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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Voucher Federação

Fernando Gomes vai, sem surpresa, ser reeleito presidente da FPF no início de junho. Quase numa espécie de périplo do futebol português, foi recolhendo apoios dos clubes pouco a pouco. Pinto da Costa questionou, na entrevista do início de abril, e bem, onde fica a Liga no meio de tudo isto: para que serve a Liga, que supostamente representa os clubes, se depois os clubes andam a conta-gotas a anunciar apoios a Fernando Gomes?

Não há que confundir as coisas. Fernando Gomes foi um bom gestor financeiro do FC Porto, que esteve diretamente associado ao ciclo de maior sucesso do clube e ao crescimento da SAD. Já enquanto presidente da FPF, Fernando Gomes tem contribuído para o tratamento marginal que o FC Porto tem recebido, como foi exemplo o ignorar de duas das maiores figuras do futebol nacional durante a Gala dos 100 anos da FPF, José Maria Pedroto e Pinto da Costa. As águas, pelo menos aqui, não se misturam. Apreço pelo homem que foi administrador da SAD do FC Porto, nada de positivo a dizer sobre o presidente da FPF.

Dito isto, aquilo que mais destaca da lista de Fernando Gomes: José Manuel Meirim passa a presidente do CD da FPF e José Fontelas Gomes é o novo presidente do CA. 

Na primeira entrevista do mês, Pinto da Costa disse que não podia apoiar Fernando Gomes, por não conhecer a sua lista. Já na sua última entrevista, o presidente disse isto, a propósito dos sucessores de Vítor Pereira e Herculano Lima: «Não sei quem vai para lá, porque o FC Porto não interfere nem tem nada a ver com isso». Ficou assim conhecida a posição do clube face a este tema na entrada para o novo mandato da SAD.

José Manuel Meirim foi uma surpresa. Era habitualmente o homem a quem a imprensa recorria para comentários sobre a justiça desportiva. Por hábito, poupa-se a considerações pessoais (uma mais valia) e limita-se a tentar interpretar e enquadrar os regulamentos. Agora vai presidir ao Conselho de Disciplina da Federação. Um grande passo, e desejemos que faça o melhor possível pela justiça desportiva. 

Mas recuemos até 2013 e a uma competição que não tem grande apreço por parte do FC Porto, a Taça da Liga. Todos se recordam do caso das 72 horas, a envolver Fabiano, Abdoulaye e Sebá. O CD concluiu e deliberou que o FC Porto não infringiu nenhuma regra. Mas se José Manuel Meirim fosse na altura presidente do CD da Federação, se calhar esta célebre capa do jornal A Bola já teria sido verídica.


Com isto podemos passar para a célebre história dos vouchers. A defesa do Benfica - aliás, de benfiquistas, pois o clube esteve sempre calado em todo o processo - que alternativa lhe sobrava? - insistiu sempre no tal limite de 200 francos, omitindo que esta norma é aplicada pela UEFA às competições europeias, não à liga portuguesa. Já os regulamentos da FPF, esses sim, indicam que só eram admitidas ofertas de valor simbólico e não-comercial. Mas as ofertas do Benfica, conforme foi analisado aqui, tinham valor comercial e não tinham defesa em quaisquer regulamentos. Ora e o que pensa José Manuel Meirim de tudo isto?


Com isto chegamos ao sucessor de Vítor Pereira, José Fontelas Gomes, o protagonista da palhaçada fresquinha, para quem oferecer jantares e artigos de valor comercial aos árbitros é normal, mas ceder material de banho a um árbitro - algo que segundo o CM o FC Porto fez a Artur Soares Dias - já deve ser passível de uma averiguação. Igualmente, Fontelas Gomes também sempre defendeu a prática do Benfica ao longo de todo o processo.

De recordar o seu papel na época 2014-15. Quando Lopetegui, praticamente o único elemento do FC Porto a contestar as arbitragens, se atreveu a dizer que não podiam ser o árbitros a decidir o campeonato, José Fontelas Gomes ficou ofendido. Curiosamente, a APAF nunca ficou ofendida com nenhuma das afirmações de Jorge Jesus ao longo dos últimos anos, nem quando João Gabriel falou de um campeonato que era «um tributo aos árbitros».

Nos últimos anos nenhum treinador do FC Porto acusou diretamente um árbitro de errar deliberadamente, de querer prejudicar o FC Porto ou beneficiar o Benfica. Jorge Jesus, não raras vezes, proferiu declarações bem mais graves em torno das arbitragens. Mas nunca mereceu nenhum reparo. Limpinho. Descubra as diferenças:


Fontelas Gomes conseguiu o apoio de ilustres árbitros como João Capela, Manuel Mota, Jorge Ferreira, Bruno Paixão ou Carlos Xistra, e enquanto presidente da APAF habitou-se a condenar publicamente o FC Porto sempre que falava das arbitragens; já sobre os ataques do Benfica, nem uma palavra. Quando João Gabriel disse que o título do FC Porto era um tributo aos árbitros, ninguém da APAF se revoltou; já aquando Pinto da Costa criticou Soares Dias em 2014, Fontelas Gomes levou de imediato as declarações do presidente do FC Porto ao Conselho de Disciplina.

Isto para concluir: José Manuel Meirim e José Fontelas Gomes. O que têm em comum? Ambos já se manifestarem publicamente de forma desfavorável em relação a FC Porto, ao mesmo tempo em que defenderam a legitimidade da prática do Benfica no caso dos vouchers. Condenaram o FC Porto, defenderam o Benfica, agora chegam a dois dos cargos mais importantes do futebol português.

Mas «o FC Porto não tem nada a ver com isso».

quinta-feira, 21 de abril de 2016

É preciso ter Faro para o lapso

O que têm em comum Tiago Jogo, Iuri Gomes ou Diogo Coelho? São jogadores cedidos por outros clubes ao Farense. Que mais têm em comum? O Farense não utilizou nenhum deles contra os clubes-mãe (adenda: apenas o Feirense, que emprestou Tiago Jogo, está na segunda liga), até porque, como se sabe, os regulamentos proíbem isso. Até aqui, tudo normal.

E depois há Harramiz. Quem é Harramiz? Um jogador emprestado pelo Benfica ao Farense. Então o que fez o Farense? Utilizou-o contra o Benfica B.

Ou seja, a partir do momento em que Harramiz entra em campo, o Farense já perde o jogo. Perdeu-o em campo, mas tê-lo-ia também perdido na secretaria. Ou seja, o Benfica B, sob quaisquer que fossem as circunstâncias, já sairia deste jogo duplamente beneficiado: não só ganhava o jogo como um rival direto na luta pela manutenção ia perder pontos.

Além de perder o jogo em campo, o Farense foi punido com a perda de mais 2 pontos. Assim já está a 4 pontos do Benfica B, que tem praticamente menos uma equipa com a qual se preocupar na corrida à manutenção.

Que diz o Farense sobre isto? Segundo o seu presidente, António Barão, tudo não passou de um lapso. «A utilização do Harramiz resultou de desconhecimento do Farense e não houve intenção nem maldade», disse ao Record: «Pensávamos que o jogador já não tinha qualquer ligação com o nosso adversário».

O Farense, infelizmente, não sabia que Harramiz ainda era jogador do Benfica. Imagine-se como é possível andar uma época a pagar salários a um jogador que, no fundo, nem se sabe a quem pertence. Mais ainda: imagine-se o que é o gabinete de imprensa do Farense saber mais do que o próprio presidente/clube.


Conforme se pode ver neste post no Facebook do Farense, Harramiz foi anunciado como reforço por «empréstimo do Benfica». Será possível que quem gere o Facebook do Farense sabe o que mais ninguém do clube aparentemente sabia? A isto não se chama lapso, chama-se incompetência. Ou então chama-se outra coisa.

De facto, o historial de colaboração entre Farense e Benfica é vasto. Para quem não se recorda, o Farense foi pioneiro mundial nesta prática:


Desde então, o Benfica tem cedido uma série de jogadores ao Farense, quase todos recheados de potencial.  Quem não se lembra dos craques Jim Varela (a explodir no Progreso) e Juan San Martín (a espalhar magia no Louletano)? Chegaram juntamente com Elbio Álvarez, um suplente da equipa B. Segundo a agência EFE, em janeiro de 2012, o Benfica pagou 1,5M€ só pelo direito de preferência destes 3 jogadores e mais 2,9M€ pela compra do passe. Fica a sugestão ao Football Leaks: estes seriam interessantes de se ver.

Isto para dizer que Jim Varela e San Martín foram exemplos dos craques que amadureceram no Farense antes de irem espalhar magia para a Luz. Na verdade, não correu muito bem, pois não? A melhor contratação do Benfica - para quem mais vale uma assento na liga do que um Jankauskas - pelos caminhos de Faro ainda continua a ser Carlos Deus Pereira.

Quem não se lembra deste ex-futebolista que representou o Benfica durante 9 anos? Poucos, talvez, pois deu mais nas vistas pelo seu trabalho como presidente da Mesa da AG da Liga durante o consulado de Mário Figueiredo. Recusou vários pedidos de Assembleias Gerais para destituir o presidente da Liga, rejeitou as candidaturas de Rui Alves e Fernando Seara à presidência da Liga e foi presidente da SAD... do Farense. Farense esse que foi um dos 7 clubes a votar na reeleição de Mário Figueiredo em 2014. É preciso ter faro para as parcerias, e o Benfica mostra tê-lo de sobra por estas bandas.

Ainda sobre Harramiz, então e o próprio papel da equipa de arbitragem e dos delegados ao jogo da liga? Não houve um único elemento competente o suficiente para verificar, facilmente, que Harramiz era um jogador emprestado pelo Benfica? A própria inoperação dos agentes da nossa liga fez com que o Farense, ainda antes de começar o jogo, já tivesse perdido; e o Benfica ganhou não só os 3 pontos, como vantagem sobre outra equipa na luta pela manutenção.

Qualquer coincidência com a realidade é pura ficção. Mas por um momento, imaginemos o que aconteceria se o projeto de formação do Benfica, que tanto tem proclamado a aposta no Seixal e a estratégia para ter uma base de jogadores formados no clube e na seleção nacional, culminasse com a queda da equipa B para o Campeonato de Portugal. Nem Alexandre Dumas, com mil Aramis ou Harramiz, conseguiria imaginar tão trágica ficção.

Ah, já agora: não se esqueçam, Victor Andrade está emprestado pelo Benfica. Não vá alguém do Vitória de Guimarães B, na próxima jornada, cometer o mesmo lapso que o Farense. 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Cuidem da dieta dos delegados

Todo o cuidado é pouco. É tempo de supervisionar e controlar a dieta de todos os delegados que vão votar nas eleições para o novo presidente do Conselho de Arbitragem, após o anúncio da saída de Vítor Pereira. Não há-de algum deles sofrer de uma grande indisposição no dia das votações.

Isto para recordar a forma como Vítor Pereira foi eleito presidente do CA, há quatro anos. Vítor Pereira venceu contra Luís Guilherme por 42-41. Houve um voto nulo e um dos delegados faltou à votação. Tratava-se de José Albano Domingues, delegado de Viana do Castelo, que não ia votar em Vítor Pereira, mas que a meio da viagem para a sede da FPF sofreu um ataque de diarreia e faltou à reunião.

Faça-se a devida homenagem a Bocage: foi graças à merda que Vítor Pereira conseguiu fazer um trabalho de merda nos últimos quatro anos. É quase poético. Mas não há motivos para festejar a saída de Vítor Pereira, sobretudo face aos dois nomes que estão a ser lançados à sucessão: o ex-árbitro Duarte Gomes e o presidente da APAF, José Fontelas Gomes. Começando por avaliar Duarte Gomes.


Duarte Gomes é um assumido benfiquista, ainda que a competência não tenha clube. Foi, por exemplo, o único árbitro dos últimos anos a admitir ter errado num jogo contra o FC Porto (e já lá vão mais de 4 anos desde que o fez, por causa de um penalty por marcar contra o Marítimo). Na altura, causou enorme celeuma no CA, com Vítor Pereira a ficar chocado e revoltado por um dos seus árbitros vir a público admitir que errou contra o FC Porto. Desde então, mais nenhum árbitro se atreveu a fazê-lo.

Duarte Gomes esteve também em destaque na última grande aparição pública de Antero Henrique em defesa do FC Porto: quando, juntamente com Rui Cerqueira, o FC Porto apresentou 15 erros cometidos por Duarte Gomes no clássico frente ao Benfica. É de realçar que, nesse jogo, o FC Porto foi campeão na Luz, mas não deixou de se insurgir contra a má arbitragem; nos últimos tempos, em que não ganha títulos mas tem tantas ou mais queixas face à arbitragem, o FC Porto quase não reage. As pessoas são as mesmas, o clube é diferente.


O historial de Duarte Gomes, o árbitro que assinalou três penaltys em 10 minutos a favor do Benfica em 2011 (e dos quais só um não deixou quaisquer dúvidas), não fica por aqui...





Mas a última entrevista de Pinto da Costa, há um mês, abriu novas perspetivas sobre Duarte Gomes, que decidiu abandonar a arbitragem há um mês. «Duarte Gomes vai abandonar a arbitragem provavelmente a pretexto de uma lesão, mas eu creio que o Duarte Gomes, um indivíduo de grande formação, licenciado em Direito, percebeu como as coisas funcionam, e para não ser amanhã um novo Marco Ferreira decidiu abandonar a arbitragem». Desconhecíamos, no universo FC Porto, tamanha consideração por Duarte Gomes.

Curioso que Duarte Gomes tenha terminado a carreira em janeiro e que já esteja a ser associado à presidência do Conselho de Arbitragem. Faz lembrar Pedro Proença, que também saiu da arbitragem mais cedo para, meio ano depois, ser eleito presidente da Liga. Duarte Gomes já deu uma entrevista ao Expresso este mês, na qual garante que não ambiciona, para já, ser presidente do CA. Mas depois lá diz que está disponível para ceder os seus conhecimentos à arbitragem no futuro.

Curiosamente, Duarte Gomes até já fez as pazes com o... Sporting. Em fevereiro de 2014 o Jornal do Sporting escrevia que recusava este árbitro, por ser um «reconhecido benfiquista que prejudica sistematicamente os seus rivais» (a APAF estava a nanar quando um dos seus árbitros - na verdade, quatro deles - foi difamado desta maneira?). O Sporting foi sempre um clube que protestava perante Duarte Gomes, que nos últimos anos só agradava ao Benfica e a Jorge Jesus.





Mas nada é eterno: curiosamente as pazes, aparentemente, foram feitas na semana passada: 


Mais curioso ainda é que Fontelas Gomes e Duarte Gomes, apontados como os dois nomes candidatos ao CA, tenham estado juntos na mesma visita ao Sporting. Mas é de esperar que o futuro da arbitragem passe por ambos. Em 2011, Luís Guilherme e Lucílio Baptista estavam na lista concorrente contra Vítor Pereira, que foi o eleito. Então, Lucílio Baptista e Luís Guilherme acabaram por passar para a comissão de nomeações, sobre a qual nunca se pronunciam - logo, os supostos rivais de Vítor Pereira foram eleitos para um cargo no qual se abstêm de tudo o que Vítor Pereira possa decidir. Será curioso ver se Bruno de Carvalho também vai falar desta vez em «aliança».

Sobre Fontelas Gomes, foi eleito para a APAF em 2013, em lista única. Foi um árbitro da terceira categoria, mas trabalhou durante vários anos na TAP e tem negócios na restauração (está na moda, portanto). No início de novembro foi protagonista da Palhaçada Fresquinha, na qual, como tantos outros, invocou regulamentos que não se aplicavam ao caso para justificar as ofertas ilegais do Benfica aos árbitros. E José Fontelas Gomes sempre se insurgiu contra o sorteio dos árbitros: ou seja, com ele tudo continuará igual, árbitros escolhidos a dedo. 

De recordar o seu papel na época 2014-15. Quando Lopetegui, o único elemento do FC Porto a contestar as arbitragens, se atreveu a dizer que não podiam ser o árbitros a decidir o campeonato, José Fontelas Gomes ficou ofendido. Curiosamente, a APAF nunca ficou ofendida com nenhuma das afirmações de Jorge Jesus ao longo dos últimos anos, nem quando João Gabriel falou de um campeonato que era «um tributo aos árbitros».

Nos últimos anos nenhum treinador do FC Porto acusou diretamente um árbitro de errar deliberadamente, de querer prejudicar o FC Porto ou beneficiar o Benfica. Jorge Jesus, não raras vezes, proferiu declarações bem mais graves em torno das arbitragens. Mas nunca mereceu nenhum reparo. Limpinho. Descubra as diferenças:



É este o cartão de visita de Fontelas Gomes, que segundo O Jogo e o DN tem apoio do FC Porto para o cargo. É uma piada? Todas as intervenções de José Fontelas Gomes enquanto presidente da APAF foram para atacar o FC Porto, sempre que havia críticas à arbitragem, e defender sempre o Benfica. E se há um ano o FC Porto lutava pelo regresso do sorteio dos árbitros, agora vai apoiar um sujeito que é contra o sorteio!? De realçar que Vítor Pereira disse isto: «Colinho e manto protetor? Estamos habituados a ser bode expiatório dos insucessos». Fontelas Gomes está na mesma linha de discurso: quando o Benfica critica as arbitragens, não reage; quando o FC Porto o faz, tenta logo silenciar o clube e culpa ou o seu treinador ou os seus jogadores.

Duarte Gomes ou José Fontelas Gomes. Um é um ex-árbitro que durante anos não mereceu nada mais do que críticas por parte do FC Porto; outro, enquanto líder da APAF nos últimos dois anos (antes tinha estado no cargo interinamente), legitimou tudo o que aconteceu no passado recente e condenou sempre toda e qualquer crítica do FC Porto.

Se o FC Porto não se demarca destas duas hipóteses, o futuro não trará nada de bom. E quem se conformar com uma destas escolhas não terá moral para contestar qualquer tipo de nomeação nas arbitragens nos próximos anos.

PS: Vários leitores discordaram por completo de que para o FC Porto fosse mais fácil ganhar em casa ao Dortmund do que ao Chelsea em Londres. No seu direito, claro, mas a história do FC Porto diz isso mesmo: em casa contra equipas alemãs, o FC Porto ganhou 10 jogos, empatou 3 e perdeu 4. Em Inglaterra, perdeu 16 e empatou 2. Claramente podem alegar que o plantel do FC Porto estava desfalcado. Mas repare-se que o Dragões Diário diz que o FC Porto jogou com «muitos remendos por causa das lesões». Não, não foi, pois o único titular lesionado era Martins Indi. O problema não eram as lesões, era sim a falta de opções num plantel mal construído e que não foi reforçado em janeiro. E José Peseiro não tem culpa da falta de peças que tem - só pode ser responsabilizado pela forma como estrutura as peças que tem, mas nunca pela falta de qualidade das mesmas. Mas tal como Paulo Fonseca em 2013-14, não tem o melhor plantel à disposição, mas podia ter tentado fazer melhor com o que tinha, pois pouco tinha a perder. 

Ninguém está em condições de exigir títulos a José Peseiro: só se exige que faça o melhor possível. Ninguém pode acreditar que contra o Dortmund tenha sido feito o melhor possível para ganhar pelo menos esse jogo, já que virar a eliminatória era uma utopia. De qualquer forma, o patamar de exigência não pode recuar ao ponto de acharmos que é pedir muito que o FC Porto tente fazer - pelo menos tentar - o que o PAOK e o Krasnodar fizeram este ano: ganharam ao Dortmund na Liga Europa. Esperemos que também não seja pedir muito ganhar ao Belenenses, que também trocou de treinador e apostou numa nova filosofia, e não repetir a vergonhosa exibição da época passada no Restelo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Nem na UEFA nem na FPF: prática do Benfica não tem defesa

Serve isto como informação complementar ao último post. A Federação Portuguesa de Futebol já terá entregue o caso das ofertas do Benfica a árbitros ao Ministério Público, que agora se deverá encarregar da investigação. Para começar, mais um dado que dá razão ao FC Porto (e a grande parte dos clubes) na vontade e legitimidade de afastar Vítor Pereira do Conselho de Arbitragem: o presidente do CA, que pertence à FPF, sabia das prendas do Benfica. E nada disse.

Ora se a FPF, após a denúncia de Bruno de Carvalho, decidiu comunicar o sucedido ao Ministério Público, como pode Vítor Pereira manter-se em funções se ele pertence, por inerência, aos quadros da Federação? Vítor Pereira sabia das informações que a FPF considerou merecedoras de investigação. Como é possível manter no controlo da arbitragem um cúmplice silencioso do Benfica nesta prática potencialmente ilícita?

Mais, José Gomes, da APAF, também sabia das práticas. E este terá dito a Pedro Henriques, segundo é escrito hoje n'O Jogo, que nenhum árbitro optou por usufruir das ofertas do Benfica, apesar de as ter recebido. Mau: então se está tudo dentro dos limites, dentro da legalidade, porque é que ninguém quer ir jantar à pala?

Entretanto, continuam a insistir nos regulamentos da UEFA que preveem a possibilidade de lembranças até 200 francos. E convenientemente, omitem a parte em que os regulamentos da FPF reprovam as ofertas do Benfica. Passando a citar:



Ora, o Benfica só pode oferecer presentes sem «valor comercial». Mas verifica-se o contrário: a oferta do Benfica tem valor comercial, e prova disso é que está à venda na loja online do clube a camisola de Eusébio.



Mais. Partindo do princípio de que a camisola de Eusébio custa 59,9€ e que um conjunto de 4 bilhetes para o Armazém de Taças Cosme Damião custa 40€, boa sorte para tentar conseguir uma refeição completa no Museu da Cerveja, para quatro pessoas (Bruno de Carvalho até falava em muitos mais jantares), por 80€, conforme podem avaliar pelos preços no menu. O preço unitário, por refeição completa, nunca é menos de 30/35 euros. Logo os supostos 200 francos de limite, ou valor equivalente em euros, são mais do que ultrapassados.

Por outro lado, as próprias diretrizes da UEFA chegam a uma discórdia semântica. Reparem que a UEFA, no ponto 6 do artigo 4 dos Termos Gerais e Condições para a Arbitragem, definidos em 2003, dizem que os árbitros podem aceitar «recordações do jogo como bandeiras ou réplicas das camisolas das equipas».

Pode ser uma mera discórdia semântica, mas a camisola de Eusébio não é uma recordação do jogo que o árbitro arbitrou. É uma recordação de Eusébio, da história do Benfica. Não é uma camisola que tenha sido usada no jogo (ou uma réplica) que o árbitro arbitrou. Por exemplo, o Nacional da Madeira admitiu que às vezes dá camisolas aos árbitros, tal como o Marítimo. Mas dá camisolas do dia do jogo, de modo a que os árbitros possam recordar aquele dia, aquele jogo, onde foi utilizada aquela camisola. Não oferece uma réplica de uma camisola com 50 anos, que ainda por cima está à venda pelo clube por quase 60 euros.

O Ministério Público só tem a fazer uma coisa: encontrar provas de que o Benfica oferece, de facto, este kit aos árbitros. Como já várias personalidades ligadas ao clube, ou com conhecimento de causa, admitem que sim, então caso encerrado, pois nem os Termos Gerais e Condições para a Arbitragem da UEFA, nem as Normas e Instruções para Árbitros da FPF defendem a prática do Benfica. Pelo contrário, é ilegal.

PS: Conforme era previsto aqui, o Benfica vai ficar caladinho, à espera que a chuva passe, pois sabe que não tem como se defender e a única esperança é ver Bruno de Carvalho dar mais um tiro no pé. Mas a versão oficial passada ao jornal A Bola é simplesmente hilariante e capaz de fazer corar qualquer benfiquista: «Demasiado baixo para ter resposta». Diria, isso sim, «demasiado apertado para se atrever a abrir a boca».

PS2: Notem o pânico da TVI/PRISA/Media Capital a tentar apagar todos os vídeos do Youtube do último programa. Tem piada, as palhaçadas virais de Manuel Serrão, inclusive críticas com tom algo inapropriado a Lopetegui, continuam todas online e nunca ninguém se importou de reclamar direitos de autoria. Com as denúncias de Bruno de Carvalho ao Benfica, por incrível coincidência, os vídeos não duraram muito tempo online. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Estratégia, jantares e a honra do visado

A SportingLeaks começou a publicar documentos a 29 de setembro. Se há algo que Bruno de Carvalho faz bem é chamar a si as atenções e arranjar centros mediáticos alternativos. Então, era necessário algo forte para abafar um pouco o boom da SportingLeaks. Que fez ele? Foi ao prolongamento, da TVI24, para uma peixeirada com Fernando Santos e para entreter o povo. E já não se fala de outra coisa.

«Diz que disse»
É, infelizmente, mais uma injeção de populismo barato e inconsequente. A palavra de Bruno de Carvalho no futebol português já não tem valor, nem credibilidade, sobretudo após a forma como a CII da Liga geriu o desfecho do dossiê Liga Aliança. Bruno de Carvalho fez acusações, o Benfica manteve-se em silêncio, as instâncias disciplinares convidaram Bruno de Carvalho a apresentar provas... E o presidente do Sporting disse que não as tinha. Tiro no pé.

Ora o mais provável é que aconteça exatamente o mesmo nesta história dos 250 mil euros em jantares/prendas/incentivos para árbitros. Reparem na subtileza de Bruno de Carvalho: diz que foi uma história que lhe transmitiram «de forma anónima». Hilariante. O dirigente da verdade desportiva e transparência, que preza pelo rigor, num tema em que poderia estar patente o aliciamento a equipas de arbitragem, resume tudo isto a um diz que disse. E nem sabe quem disse, foi anónimo. E logo num programa onde qualquer comentador pode dizer qualquer baboseira ileso de consequências.

E agora, Bruno de Carvalho terá provas dos jantares de 500 ou 600 euros [se calhar é por isto que o Carrillo não quis renovar, porque ninguém lhe oferecia um manjar deste valor]? Claro que não. E quando, ou se, as instâncias de inquérito lhe convidarem a apresentar provas, vai dizer que não as tem, que foi simplesmente o que lhe transmitiram. Absurdo.

Que faz o Benfica? Vai ficar calado, certamente. Bruno de Carvalho não iria fazer uma afirmação daquelas sem ter o mínimo de conhecimento, o que é um facto, mas falta provar os valores em causa e as ofertas que transcendam os limites dos estatutos de anti-corrupção da UEFA. O Benfica não vai apresentar queixa nenhuma na PJ porque sabe que se ficar calado ninguém lhe tocará. Mais, se por acaso a CII abrir um inquérito, o que vão fazer não é questionar o Benfica: vão é pedir a Bruno de Carvalho para fundamentar as suas acusações. Como Bruno de Carvalho não o conseguirá fazer, colocam um segundo ponto: o da honra do visado. Perguntará ao Benfica se se sentem ofendidos com as acusações e se querem reagir judicialmente. O Benfica, que já aprendeu com o caso Liga Aliança, já sabe que só tem que ficar caladinho e deixar Bruno de Carvalho enterrar-se mais uma vez. Não deveria ser assim, mas é assim que provavelmente será.

Independentemente do mais que esperado desenrolar o caso, só é admissível que as instâncias oficiais peçam e apurem todas as responsabilidades. Alguém tem que ser punido desta vez. Ou o Benfica por práticas potencialmente ilícitas, ou Bruno de Carvalho por difamação e afirmações infundamentadas que colocam em causa a verdade desportiva. Não há que ser ingénuos, presentes a árbitros é uma prática com vários anos, possivelmente tocável a todos os clubes. O Sporting até homenageou Pedro Proença, já depois do fim da sua carreira, coisa nunca vista em Portugal: homenagem declarada de um clube a um árbitro, com direito lembrança e tudo.

Mas o que está em causa é a questão do valor máximo admissível. Já todos estão a propagar as recomendações da UEFA, os tais 183 euros (que eram sensivelmente 120 euros quando o estatuto foi criado, mas o câmbio fez o valor disparar). Mas cá vai uma lembrançinha: o Conselho de Arbitragem pertence à FPF. E a posição da FPF face a este tema difere da da UEFA.

A FPF enviou em 2008 um comunicado a explicar aos árbitros que ofertas podem ou não aceitar. A FPF esclareceu que os árbitros só podiam aceitar recordações dos clubes «sem valor comercial». Ou seja, não se referiu a nenhum limite de 200 francos ou equivalente. Aliás, nem sequer fala na possibilidade de jantares. A FPF fala em «emblemas, galhardetes, miniaturas de camisolas, medalhas comemorativas ou lembranças regionais», e avisou que todas deveriam ser declaradas à FPF.

E não está?
Ora, os árbitros declararam as ofertas que receberam do Benfica? Mais importante: o Benfica fez alguma oferta antes do jogo (os regulamentos só o permitem após as partidas)? E os valores dos presentes praticados, quais foram? Houve valor comercial nas ofertas envolvidas? Este é o tipo de questões cujas respostas deveriam ser apuradas num futebol sério.

Por outro lado, o historial dos presentes a árbitos a envolver o Benfica é de impunidade. Todos gostam de falar do Apito Dourado, mas por uma ou outra razão esquecem-se convenientemente da parte que lhes toca. Recordemos o caso do cristal. Em 2008, Rui Silva foi inquirido a propósito de ofertas que terá recebido antes de jogos a envolver o Gondomar... e o Benfica. E disse o seguinte: «As mais valiosas foram um fio de ouro e um cristal que me deram no Estádio da Luz, uma vez que foi a primeira vez que apitei um grande.» Aprígio Santos, na altura presidente da Naval, disse que «no melhor pano cai a nódoa» e que «há muita gente que fala, mas devia estar calada». O alvo era Luís Filipe Vieira e o Benfica, que davam tudo para o Apito Dourado acabar em Leiria e afundar o FC Porto. A CD ficou de apurar o caso. Vale a pena dizer o resultado da investigação?

Mas o caso mais célebre foi quando António Ribeiro, o ourives que passou a fabricar as peças em ouro para oferecer aos clubes, explicou que a relação comercial que mantinha começou num Benfica x Gondomar, em 2002, e que entre as peças solicitadas pediram-lhe para gravar dois nomes (ambos negaram-lo): António Taia, árbitro que foi afastado da primeira liga logo na época de estreia, em 2002-03, após ter estado no Benfica x Gondomar, e Nuno Almeida, o curioso árbitro que só era chamado para arbitrar no Estádio da Luz. Os seus 10 primeiros jogos a envolver o Benfica foram todos na Luz. Ao 11º... foi para campo neutro, o Arouca x Benfica, em Aveiro. Quando comparamos com o historial de João Capela (nos últimos 12 jogos com o FC Porto, 11 foram fora do Dragão), dá que pensar.

Agora o mais importante para as instâncias do futebol português será certamente ter a certeza de que a honra do visado não foi atingida. Em 2011, pelo jantar de Pinto da Costa com o árbitro do Villarreal x FC Porto negado pelo presidente, até a Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação para apurar o sucedido, mesmo sendo uma prova da UEFA (pois, não seria muito moralizador para o Benfica, caso eliminasse o SC Braga, encontrar o FC Porto dos 5x0, da festa às escuras na Luz e da reviravolta na Taça - havia que tentar). Isto por causa de um alegado jantar que o próprio Pinto da Costa desmentiu prontamente. 

E agora, a propósito de «28 jantares por jogo», «40 jantares por época», com «quatro árbitros, dois  delegados e observador», a envolver custos de «500 a 600 euros», na maior competição nacional e com o Benfica em silêncio e quietinho à espera que a chuva passe? Alô, PGR?

PS: A conta @imbulagiannelli no Twitter é falsa e não pertence a Imbula. Se possível ajudem a denunciar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Retificação, precisa-se

A propósito destas palavras de Julen Lopetegui: «Não me parece correto jogar-se num estádio que não o nosso, a não ser por motivos de força maior. Não se pode eleger onde se joga dependendo do potencial do adversário. Todos têm que jogar com as mesmas condições. Isso parece-me inegociável e ilógico».

Em causa, como sabem, está o facto do Arouca ter jogado em Aveiro contra o Benfica e de agora ir jogar no Estádio Municipal do concelho contra o FC Porto. E há aqui uma aparente falha de comunicação grave entre estrutura e treinador. 

O FC Porto tem que partilhar objetivos entre todos os seus pares, mesmo que isso não signifique partilhar as mesmas convicções e ter uma total comunhão de ideias. Por outro lado, estas queixas de Lopetegui foram um tiro ao lado. Por estas razões:


Estas foram alterações que foram discutidas e votadas em Assembleia-Geral. A partir desta época, cada clube pode escolher um estádio alternativo para cinco jogos. É uma medida interessante para clubes que necessitem de potenciar receitas quando jogam contra os três grandes, por exemplo. Só há um problema: o clube escolhe os jogos que muito bem entender.

Por exemplo, o Tondela já avisou a Liga de que vai defrontar Benfica e FC Porto em Aveiro. O União também indicou o Estádio da Madeira para esse efeito. Já o Arouca preferiu indicar apenas o Benfica. 

Há uma desvantagem competitiva? Há, claramente. Mas é algo que está previsto nos regulamentos. Regulamentos esses que o FC Porto teve a oportunidade de discutir em Assembleia-Geral da Liga. E a nova fornada de regras, que incluía a proibição de os jogadores emprestados jogarem contra o clube-mãe e a reformulação do quadro competitivo, foi aprovada.

Alguém esqueceu-se de avisar Lopetegui de que o FC Porto esteve na Assembleia-Geral que ditou que o Arouca podia, perfeitamente, jogar contra o Benfica em Aveiro e contra o FC Porto no batatal municipal? Há um desentendimento claro nas palavras de Julen Lopetegui.

Esta não deveria ter sido a antevisão onde o FC Porto se queixa por ir jogar a Arouca e o Benfica a Aveiro. Esta deveria ter sido a antevisão em que Lopetegui afirmava, com força, que o FC Porto ganha em qualquer campo, com ou sem facilidades de estádio neutro. Marcar uma posição de força. Não deixar de apelar à massa associativa para deixar o Municipal de Arouca a rebentar pelas costuras. Cativar os adeptos, determinar os jogadores.

Ilógico, para recuperar a expressão de Lopetegui, é lamentar uma situação que está prevista em regulamentos que foram apreciados pelo FC Porto. Foi uma má escolha de palavras, uma falha de comunicação, mas perfeitamente superável: basta ganhar ao Arouca. Uma demonstração de força futebolística e associativa, que ateste que o FC Porto é uma equipa a ser temida em qualquer campo, com mais ou menos adeptos, com mais ou menos espaço para jogar e para a bola rolar. 

A ser abordado um problema, seria este, que é mais um exemplo do padrão que desmente todas as diretrizes do Conselho de Arbitragem. Agora, contestar regulamentos que foram aprovados?

Que o final do jogo seja a oportunidade para Lopetegui dizer o que não disse antes: o FC Porto é sempre a mesma equipa em qualquer campo. Uma equipa que só descansará quando recuperar o título de campeã.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Habemus presidente

A entrevista de Pinto da Costa a O Jogo foi o prólogo da vitória de Pedro Proença nas eleições da Liga. E podemos começar por aqui: é uma ótima solução. Tem o perfil ideal, ironicamente até mesmo por ter sido árbitro - vai ter muitos, muitos conflitos e discórdias para mediar e vai colher ódios de diversas facções.

A Liga não está no centro de poder de decisão no futebol português, mas é a entidade que representa os clubes. Logo, era essencial ter na sua liderança alguém íntegro, competente, que não chega onde chega por subserviência, que percebe de futebol e gestão.

Pedro Proença foi uma pessoa que sempre fez por merecer respeito no panorama do futebol português. Pela ignorância de milhares de pessoas, muitas vezes foi dado como principal culpado pela derrota do Benfica contra o FC Porto no clássico do «golo do Maicon». É preciso imensa burrice ou má fé para culpar Pedro Proença por isso, tendo em conta que o erro, que existiu, foi do auxiliar Ricardo Santos. Mas o facto de Pedro Proença ter chamado a si próprio a responsabilidade mostra desde logo que tem o perfil ideal na Liga: não tem medo de responsabilizar-se por erros que não comete, notando que se a sua equipa erra, ele erra. Assim se forma um bom líder.

Ser adepto do Benfica não importa. De lembrar que o próprio presidente Pinto da Costa foi presidente da Liga. Fernando Gomes é portista e, apesar de ter sido um bom dirigente do FC Porto, tem sido um mau presidente da FPF para o futebol português - mas há quem tenha mais razões de queixa do que outros. A competência não tem clube. 

Pedro Proença tem o perfil ideal para presidir à Liga. Resta apresentar trabalho que sustente a escolha. Em termos de propostas, há as novas tecnologias de arbitragem a implementar, naming para a segunda liga, regulamentar as apostas online, aumentar as receitas e fomentar a sustentabilidade dos clubes - os dois últimos serão os maiores desafios do programa. Outro aspeto a merecer total atenção é ver que passamos de um ex-presidente anti-Olivedesportos (Mário Figueiredo) para um que tinha o apoio de Joaquim Oliveira. Para já fica a nota. Boa sorte, meu querido.

Passando à entrevista de Pinto da Costa, eis os destaques.

Um lateral de 30M€
Alex Sandro. Excelente notícia a garantia de que vai renovar. Dos três grandes, o FC Porto é o que perdeu mais titulares: Danilo, Casemiro, Óliver e Jackson, e ainda podemos incluir Quaresma e Fabiano. Temos a aposta da continuidade no treinador, mas há muito no futebol e nos métodos de Lopetegui que tem que ser melhorado e, em alguns aspetos, mudado. Basta lembrar o que se passou na última vez que o FC Porto jogou sem os dois laterais dos últimos anos: goleada em Munique.

Um misto de audácia, coragem e risco confirmar que recusou 30 milhões por Alex Sandro. Porque isso vai elevar a expetativa face à mais do que provável transferência no próximo verão. Alex Sandro deixou de ser o lateral dos quase 10M€: passou a ser o lateral dos 30M€. Só me lembro de dois laterais esquerdos vendidos dentro desse valor, Coentrão e Luke Shaw. É realista pensar em Alex Sandro com valor de mercado de 30M€ daqui a um ano? Se a sua continuidade ajudar o FC Porto a atingir os seus objetivos, uma eventual descida no preço valerá a pena; mas para o FC Porto atingir os seus objetivos, muito provavelmente necessitaremos de um Alex Sandro tão bom ou melhor do que no último ano. Um paradoxo com o qual nos devemos preocupar mais tarde. Até lá, metam lá Rafa a rodar numa equipa de primeira liga, ok?

Políticos. Ver políticos no futebol cheira a esturro a Pinto da Costa. Escolha de palavras algo discutível, tendo em conta que escolheu Fernando Gomes para pegar na pasta das finanças da SAD. Não é que o responsável financeiro tenha que ser um génio da tática - Angelino Ferreira não o era -, e uma estrutura pressupõe que diferentes competências se complementem. Mas que era evitável, era, ainda que a intenção tenha sido arrumar com Luís Duque.

Descartado em 2011-12
Rafa. Faz todo o sentido descartar a sua contratação. Não tanto pelo absurdo que era pedir 10M€ por metade do seu passe, mas sim por se tratar de um jogador que, quando estava no Feirense, recebeu vários pareceres positivos do departamento de scouting e o FC Porto, mesmo no ano de criação da equipa B, descartou a sua contratação. Nem iria ser uma contratação para o 11 ou que iria melhorar fracamente o plantel no curto prazo. Neste momento, só faz sentido ir ao mercado para contratar soluções mais experientes e/ou melhores para o curto prazo do que as que já se encontram no plantel. Vale também para o ponta-de-lança, claro.

Camisolas. «Não somos vendedores de camisolas». Ok, não somos. Mas quando temos um jogador com o mediatismo de Casillas, faz todo o sentido pensar em sê-lo. O próprio FC Porto ganhou grande apreço em mercados como México ou Colômbia. O FC Porto só tem a ganhar em pensar em expandir o seu mercado de vendas e merchandising. De notar que não se falou do patrocínio. Porquê? Provavelmente porque Pinto da Costa não quis falar disso. À atenção de Helton, a propósito do seu silêncio ruidoso para com Lopetegui.

Casillas. Pinto da Costa diz que Casillas ganha tanto como Fabiano e Andrés Fernández juntos. Então, desportivamente de facto foi bom emprestar os dois guarda-redes para arranjar espaço para Casillas. Resta saber se Granada e Fenerbahçe vão pagar os seus salários na totalidade. De qualquer forma, o aspeto mais relevante aqui é questionar como é que Fabiano e Andrés tinham salários tão altos, fazendo fé que Casillas custará 2,5 milhões limpos esta época. Fabiano tinha meio ano de titularidade quando renovou até 2019 - meia época depois foi dispensado. E Andrés foi contratado por um valor baixo, nunca jogou no campeonato, um ano após chegar foi emprestado e ainda assim também tinha, aparentemente, um salário alto. Assim se explica uma folha salarial de 70M€.

Para terminar, o aspeto mais curioso. O FC Porto precisa de um médio criativo? Sim. Danilo Pereira é um médio criativo? Não. Imbula é um médio criativo? Não. Então por que é que as contratações de Danilo e Imbula fizeram, segundo Pinto da Costa, com que Lucas Lima deixasse de ser essencial? Well played. 

PS: Gonçalo Paciência renova e segue para a Académica. Era essencial jogar com regularidade esta época. Um jogador que esteja no 3º ano de sénior tem obrigatoriamente que estar numa primeira liga, caso contrário torna-se difícil evoluir no sentido de jogar no FC Porto. É melhor do que Rabiola, é melhor do Rafael Lopes. É também menos experiente, mas é para isso que vai para a Académica: acumular experiência, golos e prosseguir a sua evolução. Esperemos que o futebol de José Viterbo seja algo mais do que jogar para o pontinho e na raça e que ajude Gonçalo a evoluir. Ficamos à tua espera. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Tapar o sol com o Pereira

O jornal Record é por estes dias uma espécie de pronto-socorro para algumas instâncias do futebol português. Foi por exemplo o único jornal a avançar com a notícia de que a Comissão de Instrução e Inquéritos da Liga abriu um inquérito para investigar a Liga Aliança (alguns posts sobre o tema aqui). Duas semanas depois, alguém voltou a ouvir algo sobre isso? E se não fosse o Record, ouvir-se-ia algo sobre isso? E vai voltar-se a ouvir algo até ao fim do Campeonato, altura em que devem anunciar a brilhante decisão de arquivar o processo?

Lavar as mãos
E agora o Record até serve para o presidente do Conselho de Arbitragem, que tanto tempo andou calado, ter duas páginas inteirinhas para escrever o que quiser. Repare-se que não foi sequer uma entrevista. Será que foi para fazer um balanço das arbitragens do campeonato? Ah não, isso só foi feito uma vez. Em 2010-11, época em que o Benfica ficou a 21 pontos do campeão, mas à 5ª jornada estava repleto de queixas. O responsável pela arbitragem prometia fazer um balanço a cada 5 jornadas. Tendo em conta que na 10ª jornada o Benfica levou 5 no Dragão e ficou a 10 pontos da liderança, subitamente todos acharam que não valia a pena dar mais conferências.

Então para que aproveitou Vítor Pereira o seu espacinho no Record? Para sacudir culpas. Para responder indirectamente ao presidente do FC Porto. Para dar provas de que o próprio Vítor Pereira, querendo justificar que o sistema de nomeações de árbitros tem lógica, acaba por dar um argumento que diz precisamente o contrário.

Atentos ao sistema de nomeações já aqui analisado. Diz o sr. Vítor Pereira que as nomeações têm em consideração a «graduação de Normal, Médio e Difícil» quanto à dificuldade de cada jogo, tendo sempre em conta «a classificação, a rivalidade e factores recentemente ocorridos». E diz que para os jogos de «dificuldade acrescida» devem ser nomeados «árbitros internacionais ou classificados até ao 12º lugar da época anterior».

Meus senhores, que tipo de dificuldade devemos atribuir a um jogo entre: 1) os líderes do campeonato, invictos; 2) dois históricos da primeira liga; 3) num estádio reconhecidamente como um dos mais hostis do campeonato português e com uma das massas adeptas mais fervorosas; 4) numa jornada seguinte a um derby onde 2 dos 3 grandes do futebol português perderam pontos? Normal, médio ou difícil? Muito simples: o Guimarães x FC Porto da 4ª jornada era um jogo de alta dificuldade.

Então o que faz o Conselho de Arbitragem? Nomeia o 15º árbitro do ranking da época anterior. Onde está o critério e lógica nisto, sr. Vítor Pereira? Pinto da Costa só teve razão nas suas declarações e o presidente do CA mostrou a incapacidade de responder à altura e encontrar uma justificação. Duas páginas completas e nem uma linha serve de argumentação.

Mais, Vítor Pereira realça que os clássicos foram todos apitados por árbitros interacionais. Isto é a mesma coisa que uma companhia aérea se gabar por os seus aviões voarem: não é algo que mereça destaque porque é mais que lógico e obrigatório que assim o seja. Os árbitros internacionais têm que apitar os clássicos, porque os internacionais são os melhores (e vai ser esse o argumento quando Duarte Gomes for chamado)... Ah, esperem, já não é assim. Não é assim a partir do momento que árbitros que nunca apitaram os 3 grandes são, com 1 ou 2 jogos de primeira liga, promovidos a internacionais. Ora o que é que o sr. Vítor Pereira diz sobre esta questão? Nada. Duas páginas inteirinhas no Record, só para ele, e nem uma palavra sobre isto.
O incendiário a queixar-se
do escaldão

Os critérios e a legitimidade do Conselho de Arbitragem estão feridos de morte. Não há coerência, rigor ou lógica em várias nomeações e nas promoções a árbitros internacionais. Vítor Pereira preocupou-se não em avaliar e identificar o que de mal tem sido feito, mas sim em lavar as mãos, escudando-se em regulamentos que nem sequer segue. Um exemplo de uma personagem do futebol que está mais preocupado em defender o seu cargo do que a integridade e transparência da competição pela qual devia lutar. A vergonha não se vende nas farmácias, mas é um sentimento que muitos não deviam hesitar em abraçar.

Dito isto, vamos às palavras de João Gabriel Jorge Jesus, que com a ironia dos pobres preocupou-se que pudessem achar que o Benfica foi beneficiado por ter jogado contra 10 em Arouca. Esta estratégia de querer tapar o sol com a peneira tem a sua piada, mas acima de tudo dá pena.

O Benfica até podia acabar todos os jogos a jogar contra 7. Isso não significa que foi beneficiado. Por isso insiste-se que andar a contar todas as expulsões só faz com que se perca a razão na hora de argumentar. O que interessa não é o número de expulsões, mas sim se os lances foram bem ou mal ajuizados.

O jornal As seguiu a sua linha editorial e voltou a dizer que o campeonato português está comprometido pelas arbitragens (se calhar agora o director de comunicação do Benfica vai tentar escrever na Marca). É bom ver a imprensa estrangeira retratar aquilo que é abafado em Portugal. Mas o As dá o mais disparatado dos argumentos: «O dado mais evidente é que o Benfica já recebeu 9 expulsões a favor em 23 jogos». Mas o que interessa se foram 9, 19 ou 90? Isso não quer dizer nada. Importante é perceber quantas expulsões foram bem ou mal mostradas, e ver se há um critério que seja seguido em Portugal. E o que se vê? Discrepância de critério. O árbitro Vasco Santos expulsa (no meu entender bem) Hugo Basto quando Lima se ia isolar, ainda fora da grande área. E num recente FC Porto x Paços, num lance já dentro da grande área, Hélder Lopes só vê amarelo. Cada árbitro tem o seu critério, certo, mas as diretrizes do CA são iguais para todos. Se não são, é apenas mais um falhanço no consulado de Vítor Pereira.

Hoje o Benfica até foi prejudicado, e em mais do que um lance, e teve o mérito de evitar que pela primeira vez perdesse pontos por erros de arbitragens (contra este Arouca não era de esperar outra coisa). Mas foi a história de um jogo. Uma história que não muda nada em relação às 23 jornadas restantes

Por muito que Jorge Jesus queira queixar-se que lhe romperam o casaco, a verdade é que o Benfica e agentes desportivos como o sr. Vítor Pereira já despiram a verdade desportiva desta época. E depois disto tudo, nós, FC Porto, continuamos na luta, de pé, e terça-feira voltaremos a mostrar porque é que continuamos na Liga dos Campeões. É que na Champions não há quem nos fure os pneus, nem quem leve outros a reboque. Uma brisa de 87 no ar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um colinho que até atropelou os regulamentos da FIFA

Este é um novo tipo de colinho. O colinho que faz com que profissionais sem provas dadas cheguem onde só deveriam chegar os melhores. O colinho que pula as necessárias demonstrações de competência para conferir um estatuto de elite a quem só tem dado provas do contrário. Com isto chegamos a Tiago Martins, um jovem árbitro na ordem do dia, que tem sido muito criticado por adeptos do FC Porto.

Caros portistas, é hora de fazer mea culpa e reconhecer que estamos perante um valor de elite da arbitragem. Tiago Martins é não só uma promessa da arbitragem portuguesa como também a nível mundial. É tão bom que reparem que o Conselho de Arbitragem decidiu atropelar os regulamentos da FIFA e levar dois jovens árbitros ao colinho até ao estatuto de árbitros internacionais.


Este é o regulamento da FIFA para o licenciamento de árbitros internacionais. E diz que todos os árbitros «devem ter arbitrado regularmente na principal divisão do seu país durante pelo menos dois anos». Ora à data em que foi promovido, Tiago Martins tinha... dois jogos na primeira liga. Bem, dá a média de um jogo por ano, deve dar para passar. Portugal é o único país que promove árbitros estreantes na primeira categoria a internacionais.  Os navegadores devem estar orgulhosos com este pioneirismo.

Mérito: zero
Tiago Martins, da Associação de Futebol de Lisboa e filho de um ex-árbitro bem conhecido de Vítor Pereira, só chegou este ano à primeira categoria, por isso foi promovido contra aquilo que consta dos estatutos da FIFA. Ainda não arbitrou um único jogo de Benfica, FC Porto e Sporting na primeira liga e já é um árbitro internacional.

Isto torna-se ainda mais interessante sabendo quem era o principal favorito a ser promovido a internacional: Manuel Oliveira, do Porto. Um árbitro com quem curiosamente os 3 grandes nunca perderam pontos. Mas por milagre da santa, decidiram promover um árbitro que em Maio andava a apitar jogos dos juniores (!!!). Qual é a lógica? Bem, garante-se que assim a APAF continua a ter o dobro de árbitros internacionais de Lisboa em relação aos do Porto.

Diz o Conselho de Arbitragem que Pedro Proença também era jovem quando foi promovido. Tinha 32 anos,  recordam. Que bela desculpa esfarrapada, pois Pedro Proença já levava 5 anos de primeira categoria a arbitrar quando foi promovido. Tiago Martins? Ainda nem um jogo grande arbitrou. 

Para já, é isto que temos de amostra:
22-03-2014, OJOGO
25-02-2015, OJOGO (Oriental 3 x 0 FC Porto B)
28-01-2015, OJOGO (Taça da Liga)
Porque os mais pequenos também têm o direito de se queixar e serem ouvidos
É este o trabalho que o jovem internacional Tiago Martins tem apresentado em Portugal. Claramente, está a merecer um joguinho grande na primeira liga muito em breve, aí nas próximas 2 ou 3 jornadas. Place your bets.

Mais. O excelentíssimo Tiago Martins já arbitrou 5 vezes o FC Porto B. E o FC Porto B não ganhou nenhum desses jogos. Perdeu 4 e empatou 1. Foi culpa do árbitro? Seria demagogo afirmar isso. Mas que é um belo currículo, lá isso é. Sobretudo tendo em conta que o Sporting B ganhou todos os jogos com ele (3/3) e o Benfica B ganhou 2 e perdeu 1.

Além de Tiago Martins, também Fábio Veríssimo foi promovido sem qualquer experiência e provas dadas. Fun fact: em Novembro apitava nos distritais. Um mês depois, foi promovido a árbitro internacional, também em detrimento de Manuel Oliveira. O currículo com o FC Porto B também é promissor: em 4 jogos, apenas uma vitória.

Sistema de nomeações sem critério, promoção a internacionais sem justificação lícita e contra as normas da FIFA, árbitros que tombam a balança dos erros para o mesmo lado, árbitros que só servem para arbitrar alguns clubesum CA e uma FPF que continuam a assobiar para o lado, e ainda um presidente do CA que prefere passar uma manhã inteira no Seixal, na calorosa companhia de Luís Filipe Vieira, em vez de dar a cara por todas estas situações enumeradas. Bem vindos ao futebol português, ou como alguém disse, à Liga Wrestling: todos sabem que é a fingir, mas continua a entreter muita gente e há quem ache que é real.

Substituir «Wrestling» por «futebol português»
Senhor Vítor Pereira e demais vices e vogais do Conselho de Arbitragem: façam um favor ao futebol português, o que resta dele, e demitam-se.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mudanças necessárias e escolhas por catálogo encarnado

A parte mais relevante e pertinente da entrevista de Pinto da Costa ao jornal O Jogo está na questão das nomeações. Não coloca em causa o valor e o desempenho dos árbitros, como estava perfeitamente no direito de o fazer, mas sim os critérios para as nomeações. Vale a pena citar.

«O mal não está nos árbitros, está no critério das nomeações. Repare que chegámos ao final da primeira volta e o senhor Manuel Mota tinha arbitrado três jogos do FC Porto. Três! E havia vários internacionais que não tinham apitado nenhum. Parece-me um critério difícil de justificar, para dizer o mínimo. Aliás, já pedi uma justificação para isto e não ma deram. Depois, há jogos como um Vitória de Guimarães x FC Porto, um Vitória de Guimarães x SC Braga, um SC Braga x Benfica ou um Sporting x Vitória de Guimarães. São jogos que devem merecer a escolha dos árbitros que possam dar mais garantias. Repare que o Vitória de Guimarães x FC Porto da primeira volta foi disputado numa altura em que os dois clubes era líderes, com 9 pontos. Portanto, a priori, deveria ter sido escolhido um dos árbitros mais conceituados. Ora, o árbitro desse jogo foi justamente o senhor Paulo Baptista, que tinha descido de divisão. Um mês ou dois antes do jogo, ele desceu de divisão. (…) À quarta jornada, o árbitro que desceu e foi repescado e ficou acima da linha de água foi apitar o jogo entre dois líderes do campeonato. Qual é o critério de uma escolha destas? É por isso que sou um defensor de um regresso a um sorteio condicionado. Se houvesse sorteio, naturalmente já teríamos sido apitados por árbitros internacionais e o senhor Manuel Mota não teria feito, em meio campeonato, três jogos nossos».

O porquê do SLB querer
a nomeação directa
E então Pinto da Costa sugere um regresso ao passado: sorteio. Uma ideia que merece todo o apoio e que faz todo o sentido. Ao fim de quase ano e meio de profissionalização da arbitragem, a única coisa que se conseguiu foi que Rui Santos, o dono do espaço de opinião que mais vezes associou o mérito desportivo do FC Porto (47 troféus em 25 anos - um arquivo bem modesto) aos bastidores do sistema, dissesse isto.

Já não se trata de questionar a qualidade dos árbitros, mas sim as nomeações. Quais são os critérios? Toda a análise de Pinto da Costa é sustentada e pertinente. Sim, o regresso às nomeações já a partir de 2015-16 deve ser defendido. Sobretudo porque não hão-de faltar vozes a insurgir-se contra isto.

A saber. A Liga decidiu avançar para a nomeação directa em 2003. Decisão aprovada pela maioria, mas alguns clubes rejeitaram. Casos de FC Porto, Sporting e Guimarães. O Benfica apoiou a nomeação directa. Durante dois anos, as nomeações eram sistematicamente questionadas, por isso em 2005 voltou a propor-se o regresso ao sorteio. Só um clube queria continuar nas nomeações directas: o Benfica (o Beira-Mar não votou na altura por estar em mudança directiva). Algo que ajuda a explicar a faculdade de Luís Filipe Vieira ter podido escolher um árbitro por catálogo no processo Apito Dourado, em 2004, para uma meia-final da Taça de Portugal. Ao menos que tenha tido a cortesia de oferecer pequeno-almoço ao major.

Na altura, a nomeação directa tinha uma vantagem: era possível nomear os melhores árbitros para os maiores jogos. Era suposto os árbitros melhor classificados serem premiados com as nomeações para os clássicos, os derbys e os jogos que interferissem na luta pelo título e nas qualificações para a UEFA. Ora o que se vê, conforme é dito por Pinto da Costa, é que esse critério deixou de existir. A nomeação directa deixou de fazer sentido a partir do momento em que não há critério lógico para os grandes jogos.

O que se vê são árbitros não internacionais que apitam 3 vezes um grande na mesma volta. Árbitros que nos últimos 3 anos só arbitraram 1 dos 3 grandes e, coincidentemente, quase só são chamados para jornadas de alta dificuldade (ler mais aqui), ou árbitros que basta serem uma vez condenados publicamente por um dirigente de um grande e desaparecem do mapa das nomeações para esse clube. Isto aplica-se a todos os árbitros, a todos os clubes. Se um árbitro não serve para arbitrar um determinado clube, então não devia servir para arbitrar nenhum jogo.

Além da nomeação directa ter perdido a sua lógica, não há justificação possível para o facto de Tiago Martins ter sido promovido a árbitro internacional sem nunca ter arbitrado os 3 grandes. E logo na primeira amostra, na Taça da Liga no Dragão, mostrou porque é que há um ano estava na segunda categoria, não porque chegou a internacional. Não faz sentido nem há justificação possível.

Capela: há 1080 minutos sem sofrer
João Capela, árbitro com quem o Benfica nunca perdeu e com quem em 12 jogos nunca sofreu golos (não há-de faltar muito para bater o recorde de Mazaropi), foi nomeado para arbitrar numa jornada extremamente importante na luta pelo título. O 18º árbitro do ranking da época passada a arbitrar uma reedição do jogo onde o Benfica, em 2012-13, começou a deixar escapar o título. Qual o critério do CA da FPF?  

Porque é que foi nomeado um dos piores árbitros de 2013-14 para arbitrar o Benfica quando Jorge Sousa ou Marco Ferreira, dos melhores do ranking da época passada, vão arbitrar jogos de equipas que lutam para não descer? Onde está o critério da nomeação directa que defendia os melhores árbitros para os maiores jogos?

Artur Soares Dias foi nomeado para o FC Porto x Sporting. Já arbitrou as duas equipas esta época e fez globalmente boas arbitragens nos dois jogos anteriores entre FC Porto e Sporting. Esta foi a apreciação feita pelo painel do jornal O Jogo antes do clássicos anteriores:

18-04-2011 (FC Porto x Sporting, 3-2)

Os únicos erros apontados por unanimidade por Jorge Coroado, Pedro Henriques e Paulo Paraty são um fora-de-jogo mal assinalado a Varela e uma falta mal assinalada sobre Helton num choque com Guarín. Nada com interferência no resultado.






28-10-2013 (FC Porto x Sporting, 3-1)

O único erro apontado por Jorge Coroado, Pedro Henriques e José Leirós é um cartão amarelo mal mostrado a Iván Piris.






Ideal? Não, mas este curto historial, juntamente com uma classificação minimamente aceitável em 2013-14, ajuda a justificar a nomeação directa. No jogo do líder, que será um enorme interessado no resultado do clássico, não. Então se a lógica de nomear os melhores árbitros para os melhores jogos não é cumprida, que se regresse ao sorteio.

Como é claro, não se pode misturar todos os árbitros da primeira categoria no mesmo pote. Há que criar um sorteio condicionado, senão tanto podia aparecer Pedro Proença, o melhor árbitro português e agora retirado, como Bruno Paixão, que foi 20º há um ano. 

A solução proposta é criar escalões dentro da primeira categoria. Não se pode dividir entre internacionais e não internacionais, pois a promoção de Tiago Martins mostra que chegar a internacional não implica demonstrações prévias de competência nem experiência em jogos grandes.

Portanto, criar 3 ou 4 escalões (jogos de interferência em liderança/luta pelo título; jogos de competições europeias e metade superior da tabela; jogos entre equipas sem candidatura ao título ou à Europa) para os árbitros de primeira categoria, para condicionar o sorteio, seria o ideal. 

A mudança deve começar aqui
E para precaver o risco de árbitros com desempenho negativo serem sistematicamente nomeados, por sorte/azar, para o mesmo clube? Condicionar a repetição de nomeações, isto é, não permitir que árbitros que tenham tido uma nota anterior inferior a determinado valor (3,5 seria o ideal) possam ser nomeados para arbitrar a mesma equipa mais do que 2 ou 3 vezes na mesma época. A classificação final da época ajudaria a definir se os árbitros baixam ou sobem dentro do mesmo escalão da primeira categoria.

E o sistema de observações? Tempo de passar a incluir as imagens televisivas? Para quem não sabe, os observadores não avaliam os árbitros em função das imagens de TV. O sistema é simples: logo no fim do jogo, têm cerca de uma hora para enviar um SMS a Vítor Pereira ou ao representante secundário do CA com a nota para os árbitros, de 1 a 5.

Como a maioria dos erros graves (sobretudo os foras-de-jogo) só são perceptíveis a partir da TV, isso implica que os árbitros possam continuar a ter boas notas mesmo em jogos onde há erros graves de arbitragem, como vitórias por 1x0 a acontecer com um golo em fora-de-jogo. Isto desvirtua o sistema de avaliações. Há que criar um mecanismo para impedir que o mesmo assistente esteja associado a um acumular de erros neste tipo de avaliações, sobretudo porque grande parte dos erros de arbitragem são cometidos pelos auxiliares. Exemplo da ignorância que isto pode implicar é adeptos benfiquistas culparem Pedro Proença pelo clássico de 2011-12, quando na verdade o erro do golo de Maicon é de um auxiliar, não de Proença.

E acima de tudo, há que perceber que anular mal um golo por fora-de-jogo é mais grave do que validar um, isto porque as directrizes dizem que em caso de dúvida há que beneficiar a equipa atacante (isto é sempre ambíguo, porque na hora de decidir o árbitro tem que estar convicto da sua decisão, não ter dúvidas em função do estádio ou da cor da camisola). E enquanto adeptos de futebol, queremos golos e aceitamos o erro como parte deste desporto. Só não aceitamos o acumular de erros para o mesmo lado e a isenção face a tal. 

Avaliar o desempenho dos árbitros através da TV será sempre ponto de discórdia. Mostrem a mesma imagem a um benfiquista, a um portista e a um sportinguista e cada um deles vai ver uma coisa diferente, mediante o lance seja em benefício ou prejuízo para o seu clube. Mas se os erros só são detectados através da TV e os árbitros são avaliados em função da sua própria perspectiva e não em função das imagens, o sistema de avaliação demonstra que é tempo de uma reforma. Reforma essa que rima com Vítor Pereira e com os demais membros do Conselho de Arbitragem da FPF - que ironicamente tem a pasta da arbitragem, mas acha que ainda não foi pertinente reagir ao desvirtuar da competição esta época pelos senhores da bandeira e do apito. A utilização dos vídeos seria pertinente. Claro que Luís Filipe Vieira vai discordar, pois o Benfica votou contra esta proposta na mesma reunião em que era pedido o regresso do sorteio.

Que esta seja a única vez que é necessário falar de arbitragem até ao final da semana (até ao final da época já era pedir demasiado).

PS: O Record diz que a CII da Liga abriu o inquérito à manipulação de resultados proposta pelo presidente do Benfica ao presidente do Sporting, segundo disse Bruno de Carvalho. Num curto espaço de horas, José Eduardo Moniz e João Gabriel saem da toca e tentam de imediato desviar atenções para o FC Porto. Calma, meus senhores, não há motivos para estarem nervosos. Ou há?