -, mas após o intervalo despertou com a equipa e a equipa despertou com ele. Serviu Aboubakar de bandeja para o primeiro golo e carimbou a vitória com uma boa finalização, entre uma mão cheia de jogadas em que desequilibrou uma defesa sólida do Boavista, que só rasgou nos últimos 10 minutos. Mas fica uma nota: um jogador com a capacidade de Brahimi em receber a bola do lado esquerdo tem que ter capacidade para atirar cruzado com o pé esquerdo, gesto que poderia render mais golos a Brahimi por época. É algo que lhe falta, mas mais importante: não tem faltado Brahimi ao FC Porto.


Aparecer para resolver (+) - Aboubakar e Marega estiveram muito longe de fazer os melhores jogos pelo FC Porto. Passaram quase todo o jogo longe da bola, falharam vários passes, ganharam poucas situações de 1x1 e foram raros os lances em que conseguiram atacar o espaço. Estiveram perdidos entre o facto de a bola não lhes chegar e de não conseguirem ir buscá-la lá atrás. E no meio de uma exibição em que mostraram pouco, acabaram por... resolver. Primeiro Aboubakar, ao desenhar e concluir a jogada do 1x0, mostrando mais ideias em poucos segundos do que toda a equipa nos primeiros 45 minutos; depois Marega, bem servido por Herrera, a transformar uma bicada na bola num remate perfeito em arco, matando o jogo. Num jogo em que fizeram pouco, os dois avançados fazem dois golos e resolvem o jogo. Pouco talvez não seja a melhor palavra. 

Outros destaques (+) - Exibição particularmente sólida de Ricardo Pereira, muito bem defensivamente, num jogo em que teve muito menos liberdade do que Alex Telles para atacar. Não conseguiu ir nenhuma vez ao último terço, quer para cruzar, quer para tentar o movimento interior, mas tudo o que tinha que fazer no seu meio-campo fez bem. Herrera, entre uma ou duas más decisões (particularmente a falta para cartão e a má finalização antes do 2x0), foi subindo de rendimento ao longo da partida, fez uma assistência e justificou a titularidade. Palavra, também, para o rendimento particularmente bom da equipa no jogo aéreo (apenas uma perda de bola comprometedora, por Felipe) e para a grande quantidade de bola dividas ganhas na raça na segunda parte.







Primeira parte (-) - Pois, os dérbis não se ganham nos primeiros 45 minutos, mas foi muito fraquinha a amostra da equipa no primeiro tempo. O critério da equipa de arbitragem não ajudou a tranquilizar a equipa, mas o FC Porto chegou ao intervalo sem um único remate à baliza (o mais próximo disso foi uma tentativa de Corona) e nenhuma ocasião de golo. Daí a dizer que o Boavista merecia estar a vencer é absolutamente hilariante (fizeram apenas um remate), mas o FC Porto mostrou pouco e regressou aos balneários com a certeza de que, assim, não ganharia o jogo. 

Um pormenor (-) - Sim, um mero pormenor. Mas já toda a gente sabe que nos pontapés de saída o FC Porto bate a bola longa para Marega, do lado direito do ataque, para tentar ganhar de cabeça e devolver para a zona central. Talvez não seja a melhor ideia experimentar isto contra uma equipa com defesas matulões na Champions. Tipo, por exemplo, o Leipzig. É que a bolinha é preciosa e não convém deixá-la à mercê adversário à primeira oportunidade. Saídas alternativas precisam-se. E sim, quando há um Machado meramente dedicado ao pontapé de saída, é sinal que o resto está a correr mais do que bem.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Há o desinteresse e há a incapacidade


Marítimo. Outra vez Marítimo. Famalicão. Feirense. Belenenses. Novamente Feirense. Moreirense. Leixões.

Imaginemos, por breves instantes, que isto era uma sequência de oito jornadas da I Liga. Oito jogos, 24 pontos em disputa. E que desses 24 pontos, o FC Porto ganhava apenas três.

Três pontos em oito jornadas. Coisa para um adeus ao título muito precoce, o último lugar no Campeonato, uma demissão mais do que certa da equipa técnica, atestados de insuficiência ao plantel e uma contestação fortíssima por parte da massa adepta. São três pontos em oito jogos.

Felizmente, isto não aconteceu no Campeonato, mas é o saldo do FC Porto nos seus últimos oito jogos na Taça da Liga. Uma Taça que é literalmente feita para os três grandes passarem às meias-finais e na qual o FC Porto não foi capaz de vencer nenhum jogo desde janeiro de 2015, nem a defrontar várias equipas da Segunda Liga pelo meio. Nem na Liga dos Campeões o FC Porto consegue estar tanto tempo sem ganhar um jogo.

Renovando a apreciação feita na época passada, e que recordamos abaixo, isto já não é desinteresse relativamente à Taça da Liga: é uma extrema incapacidade nesta prova. Recordando e renovando a análise da época passada: 

«Este é o 10º ano [agora 11º] de Taça da Liga. Já foi uma competição desvalorizada pelo FC Porto (na verdade começou a sê-lo devido aos maus resultados), mas nos últimos anos tem sido sempre comentada como sendo um objetivo para o clube (não obviamente uma prioridade, mas uma competição para vencer). E a verdade é esta: o FC Porto nunca ganhou a Taça da Liga porque nunca foi suficientemente competente para o fazer. E era o troféu que mais hipóteses o FC Porto tinha de conquistar esta época, na medida em que a competição é curta e o formato altamente favorável para os grandes clubes.  
Ao longo destes 10 anos, o FC Porto ganhou menos de metade dos jogos que disputou na Taça da Liga. Tem uma média de golos marcados de 1,35/jogo (muito pobre, tendo em conta que joga contra adversários teoricamente inferiores), um golo sofrido por jogo, e nos últimos 7 jogos de Taça da Liga o FC Porto não ganhou nenhum e perdeu 5. Isto poderia ser relativizado se o FC Porto assumisse que a Taça da Liga serviria para colocar em cena as segundas linhas e a equipa B. Mas não, foi assumido que era para ganhar. E o desempenho nesta competição não está à altura dos pergaminhos do FC Porto.»

Já ouvimos Pinto da Costa afirmar que o Benfica podia ganhar todas as Taças da Liga, que o presidente do FC Porto não se importaria com tal. Mas desde então, desde NES a Sérgio Conceição, desde Fernando Gomes a Reinaldo Teles, várias figuras do FC Porto passaram a afirmar que a Taça da Liga, não sendo jamais uma prioridade, era/é uma competição para ganhar. 

Essa mensagem não chega ao plantel, não chega aos jogadores. Sim, na Taça da Liga jogam os menos utilizados. Mas não é desculpa, pois se não conseguem ser sérios, competitivos e competentes numa competição feita para que o FC Porto vá às meias-finais, então como poderemos contar nós com eles para o ataque ao título e para a Champions?

É tempo de uma reflexão e de definir/decidir o que anda o FC Porto a fazer na Taça da Liga. Nenhuma vitória em oito jogos, virtualmente três pontos em 24 possíveis. Inadmissível. O FC Porto não ganha esta prova, mas também não a está utilizar para que se possa dizer «a Taça da Liga foi útil para lançar X jogador». Nada. Nem jogadores ganhos, nem jogos. Tudo nesta competição tem sido um desperdício de tempo.

Não há dúvidas que o FC Porto vai dar uma resposta à altura no Bessa, vai lá buscar os três pontos e vai continuar a boa forma no Campeonato, com a determinação e qualidades já demonstradas. Agora, em relação à Taça da Liga? É tempo de encontrar algo mais para fazer do que somar maus resultados nesta prova. Decidam-se.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Primeiras impressões do Relatório e Contas 2016/17

Após alguns dias de espera, chega então a aguardada análise do Relatório e Contas da época 2016-17, que será publicada em várias partes. Começamos pela análise geral, recordando sempre o orçamento desta época. Pela segunda época consecutiva, a SAD do FC Porto falhou nos objetivos propostos e fechou a época financeira com um elevadíssimo prejuízo. Depois dos 58,4 milhões de prejuízo na época passada, os piores resultados da história das SAD em Portugal, desta feita a administração fechou o exercício com 35,3 milhões de prejuízo.

O orçamento da SAD para esta época apontava para um saldo positivo de 2,7 milhões de euros no final da temporada, linhas que a administração não conseguiu cumprir. Esta época ficou marcada por o FC Porto ter sido, na temporada 2016-17, o único clube punido pela UEFA por não cumprir o fair-play financeiro (a SAD anuncia agora ter cumprido o acordo que foi posteriormente feito), possivelmente o ponto mais baixo de 20 anos de atividade da SAD e um mais um sinal que mostra o quão sábia foi esta frase de Pinto da Costa: «Misturar política com futebol dá sempre mau resultado». E nem um apelido de mítico goleador atenua a coisa.

Começando pelas principais rúbricas, os proveitos operacionais estiveram dentro do previsto, na casa dos 98 milhões de euros. O crescimento em relação à última época deveu-se meramente à qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, o que permitiu receitas na UEFA de mais de 30 milhões de euros. Os orçamentos da SAD são sempre de risco, mas bastava o play-off com a Roma ter corrido mal e poderia estar aqui um buraco de mais uma ou duas dezenas de milhões de euros. Felizmente, correu bem. Alguns pontos da rúbrica ficaram acima das expetativas, outros abaixo, mas no final os objetivos foram cumpridos no que aos proveitos operacionais diz respeito. 

Os custos operacionais, por sua vez, foram maiores do que o esperado e atingiram os 121 milhões de euros. O principal destaque vai para os custos com pessoal, que chegaram aos 73 milhões de euros. Por outras palavras, se não tivesse sido obtido o apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões, todas as receitas operacionais do FC Porto talvez não chegavam para pagar os salários. O desequilíbrio continua a ser gritante e a SAD continua assim em défice operacional, embora tenha decrescido de 41,5 milhões para 18,3 milhões de euros.

Os capitais próprios também levaram um golpe em relação ao último ano, ao passarem de 25 milhões de euros para 9,1 milhões de euros negativos. Porém, tendo em conta os interesses minoritários e as respetivas consequências da operação Euroantas, os capitais sociais da Empresa-Mãe chegam quase aos 69 milhões de euros negativos. Negativos. 

O ativo cresceu ligeiramente, atingindo os 378 milhões de euros, mas em contraste temos mais uma subida assinável do passivo, que chegou aos 387 milhões de euros negativos. Em causa está uma subida de mais de 160 milhões de euros de passivo em relação à época do último título conquistado. 

As compras do último exercício serão analisadas de forma mais detalhada num próximo post, mas aqui ficam as compras declaradas pela SAD.


Destaque para a grande curiosidade de um (ou mais, pois não é especificado) jogador ter custado 25 mil euros, mas depois aparecem custos de intermediação/contratação de um milhão de euros. A contratação de Soares foi mais cara do que o inicialmente previsto, de 5,6 milhões de euros pela totalidade do passe, e Galeno custou 1,5 milhões por 75% do passe, tendo sido contratado a um clube controlado pelo empresário António Teixeira. 

Note-se a curiosidade, que deve merecer atenção, de estarem aqui despesas de 50 milhões de euros em jogadores, mas neste momento só um está a ser titular indiscutível na equipa principal, Alex Telles. É também de realçar que a SAD detalha as compras de oito jogadores, mas depois enumera 15 empresários/empresas que receberam comissões de intermediação no momento da compra dos jogadores. 

A venda de André Silva, por sua vez, acaba por gerar uma mais-valia reduzida se tivermos em conta que se tratava de um jogador da formação (os jogadores da formação têm, por norma, mais-valias muito superiores, pois não há amortizações do passe). Neste caso, a mais-valia de André Silva ficou-se por 27,8 milhões de euros. É também de notar que a SAD, além de ter pago 10% a Jorge Mendes pela percentagem que o empresário detinha, ainda foi pagar depois comissão à Gestifute pela transferência. São mais de 10 milhões de euros que se «perdem» no cálculo da mais-valia. A mais-valia de Rúben Neves também acaba por ser quase irrisória, de 12,5 milhões de euros. Estamos basicamente a falar do valor que se pagou pela compra de Boly e Depoitre. Quando os jogadores da formação geram mais-valias mais reduzidas do que os atletas comprados no mercado, algo vai mal. 

O AC Milan e o Wolves também acabaram por conseguir modalidades de pagamento que parecem ser relativamente interessantes. Por exemplo, o clube italiano vai pagar apenas 14 milhões de euros por André Silva no primeiro ano, ficando os restantes 24 milhões para prazo não corrente. O Wolves também só vai pagar 5 milhões de euros por Rúben Neves esta época; quando tiver que pagar as restantes tranches, possivelmente já Rúben Neves terá sido levado por Jorge Mendes para um clube de outras ambições. 

Os empréstimos bancários merecerão também uma análise mais detalhada, mas a SAD continua a antecipar variadas receitas através de contratos de factoring, sobretudo com o já bem conhecido Internationales Bankhaus Bodensee. A dívida corrente da SAD à banca ascende aos 119 milhões de euros, com a dívida total a chegar aos 196 milhões de euros. 

Outra pequena curiosidade. Todos estarão recordados da surpresa que foi o FC Porto ter pago a totalidade do Estádio do Dragão ano e meio antes do previsto, no início de fevereiro de 2017 (ato que a SAD justificou com as elevadas taxas de juro e «contas de garantia associadas»). O R&C revela agora que, no mesmo mês, foi apresentada uma hipoteca do Estádio do Dragão como garantia juntamente do Banco Carregosa (que vai receber um Dragão de Ouro como Parceiro do Ano) na emissão de papel comercial, juntamente com os passes de Danilo, Felipe e verba da transferência de André Silva para o AC Milan. 

Palavra ainda para o contrato de direitos televisivos com a Altice que, como se sabe, só entrará em vigor em 2018. No entanto, a SAD já antecipou uma quantidade bastante significativa, com já mais de 90 milhões de euros entre os 457,5 milhões da totalidade dos contratos. Além do adiantamento que já tinha sido mencionado no anterior R&C, de 56,9 milhões, a SAD recorreu a diversos contratos de factoring para um adiantamento de mais 34 milhões de euros. Era este o contrato que iria «permitir gerir o FC Porto de maneira diferente», disse alguém. Pois. 

Bons desempenhos, até ver, só mesmo dentro das quatro linhas.