quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Dez curiosidades sobre este arranque de época


- Sem golos sofridos e 100% vitorioso à 3.ª jornada: é a sexta vez que tal acontece na história do FC Porto. Sérgio Conceição junta-se a Pedroto, Robson, Oliveira, Villas-Boas e Lopetegui.

- Brahimi é o jogador que mais dribles completa na I Liga, com uma média de 4,3 por jogo. 

- Alex Telles é o jogador que mais cruza em bola corrida no campeonato (5,3/jogo) e o segundo jogador que mais situações de golo cria por jogo, com 4 por partida.

- Os dois jogadores mais rematadores da Liga dividem o ataque do FC Porto: Aboubakar (6) e Marega (5,3). 

- Iván Marcano é o jogador com mais duelos ganhos nas três primeiras jornadas, com um total de 21. 

- A dupla de centrais do FC Porto é a que mais lances de cabeça ganhou até ao momento: Felipe com 81% e Marcano com 76%.

- Felipe é o jogador que menos vezes foi desarmado nas três primeiras rondas: perdeu apenas uma vez a bola. 

- Aboubakar é o avançado que mais ocasiões teve para rematar na grande área, com 4,3 por jogo. 

- Três dos cinco jogadores que mais passes completam na I Liga são do FC Porto: Felipe (84%), Óliver (81,2%) e Danilo (87%). 

- O FC Porto é a equipa que mais tempo joga do meio-campo para a frente, com 79% do tempo útil de jogo, à frente do Sporting (76%). 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

De Alexandre II até ao FC Porto

1867: os EUA compram o território do Alasca por qualquer coisa como 7,2 milhões de dólares. Alexandre II pensara estar a fazer o melhor negócio da história da Rússia. Mal ele imaginava que estava a vender um território rico em ouro, petróleo e gás natural, que neste momento tem um PIB que ascende a 150 mil milhões de dólares. 

1962: a Decca Records concede a um jovem grupo de rock de Liverpool a oportunidade de fazerem a sua primeira gravação. Mas Dick Rowe, após ouvir o resultado, decidiu não avançar para a gravação do disco, alegando que as «bandas com guitarra estão a desaparecer». A banda chamava-se The Beatles e tornou-se, apenas e só, a mais bem sucedida da história.

1999: Larry Page e Sergey Brin tinham criado um motor de busca online e avistaram desde logo a oportunidade de fazer dinheiro. Propuseram então vender o produto à Excite por um milhão, mas a proposta não passou dos 750 mil dólares e o acordo não se concretizou. Esse motor de busca chama-se Google e é a marca mais valiosa do mundo.

2000: um serviço de streaming online chamado Netflix propõe-se a ser adquirido pela Blockbuster, a rainha do aluguer filmes, por 50 milhões de dólares. A Blockbuster ridicularizou o conceito de filmes online em detrimento de um suporte físico, por isso rejeitou o acordo. A Netflix hoje vale 61 mil milhões de euros. A Blockbuster decretou falência e fechou. 

2016: o FC Porto decide dispensar Aboubakar e comprar Laurent Depoitre. É tudo.





Servir os avançados (+) - Os avançados do FC Porto podem contar com uma coisa esta época: nunca lhes faltarão oportunidades para marcar. O sistema de jogo idealizado por Sérgio Conceição faz até com que já muitos vejam em Marega uma solução crível para atacar a época. E os golos são prova disso. No lance do 1x0, no momento em que Alex Telles cruza, estão quatro jogadores prontos para atacar a zona de finalização e três à entrada da grande área; no 2x0, a boa pressão na saída de bola resultou de pronto numa situação de quatro atacantes para apenas dois defesas do Moreirense - e quando assim é, se a bola não entra à primeira, entra à segunda ou terceira. Foram 27 remates, 55 bolas na grande área do adversário (34 das quais cruzamentos) e 18 ocasiões de finalização. Com este caudal ofensivo, a bola há-de entrar (ou quase sempre, pois não há época em que não apareça aquele teimoso jogo em que a redondinha não quis mesmo entrar). 

Aboubakar (+) - Letal no primeiro golo, oportuno no segundo, forte e determinado no terceiro. Aboubakar fez o seu primeiro hat-trick ao serviço do FC Porto e teve uma exibição completa, desta vez a jogar mais vezes pela meia direita do ataque. Trabalhou muito e bem longe da grande área, com uma exibição de fazer coçar a cabeça sobre se toda a gente estará consciente de que a partir de 1 janeiro pode, contratualmente, assinar livremente por outro clube. As palavras podem merecer toda a integridade e confiança do mundo, mas no futebol não há nada como ver tinta no papel.


Alex Telles (+) - Subir, subir, subir, cruzar, cruzar, cruzar. A missão de Alex Telles neste FC Porto é clara: percorrer o corredor, dando solução de largura para o cruzamento, enquanto liberta Brahimi ou Otávio para a zona central. E foi assim que se começou a construir o triunfo, com a assistência para Aboubakar. O facto de Alex Telles tocar mais vezes na bola no meio-campo adversário diz tudo sobre a sua preponderância na asa esquerda. Aliás, Alex Telles toca mais vezes na bola do que a dupla de avançados do FC Porto junta, essencialmente porque a sua missão é clara: servir a equipa servindo os avançados. Ainda assim, quem cruza tanto tem que cruzar melhor: foram 18 tentativas neste jogo, e só uma deu em golo. Não há-de faltar muito para as equipas perceberem que têm que fechar o corredor a Alex Telles, e com isso travam grande parte das armas do FC Porto no ataque.

Circulação e mais (+) - Pegando ainda no ponto anterior: o Moreirense sabia perfeitamente que o FC Porto queria encontrar Alex Telles no corredor. E ainda assim, poucas vezes o conseguiram impedir. A boa circulação de bola da equipa, com Óliver (embora tenha falhado 17 dos 100 passes que efetuou, a grande parte longos) e Danilo sempre a dar soluções,  fez com que a procura e criação do espaço fosse uma questão de tempo. E apesar de pouco ter havido para fazer na defesa, Iván Marcano volta a fazer uma exibição absolutamente irrepreensível, confirmando o seu excelente arranque de época. Esta é apenas a primeira vez em 20 anos que o FC Porto não sofre golos nas três primeiras jornadas (as restantes aconteceram com Villas-Boas e Lopetegui). Muito mérito para a forma como Sérgio Conceição está a trabalhar com o que tem, que não é mais do que os seus antecessores tiveram. Pelo contrário. 





Brincar com o fogo (-) - Ao 3º jogo oficial, o FC Porto entra novamente em campo sem um ponta-de-lança suplente na ficha de jogo, e com Hernâni como solução única para o ataque no caso de ser necessário atacar e fazer um golo. Incompreensível como um clube da dimensão do FC Porto, que até tem avançados nos quadros do clube mas à espera de colocação, não tem um avançado suplente nesta altura. Fez falta? Não. Mas quando Aboubakar é substituído, já com visível desgaste, teve que entrar Layún, um lateral. Que provoca isto? Força Sérgio Conceição a ter que mudar a estrutura da equipa, quando aquilo deveria ser uma mera substituição para gerir o desgaste. Rui Pedro não aparece no horizonte de Sérgio Conceição no curto prazo (algo que não se compreende mas que há que respeitar) e, com uma época longa pela frente, é inaceitável estar a semana e meia do fecho do mercado sem uma solução. E os avançados não são os únicos a precisar de backup: a ausência de Danilo, Óliver, Brahimi ou Corona promete dificuldades que a profundidade no plantel não tem capacidade para colmatar. Pessimismo ou então preocupação de quem viu as últimas épocas. 

Toca a acordar (-) - Hernâni é, neste momento, a única alternativa a Corona. E do lado esquerdo, Otávio aparece como substituto natural de Brahimi. Mas a sua entrada em campo não faz jus a um jogador que até já conhecia Sérgio Conceição melhor do que o restante plantel e que fez a pré-época desde o início. Otávio pareceu nunca compreender o posicionamento que lhe era pedido, tanto que acabou por estar mais tempo no meio-campo do FC Porto do que nas zonas de proximidade da grande área do Moreirense. Lento, com falta de agressividade e desconcentrado, não somou pontos nesta oportunidade que teve. Vai ser preciso mais para ser opção com maior regularidade. E perante a falta de soluções, o FC Porto precisa mesmo que Otávio arrebite. 

Um arranque de época sem espinhas, mas é apenas no próximo domingo que chega o primeiro grande teste desta época. Uma jornada não define uma equipa, nem a sua necessidade de reforços no plantel, mas é o primeiro grande obstáculo de um campeonato que se avizinha muito, muito competitivo. E sim, Benfica e Sporting ganharam por 5-0, mas na ronda anterior tinham vencido à rasca, por 1-0, com golos ao cair do pano. Algo de que certamente Manuel Machado - que recentemente também saiu do Dragão muito incomodado por não ter capacidade para ter Brahimis -, aparentemente, se esqueceu. 90 minutos podem mesmo mudar o moral de muita gente.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Meio despertador


Os «ses» nunca mudam a história. Mas vamos imaginar, meramente, que o Tondela teria aproveitado uma das suas oportunidades nos minutos finais. Seria esta a composição do FC Porto num jogo em que estava obrigado a ganhar: um meio-campo com claro défice de criatividade; um lateral a jogar a extremo; e Marega sozinho no eixo do ataque. É muito pouco provável que, há dois meses atrás, fossem estas as armas idealizadas para o ataque ao título. 

Sérgio Conceição tem um leque de opções limitado, e é o último a ter culpa nelas, mas entrar em fase tão prematura da época sem um ponta-de-lança no banco e com Hernâni como sendo o mais próximo de um avançado que lá estava tem que servir de alerta. E sê-lo-á repetido contra Moreirense e Braga, enquanto o mercado está aberto, pois só a partir de então teremos que nos contentar em ir à luta «com o que temos». 

Em 2013-14 o excelente início de época (seis vitórias consecutivas - e a sétima só não aconteceu devido a uma das grandes penalidades mais ridículas da história do futebol português, a célebre mão de Otamendi fora da grande área) virou-se contra o plantel e o treinador no decorrer da época; não deixar isso acontecer novamente tem que estar no topo das prioridades. Já fomos campeões com recurso a talentos da formação, com o regresso de emprestados e transitando a base de uma época para a outra; mas campeões após um defeso sem reforços...




Laterais (+) - Ok, quantidade não é qualidade. Ricardo e Alex foram responsáveis por nada mais, nada menos do que 17 cruzamentos para a grande área - e de todos esses, só um resultou num remate à baliza, embora 4 tenham sido desaproveitados pelos colegas. Mas ao longo de todo o jogo, não só a dupla de laterais cumpriu defensivamente como não vacilou na função de garantir sempre a profundidade nos corredores, muitas vezes com os dois projetados em simultâneo. É necessário melhorar a precisão dos cruzamentos, mas ambos estão a cumprir com o que Sérgio Conceição idealiza para eles.

O desequilíbrio (+/-) - Jesús Corona fez, a espaços, um dos seus melhores jogos em muitas semanas no FC Porto. Corona esteve na origem do golo, sentou várias vezes a defesa do Tondela e fez estragos pela meia direita. No seu estilo habitual, Brahimi voltou a ser o principal desequilibrador (completou mais dribles do que o resto da equipa) e voltou a fazer parecer simples a forma como, em meio metro, consegue ganhar um de avanço a um defesa com uma finta curta. Mas houve sempre um problema para ambos: o momento da definição. Mais um toque, mais uma volta, mais uma hesitação, e com isso perderam-se vários lances em que Corona e Brahimi poderiam ter ido bem além do desequilíbrio e chegado ao golo, quer com o passe, quer com o remate. A magia está cá, mas precisa de resultados mais práticos.


Aboubakar (+/-) - Um golo à segunda oportunidade, uma bola ao poste e muito trabalho longe da grande área. Muito apagado na fase inicial da partida, cresceu com o jogo e a equipa cresceu com ele, embora poucas vezes tivesse sido bem servido na grande área. Quando o foi, conseguiu ser eficaz e assinou os três pontos.




Demasiado desacerto (-) - Desacerto no passe, desacerto nos cruzamentos, desacerto no remate. A equipa falhou uma quantidade de passes anormal (um a cada quatro), muitos desses erros por causa da precipitação e pressa em querer jogar rapidamente para a frente. A forma como a equipa, a determinada altura, procurava invariavelmente as costas do lateral foi abusiva e previsível, a ponto de o Tondela ter acabado por anular esses lances. Os remates também não foram particularmente felizes: em 16 tentativas, apenas 4 à baliza. Volta a revelar-se a impressão de que o FC Porto quer fazer as coisas tão depressa e tão bem que acaba por antecipar erros que seriam evitáveis com mais calma.

Que lógica? (-) - Rui Pedro é, opinião, superior a Marega. Sérgio Conceição tem o direito a não achar o mesmo e, depois do bis frente ao Estoril, é normal que Marega fosse a aposta natural para o lugar de Soares. Mas o que está em causa não foi quem estava no 11: foi quem esteve não esteve no banco. Rui Pedro não foi convocado para a equipa B para estar na bancada no jogo da equipa A? Se não havia planos para levar Rui Pedro para o banco, para quê levá-lo a passear só para estar na bancada? Em 4 jogos em que Rui Pedro poderia ter somado minutos importantes para o seu crescimento não jogou nenhum. Não fiquem à espera que cresça na bancada. 

Duas vitórias em dois jogos, o mesmo saldo da época passada. Pézinhos no chão e muito, muito trabalho pela frente. E não só para o plantel e o treinador. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ideias firmes


Minuto 31: Soares lesiona-se, olha-se para o banco e sobra uma única solução para o ataque - Marega. O que fazer? O mais natural - leia-se, o que a maioria dos treinadores possivelmente faria - talvez teria sido lançar Otávio, recuperar o plano B da pré-época e colocá-lo nas costas de Aboubakar. Que fez Sérgio Conceição? Deu a maior prova da existência de um coletivo e de uma ideia de jogos fortes.

Sérgio Conceição não rasgou os planos da equipa por causa de um jogador. Lesionou-se um avançado, lançou o único que restava. Desde o minuto em que Marega entrou em campo, não se cansou de berrar e de dar indicações sobre a função que tinha que fazer - jogar sobre a meia direita do ataque, o que Soares estava a fazer. O que estava em causa não era o jogador em campo: era a função do atleta naquela posição. 

A equipa manteve a identidade e os valores em que passou a acreditar durante a pré-época - e Sérgio Conceição fê-lo mesmo recorrendo a um jogador que, sejamos francos, só foi integrado nos trabalhos de pré-época perante a inexistência de reforços. Assim se demonstra que a equipa está criada: agora só falta saber quem são os jogadores. Não houve Soares, houve Marega. Houve FC Porto.





Serviço de bandeja (+) - Aboubakar rematou nove vezes. A história da eficácia não foi a melhor para contar, mas destaca-se isto: oito desses remates aconteceram na grande área. Que diz isto? Que as bolas chegam à grande área, onde até um ponta-de-lança como Aboubakar, que não é particularmente forte no jogo aéreo, encontra oportunidades para atirar à baliza. Aboubakar esteve mais tempo longe da grande área, mas perante o caudal ofensivo da equipa, Brahimi, Óliver e companhia tiveram sempre gente na grande área, pronta para rematar. O 3x0 é também um bom exemplo disso, em que até Marega conseguiu encontrar o seu espaço para fazer um bom golo. E mesmo com Sérgio Conceição a apostar em Soares/Marega para jogarem no lado direito, mais longe da grande área, nunca faltou presença na grande área. Jogando assim, há-de sempre haver uma bola que acaba lá dentro, seja como for. 

Brahimi (+) - Isto de ter Brahimi logo à primeira jornada parece mesmo ser boa ideia. Nem sempre bem sucedido no drible e nas incursões pelo meio, mas foi sempre o principal agitador do FC Porto, não deixando nunca de ser solicitado na construção da equipa - prova disso é que fez mais passes do que o próprio Danilo Pereira, que em 2016-17 era quase sempre o elemento com mais passes da equipa. Fez um golo, criou várias jogadas de perigo e mostrou que o seu talento não ter que ser refém de disciplina tática num esquema com dois avançados. Ele e Conceição.

Óliver Torres (+) - Depois de uma época em que Óliver esteve sempre longe de zonas de decisão, arranca com duas assistências e não se intimidou nesta nova função, que o deixa mais «exposto» no meio-campo. O jogo passa sempre por ele e com ele há sempre uma solução, como uma bússola que mete tudo a funcionar à sua volta. Está lançado para uma boa época.


Iván Marcano (+) - Não houve muito para fazer na defesa (ainda que Iker não deixasse de ter oportunidade para brilhar), mas o que houve Marcano resolveu sem problemas. Só perdeu um lance em toda a partida, sem consequências, e distinguiu-se naquele clássico que inquieta sempre os adeptos do FC Porto: a quantidade de vezes em que vemos o central bater diretamente para a frente. Neste caso, também foi bem sucedido neste capítulo, e ainda foi ao ataque marcar um golo que poderia ter tido o mesmo desfecho de tantos outros no passado - anulado injustamente. Ah. E não é nada pessoal, Iván, mas a braçadeira de capitão do FC Porto combina sempre bem com alguém que partiu ou rachou alguma coisa. À Porto.





A primeira meia hora (-) - O primeiro jogo da épooca é sempre sinónimo de ansiedade e decisões percepitadas. A equipa entrou a querer fazer tudo rápido e tudo bem, e isso traduziu-se em 30 minutos sem lances de perigo, para além de uma ou duas tentativas de Aboubakar (o golo de calcanhar seria de antologia...). Muitos passes errados, cruzamentos mal tirados e alguma confusão na movimentação dos colegas. Erros normais para uma 1.ª jornada, diga-se, mas que têm que ser trabalhados e corrigidos no curto prazo, pois nem todas as equipas serão tão amorfas como este Estoril e nem sempre poderemos contar com um Mano para ajudar. 

Um pequeno pormenor (-) - Por certo já viram muitas vezes um treinador mudar de ideias quanto a uma substituição após haver um golo. Neste caso, vimos Hugo Miguel expor-se ao ridículo de validar uma substituição no FC Porto e só depois recorrer ao VAR para validar o golo de Marcano. Imaginem que estava 0x0, Sérgio Conceição tirava um central para lançar um avançado, e logo a seguir concluía-se que afinal o FC Porto tinha acabado de fazer o 1x0? Absurdo.

Estreia a vencer, goleada, primeiro lugar e uma ideia clara de que temos equipa. Mas se ninguém quiser voltar a cometer os erros de 2013-14, cujo início de época quase justificava um apedrejamento a AVB por ter dispensado Licá da Académica, não custa nada lembrar: faltam reforços. E importa reafirmá-lo agora, pois a partir da 5ª jornada será inútil dizê-lo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Uma análise ao grupo de trabalho

Iker Casillas - A garantia da baliza entregue, pelo menos durante mais um ano, a um guarda-redes de classe mundial. Embora a importância de um guarda-redes nunca possa ser descurada, na Liga portuguesa por norma não é na baliza que se fazem os campeões. Mas Casillas conseguiu, várias vezes, ser a diferença entre três pontos ganhos ou dois perdidos. A sua experiência e a forma como se integrou em Portugal, quer como portista quer como portuense, fazem dele um trunfo indispensável no balneário e uma rara voz de experiência que sabe o que é lidar com alta pressão e com a exigência de títulos. Imprescindível.


José Sá & Vaná - Impossível falar de um sem falar do outro, pois a contratação de Vaná só terá um mínimo de lógica se José Sá for cedido para jogar com regularidade noutro clube. Nas últimas três temporadas, José Sá fez apenas 8 jogos na I Liga e não será no FC Porto que terá a oportunidade de ser opção de primeira linha. Uma questão já debatida aqui: dois guarda-redes que, até à data, mostraram muito pouco para poderem sonhar com mais do que um lugar no banco a olhar para Casillas. Para isso, basta um, e tendo em conta o ridículo que seria contratar Vaná para o ceder já a outro clube, mantendo José Sá sem rodagem competitiva, o empréstimo do guarda-redes português seria o mais adequado.

Andorinha - Um jovem talento que respira portismo e que encaixa na perfeição no papel de 3º guarda-redes: jovem da formação, com margem de progressão e possibilidade de ser o titular da equipa B ao longo do ano (importa esclarecer a situação de Gudiño, o guarda-redes mais caro da história do FC Porto e que não pode deixar de ser um projeto de futuro apesar de uma má experiência na Madeira), enquanto trabalha junto a Casillas no plantel principal. João Costa foi campeão em todos os escalões de formação do FC Porto e é um dos atletas com mais anos de clube. Guarda-redes também com faro para o golo (marcou pelos sub-17 e pela equipa B do FC Porto), faz todo o sentido mais uma época de maturação no FC Porto.

Maxi Pereira - Ricardo Pereira tornou-o num problema. É muito, muito difícil um lateral de 33 anos ser titular numa grande equipa, e Zanettis são difíceis de encontrar. Apesar de Maxi já ter demonstrado, na segunda metade de 2016-17, que as pernas começam a pesar (é mais de uma década sempre ao mais alto nível e sem sofrer lesões em Portugal), Maxi ainda teria todas as condições para jogar sem problemas durante mais uma temporada. E o seu elevado custo na folha salarial quase «obriga» a que um jogador do seu estatuto só possa ser pensado para a primeira equipa. Maxi nunca foi suplente, mas arrisca experimentar essa condição muitas mais vezes. Mantendo-se no grupo, é um elemento importante pela qualidade e experiência que acrescenta. Mas quando temos em Ricardo Pereira um dos 10 melhores laterais-direitos da última época na Europa...

Ricardo Pereira - Quem acredita em «males que vêm por bem» pode rejubilar com a polémica forma como o FC Porto despachou Carlos Eduardo para as Arábias, com isso obrigando a um acordo com o Nice que culminou na cedência de Ricardo Pereira. Numa altura em que os laterais-direitos estão mais caros do que nunca (vejam-se os custos recentes de Walker, Danilo, Nélson Semedo ou Conti), o FC Porto tem à sua disposição um talento que corre o risco de, no final da época, fazer clubes mais endinheirados colocarem-lo no topo da lista de compras. Isso é o menos importante: desportivamente, o que importa é que Ricardo tem tudo aquilo que Sérgio Conceição poderia idealizar num lateral-direito - e perante a ausência de uma alternativa a Jesús Corona, até pode ser forçado a dar uma perninha mais à frente. Há três anos O Tribunal do Dragão via-o como um projeto de sucessão ideal para Danilo. É caso para dizer: está pronto a servir. 


Bruno Martins Indi - Após uma época na Premier League, não conseguiu ganhar pontos nesta pré-temporada, pois a dupla Felipe-Marcano é para manter. Os problemas de Martins Indi prendem-se essencialmente com o jogo aéreo, setor em que se revelou muito frágil e que era disfarçado quando jogava no esquema de 3 centrais da Holanda. Está a um ano de terminar contrato e continua a ser um candidato a deixar o FC Porto antes do final do mês. Pelo que custou (é o central mais caro da história do FC Porto), qualquer possibilidade de recuperar o investimento seria bem vinda. É demasiado caro para se correr o risco de o perder daqui a um ano a «custo zero» e para o manter como mero suplente.

Diego Reyes - É de facto curioso que 3 dos 5 centrais mais caros da história do FC Porto entrem na época 2017-18 sem ter espaço na equipa titular (Boly é o outro elemento). Reyes jogou com regularidade na Liga espanhola e fez também uma boa Taça das Confederações. Tinha e tem caraterísticas para ser um bom central (menos agressivo e impetuoso, mas mais rápido, ágil e forte na antecipação e pelo ar), mas o facto de ser mesomorfo continua a fragilizá-lo imenso na tentativa de se afirmar. Isso não o impediu de ser opção na Liga espanhola, mas mantém as dúvidas quanto ao seu espaço no FC Porto. Diego Reyes foi comprado ainda em 2012 e cá estamos, quase 5 anos depois, ainda a tentar perceber se pode ou não ser opção no FC Porto. Se não for este ano, nunca mais o será. Em final de contrato e com o passe alienado, o FC Porto não se pode dar ao luxo de reforçar um investimento sem se saber se o jogador serve ou não. 

Iván Marcano - Com a melhor época da sua carreira, afirmou-se como o patrão da defesa do FC Porto e, de forma algo inesperada (na medida em que sempre teve o low profile que distinguia, por exemplo, Paulo Ferreira), chegou à braçadeira de capitão, tornando-se num imprescindível dentro e fora de campo. É um dos 3 trintões do plantel e, depois de ter feito parte da equipa com menos golos sofridos na Europa em 2014-15, formou com Felipe uma dupla de centrais que dá todas as garantias, muito acima da média e a melhor em Portugal. Tem apenas mais um ano de contrato, mas vai renovar e permanecer no FC Porto, com estatuto reforçado de indiscutível. 

Felipe - Um pouco abaixo do nível de Marcano, mas cumpriu uma boa época na estreia no FC Porto e na Europa, conseguindo driblar muitas das inseguranças que poderia trazer do futebol brasileiro. Complementa-se muito bem com Marcano, embora o seu estilo impetuoso e alguns maus cálculos no timing sobre a bola o levem a cometer muitos erros - a ponta final da última época foi particularmente insegura. Ainda assim, entra em 2017-18 como um titular indiscutível, em parceria com Marcano. Poderíamos dizer que fez os mínimos do que se esperaria de um dos centrais mais caros do FC Porto, mas tendo em conta as experiências do passado recente, Felipe superou as expetativas. 

Miguel Layún - De principal criador de oportunidades de golo na Europa a lateral suplente do FC Porto. Um suplente de luxo, diga-se, embora o FC Porto não possa ser o tipo de clube que se dá ao luxo de ter um polivalente de 6M€ no banco. Fez uma época muito abaixo da anterior, muito por causa da falta de continuidade na equipa titular, e tudo aponta para que 2017-18 seja novamente uma época que não lhe promete nada mais do que um papel secundário. Tendo Layún 29 anos e sendo um jogador caro, a sua continuidade pode muito bem ser repensada mediante uma boa oportunidade de mercado, embora nunca seja por ele que o FC Porto vá deixar de ganhar jogos. Pelo contrário: foi muitas mais vezes solução do que problema. 

Alex Telles - Uma época igualmente muito produtiva. Até chegar ao FC Porto, Alex Telles era um lateral com disponibilidade ofensiva, mas que conseguia poucas assistências por época. Em temporada de estreia, fez 10 e fez com que muitos achassem normal que Layún, talvez um dos 3 melhores jogadores da época anterior, passasse para o banco num defeso em que a sua compra custou 6M€. Mas a verdade é que Alex Telles teve mérito na conquista do lugar no 11 e, mantendo o nível na época 2017-18, não será uma surpresa que dentro de um ano esteja na lista de compras de alguns clubes mais endinheirados. Parte para 2017-18 com uma capacidade física notável e cada vez mais confiante no corredor.

Rafa - Se nada de anormal acontecer, será o dono da lateral-esquerda do FC Porto no futuro. Mas esse futuro, infelizmente, não se avizinha já para esta época. Com Alex Telles no plantel e Layún ainda com futuro indefinido, sobra muito pouco espaço para Rafa ter espaço competitivo esta época. Depois de uma boa temporada no Rio Ave, é importante continuar a jogar com regularidade e neste FC Porto terá poucas oportunidades para o fazer, embora já tenha qualidade mais do que suficiente para ser uma opção válida no 11. Ainda assim, com Alex Telles, o espaço é demasiado escasso, por isso será sem surpresa que possa ser cedido novamente. Dentro de um ano, se tudo correr bem - e isso talvez também implique uma boa venda de Alex Telles -, o lugar no 11 estará à espera dele. Afinal, estamos a falar de um projeto de jogador perfeito.

Diogo Dalot - «Não há memória do FC Porto ter, na sua formação, um lateral da sua idade e qualidade (...) É o protótipo de lateral-direito moderno. Rápido, forte, com grande disponibilidade para subir pelo corredor e com golo. João Pinto não consegue olhar para ele sem sorrir.» Assim descrevíamos Diogo Dalot há um ano, muito antes de ter levado Barcelona e Real Madrid a observá-lo pelas suas prestações nas seleções jovens. É, simplesmente e talvez com o exagero típico de quem olha para os talentos portistas da formação, o mais promissor lateral-direito de 18 anos a jogar na Europa. Ainda tem idade sub-19, mas o seu talento já está muito acima desse escalão. Tal como Rúben Neves, tinha e tem qualidades para «saltar» a etapa na equipa B. Com Ricardo e Maxi ainda no plantel, as oportunidades devem ser escassas em 2017-18, mas é um valor seguro de presente e futuro. 

Danilo Pereira - O Tribunal do Dragão considerava-o a melhor contratação do FC Porto em julho de 2015; dois anos volvidos, é com larga escala o jogador mais valioso do FC Porto - tendo em conta o que poderia valer numa transferência que a SAD e Sérgio Conceição não querem permitir. E bem, por muito que Antero Henrique e o PSG, por esta ordem, tivessem interesse que acontecesse. Danilo teve algumas dificuldades nesta pré-época, por ter começado mais tarde, mas é absolutamente imprescindível em campo e o exemplo perfeito de um líder e bom profissional fora dele. Pêndulo essencial no meio-campo, sobretudo com o FC Porto a apostar num esquema de 2 avançados, Danilo é um dos melhores médios-defensivos da Europa e seria um insulto um jogador deste calibre passar pelo FC Porto com o currículo em branco. Talvez só tenhamos mais uma época para mudar isso.

Mikel Agu - Já lá vão 8 anos desde que Jesualdo Ferreira aceitou que este menino nigeriano fosse trabalhar com o plantel principal, mesmo não podendo jogar pelos escalões de formação no FC Porto. Oito anos passaram, e ainda há quem considere que Mikel é um valor de grande futuro e um destinado a ser titular no FC Porto a médio prazo. Não sabendo quanto mais crédito é possível reunir por uma boa exibição num jogo em fim de época contra o Benfica B, não será uma surpresa se Mikel integrar a lista de dispensas de Sérgio Conceição, pois apesar da razoável época em Setúbal não tem o nível desejado para se afirmar no FC Porto. O facto de haver uma ameaça chamada PSG, nenhuma outra alternativa de «raiz» a Danilo e de, ainda assim, a sua saída para a Turquia estar a ser admitida diz tudo sobre os planos sobre ele. O melhor é mesmo procura outra RAMP(a). Pun intended. Vocês sabem do que estou a falar

Sérgio Oliveira - É sempre mais difícil entrar numa equipa como reforço de inverno do que numa pré-época. Ainda assim, com Sérgio Conceição no Nantes, Sérgio Oliveira não foi uma única vez titular e jogou pouco mais de 100 minutos na Liga francesa, numa equipa em que o melhor jogador era muito provavelmente um atleta que até na equipa B do FC Porto tinha dificuldades para se impor (Diego Carlos). Não teve espaço no Nantes, dificilmente o terá no FC Porto, uma vez mais. Aos 25 anos, 8 depois depois de sido notícia e se ter tornado um fenómeno a seguir basicamente por lhe terem metido uma cláusula de rescisão de 30 milhões de euros, é tempo de questionar até quando Sérgio Oliveira poderá ser considerado uma promessa no FC Porto. A saída não surpreenderá, pois infelizmente o futebol é muito mais do que bater livres e chutar à baliza.

André André - Recuperou a titularidade a determinada altura na época passada, mas continua a ser um jogador que não ultrapassa o campo da utilidade no FC Porto. Pode fazer 2 ou 3 bons jogos, ser importante como alternativa, mas nunca será o elemento diferenciador que permite ganhar títulos. A forma como muitas vezes desistia das jogadas na época passada, com uma condição física insuficiente (um problema que se arrasta desde a polémica chamada à seleção, diga-se), não combina com as descrições de jogador à Porto que tem tempos chegou a justificar. Parte para 2017-18 como alternativa. Válida, mas ganhar um lugar no 11 dificilmente será bom sinal do decorrer da temporada. 

Héctor Herrera - Atingiu o seu pico de valorização durante a primeira época com Lopetegui. Caiu, mas ainda assim em 2015-16 foi a tempo de ser um dos 3 melhores jogadores da segunda volta. Na última temporada, voltou novamente a cair em desgraça. Herrera é um jogador útil no plantel, sobretudo nas ideias de Sérgio Conceição para uma transição mais rápida, mas não vale hoje 15 milhões de euros. Nem 20. Nem os 30 que dizem ter rejeitado na época passada, uma das coisas mais inacreditáveis que já se ouviram no FC Porto. Se Herrera não pôde sair do FC Porto por 30 milhões, é altura de esclarecer que papel exatamente poderá ele ter e de quais os planos para o mexicano. Ficando no plantel, será sempre um elemento de utilidade, mas provavelmente também o primeiro que os adeptos responsabilizarão por qualquer percalço. Todos es culpa de Herrera, já se dizia. Mas possivelmente não é culpa sua que achem que por 30M€ seria mal vendido. 

Óliver Torres - Em grande forma na pré-época, abre a nova temporada com muitas expetativas sobre o seu futebol. Depois de NES se ter tornado, provavelmente, o único treinador possível a não ver lugar para Óliver Torres neste FC Porto, Sérgio Conceição tem reservado para ele um papel de enorme importância, mas também de imenso desgaste - serão poucas as vezes em que Óliver aguentará os 90 minutos com a missão que lhe é pedida em campo; e aí cria-se um problema, pois André André e Herrera não pensam o jogo como Óliver. Dono de um futebol elegante e incomum em Portugal, este pode ser o seu ano. Afinal, estamos só a falar do jogador mais caro da história do FC Porto. Sem pressão, Óli. Sem pressão.


João Teixeira - Todos os adeptos concordam: há futebol nos pés e na cabeça de João Teixeira. Basta tocar na bola e todos percebem isso. Mas por algum motivo, apesar de ser considerado o melhor jogador da formação do Liverpool, o espaço na equipa principal não aparecia; um pouco à imagem do que sucedeu no FC Porto. Sérgio Conceição aprecia o seu potencial, mas sejamos francos: há possibilidade de João Teixeira ter espaço competitivo em 2017-18? Muito dificilmente. Vai fazer 25 anos e ainda não fez uma época a titular numa primeira liga. Jogou apenas 167 minutos na última época, demasiado pouco. Sem espaço neste plantel, o melhor seria João Teixeira sair para jogar com regularidade. Sim, tem imenso potencial. Mas o potencial não serve de nada na bancada. Foi uma contratação de zero risco, por isso a cedência seria a melhor solução para todas as partes.

Otávio - Será, muito provavelmente, um jogador ao qual Sérgio Conceição recorrerá várias vezes como «trunfo» para as segundas partes. Alternativa natural a Brahimi do lado esquerdo, surge nesta época como uma boa alternativa no plantel. Vai ter várias oportunidades, algumas delas no 11, e pode ser abre-latas em vários jogos. Um ano para crescer.

Hernâni - Sérgio Conceição quer tentar aproveitar Hernâni, ou simplesmente não há nenhuma outra alternativa a Corona ao lado direito? Já conhecem a história: Hernâni é muito veloz, caraterística que pode ser útil em alguns jogos, mas não teve, e nunca revelou, estofo e qualidade para jogar no FC Porto. Ficando no plantel, será porque as alternativas não abundam; emprestá-lo novamente não faz qualquer espécie de sentido, pois são raros os extremos que saem do FC Porto cedidos para regressar à equipa principal (Tarik Sektioui foi uma boa, rara e surpreendente exceção). Não chega.

Jesús Corona - Prepara-te, Corona: vais levar muitas, muitas vezes nas orelhas do Sérgio Conceição. Vais levar tareias, vais ouvi-lo berrar bem alto junto à linha, vais aziar quando fores substituído, vais amuar quando fores para o banco. E sabes por que vai tudo isto acontecer? Pois o treinador sabe perfeitamente que tens um potencial enorme, mas que podes estar em risco de o deitar fora. Esta pode ser uma época que te define: ou como uma figura do FC Porto, ou como alguém destinado a ser um André Carrillo - 4 ou 5 épocas à espera que o potencial se torne em qualidade e consistência, quando talvez o próprio já nem esteja muito interessado nisso. Corona tem que emergir como figura do FC Porto este ano. Não só porque, à 3ª época, é tempo de o fazer, mas também porque o FC Porto bem necessita: não há uma alternativa ao seu lugar.

Marega - O facto de estarem a tentar a sua reabilitação diz tudo sobre a incapacidade/limitação de ir buscar reforços ao mercado. Dificilmente haverá maior desafio do que tentar imaginar alguma equipa na história do FC Porto em que Marega tivesse lugar. Claro, pode sempre existir o torrãozinho de relva que faz a bola saltar para a baliza, ou o tropeção que resulta numa ocasião de golo. Tudo é possível. Ver Marega com a camisola do FC Porto é a prova disso e uma inspiração para qualquer jogador: se ele consegue, qualquer um pode conseguir.

Brahimi - E pensar que começou a época passada encostado. As cláusulas opcionais do FC Porto para comprar mais percentagem do passe à Doyen já expiraram, por isso é tempo de pensar unicamente no que Brahimi pode oferecer desportivamente à equipa. E pode ser muito. Num ano sem CAN, Brahimi é o principal fantasista do plantel, com a vantagem de, nesta temporada, ter algo a seu favor: quando levantar a cabeça, vai ver dois avançados nas imediações da grande área, enquanto na época passada, quando o fazia, rapidamente chegava à conclusão que teria que ir para o lance individual. A dinâmica ofensiva, a pedir que entre em zonas interiores, favorece o seu futebol. Tem tudo para recuperar a melhor versão de 2014-15. 

Aboubakar - Matemática simples: pelo dinheiro que renderia pela sua saída, o FC Porto não encontraria melhor solução para o ataque. Então o que fazer? Recuperar Aboubakar, processo muito bem conseguido nesta pré-temporada. Aboubakar tinha razões válidas para não querer voltar ao FC Porto, desde a tentativa de o venderem ao futebol chinês à dispensa de um dia para o outro para que Depoitre fosse inscrito. Aboubakar percebeu, porém, o papel que pode ter esta época, sobretudo num esquema de 2 avançados, o mais adequado às suas caraterísticas. Tem que melhorar o seu jogo de costas para a baliza, mas as potencialidades de Aboubakar são imensas e pode finalmente confirmar-se como um digno sucessor da linhagem de nomes como Lisandro, Falcao ou Jackson. Falta só um pormenor: renovar. Começar uma época com um titular de 25 anos em final de contrato seria um péssimo sinal de gestão. E logo não havendo uma alternativa. 


Soares - O desafio é passar de um bom reforço de inverno para um papel mais importante, que, segundo as opções de Sérgio Conceição, passa por um lugar no 11 titular. Soares fez uma boa pré-temporada e não restam dúvidas de que, num esquema com 2 avançados, é muito mais forte. Isso já estava claro na última época, mas a sociedade com André Silva estava a render golos e vitórias, então NES decidiu metê-lo sozinho num 4x3x3. Génio. Soares está a evoluir, a trabalhar bem nas imediações da grande área, a distinguir-se pela capacidade física e é uma contratação a superar as expetativas. A dar continuidade.

Rui Pedro - Vai fazer o seu primeiro ano de sénior e, face às soluções (ou falta delas) existentes no plantel, é a alternativa natural a Aboubakar ou Soares, o que diz tudo da necessidade do FC Porto ter que se reforçar (não há alternativas de primeira linha para quarto posições chaves do plantel, do meio-campo para a frente, e se não houver reforços muitas das expetativas para esta época goram-se antes do natal). O potencial de Rui Pedro já dispensa apresentações e pode muito bem superar o legado de um tal de André Silva. Depois de ter jogado em três escalões na temporada passada, faz todo o sentido que trabalhe com a equipa principal e vá dando uma perninha na equipa B. Vão aparecer algumas oportunidades e alguns golos. Oxalá não haja é muita pressa em vendê-lo, pois já o tentaram na temporada passada. E ver os maiores talentos da formação saírem antes de meterem as unhas em troféus não combina com a história e mística do FC Porto.

Sérgio Conceição - Temos um treinador que prefere falar primeiro dos 15 minutos que correram mal do dos 75 que correram bem. Que prefere concentrar-se no que está mal e só depois aplaudir e elogiar o que está bem. É caso para dizer, mister: quem não aprecia O Tribunal do Dragão dificilmente simpatizará contigo. É bom sinal. Sérgio Conceição não teve um único reforço no plantel, teve que aproveitar a lista de dispensas da época passada, foi pescar à equipa B e preparou da melhor forma possível a equipa para iniciar a época 2017-18. Não se pode pedir mais: Sérgio Conceição está a fazer um trabalho notável com o que tem em mãos. Mas que não restem dúvidas: sem reforços, este plantel dificilmente aguenta até janeiro. E Sérgio Conceição tem muitas qualidades, mas nenhuma delas é fazer milagres. Mas as tarefas que realizou nesta pré-temporada e que já foram enumeradas não ficam muito longe disso. O melhor reforço, até ver, não é o grupo: é o grupo que Sérgio Conceição construiu.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A contratação e os reforços

Já lá vai mês e meio desde a contratação de Sérgio Conceição, mais três semanas de trabalho de pré-temporada, com o ciclo habitual - muita motivação, sede vencer e uma pressa descomunal em querer ver algo de diferente em relação à última época (os treinadores anteriores também passaram por isso - e neste caso, pegou a imagem de um FC Porto mais rematador e incisivo na proximidade da grande área, algo impossível de concluir após dois jogos particulares numa digressão pelo México). Irrelevante, como em muito do que se possa passar durante uma pré-temporada - o ideal, nesta fase e por mais irónico que possa ser, é expor tantas fragilidades quanto possível, de modo a que não deixem dúvidas de que necessitam de ser colmatas (seja com mais tempo de trabalho, seja com recurso ao mercado). Só conta a partir do dia 9 de agosto. 

Porém, a amostra nos primeiros 45 minutos em Guimarães já revelou um FC Porto muito, muito próximo do que se poderá idealizar para a época 2017-18. Maior facilidade para jogar ao primeiro toque e procurar a tabela perto da grande área; maior movimentação e versatilidade no último terço; capacidade de colocar mais gente na frente sem que isso implique a perda de equilíbrio no momento do contra-ataque; e uma dinâmica forte e funcional na tentativa de assegurar, simultaneamente, a profundidade através da subida dos laterais e presença no jogo interior. 

Muito positivo, restando apenas acrescentar um detalhe que pode fazer a diferença ao longo da época: quando há uma presença forte no ataque, os golos podem acabar por surgir em lances isolados, e não necessariamente através do que se construiu. Foi o caso dos golos de Aboubakar e Soares, que não nascem das melhores jogadas que o FC Porto fez na partida, mas que revelam o oportunismo que vai ser necessário muitas vezes para somar pontos - forçar o erro do adversário ao invés de tentar seguir o plano de construção da própria equipa. Sem dúvida, uma exibição que aguça a vontade de todos em ver mais deste FC Porto, apesar da expulsão de André André ter tornado a segunda parte atípica. 

Enquanto isso, o mercado. Até ver, o FC Porto fez uma contratação e ainda não foi buscar reforços ao mercado, mas já os tem. Vamos por partes.

Vaná foi o único jogador comprado pelo FC Porto até ao momento, um nome que não garante nada além de mais uma alternativa a Iker Casillas para a época 2017-18. Foi contratado para ser suplente de Peçanha no Feirense, mas saltou para a titularidade à 8ª jornada e foi um nome determinante para que o Feirense se aguentasse na primeira liga. 

Fez portanto uma época interessante, como é habitual vermos muitos outros guarda-redes da Primeira Liga o fazerem - foi isso que fez com que guarda-redes como Fabiano ou Bracalli saltassem para o FC Porto. Se garante alguma coisa para o FC Porto na época 2017-18, não garante, pois Iker Casillas tem a titularidade assegurada, salvo alguma eventual lesão.

Contrato até 2021
Quem não se lembra do muito criticado Fabiano, que foi só e apenas o guarda-redes menos batido das Ligas europeias na época 2014-15, e ainda assim não faltou quem lhe passasse o atestado de insuficiência para as balizas do FC Porto? O que Vaná fez no Feirense Fabiano fez no Olhanense, por exemplo. Agora, ser o guarda-redes menos batido das Ligas europeias (algo que se torna sempre mais fácil de alcançar quando há uma grande defesa à frente), isso já não é algo que se testemunhe frequentemente. 

Vaná é portanto uma contratação, não um reforço. E foi precisamente esta a premissa do post Contratações ou Reforços, feito há ano e meio que centrava outro nome implicado nesta contratação de Vaná: José Sá.

Conforme perspetivado, José Sá tem passado a sua estadia no FC Porto a conviver mais com o banco do que com a hipótese de jogar. Neste caso, não interessa o nome ser José, Miguel ou Artur: enquanto Iker Casillas estiver no FC Porto, o lugar será dele. E embora José Sá nunca tenha evidenciado ser um guarda-redes particularmente acima da média na sua geração, só terá hipóteses de evoluir jogando regularmente na próxima época. No FC Porto não o conseguirá, logo, a entrada de Vaná convida à sua saída, apesar de Sérgio Conceição não ter aberto o jogo quanto a isso. 

A baliza, no entanto, estará no fundo da lista de preocupações. Se Casillas renova por mais um ano, é para assegurar a titularidade ao longo da temporada. Há sempre o risco de uma lesão, mas já o havia o ano passado. Dentro de um ano a sucessão será provavelmente um tema de grande preocupação, mas para já o FC Porto volta a ter um nome que, desportivamente, dá garantias. 

Temos então a primeira e única contratação até ao momento, mas não é o mesmo que dizer que não há reforços. Há, e apesar de Vaná ser a única compra, o plantel não está de todo mais fragilizado do que o da temporada passada, que é o que por norma acontece quando o FC Porto começa a vender jogadores.

Entre os jogadores que caberiam nos planos para 2017-18 sem margem para dúvidas, destacam-se obviamente as saídas de Rúben Neves e André Silva. Rúben Neves, cuja operação já foi aqui descrita à melhor maneira de um prós e contras (que os há, sem dúvida), é um dos maiores talentos à escala mundial, mas dificilmente emergiria como primeira escolha para 2017-18, essencialmente devido à permanência de Danilo Pereira. Ainda que não haja uma alternativa ao nível de Rúben Neves, não é por aqui que o FC Porto, para o curto prazo, ficou fragilizado.

Quanto a André Silva, a venda ao AC Milan, por 38 milhões de euros, só é má se tivermos em conta que Pinto da Costa garantiu aos sócios que tinha rejeitado uma proposta de 60 milhões por ele. Se não fosse isso, seria uma venda bastante boa, próxima dos valores pelos quais foram saindo grandes avançados do FC Porto, como Falcao ou Jackson. André Silva poderia, sem dúvida, evoluir e render mais após mais uma época no FC Porto, mas dificilmente um jogador do futebol português se valoriza além da fasquia dos 40/45 milhões de euros. 

Desportivamente, e apesar de ter sido uma boa venda, o FC Porto perdeu um jogador importante, muitas vezes mais pelo trabalho que desenvolvia do que pelos golos que marcava. Mas objetivamente, André Silva fez 11 golos de bola corrida em 2016-17 no Campeonato. Ora, são números que um Aboubakar de cabeça limpa ultrapassa com facilidade. E se é certo que André Silva dava outras coisas ao FC Porto, Aboubakar também tem caraterísticas únicas no futebol português. 

Dois reforços sem ir ao mercado
Todos se recordarão que Aboubakar disse que não queria voltar ao FC Porto. São declarações que ninguém gosta de ouvir, mas que têm um contexto. Inicialmente, era suposto o Besiktas ficar com Aboubakar - só não o fez por causa do Fair-Play Financeiro da UEFA. Assim, o que tinha sido prometido ao jogador era que seria comprado no final do empréstimo. Não foi isso que aconteceu.

Além disso, é bom recordar que Aboubakar foi afastado do plantel do FC Porto por causa de um tal de Laurent Depoitre. Aboubakar ficou fora da lista da Champions de um dia para o outro, para que pudesse ser inscrito Depoitre. Então imaginem o ridículo quando se conclui que, na verdade, Depoitre nem sequer poderia ser inscrito para o play-off com a Roma. 

Aboubakar tem tudo para ser um reforço em toda a linha, mas há uma situação contratual para resolver o quanto antes. Nenhum jogador sub-30 do plantel principal deve iniciar uma época em final de contrato, sob pena de o ver assinar em janeiro por outro clube. Aboubakar é um jogador com mercado e potencial, tornando-se ainda mais apetecível por não haver CAN em 2018 a atrapalhar. Pelo dinheiro que renderia numa eventual transferência, o FC Porto não só dificilmente recuperaria o que já investiu em Aboubakar como não teria garantia nenhuma de ir buscar um avançado melhor ao mesmo preço.

Outro reforço, a todos os níveis, é também Ricardo Pereira, que torna Maxi Pereira num pequeno grande problema. No plantel, Maxi é um dos poucos jogadores que sabe o que é ser campeão, ainda que o tenha sido pelo rival. O seu espírito competitivo deixa-o em condições de fazer mais uma época, sem dificuldades, mas há que lembrar o quão raro e difícil é vermos um lateral de 33 anos no FC Porto. 

A um ano do final de contrato, que presente para Maxi Pereira? Ricardo dá todas as garantias para jogar a lateral-direito (tem a margem de progressão e a disponiblidade física para recuperar no corredor que Maxi já não tem), embora Sérgio Conceição já tenha deixado claro que tem também algumas expetativas sobre Ricardo numa zona mais adiantada. Seja qual o for o problema, ainda assim, Ricardo será parte da solução. 

Rafa vai ter mais dificuldades em jogar em 2017-18, tendo em conta que há várias opções para as laterais, mas é interessante traçar o paralelismo com os investimentos de 2011-12, quando o FC Porto investiu mais de 25 milhões de euros em Danilo e Alex Sandro; neste caso, já há dois laterais de presente e futuro que não implicaram nenhuma loucura.

Ainda na defesa, há Diego Reyes e Martins Indi, mas provavelmente só um ficará no FC Porto. Jogaram com regularidade na última época, mas aproximam-se do final de contrato, implicaram investimentos caros (no caso de Reyes, há ainda o problema de o seu passe ter sido partilhado, desde o início, com uma offshore de Pini Zahavi) e por isso quem ficar tem que renovar. Em cada um deles há um problema no seu perfil enquanto central: Diego Reyes, sendo ectomorfo, continua a ter dificuldades na dimensão física, mas continua a ter um punhado de caraterísticas que podem fazer dele um belíssimo central; no caso de Martins Indi, tem um grande problema no jogo aéreo, a única coisa a limitá-lo enquanto central. Cabe a Sérgio Conceição e às oportunidades de mercado decidir quem fica. 

Entre os recuperados para o plantel principal, destaque ainda para três nomes: Sérgio Oliveira, Mikel Agu e Hernâni. Sérgio Oliveira foi treinado por Sérgio Conceição no Nantes, mas não foi uma única vez titular com ele, tendo jogado apenas 109 minutos na Liga francesa, apesar de só não ter sido convocado para 3 jornadas. Se Sérgio Conceição não viu grande espaço para Sérgio Oliveira no Nantes, dificilmente acontecerá no FC Porto, tornando-o um forte candidato a ser vítima da sobrelotação do meio-campo. 

Mikel anda a trabalhar perto do plantel principal do FC Porto desde os tempos de Jesualdo Ferreira e é um dos jogadores oriundos da formação que mais oportunidades - e contratos - tem tido (melhor só mesmo Abdoulaye, emprestado pela 8ª vez - mais 7 ou 8 empréstimos e fica no ponto para ser opção no FC Porto). Após uma má experiência na Bélgica, jogou com regularidade em Setúbal, a médio defensivo, ele que curiosamente fez os seus melhores jogos pelo FC Porto B quando jogou a central. Veremos se ficará no plantel, embora pouco leve a crer que possa ser mais do que a sombra de Danilo e que encontre algum espaço nas Taças. A seu favor, o facto de poder ser inscrito na lista A da UEFA como jogador da formação. 

Sobra Hernâni, que nunca revelou créditos para ser opção no FC Porto, para além do trunfo que é a sua velocidade. Fez uma boa época em Guimarães, mas não é jogador para ultrapassar o campo da rotatividade e da utilidade em alguns jogos no FC Porto; sem ter estofo para ser opção regular no 11 inicial, cabe ao FC Porto estudar uma solução de mercado que garanta dois jogadores - um extremo com qualidade para entrar no 11 e «puxar» o melhor de Corona, Brahimi ou até Otávio e mais um ponta-de-lança, sobretudo se o 4x4x2 for para manter. Dois jogadores que hão-de chegar, de preferência dentro das próximas duas jornadas, pois a sua necessidade é clara. Tanto quanto o facto de nem valer a pena andarmos a tentar enganar alguém com Marega.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Os outros reforços

Óliver Torres - 5M€
Boly - 3,76M€
Imbula - 4,8M€
Jesús Corona - 4,475M€
Felipe - 4M€
Alex Telles - 3,412M€
Brahimi - 3,332M€
Miguel Layún - 3M€
Depoitre - 3M€
José Sá/Marega - 2,425M€
Danilo Pereira - 3,165M€
Omar Govea - 1M€
Víctor García - 1,7M€
Otávio - 1,1M€
Kayembé/Djim(s) - 1,3M€
Danilo - 0,85M€
Outros - 6,2M€

Confusos? A explicação é simples. O FC Porto tem previsto até ao final de dezembro de 2017, no corrente ano civil, o pagamento de 52,5 milhões de euros por jogadores já existentes no seu plantel. Isto sem considerar os 25 milhões de euros que terão que ser «pagos», ou renegociados, por estes quatro jogadores em prazo não corrente (isto é, para lá do final de 2017): Óliver, Boly, Inácio e Govea.


Qualquer portista concordará: são necessários reforços e Sérgio Conceição disse que vinha para ensinar, não para aprender, mas também não disse que vinha para fazer milagres. São necessárias soluções, particularmente do meio-campo para a frente, mas antes de pensar em quanto vai custar o extremo Y e o ponta-de-lança X, há a considerar quanto ainda vai custar quem cá está.

Há, logicamente, algo que equilibra um pouco a balança, que são os cerca que 32M€ a receber por parte de outros clubes entre o segundo semestre de 2016/17 e o primeiro de 2017/18, em grande parte graças às vendas de Alex Sandro e Imbula. Dinheiro já com destinatário, por certo, mas é um exercício que nesta altura da época ajuda a arrefecer as expetativas quanto à urgência de reforços.

Só pela lista acima referida, note-se que o FC Porto tinha, na apresentação do R&C do primeiro semestre, previsto o pagamento de cerca de 20M€ por parte de jogadores que já não fazem parte do plantel ou que não serão opção para Sérgio Conceição. Esses mesmos 20M€ talvez serviriam para o treinador preencher todas as lacunas que identifica no plantel, mas é um problema com o qual todos os treinadores, infelizmente, lidam: com as réstias de apostas falhadas de antigos treinadores ou, sobretudo, por parte da SAD.

Por isso, o contexto convida precisamente àquilo que Sérgio Conceição está a fazer: espremer, ao máximo, a matéria prima que já tem à disposição. No Olival, há neste momento quase um «11» de jogadores que não estavam no plantel na época passada e que, noutras circunstâncias, talvez não teriam em vista perspetivas de fazer parte do plantel.

Sérgio Conceição ainda não sabe quando vai ter reforços no mercado. Por isso, faz aquilo ao qual convidam as circunstâncias: vai tentar descobrir reforços naquilo a que muitos chamariam lista de dispensas.

Podendo começar por aqui: por 4 milhões de euros, que é quanto ele renderia numa saída, dificilmente se arranja um ponta-de-lança melhor do que um Aboubakar de cabeça limpa; e se em tempos tivemos que pagar mais de 25 milhões de euros por dois excelentes laterais (Danilo e Alex Sandro), neste caso temos aqui à disposição uma dupla que já não vai mexer com os cofres - Ricardo Pereira e Rafa. Três exemplos de reforços ideais: qualidade, baixo ou nulo custo e já à disposição do treinador. 

Suficiente? Talvez não. Mas é um exemplo que já deveria ter sido seguido muito antes, e não apenas pelos treinadores: antes de pensar em ir lá fora, vamos tentar aproveitar tudo o que está cá dentro.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma conversa entre Mística e Cifrão

Mística - Um dia triste para o Futebol Clube do Porto...

Cifrão - Calma, Mística, que eu tenho uma coisa para te animar: vendemos um suplente por cerca de 18 milhões de euros! Não é incrível?

Mística - Essa é a tua alegria, Cifrão? O menino que deliciava os adeptos aos 17 anos, que carregou a braçadeira de capitão aos 18 e que foi apresentado pelo próprio presidente como o sucessor de João Pinto, é descrito por ti como o «suplente»? Isso leva-me a pensar em todos os outros grandes negócios que perdemos por não termos vendido suplentes como João Pinto, Jaime Magalhães ou Domingos. 

Cifrão - Percebe uma coisa, Mística. O Rúben Neves estava há 3 anos a trabalhar com o plantel principal. Só se revelou com Lopetegui, e mesmo assim, assim que Casemiro esteve pronto, Lopetegui não mais prescindiu dele. De resto, Rúben Neves nunca esteve perto de ser um titular indiscutível...

Mística - É esse o problema dos talentos precoces. Tu, Cifrão, e tantos outros esquecem-se que esta foi a primeira época de sénior de Rúben Neves. A primeira!

Cifrão - E então? Diz-me lá: achas que Rúben Neves foi mais importante na posição 6 do que foram Paredes, Costinha, Paulo Assunção ou Fernando? Não brinques, Mística, há que ser pragmático: o Rúben Neves sai por mais dinheiro do que todos estes juntos, sem ter feito um terço do que esses fizeram!

Mística - Curioso que fales desses nomes, Cifrão. Rúben Neves tem 20 anos feitos em março. A mesma idade com a qual Paredes era suplente do Olimpia e Paulo Assunção do Palmeiras. Costinha estava no Oriental. Fernando chegava do Brasil para ser emprestado ao Estrela da Amadora. Por alguma razão, muitos esperavam que Rúben Neves fizesse o que poucos fizeram no FC Porto: ser titularíssimo aos 20 anos. 

Cifrão - Percebe uma coisa, Mística. Com a saída do Rúben Neves, é possível segurar o Danilo Pereira! E tens que concordar que, neste momento, o Danilo não só é o melhor 6 do futebol português como assenta que nem uma luva na descrição de jogador à Porto! O que é melhor: sair o Rúben ou o Danilo?

Mística - É aí que erras, Cifrão. Noutros tempos, o FC Porto pensaria no Rúben Neves como o sucessor de Danilo, em vez de estar a pensar em vender o Rúben Neves para segurar o Danilo. O que vemos é Rúben Neves a pagar a fatura dos erros da administração da SAD do FC Porto, cujo responsável financeiro dá passadas largas para meter os tempos áureos do Sporting de Godinho Lopes no bolso. 

Cifrão - Sê realista, isto é negócio! Imagina que o Rúben passava mais uns meses no banco, ou que se lesionava? Já não havia negócio para ninguém!

Mística - Bem, nesse caso é melhor vender já todo o plantel, não vá alguém lesionar-se na pré-temporada. Após tanto termos condenado a teia da qual a formação do Benfica e Jorge Mendes fazem parte, queres rejubilar com esta venda do Rúben Neves, que sai por pouco mais do que um tal de Hélder Costa?

Cifrão - E então? Imagina lá o que devem preferir os benfiquistas: ter um plantel com Bernardo Silva, João Cancelo e Hélder Costa ou serem tetracampeões? Queremos jogadores ou títulos?

Mística - Não é uma questão de jogadores vs. títulos, pois estás a comparar meios com fins. Rúben Neves é o tipo de jogador que ajudaria o FC Porto a ganhar troféus. Neste caso, sai muito antes de poder meter as mãos num caneco. Outrora, os jogadores cumpriam o ciclo de valorização, que coincidia com a conquista de títulos, antes da saída; agora saem antes de conquistar títulos e muito antes de atingirem o seu pico de valorização. Não é por acaso que o FC Porto nunca se preocupou em vender Fernando, Paulo Assunção ou Costinha num pico de valorização: eram jogadores que interessavam mais desportivamente do que financeiramente.

Cifrão - Mas talvez nunca nenhum desses jogadores tenha tido a proposta que teve Rúben Neves, senão também teriam saído. Insisto, o Rúben Neves está a sair por mais dinheiro que todos os grandes médios defensivos que tivemos, e não teve metade da importância que cada um desses teve! Como pode isto ser um mau negócio?

Mística - É um mau negócio não pelo rendimento que Rúben Neves teve na equipa principal, mas por aquele que já não o vão deixar ter. Não estamos a falar de um jogador com talento que podia resultar ou não, de um sul-americano que precisa de um longo período de adaptação ou de um jogador a precisar de evoluir taticamente. Rúben Neves estava pronto e preparado para render mais. Poderia até haver compatibilidade com Danilo no meio-campo.

Cifrão - E quem deixava de jogar? Temos variadas opções para o meio-campo, desde Óliver a Herrera...

Mística - O mesmo Herrera por quem rejeitaram 30 milhões de euros para agora estar a vender Rúben Neves por pouco mais de metade? Questiono esta lógica de gestão. Rejeitam 60 milhões por André Silva para depois o vender por 38. Rejeitam 30 pelo Herrera para depois vender Rúben Neves por cerca de 18. 

Cifrão - Sabes, o FC Porto não comanda todo o mercado... Pode haver uns meses em que uns clubes estão a oferecer mais, outros em que oferece menos. Infelizmente, a SAD tem que decidir no momento, enquanto os adeptos têm a facilidade de poderem mudar de opinião de um mês para o outro, dependendo do momento de forma de cada jogador. 

Mística - Mas o que decide a SAD? Até agora, a única coisa que se viu foi Jorge Mendes a levar dois dos seus jogadores, Rúben Neves e André Silva, e Sérgio Conceição com zero reforços. Que fez a SAD no meio destas operações? Já sei. Deu 10% do passe de André Silva (ou 10% da mais-valia - os jogadores da formação geram sempre mais valias mais elevadas, por não haver direitos de formação a pagar a outros clubes) a António Teixeira, quando a Promosport nem o representava. E sobre Rúben Neves? Deu 5% ao irmão de Adelino Caldeira, além de lhe ter pago 225 mil euros só pela renovação e uma soma de 100 mil euros por 20 jogos disputados. Sendo que José Caldeira podia ganhar mais 5% dependendo da concretização de uma proposta. A isto junta agora as comissões que Jorge Mendes vai receber das duas vendas. De facto, isto tem sido uma trabalheira para a SAD. 

Cifrão - Eh pah, outra vez a falar nisso? Preocupa-te é com os e-mails e com os esquemas de corrupção a envolver o Benfica. Temos que apontar as armas para fora, não é para dentro!

Mística - Sabes, Cifrão, por mais graves que as práticas do Benfica sejam, isso não vai resolver os problemas do FC Porto internamente. Continuamos a ter graves problemas financeiros, continuamos a ter o fair-play financeiro à perna, continuamos com problemas na gestão de ativos do plantel. Nada, nada dos problemas internos do FC Porto mudou com a divulgação dos e-mails. A não ser que a Gmail seja apresentada como reforço e que garanta 30 golos esta época, desportivamente, não te iludas: isto não muda nada no FC Porto, apenas condiciona o modus operandi do Benfica dos últimos 4 anos. Se acham que a única forma de fortalecer o FC Porto é enfraquecendo o Benfica, isso constata que se preocupam mais com a casa dos outros do que com a nossa. Não me parece o caminho correto.

Cifrão - Inacreditável. Repara, com as saídas de André Silva e Rúben Neves, devemos garantir uma mais-valia acima dos 40/45 milhões de euros com dois jogadores que não estavam a ser, sequer, titulares indiscutíveis! Num passado bem recente, era normal o FC Porto vender dois ou até três titulares por época. E a máquina funcionava! Já vendemos melhores por bem menos! Neste caso, não sai nenhum titular verdadeiramente indiscutível, e ainda assim queixam-se?

Mística - Sim, pois estas vendas são consequências de erros gravíssimos de questão. A forma como têm relativizado o falhanço do fair-play financeiro é altamente preocupante. Eu ainda me lembro de ouvir Fernando Gomes dizer, no início de 2016, que o contrato com a PT ia permitir «gerir o FC Porto de outra forma». É esta a forma de que falavam? Desde então, o que fizeram? Apresentaram o maior prejuízo da história da SAD, de quase 60 milhões de euros; falharam o FPF; venderam Rúben Neves e André Silva em saldos (atenção, não digo que os 38 milhões tenham sido maus, não foram - mas se o presidente diz que antes rejeitou 60 milhões por ele, então não foi o melhor negócio possível), e já cometeram a proeza de antecipar 57 milhões de euros do contrato com a PT, que só devia começar em junho de 2018. São pelo menos 12,5% já utilizados de um contrato que só arrancava dentro de um ano. Os treinadores vão saltando e os responsáveis por este caos seguem imaculados. 

Cifrão - Não te desvies do essencial, Mística. Para a história, fica que vendemos um suplente por 18 milhões de euros. O mais próximo disso ter acontecido foram as vendas do Imbula e do Iturbe, que não permitiram grandes mais-valias mas cujo bolo total foi bem apetecível. A venda de Rúben Neves foi ainda melhor. Concluo, o FC Porto está mais rico.

Mística - Não, Cifrão. O portismo está mais pobre. 

sábado, 1 de julho de 2017

Lembrete






«Espero que ele fique muitos anos no FC Porto. O Rúben tem contrato até 2019 e não até 2017, como por vezes vejo escrito, e nós gostaríamos de o manter no clube, como uma espécie de João Pinto. Ou seja, que ele fosse um símbolo da transmissão da mística por várias gerações. Nunca quererei que saia do FC Porto». Pinto da Costa dixit

Com uma mera e pequena nota a acrescentar: imaginem que João Pinto, no seu 2º ano de futebolista sénior, tinha sido posto a andar do FC Porto. Não haveria João Pinto a levar pedrada no Jamor; não haveria João Pinto agarrado à orelhuda em Viena; não haveria João Pinto a jogar, às escondidas, com um dedo do pé partido; não haveria João Pinto para levantar a Intercontinental e a Supertaça Europeia; não haveria o histórico e marcante capitão que ganhou 9 campeonatos, que se tornou recordista de jogos e que meteu as mãos em 24 troféus ao serviço do FC Porto. Imaginem. 

Poderia, algum dia, Rúben Neves ter um percurso idêntico ao de João Pinto? Podemos nunca vir a saber. Tudo dependerá de quanto (ainda) vale a palavra de Pinto da Costa.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Não é preciso mais nada

Como unha e carne. O ponto 3 do artigo 61º já desmantela a teoria de que possa haver Pedro Guerra sem Benfica. Não pode. O regulamento disciplinar da FPF é muito claro e refere-se a «dirigentes, representantes e colaboradores». Logo, quando o próprio Pedro Guerra se enuncia como um mero «colaborador» do Benfica, já está a dar reconhecimento suficiente para que o clube seja julgado pelas suas ações.


E face às últimas revelações no Porto Canal, vimos que Adão Mendes, vice-presidente da AF Braga - membro da APAF -, apelou ao administrador do Benfica Paulo Gonçalves para que a nota de Manuel Mota fosse «positiva», depois de um Marítimo-Vit. Guimarães. 

Porquê este interesse em que Manuel Mota tivesse nota positiva num Marítimo-Vit. Guimarães, um jogo que não interferia com os objetivos do Benfica? Porque no jogo seguinte que apitou na I Liga, Manuel Mota foi chamado precisamente a arbitrar o Benfica-Rio Ave

Ora, poderia ser difícil que Manuel Mota fosse chamado a arbitrar um jogo de um candidato ao título tendo nota negativa num Marítimo-Vit. Guimarães. Mas Manuel Mota lá foi nomeado para o Benfica-Rio Ave. Lembram-se do que aconteceu nesse jogo?

Podemos começar por lembrar que Roderick, ex-Benfica, não foi convocado para esse jogo, por alegados problemas físicos. Certo é que 3 dias depois foi chamado para jogar na Liga Europa e que agora foi transferido para o Wolves, uma das lavandarias, perdão, clubes geridos por Jorge Mendes. 

O Benfica venceu esse jogo por 1-0, golo de Talisca, aos 60 minutos. Golo esse que não deveria ter acontecido, pois foi precedido de uma falta por marcar de Maxi Pereira. E oito minutos depois, aconteceu isto:


Esmael Gonçalves acabou por introduzir a bola na baliza e fazer aquele que poderia ter sido o 1x1 final. Porquê tanto interesse em que Manuel Mota tivesse nota positiva? Pois assim a sua nomeação para o Benfica-Rio Ave não seria comprometia por uma má prestação numa jornada anterior. E todos constataram a imensa felicidade e circunstâncias que levaram o Benfica a esta vitória sobre o Rio Ave. 

Há também a assinalar o interesse em que Manuel Mota tivesse uma boa classificação. Afinal, não sendo Manuel Mota internacional, segundo os regulamentos só seria recomendável para arbitrar jogos de grande dificuldade se ficasse no top 12 da classificação dos árbitros. E ficou, numa posição confortável mas numa classificação particularmente renhida - bastava ter menos 0,035 pontos e Manuel Mota ficaria abaixo da classificação necessária. 

Perante estas circunstâncias e o pedido para que Manuel Mota tivesse nota positiva, vemos uma infração do ponto 1 do artigo 61º, que proíbe «comportamento ou decisão destinados a modificar ou falsear a veracidade e a autenticidade de documentos, procedimentos ou deliberações». Neste caso, a modificar a nota atribuída a um árbitro que estava na lista dos meninos queridos do Benfica.

Não é preciso mais nada para que o Benfica seja punido à luz destas normas. Apenas que os regulamentos e respetivas punições sejam aplicados. 

AGORA PARTILHEM TUDO.