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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A ideia ao serviço do plantel

Sem nenhuma das contratações para a nova época no 11 inicial. Sem Danilo, Marega ou Soares. E sem bicadas para a frente. Foi com uma exibição de enormíssima qualidade que o FC Porto despachou o Desportivo de Chaves e conseguiu os três primeiros pontos da época. Foram 5-0, poderiam ter sido bem mais, tamanha a qualidade de jogo que o FC Porto conseguiu apresentar e a capacidade de criar ocasiões de finalização. 


Exibições de grande qualidade a nível individual e coletivo, futebol que empolgou os adeptos e deu para terminar com a inimaginável dupla de ataque Adrián López-Marius Mouandilmadji a ser aplaudida pelo Dragão. Com esta amostra, dizer que Sérgio Conceição tem que continuar a «rentabilizar» os ativos que tem é o equivalente a dizer a um tipo no topo do Evereste que tem que continuar a escalar. E esse tipo, se se chamasse Sérgio, era capaz de esticar os braços e meter-se em bicos de pés.




Sem bicada, sem balão (+) - Pode ser «birra» cá do burgo, mas há mesmo que começar por aqui: cinco golos, cinco jogadas que dispensam a bola despejada diretamente pelos defesas na linha da frente. E o lance do 2x0 é um exemplo de que não é preciso muito espaço para colocar um jogador nas costas da defesa adversária: basta fazê-lo na altura correta, quando as circunstâncias do jogo a isso o convidam e não como jogada padrão. Num curto passe, Sérgio Oliveira rasga uma linha de 6 jogadores do Chaves e Otávio fica em posição livre para cruzar para três jogadores em zona de finalização. É refrescante e importantíssimo ver o FC Porto e Sérgio Conceição apostarem nestas bases, e é notoriamente mais vantajoso colocar esta matriz de jogo ao serviço do plantel em vez de uma matriz de jogo ao serviço de um único jogador. Depender de uma equipa para desbloquear jogos é sempre melhor do que depender de um jogador. 

Tudo na defesa (+) - Iker Casillas não deve ter sujado as luvas, tamanha que foi a eficácia defensiva da equipa, em especial para Diogo Leite e Felipe no jogo aéreo. O jovem português, no lugar de Marcano, ganhou 7 das 8 bolas disputadas pelo ar no setor defensivo e Felipe só perdeu 2 duelos em todo o jogo, não tendo cometido uma única falta, além de ter criado uma ocasião de golo. Alex Telles esteve muito acima do nível demonstrado na Supertaça, mas Maxi Pereira esteve novamente uns furos acima, ao criar quatro ocasiões de golo num jogo em que quase só teve preocupações ofensivas. 

Sérgio Oliveira (+) - Muito abaixo do nível exigível na Supertaça, Sérgio Oliveira afirmou-se agora como um dos melhores em campo e um dos principais dinamizadores da grande exibição do FC Porto. Descobriu Otávio no lance do 2x0 e esteve no golo de Marius, tendo criado 6 ocasiões de finalização, duas delas flagrantes, entre uma exibição com 93% de eficácia no passe e oito ações defensivas. Curiosamente, desta vez não arriscou no remate e só por uma vez tentou o passe longo. Reduziu a sua amplitude de jogo e jogou mais curto, mas isso não o impediu de estar em todo o lado. Curiosamente, desta vez foi Herrera quem teve a missão de abrir mais o jogo, e acabou por ter sucesso, com 7 de 9 passes longos eficazes e 92% de eficácia no passe, mas desta feita o mexicano não esteve tão forte nas bolas divididas e esteve longe das zonas de finalização, apesar de ter sido o elemento com mais ações com bola (98).

Desequilíbrio (+) - Otávio na assistência para os dois primeiros golos (o 1x0 com uma boa simulação de André Pereira - apesar da inteligência em algumas movimentações e de muita vontade, é porventura o principal candidato a 'cair' do 11 em breve), Brahimi novamente a faturar em lance individual, Corona a entrar e a marcar, Aboubakar a bisar (e a ficar a dever a si próprio bem mais noutras ocasiões), Adrián e Marius a entrarem e a terem ocasiões para marcar. Todas as unidades do setor ofensivo do FC Porto marcaram, deram a marcar ou tiveram oportunidades para o fazer, fosse em jogadas pelo corredor, no espaço interior ou através de lances individuais. 

Quando é criado um volume tão grande de ocasiões, com nove situações em que não havia opositor entre o jogador do FC Porto e o guarda-redes adversário (e falharam sete delas), não há forma de vacilar: mesmo com um punhado de grandes ocasiões desperdiçadas, o FC Porto não deixou de golear. Procurou sempre mais, praticamente dispensou a meia distância (16 dos 19 remates foram obtidos dentro da grande área) e rapidamente assimilou um futebol que resumia tudo a uma questão: a vitória é certa, falta saber por quantos. 

Tópico para reflexão, a entrada de Adrián López. Se tivesse sido Lopetegui a lançar Adrián, talvez fosse a «espanholização». Se fosse Nuno Espírito Santo, talvez fosse «um frete ao amigo Mendes». Mas como foi Sérgio Conceição a lançá-lo, então é porque o treinador se calhar pode recuperar o jogador. Isto diz tudo sobre o crédito que Sérgio Conceição ganhou no clube. E que continua a fazer por merecer. E praticamente com o mesmo plantel do meio-campo para a frente da época passada, tem um exemplo de que afinal é possível jogar bom futebol, com circulação, apoio e momentos de desequilíbrio individual e coletivo, sem que isso implique ter como jogada padrão jogadores a correr e a caírem nas costas da defesa com passes de 40 metros. Sem imprescindíveis, com uma ideia que se sobrepõe à individualidade. Não é um recado para Marega: é para todo o plantel.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Envolvência

A Supertaça voltou a casa, e já deixava saudades. Este é, por razões óbvias, um troféu especial para o FC Porto, não só por ter mais troféus do que todos os outros clubes juntos e ter estado em 30 das 40 finais, mas também porque conquistar a Supertaça significa, muitas vezes, ter uma injeção anímica e de confiança para a longa época que se segue. 


O jogo frente ao Desp. Aves foi um exemplo dos calafrios que o FC Porto vai certamente encontrar muitas vezes no Campeonato, numa altura em que o plantel às ordens de Sérgio Conceição não é, continua a não ser, mais forte do que o da última época. Um jogo no arranque da época não dá atestados de garantias ou insuficiências, mas todos saíram de Aveiro com sentimento de dever cumprido e com a 21ª Supertaça. 





Envolvência (+) - A palavra que define a vitória do FC Porto. Na fase inicial da partida, regressámos às inconsequentes bicadas para a frente (já lá vamos). O golo do Aves obrigou a equipa a acordar e a organizar as suas ideias e os três golos são exemplos perfeitos daquilo que deve ser o futebol da equipa para esta época: envolvência do setor intermédio no processo ofensivo, jogo interior, circulação a toques curtos e transporte.

Primeiro, com Alex Telles no apoio, Brahimi leva a bola até à tabela com Aboubakar, explora o espaço interior e faz golo; no 2-1, é Maxi Pereira, em combinação com Otávio (também a desequilibrar por dentro), a fazer a diferença numa jogada a toque curto; e o lance que mata o jogo nasce do mesmo princípio, com Óliver a ir buscar jogo à linha, apoiando Maxi, e Corona a situar-se na zona central.

Semelhanças? Três golos em que não foi preciso uma bicada para a frente, à espera que alguém apanhasse a bola num espaço que não existia nas costas da defesa do Desportivo das Aves. A velocidade e o jogo direto terão a sua importância e espaço ao longo da época, mas contra os Aves deste Campeonato recomenda-se esta forma de jogar.

Maxi Pereira (+) - Uma boa forma de corresponder à renovação de contrato que, diga-se, esteve longe de ser unânime no universo portista e que talvez nem teria acontecido se Diogo Dalot não tivesse saído. Mas a experiência, inteligência e o espírito competitivo de Maxi Pereira são mais-valias importantes no plantel. Equilibrado a atacar e a defender, procurou sempre apoios curtos com Otávio e foi dessa forma que chegou ao golo da reviravolta. As pernas pesam, e Maxi provavelmente alternará várias vezes a titularidade ao longo da época, mas enquanto estiver em campo é uma garantia de empenho. Não há portista que não goste.

Jesús Corona (+) - Quando Brahimi dava sinais de ter que sair por lesão, Sérgio Conceição começa por mandar Soares aquecer. Era um péssimo sinal para Corona - ver o treinado preferir um ponta-de-lança a um extremo perante a ausência do argelino. Mas Sérgio Conceição mudou de ideias e em boa hora, com Corona a fazer uma segunda parte de grande qualidade. Bom enquadramento com a baliza e a grande área, bem a proteger a bola e a definir os lances e a conseguir fazer um bom golo. Não será um exagero afirmar que a segunda parte em Aveiro foi melhor que qualquer jogo que tenha feito este ano até à data. Agora a eterna questão: conseguirá Corona fazer dois bons jogos seguidos? O mexicano bem precisa, e o FC Porto também. 

Outros destaques (+) - Herrera voltou a ter que trabalhar por dois no meio-campo e fê-lo com distinção. Teve ordens para não avançar muito para zonas de finalização e proteger a retaguarda da equipa, funcionando como pêndulo e referência no eixo do meio-campo. Brahimi, apesar da lesão, foi a tempo de ajudar a desbloquear o jogo e a entrada de Óliver em campo voltou a ser sinónimo do período de melhor qualidade e controlo no jogo. Palavra para a estreia de Diogo Leite, que ganhou o lugar nesta pré-época e vai obrigar Mbemba e Militão a terem que correr atrás do lugar. 





Os eternos balões (-) - Não havia Marega no ataque, o que poderia desde logo significar que o FC Porto procuraria outras soluções na sua construção. Mas não foi isso que a fase inicial da partida demonstrou. A equipa voltou à fórmula tantas vezes usada na última época e não raras vezes vimos a bola ir desde o defesa à linha de fundo. Não funciona, por duas razões: Brahimi, Otávio ou até André Pereira não são jogadores para irem ganhar metros nas costas da defesa; e o Aves, como tantas equipas no Campeonato, não vai conceder espaço suficiente para que o FC Porto possa jogar desta forma. Na Champions é uma coisa, no Campeonato outra.

Cada bola longa para as costas da defesa do Aves foi sinónimo de perda de posse e, conforme já foi defendido, os três golos do FC Porto nascem de momentos em que a equipa preocupa-se mais em transportar a bola, com tabelas e circulação, e menos em tentar ganhar em velocidade e passes longos. Sobretudo num contexto de Campeonato português, é importante ter a paciência e a capacidade para jogar desta forma.

O primeiro objetivo da época está cumprido. Mas porque a partir de setembro será inútil dizê-lo, não custa repetir: as vitórias no arranque de época devem ser celebradas, mas não podem servir de maquilhagem face às necessidades do plantel. Não custa lembrar aquela que havia sido a última Supertaça do FC Porto, ganha em 2013, e da qual muitos saíram a pensar que ia ser Licá e mais 10. Não basta pensar no Aves, no Chaves ou no Belenenses: há que pensar nos clássicos, na Champions, nas pausas internacionais, nas lesões, nos castigos, na óbvia sobrecarga de jogos. Sérgio Conceição precisa de mais soluções e o pior que poderia acontecer seria chegar ao início de setembro e ouvi-lo dizer «reforços são os que cá estão». 

terça-feira, 26 de junho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (1)

Contrato até 2020
Jesús Corona - Muitos esperavam que 2017-18 fosse a época da afirmação, mas a última temporada acabou por ser a pior do extremo mexicano ao serviço do FC Porto. A sua concorrência para a posição eram, basicamente, jogadores que o FC Porto havia dispensado no passado recente, mas a inconsistência acompanhou toda a temporada de Corona, que terminou a época com apenas 3 golos e 4 assistências. Sérgio Conceição bem puxou por Corona, fazendo dele titular no início da época, mas, com exceção ao grande golo em Braga, foi um ano de pouquíssima produtividade para Corona, por certo também afetado por problemas do foro familiar que devem ser tidos em conta. Ainda assim, contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que Corona fez a diferença, e muitas as em que mal se fez notar em campo. O jogador de 25 anos custou 10,5 milhões por 70% do passe e tem apenas mais dois anos de contrato. Ou seja, aproxima-se o momento em que há que decidir se vamos renovar a aposta em Corona ou se o melhor será tentar encontrar uma saída. Tem tudo para ser, a par de Brahimi, o principal desequilibrador no plantel, mas três anos depois continuamos à espera do mesmo: que o potencial se traduza em eficiência. Ter que esperar quatro épocas até ver um match-winner se afirmar não costuma ser bom sinal.  

Contrato até 2019
Yacine Brahimi - O mais virtuoso jogador do plantel e o rei do drible. Com 12 golos e 10 assistências (ficou a uma contribuição da melhor época da carreira), Brahimi foi muitas vezes um oásis de criatividade e imprevisibilidade num futebol limitado, em grande parte da época, a jogo direto e bola na frente. Brahimi acabou a época com o maior número de dribles eficazes da Liga (167 - mais do dobro do segundo melhor da I Liga, Gelson Martins, e apenas superado por Messi nas Ligas europeias) e foi o jogador com mais duelos ganhos no Campeonato, num total de 306. Foi o jogador mais castigado dos três grandes, com 95 faltas sofridas, e teve apenas um factor particularmente negativo no seu rendimento: a ineficácia nos cruzamentos (embora a sua função fosse sempre mais o movimento interior), pois em toda a época teve apenas um cruzamento eficaz no Campeonato. 

E agora? Brahimi está a um ano do final de contrato, por isso ou renova ou sai. A questão é que Brahimi nunca será um jogador que garantirá uma grande venda ao FC Porto, pois a SAD detém apenas 50% do passe, e as opções de compra e revenda estabelecidas com a Doyen expiraram em 2017. E tendo em conta que Brahimi poderá assinar livremente por outro clube a partir de janeiro, é natural que, com o aproximar do próximo ano, fique cada vez mais difícil renovar com o argelino, pois as exigências dos jogadores e dos respetivos representantes sobem sempre a partir do momento em que começam a surgir outros clubes em carteira. Um caso para definir o quanto antes, pois Brahimi na próxima época dificilmente valerá mais do que agora, e desportivamente o FC Porto dificilmente arranja um extremo da sua qualidade pela verba que o argelino eventualmente render. Renovar será caro, muito caro, e difícil, mas desportivamente perder Brahimi seria um golpe rude para Conceição. 

Contrato até 2019
Hernâni - Ficou no plantel meramente perante a falta de alternativas e nada mudou desde que assinou pelo FC Porto: não tem qualidade para jogar a este nível. Foi apenas uma vez titular no Campeonato e foi jogando alguns minutos residuais ao longo da época, tendo contribuído com apenas um golo e uma assistência. A sua grande velocidade é uma caraterística que não é acompanhada por capacidade de decisão, eficácia no 1x1 ou perigo para as balizas adversárias. Tem apenas mais um ano de contrato, logicamente não justifica a renovação e o FC Porto deve procurar uma saída que permita o melhor encaixe financeiro possível - por outras palavras, não vale a pena renovar para andar a emprestar. O que Hernâni produziu na equipa A nesta época um extremo da equipa B não faria pior. 

Compra obrigatória
Majeed Waris - Foi o único jogador escolhido a dedo por Sérgio Conceição como reforço para o FC Porto em 2017-18, mas o ganês não conseguiu ter qualquer impacto na equipa. Além de ter chegado a um clube, país e realidade muito diferentes, Waris não trazia qualquer tipo de ritmo competitivo de França, algo que se refletiu no seu rendimento - ou falta dele. Não voltou a jogar desde que foi lançado na «piscina» de Paços de Ferreira, num jogo totalmente impróprio para as suas caraterísticas (e o treinador seria, certamente, o primeiro a saber isso), e pelo que foi o seu rendimento em 2017-18 não justificaria a continuidade. No entanto, a SAD está obrigada a ficar com Waris a título definitivo, e tudo aponta para que o avançado seja um jogador particularmente explorado por Sérgio Conceição na próxima época. Waris terá a possibilidade de começar a época de raiz, de fazer a pré-época, de trabalhar a vertente física e ser integrado nas ideias do treinador. Se Waris foi o único escolhido a dedo por Sérgio Conceição na última época, seria uma surpresa e até mau sinal se o treinador desistisse da sua aposta tão cedo. Por isso, Waris pode muito bem tornar-se um dos reforços para 2018-19.  Deve.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Expresso Telles dá-te asas

«Os 45 minutos que faltam disputar frente ao Estoril eram uma oportunidade para reforçar a liderança da Liga. Agora são a oportunidade para recuperá-la. Basta uma jornada para tudo mudar novamente. Para o bem ou para o mal

O post anterior d'O Tribunal do Dragão terminava desta forma. E aí está: bastou uma jornada para tudo mudar novamente, agora para o bem. Se na jornada anterior o FC Porto perdeu 2 pontos em relação ao Sporting, agora ganhou 3 e recuperou a liderança isolada do Campeonato, sabendo que se vencer o Estoril pode ganhar uma vantagem de 5 pontos sobre os rivais. A derrota do Sporting não deixa de ser um aviso para o quão difíceis serão os 45 minutos frente ao Estoril, mas o FC Porto, em termos pontuais, está melhor do que estava antes de defrontar o Moreirense. Quem diria?


Três cruzamentos de Alex Telles, três cabeçadas, três pontos. A mesma fórmula funcionou três vezes e foi o suficiente para assinar uma vitória difícil mas merecida, apesar das condicionantes provocadas pelas ausências de Marcano e Danilo, o desgaste físico em vários jogadores-chave e o ciclo complicado que se antevê no calendário. 

O SC Braga foi ao Dragão rematar muito mais vezes do que é normal (14 - como termo de comparação, note-se que o Benfica rematou 7 vezes quando foi à Invicta, e o Sporting, na totalidade dos 2 clássicos já disputados esta época, também disparou apenas 7 vezes), José Sá teve o dobro do trabalho que tem sido hábito, mas o FC Porto soube ser superior e inteligente frente ao SC Braga. 





Alex Telles (+) - Vamos uma rodada de números para se perceber a influência que o lateral-esquerdo tem no FC Porto. Alex Telles é, neste momento, o 5º jogador com mais passes para finalização das Ligas europeias, com 64, só atrás de De Bruyne (78), Özil (70), Fàbregas e Payet (67). Mas claro, aqui estamos a falar de médio ofensivos. Considerando apenas os laterais, a diferença é abismal na Europa: os mais próximos de Alex são Kolarov (53) e Kimmich (42), que também podem jogar no meio-campo, ao contrário do lateral do FC Porto. 

É claro que o facto de Alex Telles bater as bolas paradas ajuda-o nesta estatística (tal como ajudou Layún a ser o maior assistente da Europa em 2015-16), mas a verdade é que o brasileiro também se encontra entre os 8 maiores assistentes das Ligas Europeias, com 9 passes para golo, a par de Messi e Pogba e a apenas dois passes decisivos de Neymar e De Bruyne (11 cada). 

Se aliarmos tudo isto à competência defensiva de Alex Telles e à incansável forma como percorre o corredor durante os 90 minutos, conclui-se que estamos perante um lateral de calibre europeu e que dá continuidade à linhagem de grandes laterais-esquerdos no FC Porto, muito bem secundado pelo sempre competente Ricardo Pereira no flanco oposto.


José Sá (+) - Desde que assumiu a titularidade no FC Porto, José Sá vem tendo uma vida relativamente tranquila nas balizas do Campeonato, praticamente exposto à média de apenas uma defesa por jornada. Claro que há outras variáveis a ter em conta, como as saídas a cruzamentos e a reposição da bola em jogo, mas José Sá tem sido sempre um guarda-redes com relativo pouco trabalho (tem um total de 16 defesas, 8 delas a remates de fora da grande área). Certo é que ontem fez duas excelentes defesas, que ajudaram o FC Porto a manter-se na frente em momentos importantes. Ter pouco trabalho, mas dizer «presente» no pouco que tiver: nunca se pedirá muito mais a um guarda-redes.

Sérgio Oliveira (+) - Pela primeira vez desde a vitória no Mónaco, o FC Porto venceu com Sérgio Oliveira no 11, e com o médio a fazer uma das suas melhores exibições com esta camisola. Dividiu as despesas do meio-campo com Herrera e foi o jogador mais influente na bola corrida, com 72 ações com bola e uma interessante média de 23 duelos disputados (14 ganhos), mais do que é hábito no meio-campo do FC Porto. Falhou alguns passes (78% de acerto), mas fez dois passes para finalização, acertou todos os dribles que tentou (4/4), teve 9 ações defensivas e conseguiu um golo, tornando a sua exibição no equilíbrio perfeito - bem na recuperação, mas também a fazer a diferença no ataque. Provavelmente ganhou a titularidade para o próximo jogo. 




Escolha facilitada (-) - Ainda no jogo passado se questionava como é possível Marega fazer sucessivamente os 90 minutos (e já lá iremos outra vez), mas admitindo que as alternativas para a asa direita - Hernâni e Corona - quase ajudavam a compreender e aceitar essa opção. E voltou a ser o caso com o extremo mexicano. Se há plantel em que Jesús Corona deveria conquistar a titularidade no FC Porto, era este. E não será muito audaz dizê-lo: se é não é titular consistentemente este ano, então provavelmente nunca o será. E assim torna-se bem mais difícil para Sérgio Conceição escolher. Ou então mais fácil, pois Corona não ganha o lugar num plantel em que os seus concorrentes faziam parte da lista de dispensas do FC Porto.

Corona parece ser atraído sempre pela hipótese mais complicada - Brahimi também nem sempre escolhe o melhor caminho, mas sabe proteger e colar a bola ao pé, enquanto Corona a perde com maior facilidade. O mexicano criou apenas uma jogada de algum perigo, conseguiu apenas um cruzamento e perdeu a maioria dos duelos que disputou (6/11). O facto de Ricardo estar sempre a subir também deveria ajudar Corona a criar desequilíbrios no corredor, mas voltou a não ser o caso. 

Alternativa, por favor? (-) - Há noites, exibições, em que os números falam por si próprio e nem aquelas variáveis que não são calculadas (o empenho, a garra, a vontade) servem de atenuante. Passando a enumerá-los:

- 0 remates enquadrados com a baliza;
- 0 dribles eficazes;
- 0 passes para finalização;
- 0 cruzamentos;
- 9 passes certos (o pior dos 22 titulares);
- 7 duelos perdidos;
- 1 ocasião flagrante falhada;
- 4 maus controlos de bola;
- 5 faltas cometidas, 2 sofridas;
- 1 corte sobre a linha de baliza;
- 90 minutos em campo. 

Agora a sério. Dá para experimentar dar soluções à equipa sem Marega no ataque? Mister? Corona? Hernâni? Alguém, por favor?

Segue-se a Taça de Portugal e uma difícil receção ao Sporting, na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal. E como já se percebeu, basta um jogo para mudar ou inverter a disposição dos dois clubes. No entanto, após 270 minutos de clássicos sem sair do 0x0, e agora recuperada a liderança isolada da I Liga, é a oportunidade para uma afirmação de força e personalidade.

domingo, 22 de outubro de 2017

Entretanto, do outro lado do campo...

Depois de uma semana em que a baliza dominou as conversas portistas (compreensível, pois substituir o melhor guarda-redes da Liga por um guarda-redes que não está sequer entre os três melhores dos quadros do clube deixa toda a gente a coçar a cabeça), do outro lado do campo o FC Porto deu uma demonstração de força e assinou uma das melhores exibições da temporada, com um 6x1 ao Paços de Ferreira que não escandalizaria ninguém se tivesse acabado por ser um resultado mais gordo.


Sempre que o FC Porto somava 25 pontos à 9ª jornada foi campeão (foi assim com Villas-Boas, Jesualdo, Mourinho e Robson), e este já é, a par do FC Porto da primeira época de Vítor Pereira, o ataque mais concretizador dos últimos 60 anos. 

Dois bons indicadores de qualidade para uma equipa que, no que diz respeito ao consumo interno, não poderia estar a fazer melhor. Afinal, na época passada, por esta altura, o FC Porto já estava a cinco pontos do primeiro lugar, enquanto desta feita é líder isolado e incontestável. Sem nunca esquecer que basta uma jornada menos boa para arriscar perder este lugar. 




Ricardo Pereira (+) - Exibição absolutamente monstruosa de Ricardo Pereira, talvez a melhor que já fez pelo FC Porto. Entrou na partida a todo o gás, com um golo, e logo a seguir conseguiu isolar Felipe para o 2x1 com um passe de 40 metros; não satisfeito, serviu Marega para o 4x1 e só não conseguiu o hat-trick de assistências pois Brahimi não conseguiu aproveitar mais um passe de bandeja. Dinamizou todo o corredor, não cometeu erros na defesa (nem uma falta) e permitiu que Corona e Marega se preocupassem meramente com a zona interior, pois o flanco foi todo dele. Desculpem, Maxi e Layún, mas assim não há hipóteses.


Marega (+) - Colocou Aboubakar na zona de finalização com um subtil toque com o peito e partiu para uma boa exibição, coroada com dois golos. Esteve menos participativo no processo ofensivo da equipa (foi o jogador que menos tocou na bola), mas isso favoreceu-o, pois pôde preocupar-se sobretudo com os últimos 30 metros, onde conseguiu fazer a diferença - esteve mais duas vezes perto do golo, mas Mário Felgueiras defendeu. Uma exibição que deixa claro que quanto menos vezes e mais perto da grande área tocar na bola, melhor para Marega e melhor para a equipa. Sete golos no Campeonato já superam as melhores expetativas do seu rendimento, mas o melhor é que já deixa claro que a contagem não ficará por aqui. 

Corona e Brahimi, por dentro (+) - Ricardo Pereira foi o melhor em campo e, do outro lado, Alex Telles também fez uma bela exibição, quase sempre no meio-campo adversário. Isso permitiu a Corona e Brahimi serem mais participativos no jogo interior e, com isso, ajudar o FC Porto a superar os problemas de jogar com uma unidade a menos no meio-campo. Brahimi acertou todos os dribles que tentou (9/9), mas foi sobretudo na objetividade dos seus passes que se destacou. Criou três ocasiões de golo, todas elas em lances em que trocou o drible pelo passe. Bom ver que o FC Porto, desta vez, não dependeu dos movimentos individuais de Brahimi para criar várias jogadas de perigo.

As zonas de ação de Brahimi e Corona
Corona também conseguiu, enfim, uma boa exibição. Um golo, uma assistência, notáveis 93% de acerto no passe (foi o jogo em que perdeu menos bolas esta época) e um total de 13 ações defensivas, entre as quais oito recuperações de bola. O mexicano fez também ele o seu melhor jogo esta época, mas o grande desafio vem a seguir: ver Corona fazer dois bons jogos seguidos pelo FC Porto. Jogando sempre assim, não saía do 11. 

Prontos a finalizar (+) - Notável a forma como o FC Porto conseguiu, com um ou dois toques, colocar por diversas vezes jogadores em zonas de finalização. Isso contribuiu para a equipa fosse capaz de levar as suas jogadas até à grande área e quase nunca fosse necessário adornar os lances na procura de espaço ou apostar na meia distância (20 dos 22 remates aconteceram já dentro da grande área).

Já foi ferido o exemplo do toque de Marega, mas também a assistência de Aboubakar foi um bom exemplo, entre 11 jogadas de bola corrida em que o FC Porto colocou um jogador que só tinha a baliza (e o guarda-redes, que ajudou a manter o resultado em 6x1) pela frente. Destacam-se também as boas exibições de Felipe (dois golos, embora só um para a contagem) e Herrera (encheu o campo e foi o jogador com mais ações com bola).




Queima-roupa (-) - Talvez surpreendido pela pressão do Paços no primeiro quarto de hora, o FC Porto concedeu um golo que não pode acontecer: numa saída de bola. Marcano começa por fazer um passe demasiado tenso e já sob pressão para a zona central, para Aboubakar, que devolveu a bola a saltitar para Herrera; com a bola a pingar, o mexicano acabou por perder o lance e permitiu o contra-ataque do Paços. Marcano ainda cobriu o corredor central, mas Whelton surpreendeu no remate e José Sá escorregou quando se ia fazer à bola, fazendo os seus 1,92m parecerem demasiado curtos naquele lance. Foi um exemplo de algumas perdas de bola em corredor central, a única mancha numa exibição quase irrepreensível.

Segue-se a Taça da Liga, na qual não se recomenda outra coisa que não a utilização de jogadores das camadas jovens (e naturalmente dos menos utilizados do plantel, não esquecendo os regulamentos que obrigam à utilização de uma base substancial de habituais titulares).

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Meio despertador


Os «ses» nunca mudam a história. Mas vamos imaginar, meramente, que o Tondela teria aproveitado uma das suas oportunidades nos minutos finais. Seria esta a composição do FC Porto num jogo em que estava obrigado a ganhar: um meio-campo com claro défice de criatividade; um lateral a jogar a extremo; e Marega sozinho no eixo do ataque. É muito pouco provável que, há dois meses atrás, fossem estas as armas idealizadas para o ataque ao título. 

Sérgio Conceição tem um leque de opções limitado, e é o último a ter culpa nelas, mas entrar em fase tão prematura da época sem um ponta-de-lança no banco e com Hernâni como sendo o mais próximo de um avançado que lá estava tem que servir de alerta. E sê-lo-á repetido contra Moreirense e Braga, enquanto o mercado está aberto, pois só a partir de então teremos que nos contentar em ir à luta «com o que temos». 

Em 2013-14 o excelente início de época (seis vitórias consecutivas - e a sétima só não aconteceu devido a uma das grandes penalidades mais ridículas da história do futebol português, a célebre mão de Otamendi fora da grande área) virou-se contra o plantel e o treinador no decorrer da época; não deixar isso acontecer novamente tem que estar no topo das prioridades. Já fomos campeões com recurso a talentos da formação, com o regresso de emprestados e transitando a base de uma época para a outra; mas campeões após um defeso sem reforços...




Laterais (+) - Ok, quantidade não é qualidade. Ricardo e Alex foram responsáveis por nada mais, nada menos do que 17 cruzamentos para a grande área - e de todos esses, só um resultou num remate à baliza, embora 4 tenham sido desaproveitados pelos colegas. Mas ao longo de todo o jogo, não só a dupla de laterais cumpriu defensivamente como não vacilou na função de garantir sempre a profundidade nos corredores, muitas vezes com os dois projetados em simultâneo. É necessário melhorar a precisão dos cruzamentos, mas ambos estão a cumprir com o que Sérgio Conceição idealiza para eles.

O desequilíbrio (+/-) - Jesús Corona fez, a espaços, um dos seus melhores jogos em muitas semanas no FC Porto. Corona esteve na origem do golo, sentou várias vezes a defesa do Tondela e fez estragos pela meia direita. No seu estilo habitual, Brahimi voltou a ser o principal desequilibrador (completou mais dribles do que o resto da equipa) e voltou a fazer parecer simples a forma como, em meio metro, consegue ganhar um de avanço a um defesa com uma finta curta. Mas houve sempre um problema para ambos: o momento da definição. Mais um toque, mais uma volta, mais uma hesitação, e com isso perderam-se vários lances em que Corona e Brahimi poderiam ter ido bem além do desequilíbrio e chegado ao golo, quer com o passe, quer com o remate. A magia está cá, mas precisa de resultados mais práticos.


Aboubakar (+/-) - Um golo à segunda oportunidade, uma bola ao poste e muito trabalho longe da grande área. Muito apagado na fase inicial da partida, cresceu com o jogo e a equipa cresceu com ele, embora poucas vezes tivesse sido bem servido na grande área. Quando o foi, conseguiu ser eficaz e assinou os três pontos.




Demasiado desacerto (-) - Desacerto no passe, desacerto nos cruzamentos, desacerto no remate. A equipa falhou uma quantidade de passes anormal (um a cada quatro), muitos desses erros por causa da precipitação e pressa em querer jogar rapidamente para a frente. A forma como a equipa, a determinada altura, procurava invariavelmente as costas do lateral foi abusiva e previsível, a ponto de o Tondela ter acabado por anular esses lances. Os remates também não foram particularmente felizes: em 16 tentativas, apenas 4 à baliza. Volta a revelar-se a impressão de que o FC Porto quer fazer as coisas tão depressa e tão bem que acaba por antecipar erros que seriam evitáveis com mais calma.

Que lógica? (-) - Rui Pedro é, opinião, superior a Marega. Sérgio Conceição tem o direito a não achar o mesmo e, depois do bis frente ao Estoril, é normal que Marega fosse a aposta natural para o lugar de Soares. Mas o que está em causa não foi quem estava no 11: foi quem esteve não esteve no banco. Rui Pedro não foi convocado para a equipa B para estar na bancada no jogo da equipa A? Se não havia planos para levar Rui Pedro para o banco, para quê levá-lo a passear só para estar na bancada? Em 4 jogos em que Rui Pedro poderia ter somado minutos importantes para o seu crescimento não jogou nenhum. Não fiquem à espera que cresça na bancada. 

Duas vitórias em dois jogos, o mesmo saldo da época passada. Pézinhos no chão e muito, muito trabalho pela frente. E não só para o plantel e o treinador. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Obrigado, Senegal e Tunísia

Começando por um curto agradecimento a Senegal e Tunísia, equipas que venceram a Argélia na CAN. Em boa hora nos mandaram Brahimi mais cedo para cá. É um agradecimento egoísta, mas sem Brahimi provavelmente o FC Porto teria saído da Amoreira com perspetivas menos animadoras no Campeonato.

Voltando a reconhecer: em termos de resultados, o FC Porto de Nuno Espírito Santo está acima das expetativas. 44 pontos em 19 jornadas, não sendo nada de extraordinário (o líder tinha mais pontos em qualquer uma das últimas sete épocas...), é uma marca assinalável face àquilo que foi a preparação da pré-época e que nos mantém com condições na luta pelo título, além do objetivo Champions ter sido cumprido. 

Mas os resultados, como se sabe, têm o poder de disfarçar limitações que, mais tarde ou mais cedo, se revelam. Não, o problema do FC Porto não foi ter entrado em campo com 4 médios e sem extremos. Percebeu-se a intenção de NES: projetar Maxi e Alex Telles para nunca perder a profundidade pelos flancos e recuar Danilo para assegurar sempre uma linha defensiva de pelo menos 3 elementos. Se funcionasse, isso resolveria o problema de se jogar com 4 médios e sem extremos.


O FC Porto ganhou em Gelsenkirchen sem extremos e com 4 médios. Isso não é o problema. O problema é a dinâmica e as unidades em campo. Alex Telles (um pouco melhor) e Maxi Pereira recebiam quase sempre a bola quando ainda tinham 30 metros pela frente, ou seja, o problema da profundidade mantinha-se, pois o FC Porto tinha o campo encurtado pelos flancos; no meio-campo, o FC Porto não tinha nenhum médio que faça habitualmente a diferença num lance individual ou perto da grande área; o Estoril queria o que o FC Porto fez: uma equipa que se fechasse a si própria e que nunca alargasse o jogo. 

Uma vez mais, foi uma bola parada a desbloquear tudo e a livrar-nos de um grande problema. Mas calma, que há copo meio-cheio: «Grande NES! Mudou o jogo com as suas substituições! Percebeu que o FC Porto precisava de meter extremos em campo para ganhar o jogo, então meteu e o FC Porto ganhou! Foi com o dedo do mister!». Não é brincadeira: há-de haver quem pense assim. Mas o problema é mesmo esse: é só se ter apercebido do que era preciso para ganhar o jogo já depois de ter dado 45 minutos de avanço ao adversário, quando isso já era algo para ter percebido antes de entrar em campo.




André Silva (+) - A namorada de André Silva começa a ter motivos para se queixar do FC Porto: o rapaz não deve ter vontade para nada quando chega a casa, tamanho o desgaste a que se expõe jogo após jogo. São já 17 golos na sua época de estreia numa equipa principal (tem intervenção direta em 40,5% dos golos do FC Porto na Liga), mas o que mais surpreende é as piscinas e toda a pancada que leva jogo após jogo.

André Silva não tem a maior capacidade de decisão no 1x1, mas é obrigado a isso: vai receber nos lançamentos, vai atrás, ganha no ar, mete o corpo perante os centrais e no meio de tudo isto ainda tem que encontrar frieza e frescura para ser o matador na grande área. Ganhou o penalty com grande ratice e assistiu Corona para o 2x0. Que mais querem? Um conselho: aproveitem e desfrutem agora, porque por este andar vai deixar saudades no fim da época.


As entradas de Brahimi e Corona (+) - É verdade que Brahimi esteve na CAN, e é verdade que Corona tem rendido muito mais quando sai do banco do que quando é titular. Não é por aí que se pode censurar a decisão de NES em que começassem no banco - se os extremos não estão nas melhores condições, difícil seria jogar com extremos. Mas a verdade é que este FC Porto está a depender de dois fatores: ou a bola parada, ou o talento individual dos jogadores. Porque coletivamente, na dinâmica tática e ofensiva da equipa, este FC Porto está a revelar muito pouco. 

Brahimi entrou e agitou de pronto o ataque do FC Porto. Com Brahimi em campo, há sempre uma via para atacar. Brahimi arrasta sempre 2 jogadores com ele, sabe guardar a bola perto da grande área e obriga a defesa adversária a recuar. Corona entrou muitíssimo bem: não só fez um excelente golo, em que mostrou o que muito lhe tem faltado (critério na decisão), como deu largura ao FC Porto e obrigou a defesa do Estoril a abrir. Mas é verdade que Corona não se pode queixar de falta de oportunidades, e com Otávio de regresso vai ter que se mostrar mais vezes a este nível. 

Este ano, o FC Porto aparenta ter um balneário fantástico, um grupo unido. E o que ainda dá esperanças na luta pelo título é isso: o grupo unido e o talento individual dos jogadores. Corona e Brahimi serão por isso essenciais na segunda volta.

Outros destaques (+) - Não fez três assistências, mas no jogo jogado Alex Telles esteve bem melhor do que na última partida: conseguiu, dentro dos possíveis, manter profundidade pelo flanco, forçou várias vezes a subida, fez os poucos bons cruzamentos da equipa e foi o jogador mais solicitado em toda a partida, o que mostra bem a necessidade do FC Porto procurar gente nos flancos, mesmo quando Alex Telles ainda estava à saída do meio-campo. 

Herrera foi o melhor dos médios em campo. Apesar de ter saído aos 65 minutos, foi quem mais acerto teve no passe (86,7%, bem acima de André André, com 74,3%, e Óliver, ontem muito mal, com irreconhecíveis 69,2%), fez o único passe de situação flagrante de golo, recuperou 13 vezes a posse de bola e ainda fez 5 cruzamentos (mais que toda a equipa junta, exceção a Alex Telles), num jogo em que teve dificuldades pela ausência de Maxi (não fez um único cruzamento) pelo corredor. Nota ainda para mais um bom jogo de Marcano e a entrada desinibida de Rui Pedro - fez um golo (estando ou não em fora de jogo, foi uma excelente finalização naquele momento), esteve perto de outro e ajudou a baralhar a defesa do Estoril.




Mais do mesmo (-) - Uma primeira parte à imagem das demais. O FC Porto chega ao intervalo sem um único remate à baliza do Estoril e com um notório défice de criatividade no meio-campo. O FC Porto pode jogar com 4 médios, mas não pode jogar com estes 4 médios. Faltará sempre criatividade e rasgo individual nesta equipa. André Silva e Diogo Jota, apesar de serem razoáveis no 1x1, não são os jogadores ideais para sair de cabines telefónicas e abrirem espaço com bola. Óliver baixa muitas vezes para pegar no jogo, André André atingiu há muito os seus limites no que pode oferecer ao FC Porto (no vídeo que se tornou viral, o sprint de Danilo não é a única coisa impressionante - a forma como André André é batido por todos em velocidade e quase desiste do lance não condiz com a sua descrição de jogador à Porto) e Herrera destacou-se mais nas missões defensivas do que no último terço.

É curioso. Nuno Espírito Santo decidiu, agora, experimentar jogar com 4 médios. Então o que fez o FC Porto no mercado de inverno? Mandou 2 médios embora (Sérgio Oliveira e Evandro) e não contratou nenhum. Onde fica o médio mais criativo? No banco (João Carlos). E o que melhor circula a bola? Na bancada, no meio dos Super Dragões (Rúben Neves). Não é preciso ser-se um génio tático para perceber que algo não bate certo nesta gestão de recursos. 

Nuno percebeu o seu erro e lançou Brahimi ainda na primeira parte. E aqui é que as coisas surpreendem ainda mais: saiu Jota, que de facto não estava bem, e Brahimi entra... para jogar em zona central! Brahimi colocou-se em zona central, e os seus primeiros 3 minutos em campo foram preocupantes, tamanho o número de vezes que olhava para o banco a tentar perceber as instruções do treinador. Nuno pretendia que a profundidade de Alex Telles permitisse que Brahimi se colocasse em zonas mais interiores, mas chegarmos ao final de janeiro, com este tipo de dinâmicas por definir, é muito preocupante.   

Os aliados do Estoril (-) - O que faz uma equipa inferior que quer segurar a vantagem ou o empate? Queima tempo. Um jogador atira-se para o chão, o ritmo de jogo baixa e os jogadores respiram mais tranquilamente. Mas ontem os jogadores do Estoril quase não precisaram de o fazer, pois tiveram a ajuda de meia dúzia de energúmenos que estavam misturados na zona dos adeptos do FC Porto, e que decidiram atirar material pirotécnico para a grande área do Estoril.

Não há palavras para descrever a burrice desses cidadãos - não vamos usar o termos adeptos -, que prejudicaram o FC Porto nesse momento. Ao lançarem o referido material, permitiram que o jogo fosse interrompido numa altura em que o FC Porto estava a apertar o adversário. Isso deu tempo ao Estoril e ia custando muito caro ao FC Porto.

O que acontece logo após o jogo ter sido reatado? O Estoril ataca e Marcano acaba por conseguir um corte salvador, evitando o que podia ter sido o 1x0. O FC Porto passou 10 minutos de menor fulgor, acusando a quebra de ritmo, e só voltou a criar perigo quando Brahimi desmarcou André Silva, que ganhou o penalty e fez o resto. Parabéns aos referidos cidadãos, que se revelaram muito úteis para o Estoril e quase prejudicaram diretamente o FC Porto.

Não estamos na Palestina: é bom que se acabe com esta palhaçada de petardos. É bom recordar que o FC Porto associou-se aos Super Dragões na comemoração do seu 30º aniversário. Nessa mesma semana, o FC Porto foi multado em 20,5 mil euros frente ao Braga. Porquê? Por causa dos muitos petardos que foram rebentado durante a partida. Em semana de aniversário, celebrado nas instalações do clube, tomem lá uma multinha de 20,5 mil euros. As claques não precisam de lições de clubismo, pois são elas que viajam com a equipa para todo o lado e não compram pipocas à entrada do estádio, mas o FC Porto também não precisa destas estranhas demonstrações explosivas de afeto, que só prejudicam o clube durante os momentos mais importantes: os 90 minutos em que estão em campo.

E por falar em 90 minutos: à partida, vai ser esta a duração do clássico contra o Sporting. Se der para evitar dar-lhes 45 minutos de avanço, a malta é capaz de agradecer. O próprio treinador o afirmou no final da partida: «Os jogos têm 90 minutos». Então porquê esta insistência de deitar tanto desse tempo fora?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Noite de Champions

«Leicester, Club Brugge e Copenhaga. Resumidamente, o FC Porto já passou em grupos mais complicados e já foi eliminado em grupos mais fáceis. O objetivo é ir aos 1/8, algo que já foi assumido. No ano passado o FC Porto parecia ter feito o suficiente, mas 10 pontos não chegaram. Apontemos, pelo menos, aos 11 esta época, embora sempre com a intenção de ganhar todos os jogos. Será certamente um grupo competitivo. O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra (15 derrotas em 17 jogos), não ganhou nas três últimas visitas à Dinamarca e na Bélgica perdeu seis jogos em sete. Leicester, Club Brugge e Copenhaga são campeões dos respetivos países e, muito provavelmente, cada uma destas equipas pensa o mesmo que o FC Porto: o grupo podia ser muito mais complicado».
Este foi o comentário d'O Tribunal do Dragão aquando do sorteio dos 1/8 da Champions e podemos falar em objetivo cumprido e expetativas correspondidas. O FC Porto garantiu o apuramento, com os tais 11 pontos, apesar de ter voltado a perder em Inglaterra, não ter ganho na Dinamarca, ter passado por dificuldades na Bélgica (o penalty de André Silva, nos descontos, tudo mudou) e não ter ganho ao Copenhaga no Dragão (a única coisa anormal neste percurso). Foi difícil, mas a equipa cumpriu, deixando para o fim um recital que deixou todos os portistas satisfeitos. No final, são 11 pontos. Tantos quanto os de Benfica e Sporting juntos. 


Champions é Champions: encontrar APOELs, Artmedias e Áustrias de Viena não é garantia de goleadas. É certo que a equipa que ontem visitou o FC Porto nada tem a ver com a que ganhou a Liga Inglesa, mas isso não retira brilho a uma exibição competentíssima, de absoluto controlo do primeiro ao último minuto. Foram cinco, podiam ter sido mais, e nunca ninguém sentiu que o apuramento para os 1/8 estaria em risco. Anormal seria não passar este grupo, um dos mais fáceis que o FC Porto alguma vez encontrou, mas todos os jogos começam 0-0. E nas últimas semanas muitos não saíram daí.

No último jogo da fase de grupos, o FC Porto conseguiu fazer mais golos do que nos 5 anteriores. O Leicester jogou, conforme esperado, com uma equipa de suplentes, mas não levou cinco porque relaxou: simplesmente foi incapaz de parar uma noite em cheio do FC Porto. Foi uma noite em que, mais do que qualquer debilidade do adversário, o que sobressairia sempre seria a qualidade do FC Porto. E isto não tem a ver apenas com eficácia: tem a ver com volume ofensivo, com o não entregar a iniciativa de jogo ao adversário (a grande mudança em relação ao FC Porto de NES ontem), circular a bola, forçar a entrada na grande área e colocar os melhores atacantes a potenciar as suas caraterísticas.

Quanto à Champions os objetivos foram cumpridos (primeiro o playoff, depois os 1/8). A partir daqui, tudo dependerá do sorteio para redefinir expetativas. Quando à Champions, está feito o mínimo e o máximo exigível. Venha o Campeonato.


Postura e plano (+) - Aquele movimento típico do pontapé de saída faz confusão: ponta de saída, bola no Alex Telles, balão para a frente. Podia sugerir mais um jogo de chutão para a frente, mas felizmente não foi isso que aconteceu: o FC Porto controlou o jogo e soube ter bola. Esta equipa reage bem à perda, mas sente dificuldades quando encontra uma equipa que não quer ter bola. Ontem isso não aconteceu pois o FC Porto soube ter bola. Circulou-a a toda a largura do campo, projetou muito os seus laterais (assistências de Alex Telles e Maxi), apostou no jogo interior dos alas (Brahimi e Corona a finalizarem na grande área), conseguiu esmagadores 2/3 da posse de bola, forçou muitas vezes a entrada na grande área (37) e teve uma eficácia de passe muito acima da média, de 88%. Uma exibição completa e irrepreensível, desde o plano à execução.

Dinâmica dos corredores (+) - Um dos riscos neste esquema é o quão o corredor central pode ficar descoberto. Danilo recua, os laterais sobem, e então têm que ser Brahimi e Corona, apoiados pelo recuo de um dos avançados, a preencher essa zona no apoio a Óliver. Ontem não se sentiu esse perigo, pois a equipa esteve sempre equilibrada, e todos os intervenientes tiveram ação direta na goleada do FC Porto. Maxi Pereira, que já tinha sido dos melhores diante do Braga, voltou a fazer todo o corredor, sem que os 32 anos pesassem no momento da recuperação, e Alex Telles cruzou com melhor precisão e também fez uma assistência. A equipa nunca esteve descompensada no momento da perda, e os laterais foram responsáveis por 15 recuperações de bola. 

Brahimi e Corona (+) - Algo que tem falta ao FC Porto é o fator match winner. O momento em que o jogador recebe, encara o defesa, rasga e remata. Corona e Brahimi têm caraterísticas para serem esses jogadores, mas ontem não precisaram de o ser: fizeram um golo de toque único. Sem receção, apenas estar no sítio certo e finalizar ao primeiro toque. E fizeram-lo na grande área depois de cruzamentos dos laterais. Que significa isto? Que o FC Porto soube envolver várias unidades no ataque e povoar a grande área, com jogadas a explorar a profundidade nos corredores e sem o mero chutão para a frente. Não vimos uma grande área deserta por causa dos recuos que André Silva é forçado a fazer. Vimos muita gente na grande área, e com isso os golos surgiram com maior naturalidade. 

Do ponto de vista mais individual, grande jogo de Corona, sobretudo na primeira parte. Uma assistência, um golo, desta vez procurou mais o passe do que a finta. E de resto isto foi algo em comum nos dois extremos do FC Porto: mais passe, menos drible. A eficácia de passe esteve na média da equipa (88%), muito bom para avançados, e Corona fez apenas 3 dribles, metade dos de Brahimi (não perdeu nenhum lance). Ora, acontece que Brahimi e Corona não precisaram de sair tantas vezes no 1x1, pois tinham sempre uma solução de apoio por perto. E com o envolvimento de Maxi e Alex Telles no ataque, puderam estar em zona interior a fazer a diferença, em vez de estarem no flanco à procura de espaço para meter a bola numa grande área deserta. Ah. Brahimi foi ontem pela primeira vez titular na Champions esta época. Que não tenha sido a última, pois isto de colocar os melhores em campo é capaz de ser boa ideia.


André Silva (+) - Dois golos e uma assistência para Diogo Jota, também ele autor de uma boa exibição. Marcou na sequência de um canto, tarefa que tão complicada tem sido nesta temporada, e foi novamente chamado à marcação das grandes penalidades. É certo que André Silva já falhou 3 penaltys este ano, mas continua a ser chamado à responsabilidade e a merecer a confiança. Não tremeu e revelou-se decisivo nesta fase de grupos, ao ter intervenção direta em 66% dos golos que o FC Porto marcou. Para época de estreia na Champions, nada mau, tendo em conta que só Lewandowski, Cavani e Messi marcaram mais. 

Uma palavra para a já aqui muito elogiada defesa do FC Porto, que nos últimos 10 jogos só sofreu um golo. A defesa não tem sido, de todo, um problema, e ontem o ataque revelou as melhores soluções da temporada. Agora, a possibilidade de ganhar pontos em 2 estádios na próxima jornada. Uma vez mais, uma que não podemos desperdiçar.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Feito, próximo

A Taça de Portugal é como o Martelinho: pode ser uma faca de dois legumes, muito em função do resultado. Nuno Espírito Santo optou por colocar a base dos melhores jogadores em campo, preferindo não correr muitos riscos (se é que era possível correr grandes riscos contra o Gafanha, em campo neutro, jogasse sem jogasse).

Não é propriamente incomum os treinadores do FC Porto usarem uma base mais consolidada de jogadores no primeiro jogo de Taça, ao invés de mudar meia equipa. Até Villas-Boas não prescindiu de Hulk contra o Limianos. Nuno fez a sua escolha, a equipa passou o jogo-treino sem dificuldades e a única interrogação em torno das suas escolhas é o que se dirá a jogadores como Sérgio Oliveira, João Carlos Teixeira ou Varela: se não servem para jogar contra o Gafanha, a que momento da época é que poderão mostrar utilidade à equipa dentro de campo?

Nuno também optou por dar continuidade ao 4x4x2 que tão bem funcionou contra o Nacional, ainda que dificilmente seja contra o Gafanha que uma equipa consolida ou deixa de consolidar o modelo e dinâmicas de jogo. O jogo contra o Club Brugge, amanhã, já será um teste bem mais difícil, no país onde todos aprendemos a detestar o Anderlecht. Aí sim, já será possível tirar sinais mais conclusivos, até porque em caso de um mau resultado (um empate dificilmente saberá bem) o apuramento para os 1/8 pode complicar-se. Bem mais do que ganhar ao Gafanha, pelo menos.




Iván Marcano (+) - Desta vez com Boly ao lado, voltou a fazer uma exibição irrepreensível e sai deste jogo como um dos melhores do FC Porto. Dizer que o nosso central foi o melhor contra o Gafanha, num jogo de Taça, não quer dizer que o adversário atacou muito, mas sim que Marcano soube ser prático e ajudar a equipa nos processos ofensivos: passou rapidamente no início de construção, controlou sempre o espaço em profundidade, deu indicações a Boly (bom ver Marcano assumir-se e ter voz na defesa), fez a assistência para o 2x0 e foi mais rápido e agressivo na recuperação. Contra o Gafanha, um bom ou um não tão bom Marcano podem não fazer diferença, mas contra o Club Brugge acreditem que fará.

Otávio (+) - Dá ao FC Porto o que tem faltado: rasgo individual. Aquele jogador que, qual Madjer, Deco ou Hulk, pega na bola, assume o lance individual, com objetividade, encontra um atalho para a baliza e faz golo. Brahimi pode fazer isso, Corona pode fazer isso, mas não o estão a fazer. Esse papel está a ser um exclusivo de Otávio esta época. Um belo golo e uma vez mais a destacar-se na forma como consegue distribuir jogo e crescer a partir do lado esquerdo. Os lances de perigo nasciam sempre dos seus pés.


A entrada de Corona (+) - Esteve com problemas físicos, teve 25 minutos para mostrar serviço, faz um golo e uma assistência. Objetivamente, não dá para pedir mais. Oportuno no 2x0, atento à movimentação de Depoitre no 3x0, volta a mostrar mais nos minutos em que é suplente utilizado do que nos jogos em que é titular. Nota para um bom regresso de Maxi Pereira à equipa. 




A rever (-) - Muitas vezes, jogar na Taça é uma missão ingrata para jogadores pouco utilizados. Admita-se isso. Se um jogar faz o primeiro jogo pelo FC Porto, por mais frágil que seja o adversário, se não revelar já bom entendimento com os colegas as coisas podem correr mal. Herrera não teve essa desculpa. Do meio-campo para a frente, Nuno Espírito Santo não mexeu, mas Héctor pareceu muitas vezes um corpo estranho à equipa. Muita hesitação na progressão e a soltar a bola, sem conseguir acelerar o jogo e pouco participante na circulação. Se o FC Porto rejeitou uma proposta de 30M€, não foi pelo jogador que vimos contra o Gafanha. Há também que insistir na melhoria da capacidade de meia-distância. Contra equipas que enfiam o Boeing 777 na grande área, ter capacidade de remate à entrada da grande área pode resolver muitos problemas.

Está feito, venha o próximo.

PS: O FC Porto, num salutar ato de transparência, publicou uma imagem de um contrato assinado por Helton e administradores da SAD que visa demonstrar que a rescisão já foi feita a 15 de Setembro. Há que acabar com o ruído, sem dúvida, pois criar ou alimentar polémicas com ex-capitães, independentemente dos argumentos de cada parte, nunca traz nada de bom. Só não se percebe o porquê do FC Porto fazer questão de mostrar uma rescisão assinada a 15 de Setembro, se no R&C de época 2015-16 o FC Porto já dava conta de uma rescisão ocorrida até 30 de Junho de 2016. Um R&C anual já deveria ser fonte de informação suficientemente esclarecedora para evitar dúvidas ou polémicas.



Helton é passado, um passado que será sempre recordado com carinho enquanto foi o número 1 da baliza do FC Porto, vencer o Club Brugge tem que ser o futuro. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Prova dos 9 ultrapassada

É o som de «Arrivederci Roma» que começamos com um facto... Bem, tirem as conclusões por vocês próprios: a Roma teve mais jogadores expulsos neste play-off contra o FC Porto do que o Benfica no seu ciclo de tricampeão. Sim, mais jogadores expulsos em 180 minutos (para ser mais exato, em 140 minutos) do que em 3 campeonatos inteiros. 

Posto isto, o FC Porto conseguiu uma das mais marcantes vitórias do passado recente. A Roma era favorita em toda a linha, e depois do resultado no Dragão ainda o era mais. Não seria pelo resultado de hoje que o FC Porto perderia o acesso à Liga dos Campeões. Não ganhar em Itália é normal. Perder com Aroucas e Tondelas é que não o é. Por isso, é uma vitória histórica, por o FC Porto ter desafiado o favoritismo da Roma, o desnivelamento financeiro (que curiosamente só existe ao nível do valor já investido em contratações, pois segundo a Gazzetta dello Sport a Roma paga salários inferiores aos do FC Porto - 55,5M€ em 2015-16), a própria história e de ter contornado debilidades a nível de construção do plantel com uma vitória que não faz ninguém ir do 8 ao 80, inclusive escrita numa noite atípica (não é todos os dias que se joga contra 9 jogadores, e a euforia pós-jogo não pode cegar um factor que teve, de facto, alguma influência na partida), mas que reacende aquela chama de crença que carateriza o portismo. 

Foi um objetivo alcançado, foi uma noite feliz, foi uma boa injeção de motivação para Alvalade. Foi um jogo que tão cedo não veremos repetido, mas que nos deixa plenamente satisfeitos e motivados, embora sem embandeirar em arco. Os portistas muitas vezes conseguem ser, simultaneamente, os adeptos mais exigentes do mundo e também aqueles que de menos vitórias necessitam para reacender a motivação. Não podemos ser o clube que está no limbo entre a euforia e a depressão. Esta equipa foi a mesma que empatou na primeira mão, que esteve a perder em Vila do Conde e que só marcou perto do fim ao Estoril. Tem qualidades, tem defeitos. As qualidades são para serem enaltecidas, elogiadas e potenciadas. Mas não servem para esconder os defeitos, que devem sempre ser identificados e trabalhados. Agora, Alvalade. 





Iker Casillas (+) - Casillas não fez o melhor jogo da sua carreira no Olímpico de Roma. E todos ainda se recordam daquela fífia no jogo da primeira mão. Mas para a história fica isto: nenhum jogador da Roma conseguiu marcar a Casillas em 180 minutos de Champions. Que mais se pode pedir a um guarda-redes? É certo que o mérito é sempre repartido pela defesa e pelo processo defensivo da equipa, mas Iker fez uma série de defesas importantes na eliminatória e revelou-se um elemento decisivo. Um FC Porto que não sofre golos é um FC Porto que estará sempre mais perto de vencer. É Casillas o destacado, mas em representação pela valia de o FC Porto não ter deixado nenhum romano marcar. 

Centrais (+) - O melhor e mais consistente Felipe (hoje chamar-lhe-ia Felipão, mas o Scolari ainda pensa que o estou a elogiar) até ao momento formou uma dupla de betão com Marcano, que está a ter um início de época de elevado nível. Limitar Dzeko a um único remate é obra. Fortes pelo ar, confiantes e limpos no desarme, sem deixarem espaço nas costas da defesa e sem tremerem perante um adversário com bons atacantes e que precisava de marcar. E sim, o FC Porto deve continuar a ver com bons olhos a chegada de um central. Estes são os mesmos centrais que tremeram na primeira mão, e não podem esperar que uma equipa em inferioridade numérica ataque tanto e de forma tão contínua como uma equipa que joga com 11. Felipe e Marcano fizeram um bom jogo, mas usar este único jogo como conclusão de que o FC Porto não necessita de mais um central é um tiro que pode fazer ricochete durante a época, nomeadamente nos clássicos e na Champions. A ter em atenção já no domingo.


Os mexicanos (+) - «E agora, como é que eu mantenho este gajo no banco?» Se não é nisto que Nuno está a pensar, devia ser. Layún, uma vez mais, foi absolutamente decisivo. Entrou a frio para o lugar de Maxi e mostrou toda a sua capacidade durante 45 minutos, mesmo no flanco oposto. Esteve impecável defensivamente (a ideia pré-concebida de que Layún defende mal está tão enraizada que nem notam as melhorias que tem tido neste aspeto), com uma disponibilidade física útil e impressionante, obrigando sempre o FC Porto a acelerar o jogo pelo seu corredor. Herrera viu que Layún estava com a corda toda, e soube desmarcá-lo na perfeição para o 2x0. Um jogo equilibrado de Herrera, bom no passe e que também esteve na jogada para o 3x0, num golpe individual de Corona (Manolas ainda anda à procura dele). É este o Corona que faz falta ao FC Porto: mais objetivo, a progredir com a bola colada ao pé e sem caixinhas pelo meio. Foi o jogador que mais jogadas de perigo criou e o golo foi um justo prémio, além de estar mais maduro a defender. Se fosse homem de apostas, diria que vai fazer mais do que Rafa em 2016-17. Depende de Corona mostrar que é capaz. Os mexicanos foram bons e recomendam-se, numa noite em que é difícil escolher quem não mereça destaque positivo, desde Danilo a André André. Para já ficam estes. Há espaço para mais no domingo, por isso quem quiser que se chegue à frente.

Pressão (+) - Cada vez mais, o FC Porto está a apostar num 4x2x3x1. Uma das formas de condenar esta tática às críticas é chamar-lhe «duplo pivô». Mas não é por aí que merece ser destacada, mas sim pela forma como o FC Porto meteu os 4 homens mais adiantados na pressão ao início de construção da Roma. Não só inibiu como enervou a equipa adversária. Só André Silva é verdadeiramente forte fisicamente, mas Otávio, Corona e André André/Herrera são capazes de uma pressão aguerrida, como se de carraças se tratassem. Não se encolher perante a Roma foi essencial. É certo que o FC Porto acabou por não criar muitas ocasiões de golo na primeira parte, mas a forma como impediu que a Roma fizesse o que fez nos 30 minutos iniciais no Dragão equilibrou tudo. Ah, e finalmente um livre bem estudado: Danilo, Marcano e Felipe, os mais altos e fortes no jogo aéreo, a atacarem a meia direita da grande área, onde Otávio meteu a bola. Simples e eficiente. 





Tremer sem razão (-) - A partir do momento em que o FC Porto está a vencer e a jogar contra 9, é óbvio que as exigências e perspetivas da eliminatória mudam. E aqueles 15 minutos, entre a segunda expulsão e o 2x0, deixaram o FC Porto num nervosismo imenso e inexplicável. A equipa parecia dividida entre o medo de sofrer estando a jogar contra 9 e a pressa de fazer o 2x0. Jogando contra 9, basta trocar a bola tranquilamente, que as linhas e o espaço abrem-se sozinhos (o lance do 3x0 foi um excelente exemplo). Aliado a isto, a saída de Otávio, para a entrada de Sérgio Oliveira, foi um Ai Jesus. Sérgio Oliveira entra e acumula uma série de más decisões (perde a bola, vê cartão e permite um ataque pelo seu lado em 40 segundos), impróprias para quem não quer ser considerado o elo mais fraco do meio-campo do FC Porto. O golo de Layún tranquilizou toda a gente, e a partir daí o FC Porto estabilizou por completo, mas com a possível chegada do #30 alguém terá de saltar. E aquele camisola 3 que vimos ontem entrar em campo em Roma bem precisa de um abanão, senão é um forte candidato.

Estamos na Liga dos Campeões. Parabéns aos jogadores, ao treinador e aos adeptos que apoiaram a equipa ao longo da eliminatória, sobretudo aos que se fizeram ouvir em Roma. Mereceram!

domingo, 14 de agosto de 2016

Para moralizar, não para iludir

A história é sempre a mesma. Na primeira jornada, não importa se há ópera [inserir estilo musical favorito], o que importa é ganhar. Na 2ª vai ser igual. E na 3ª. E em qualquer jornada em que seja essencial ganhar pontos, ora para aumentar ou encurtar distâncias em relação aos rivais, ora para mantê-las. Nunca chega a haver muito bem uma necessidade de futebol deslumbrante, mas sim de pontos e vitórias. Sabendo que bom futebol deixa sempre qualquer equipa mais próxima de vencer.

O FC Porto fez o que importava, estreando-se a vencer, mas sem deixar de espelhar as dificuldades próprias de uma pré-época que deixa imenso a desejar, inclusive e sobretudo na gestão de ativos. Os casos de Brahimi e Aboubakar, que deixam Nuno Espírito Santo a ter que responder perante questões incómodas, são ilustrativos. O FC Porto não deveria nunca deixar de tirar partido dos seus ativos, estando eles ou não próximos da saída. Vejam-se os casos de Falcao e Hulk, que iniciaram a época antes de serem transferidos. 

Poderão dizer que Brahimi e, sobretudo, Aboubakar não têm a influência que Hulk ou Falcao tiveram. Mas outrora o FC Porto vendia jogadores quando atingiam o pico de valorização e já tinham ajudado a equipa a conquistar títulos. Nos casos de Indi, Brahimi e Aboubakar, não só não atingiram o tal pico como saem sem colaborar na conquista de títulos; além de que saem primeiramente pela necessidade do FC Porto de vendas, não por já serem, à imagem de Falcao ou Hulk, jogadores com imenso mercado e procura. 

A 15 dias do final do mês, a construção e redefinição do plantel continua atrasada de forma muito preocupante (palavra mais simpática possível neste contexto), mas a primeira vitória já cá está. Com a balda defensiva já tradicional, mas com uma reviravolta, palavra essa tão estranha ao FC Porto no passado recente. Agora vamos ao mais difícil, com a certeza de que o FC Porto conseguiu responder às adversidades no primeiro jogo da época. 





Otávio (+) - Num só jogo, Otávio quase consegue ir a mais disputas de bola do que Quintero em toda a sua carreira no FC Porto. E é aí que vai nascendo a diferença. Otávio tem a capacidade de conseguir colocar a bola onde quer, mas com o upgrade de saber ser agressivo no meio-campo adversário. Otávio fez 6 desarmes na partida, o que não é muito próprio num médio-ofensivo (emprestado à ala esquerda - o tempo o dirá se por convicção de NES, ou por ausência do substituto de Brahimi), pressiona, corre, não se esconde do jogo. Mais do que saber ler o jogo, sabe ler os companheiros - já sabe de cor as movimentações de André Silva. O seu talento nunca suscitou dúvidas, restava saber se haveria lugar para ele num contexto de equipa. Não só há como o FC Porto não pode, neste momento, dispensar o seu virtuosismo.


Efeito mexicano (+) - Mesmo encondendo-se do jogo muitas vezes, Corona foi objetivamente dos mais perigosos do FC Porto. Fez um bonito golo e procurou dar sempre o corredor a um algo desgastado Maxi Pereira, com quem nem sempre combinou da melhor forma. Ainda assim, meteu duas bolas em zonas de finalização e as vezes em que arriscou no 1x1 foram bem sucedidas (6 em 8). Quando Corona aparece, aparece bem. Mas precisa de aparecer muito mais. Já Héctor Herrera, numa posição mais recuada do que o recomendável (já lá vamos), foi o poço de energia habitual, abriu e transportou jogo, também faturou e foi o mais esclarecido do meio-campo.

Outros destaques (+) - Ao primeiro jogo oficial, um efeito positivo de meter os laterais a procurar a linha em vez do espaço interior (foi assim que Alex Telles cruzou para o 1x1). André Silva jogou com a disponibilidade e versatilidade habitual e marcou o ponto, mas se for para bater penaltys vai ter que praticar muito, pois nunca foram uma especialidade sua. Jogo bastante sereno e positivo de Marcano.





Meio caminho (-) - Resumidamente: André André não pode jogar tão à frente e Herrera não pode jogar tão atrás. Pode ser circunstancial, pois a chegada de um extremo pode levar NES a rever os seus planos para Otávio, mas André André é uma formiguinha de trabalho, talhado para jogar na posição 8 quando está bem fisicamente; mas nunca vai ter aquele palmo de criatividade necessária para jogar mais próximo de André Silva. Por outro lado, Herrera melhorou muito na segunda metade de 2015-16 por ter subido no terreno. É certo que Herrera, jogando mais recuado, tem mais soluções para pegar no jogo, mas não pode ficar tão próximo do raio de ação de Danilo. Além de que Herrera é o melhor médio do FC Porto a aparecer em zonas de finalização e também aquele que mais rapidamente consegue recuperar posição numa transição. Esta estrutura de meio-campo dificilmente desbloqueará jogos mais difíceis ao longo da época.

Passividade (-) - Os primeiros 30 minutos foram francamente maus para o FC Porto. A equipa melhorou, mas sem deixar de permitir ao Rio Ave mais ousadia do que seria admissível. O Rio Ave meteu 9 bolas em zona de finalização, contra 8 do FC Porto. Felizmente, a eficácia fez a diferença a favor do FC Porto. Além disso, por 29 vezes o Rio Ave conseguiu meter a bola na grande área do FC Porto (que meteu 30 na área adversária). No passado recente, vimos qualquer equipa a marcar facilmente ao FC Porto, nem que só atacasse uma vez. Dar tanta iniciativa ao Rio Ave (que fez 13 remates, contra 12 do FC Porto, ainda que grande parte de meia distância) não é um bom presságio.

A rever (-) - Não é que se possa esperar que Felipe, com 27 anos, pouco mais de dois de futebol a sério e em estreia na Europa, não vá ter algumas dificuldades na adaptação ao futebol europeu. Mas a insegurança e o nervosismo foram claros - e Felipe não tem em Marcano um central que vá, propriamente, assumir-se como patrão durante a sua adaptação. Felipe sentiu o dilema entre pontapear ou tentar construir. Coisas que terá que melhorar num ciclo de jogos dificílimo. Ingenuidade de Alex Telles na expulsão (e simultaneamente perceber que aqui pode ver cartões com muita facilidade), Maxi Pereira (13ª época sempre a jogar, sem lesões graves) acusou algum cansaço. É bom lembrar que Maxi Pereira recusou um período de férias, depois da Copa América, para começar a trabalhar mais cedo no FC Porto. Esperemos que o descanso não lhe faça falta, pois será difícil Maxi Pereira voltar a fazer uma época com 40 jogos. Por fim, pede-se um pouco mais de rapidez e destreza no ataque do FC Porto, que obrigue o Rio Ave a recorrer mais vezes à falta (o Rio Ave só fez 9 faltas em todo o jogo e 5 foram sobre Otávio, enquanto o FC Porto fez o dobro).

Neste momento, o FC Porto é líder da Primeira Liga. O mais difícil não é chegar à liderança, é mantê-la. Mas o primeiro passo já foi dado.