quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

E assim se fez a omelete (im)possível

Uma qualificação notável. O FC Porto reforçou o estatuto de mais forte equipa portuguesa no panorama europeu, ao garantir a qualificação para os 1/8 da Liga dos Campeões, com mais pontos e golos marcados do que Benfica e Sporting juntos. Era um objetivo declarado, mesmo sem que alguma vez tenham dado ao treinador as melhores condições para o cumprir, e o FC Porto conseguiu-o com mérito e a pulso, num grupo que era verdadeiramente traiçoeiro.


Na antevisão a esta Champions, foi comentado que neste grupo qualquer equipa era simultâneamente candidata à qualificação e ao último lugar. Ironicamente, o Besiktas, teoricamente a equipa mais frágil, venceu o grupo invicto, enquanto o Mónaco, para muitos a equipa mais forte, sai da Champions sem uma única vitória. Ilustrativo. 

O FC Porto foi inferior ao Besiktas neste agrupamento, foi do 8 ao 80 contra o Leipzig e carimbou a qualificação com duas excelentes exibições frente ao Mónaco. É certo que na última jornada as circunstâncias voltaram a ser favoráveis - à imagem da última época, quando o Leicester se apresentou no Dragão com uma equipa alternativa e também levou cinco -, e não deixa de ser atípico que até este jogo o FC Porto tenha construído a sua pontuação basicamente às custas de bolas paradas e com inconsistência defensiva (só o Sevilha se apurou com mais golos sofridos), mas nas contas finais os objetivos foram cumpridos e merecidos.

A Champions está feita no que às metas financeiras e desportivas dizem respeito. O sorteio dos oitavos-de-final não vai oferecer nenhum adversário simpático, nem diante do qual se possa reclamar favoritismo, mas a pressão já lá vai. Agora é tempo de centrar atenções no Campeonato, no qual até fevereiro muita coisa poderá mudar. Ou então a Champions continua, mas no Bonfim. 




Aboubakar (+) - Importa começar por recordar que o FC Porto não pôde contar com ele na primeira jornada, e que o camaronês terá ferido muitas suscetibilidades por ter ido ao balneário do Besiktas. Mas o que se seguiu foi isto: 5 golos e duas assistências em 5 jogos, com intervenção direta num golo a cada 60 minutos. No que a este aspeto diz respeito, estamos a falar do jogador mais produtivo da história do FC Porto na Champions, superando Rabah Madjer. 

No primeiro golo foi oportuno, no segundo determinado e inteligente a procurar o espaço para a finalização. Mas o melhor veio depois, com um passe absolutamente fantástico para Brahimi matar o jogo. Muito bem a aguentar a bola no eixo central, a vir dar apoio atrás e a distribuir o jogo, num dos seus melhores jogos da temporada. Levou o FC Porto às costas nesta fase de grupos. É caso para afirmar: ainda bem que não há CAN em 2018.


Yacine Brahimi (+) - O segundo melhor driblador da fase de grupos da Liga dos Campeões (só atrás de Neymar), a fechar a fase de grupos com chave de ouro, com mais uma assistência e a estreia a marcar. Foi o jogo em que teve maior influência direta na lista de marcadores, ainda que ao longo da fase de grupos tenha sido o denominador comum na criatividade da equipa. Conseguiu completar mais dribles do que todos os colegas juntos nesta fase de grupos. A prova de uma dimensão à parte e a repetição de um alívio: ainda bem que não há CAN em 2018.

Laterais (+) - Com Danilo e Alex Sandro, o FC Porto tinha uma dupla de laterais de classe europeia. Hoje, só resta dizer que ninguém sente a sua falta, graças a Alex Telles e Ricardo Pereira. Juntos, foram responsáveis por 25 das ocasiões de golo criadas pelo FC Porto nesta fase de grupos e voltaram a ter interferência direta. Alex Telles fez um bonito e merecido golo e Ricardo assistiu Soares com precisão para o 5x2 final. Eficazes a defender, desequilibradores a atacar.

Danilo Pereira (+) - Um daqueles jogos em que a sua presença pode não ter sido muito notada, mas foi decisiva. Fez os passes para os golos de Aboubakar (o segundo) e Alex Telles e empurrou várias vezes a equipa para o meio-campo adversário na saída de bola, tendo falhado apenas um passe no seu meio-campo. Não teve que ter muitas ações defensivas (apenas um tackle, nenhuma bola de cabeça ganha e nenhuma interceção, algo atípico no seu rendimento), mas assegurou sempre o equilíbrio da equipa no momento da perda.

Héctor Herrera (+) - Encheu o meio-campo e fez talvez a sua melhor exibição nesta fase de grupos. Teve um total de 103 ações com bola, mais do que os médios-centro do Mónaco juntos, com 91% de eficácia de passe, criou duas ocasiões de golo e acertou os dois cruzamentos que tentou, além de ter recuperado 15 vezes a posse de bola. E não menos importante, desta vez soube temporizar mais a velocidade do meio-campo, jogar curto e não querer que cada posse de bola fosse uma tentativa de a meter o mais depressa possível na frente. Resultado? O FC Porto teve 65% de posse de bola e esteve quase sempre no controlo do jogo, mesmo com uma unidade a menos no meio-campo. A prova de que não é preciso pressas para golear, mesmo tendo sido sonegadas duas grandes penalidades favoráveis ao FC Porto que, com VAR, seriam certamente assinaladas. Pois, ou então não. 





Deitar o crédito a perder (-) - Não é caso para dizer que Felipe teve meramente um descuido, que cometeu apenas um erro e que tem estado bem nos últimos jogos. Não tem. Podemos recuperar o Machado do jogo com o Aves: «Felipe bem pode agradecer que a dupla com Marcano traga crédito da época passada, e que Reyes não tenha o estofo necessário para entrar no 11, caso contrário já tinha sentado. Começam a ser demasiados erros. O problema não são os passes longos - Marcano e Felipe usam e abusam dos passos longos porque têm instruções para isso. O problema são as constantes hesitações, os maus timings sobre a bola, a falta de sentido prático a cortar os lances.»

Não podemos confundir o que é ter raça e vontade com o cair na ratoeira/tentativa de entrar numa picardia com um adversário e sujeitar-se à expulsão. Felipe não tinha nada que meter as mãos ao adversário ou responder a provocações, sobretudo sabendo que tinha a oportunidade de mostrar serviço para ir à seleção do Brasil. O FC Porto estava a vencer por 2x0, tinha o jogo controlado, mas as circunstâncias da expulsão poderiam ter sido bem mais penalizadoras. Quem não se lembra de outra expulsão disparatada no Dragão, de Herrera, frente ao Zenit, que custou bem mais caro?

Felipe conquistou o seu lugar no 11 com mérito, mesmo nunca estando ao nível de Marcano, mas de há várias semanas para cá tem sido das unidades de menor rendimento na equipa principal, com vários erros de concentração, posicionamento e de abordagem aos lances. O jogo nem estava a correr mal a Felipe, apesar de já ter falhado 5 passes longos, mas um jogador que estivesse concentrado e com a cabeça no sítio não cometeria o erro que Felipe cometeu. Já se penitenciou por isso, mas para já temos a garantia de que teremos que mexer na dupla de centrais e que Diego Reyes provavelmente terá que entrar no 11 nos oitavos-de-final. E será pela expulsão que Sérgio Conceição terá que mexer na dupla de centrais, mas se fosse pelas últimas exibições de Felipe também não poderia deixar ninguém escandalizado.

Acertar os passes longos (-) - Numa retrospetiva a esta fase de grupos, sobra a questão: quantos golos conseguiu o FC Porto através de bolas longas despejadas pelos centrais na frente? Sobretudo durante os primeiros 10 minutos, o FC Porto repetiu a fórmula de meter bolas longas na frente, à espera que Aboubakar ou Marega apanhassem alguma coisa nas costas da defesa. As melhoras jogadas nasceram de circulação de bola, do meio para os flancos, e da procura do espaço para colocar os jogadores em situação de finalização, em vez de bater logo a bola longa na frente. O melhor FC Porto desta época, exceção feita à visita ao Mónaco, foi sempre aquele que quis ter bola e assumir o jogo, em vez de trocar a elaboração da construção de jogo por passes longos de Felipe ou Marcano. Algo a reter para o que aí vem.

Palavra, logicamente, para Sérgio Conceição, que na sua época de estreia na Champions garante o apuramento para os 1/8, sem um único reforço e estando longe de ser consensual em muitas das opções que foi tomando. A verdade é que não falhou na hora H e o FC Porto revelou/reabilitou vários ativos na montra europeia. Não foi a época em que o FC Porto melhor jogou na fase de grupos, mas foi um dos apuramentos obtidos com menos recursos. Uma omelete difícil de cozinhar, mas os ovos foram aproveitados da melhor forma.

3 comentários:

  1. Excelente análise! Concordo com quase tudo o que foi dito aqui. Saudações portistas

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  2. Como penso que SC não é estúpido, sou dos que pensam em Oliver como peça importante no onze desta época, mas depois de ler o que escreveu no último post e a ser verdade, será mais uma contrariedade e reforça as limitações na escolha e opções de estratégia de jogo.
    Espero que se confirme a revelação, pois caso contrário ficaria confuso em relação a Sérgio.

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  3. Penso que se devia ter referido ainda mais à quantidade de passes longos (principalmente para o lado direito) que se têm feito nos últimos jogos. É que, na minha opinião, isso só demonstra a incapacidade que o Porto tem de passar a primeira linha de pressão da equipa adversária, muito por culpa dos médios (Herrera normalmente e AA no ultimo jogo) que não conseguem dar linhas de passe, sendo sempre necessário que o brahimi desca e venha para o meio para que saia alguma coisa com pés e cabeça a partir do meio campo. A solução está no banco.

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