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terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise 2017-18: os laterais

Já transferido
Ricardo Pereira - Talvez o melhor/mais consistente jogador português da I Liga 2017-18. Semana após semana, estivesse o FC Porto num momento mais ou menos positivo, Ricardo manteve uma regularidade e disponibilidade física notáveis ao longo da época. O saldo de golos (2 na Liga) e assistências (5 na Liga, duas na Champions) acaba por ser modesto face à sua influência no ataque. Foi o defesa com mais dribles eficazes da Liga (48 - mais do que qualquer jogador, inclusive os avançados, do Benfica), o 3º jogador com mais desarmes da época (99) e criou 35 ocasiões de golo na Liga, com destaque para o facto de 14 delas terem sido flagrantes (o 2º mais influente no FC Porto). Além disso, foi o jogador do FC Porto com mais ações em campo ao longo da época, com uma média de 79 por partida. Vai deixar saudades, sobretudo tendo em conta que só tivemos Ricardo como lateral-direito praticamente uma época. Mais sobre a saída de Ricardo para o Leicester.

Em final de contrato
Maxi Pereira - Aos 34 anos, o lateral uruguaio conviveu mais do que nunca com o banco na sua carreira e entrou, naturalmente, na parte terminal da mesma. 11 titularidades no Campeonato e duas na Champions representam uma contribuição curta para um jogador com o seu peso salarial. A experiência de Maxi continua a ser apreciada e útil no balneário, e Sérgio Conceição confiou nela em alguns momentos importantes da época, mas numa equipa que depende tanto da profundidade e dos quilómetros dos laterais, o uruguaio, em final de contrato, não parece oferecer condições para «dar» mais uma época inteira como titular. A renovação está a ser discutida como hipótese perante uma baixa no salário, e Maxi tem a seu favor o facto de, com 34 anos, nunca ter tido uma lesão grave e continuar a treinar bem. Mas condições para aguentar uma época do mais alto nível? Dificilmente.

Contrato até 2021
Alex Telles - Quatro golos e 20 assistências para um dos jogadores mais aplaudidos do último ano. Alex Telles teve tudo: evolução, dedicação, capacidade de superação e regularidade, tendo ainda recuperado de uma lesão dura num momento crucial da época. Defensivamente Alex Telles, embora com contribuições mais modestas do que Ricardo, soube sempre cumprir, mas todos sabem que foi no ataque que mais se destacou: foi o recordista de ocasiões de golo criadas na Liga, com 95, que se traduziram em 13 assistências, embora a maior fatia tenha sido em bolas paradas. Foi o jogador com mais cruzamentos eficazes na Liga (41) e disciplinarmente esteve irrepreensível - apenas dois cartões em 30 jornadas. Tem mercado, é o jogador que pode valer mais dinheiro no plantel, mas é intenção do FC Porto segurá-lo. E bem. 

Já transferido
Diogo Dalot - Começou a época na II Liga, foi jogando na Premier League Internacional Cup e na Youth League e em outubro já se tinha estreado na Taça de Portugal, com uma assistência. Curiosamente, foi como lateral-esquerdo que acabou por ter mais espaço, devido à indisponibilidade de Alex Telles, e nunca destoou: assinou duas assistências em seis jornadas da I Liga e esteve à altura no decisivo clássico frente ao Sporting, apesar dos 18 anos. Jogou sempre com uma maturidade acima da média e foi dando provas de que o futuro do FC Porto poderia passar por ele. Entretanto, e como já sabem, Diogo Dalot já fez as malas e foi vendido ao Manchester United, após uma década ao serviço do FC Porto. A sua estadia no plantel principal acabou por saber a pouco, pois havia condições para muito mais. Em tempo e qualidade. Mais sobre a saída de Dalot para o Man. United.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A permanência de Iker e a saída de Ricardo

Caminhos opostos para duas figuras importantíssimas na caminhada do FC Porto para o título 2017-18. Iker Casillas fica mais um ano, Ricardo Pereira já assinou pelo Leicester City e torna-se a primeira de várias saídas - umas com mais impacto do que outras, naturalmente - que inevitavelmente terão lugar neste plantel. 

Começando pela renovação de Iker, que aceitou uma redução salarial para permanecer no FC Porto. Não é qualquer atleta que o faz. Embora o guarda-redes seja um futebolista mais do que afortunado, com mais dinheiro do que aquele que possa contar, a verdade é que é comum os futebolistas em final de carreira optarem por um futebol mais periférico para acumularem mais alguns milhões antes da reforma. Casillas, aos 37 anos, trocou isso por mais uma época de FC Porto, mais uma época de Champions, mais uma época a tentar lutar por títulos. 

De qualquer forma, o FC Porto não poderia decidir, ao final do terceiro ano de contrato, que afinal Iker Casillas era caro. Isto já foi explicado neste post. Quando o espanhol foi contratado, em 2015, Pinto da Costa garantiu que Casillas ganhava tanto como Andrés Fernández (que já saiu) e Fabiano (que está longe de integrar a fileira dos mais bem pagos) juntos. A diferença entre ter um grande guarda-redes e dois guarda-redes razoáveis. 


Caso Iker Casillas tivesse saído, a baliza tornar-se-ia um problema, pois não há, no atual plantel, um guarda-redes com o estofo necessário para assumir desde já o posto de número um. Assim, temos guarda-redes para mais um ano, e mais um ano para trabalhar a sucessão, até porque a herança das balizas costuma ser um tema complicado para o FC Porto. Veja-se o exemplo de Vítor Baía: o FC Porto só conseguiu verdadeiramente substituir Baía quando voltou a ir buscar Baía ao Barcelona; e quando o português se retirou, aí sim, o presente estava assegurado com Helton, que já era campeão e internacional brasileiro e tinha já considerável experiência e provas dadas na I Liga. Agora, um guarda-redes que era suplente do atual suplente do Sporting, ou outro que tem uma época de Feirense, são rédeas curtas. 

A continuidade de Iker Casillas é uma boa notícia. Já a saída de Ricardo Pereira, como é natural, não pode ser vista da mesma maneira, pelo menos na dimensão desportiva. E na financeira?

O FC Porto anunciou a transferência por 20 milhões de euros, mais eventuais 5 milhões em variáveis. Como as variáveis por norma são apenas para inglês ver, tanto que as SAD muitas vezes nem se dão ao trabalho de explicar como podem ser atingidos esses objetivos, teremos como referência os 20 milhões de euros. 

Ricardo Pereira, a um ano do final de contrato, sai basicamente pelo mesmo valor de Paulo Ferreira e Bosingwa, um transferido em 2004, outro quatro épocas depois. O mercado de transferências, desde então, inflacionou consideravelmente. Mas poderá o mesmo ser aplicável ao mercado dos laterais-direitos em particular?

Vejamos o top 12 dos laterais-direitos mais caros de sempre:


Desde logo, assinala-se o facto de quatro dos 12 laterais-direitos mais caros da história terem sido transferidos pelo FC Porto. E tirando Dani Alves, não vêem por aqui nenhum nome consagrado do futebol mundial.  O segundo em termos de palmarés será por certo Paulo Ferreira, seguido por Bosingwa.

O mercado de laterais-direitos é, por norma, propício a valores baixos. Mas vemos que a tendência é isso estar a mudar, como são exemplos as transferências recentes de Aurier, Zappacosta, Conti ou Nélson Semedo - nenhum deles é melhor do que Ricardo Pereira e todos eles foram transferidos por valores superiores. 

Por isso, 20 milhões de euros, considerando a qualidade e potencial atuais de Ricardo Pereira, são um número capaz de satisfazer os adeptos em plenitude? Provavelmente não, sobretudo quando tivermos em conta que a mais-valia poderá ser mais bem reduzida.  

Ricardo foi comprado ao Vitória de Guimarães em Abril de 2013, por 1,6 milhões de euros a troco de 80% do passe, mais 100 mil euros de encargos. No último R&C semestral da SAD, o FC Porto anunciou ter 88% do passe do lateral-direito. Na altura da transferência, Júlio Mendes disse que o Vitória de Guimarães ficou com uma parte de uma futura venda, mas não esclareceu se se estaria a referir à percentagem dos direitos económicos ou mesmo a uma futura transferência. 

Por exemplo, o FC Porto tem efetivamente 88% do passe de Ricardo, mas aquando da salgalhada que foi a transferência de Carlos Eduardo e de um dos irmãos Djim para as Arábias (leia-se, o facto de o FC Porto ter permitido/precipitado um negócio quando o Nice tinha direito de preferência sobre Carlos Eduardo) o Nice acabou por ficar com 15% de uma futura venda. 

Ou seja, o Nice não tem, na prática, direitos económicos de Ricardo Pereira, mas tem direito a receber 15% da futura venda do FC Porto. O caso de Marega também é ilustrativo: o FC Porto tem 100% dos direitos económicos do maliano, mas o Vitória de Guimarães tem direito a 30% da futura venda, percentagem que ficou definida aquando da transferência de Soares. 

Agora resta saber: o Leicester é quem paga os 12% do Vitória e os 15% do Nice?; o Leicester é quem paga o mecanismo de solidariedade FIFA?; o Leicester é quem paga as mais do que esperadas comissões pela concretização do negócio? A definição de todas estas parcelas é que ajudará a decidir quão boa - ou menos má - pode ter sido esta venda de Ricardo Pereira.


De qualquer forma, há que considerar ainda o factor «tempo». Sim, o FC Porto é campeão nacional. Mas a situação económica da SAD não mudou. Ser campeão em Portugal, por si só, não dá dinheiro - pelo contrário, acaba por dar é ainda mais despesa, pois a SAD tem que pagar os prémios pela conquista do Campeonato aos jogadores.

Logo, não é o facto de ser campeão em Portugal que melhora a situação financeira - o que permite isso é o factor UEFA, nomeadamente a qualificação direta para a Liga dos Campeões, que a partir de 2018-19 vai multiplicar os prémios e permitir um maior encaixe financeiro (ainda que, em contrapartida, a qualificação para a fase de grupos da Champions e para os próprios 1/8 de final se torne mais complicada de atingir).

Ora, e «tempo» era algo que o FC Porto não tinha no dossier Ricardo Pereira. O lateral ia entrar em final de contrato e a SAD não poderia permitir que um ativo chegasse a janeiro nesta condição contratual (Herrera e Brahimi estão na mesma situação, por isso ou renovam ou saem já). Logo, havia pressa em vender, sobretudo porque a SAD tem metas a cumprir por ter falhado o fair-play financeiro da UEFA. Há quem defenda que o Mundial 2018 poderia ser uma montra, mas sejamos francos; primeiro, não há garantia de que Ricardo seja titular na Rússia; segundo, os clubes interessados passaram uma época inteira a observar Ricardo, logo não haveria de ser por 2 ou 3 jogos num Mundial que iam decidir dobrar as suas propostas.

É de recordar que a SAD orçamentou, para 2017-18, um prejuízo de 17,27 milhões de euros. No final do primeiro semestre, o resultado negativo era de quase 24 milhões. Nos proveitos operacionais definidos a SAD não deverá ter dificuldades em cumprir as principais alíneas, mas há um setor sempre alarmante: os proveitos com transações de passes de jogadores.

Excerto do acordo entre a UEFA e o FC Porto para o FPF
No final do R&C do primeiro semestre 2017-18, a SAD teve proveitos de apenas 8,4 milhões de euros, tendo basicamente tido apenas uma venda relevante - a transferência de Bruno Martins Indi para o Stoke. 

Tendo em conta que a SAD projetava custos operacionais de 19,7 milhões de euros negativos, mais 35,5 milhões de euros em amortizações de passes, o FC Porto teria que registar, em 2017-18, 55 milhões de euros em proveitos com transações de passes de jogadores. Ora, a venda de Ricardo Pereira mantém o FC Porto longe desse valor, por isso podemos esperar que mais um titular possa ser alvo de uma transferência a curto prazo.

Para já despedimo-nos de Ricardo Pereira, com votos de sucesso em Inglaterra, e deixamos uma sugestão para o lugar de lateral-direito. Há por aí um miúdo bem jeitosito, de apenas 19 anos, mas com qualidade para o curto prazo e potencial enormes; anda há meses a ser observado por clubes como Bayern e Barcelona, e apesar de ter pouca experiência de equipa A já houve um clube a acenar com uma proposta bem próxima dos 20 milhões de euros da sua modesta cláusula de rescisão. Chama-se Diogo Dalot. E está também a entrar em final de contrato. Renovar com Dalot colmata, desde logo, a saída de um titular e assegura um lateral de qualidade e portismo inquestionáveis para as próximas épocas. Querem melhor? 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A obra completa de Conceição

Há três anos, numa entrevista de Pinto da Costa ao El País, uma agora célebre frase ficou marcada. «Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar». Uma declaração na altura infeliz, por desvalorizar aquilo que foi o trabalho dos últimos treinadores campeões pelo FC Porto (AVB e Vítor Pereira), mas que agora pode ser parafraseada face àquele que é o desfecho da época 2017-18.

Com Sérgio Conceição como treinador, foi o contrário: foi indiferente o plantel que lhe calhou em mãos. Não tinha um Hulk, não tinha um James, não tinha um Falcao. Herdou um grupo de jogadores sem cultura de campeão, a lista de dispensas da época passada, não teve um único reforço na pré-época e nem sequer pôde ter o requisito básico de ter dois jogadores por posição. Sérgio Conceição pegou em tudo isto... e fez uma equipa. Uma equipa que acaba de conquistar um dos títulos mais marcantes da história do FC Porto. Não por marcar o fim de um jejum ao qual as últimas gerações não estão habituadas, mas pelas circunstâncias que rodearam o futebol português nos últimos anos. 


O que acontece nas últimas jornadas tem sempre o poder de mudar a perspetiva sobre como os adeptos olham para o resto da época, mas insiste-se no que foi dito no início da época: esta não foi uma época preparada para ganhar o Campeonato. Não foi. A administração do FC Porto foi a única a ser alvo de uma punição por parte da UEFA por ter violado o fair-play financeiro em 2016-17. Logo, a prioridade ficou clara, embora nunca assumida pela administração: não havia margem para investir, havia que capitalizar os recursos já existentes e a prioridade seria cumprir com as metas da UEFA para evitar males maiores. 

E Sérgio Conceição escolheu encarar isso como o maior desafio. Não chegou ao FC Porto trazendo com ele uma ideia de jogo particularmente sedutora nos clubes por onde passou. Cumpriu objetivos por onde andou, mas sem nunca mostrar um futebol condizente com quem tem que assumir jogos e que não pode jogar para o pontinho. Mas tudo isso ficou à porta do Olival. 

O treinador olhou para o plantel a aplicou-lhe o conceito de jogo possível. Temos bons laterais? Então vamos aproveitar a sua profundidade e projeção ofensiva. Brahimi é o que mais se aproxima de um match-winner no plantel? Tudo bem, vamos metê-lo a tirar um, dois, três do caminho e a tentar o último passe. Herrera não se adapta a jogar em posse? Não faz mal, vai ser box-to-box. Corona, Hernâni ou Otávio são demasiado intermitentes para garantir um 4x3x3? Sem problema, temos avançados fortes e velozes, vamos metê-los a cair em cima da linha defensiva adversária, a massacrar os defesas e a jogar em profundidade. 

Sérgio Conceição não fez ometeles sem ovos. Fez bolos, fez o banquete inteiro. Cometeu erros? Certamente, mas teve a sensibilidade e inteligência de saber quando ou como os podia ou devia corrigir. Iker voltou à baliza; Felipe saiu do 11 quando tinha que sair e voltou quando estava bem para regressar; mudou o meio-campo e a forma de jogar em vez de tentar descobrir um novo Danilo - que não havia - no plantel; pegou em Marega, que pouco mais oferecia do que força e velocidade, e fez com que não precisasse de mais do que força e velocidade para ser o melhor marcador portista na Liga; Soares, que podia ter ido para a China em ruptura com o treinador, foi transformado no melhor «reforço» de inverno. E podíamos continuar a enumerar exemplos que só reforçam um treinador que, perante uma enxurrada de problemas, respondeu sempre com soluções. 

É um título de Sérgio Conceição, do grupo liderado por Sérgio Conceição e de constantes provas de superação. Cumpriu os objetivos na Liga dos Campeões, ficou às portas das finais da Taça de Portugal e Taça da Liga devido às grandes penalidades e garantiu matematicamente a conquista do título de campeão nacional quando ainda faltavam disputar dois jogos. E agora está a uma vitória de bater o recorde de pontos do FC Porto numa Liga a 34 jornadas. Sem exigências, sem queixas, sem desculpas, mas com muito trabalho. 

Haverá muito mais a discutir sobre a construção do plantel e sobre o trabalho de Sérgio Conceição no final da temporada, mas para já é tempo de celebrar o feito deste grande grupo de trabalho, responsável pela alegria de milhões de portistas nas últimas horas. Nem padres, nem missas, nem afins: 2017-18 será sempre a época do FC Porto de Conceição.






Yacine Brahimi (+) - Foi o responsável pelo momento alto da noite no jogo de consagração do título, ao marcar com mestria o 2x0. Além do golo, Brahimi criou mais duas situações de finalização, teve 7 dribles eficazes e totalizou 81 ações com bola. Foi o principal agitador de um jogo em que, admita-se ou não, os efeitos de uma noite de festa não poderiam deixar de se fazer sentir.


Sérgio Oliveira (+) - Jogo com grande disponibilidade para chegar à grande área adversária - apareceu cinco vezes em zonas de finalização para tentar o remate, mais do que Soares, Marega e Aboubakar juntos. Foi dessa forma que conseguiu inaugurar o marcador, numa partida em que teve 89% de acerto no passe e priveligiou uma circulação mais segura e curta. 

Ricardo Pereira (+) - Não estava a brincar quando, no meio dos festejos, alertou que no dia seguinte havia jogo. Para Ricardo, foi como se os três pontos em causa fossem determinantes para a conquista do Campeonato. Aos 90 minutos ainda andava a percorrer todo o corredor com grande fulgor, ele que contribuiu com 13 ações defensivas e reforçou o seu estatuto de jogador com melhor eficácia de desarme no Campeonato (99 em 119 tentativas). Além disso, ainda criou duas ocasiões de golo, uma delas flagrante.

Tempo de celebrar e desfrutar, mas sem esquecer que ainda há um jogo para se disputar, em Guimarães. O FC Porto está a uma vitória de se tornar o clube com melhor desempenho num Campeonato a 34 jornadas. Que a sede de ganhar seja para manter. Por outras palavras: que Sérgio Conceição seja para manter, por muitas e boas épocas!


terça-feira, 1 de maio de 2018

O (pen)último passo

A equipa que saiu do Restelo no 2º lugar, após desperdiçar uma vantagem de cinco pontos, está agora a um empate de se sagrar campeã nacional. Pode acontecer em Alvalade, pode acontecer no Dragão. Um ponto é tudo o que separa do FC Porto de um dos títulos mais marcantes da sua história - pelas circunstâncias da época desde a sua preparação, pelo passado recente, pela defesa da história do clube e, acima de tudo, por todo o trabalho desenvolvido por este grupo desde o primeiro dia. 


Entende-se a euforia pelas circunstâncias que circulam o momento atual, desde a partida para a Madeira, passando pelo golo de Marega e até à receção no Porto, mas ainda ninguém gritou que o Porto é campeão. Pelo contrário, gritam o mesmo desde o primeiro dia: «Eu quero o Porto campeão!».

E ninguém quer mais do que este grupo. Ninguém merece mais do que este grupo. Falta um ponto!




Brahimi (+) - Foi já sem o argelino em campo que o FC Porto chegou à vitória, mas ninguém procurou mais o golo do que Brahimi, de regresso às boas exibições. Conseguiu invariavelmente colar a bola ao pé, ir à linha e procurar o último passe, mas foi sempre difícil encontrar os colegas no meio da floresta de pernas da defesa do Marítimo. Ainda assim criou quatro ocasiões de golo, fartou-se de pressionar e também ajudou na recuperação, com 10 ações defensivas.

Ricardo Pereira (+) - Alex Telles contribuiu mais no ataque (assistência e quatro ocasiões de golo), mas o lateral-direito foi uma autêntica locomotiva ao longo dos 90 minutos. Inteligente a subir, aproveitou bem o espaço nas costas da defesa para, uma, duas, três vezes, aparecer em posição privilegiada para o cruzamento - ainda que tenha pecado neste aspeto. Foi o jogador com mais ações com bola em campo, ganhou 8 dos 10 duelos que disputou e cumpriu com o pouco que teve que fazer defensivamente.

Marega (+) - Marcou o golo da vitória e que deixou o FC Porto a um ponto do título, o que por si só já vale destaque. Mas a principal nota vai para o facto de Marega ter batido o recorde de dribles eficazes ao serviço do FC Porto: seis em seis tentativas. Ganhou a maior parte dos lances que disputou, 9 em 16, algo também acima da sua média habitual, e ainda criou uma ocasião de golo. Há também que reconhecer a eficiência dos números: Marega não marca nos jogos grandes, nem Champions nem clássicos, mas leva 22 golos em 27 jornadas de bola corrida (sem penáltis, Bas Dost tem 21) e arrisca-se a ficar na história como sendo o melhor marcador num dos ataques mais produtivos do FC Porto nas últimas décadas. O Tribunal do Dragão gosta muito de estatísticas, verdade, e estas são a melhor resposta de Marega.


Héctor Herrera (+) - Há algo que nunca poderemos esquecer: o FC Porto perdeu aquele que era, provavelmente, o jogador mais importante do «coletivo» a meio da época, Danilo. Não havia substituto, por isso Sérgio Conceição teve que mudar de esquema. E aí a importância de Herrera redobrou. Teve que jogar e trabalhar por dois. Ajudou a «puxar» o melhor de Sérgio Oliveira e, muitas vezes, tem que compensar/corrigir o colega. Corre, distribui, pressiona, leva cacete, chega à grande área adversária e está sempre a dar soluções aos colegas. É o pulmão esta equipa. E respira Porto. 

A denúncia anónima (+) - Obrigado. É a única coisa a dizer: obrigado. Não sabemos se a denúncia anónima a envolver o guarda-redes do Marítimo partiu do Benfica, de alguém a mando do Benfica, ou de algum benfiquista que não tinha mais nada que fazer. Mas foi essencial para que o FC Porto chegasse à vitória.

Porquê? Sejamos francos: quem é que sabia quem era Amir, o guarda-redes do Marítimo, antes deste jogo? Poucos. Amir era um guarda-redes tranquilo, sem protagonismo, e que estava bem na baliza do Marítimo - com ele, a equipa esteve 12 jogos consecutivos sem perder, e só na visita ao SC Braga sofreu a primeira derrota. O que é que a denúncia anónima fez? Focou todos os holofotes em Amir, algo a que o iraniano não estava minimamente habituado. Amir sentiu a necessidade de corresponder, de mostrar que era íntegro, que ia ajudar o Marítimo a pontuar.

E foi precisamente isso que provocou a correria ao minuto 40, na qual Amir sai da baliza, na tentativa de ser mais rápido do que o ataque do FC Porto e a defesa do Marítimo. Só um guarda-redes com sangue na guelra tenta fazer aquela saída. Só alguém que sente a pressão e que tem algo a provar. Lamentamos, Amir, que tenhas sido o prejudicado no meio disto, mas há que agradecer a quem mexeu com a tua cabeça: se não tivessem intranquilizado e, consequentemente, «expulsado» o guarda-redes do Marítimo, quiçá não estaríamos neste momento a lamentar outro resultado. 




Primeira parte (-) - A derrota do Benfica frente ao Tondela não só retirou pressão ao FC Porto como relaxou, em demasia, a equipa. Primeira parte que até começa com uma boa ocasião para marcar, mas que depois revelou uma equipa frouxa, de pouca intensidade, a criar poucas jogadas de perigo nos últimos 20 metros e pouco interessada em marcar cedo. Otávio nunca conseguiu entrar no jogo, Soares desperdiçou as ocasiões que teve (embora tenha arrancado uma expulsão). Não a jogar para o empate, mas a jogar com o empate na cabeça. Foram 45 minutos de encontro ao rendimento das últimas semanas (dificuldade em fazer golos, sobretudo em bola corrida), algo que teve meramente como exceção a primeira parte frente ao Vit. Setúbal. Não é o melhor momento da época em termos exibicionais, e há que reconhecê-lo; mas é o momento em que os pontos e o resultado valem mais do que a performance. E o título está a um ponto.

Um ponto. Ser campeão em campo é sempre mais saboroso, mas veremos o que acontece em Alvalade. 

Duas notas: faz hoje sete meses que Sérgio Conceição, depois do empate a zero em Alvalade, gritou na roda: «Nós vamos ser campeões!» E foi há uma volta atrás, frente ao Feirense, o próximo adversário no Dragão, que Brahimi, na cara de Fábio Veríssimo, bateu no peito em frente ao árbitro e deixou a promessa: «Nós vamos ganhar!» Dito isto, nomeiem Fábio Veríssimo para a receção ao Feirense. A sério. Ele merece testemunhar aquilo que lhe foi prometido há uns meses.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Cinco antes dos seis milhões

Uma viagem curta aos números. 79 pontos em 31 jornadas. Melhor, em toda a história do FC Porto, só em 1995/96, com Robson, também essa a única época em que os dragões tinham mais golos do que agora (80 contra 78). São bons predicados antes de um dos jogos mais importantes da história recente do FC Porto, a visita ao Marítimo. 

Nos Barreiros, onde o FC Porto não conseguiu vencer nas suas últimas seis visitas, não vão jogar apenas Marítimo e FC Porto: vai jogar também o Benfica, e tudo aquilo que isso implica. É o jogo mais difícil do ano. Aquele em que menos poderemos errar, aquele em que mais teremos que nos dedicar. 

Um Marítimo de qualidade, que joga uma cartada europeia, forte em casa, que faz poucos golos mas amarra bem o jogo e que perdeu apenas dois jogos em 20 nesta temporada. Um Marítimo que vai, certamente, apresentar mais dificuldades do que o Belenenses no Restelo ou o Paços de Ferreira no Capital do Móvel. Cabe ao FC Porto mudar a história. Com inteligência, eficácia, capacidade de sacrifício e o pragmatismo que for necessário. A forma como o Benfica vai entrar em Alvalade dependerá muito da forma como o FC Porto sair da Madeira. 

É só e apenas um jogo determinante na luta pelo título de campeão nacional e na defesa do estatuto de único pentacampeão do futebol português. É apenas a oportunidade que querem e pela qual lutam há cinco anos. É apenas o tipo de jogo em que William Shankly pensou quando criou a sua mais célebre frase.




Alex Telles (+) - Certinho a distribuir (93% de passe), aguerrido e produtivo  a atacar (4 ocasiões de golo), fechou com chave de ouro uma boa exibição com um livre direto daqueles que parecem ser uma raridade no Dragão. Passou a maior parte do jogo a jogar sobre o meio-campo adversário e esteve na génese de mais dois golos do FC Porto. Quando pensamos num jogador que merece ser banhado de aplausos lá para maio, Alex Telles encabeça a lista. 

Ricardo Pereira (+) - Rebentou na segunda parte, ele que vinha sendo talvez o jogador mais incansável dos últimos jogos. Não subiu tanto como Alex Telles, mas foi eficaz quando o fez: assistiu Corona para o 4x1 e ganhou 12 dos 16 duelos que disputou. Cumpriu defensivamente, num jogo também seguro da dupla Felipe-Marcano.

Marega (+) - Um jogo... à Marega. Abriu o marcador com oportunismo e, aos 16 minutos, aguentou toda a pressão da defesa do Vit. Setúbal até conseguir o passe atrasado para Brahimi faturar. Foram os pontos altos de uma exibição em que o maliano voltou a alternar a eficácia com a displicência, tendo perdido 9 dos 12 duelos que disputou e desaparecido da manobra coletiva da equipa após o 3x0, algo explicado por problemas físicos e que levou posteriormente à sua substituição. 

A sua presença física e velocidade continuam a ser determinantes para ajudar o FC Porto a esticar o jogo e a ter profundidade, algo que curiosamente joga muitas vezes contra Marega - acabou o jogo com 4 faltas cometidas e nenhuma sofrida; mas, tem que ser dito, qualquer outro jogador provavelmente teria ido ao chão, para ganhar a falta, antes do lance do 3x0. Marega continuou e já participou em 26 golos na Liga. Falha mais do que os outros, mas também não há ninguém a acertar mais do que ele. 


Segue-se o Marítimo. Vamos facilitar a palestra pré-jogo de Sérgio Conceição: é só colar isto nos balneários. 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primeiro Alvalade, depois o Vit. Setúbal

O clássico continua na próxima segunda-feira, às 20.00, no Estádio do Dragão, frente ao Vitória de Setúbal. Porque nada do que se conquistou ontem à noite na Luz terá valor se o FC Porto não der continuidade a esse resultado já na próxima ronda, frente a um adversário que na temporada passada empatou na Invicta. 

A margem de erro é diminuta e o FC Porto sabe que, vencendo o Vitória de Setúbal e o Marítimo, pode muito bem sentenciar o título na 33ª ronda. Para já, no entanto, nada é mais fulcral e difícil do que bater o Vitória de Setúbal. Isto no que ao Campeonato diz respeito, pois já na quarta-feira há uma final duríssima em Alvalade, frente ao Sporting, contra um adversário que vai ter que atacar desde o primeiro minuto e que, desde novembro, venceu todos os jogos das provas nacionais em casa e sempre sem sofrer golos.

Foi de uma justiça poética que Herrera, a quem foi anulado o legítimo golo da vitória na primeira volta, tenha sido autor do golo que decidiu agora o jogo na Luz. Mas foi difícil, muito difícil. Benfica melhor na primeira parte, FC Porto muito melhor na segunda. Jogo decidido num detalhe, na terceira vez na história do FC Porto em que o golo da vitória frente ao Benfica apareceu ao 90 minutos ou na compensação. Também foi assim com Bruno Moraes e Kelvin, em épocas em que o FC Porto foi campeão por um ponto. Por um ponto se ganha, por um se perde. Daí que nada importe mais, neste momento, do que o Vit. Setúbal.





Ricardo Pereira (+) - Entrou algo nervoso, o que o levou a cometer alguns lapsos defensivos, mas rapidamente se desinibiu e partiu para uma exibição que fez dele o melhor em campo ao longo dos 90 minutos. Cansou só de o ver correr por todo o campo, ora junto ao corredor, ora nos movimentos interiores. Foi responsável por quatro das cinco ocasiões de golo que o FC Porto criou na Luz, duas delas nas quais serviu de bandeja Marega na grande área, além de ter estado perto do golo num remate desviado pelo maliano. 

Foi o jogador em campo com mais ações com bola, 91 no total (o segundo melhor do FC Porto, Alex Telles, teve apenas 62), tendo-se ainda destacado na forma prática como defendeu (10 alívios, 10 bloqueios de passes/cruzamentos/remates). Uma exibição completa, na qual foi ainda o atleta com mais duelos ganhos (14). Fernando Santos estava a ver e só resta mesmo perguntar: como é que este rapaz nunca fez um jogo oficial (não particular, oficial) por Portugal?

Centrais (+) - Não foi o melhor jogo da dupla Marcano-Felipe, mas na visita ao melhor ataque da Liga dificilmente se poderia pedir mais. Marcano e Felipe secaram por completo Raúl Jiménez, estiveram quase sempre bem posicionados defensivamente e, contra uma equipa especialista em arrancar faltas, cada um deles cometeu apenas uma falta em 90 minutos. Jogaram muito mais adiantados no terreno do que, por exemplo, a dupla do Benfica, algo que contribuiu e muito para a subida de rendimento na segunda parte.

Iker Casillas (+) - Se Pizzi aproveitasse aquela oportunidade, quiçá estaríamos, neste momento, preocupados com o Sporting e com o 3º lugar. Iker Casillas apareceu quando foi necessário, com uma intervenção decisiva, e continua sem saber o que é perder com o Benfica ao serviço do FC Porto. Talismã.

Héctor Herrera (+) - Porquê sempre ele? Por exibições assim. Num meio-campo no qual as fivelinhas Otávio e Sérgio Oliveira, sobretudo na primeira parte, sentiram muitas dificuldades, Herrera teve que trabalhar por dois. E não havia Danilo. Foi uma exibição de trabalho do mexicano, que foi quem mais faltas sofreu (6), quem mais passes completou (38), teve 13 ações defensivas e foi o médio com mais duelos ganhos (10). E olhem, resolveu um clássico que inverteu a classificação do Campeonato no minuto 90, a jogar em casa do maior rival. Sérgio Conceição admitiu, um dia, a dúvida: «Um mexicano a capitão do FC Porto?». E não, um mexicano não: mas um jogador à Porto sim. Como Héctor. E obrigadinho por dar uma folga ao TdD por, segundo tantos, defender em demasia Herrera. Hoje lhe têm a agradecer a liderança e um travão ao penta do Benfica.






Primeira parte (-) - Divididos entre o receio e números de circo, foram 45 minutos de fazer arrancar os cabelos. Otávio incapaz de apertar Fejsa e de receber no miolo. Brahimi sempre a pegar na bola demasiado longe e a querer fintar em zona proibida. Soares com mais faltas cometidas do que remates ou jogadas de perigo. Marega novamente a aparecer no sítio certo, mas para falhar as melhores oportunidades. Sérgio Oliveira bem a ganhar no primeiro metro, mas depois a deixar-se entalar entre os jogadores adversários. E gritos, muitos gritos de Sérgio Conceição, que sabia que a coisa não estava a funcionar.

A primeira parte revelou uma vez mais uma equipa com muitas dificuldades em construir. O pouco que a equipa fez nasceu das investidas de Ricardo. Jogadores demasiado distantes uns dos outros, dificuldades em segurar a bola no ataque, bolas em profundidade que não resultavam em nada e imensas dificuldades em progredir em apoio. A segunda parte mudou e, embora o golo de Herrera tenha nascido de um ressalto e se desvie de toda a lógica de um plano tático, há dois detalhes que não se podem desvalorizar: é Óliver quem ganha metros com bola e «puxa» Brahimi, que vai finalmente recolher a bola no espaço interior e, rapidamente, tenta a tabela com Marega. A sorte também se procura, e esta acabou por ser merecida.


Já dissemos que é preciso ganhar ao Vit. Setúbal? Pronto. Mas primeiro vem aí mais um clássico. Duas festas em quatro dias na Luz e em Alvalade seria inédito na história do FC Porto e deixaria a equipa com uma mão na Taça de Portugal. Há semanas piores.  

Um pormenor: Herrera preferiu mostrar o símbolo na frente do que o nome nas costas

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Agora com um final feliz

Quarto clássico da época. Quarta vez em que o FC Porto é superior ao rival. Quarto jogo sem sofrer golos. A primeira vitória, que não deixou de pecar por escassa - e o histórico recente de meias-finais da Taça de Portugal é um exemplo de que um 1x0 em casa não é garantia de nada. Mas quatro clássicos em que o FC Porto parece ser a única equipa a querer assumir-se como grande e a jogar para ganhar, isso sim, é a melhor garantia de que o trabalho desenvolvido por esta equipa está recheado da matéria que faz campeões. 




Ricardo Pereira (+) - Chega a ser irrisório que este jogador nunca tenha feito um jogo oficial pela seleção nacional e que tenha jogado apenas 54 minutos em jogos de preparação. Numa altura em que a fadiga física se faz sentir no plantel, Ricardo continua com uma frescura física invejável e cada vez mais confiante/acutilante no último terço. Galga metros com ou sem bola, garante a profundidade no flanco mas não se inibe ele próprio de explorar o espaço interior. A cobertura defensiva continua a ser a lacuna a corrigir - e podia ter custado caro no minuto 90 -, e pode e deve melhorar os cruzamentos, mas com Ricardo o FC Porto tem, neste momento, um dos melhores laterais da Europa. Alguém se lembra de Danilo?

Sérgio Oliveira (+) - Muita gente - inclusive/sobretudo o treinador - pensou nele como o 3º médio para o 4x3x3 da equipa nos grandes jogos. A verdade é que essa fórmula não estava a funcionar na hora de garantir vitórias. Mas o problema talvez não estivesse no jogador em si, mas sim no seu papel em campo. É no 4x4x2, e numa excelente dupla com Herrera, que Sérgio Oliveira faz os seus 2 melhores jogos com a camisola do FC Porto, ele que não fazia 2 jogos completos seguidos há dois anos - o que não deixa de ser surpreendente, sobretudo por se tratar de um jogador que, no passado recente, nunca dava ares de aguentar 90 minutos e ser pouco intenso. Está mais agressivo, ocupa melhor o espaço e conseguiu assinar o cruzamento para o golo da vitória numa jogada que não é hábito ver o FC Porto fazer (cruzamento do médio antes dos últimos 22 metros). De suplente do Nantes a titular do FC Porto com o mesmo treinador: Sérgio Conceição sabia, de facto, o que estava a fazer. 


Estratégia (+) - Ouvir a conferência de Jorge Jesus no final da partida era entrar numa realidade paralela. O Sporting voltou a ser vulgarizado frente ao FC Porto e completamente anulado naquilo que são os seus princípios - profundidade pelos flancos, bola para a grande área (leia-se, para Bas Dost). O FC Porto secou o adversário pelos corredores e limitou o Sporting a duas ou três investidas do sempre perigoso Gelson Martins. Pouco mais. 

Além disso, a estratégia do Sporting para este jogo pressupunha, com a linha defensiva reforçada, ter mais soluções na saída de bola. Mas não funcionou, pois o FC Porto nunca recuou e soube sempre fechar todos os espaços - Sérgio Oliveira juntava-se a Marega e Soares na linha de pressão, enquanto Brahimi e Corona (bem a colocar as bolas na grande área) fechavam os corredores. Herrera ficava exposto no eixo, mas a equipa nunca se desequilibrou. O Sporting fez 5 remates à baliza do FC Porto em 270 minutos de clássicos. Tudo dito.




Faltou matar (-) - Na época 2013-14, quando o FC Porto venceu o Benfica por 1x0 nas meias-finais, Quintero mandou uma bola ao poste nos descontos. Muitos portistas temeram: «Espero que esta bola não nos faça falta». Fez. Abril ainda vai distante, FC Porto e Sporting atravessarão diferentes momentos de forma até lá e a equipa adversária não poderá apequenar-se como tem feito até aqui. Mas poderíamos, sem dúvida, ter dado já uma machadada na eliminatória, tamanha que foi a subserviência do adversário. O Sporting tentou quanto possível minimizar os estragos e levar a eliminatória para Alvalade, algo que acaba por conseguir. Cabe ao FC Porto ir à procura do golo e obrigar o Sporting a expor-se de uma maneira que não o fez nos três clássicos já disputados. 

Agora o Chaves, equipa que não perde em casa há meio ano. Fica o aviso. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Os Pentas: Janeiro de 2018

Quatro vitórias, dois empates e um sabor agridoce ao cair do pano. O mês de janeiro ficou marcado pelo afastamento da Taça da Liga, que pôs fim a uma série de 10 vitórias consecutivas, e pelo comprometedor empate na visita ao Moreirense - uma igualdade já entretanto redimida no arranque de fevereiro, com o regresso à liderança isolada da I Liga e agora com vantagem reforçada. Para já, ficam os melhores do último mês. 

5. Héctor Herrera

MVP dos quartos-de-final da Taça de Portugal, Héctor Herrera continua longe de ter os melhores números nas zonas de decisão (fez apenas um golo no último mês), mas isso não retira mérito ao seu papel na equipa. Por exemplo, já criou 26 ocasiões de golo no Campeonato, apenas superado por Brahimi e Alex Telles no plantel, e está a apenas dois passes para finalização do seu máximo da época passada. Ainda assim, é no papel de recuperador que mais se destaca, ele que é o jogador do FC Porto com maior média de desarmes e recuperações de posse por 90' no Campeonato. E a eficácia de 86% no passe continua a colocá-lo muito acima da displicência que, muitas vezes, e algumas por culpa do próprio, lhe teimam em associar. 

4. Felipe

É caso para dizer: o mês de dezembro passado no banco fez-lhe muito, muito bem. Depois da enchurrada de erros que vinha cometendo jogo após jogo, e que lhe custou a perda da titularidade para Diego Reyes, Felipe acordou e entrou finalmente numa sequência de boas exibições. Autoritário, forte no jogo aéreo e a inventar menos na retaguarda, assinou a vitória na visita ao Feirense (ainda que tivesse sido expulso - não voltou a ver cartões desde então) e passou a ser o central com mais duelos aéreo defensivos ganhos na Liga (80, à frente dos 76 de Marcano), além de ser o 2º com mais interceções (50). O que lhe falta na saída de bola e na cobertura compensa no jogo aéreo, nas dobras e na forma como se limita, muitas vezes, a afastar o perigo para longe. 

3. Ricardo Pereira

Fez apenas uma assistência para golo em janeiro, mas a sua consistência é notável, seja na defesa ou a jogar mais adiantado no corredor. Não é um lateral possante fisicamente, mas compensa com a forma aguerrida como disputa cada lance. Comparativamente com Alex Telles, embora não seja tão forte a cruzar, assume bastante mais os lances de 1x1 (59% de acerto), tem maior eficácia de desarmes pelo chão (54%) e tem uma interessante média de 53% de eficácia no jogo aéreo, o que não deixa de ser notável para um jogador que é algo leve. Nas últimas semanas Ricardo tem apostado mais nas diagonais quando chega ao último terço e subiu para 75% de acerto em remates enquadrados com a baliza. Falta-lhe melhor colocação no remate. 

2. Alex Telles

Não surpreenderia ninguém se vencesse «Os Pentas» de Janeiro, mas a verdade é que Alex Telles não foi eleito MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão em nenhum dos jogos do último mês, algo que acabou por ter peso nas contas finais. O que não significa que a sua influência não seja evidente. O brasileiro somou mais três assistências no último mês e, neste momento, já leva 15 passes/cruzamentos para golo entre todas as competições. É o 5º jogador das Ligas europeias que mais passes para finalização fabrica e está entre os 8 que mais assistências assinaram. Há ainda a destacar o facto de conseguir jogar de forma limpa e agressiva ao mesmo tempo: ainda só viu um cartão amarelo na Liga. 

1. Yacine Brahimi

O mago argelino regressa ao topo d'Os Pentas, muito graças à forma fulgurante como arrancou o mês de janeiro. Eleito MVP nas vitórias contra V. Guimarães e Feirense, o terceiro melhor driblador das Ligas europeias (111 dribles eficazes, apenas atrás de Neymar e Messi) já teve intervenção direta em 17 golos esta época. Defensivamente, Brahimi também continua a destacar-se (só Danilo e Herrera recuperam mais bolas por jogo do que ele). Se é certo que a fechar o mês lhe faltou algum fulgor, também não deixa de ser verdade que há um denominador comum: quando Brahimi não está no seu melhor, toda a equipa sofre o mesmo. Sem Brahimi, o FC Porto é muitas vezes uma equipa previsível, de bola na frente e limitada nas ideias no último terço. Por isso, mesmo quando não está no seu melhor, Brahimi é absolutamente essencial e continua a nivelar por cima o nível da equipa. 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Guardiola, VAR, 54 remates e um golo

Este post começa com algo diferente: a análise a um golo do... Manchester City, mais concretamente o golo que foi apontado pela equipa de Guardiola aos 90+5 minutos de um jogo frente ao Southampton.


Quem tiver oportunidade que observe os últimos 40 segundos do jogo. Último minuto, Southampton a defender com 11 atrás da linha da bola. E o que faz o City? Passes curtos, circulação, tabelas, desmarcação. Mesmo perante a pressão do relógio e do resultado, uma equipa que se manteve fiel aos seus princípios de jogo até ao último instante. O remate de Sterling podia até ter ido para a bancada, mas vimos uma equipa que tinha um plano e agarrou-se a ele até ao último instante.

A determinada altura, aquilo que vimos no Moreirense x FC Porto foi um caos tático total. O chamado «tudo ao molho e fé em Deus». Jogadores fora de posição, tudo em pânico a tentar meter a bola na grande área. E o mais irónico de tudo isto é que podia perfeitamente ter funcionado, pois o FC Porto acaba por chegar ao golo no último minuto.

E muito do que se passou acaba por se resumir a esse lance. É absolutamente inaceitável que, em plena época de implementação do VAR, as equipas de arbitragem continuem a ignorar o apoio desse sistema. É muito simples: o auxiliar Paulo Miranda não tem um ângulo de visão favorável no momento em que Ricardo vai ganhar a bola de cabeça e devolvê-la para a zona central, onde aparecem Soares (este sim, em posição irregular) e Waris (o único a participar na jogada e sem que ninguém, em perfeita honestidade, possa garantir que está em posição de fora-de-jogo).

Paulo Miranda, naquele lance, deveria ter a sensibilidade de deixar correr a jogada. O FC Porto marcava, o FC Porto festejava. Depois, se houvesse posição irregular, então certamente o VAR informaria a equipa de arbitragem de que o lance teria sido ilegal. O que não foi o caso. É um lance em que não é possível escrutinar qualquer fora-de-jogo a Waris. É um lance de dúvida. Já estão todos fartos de ouvir que «em caso de dúvida beneficiasse quem ataca». Não, não é preciso: em caso de dúvida usem a porra do VAR!

Mais. Este foi o quarto empate do FC Porto na I Liga. E tal como aconteceu na receção ao Benfica e na visita ao Desp. Aves, há mais uma grande penalidade flagrante a ficar por assinalar, desta vez com o guarda-redes a socar Felipe em cheio. O VAR deveria, precisamente, acabar com a existência deste tipo de lances: aquele que podem passar despercebidos aos olhos da equipa de arbitragem no relvado, mas que nas imagens televisivas não deixam margem para dúvidas.

Os erros de arbitragem não desculpam mais uma exibição em que o FC Porto joga a meio-gás, mas devem ser sempre assinalados. Dos oito pontos que o FC Porto não conseguiu somar neste Campeonato, seis deles tiveram forte influência de erros de arbitragem. Poderíamos estar a falar de uma equipa com 18 vitórias em 19 jornadas.

Depois da péssima preparação para esta época, chegar ao início de fevereiro a depender de si próprio para se manter na liderança do Campeonato, a um (grande) passo do Jamor e com os objetivos na Champions cumpridos já é, por si só, um milagre que tem como base o trabalho de Sérgio Conceição e do plantel. Mas ver sistematicamente o campo inclinado a cada perda de pontos torna esta missão impossível algo ainda bem mais difícil de alcançar.





Laboratório (+/-) - Um lance que poderia estar neste momento a correr o mundo: aquele livre de Alex Telles, à futebol de praia, foi uma das mais brilhantes jogadas estudadas que já vimos no FC Porto. Imprevisível, a todos os níveis, com uma execução perfeita no plano: colocar Brahimi na cara do golo. A má finalização de Brahimi manchou uma jogada que mostra trabalho de casa. Por outro lado, há que realçar: uma equipa que trabalha tão bem este tipo de lances, de bola parada, não consegue arranjar outra alternativa que não seja despejar bolas na frente à espera que alguém apanhe uma? Infelizmente, este lance provavelmente não voltará a funcionar na I Liga, pois a colocação de Alex Telles já «denunciará» se vai voltar a tentar bater desta forma. Que foi perfeito, foi. Ou quase.

Os laterais (+) - Inconformismo puro. Juntos, Ricardo e Alex Telles foram responsáveis por 187 ações com bola e tentaram 17 cruzamentos, além de terem passado os 90 minutos a fazer piscinas defesa-ataque/ataque-defesa. Fartaram-se de correr e de tentar dar largura a corredores que encontraram os muito desinspirados Marega e Brahimi. Nem sempre tomaram a melhor decisão (o remate de meia distância de Alex Telles, já em tempo de compensação, foi um disparate e um exemplo de quem já não tinha um plano de jogo a seguir), mas ninguém lhes pode apontar o dedo por falta de garra e empenho.

Zonas de ação de Alex Telles e Ricardo Pereira
Felipe (+) - Ainda deve estar a tentar compreender como é que aquela bola não entrou. E, diga-se, Felipe tinha que meter aquela bola lá dentro. Um jogador com a sua dimensão física, com uma entrada mais determinada, teria levado tudo à frente naquele lance: entrava bola, entrava jogador, entrava tudo. Foi a mancha numa exibição que esteve bem perto de ser irrepreensível. Ganhou 9 dos 12 lances de cabeça que disputou, foi o mais rematador do FC Porto (3 tentativas, as mesmas de Soares) e ganhou todos os lances pelo chão (3/3). O Moreirense não fez um único remate na direção da baliza de José Sá e, perante a falta de Marcano, Felipe assumiu-se como o patrão da defesa, numa das melhores exibições da época. Faltou, literalmente, apenas o golo. 





Circulação de bola (-) - O minuto 34 sintetiza um pouco daquilo que foi a incapacidade do FC Porto para circular a bola (ainda que o relvado, de facto, não estivesse nas melhores condições). Sem qualquer oposição, e com o Moreirense com as linhas bem recuadas, Felipe e Reyes deixam escapar a bola pela linha lateral no início de construção. Foi o exemplo de uma equipa que parecia estar a jogar junta pela primeira vez, sem saber muito bem como começar a construir.

De facto, este era um novo meio-campo. Herrera mais recuado, perante a ausência de Danilo, Óliver mais à frente e Paulinho, em estreia, a jogar a partir da direita. Mas é incompreensível a incapacidade do FC Porto em fazer tabelas, em jogar curto nos últimos 30 metros, em procurar o espaço entre linhas. Este Moreirense sofria golos há 17 jogos consecutivos. Bombear a bola para as costas da defesa, num campo curto e com uma equipa com a linha defensiva baixa, não funciona.

Eficácia (-) - Os golos anulados frente a Sporting e Moreirense foram lances de manifesta infelicidade (será a palavra correcta?) para o FC Porto. Mas quando olhamos para os resultados que ficam para a história, nos últimos 315 minutos de jogo o FC Porto fez um golo - e teve que ser um defesa do Tondela a oferecê-lo. O FC Porto já perdeu o estatuto de melhor ataque da Liga e tem tido, de facto, imensas dificuldades para chegar ao golo.

Durante este ciclo de 315 minutos, o FC Porto rematou 54 vezes, das quais apenas 19 à baliza. E entre todas estas ocasiões, os dragões tiveram 12 oportunidades flagrantes de golo (isto é, sem um opositor entre o rematador e a baliza para além do guarda-redes) - falharam 11 e só mesmo Marega acertou frente ao Tondela.

Na I Liga, o FC Porto tem uma média de um golo a cada 7,32 remates. Logo, se nos últimos 54 remates só um acabou em golo, não é preciso muito mais para se concluir que há um problema de eficácia neste momento no ataque. Estávamos felizes por 2018 não ter CAN em janeiro/fevereiro, mas a verdade é que pouco se viu dos atacantes africanos do FC Porto em Moreira de Cónegos e nas últimas semanas. Se todos os jogadores que estavam a garantir golos se apagam... Waris e Paciência terão mesmo que ser «reforços».

Lugar cativo? (-) - É difícil comentar este tema, e é difícil apontar seja o que for a Sérgio Conceição, que fez milagres até aqui. Mas se com a saída de Iker Casillas do 11 habitual o treinador provou que não havia lugares cativos, o que dizer quando vemos um jogador não dar uma para a caixa em 90 minutos e continuar em campo? As coisas não correram bem a Brahimi, e não é difícil perceber porquê: está completamente esgotado fisicamente. O mesmo era visível em jogadores como Alex Telles, Herrera, Aboubakar, e o próprio Marega.

Paulinho, que esteve nas três jogadas de perigo na primeira parte, foi o primeiro a sair, para dar lugar a Soares, protagonista de três ocasiões desperdiçadas no ataque. Waris substituiu Aboubakar (um remate, um bom passe na primeira parte e pouco mais) e até poderia ter sido o herói no último instante, mas nota-se claramente que ainda se está a adaptar a uma nova realidade e não está entrosado com os colegas.

Sérgio Oliveira entrou já numa fase de desespero. Começa mal, ao falhar dois passes, mas depois colocou duas vezes a bola em zona de finalização, cumprindo a sua missão para os instantes finais - meter a bola na grande área.

Ok, só dava para tirar três. E se Corona não corresponde nos treinos - e nos jogos -, torna-se difícil condenar Sérgio Conceição por não o lançar mais vezes, mas a falta de alternativas é demasiado gritante. Herrera, que começa por substituir Danilo, acaba o jogo a jogar com Marega na frente. Brahimi criou apenas uma ocasião de golo em toda a partida, o cruzamento para Soares.

Mas o mais preocupante é que, no último jogo antes do fecho do mercado, não se vislumbrou outra alternativa que não seja manter Marega em campo 90 minutos, mesmo sem o maliano dar uma para caixa. Exceção a um passe para Paulinho, Marega não conseguiu fazer nada em campo. Fez apenas um remate, aos 90', sem perigo; acertou apenas 3 passes dos 13 que tentou; falhou as suas 2 tentativas de drible; não cruzou nenhuma vez. Foi provavelmente o seu pior jogo nas competições nacionais esta época. 

Desde que Marega entrou no 11 titular, o avançado falhou apenas 16 minutos de jogo por vontade do treinador - em ambos os casos, foi substituído para a ovação, em dois jogos em que conseguiu bisar. De resto, é Marega e mais 10. O maliano luta muito, tem a interessante média de contribuição de quase um golo por jornada, mas não podemos estar dependentes de um jogador que erra muito mais do que acerta. Pode até regressar aos golos já diante do SC Braga, mas chega a parecer que o FC Porto versão 2017-18 não pode prescindir em instante algum de Marega. Nem Madjer, Deco ou Hulk tinham utilização tão cativa na equipa. 

É Marega que é assim tão bom? Ou é o FC Porto que está tão curto em soluções? Só há algo pior do que ver Sérgio Conceição confiar sistematicamente em Marega para fazer 90 minutos: é que se calhar não sobram mesmo assim tantas soluções. E entre o talento intermitente/molengão de Corona ou até Otávio, e um Hernâni que só tem servido para fazer número (mais até na bancada do que na ficha de jogo), o treinador prefere o empenho e a capacidade física de Marega. É penoso ver o maliano nestas situações em campo. Mas chegámos a um pouco em que parece que resta aceitar isso. 

Os 45 minutos que faltam disputar frente ao Estoril eram uma oportunidade para reforçar a liderança da Liga. Agora são a oportunidade para recuperá-la. Basta uma jornada para tudo mudar novamente. Para o bem ou para o mal.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O mesmo filme x3

Terceiro clássico da época. Terceira vez em que o FC Porto é muito superior ao rival. Terceira vez que não sofre golos. Terceira vez em que também não os marca. As grandes penalidades castigaram uma equipa que tem sabido ser melhor, que tem sabido manter a baliza trancada, mas à qual tem faltado muita clarividência nos grandes jogos para acertar na baliza.

Não se trata apenas dos clássicos, pois já tínhamos notado esse fenómeno na Liga dos Campeões. Antes da goleada ao AS Mónaco, em 10 golos, sete foram de bola parada, e os restantes divididos entre um contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada de insistência com vários ressaltos. 

Falta golo ao FC Porto nos grandes jogos. 270 minutos sem golos em clássicos - ainda que Aboubakar tenha marcado um golo limpo ao Benfica e que o golo anulado a Soares ao Sporting deixe muitas dúvidas; dúvidas essas que recomendariam que se deixasse o lance seguir - é algo para merecer a nossa preocupação, sobretudo sabendo que vêm aí mais quatro clássicos, que podem valer o Jamor ou até mesmo a liderança isolada/reforçada da I Liga. 

Exibicionalmente o FC Porto não se diminui. É mais forte, ataca mais, chega mais vezes ao último terço e tem sabido reduzir os rivais a escassíssimas oportunidades. Mas lá está: o FC Porto tem jogado sempre averso ao 0x0 inicial, é a equipa que mais luta para se desfazer dele, mas não tem sido feliz nesse aspecto. 

No que toca à Taça da Liga, houve diversas adversidades, desde o efeito psicológico de quebra por celebrar quase durante um minuto um golo que não valeu, a lesão de Danilo Pereira, a necessidade de remodelar um meio-campo que nunca tinha sido utilizado e a dureza imprópria neste jogo - FC Porto e Sporting têm uma média de 14 a 16 faltas cometidas e sofridas na I Liga, mas neste clássico cometeram 28 cada. 

E se já não bastava a maldita Taça da Liga, sobraram os malditos penáltis, onde o FC Porto tem sido imensamente infeliz. Benfica, Chaves, Braga, agora Sporting, não esquecendo os antecessores que vão desde o Fátima ao Schalke 04, o FC Porto tem perdido a esmagadora maioria de desempates por grandes penalidades nos últimos anos. Rui Patrício é forte nas grandes penalidades, mas acabou por defender tantos remates como Iker Casillas. Curiosamente, no último desempate com o Sporting o FC Porto tinha vencido, numa ronda em que só João Moutinho falhou. Desta vez saiu ao contrário. 

Aboubakar e Héctor Herrera (que até já tinha marcado desta forma a Rui Patrício num FC Porto x Sporting) nunca falharam uma grande penalidade em tempo regulamentar, mas desta vez erraram. O mesmo para Brahimi, que só tinha falhado 2 penaltys em toda a carreira e tinha uma eficácia de 80% na marca dos 11 metros, mas desta vez acertou no ferro. Correu quase tudo o que podia correr mal, enquanto o Sporting, inofensivo durante 90 minutos (a bola mais perigosa - a única - na direção de Iker Casillas foi-lhe endereçada pelo poste), teve a sorte grande nos penaltys. As meias-finais da Taça de Portugal já eram importantes, agora muito mais. 





Ricardo Pereira (+) - O melhor do lado do FC Porto, mesmo num jogo de dimensão física muito acima daquilo a que o lateral está habituado. Coentrão, Acuña ou Rúben Ribeiro não fizeram nada pelo seu corredor e Ricardo não se inibiu de ir ao ataque, com destaque para a grande jogada em diagonal que terminou com um remate para defesa de Rui Patrício. Fez quilómetros pelo corredor, deu sempre a zona central a Marega (poucos efeitos práticos, mas fartou-se de lutar) e mostrou uma condição física impressionante.


Alex Telles (+) - Certinho a defender, rápido a sair para o ataque. Não pôde chegar tantas vezes ao último terço como é habitual, mas tal como Ricardo fez um jogo irrepreensível na antecipação e na cobertura aos flancos. O Sporting não pôde utilizar os flancos para servir Bas Dost e isso deveu-se à boa exibição dos laterais do FC Porto, também sempre a saírem por cima nos lances de 1x1.

Reação à perda de Danilo (+) - Não há alternativa a Danilo no plantel do FC Porto. Isso já é um problema. Então perder Danilo nos primeiros minutos de um clássico, ainda pior. O FC Porto teve que reorganizar por completo a sua estratégia, com novas funções para Herrera e Sérgio Oliveira, Óliver a entrar a frio e o risco de ter a retaguarda mais exposta. Resultado? A partir dos 15 minutos, o FC Porto foi sempre superior ao rival e, na dimensão defensiva, não se sentiu a falta de Danilo. Ese também houve mais faltas do que o habitual, foi também porque foi necessário ser mais «rijo» perante a falta de Danilo. Grande resposta coletiva da equipa.





A definição (-) - Espaço para rematar? Mais um passe. Espaço para avançar? Vai remate daqui. Um colega ao segundo poste? Vai bola para o lado oposto. É um problema: o FC Porto chega sempre bem ao último terço, mas tem falhado bastante no momento de definição. Invariavelmente vimos Herrera, Sérgio Oliveira ou Marega chegarem com perigo à grande área, mas depois longe de tomarem a melhor decisão. Tendo em conta que o Sporting, em 180 minutos de clássico frente ao FC Porto, fez 2 remates à baliza, bastava aproveitar uma ou duas oportunidades das muitas criadas para ser feliz. 

Será a melhor fórmula? (-) - No Mónaco, Sérgio Conceição surpreendeu com a aposta em Sérgio Oliveira, num meio-campo reforçado. O FC Porto ganhou. Desde então, voltou a repetir isso mesmo em mais cinco jogos considerados «grandes». O FC Porto não ganhou nenhum deles. Talvez seja hora de repensar se esta estratégia funciona assim tão bem nos jogos de maior exigência. Sim, o FC Porto foi sempre melhor do que Benfica e Sporting, mas poderá Sérgio Oliveira ser o tal fator diferencial que vai aproximar o FC Porto da vitória? Não tem sido.

Além disso, há que colocar a questão: quantos clubes, em todo o Mundo, têm um jogador que só utilizam nos grandes jogos? Que tipo de jogador especial será Sérgio Oliveira que só jogou 26 minutos esta época em jogos de menor exigência, mas depois aparece 3 vezes como titular na Champions e 3 vezes em clássicos? Questionável, sobretudo quando há quase um espaçamento de dois meses desde a última aparição a titular. Uma vitória em seis jogos não é o melhor saldo para atestar a eficiência de uma fórmula para os grandes jogos. 

Os clássicos e o desenrolar da época mostram uma coisa: o FC Porto é melhor do que Benfica e Sporting. Mas aqui ninguém quer vitórias ou satisfações morais, mas sim resultados. A bola vai ter que entrar na próxima oportunidade. Para já o Moreirense. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

E assim se fez a omelete (im)possível

Uma qualificação notável. O FC Porto reforçou o estatuto de mais forte equipa portuguesa no panorama europeu, ao garantir a qualificação para os 1/8 da Liga dos Campeões, com mais pontos e golos marcados do que Benfica e Sporting juntos. Era um objetivo declarado, mesmo sem que alguma vez tenham dado ao treinador as melhores condições para o cumprir, e o FC Porto conseguiu-o com mérito e a pulso, num grupo que era verdadeiramente traiçoeiro.


Na antevisão a esta Champions, foi comentado que neste grupo qualquer equipa era simultâneamente candidata à qualificação e ao último lugar. Ironicamente, o Besiktas, teoricamente a equipa mais frágil, venceu o grupo invicto, enquanto o Mónaco, para muitos a equipa mais forte, sai da Champions sem uma única vitória. Ilustrativo. 

O FC Porto foi inferior ao Besiktas neste agrupamento, foi do 8 ao 80 contra o Leipzig e carimbou a qualificação com duas excelentes exibições frente ao Mónaco. É certo que na última jornada as circunstâncias voltaram a ser favoráveis - à imagem da última época, quando o Leicester se apresentou no Dragão com uma equipa alternativa e também levou cinco -, e não deixa de ser atípico que até este jogo o FC Porto tenha construído a sua pontuação basicamente às custas de bolas paradas e com inconsistência defensiva (só o Sevilha se apurou com mais golos sofridos), mas nas contas finais os objetivos foram cumpridos e merecidos.

A Champions está feita no que às metas financeiras e desportivas dizem respeito. O sorteio dos oitavos-de-final não vai oferecer nenhum adversário simpático, nem diante do qual se possa reclamar favoritismo, mas a pressão já lá vai. Agora é tempo de centrar atenções no Campeonato, no qual até fevereiro muita coisa poderá mudar. Ou então a Champions continua, mas no Bonfim. 




Aboubakar (+) - Importa começar por recordar que o FC Porto não pôde contar com ele na primeira jornada, e que o camaronês terá ferido muitas suscetibilidades por ter ido ao balneário do Besiktas. Mas o que se seguiu foi isto: 5 golos e duas assistências em 5 jogos, com intervenção direta num golo a cada 60 minutos. No que a este aspeto diz respeito, estamos a falar do jogador mais produtivo da história do FC Porto na Champions, superando Rabah Madjer. 

No primeiro golo foi oportuno, no segundo determinado e inteligente a procurar o espaço para a finalização. Mas o melhor veio depois, com um passe absolutamente fantástico para Brahimi matar o jogo. Muito bem a aguentar a bola no eixo central, a vir dar apoio atrás e a distribuir o jogo, num dos seus melhores jogos da temporada. Levou o FC Porto às costas nesta fase de grupos. É caso para afirmar: ainda bem que não há CAN em 2018.


Yacine Brahimi (+) - O segundo melhor driblador da fase de grupos da Liga dos Campeões (só atrás de Neymar), a fechar a fase de grupos com chave de ouro, com mais uma assistência e a estreia a marcar. Foi o jogo em que teve maior influência direta na lista de marcadores, ainda que ao longo da fase de grupos tenha sido o denominador comum na criatividade da equipa. Conseguiu completar mais dribles do que todos os colegas juntos nesta fase de grupos. A prova de uma dimensão à parte e a repetição de um alívio: ainda bem que não há CAN em 2018.

Laterais (+) - Com Danilo e Alex Sandro, o FC Porto tinha uma dupla de laterais de classe europeia. Hoje, só resta dizer que ninguém sente a sua falta, graças a Alex Telles e Ricardo Pereira. Juntos, foram responsáveis por 25 das ocasiões de golo criadas pelo FC Porto nesta fase de grupos e voltaram a ter interferência direta. Alex Telles fez um bonito e merecido golo e Ricardo assistiu Soares com precisão para o 5x2 final. Eficazes a defender, desequilibradores a atacar.

Danilo Pereira (+) - Um daqueles jogos em que a sua presença pode não ter sido muito notada, mas foi decisiva. Fez os passes para os golos de Aboubakar (o segundo) e Alex Telles e empurrou várias vezes a equipa para o meio-campo adversário na saída de bola, tendo falhado apenas um passe no seu meio-campo. Não teve que ter muitas ações defensivas (apenas um tackle, nenhuma bola de cabeça ganha e nenhuma interceção, algo atípico no seu rendimento), mas assegurou sempre o equilíbrio da equipa no momento da perda.

Héctor Herrera (+) - Encheu o meio-campo e fez talvez a sua melhor exibição nesta fase de grupos. Teve um total de 103 ações com bola, mais do que os médios-centro do Mónaco juntos, com 91% de eficácia de passe, criou duas ocasiões de golo e acertou os dois cruzamentos que tentou, além de ter recuperado 15 vezes a posse de bola. E não menos importante, desta vez soube temporizar mais a velocidade do meio-campo, jogar curto e não querer que cada posse de bola fosse uma tentativa de a meter o mais depressa possível na frente. Resultado? O FC Porto teve 65% de posse de bola e esteve quase sempre no controlo do jogo, mesmo com uma unidade a menos no meio-campo. A prova de que não é preciso pressas para golear, mesmo tendo sido sonegadas duas grandes penalidades favoráveis ao FC Porto que, com VAR, seriam certamente assinaladas. Pois, ou então não. 





Deitar o crédito a perder (-) - Não é caso para dizer que Felipe teve meramente um descuido, que cometeu apenas um erro e que tem estado bem nos últimos jogos. Não tem. Podemos recuperar o Machado do jogo com o Aves: «Felipe bem pode agradecer que a dupla com Marcano traga crédito da época passada, e que Reyes não tenha o estofo necessário para entrar no 11, caso contrário já tinha sentado. Começam a ser demasiados erros. O problema não são os passes longos - Marcano e Felipe usam e abusam dos passos longos porque têm instruções para isso. O problema são as constantes hesitações, os maus timings sobre a bola, a falta de sentido prático a cortar os lances.»

Não podemos confundir o que é ter raça e vontade com o cair na ratoeira/tentativa de entrar numa picardia com um adversário e sujeitar-se à expulsão. Felipe não tinha nada que meter as mãos ao adversário ou responder a provocações, sobretudo sabendo que tinha a oportunidade de mostrar serviço para ir à seleção do Brasil. O FC Porto estava a vencer por 2x0, tinha o jogo controlado, mas as circunstâncias da expulsão poderiam ter sido bem mais penalizadoras. Quem não se lembra de outra expulsão disparatada no Dragão, de Herrera, frente ao Zenit, que custou bem mais caro?

Felipe conquistou o seu lugar no 11 com mérito, mesmo nunca estando ao nível de Marcano, mas de há várias semanas para cá tem sido das unidades de menor rendimento na equipa principal, com vários erros de concentração, posicionamento e de abordagem aos lances. O jogo nem estava a correr mal a Felipe, apesar de já ter falhado 5 passes longos, mas um jogador que estivesse concentrado e com a cabeça no sítio não cometeria o erro que Felipe cometeu. Já se penitenciou por isso, mas para já temos a garantia de que teremos que mexer na dupla de centrais e que Diego Reyes provavelmente terá que entrar no 11 nos oitavos-de-final. E será pela expulsão que Sérgio Conceição terá que mexer na dupla de centrais, mas se fosse pelas últimas exibições de Felipe também não poderia deixar ninguém escandalizado.

Acertar os passes longos (-) - Numa retrospetiva a esta fase de grupos, sobra a questão: quantos golos conseguiu o FC Porto através de bolas longas despejadas pelos centrais na frente? Sobretudo durante os primeiros 10 minutos, o FC Porto repetiu a fórmula de meter bolas longas na frente, à espera que Aboubakar ou Marega apanhassem alguma coisa nas costas da defesa. As melhoras jogadas nasceram de circulação de bola, do meio para os flancos, e da procura do espaço para colocar os jogadores em situação de finalização, em vez de bater logo a bola longa na frente. O melhor FC Porto desta época, exceção feita à visita ao Mónaco, foi sempre aquele que quis ter bola e assumir o jogo, em vez de trocar a elaboração da construção de jogo por passes longos de Felipe ou Marcano. Algo a reter para o que aí vem.

Palavra, logicamente, para Sérgio Conceição, que na sua época de estreia na Champions garante o apuramento para os 1/8, sem um único reforço e estando longe de ser consensual em muitas das opções que foi tomando. A verdade é que não falhou na hora H e o FC Porto revelou/reabilitou vários ativos na montra europeia. Não foi a época em que o FC Porto melhor jogou na fase de grupos, mas foi um dos apuramentos obtidos com menos recursos. Uma omelete difícil de cozinhar, mas os ovos foram aproveitados da melhor forma.