quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Porto de Champions

Sexta vitória consecutiva, terceira na Champions e um ponto a separar o FC Porto do objetivo. Ganhar os dois jogos, com sete golos marcados, à equipa do Pote 1 do grupo não só é inédito como significa um passo de gigante para os dragões na competição, com a capacidade de saber encontrar a eficácia nos momentos-chave mesmo entre períodos em que a qualidade não se consegue revelar tanto quanto gostaríamos - ou não estivéssemos nós a falar da Liga dos Campeões.

Certo é que os últimos jogos revelaram um salto qualitativo na equipa, que encontrou novas soluções para chegar ao golo nos palcos europeus e já não depende tanto das bolas paradas para fazer a sua escalada na Champions. Como Sérgio Conceição relembrou (e bem), o FC Porto perdeu Aboubakar, que na época passada fez cinco golos na Champions. O próprio Brahimi, porventura o mais virtuoso jogador do plantel para as noites europeias, resume até à data a sua participação na Champions a uma modesta assistência. Mas tal não impede o FC Porto de ter tantos golos marcados como Lokomotiv, Schalke e Galatasaray até ao momento. 


Num grupo que se podia revelar muito perigoso e traiçoeiro, o FC Porto tem-se distinguido com todo o mérito e está muito perto de atingir todas as metas desportivas e financeiras nesta competição. Mérito total para Sérgio Conceição e o seu grupo de trabalho, naquela que tem sido uma ótima Champions: pontuar fora de casa, ganhar em casa, marcar em todos os jogos. Melhor e mais não se pode pedir. 




Héctor Herrera (+) - Voltou à titularidade, marcou e deu a marcar e já é o 4º médio com mais golos na história do FC Porto na Champions (só atrás de uns tais de Deco, Lucho e Zahovic). O FC Porto evoluiu imenso na sua capacidade de ter bola na Champions, mas o perfil box-to-box de Herrera continua a ser importantíssimo nos grandes jogos, quer na recuperação e pressão sobre os adversários, quer na ocupação de espaços.

Marega (+) - Um momento importantíssimo para o maliano, que se estreou a marcar em jogos grandes à margem de bolas paradas. Não que marcar de grande penalidade (sobretudo tendo em conta o historial recente do FC Porto na marca dos 11 metros) ou na sequência de um canto seja menos importante, mas era uma barreira que separava Marega da eficiência nos grandes jogos. Ainda assim, o melhor momento de Marega na partida nasceu logo ao minuto 2, com uma leitura perfeita na jogada do 1x0 (bem também Maxi), ao criar o espaço entre 3 jogadores do Lokomotiv antes de servir de Herrera. É também um lance que marca o distanciamento do papel dominante de Marega na época passada: desta vez é o maliano a trabalhar para a equipa, em vez de ser a equipa a despejar bolas no avançado. Evolução, de parte a parte.

Fortes nas alturas (+) - Pode parecer um destaque atípico tendo em conta a forma como o Lokomotiv fez o seu golo (já lá vamos), mas Felipe, Militão, Danilo e companhia já merecem este destaque: o FC Porto é a equipa da Champions que mais duelos aéreos vence por jogo, com uma média de 21 por partida, tantos quanto a Roma. Tendo em conta que clubes como o Man. United, o Real Madrid, o PSG ou o Barcelona não chegam aos 13 duelos ganhos por jogo (o que pode não deixar de indiciar mais bolinha pelo chão e menos pelo ar...), é bom ver o FC Porto impor-se nas alturas e ganhar mais bolas do que qualquer adversário.

Soluções (+) - Tanto Corona como Otávio são aquele tipo de jogadores que sabemos que têm muito talento, que podem resolver um jogo numa jogada, mas que também muitas vezes adormecem e alheiam-se do jogo e do seu melhor potencial. Mas o mexicano e o brasileiro voltaram a ter interferência direta no marcador e cada um já teve intervenção direta em sete golos esta época. Mesmo que o melhor 11 não contemple, para já, nenhum deles, ter armas prontas a entrar na equipa que têm golo é algo que faltava na época passada e que não foi adicionado ao plantel numa ida ao mercado. A única esperança era, por isso, que Corona e Otávio acordassem, e os sinais têm sido finalmente animadores.




Modernices (-) - É uma crítica antiga neste espaço, que transcende o FC Porto ou Sérgio Conceição. No futebol moderno, os treinadores desistiram de colocar jogadores a cobrir os postes nos pontapés de canto, em detrimento de poderem povoar mais a grande área, dividindo-se entre marcação à zona e marcação homem a homem. Mas neste caso, o povoamento da grande área não impediu um jogador de 1,78m de cabecear sem grande oposição para o golo. Nem ninguém para evitar o cabeceamento, nem ninguém a cobrir o poste. Para refletir.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

No momento certo

Ganhar 6 pontos em 2 jornadas ao rival direto, logo após uma derrota na Luz, é tão raro quanto satisfatório. Somar 5 vitórias consecutivas, algo que o FC Porto ainda não tinha conseguido em 2018, é igualmente motivador. Mas não é motivo para farfalhar, pois as duas últimas jornadas da Liga se calhar dizem mais sobre a competitividade do Campeonato que temos pela frente do que de eventuais facilidades na luta pelo título. Belenenses e Moreirense tiraram pontos ao Benfica como o fizeram ao FC Porto na época passada, e testemunham o exemplo de um Campeonato em que basta um ou dois jogos para mudar as disposições e motivações dos candidatos ao título, os perfis de favoritismo e a maneira como se olha para a abundância ou falta de soluções no plantel. 


Na Madeira, ao longo de 70 minutos, o FC Porto dividiu-se num misto de paciência e de falta de ideias até desfazer o 0x0. Mas não foi apenas esperar: foi procurar a oportunidade. Foi mexer na equipa com sinais claros de que não era jogo para se empatar, foi ser eficaz nos momentos em que pôde matar o Marítimo, foi saber trancar o jogo e não mais perder o controlo perante uma vantagem de 2x0.




Óliver Torres (+) - Esteve na génese dos dois golos do FC Porto: primeiro, é ele quem senta Bebeto e se liberta da pressão de 3 jogadores do Marítimo antes de lançar Brahimi no corredor; depois, intercetou a bola e lançou a corrida de 50 metros até à conclusão do 2x0. Tudo isto numa exibição em que foi o jogador com mais ações com bola (85), completou 91% dos passes, acertou 11 das 14 bolas longas que tentou e ainda recuperou 14 vezes a posse de bola. Foi a primeira vez que jogou duas jornadas completas consecutivas com Sérgio Conceição e só há motivos para continuar.

Otávio (+) - Entrou, marcou e deu a marcar, tudo isto num espaço de cinco minutos e num jogo no qual o FC Porto não estava a criar ocasiões de golo - e a situação poderia agravar-se pela sempre negativa carga psicológica de desperdiçar uma grande penalidade. Mesmo sem ser sempre regular e consistente, e muitas vezes desligando-se da partida e da equipa, Otávio já leva 6 participações em golos na Liga - o dobro das que conseguiu em toda a época passada. E fica também a nota por a sua entrada para o lugar de Maxi Pereira ter sido uma ordem para puxar a equipa para a frente e para a vitória. Empatar na Madeira numa jornada em que o Benfica perde em casa não seria desdenhado por muitos treinadores, mas Conceição teve ambição e com ela a recompensa mais desejada. 

Trancar o jogo (+) - Tendo em conta que já vimos o FC Porto desperdiçar uma vantagem de 2x0 esta época, foi revigorante ver a equipa gerir e controlar com total tranquilidade o resultado logo após o segundo golo. Calma, circulação no meio-campo adversário e muita segurança na posse - em todo o jogo, só por uma vez o Marítimo conseguiu desarmar um jogador do FC Porto no meio-campo defensivo. É certo que a equipa madeirense tem-se revelado muito pobre em termos ofensivos (tem o pior ataque da Liga), mas controlo foi a palavra dominante na equipa.




Com vista a Braga (-) - Noite quase para esquecer para Soares. Arrancou uma falta para grande penalidade e teve um toque precioso na jogada do 2x0 (bem também Marega no lance), mas ao longo dos 74 minutos em que esteve em campo poucas vezes conseguiu entrar no jogo. Falhou 5 dos apenas 9 passes que tentou, perdeu 8 dos 10 duelos que disputou e teve uma única tentativa de remate, à figura. Não estará com a equipa na receção ao Lokomotiv, mas é essencial que Soares esteja ao melhor nível na receção ao SC Braga, equipa que ainda não sabe o que é perder esta época.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Óliver: era isto que faltava?

A exibição - melhor, os números da exibição - de Óliver frente ao Feirense tem feito correr muita tinta. E bem, essencialmente pelo desempenho a nível defensivo. O que levanta a questão: é isto que separava o médio espanhol de um papel mais regular nas escolhas de Sérgio Conceição?

Os 11 desarmes de Óliver frente ao Feirense são números que surpreendem, sobretudo quando temos em conta que nenhum outro jogador portista conseguiu mais de dois. Mas não basta olhar para a soma: é preciso ter em conta as zonas em que Óliver interveio. E esse aspecto é ainda mais relevante:


Dos 11 desarmes de Óliver, nove foram conseguidos no meio-campo do FC Porto. Ou seja, não é como se isto fosse resultado de uma linha de pressão muito alta e de erros forçados sobre a saída de bola do Feirense (equipa que ainda vai tirar pontos aos grandes esta época): foi o médio em momentos de recuperação, a ter que recuar, a ter que ir atrás da redondinha. Passou por uma missão sempre idealizada para os médios do FC Porto: fazerem o maior trabalho possível para dispensarem os centrais da missão defensiva.

E repare-se que, em apenas 90 minutos, Óliver fez mais desarmes (11) do que aqueles que Felipe leva em oito jornadas completas (10), quase tantos como Alex Telles (12) e tantos, por exemplo, como Militão e Danilo juntos até ao momento. Foi um jogo atípico, Óliver não vai fazer 11 desarmes todos os jogos (Ricardo e Sérgio Oliveira foram os melhores da época passada, com 3,9 desarmes/90 minutos), mas foi também um ótimo indicador sobre quiçá a única coisa que poderia faltar aos olhos de Sérgio Conceição: mais agressividade, mais trabalho de recuperação, mais jogo sem bola. 

O raio de ação de Óliver também foi particularmente amplo, tendo vencido 17 dos 21 duelos que disputou (momentos de desarme, de drible, de disputa de bola), completado 83% dos passes que tentou e acertado 4 de 6 passes longos. E ainda se enquadrou duas vezes para o remate à entrada da grande área, numa exibição completa.


Mas agora vem uma dor de cabeça. Sérgio Conceição dificilmente prescindirá de manter dois avançados na frente. A ausência de um verdadeiro homem-golo no plantel, um ponta-de-lança capaz de jogar sozinho e ser simultâneamente apoio e referência no ataque, contribuindo para todos os momentos no jogo, faz com que não abdique de manter dois homens na frente. E é também interessante observar todas as zonas de intervenção de Soares e Marega (ver gráfico abaixo), de grande amplitude em todo o meio-campo adversário. Ora, com um único avançado, não há hipótese de preencher todo este espaço.

Zonas de intervenção e de remate de Marega e Soares
Portanto, a permanência de Óliver Torres no 11 titular poderia ter que significar a manutenção de Herrera no banco de suplentes, algo que dificilmente acontecerá, sobretudo nos jogos de maior exigência. A metamorfose para o 4x3x3 com Marega a jogar pela direita será sempre uma opção a ter em conta (quiçá já para o curto prazo), mas doravante desfaz-se, pelo menos, um mito: que ninguém volte a justificar a ausência de Óliver no 11 por falta de agressividade. 

domingo, 21 de outubro de 2018

O orçamento do FC Porto para 2018-19

Começamos por uma curta viagem ao passado. Na apresentação das contas de 2015-16, Fernando Gomes, responsável financeiro da SAD, afirmou: «Os custos têm subido de forma abrupta. A SAD quer conter e tomar um novo rumo».

Um novo rumo, dizia Fernando Gomes, que definiu os seus objetivos: «Inflacionámos os salários para além do razoável. Em 2013/14 os salários do plantel eram de cerca de 40 milhões de euros e hoje são de 75. Entendemos que devemos conter e reduzir».

O administrador da SAD definiu, por isso, um plano: no espaço de 3 anos, a folha salarial do FC Porto iria baixar para 55 milhões de euros. Foi isto que Fernando Gomes traçou como objetivo, realçando que, numa primeira fase, o plano passava por «reduzir 20 milhões em salários nos próximos dois anos».

Os objetivos de Fernando Gomes (jornal O Jogo, 12-10-2016)

Cumpridas as épocas de 2016-17 e 2017-18, é tempo de observar o orçamento da SAD para a época 2018-19. O tal em que Fernando Gomes apontava para uma grande redução salarial e que baixaria os custos com o plantel para os 55 milhões de euros. 

O FC Porto terá, nesta época, a folha salarial mais alta da sua história, ultrapassando pela primeira vez os 80 milhões de euros. Depois da época de contenção que foi a mais cara da história do FC Porto, a folha salarial é elevada para os valores mais altos de sempre.


Os custos operacionais do FC Porto ascenderão, assim, aos 135,5 milhões de euros, cerca de dois milhões acima dos resultados de 2017-18. A folha salarial do plantel chega aos 81,7 milhões de euros quando, segundo as expetativas de Fernando Gomes, deveria nesta altura estar a caminho dos 55 milhões de euros - a não ser que esteja a contar com uma debandada em junho para baixar a folha salarial abruptamente. E continuamos sem descobrir onde é que está a poupança de 20,8 milhões de euros que o administrador diz ter sido feita com a «limpeza» do plantel da época passada. 

Os Fornecimentos e Serviços Externos, por sua vez, continuam na casa dos 43 milhões de euros, mantendo esta rubrica praticamente inalterada e sem perspetivas de descida. 

Em relação aos Proveitos Operacionais, a SAD estima os mais altos de sempre: 156,7 milhões de euros, essencialmente graças ao enorme aumento dos prémios da UEFA, com receitas de 67,15 milhões de euros (está novamente previsto o apuramento para os oitavos-de-final da Champions), e ao novo contrato de direitos televisivos - é a primeira vez em que entra oficialmente no exercício o contrato com a Altice, por isso as receitas televisivas rompem a barreira dos 40 milhões.


É de recordar que o contrato com a Altice ascende a 457,5 milhões de euros, por um período de 10 anos, e tecnicamente entrava em vigor apenas a 1 de julho. Mas a SAD já antecipou - e muito - dezenas de milhões de receitas deste acordo.

Há um ano, a SAD já tinha antecipado mais de 90 milhões de euros, através de vários contratos de factoring com empresas de crédito estrangeiras. No entanto, o R&C da época 2017-18 revelou que, em abril/maio, a SAD antecipou uma enorme fatia dessas receitas com mais dois contratos de factoring: nada mais, nada menos do que 111 milhões de euros - 11 milhões com a Star Fund e 100 milhões de euros com a Sagasta. Esta operação, de resto, é a principal responsável por o passivo da SAD ter disparado para os valores mais altos de sempre: 464 milhões de euros. Quando estes contratos de factoring terminarem (o acordo com a Sagasta termina em 2023), os valores envolvidos serão eliminados do passivo.

O Tribunal do Dragão, na análise do R&C de 2016-17

Importa reconhecer que antecipar receitas é uma prática corrente e natural em clubes de futebol, em que há despesas contínuas e mensais mas as receitas não são geradas da mesma forma. Mas coloquem simplesmente isto em perspetiva: o FC Porto já «antecipou» mais de 200 milhões de euros de um contrato de direitos televisivos que, tecnicamente, teve o seu início oficial apenas em julho.

Um contrato de 457,5 milhões de euros, a 10 anos, que oficialmente entrou em vigor há menos de 4 meses e do qual a SAD já «puxou» cerca de 200 milhões de euros. Há momentos em que nem vale a pena acrescentar mais nada e basta espelhar apenas os números, que falam por si. Mas em 2016 Fernando Gomes explicara para onde seria canalizada a receita dos direitos televisivos: «De resto, a ideia é que este dinheiro não vá para reforços, porque para isso o FC Porto gera recursos suficientes. Iremos baixar custos, pagar dívida e ter uma gestão mais sã». Confere?

Ainda nas Receitas, a SAD confirma que as receitas de gestão e exploração do Corporate Hospitality passam a ser consideradas na Publicidade e Sponsorização, mantendo-se assim na casa dos 22-23 milhões de euros, à imagem das duas últimas épocas. De realçar ainda que a SAD aponta para as maiores receitas de bilheteira no Dragão, com uma verba estimada em 9,3 milhões de euros. 

O grande crescimento dos Proveitos Operacionais permite que após várias épocas de enormes buracos, a SAD estime finalmente resultados positivos sem custos com passes. Nas últimas quatro épocas, por exemplo, a SAD orçamentou sempre prejuízos operacionais, que foram dos 18 aos 25 milhões de euros. Mas desta vez, pelo grande crescimento nas receitas, a expetativa é de um resultado favorável de 21 milhões de euros. É certo que a qualificação para a Liga dos Campeões é o que pode ditar a diferença entre um lucro de 20 milhões ou um prejuízo do mesmo valor, e não nos podemos esquecer que há 3 equipas a jogarem declaradamente para um lugar, mas enfim vemos perspetivas de bons resultados operacionais.

Mas chega? Não, não para 2018-19. Pois apesar de ter proveitos operacionais superiores a 150 milhões de euros, a SAD necessita de fazer 34,6 milhões de euros em proveitos com transferências. De recordar que o R&C de 2017-18 não incluía, ainda, as compras de Mbemba e Militão, e que as vendas do FC Porto no exercício de 2018-19 praticamente resumem-se, para já, a Layún, Gonçalo Paciência e João Carlos Teixeira. Portanto, estamos a falar na necessidade de, entre receitas operacionais e resultados com transações de jogadores, «fazer» mais de 185 milhões de euros para pagar a época 2018-19.

Tudo isto para, em junho, terminar a época 2018-19 com um lucro de 1,575 milhões de euros. É esta a proposta da SAD que vai a Assembleia Geral a 8 de novembro.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Pinto da Costa, Herrera e os seis milhões

Saidy Janko é uma daquelas contratações que nos levam a questionar onde estava exatamente o interesse desportivo da SAD no momento do negócio. Foi comprado sem interesse do treinador, sem persetivas de ser solução de equipa A e não tardou em receber guia de marcha.

No momento em que assinou pelo FC Porto, Janko publicou no Instagram uma mensagem em que agradecia à Key Sports Management por terem ajudado a concretizar a transferência. Certo é que no Relatório e Contas da SAD não há qualquer menção de um serviço de intermediação por parte desta entidade. A imprensa desportiva, nomeadamente o jornal Record, chegou a noticiar a intervenção de Paulo Rodrigues e Alexandre Pinto da Costa no negócio, mas o R&C da SAD não esclarece qual foi ao certo o empresário/empresa a lucrar com a transferência de Janko para o FC Porto.

A SAD comprou 80% do seu passe ao Saint-Étienne por 2,25 milhões de euros. E o negócio deve ter sido tão bom para o clube francês que eles nem se terão importado de não terem recebido um cêntimo no momento da concretização do negócio - Janko foi apresentado a 27 de junho mas, segundo a rúbrica de Fornecedores, no final do mês a SAD ainda devia a totalidade da transferência ao Saint-Étienne. 

Certo é que, apesar de Janko não ter ficado no plantel, arrisca-se a ser um jogador que o FC Porto nunca quererá vender. Isto com base na surreal afirmação de Pinto da Costa na apresentação do R&C.

No momento em que Fernando Gomes respondia a perguntas, Pinto da Costa decidiu intervir, em defesa do seu administrador da SAD: «Se o tivéssemos vendido não recebíamos tudo, porque só temos parte do passe [de Herrera]». É a primeira vez que isto aparenta ser um problema. O FC Porto sempre vendeu jogadores sem ter a totalidade do passe nas suas mãos. São já quase duas décadas em que o FC Porto praticava e defendia a política da repartição de passes e da envolvência de investidores/fundos/empresários/terceiros nos negócios.

Agora, subitamente, a venda de Herrera seria um problema, porque o FC Porto não receberia tudo. Ajudem, por favor: digam em que negócio é que o FC Porto alguma vez recebeu «tudo». De A de Alexandre a Z de Zahavi, não há grande negócio feito pelo FC Porto em que não surgisse uma terceira parte a lucrar. E agora, havia problema? Mas porquê? Por serem só 80%? Ou porque os 20% iriam para o Pachuca e não para um empresário parceiro?


Pinto da Costa é capaz de comover uma sala inteira com um discurso e uma eloquência incomuns para alguém com 80 anos, cativando e inspirando uma plateia inteira de portistas em noite de gala, e logo a seguir cometer argoladas destas que não têm o menor tipo de sentido ou coerência. 

Continuando, citando palavra a palavra o presidente do FC Porto: «No caso do Herrera, se tivéssemos vendido ou vendêssemos, só temos parte do passe. Portanto, não era tudo... Se pagássemos o que ele queria para a renovação, que eram 6 milhões de euros, éramos nós que pagávamos tudo, mas se vendêssemos tínhamos que distribuir...»

É uma novidade, e salutar: pela primeira vez, aparenta haver preocupação por ter que «distribuir» o dinheiro da venda de jogadores. Já era hora. Repare-se que, neste mesmo Relatório e Contas, o FC Porto fartou-se de distribuir na venda de Ricardo Pereira ao Leicester: a sua venda foi intermediada pela PP Sports. Quem? Nada mais, nada menos que a empresa que sucedeu à Energy Soccer (mudou de nome em 2017, mas manteve a morada e o mesmo escritório), que ficou celebrizada pela participação de Alexandre Pinto da Costa na empresa e que aparecia frequentemente a intermediar negócios de jogadores que não representava no FC Porto. Além destes serviços de intermediação, o FC Porto pagou uma percentagem ao Vitória de Guimarães e outra à bem conhecida Pacheco & Teixeira. Descontando tudo, o FC Porto recebe de Ricardo Pereira bem menos do que os 80% que receberia de Herrera. Mas aqui não aparentou ter havido problema.


Depois, o valor. Seis milhões de euros. Mas o que é que significa, afinal, pedir seis milhões de euros?

1. Herrera queria 6 milhões de euros de prémio de assinatura?
2. Herrera quer passar a ganhar 6 milhões de euros por ano?
3. A extensão de mais 2 ou 3 anos de contrato custariam mais 6 milhões de euros?
4. Os seis milhões pressupõe prémio de assinatura + aumento salarial?
5. Os seis milhões constituem o prémio de assinatura mais a comissão para os seus representantes?
6. Os seis milhões implicam um novo acordo por direitos de imagem?
7. Há um contrato por objetivos que obriga o FC Porto vender Herrera ou a rever o salário mediante a recusa de X propostas?
8. Este mesmo relatório e contas mostra que a operação de renovação de contrato de Aboubakar custou 5,1 milhões de euros. Não se sentirão outros jogadores no plantel no mesmo direito de ter as mesmas (ou melhores) condições e, até neste caso, entre eles Herrera?

Não sabemos. Pinto da Costa lançou a bomba ao ar e deixou que o tema se dividisse entre adeptos e imprensa, entre discórdia e especulação. O máximo que Pinto da Costa consegue com esta afirmação é colar uma imagem de ingratidão a Herrera e de exigências incomportáveis do ponto de vista salarial. Estamos a falar do capitão do FC Porto, que está na mesma situação que Marcano ou Maxi na época passada, mas Pinto da Costa decidiu que era boa ideia meter isto cá para fora.

Se se cruzarem com qualquer jogador do FC Porto da década de 90, eles dirão isto: «Para Pinto da Costa, o balneário é um templo, é sagrado». O presidente blindava o balneário como poucos, protegia os jogadores, afastava as polémicas. Neste caso, é o próprio presidente quem decide atirar a bomba e deixar que os efeitos se alastrem. O que ganhou com isto? Está à espera que no final da época se culpe Herrera, o pesetero, em vez da administração que se gabou de rejeitar 30 milhões de euros pelo mexicano e que deixou o ativo chegar ao final de contrato? Cada adepto que tire as suas conclusões, mas quem fica a arder são os cofres da SAD.

Já agora. Por que é que só houve aquele desabafo sobre Herrera? Então e sobre Brahimi, nem uma palavrinha? Que tal esclarecer os portistas sobre a lose-lose situation em que o argelino, saia ou renove, implicará um pagamento de 6,5 milhões de euros à Doyen? Só Herrera é que interessa?


Ou então bastava não ignorar que o Relatório e Contas estava literalmente ali ao lado e que é fácil tirar conclusões sobre o porquê da ausência de renovações de contrato. O orgulho de Fernando Gomes em afirmar que a SAD cumpriu as metas da UEFA era tanto que isto quase escapava: a SAD não tinha praticamente margem para renovar contratos na época passada, uma vez que estava no limite da margem autorizada pela UEFA.

O FC Porto não poderia apresentar mais de 20 milhões de euros de prejuízo nos parâmetros definidos pela UEFA. Ficou-se pelos 17,2 milhões. Ou seja, «sobraram» 2,8 milhões de euros. As renovações com Herrera e Brahimi dificilmente ficariam, cada uma, por menos desse preço, pois estamos a falar de jogadores de 28 anos que, após várias épocas em Portugal, pensam naturalmente em contratos mais vantajosos e na possibilidade, talvez única, de jogarem em ligas mais apelativas. 

Mas atenção. Não havia dinheiro para isto, mas houve dinheiro para, em junho, comprar Janko por 2,25 milhões de euros (por 80% do passe) e metade do passe de Rafa, ao Portimonense, por 1,5 milhões de euros - e note-se que Rafa havia sido cedido ao Portimonense em janeiro. Um negócio quase tão maravilhoso como a compra de Ewerton - dispensam Rafa em janeiro para recomprá-lo em junho, mesmo sem que houvesse intenção de Sérgio Conceição em reservar um lugar para ele no plantel (nem integrou o arranque dos trabalhos de pré-época). Só aqui são quase quatro milhões de euros que não serviram o propósito de reforçar o plantel e que, numa época sem grande margem para investimentos, poderiam ter sido muito mais bem usados. Os jogadores e os seus representantes não vivem na ignorância: eles conhecem estes casos e as contas do clube. 

Repare-se que a administração poderia ter aproveitado a oportunidade de realçar a importância que teriam para Sérgio Conceição e para o ataque ao bicampeonato. «Meus senhores, são jogadores importantes para o treinador, para o ataque ao bicampeonato e para as nossas ambições europeias». Mas não. O problema é que a SAD não tem o passe todo de Herrera e que ele pediu seis milhões para renovar - seja lá o que isso signifique.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A época de contenção que foi a mais cara de sempre

Diretos à aguardada análise do Relatório e Contas da SAD do FC Porto relativo à época 2017-18. O FC Porto cumpriu o acordo com a UEFA relativo ao fair-play financeiro? Sim. O FC Porto cumpriu o orçamento relativo à época 2017-18? Não. Porque uma coisa não significa a outra e passamos, por isso, à análise das principais alíneas relativas à época financeira 2017-18.

A SAD apresentou um orçamento que previa um prejuízo de 17,277 milhões de euros. A época 2017-18 acabou com um resultado negativo de 28,444 milhões de euros. Então, como se explica esta diferença de mais de 11 milhões de euros nos resultados da época e, simultaneamente, o cumprimento do fair-play financeiro?

Conforme O Tribunal do Dragão explicou em 2014, num post que já alertava para esta realidade iminente na SAD, a UEFA tem em consideração custos justificados com investimentos em futebol juvenil, infraestruturas e amortizações. Isso ditou que, para efeitos do fair-play financeiro, o FC Porto justifica essa diferença de 11 milhões com despesas autorizadas pela UEFA e, assim, não ultrapassa os 20 milhões de euros de prejuízo.

O orçamento da SAD para a época 2017-18, apresentado em novembro
A forma como Fernando Gomes apresentou estes dados faz esta tarefa parecer algo quase hercúleo, e não uma consequência de ser o responsável financeiro da única SAD/clube a ter sido punido pelo incumprimento do fair-play financeiro em toda a Europa em 2016-17, mas há que esclarecer o que foi ou não cumprido. 

E com isto vamos a um dado que pode parecer atípico, mas que é comprovado pelos números finais: a época 2017-18 foi a mais dispendiosa da história da SAD nos custos operacionais. Sim, numa época de assumida (?) contenção financeira, sem reforços para Sérgio Conceição, com um plantel de remendos, os custos operacionais atingiram o recorde de 133,71 milhões de euros, sensivelmente mais 15 milhões de euros do que o que estava orçamentado. A SAD ultrapassou os custos em 5 das 6 alíneas da rúbrica, com destaque para os fornecimentos e serviços externos e os custos com pessoal.

Custos operacionais foram os mais altos da história da SAD
Os FSE ficaram à beira dos 44 milhões de euros e os custos com pessoal atingiram os 78,8 milhões de euros, tornando esta folha salarial a mais cara da história do clube. 

Fernando Gomes começou por explicar esta parte com esta interessantíssima declaração: «Tínhamos previsto reduzir os Custos com Pessoal e eles subiram por uma questão muito simples: como fomos campeões nacionais, tivemos de pagar prémios ao plantel e à equipa técnica. Isso representou um encargo adicional de 6 milhões de euros, mas ainda bem que o tivemos». Ok, não há adepto que se oponha a pagar por ganhar. Mau é pagar e não se ganhar. Mas vamos por partes.

«Tínhamos previsto reduzidos os custos com pessoal». É verdade, tinham. Face ao orçamento da época passada, a SAD previa uma redução que não chegava aos 100 mil euros. E face aos resultados de 2016-17, a proposta de orçamento apontava para uma redução de perto de quatro milhões de euros. No entanto, Fernando Gomes diz que isto derrapou devido aos 6 milhões de euros que tiveram que ser pagos ao plantel em prémios pela conquista de título (uma prática habitual em todos os clubes, diga-se).

Mas... o orçamento apontava para custos salariais de 69,44 milhões de euros. Mesmo com seis milhões de euros de prémios, não chegam aos 78,8 milhões que aparecem nos resultados finais. E ainda que a diferença possa não parecer a mais significativa, resumir tudo isto ao pagamento dos prémios pela conquista do campeonato parece um tanto superficial. Afinal, na época 2016-17 a SAD previa custos de 69,5 milhões e gastou 73,2. Foi por causa dos prémios de campeão? Em 2015-16, a SAD previa custos de 68,8 milhões e gastou 75,79 milhões. Foi por causa dos prémios de campeão? Isto para dizer que o FC Porto vem de épocas consecutivas em que a folha salarial é maior do que o previsto, mesmo sem ter pago prémios pela conquista do Campeonato durante quatro temporadas seguidas.

E para que não restem dúvidas: mesmo que o FC Porto não tivesse pago prémios pela conquista do título, esta seria a época mais cara da história da SAD, pois os custos operacionais, mesmo sem os 6 milhões de euros de prémios referidos por Fernando Gomes, seriam superiores aos 124 milhões de 2015-16. 

Mas há mais. Recapitulando, a SAD propôs uma redução de 74 mil euros em salários face ao orçamento de 2016-17, de 3,822 milhões face aos resultados do ano passado e acabou com um aumento de 9,35 milhões de euros nos custos com pessoal. Falta portanto perceber em que universo se enquadrou esta previsão feita por Fernando Gomes há um ano:


Voltando a citar o site oficial do FC Porto, Fernando Gomes afirmara: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». Onde é que está a diminuição de 20,8 milhões se a folha salarial atingiu os valores mais altos da história do clube e ficou 9,35 milhões de euros acima do previsto? Foi tudo devido aos 6 milhões de euros que tiveram de pagar em prémios no plantel?

Os Proveitos Operacionais, por sua vez, ficaram acima das expetativas: a SAD previa 98,8 milhões de euros mas atingiu os 105,7 milhões. Quase todas as alíneas tiveram desempenhos positivos, mas a principal diferença vai para a «Publicidade», numa diferenciação que tem marcado os Relatório e Contas das últimas épocas. Acontece que no orçamento o FC Porto apresenta apenas nos proveitos «Publicidade», mas no Relatório e Contas final acrescenta «Sponsorização». Pode parecer idêntico, mas não é. Tanto que o FC Porto tinha apontado para 14,3 milhões e apresentou agora 23,6 milhões. O mesmo exercício da época passada, quando expectava 16,1 milhões e atingiu depois os 22,3 milhões. O porquê exato desta diferenciação é algo que ainda carece de uma explicação mais elaborada do que aquela que um blogue possa apresentar.

Proveitos operacionais tiveram uma evolução positiva e ficaram dentro do orçamentado
Naquele que é sempre o ponto mais delicado da época financeira, a SAD apresentou resultados com transações de passes de 50 milhões de euros, cerca de 5 milhões aquém do que estava previsto. O Tribunal do Dragão publicará posteriormente uma análise mais detalhada sobre os negócios do defeso - coisas curiosas como o porquê de que o FC Porto ter que pagar comissões à Gestifute pela transferência de Boly se o Wolves accionou uma suposta cláusula de compra, ou o porquê de o FC Porto ter comprado (e transferido logo depois) Rafa ao Portimonense por 1,5 milhões de euros depois de o ter cedido em janeiro -, numa altura em que tem sido muito difícil assegurar uma publicação mais regular de conteúdos no blogue, daí o atraso nesta análise e a ausência de algumas crónicas de jogo.

Mas há que destacar esta afirmação de Fernando Gomes face às situações contratuais de Brahimi e Herrera, que se aproximam de uma saída a custo zero (que, no caso de Brahimi, só se for uma sequência de zeros à direita) no final da época. «Para efeitos contabilísticos, é rigorosamente indiferente». Por mais surreal que possa parecer, Fernando Gomes não está a mentir: para efeitos contabilísticos não tem impacto, pois o FC Porto já amortizou as compras dos dois jogadores.

Mas... «Em termos financeiros pode não ser [indiferente], mas isso é outra história». Nesta lógica da batata de Fernando Gomes, todos os jogadores da formação podem sair a custo zero sem problema, pois não há amortização do passe dos jogadores. Em 2019, Danilo Pereira, por exemplo, também poderia sair a custo zero, pois o passe já terá sido amortizado. No ano seguinte Corona já pode sair, e atrás dele podem seguir-se Felipe e Alex Telles, pois o passe já terá sido todo amortizado. É surreal, aliás, um administrador da SAD ignorar que, se não há amortizações de passes, então as mais-valias com vendas de jogadores são maiores!

Tudo o que seja jogadores da formação, contratados a «custo zero» e jogadores com duração contratual já superior àquela prevista no primeiro contrato que assinaram pelo FC Porto podem ir à vida deles, pois em efeitos contabilísticos não faz diferença nenhuma. Agora falta saber como é que o responsável financeiro de uma SAD que depende da concretização de mais-valias para subsistir consegue afirmar isto com cara séria.

terça-feira, 9 de outubro de 2018