segunda-feira, 18 de junho de 2018

Análise 2017-18: os médios

Contrato até 2022
Danilo Pereira - Um dos maiores elogios à época do FC Porto é recordar que a equipa esteve privada durante quase meia época do médio-defensivo, possivelmente o mais importante e valioso jogador no arranque da pré-época. Adaptou-se ao esquema de dois médios de Sérgio Conceição, sem nunca perder a sua preponderância defensiva: nas 19 jornadas em que alinhou na Liga, apenas foi driblado em 5 ocasiões por adversários. Danilo foi também o médio de toda a competição com maior percentagem de duelos ganhos (63%) e de duelos aéreos ganhos (72%). Marcou apenas uma vez na Liga, mas esteve em quatro dos golos do FC Porto na Champions. Estava na calha para a saída no fim da época, mas a lesão obrigou a SAD a rever os seus planos para o médio - e ainda bem para a equipa, que conserva um dos melhores jogadores, profissionais e candidato a integrar o grupo de capitães.

Contrato até 2020
Sérgio Oliveira - A surpreendente escolha de Sérgio Conceição para os jogos grandes estava longe de correr bem, pois entre seis jogos de Champions e clássicos, o FC Porto venceu apenas um com o médio no 11. Mas Sérgio Oliveira acabou por aproveitar o espaço com a lesão de Danilo Pereira para entrar no 11, e por lá se manteve até ao final da época. Esteve a um nível muito elevado em fevereiro, com 3 golos e 2 assistências na Liga, mas apesar da notória evolução esta época continua a faltar a consistência que possa fazer dele um jogador «de época». Ganhou intensidade e já não é apenas o médio que chutava e batia livres, tendo sido o 5º maior criador de ocasiões de golo do FC Porto, mas muitas vezes «desliga-se» do jogo. A continuidade de Danilo e Herrera deve remetê-lo ao papel de alternativa válida para a próxima época, sendo que a sua situação contratual terá que ser revista muito em breve. 

Contrato até 2019
André André - Cumprida a terceira época no FC Porto, é tempo de dizer adeus a André André. Os dois bons meses que realizou com Lopetegui já vão longe e, a caminho dos 29 anos e a uma época do final de contrato, o médio português não apresenta o nível desejado para jogar num FC Porto campeão. Jogou apenas 331 minutos no Campeonato, apenas três vezes como titular, e apesar do apreço mantido pela massa adepta por jogadores portugueses e portistas - sobretudo os não saem nem são vendidos à primeira oportunidade - não faz sentido manter André André no plantel para mais uma época a alternar entre banco, bancada e minutos residuais de jogo. O seu regresso a Guimarães está a ser negociado e resta desejar boa sorte a André André e felicidades futuras, menos nos jogos contra o FC Porto. 

Contrato até 2019
Héctor Herrera - Porquê sempre ele? Foi, por razões óbvias, um dos rostos da conquista do título. Mais do que o golo na Luz, que mudou a história do Campeonato, Herrera distinguiu-se pela forma incansável com que se apresentou jogo após jogo, encaixando na perfeição no papel idealizado por Sérgio Conceição para o meio-campo. No FC Porto, Herrera foi o médio com mais desarmes (83), o 3º principal criador de oportunidades de golo (50) e o médio que mais duelos ganhou (221). Numa época de grande exigência para o mexicano, muitas vezes a ter que trabalhar por dois no meio-campo, destaca-se o facto de ter sido desarmado apenas 22 vezes em 29 jornadas, estatística que contraria a imagem de displicência que tantas vezes lhe foi associada, bem como o facto de ter sido o 3º jogador com mais passes para o meio-campo adversário e o 5º com mais passes no último terço. 

A defender ou a atacar, foi uma época completa e de bom nível de Herrera, que agora levanta questões para o futuro. Aos 28 anos, está a uma época do final de contrato; já atingiu o seu pico de valorização, mas Sérgio Conceição não pode perder meia equipa. Logo, está entre a saída e a possibilidade de passar a ser «mobília», pois dificilmente haverá contexto mais favorável para uma transferência e tão grande estado de graça entre os adeptos. Com Sérgio Conceição, e esta forma de jogar, é essencial que permaneça, mas a grande oportunidade de uma venda pode não voltar a aparecer. 

Contrato até 2021
Óliver Torres - Foi o principal dinamizador do bom futebol praticado pelo FC Porto no início da época, mas deixou de ser opção para Sérgio Conceição, sobretudo quando a aposta em dois médios passou a ser mais declarada. Chegou a ser expectável que pudesse sair em janeiro, a tempo de encontrar uma solução que contornasse a avultada verba que teria que começar a ser paga ao Atlético (a SAD pagou 5 dos 20 milhões de euros no primeiro semestre), mas o espanhol permaneceu na Invicta. Que Óliver tem nos pés futebol e ideias de jogo que não existem em mais nenhum jogador do FC Porto, ninguém pode duvidar; mas que as suas caraterísticas não eram as mais ideais para o meio-campo de Sérgio Conceição, também não. Agora, ou Sérgio Conceição tem um papel ativo para Óliver em 2018-19, ou o seu posicionamento no clube terá que ser revisto. Óliver não pode ser uma mera alternativa, um jogador que vai para o banco ou entra para os 20 minutos finais e que só joga perante a indisponibilidade de um ou dois colegas. Não é um estatuto condizente com o seu custo. Óliver tem que jogar na próxima época, pois um dos maiores investimentos da história do FC Porto não pode estar «parado». As escolhas de Sérgio Conceição não têm que obedecer a durações de contrato ou dinheiro investido, mas o caso de Óliver não pode ser tratado como apenas mais um - de recordar que na informação prestada à CMVM o FC Porto referiu-se à cláusula de compra como sendo opcional, não obrigatória. Óliver tem que jogar na próxima época, seja aqui ou noutro clube, ou pelo menos ser um jogador para o qual Sérgio Conceição terá planos mais ativos, mesmo que isso demore mais alguns meses de trabalho. 

Compra obrigatória
Paulinho - Não conseguiu entrar no «comboio» da equipa e acabou por ter um papel irrelevante na segunda metade da época. Não foi um pedido expresso de Sérgio Conceição, mas tinha caraterísticas que poderiam ter sido úteis ao FC Porto (nomeadamente a forma como coloca bolas em zonas de finalização), sobretudo quando pensamos o quão inconsistentes jogadores como Hernâni, Otávio ou Corona foram sendo. Os três jogadores que chegaram ao FC Porto por empréstimo em janeiro fizeram-lo meramente por contingências no fair-play financeiro, por isso à partida Paulinho fica no FC Porto a título definitivo - a que preço, é a questão, pois é um jogador que tem várias limitações na dimensão física. É demasiado frágil para jogar no miolo do meio-campo, mas não é rápido e explosivo o suficiente para pressionar na frente e dar largura ao jogo do FC Porto. O pior que poderia acontecer é Paulinho ficar no FC Porto não por aquilo que Sérgio Conceição viu nos últimos meses, mas pelo que ficou acordado com o Portimonense em janeiro. Mas tendo em conta que vimos, com Sérgio Oliveira, a grande diferença que pode ser para Sérgio Conceição ter um jogador em janeiro e tê-lo numa pré-época, esperemos que Paulinho se revele reforço e não um fardo

Contrato até 2021
Otávio - Esteve longe da desejada época de afirmação - acabou por ter apenas pouco mais de metade do tempo de utilização da temporada 2016-17. Numa época em que a SAD decidiu reforçar a aposta em Otávio (comprou 15% do seu passe à GE Assessoria, em novembro, por 2,1 milhões de euros - uma verba que se calhar poderia ter desbloqueado uma renovação de contrato bem mais pertinente no plantel...), o brasileiro nunca conseguiu encher as medidas aos olhos do treinador, apesar de ter sido titular na reta final da temporada. Embora não duvidem que Otávio é um jogador de potencial e talento, andou muitas vezes perdido entre a meia direita e a zona central, e acabou por ter mais cartões (5) do que intervenção em golos (3) na Liga. Foi sendo alternativa, curta, num plantel em que a concorrência não deveria ser a mais feroz para o brasileiro. Acabou por fazer melhores jogos em 2016-17 do que nesta temporada. 

É de recordar que Otávio custou inicialmente 2,5 milhões por 33% do passe (a SAD entretanto passou a declarar ter apenas 32,5%). Em outubro de 2016, a SAD comprou mais 20% de Otávio, por 2,9 milhões de euros. E no primeiro semestre comunicou a compra de mais 15%, a troco de 2,1 milhões de euros - e é deveras curioso que a GE Assessoria, uma empresa que tinha apenas 20% do passe de Otávio quando o brasileiro foi negociado para o FC Porto, já conseguiu vender 35% à SAD. Contas feitas, são já 7,5 milhões de euros investidos em Otávio, de quem o FC Porto tem 67,5% do passe, proporção que faz dele um dos ativos mais caros do clube. A aposta em Otávio foi reforçada em época de contenção financeira e de incumprimento do fair-play financeiro, algo que terá que dizer muito da aposta no brasileiro no médio prazo. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Análise 2017-18: os centrais

Saiu a custo zero
Iván Marcano - Um exemplo de sobriedade e maturidade em toda a sua estadia no FC Porto. Chegou com low profile, rapidamente agarrou e justificou o lugar no 11, chegou ao grupo de capitães e despediu-se como campeão, marcando inclusive o último golo da época 2017-18 (na qual fez sete golos e uma assistência). O FC Porto não conseguiu renovar com o espanhol atempadamente e, naturalmente, Marcano tornou-se um alvo cada vez mais apetecível no mercado, a ponto de ter ofertas muito superiores às do FC Porto para prosseguir a carreira. Perto dos 31 anos, seguiu o caminho lógico, mudando-se para Itália e deixando o FC Porto órfão daquele que foi o melhor central da I Liga na última época. Com o aproximar do final do contrato, logicamente que passou a ser cada vez mais «caro» renovar com Marcano. O tempo dirá se a compra de novos centrais para 2018-19 se revelará mais ou menos dispendiosa do que teria sido renovar com Marcano, que faria perfeitamente mais duas épocas de bom nível. Para já despedimo-nos de um profissional exemplar e de um dos bons jogadores do FC Porto da última década.

Contrato até 2021
Felipe - Abençoada a hora em que Sérgio Conceição decidiu mandar o brasileiro para o banco durante uns jogos. Na primeira parte da época, chegou a ser sofrível ver Felipe em alguns momentos. Desconcentrado, desleixado, ultrapassando muitas vezes os limites da agressividade e cometendo uma enxurrada de faltas desnecessárias e em posições comprometedoras. Quando voltou à equipa, em janeiro, surgiu renovado, apesar da comprometedora exibição no Restelo, e partiu para uma série de boas exibições, tendo ainda conseguido tornar-se o 2º central com mais interceções na Liga (80) e o 2º defesa com mais duelos aéreos ganhos (134) - dois dados notáveis quando temos em consideração que o FC Porto foi a equipa que menos teve que defender na Liga. Na próxima época, sem Marcano, Felipe terá que assumir o papel de «patrão» da defesa e a sua responsabilidade será redobrada, tendo em conta que o setor defensivo será o que terá mais alterações na equipa. O Felipe da segunda metade da época tem tudo para dar conta do recado. 

Final de contrato
Diego Reyes - O central mexicano foi comprado ainda em 2012. Nas duas primeiras épocas jogou mais pela equipa B do que pela A, seguiram-se dois empréstimos para Espanha e regressou ao Dragão para ter a sua época de maior utilização, mas ainda assim insuficiente para agarrar-se ao 11. Reyes entrou bem na equipa quando Felipe saiu do 11, teve uma sequência de boas exibições que justificavam a continuidade, mas depois da eliminatória com o Liverpool o central deixou de ser aposta. Reyes chegou ao final de contrato e o seu futuro passa pela saída do FC Porto, numa operação que pode revelar-se particularmente complexa - não esquecer que o passe de Reyes, ainda antes do jogador chegar ao Dragão, foi alienado ao fundo Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi, e neste tipo de acordos os fundos nunca perdem dinheiro. Embora tenha conseguido algumas boas exibições na última época, Reyes teve diferentes treinadores, diferentes (pré-)épocas no FC Porto e, ainda assim, nunca conseguiu ter o estofo necessário para se fixar na equipa. Foi um investimento caro da SAD, mas apesar de ter feito a sua melhor época pelo FC Porto, mesmo com a saída de Marcano o clube prefere recrutar novos centrais no mercado do que tentar a renovação com Reyes. Ficará sempre a impressão de que Reyes poderia ter dado mais, mas foram cinco épocas à espera que se afirmasse - e como dar-lhe a sexta oportunidade implicaria um contrato prolongado, percebe-se que os seus agentes estejam a procurar uma solução longe do Dragão e que a SAD já prepare o futuro nesse sentido.

Contrato até 2022
Osorio - Fez apenas um jogo pelo FC Porto - derrota no Restelo. Não mais voltou a jogar... e foi campeão. Apesar de a contratação de Osorio não ter trazido quaisquer benefícios para 2017-18, no momento do seu empréstimo por parte do Tondela já estava prevista a sua permanência a título definitivo no Dragão. Osorio tem caraterísticas físicas e atléticas muito interessantes, mas no Tondela não mostrou nenhum potencial fora do comum - revelou até muitas dificuldades no jogo aéreo e em aspetos básicos de um central. Fica a dúvida se fica no clube por causa da cláusula de compra obrigatória, ou se Sérgio Conceição acredita de facto no seu valor. Osorio tem tudo o que se pode desejar a nível físico e atlético num central, mas tem basicamente que evoluir em todos os aspectos - marcação, posicionamento, timing de entrada sobre a bola, jogo aéreo. Para já ganhou uma pré-época para mostrar serviço, sabendo que, com as saídas de Marcano e Reyes, é a par de Felipe o único central a transitar de uma época para a outra. Será preciso muito, muito trabalho por parte do venezuelano. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise 2017-18: os laterais

Já transferido
Ricardo Pereira - Talvez o melhor/mais consistente jogador português da I Liga 2017-18. Semana após semana, estivesse o FC Porto num momento mais ou menos positivo, Ricardo manteve uma regularidade e disponibilidade física notáveis ao longo da época. O saldo de golos (2 na Liga) e assistências (5 na Liga, duas na Champions) acaba por ser modesto face à sua influência no ataque. Foi o defesa com mais dribles eficazes da Liga (48 - mais do que qualquer jogador, inclusive os avançados, do Benfica), o 3º jogador com mais desarmes da época (99) e criou 35 ocasiões de golo na Liga, com destaque para o facto de 14 delas terem sido flagrantes (o 2º mais influente no FC Porto). Além disso, foi o jogador do FC Porto com mais ações em campo ao longo da época, com uma média de 79 por partida. Vai deixar saudades, sobretudo tendo em conta que só tivemos Ricardo como lateral-direito praticamente uma época. Mais sobre a saída de Ricardo para o Leicester.

Em final de contrato
Maxi Pereira - Aos 34 anos, o lateral uruguaio conviveu mais do que nunca com o banco na sua carreira e entrou, naturalmente, na parte terminal da mesma. 11 titularidades no Campeonato e duas na Champions representam uma contribuição curta para um jogador com o seu peso salarial. A experiência de Maxi continua a ser apreciada e útil no balneário, e Sérgio Conceição confiou nela em alguns momentos importantes da época, mas numa equipa que depende tanto da profundidade e dos quilómetros dos laterais, o uruguaio, em final de contrato, não parece oferecer condições para «dar» mais uma época inteira como titular. A renovação está a ser discutida como hipótese perante uma baixa no salário, e Maxi tem a seu favor o facto de, com 34 anos, nunca ter tido uma lesão grave e continuar a treinar bem. Mas condições para aguentar uma época do mais alto nível? Dificilmente.

Contrato até 2021
Alex Telles - Quatro golos e 20 assistências para um dos jogadores mais aplaudidos do último ano. Alex Telles teve tudo: evolução, dedicação, capacidade de superação e regularidade, tendo ainda recuperado de uma lesão dura num momento crucial da época. Defensivamente Alex Telles, embora com contribuições mais modestas do que Ricardo, soube sempre cumprir, mas todos sabem que foi no ataque que mais se destacou: foi o recordista de ocasiões de golo criadas na Liga, com 95, que se traduziram em 13 assistências, embora a maior fatia tenha sido em bolas paradas. Foi o jogador com mais cruzamentos eficazes na Liga (41) e disciplinarmente esteve irrepreensível - apenas dois cartões em 30 jornadas. Tem mercado, é o jogador que pode valer mais dinheiro no plantel, mas é intenção do FC Porto segurá-lo. E bem. 

Já transferido
Diogo Dalot - Começou a época na II Liga, foi jogando na Premier League Internacional Cup e na Youth League e em outubro já se tinha estreado na Taça de Portugal, com uma assistência. Curiosamente, foi como lateral-esquerdo que acabou por ter mais espaço, devido à indisponibilidade de Alex Telles, e nunca destoou: assinou duas assistências em seis jornadas da I Liga e esteve à altura no decisivo clássico frente ao Sporting, apesar dos 18 anos. Jogou sempre com uma maturidade acima da média e foi dando provas de que o futuro do FC Porto poderia passar por ele. Entretanto, e como já sabem, Diogo Dalot já fez as malas e foi vendido ao Manchester United, após uma década ao serviço do FC Porto. A sua estadia no plantel principal acabou por saber a pouco, pois havia condições para muito mais. Em tempo e qualidade. Mais sobre a saída de Dalot para o Man. United.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A saída de Diogo Dalot

Esta notícia, publicada na altura pelo jornal O Jogo, tem pouco mais de um ano. Diogo Dalot renovava contrato, ou seria transferido por um valor na ordem dos 20 milhões de euros, a verba da sua cláusula de rescisão.


Um ano depois, o que aconteceu? O que o FC Porto sabia que aconteceria. Se Dalot não renovasse, sairia por 20 milhões de euros - o valor comunicado à CMVM acabou por ser um pouco superior, de 22 milhões de euros, pois a cláusula de rescisão do contrato do lateral português não foi batida.

Quer isto dizer que, para todos os efeitos contratuais, não foi Diogo Dalot a ativar a sua cláusula de rescisão - FC Porto e Manchester United negociaram, isso sim, a transferência do futebolista para Inglaterra, facto esclarecido no comunicado à CMVM: «Chegou a um acordo», escreveu o FC Porto. Ora, quando se batem cláusulas de rescisão, não há negociações nem acordos. 

O FC Porto acaba de transferir aquele que era, neste momento e na ótica da gestão de mais-valias, provavelmente o segundo jogador mais valioso do plantel. Alex Telles é, neste momento, o jogador com mais mercado e de maior valia financeira. De resto, considerando percentagens de passes, percentagens de terceiros, amortizações, mecanismos de solidariedade FIFA e afins, qualquer jogador transferido pelo FC Porto nesta altura dificilmente rende uma mais-valia acima de 20 milhões de euros. 

Por exemplo, no mapa de percentagens de passes divulgado pela SAD no Relatório e Contas do primeiro semestre (que, diga-se, não inclui todos os profissionais dos quadros do clube - apenas aqueles que implicaram investimentos considerados «relevantes» pela SAD), havia apenas 8 jogadores cuja totalidade do passe percente/pertencia à SAD do FC Porto. São eles Aboubakar, Alex Telles, Boly, Soares, Quintero, Layún, Marega e Govea. Entre esses jogadores, Boly já saiu, Quintero está a ser negociado, Layún iria ficar em Sevilha mas o clube recuou na opção de compra e Govea não está no plantel principal. Sobram Alex Telles, Soares, Aboubakar e Marega, mas nem nestes casos os 100% de direitos económicos garantem todo o bolo numa eventual transferência - basta dizer que, caso venda Marega, o FC Porto terá de atribuir 30% da mais-valia ao Vitória de Guimarães.

Por isso, é muito difícil para o FC Porto fazer mais-valias significativas com o elenco atual. No caso de Dalot, é um elemento da formação do FC Porto, não implica amortizações de passes e, salvo alguma operação que se desconheça por parte da SAD, não há percentagens de passes a atribuir a familiares ou empresários próximos. Logo, o valor pago pelo Manchester United corresponderá quase na totalidade à mais-valia.

Por isso, não valerá a pena fingir ou alimentar teorias de que o FC Porto é um enganado ou vítima no meio deste processo. Pelo contrário. A SAD sabia que isto ia acontecer: ou renovava ou Dalot saía. Teve mais de um ano para prolongar o vínculo. Não o fez. 

É de recordar que Dalot renovou em 2016. Na altura não o poderia fazer por mais de 3 épocas, por ser menor de idade. Diogo Dalot completou o 18º aniversário em março de 2017. Desde essa altura já tinha clubes como Bayern, Real e Barcelona à perna. A SAD sabia, devia saber, perfeitamente o diamante que tinha em mãos. 

Deixar prolongar esta situação, depositando as esperanças contratuais em apelos ao portismo e à paciência em que vez de materializar isso em vínculos assinados, roça o amadorismo, não representa a dimensão de uma estrutura que sabe que vive num mercado extremamente competitivo gerido ao ritmo dos milhões. O romantismo é para nós, adeptos, e nos gabinetes não pode ser trocado pelo pragmatismo. 

O mundo do futebol já conhecia Dalot, já sabia a grande promessa que era e é, mas lançar o miúdo em jogos contra Sporting ou Liverpool, sem contrato renovado, era um risco óbvio... mas necessário. Que poderia fazer o FC Porto neste caso? Proibir Sérgio Conceição de utilizar Dalot? Claro que não. O treinador tinha que ser livre nas suas opções, independentemente dos vínculos contratuais. Foi assim com Marcano, com Maxi, com Reyes, com Dalot. Colocámos Dalot numa montra que já era vasta, sem as garantias necessárias com vista à sua permanência. 

E agora? Agora o FC Porto faz um bom negócio naquilo que é o curto prazo e o contexto do fair-play financeiro da UEFA. A venda de Dalot podia não ser o plano A, mas dificilmente alguém na administração do FC Porto ficará incomodado com a verba paga pelo Man. United. Há metas para cumprir, que ainda não estão cumpridas, e a saída de Dalot aproxima a SAD dos resultados que tem que apresentar no fecho de 2017-18 (possivelmente ainda terá que sair mais um jogador - não esquecendo que entre Brahimi e Herrera, ou renovam ou terão que sair neste mercado, caso contrário poderão sair a custo zero).

E conforme foi analisado no post da saída de Ricardo Pereira, o mercado de laterais-direitos não é o mais valioso no futebol mundial. Dalot, com 8 de jogos de equipa principal, passa diretamente a ser o 9º lateral-direito mais caro da história do futebol. A questão é: valeria mais daqui a um ano? Muito provavelmente, sim. E tal como foi comentado aquando da saída de Ricardo, o mercado de laterais-direitos está a ficar mais caro - entre os 10 laterais mais caros do futebol, sete foram transferidos desde 2017.

Mas tal como com Rúben Neves, as necessidades do presente comprometem as possibilidades de tirar maior proveito no futuro. Vale com tudo: com os futebolistas, com as receitas da UEFA, com as antecipações do contrato de direitos televisivos, com contratos de factoring diversos... Antecipar, antecipar, antecipar. É a receita que reina. 

Depois, há o lado do jogador. E pensar que jogador algum no FC Porto ou no Campeonato português recusaria o Manchester United é querer viver numa realidade à parte. Nenhum jogador recusa o Manchester United. Nem Brahimi, nem Herrera, nem Dalot. No passado recente, vimos alguns dos nossos melhores jogadores irem para clubes como Lyon, Marselha, Mónaco, Zenit, Atlético ou até Manchester City. São clubes que, no peso do futebol europeu, não têm mais história do que o FC Porto. Mas têm outros argumentos financeiros, jogam em campeonatos mais atrativos. Então imaginem o que é ter em carteira um histórico como o Manchester United, treinado por José Mourinho.

«Pôs-se a andar à primeira oportunidade», dirão. Pois, mas há um detalhe: normalmente, os miúdos de 19 anos que jogam no FC Porto não têm uma proposta em mãos do Manchester United. Dalot foi um caso à parte: teve-a, não fosse ele talvez o melhor lateral do mundo no seu escalão.

Dalot vai para onde todos querem ir. E o FC Porto não pode esconder que faz um negócio que satisfaz a SAD nas suas metas financeiras e que não pode deixar ninguém surpreendido - afinal, há um ano que sabiam que ou renovavam com Dalot, ou o lateral teria compradores pelo preço da cláusula. De todas as coisas que nos possam surpreender de há um ano para cá, esta deve ser das últimas. A não ser que dê para alimentar a versão de que Carlos Gonçalves, empresário que não é dos mais próximos do FC Porto, e o pai do jogador, um miúdo de 19 anos, conseguiram ludibriar e enganar toda a estrutura da SAD. Era obra. É que se estivesse assim tão difícil renovar com Dalot, Sérgio Conceição não teria assumido, em espaço público, que Maxi e Dalot lhe dariam garantias perante a saída de Ricardo. 

Mais. Passámos toda a época passada a ouvir e a compreender que a SAD estava sob restrições financeiras, que complicaram o ataque ao mercado e renovações contratuais, mas ao ouvirmos o diretor de comunicação a afirmar, e citando, que o FC Porto «podia ter gasto, sem entrar em incumprimento, 63 milhões», mas «não o fez por decisão da administração para equilibrar as finanças», então afinal estávamos todos enganados. Foram 35,3 milhões de euros de prejuízo em 2016-17, e no orçamento para 2017-18 foi definido um prejuízo de 17,27 milhões de euros, mas afinal havia aí pelo meio algumas dezenas de milhões de euros para gastar «sem entrar em incumprimento». 

Jogador satisfeito, SAD satisfeita, sobra o mais importante: os adeptos. E como é natural, não haverá satisfação em vez mais um jovem talento do FC Porto sair do clube de forma tão precoce. Diogo Dalot sai muito cedo, por vontade própria do jogador, mas também o FC Porto não soube salvaguardar os seus interesses. Não é com juras de amor e beijinhos no símbolo: é com contratos assinados. Por isso, a SAD não deveria ter permitido a saída de Ricardo Pereira sem antes ter o futuro de Diogo Dalot 100% assegurado no clube. 

Felizmente, perante um problema surgiu rapidamente a resposta com uma solução, a rápida contratação de João Pedro, e Sérgio Conceição dispõe de uma nova e interessante solução para as laterais. O brasileiro passa a ser presente (e esperemos que futuro), enquanto Diogo Dalot passa a ser passado, numa história que termina sem vítimas ou vilões: Dalot segue os seus interesses e o FC Porto não salvaguardou os seus, pois embora a sua venda represente um encaixe útil e importante para a SAD no curto prazo, não serve nem maximiza os interesses do clube. 

Para terminar. Estarão por certo recordados que a bandeira da candidatura de Pinto da Costa para este mandato foi «um grande centro de formação». Portanto, ao invés de questionar onde está esse projeto anunciado há mais de dois anos e do qual pouco ou nada se sabe, talvez possamos é refletir se valerá mesmo a pena esse investimento, se as pérolas da formação continuarem a sair de forma tão precoce. A não ser que formação deixe de rimar com campeão e passe a rimar somente com milhão. 

domingo, 3 de junho de 2018

O ponta-de-lança invisível

Por motivos já por demais conhecidos, o Marítimo x Benfica de 2015-16 tornou-se o jogo mais comentado do momento. A reportagem da SIC, com testemunhos em discurso direto sobre as abordagens/subornos que foram apresentados a jogadores do Marítimo antes da partida, é matéria sólida nas suspeitas face à forma como o Benfica construiu e concluiu o seu ciclo de tetracampeão. Muito se tem comentado sobre este caso, mas houve uma pequena discussão que merece particular atenção.

Protagonistas: Manuel Queiroz e Rui Pedro Brás. O primeiro começou por referir que achou estranho que Fransérgio tivesse jogado a ponta-de-lança frente ao Benfica. Rui Pedro Brás mostrou-se prontamente indignado, acusando-o de estar a «insinuar qualquer coisa».


O programa avançou e, mais de 15 minutos depois, Rui Pedro Brás voltou ao tema e afirmou que o ponta-de-lança do Marítimo frente ao Benfica foi Djoussé, acusando o colega de painel de querer enganar os telespectadores e defendendo aguerridamente o clube da Luz.

Pois bem. Afinal, quem foi o ponta-de-lança frente ao Benfica? Fransérgio ou Djoussé? A resposta é... nenhum. Recuamos a 2015-16 e vamos observar as áreas de ação dos dois jogadores do Marítimo frente ao Benfica.


Primeiras impressões? Nem um, nem outro jogaram perto do eixo do ataque do Marítimo. Fransérgio jogou sobretudo atrás da linha de meio-campo do Marítimo, com algumas aproximações ao meio-campo adversário pela meia direita (a ação na grande área trata-se do posicionamento nas bolas paradas). No caso de Djoussé, jogou claramente encostado ao flanco direito.

Nem Fransérgio, nem Djoussé. E como curiosidade, vamos ver o posicionamento de outras unidades do Marítimo do meio-campo para a frente.



Que conclusões podemos tirar? O Marítimo não teve um único jogador que se aproximasse do eixo defensivo do Benfica. Zero. Nada parecido com um ponta-de-lança, nada parecido com um avançado. Não houve um único jogador que encostasse perto de Jardel ou Lindelof. Todo o espaço à entrada da grande área do Benfica não existiu para o Marítimo, que fez apenas um remate enquadrado durante todo o jogo.

O posicionamento de Damien é claro: jogou como médio-defensivo e praticamente não passou da linha do meio-campo. Éber Bessa também teve uma exibição com grande raio de ação no meio-campo. Mas depois observamos as zonas de ação de Alex Soares e Edgar Costa e ficamos com a impressão de que estiveram em campo 6 ou 7 minutos e foram ao banho. 

63 minutos de Alex Soares
A exibição de Alex Soares, que já veio a público afirmar que o Benfica ganhou com justiça e que o Marítimo não fez o suficiente para vencer, foi qualquer coisa de atípico. Em 63 minutos em campo, a sua presença foi praticamente inofensiva. Acertou 5 passes enquanto esteve em campo, só foi a uma bola dividida (estamos a falar do meio-campo, do centro do terreno, onde à partida há mais ação) e, como dá para avaliar pelo heat map, jogou com uma falta de intensidade notória.

Depois temos Edgar Costa, jogador que é representado pela GIC England (empresa que tem como CEO César Boaventura), que jogou pelo lado esquerdo. E repare-se desde logo que o Marítimo não jogou com ponta-de-lança, não jogou com ninguém no eixo central. Quando isso acontece, não é natural os extremos fazerem movimentos interiores e irem eles à grande área? Não é isso que o posicionamento de Edgar Costa e Djoussé sugere. Temos dois extremos que não puxam para dentro e que, se forem à linha, não têm ninguém na grande área para cruzar, pois o Marítimo não avançava no terreno, mesmo em superioridade numérica.

É deveras atípico, restando saber se foi ideia dos jogadores, má execução tática ou simplesmente o plano de Nelo Vingada, um treinador com décadas de futebol português e que, certamente, não terá prazer nenhum em acompanhar as investigações ao desfecho desta partida. Até porque já viu o seu nome ser associado à rede de manipulação de resultados que envolveu o Atlético e cujo relatório da Federbet foi publicado há um ano.

Curiosamente, esta semana Alex Soares comentou, em declarações ao jornal Record, o momento em que o Benfica fez o 1x0, por Mitroglou, no arranque da segunda parte.


Não sabemos se foi iniciativa de Alex Soares comentar este lance ou se se limitou a responder a uma questão da imprensa, mas é deveras curioso que fale do sucedido. E parece que o posicionamento dos jogadores do Marítimo causou mesmo muita confusão pela imprensa desportiva, pois o Record até diz que Alex Soares é «defesa». Dito isto, importa passar um olhar ao lance do 1x0. Resumo completo do jogo aqui.

Mitroglou foge a Patrick; Alex Soares corta a bola e isola o grego
O que aconteceu? Há uma primeira tentativa de remate de Mitroglou. A bola bate em Patrick e sobra para a entrada da grande área, onde apareceu André Almeida. É aqui que aparece Alex Soares, que vai à disputa de bola e acaba por ser o jogador do Marítimo, com um ligeiro toque, a colocar Mitroglou na cara do golo. 

Mas houve mais detalhes neste lance. Primeiro, Patrick faz o corte. A bola sobra para o ressalto. Mitroglou foge para o lado esquerdo e Patrick, ao invés de acompanhar o grego, vai para dentro e aproxima-se da zona de disputa da bola, embora veja que Mitroglou vai ficar isolado. Quem sobra? Edgar Costa. O extremo é um autêntico espectador em todo o lance. Vê que Mitroglou vai isolar-se entre ele e a linha defensiva do Marítimo, mas não se mexe até Mitroglou fazer o golo.

Edgar Costa, afastado do lance, vê Mitroglou a entrar pela esquerda
Como é claro, ninguém pode acusar os jogadores do Marítimo de errarem deliberadamente neste lance, pois estamos a falar de apenas um dos 63 golos que sofreram ao longo da época. Certamente que sofreram golos mais estranhos que este, com fífias maiores. Mas o jogo sobre o qual recaem suspeitas é este. Logo, há que ouvir a defesa dos intervenientes e apurar todas as circunstâncias. Ninguém está a dizer que erraram de propósito, mas num jogo em que há suspeitas de corrupção, são os próprios jogadores que terão interesse em virem a público defender a sua inocência e bom nome.

Mas recordemos o testemunho de um jogador do Marítimo na SIC, quando este afirmou que o Benfica lhe apresentaria um contrato vantajoso caso o jogo corresse bem. Sejamos francos. Como é que o Benfica justificaria esse tipo de negócio? Como é que se compra um jogador que podia até nem ser dos melhores do Marítimo? Não faria sentido nenhum comprar um atleta assim. Mas talvez não fosse preciso comprar.

Para todos os efeitos, houve um ex-jogador do Marítimo que assinou posteriormente pelo Benfica. Mas não foi comprado: foi contratado em final de contrato. Precisamente Patrick, um dos jogadores que surge associado às investigações da PJ face aos atletas do Marítimo que terão sido contactados por César Boaventura.


O Benfica nem se deu ao trabalho de apresentar Patrick aos associados, pois o brasileiro seguiu por empréstimo para o Vitória de Setúbal. Na lista de intermediários publicada pela FPF, é informado que a chegada de Patrick ao Benfica foi feita por intermédio de uma empresa chamada «FOOTBALL ASSESSORIA SERVIÇOS DESPORTIVOS, LDA». Não foi possível encontrar nenhum tipo de informação disponível online com uma empresa com este nome. É primeira vez que aparece no papel de intermediária nas listas publicadas pela FPF.

Mas o mais curioso é ler este trecho do jornal brasileiro Gazeta Online, que fala em duas empresas intermediárias completamente diferentes. O que levanta a questão: que empresa é esta, a Football Assessoria Serviços Desportivos, de nome tão genérico e sobre a qual não há informações online? Terá sido uma empresa criada com o propósito de meter Patrick no Benfica? Ou são tão low profile que nem disponibilizam informação online?


Voltando ao princípio. Fransérgio. Acabou por ser expulso já perto do final, por acumulação de cartões, na tal exibição em que o suposto ponta-de-lança jogou a maioria do tempo atrás da linha de meio-campo. Mas aparentemente o Benfica gostou da exibição, a avaliar por esta capa do jornal Record...

Falta saber do que gostou mais do Benfica: se do rendimento de unidades como Patrick ou Fransérgio, ou da grande exibição do ponta-de-lança invisível. 

sábado, 2 de junho de 2018

Análise 2017-18: os guarda-redes

Iker Casillas - Muito simples. Se Iker não tivesse regressado à baliza, o FC Porto muito provavelmente não teria chegado ao título. Porque ter Iker entre os postes não era apenas ter o melhor guarda-redes do FC Porto em campo: era ter estofo, experiência, voz de comando e saber dar confiança à sua defesa. 

Contrato até 2019
Já todos sabem que os guarda-redes do FC Porto são muito menos expostos a remates dos adversários do que os demais da Liga - por isso não importa saber quantas defesas fazem, mas sim a sua percentagem de aproveitamento. E nesse caso, Iker foi o guardião com mais percentagem de remates travados na Liga - 78,3%, ligeiramente acima de Rui Patrício (77,8%). E Iker Casillas melhorou, pois na época passada tinha defendido 75% dos remates e na primeira apenas 70%.

Já com contrato renovado por mais uma época, e com uma redução salarial bastante significativa (embora o FC Porto não pudesse dizer nunca que o espanhol era um jogador caro, pois não foi essa a posição assumida pela SAD no dia da sua chegada), Iker Casillas dá garantias de mais uma temporada na baliza, a nível interno e europeu. E bem, sendo que agora já sabem que têm 12 meses para preparar a sua sucessão - algo para a qual o FC Porto não teria capacidade de resposta interna caso Iker, conforme chegou a estar previsto, deixasse o clube. 

Contrato até 2020
José Sá - Não estava, não está, minimamente preparado para assumir a titularidade na baliza do FC Porto. Sérgio Conceição teve a oportunidade de deixar claro que a sua opção refletia o rendimento nos treinos - e nós, adeptos, não sabemos o que se passa no Olival, logo há sempre essa ressalva. Mas José Sá nunca mostrou ser um fora de série, nem sequer ao longo do seu percurso de formação. Foi dispensado de um Benfica que tinha Bruno Varela como projeto para a baliza, nunca chegou a ser titular indiscutível no Marítimo e tinha apenas um jogo de I Liga pelo FC Porto (derrota contra o Moreirense em 2017) antes de se tornar aposta de Sérgio Conceição.

Não funcionou. José Sá tem 25 anos e, em toda a sua carreira, acumula apenas 31 jogos de I Liga. Pouca experiência, poucas provas dadas. Sempre se revelou um guarda-redes algo permeável (consentiu 41% dos remates que enfrentou no Campeonato), e na Liga dos Campeões foi o segundo pior guarda-redes em prova, com uma percentagem de defesas de apenas 50%. O vendaval de Liverpool acontece uma vez na vida, mas se Munique foi cidade madrasta para Fabiano, Liverpool não poderia ser diferente para José Sá e foi o pretexto para voltar atrás numa aposta falhada.

Como ponto positivo ficam duas boas defesas frente ao SC Braga, no Dragão, e pouco mais. Tem mais dois anos de contrato e não vai evoluir estando no banco, e estando em campo arrisca comprometer. A sua continuidade na próxima época não faz sentido, pois de Beto a Bracalli, foram vários os guarda-redes de qualidade superior e dispensados nas últimas épocas.

Contrato até 2021
Vaná - Na perspetiva de 2017-18, foi uma contratação desnecessária, e o desenrolar da época comprovou-o. O FC Porto não tinha muito dinheiro para gastar, mas o pouco que havia gastou num guarda-redes que passou a maior parte da época na bancada. Estamos a falar de um guarda-redes que nem sequer rodou nas Taças. Jogou apenas no jogo da consagração do título e revelou-se uma pessoa muito divertida ao longo dos festejos, mas ter apenas uma época de Feirense e de I Liga no currículo, aos 27 anos, não oferece grandes perspetivas de futuro. A sombra de Casillas e um papel secundário são o máximo que lhe pode esperar na próxima época - a diferença é que Vaná não chegou a ter a sua oportunidade, enquanto José Sá teve-a e desperdiçou-a. 

Contrato até 2019
Fabiano - O seu papel ao longo de 2017-18 já foi um pouco descrito nos «Bonés» da última jornada da I Liga. O melhor Fabiano é melhor do que o melhor Josá Sá e o melhor Vaná. Mas aos 30 anos, e depois de superar graves problemas físicos, Fabiano está a uma época do final de contrato e é raro ter um guarda-redes que, depois de perder a titularidade, fique no clube para um papel de suplente. É sabido que Sérgio Conceição aprecia as qualidades de Fabiano, algo que pode favorecer o brasileiro na decisão. Para todos os efeitos, estando em forma, é o segundo melhor guarda-redes do plantel principal. Chegará para fazer sombra a Casillas? Ou fará mais sentido que a sombra de Casillas em 2018-19 seja alguém capaz de pegar no seu lugar em 2019-20? Integrar Diogo Costa definitivamente nos trabalhos da equipa A, jogando com regularidade na B e ganhando o seu espaço nas Taças nacionais, é algo a ter em conta, sobretudo porque já renovou até 2022.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A permanência de Iker e a saída de Ricardo

Caminhos opostos para duas figuras importantíssimas na caminhada do FC Porto para o título 2017-18. Iker Casillas fica mais um ano, Ricardo Pereira já assinou pelo Leicester City e torna-se a primeira de várias saídas - umas com mais impacto do que outras, naturalmente - que inevitavelmente terão lugar neste plantel. 

Começando pela renovação de Iker, que aceitou uma redução salarial para permanecer no FC Porto. Não é qualquer atleta que o faz. Embora o guarda-redes seja um futebolista mais do que afortunado, com mais dinheiro do que aquele que possa contar, a verdade é que é comum os futebolistas em final de carreira optarem por um futebol mais periférico para acumularem mais alguns milhões antes da reforma. Casillas, aos 37 anos, trocou isso por mais uma época de FC Porto, mais uma época de Champions, mais uma época a tentar lutar por títulos. 

De qualquer forma, o FC Porto não poderia decidir, ao final do terceiro ano de contrato, que afinal Iker Casillas era caro. Isto já foi explicado neste post. Quando o espanhol foi contratado, em 2015, Pinto da Costa garantiu que Casillas ganhava tanto como Andrés Fernández (que já saiu) e Fabiano (que está longe de integrar a fileira dos mais bem pagos) juntos. A diferença entre ter um grande guarda-redes e dois guarda-redes razoáveis. 


Caso Iker Casillas tivesse saído, a baliza tornar-se-ia um problema, pois não há, no atual plantel, um guarda-redes com o estofo necessário para assumir desde já o posto de número um. Assim, temos guarda-redes para mais um ano, e mais um ano para trabalhar a sucessão, até porque a herança das balizas costuma ser um tema complicado para o FC Porto. Veja-se o exemplo de Vítor Baía: o FC Porto só conseguiu verdadeiramente substituir Baía quando voltou a ir buscar Baía ao Barcelona; e quando o português se retirou, aí sim, o presente estava assegurado com Helton, que já era campeão e internacional brasileiro e tinha já considerável experiência e provas dadas na I Liga. Agora, um guarda-redes que era suplente do atual suplente do Sporting, ou outro que tem uma época de Feirense, são rédeas curtas. 

A continuidade de Iker Casillas é uma boa notícia. Já a saída de Ricardo Pereira, como é natural, não pode ser vista da mesma maneira, pelo menos na dimensão desportiva. E na financeira?

O FC Porto anunciou a transferência por 20 milhões de euros, mais eventuais 5 milhões em variáveis. Como as variáveis por norma são apenas para inglês ver, tanto que as SAD muitas vezes nem se dão ao trabalho de explicar como podem ser atingidos esses objetivos, teremos como referência os 20 milhões de euros. 

Ricardo Pereira, a um ano do final de contrato, sai basicamente pelo mesmo valor de Paulo Ferreira e Bosingwa, um transferido em 2004, outro quatro épocas depois. O mercado de transferências, desde então, inflacionou consideravelmente. Mas poderá o mesmo ser aplicável ao mercado dos laterais-direitos em particular?

Vejamos o top 12 dos laterais-direitos mais caros de sempre:


Desde logo, assinala-se o facto de quatro dos 12 laterais-direitos mais caros da história terem sido transferidos pelo FC Porto. E tirando Dani Alves, não vêem por aqui nenhum nome consagrado do futebol mundial.  O segundo em termos de palmarés será por certo Paulo Ferreira, seguido por Bosingwa.

O mercado de laterais-direitos é, por norma, propício a valores baixos. Mas vemos que a tendência é isso estar a mudar, como são exemplos as transferências recentes de Aurier, Zappacosta, Conti ou Nélson Semedo - nenhum deles é melhor do que Ricardo Pereira e todos eles foram transferidos por valores superiores. 

Por isso, 20 milhões de euros, considerando a qualidade e potencial atuais de Ricardo Pereira, são um número capaz de satisfazer os adeptos em plenitude? Provavelmente não, sobretudo quando tivermos em conta que a mais-valia poderá ser mais bem reduzida.  

Ricardo foi comprado ao Vitória de Guimarães em Abril de 2013, por 1,6 milhões de euros a troco de 80% do passe, mais 100 mil euros de encargos. No último R&C semestral da SAD, o FC Porto anunciou ter 88% do passe do lateral-direito. Na altura da transferência, Júlio Mendes disse que o Vitória de Guimarães ficou com uma parte de uma futura venda, mas não esclareceu se se estaria a referir à percentagem dos direitos económicos ou mesmo a uma futura transferência. 

Por exemplo, o FC Porto tem efetivamente 88% do passe de Ricardo, mas aquando da salgalhada que foi a transferência de Carlos Eduardo e de um dos irmãos Djim para as Arábias (leia-se, o facto de o FC Porto ter permitido/precipitado um negócio quando o Nice tinha direito de preferência sobre Carlos Eduardo) o Nice acabou por ficar com 15% de uma futura venda. 

Ou seja, o Nice não tem, na prática, direitos económicos de Ricardo Pereira, mas tem direito a receber 15% da futura venda do FC Porto. O caso de Marega também é ilustrativo: o FC Porto tem 100% dos direitos económicos do maliano, mas o Vitória de Guimarães tem direito a 30% da futura venda, percentagem que ficou definida aquando da transferência de Soares. 

Agora resta saber: o Leicester é quem paga os 12% do Vitória e os 15% do Nice?; o Leicester é quem paga o mecanismo de solidariedade FIFA?; o Leicester é quem paga as mais do que esperadas comissões pela concretização do negócio? A definição de todas estas parcelas é que ajudará a decidir quão boa - ou menos má - pode ter sido esta venda de Ricardo Pereira.


De qualquer forma, há que considerar ainda o factor «tempo». Sim, o FC Porto é campeão nacional. Mas a situação económica da SAD não mudou. Ser campeão em Portugal, por si só, não dá dinheiro - pelo contrário, acaba por dar é ainda mais despesa, pois a SAD tem que pagar os prémios pela conquista do Campeonato aos jogadores.

Logo, não é o facto de ser campeão em Portugal que melhora a situação financeira - o que permite isso é o factor UEFA, nomeadamente a qualificação direta para a Liga dos Campeões, que a partir de 2018-19 vai multiplicar os prémios e permitir um maior encaixe financeiro (ainda que, em contrapartida, a qualificação para a fase de grupos da Champions e para os próprios 1/8 de final se torne mais complicada de atingir).

Ora, e «tempo» era algo que o FC Porto não tinha no dossier Ricardo Pereira. O lateral ia entrar em final de contrato e a SAD não poderia permitir que um ativo chegasse a janeiro nesta condição contratual (Herrera e Brahimi estão na mesma situação, por isso ou renovam ou saem já). Logo, havia pressa em vender, sobretudo porque a SAD tem metas a cumprir por ter falhado o fair-play financeiro da UEFA. Há quem defenda que o Mundial 2018 poderia ser uma montra, mas sejamos francos; primeiro, não há garantia de que Ricardo seja titular na Rússia; segundo, os clubes interessados passaram uma época inteira a observar Ricardo, logo não haveria de ser por 2 ou 3 jogos num Mundial que iam decidir dobrar as suas propostas.

É de recordar que a SAD orçamentou, para 2017-18, um prejuízo de 17,27 milhões de euros. No final do primeiro semestre, o resultado negativo era de quase 24 milhões. Nos proveitos operacionais definidos a SAD não deverá ter dificuldades em cumprir as principais alíneas, mas há um setor sempre alarmante: os proveitos com transações de passes de jogadores.

Excerto do acordo entre a UEFA e o FC Porto para o FPF
No final do R&C do primeiro semestre 2017-18, a SAD teve proveitos de apenas 8,4 milhões de euros, tendo basicamente tido apenas uma venda relevante - a transferência de Bruno Martins Indi para o Stoke. 

Tendo em conta que a SAD projetava custos operacionais de 19,7 milhões de euros negativos, mais 35,5 milhões de euros em amortizações de passes, o FC Porto teria que registar, em 2017-18, 55 milhões de euros em proveitos com transações de passes de jogadores. Ora, a venda de Ricardo Pereira mantém o FC Porto longe desse valor, por isso podemos esperar que mais um titular possa ser alvo de uma transferência a curto prazo.

Para já despedimo-nos de Ricardo Pereira, com votos de sucesso em Inglaterra, e deixamos uma sugestão para o lugar de lateral-direito. Há por aí um miúdo bem jeitosito, de apenas 19 anos, mas com qualidade para o curto prazo e potencial enormes; anda há meses a ser observado por clubes como Bayern e Barcelona, e apesar de ter pouca experiência de equipa A já houve um clube a acenar com uma proposta bem próxima dos 20 milhões de euros da sua modesta cláusula de rescisão. Chama-se Diogo Dalot. E está também a entrar em final de contrato. Renovar com Dalot colmata, desde logo, a saída de um titular e assegura um lateral de qualidade e portismo inquestionáveis para as próximas épocas. Querem melhor?