A imprensa é um eterno universo de preocupação para muitos adeptos. Não é surpresa para ninguém que determinados títulos têm maior proximidade com alguns clubes. Que existe compadrio - uma palavra provavelmente até elegante de mais para o caso - entre A Bola e o Benfica, não é novidade. E que o jornal O Jogo é, historicamente, o jornal que maior apreço recebe por parte do FC Porto, também não. Mas a notícia trazida hoje à capa é grave.
Cada adepto pode escolher o que lhe ocupa o topo das preocupações: ou o facto de Luís Filipe Vieira, o leitor, dar entrevistas à Bola que não o são; ou uma manchete d'O Jogo acusar basicamente a SAD de amadorismo.
Em causa estão duas pequenas frases.
«Última reunião foi na época passada» e «negociações com os jogadores em risco vão começar agora». É brincadeira, certo?
O FC Porto está em plena época 2017-18, em que para já tudo tem corrido bem. Teve dificuldades na venda e colocação de jogadores no último defeso, ficou com um caso bicudo por resolver (Bueno), e entre os excedentários/dispensáveis só Depoitre saiu por um valor acima do que seria expectável no mercado (quase 4M€). Ainda assim, há expectativa em ver se a folha salarial conseguirá descer um pouco (a previsão para a última época foi de 69,5M€ - um aumento de 28% em relação ao último campeonato conquistado).
E perante a ausência de reforços, transmitiu-se a ideia de que reforços eram os que ficavam. Mas então agora a SAD do FC Porto é acusada de ter iniciado a época sem antes ter assegurado a continuidade de ativos que estão em final de contrato?
Iván Marcano é um dos capitães do FC Porto e um jogador essencial no plantel. «Última reunião foi na época passada». A sério que o FC Porto começaria uma época sem assegurar, dentro do possível, que Iván Marcano era para continuar? Sem haver contactos diretos nesse sentido? E as negociações «com os jogadores em risco, vão começar agora»? Apenas agora, a menos de 4 meses de poderem assinar por outro clube a custo zero?
A SAD basicamente não comprou ninguém no último defeso. Houve muito menos trabalho para fazer a nível de mercado. E com isto, não houve tempo para encaminhar as renovações de contrato antes da época começar?
É sabido que Iván Marcano quer ficar no FC Porto. E vai ficar, seguramente, porque estamos a falar de um capitão e de um profissional exemplar. Mas num mundo tão volátil como o futebol, em que as intenções e lealdade mudam ao ritmo do cifrão e de um dia para o outro, esta acusação de uma gestão de puro amadorismo é demasiado grave.
Tomemos como exemplo a situação de Vincent Aboubakar. Fabrice Picot, o empresário do avançado, disse em julho que Aboubakar queria «jogar e ajudar» o FC Porto, mas que «a renovação não está nos planos». Por norma, um jogador que se recusa a renovar não volta a jogar. Neste caso, que alternativa poderá ter o FC Porto?
Não há alternativas no ataque. O FC Porto depende de Aboubakar pelo menos até janeiro. Tem que jogar, não há alternativa. E sabemos que o camaronês tem um empresário que não hesitou em afirmar que não havia planos para renovar. Quem garante que Aboubakar estará a ter o melhor tipo de aconselhamento nesta fase?
«Escuta, Vincent, já deu para ver que o FC Porto não pode prescindir de ti. O mercado está fechado e não podem jogar até janeiro só com Marega e Soares, por isso tens lugar quase sempre garantido. Fazemos assim: continua a jogar bem, a fazer golos, e depois em janeiro já podes assinar por outro clube a custo zero. E como não têm nada a pagar ao FC Porto, até pagam uma comissão e um prémio de assinatura bem mais altos». Claro, isto é meramente ficcional e extremamente pessimista. Mas estamos no futebol.
O próprio Diego Reyes, único central suplente na equipa principal, está em final de contrato. Assim como Maxi Pereira, que dificilmente ficará para a próxima temporada. E na véspera, O Jogo trouxe-nos também à capa uma notícia de que Reyes mostrava serviço como alternativa a Danilo Pereira.
Já não há uma alternativa de raiz a Danilo no plantel. Sugerem Reyes, que é então simultaneamente único central suplente e alternativa à posição 6. Está em final de contrato.
Não passa pela cabeça de ninguém perder Iván Marcano e Aboubakar. Se tal acontecesse, Reyes entrava no 11, deixava de haver central suplente e a tal alternativa sugerida a Danilo; se Aboubakar deixasse de ser opção, Marega e Soares tinham que durar os 90 minutos semana após semana, ou então Sérgio Conceição teria que passar a jogar em 4x3x3. O pior que podia acontecer: o treinador ser forçado a mudar a sua tática por não ter opções suficientes no plantel.
E já existem consequências disso. Perante a incerteza em torno de Corona, especula-se que Ricardo Pereira pode jogar a extremo. Tudo bem, tem qualidade para isso, e Maxi Pereira dá garantias de qualidade. Mas isso implica que, perante a ausência de um único jogador, Sérgio Conceição tem que mexer em dois setores; e mexe em dois setores apesar de ter Hernâni no plantel. Não é o maior atestado de confiança e de profundidade no plantel, diga-se.
Já que não foram capazes de dar um único reforço ao treinador, o mínimo que se pede é que Iván Marcano, Diego Reyes e Aboubakar tenham o seu futuro totalmente assegurado e comprometido com o FC Porto o quanto antes. Infelizmente, já temos variados exemplos de que no futebol a palavra não chega.
Ou então O Jogo está simplesmente mal informado e está tudo tratado, a tempo e horas. Isso.
Ou então O Jogo está simplesmente mal informado e está tudo tratado, a tempo e horas. Isso.
PS: Uma declaração de Petr Cech, guarda-redes do Arsenal, que vale a pena afixar. «Quando José Mourinho chegou ao Chelsea proveniente do FC Porto, ele trouxe com ele uma coisa essencial: veio de um clube onde não era aceitável para ele terminar o Campeonato em segundo lugar. Ele trouxe o mesmo espírito para o Chelsea».
O Chelsea, um dos clubes mais poderosos do futebol atual, tomou como exemplo para crescer o FC Porto. Não é necessário acrescentar mais nada.

























