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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Colheita 2018-19

Perder depois de chegar ao intervalo a vencer por 2x0 é atípico. Há poucas coisas mais invulgares do que um desfecho destes na história do FC Porto. Tanto que, até à noite de sábado, só tinha acontecido duas vezes na I Liga: uma em 1943, contra o Fabril Barreiro, e a outra em 1970, contra a Académica. A juntar a estes dois casos, houve o desaire europeu contra o Artmedia, em 2005. De resto, nunca o FC Porto tinha acabado batido após ir para o intervalo a vencer por 2x0.

Este resultado, por si só, já era uma raridade, mas as circunstâncias que antecederam os golos do Vitória de Guimarães tornam-lo ainda mais incomum. Uma entrada absolutamente desmiolada de Sérgio Oliveira na grande área, Maxi Pereira a não ter pernas para fechar o corredor no 2x2 (num lance em que o FC Porto tem 8 jogadores na grande área no momento do remate de Tozé), e um lance que começa num lançamento de linha lateral e no qual voltam a ser suficientes dois jogadores do Vitória para fazer frente a uma grande área povoada pelo FC Porto. Os sucessivos desperdícios em tempo de compensação acabaram por confirmar o que se testemunhava: era uma noite atípica a todos os níveis.

Brahimi e mais 10... com poucas ideias sem o argelino
Mas o problema não é apenas este jogo. Estamos à 3ª jornada, a um ponto da liderança. Sporting e Benfica vão perder mais pontos, o próprio FC Porto vai perder mais pontos. O drama não está aqui. Está naquilo que já todos (???) estão fartinhos de saber desde a temporada passada: que este plantel é curto e que lhe faltam soluções de maior qualidade. E isso não iliba o facto de o modelo de jogo do FC Porto estar distante daquilo que entendemos ser um futebol de qualidade e que a equipa tão bem chegou a mostrar na jornada inaugural da Liga.

«Pois, já diziam isso na época passada, que o plantel não chegava, e fomos campeões!». Este argumento não faltará ao longo da época. E podem usá-lo até maio, estejam à vontade. É verdade que o FC Porto chegou ao título, com um plantel ao qual eram reconhecidas várias limitações. Mas não nos podemos esquecer que o primeiro a acreditar na época passada - Sérgio Conceição - foi o primeiro a desacreditar após um simples jogo de pré-época com o Portimonense e a reivindicar a necessidade de reforços. É o próprio milagreiro que não quer estar sujeito a um segundo milagre.

O FC Porto teve um ataque bastante produtivo na época passada. E não é justo dizê-lo que tenha deixado de ter, pois a verdade é que fez 10 golos em 3 jornadas - desde 1975 que não arrancava com uma dezena de golos. Mas também sofreu 5 em 3, algo que não sucedia desde 1969. Isto é muito mais do que uma questão golos marcados vs. sofridos. Tem a ver com a qualidade de jogo e com as próprias soluções do plantel.

Resultado de imagem para maxi pereira
Muita luta, poucas pernas
Começando com a defesa, é lógico que vai ser uma época difícil. O FC Porto perdeu o seu melhor central e o lateral-direito, e Maxi Pereira passou da saída à permanência por culpa da transferência de Diogo Dalot. O uruguaio luta muito, apoia bem o ataque e até começou a época com um par de boas exibições, mas aos 60 minutos da 3ª jornada já não conseguia correr. Já não é uma questão de saber se Maxi Pereira aguenta uma época: é saber se aguenta um jogo completo no qual vai ter que correr para defender e não apenas subir para combinar com o extremo no ataque. Maxi é inteligente no relvado, posiciona-se bem, mas quando tem que correr para trás os 34 anos já pesam. E estamos, neste momento, a falar de Chaves, Belenenses ou Vitória. Não estamos a falar de clássicos ou de Champions, com dois jogos por semana. 

Diogo Leite, jovem promissor, entrou na equipa e fê-lo bem. Mas não é por acaso que estamos a falar de um jogador de 19 anos que está a cumprir a primeira época de sénior. O que faz um miúdo dessa idade? Comete erros. De posicionamento, de marcação, de antecipação. Há 30 anos que o FC Porto não tinha um central tão jovem na equipa - o último tinha sido Fernando Couto. E para quem não estiver recordado, Fernando Couto estreou-se mas foi logo depois emprestado por duas vezes. Só depois voltou para se afirmar. 

Diogo Leite foi lançado às feras (ou não, pois ainda não chegámos aos clássicos e à Champions) e ganhou o lugar com mérito. Mas tudo isto começa na lentidão da SAD em assegurar atempadamente e prontamente o sucessor para o eixo da defesa. Já sabiam que Marcano iria sair e que Diego Reyes não ficava. Isto era uma situação que poderia, deveria estar a ser preparada há meses. As negociações por Mbemba (cujo perfil faz lembrar Bruno Martins Indi) demoraram bem mais de um mês, e quando chegou, aí sim, houve o azar inesperado de o central congolês se ter lesionado. Isso pode acontecer, foi um azar. Mas que teve que fazer Sérgio Conceição desde então? Preparar o miúdo para o 11. Foi isso que fez, e manteve logicamente a sua aposta. 

«Poderia ter jogado o Chidozie», dirão. Aqui entramos no campo da opinião, logicamente, mas Chidozie esteve emprestado ao Nantes, equipa onde o melhor central era Diego Carlos, brasileiro que no FC Porto revelou pouco mais do que qualidades medianas. E aqui temos um possível exemplo da saúde financeira que a SAD portista respira neste momento: 

Recorte do jornal O Jogo
Um clube que rejeita 13 milhões de euros por Chidozie é um clube sem urgência em vendas e sem dificuldades financeiras. Só pode, embora esta proposta deva ter estado na mesma mesa onde o West Ham colocou 40 milhões de euros por Marega, com mandatários de Emerald City, Tardis e Valhalla.

Entretanto chegou o também jovem Éder Militão, proveniente do São Paulo, que apesar de rotulado de polivalente vem como opção para o eixo da defesa. E qualquer jovem brasileiro que chega à Europa precisa de tempo até entrar na equipa, muitas vezes só se conseguindo afirmar a partir da segunda época. Basta recordar os casos recentes de Fernando, Danilo ou Alex Sandro. Ainda assim, nota também para o facto de Éder Militão implicar um investimento de cerca de 7 milhões de euros - grande parte para empresários -, apesar de só ter contrato com o São Paulo até 11 de janeiro de 2019. Com tanto dinheiro investido para «antecipar» a transferência alguns meses, só podemos esperar que Éder Militão possa emergir como opção mais depressa do que o previsto, até porque não havia assim tanta concorrência pelo jogador, pelo menos ao nível da imprensa brasileira (que chegou a sugerir que o PSG poderia comprá-lo para emprestá-lo de imediato ao... Vitória de Guimarães).

Falando ainda do setor defensivo, a iminente chegada de Zakarya, do Belenenses, ao FC Porto sugere meramente uma coisa: desnorte completo na construção do plantel. O lateral-esquerdo, que cumpre 30 anos em janeiro, jogou sempre em clubes medianos ao longo da sua carreira e estava no Sochaux, da II Liga francesa. Assinou pelo Belenenses em julho e, segundo o jornal O Jogo, convenceu o FC Porto a avançar para a sua contratação depois do jogo no Jamor.

Portanto. Temos um lateral de 29 anos que estava livre, em julho, e que não seria nem primeira, nem segunda, nem terceira opção para as laterais do FC Porto. E de repente, por causa de um jogo, passa a ser prioridade e alternativa a Alex Telles, um dos jogadores mais importantes na manobra coletiva do FC Porto. Alguém acredita que no relatório de pré-época de Sérgio Conceição, que identificava seis pontos a reforçar no plantel, o nome de Zakarya aparecia por lá?

Tivemos meses e meses para preparar a época. Uma pré-época inteira. Temos um enorme departamento de scouting e prospeção, camadas jovens, equipa B. E no meio de tudo isto, porque fez um bom jogo contra o FC Porto, de repente Zakarya passa a ser a solução. Rúben Lima deve estar a lamentar que o jogo do Moreirense com o FC Porto não seja disputado antes de sexta-feira, caso contrário ainda se habilitava a uma transferência. 

Não é um problema com Zakarya, o jogador: é um problema com o modelo, com a preparação da época, e com uma gestão que nos faz lembrar os tempos em que se descobriam laterais-esquerdos do calibre de Ezequias, Lucas Mareque, Nelson Benítez ou Lino. Todos eles com motivações muito semelhantes. E todos eles campeões pelo FC Porto, mesmo pouco ou nada jogando. Tomara que com Zakarya também seja assim. 

Não há moral/justificação para alegar contingências financeiras (que, diga-se, a SAD nunca assumiu publicamente na construção ou preparação desta época - o máximo que tivemos foi a história da carochinha de que é possível gastar tanto quanto o FC Porto encaixar em transferências) quando já se celebraram os magníficos negócios da compra e consequente dispensa de Janko ou Ewerton. Seria interessantíssimo ouvir a explicação do FC Porto para a motivação por trás destes negócios. E perceber em que universo é que constrangimentos financeiros podem coexistir com negócios com notáveis empresários e homens do futebol como Alexandre Pinto da Costa, Teodoro Fonseca ou Luciano D'Onofrio. 

Do meio-campo para a frente, praticamente não houve alterações no plantel. Jogadores como Bruno Costa, Hernâni ou Adrián só estão no grupo de trabalho por não haver mais ninguém, e os dois últimos porque não têm propostas de compra no mercado. André Pereira acaba por ser um caso também muito ilustrativo: está a jogar porque não há mais soluções. Está certamente a trabalhar para isso, esteve nos dois golos frente ao Vitória de Guimarães (um deles irregular, é certo, mas já houve precedentes de falhas no VAR, nomeadamente num Aves x Benfica), mas certamente que Sérgio Conceição gostaria de ter outras soluções para o seu 4x4x2.

4x4x2 ou 4x3x3?
Embora, aqui, Sérgio Conceição também tenha que dar o braço a torcer e perceber que tem que haver um limite. Porque não dar uma oportunidade ao 4x3x3? Que mais tem Óliver Torres que fazer para entrar no 11? Quantos créditos tem Sérgio Oliveira para se aguentar no 11? Há assim tão pouca confiança em limitar o eixo do ataque a Aboubakar ou outro ponta-de-lança?

Mas aqui entramos naquilo que é a relação direta entre Sérgio Conceição e a administração. Quando renovou, Sérgio Conceição deixou claro que ia trabalhar a época em 4x4x2? A SAD garantiu que iria ter opções para isso? Uma coisa é a flexibilidade do treinador, que terá sempre que ter, por mais fiel que queira ser às suas ideias. Outra é o próprio investimento da SAD no treinador. 

Como tantas vezes foi comentado, o FC Porto da época passada nem sempre se distinguiu por ser uma equipa que jogava um grande futebol. Era uma equipa de guerreiros, lutadores, que teve sem dúvida semanas de bom futebol ao longo da época, mas muitas vezes esteve limitada a duas coisas: bolas diretas na frente, à procura da profundidade dos avançados, e as bolas paradas. Isto além do principal fator de desequilíbrio neste arranque de época: Brahimi, sempre ele. E reparem que não estamos há dois ou três meses a suspirar por uma solução match-winner para as alas, mas sim até antes da chegada de Sérgio Conceição. Mantêm-se Hernâni, pouco mais do que para fazer número, e esperanças de um ano de afirmação para Corona ou Otávio. Muito curto.

Quanto vale Marega?
E Marega? É de facto um dos mistérios deste defeso. Primeiro, há que separar aquilo que é a especulação típica de pré-época na imprensa, sobretudo quando envolve clubes ingleses, e aquilo que chegou realmente à mesa da SAD. Pinto da Costa diz que nunca teve uma proposta concreta e voltou à conversa para boi dormir da cláusula - estamos em 2018, o FC Porto nunca vendeu um jogador pela cláusula de rescisão (não esquecer, para uma cláusula ser ativada, tem que ser uma das partes, entre clube e jogador, a invocar esse direito - tal como o fez André Villas-Boas, por exemplo), e de certeza que Marega não seria o primeiro. 

Não é do domínio público quanto foi ao certo a eventual proposta do West Ham, mas que era intenção de Sérgio Conceição manter Marega. Mas porquê? Por considerar que o maliano era assim tão fulcral na equipa? Ou porque não tinha garantia nenhuma de que, caso Marega saísse, não viria ninguém melhor? Tudo o que fosse acima de 20 milhões de euros - assumindo que alguém chegaria a esses valores - por Marega seria uma das melhores vendas da história do FC Porto. A verdade é que Marega é um jogador tão fulcral que esteve encostado 19 dias a treinar sozinho. Não há memória de isto ter acontecido no FC Porto. Jogadores a pedir para sair ou a forçar transferências é ementa diária no futebol, sobretudo em clubes vendedores como os portugueses. Sérgio Conceição tem que ter tido motivos muitos fortes para encostar Marega desta forma, embora as suas passagens por Marítimo e Guimarães já tenham revelado histórias de mau profissionalismo. 

Marega acabou por ser reintegrado, restando saber agora se vai renovar ou não (antes de ser afastado do grupo, tinha a proposta de renovação nas mãos) e que jogador será em 2018-19. Porque na época passada, Marega era o ex-dispensado. Cada golo que marcava surpreendia, era colocá-lo acima das expetativas. Foi um jogador a garantir duas dezenas de golos em contexto de I Liga. Mas entre um ex-dispensado que só fica no plantel por não haver mais ninguém e um jogador pelo qual se rejeita a saída por números alegadamente muito mais do que generosos... Há uma enorme diferença. 

Quando o FC Porto assume todas as recusas por Marega, só pode esperar que o seu rendimento seja muito superior esta época. Na temporada passada, apesar de sofrível nos clássicos e na Champions, conseguiu garantir a média de um golo por jornada na Liga - falhava mais do que acertava, mas entre os pontas-de-lança do plantel também ninguém acertava mais do que ele. Ou esperamos um Marega a elevar a fasquia esta época, ou passámos ao lado da possibilidade de um grande negócio. Certo é que não podemos contar com mais uma época a tentar ganhar jogos com bolas que dependem da dimensão física de Marega. 

Sérgio Conceição fez milagres na época passada. Não lhe peçam a mesma receita. O treinador não teve sucesso nem ficou por ser um treinador muito evoluído taticamente, pois não foi essa a força do FC Porto na época passada. Foi a união, a superação, o pragmatismo e a sempre essencial sorte (outra vez, bastava não haver o pontapé do Herrera na Luz e poderia ser mais um ano a seco - ou bastava que tivessem validado o golo limpo a Herrera no jogo do Dragão, e aí talvez já não fosse necessário vencer na Luz).

E conforme foi comentado no post da vitória sobre o Belenenses: sempre que o FC Porto vencer, os adeptos vão ver um plantel bem aproveitado; quando os maus resultados aparecerem, afinal é um plantel curto e ao qual falta qualidade. Neste momento, este plantel não foi reforçado, no sentido em que não está mais forte. Sejamos francos, antes dos resultados, pois totobola à segunda-feira nunca deu nada a ninguém: este plantel é curto para uma equipa que ambiciona o bicampeonato e que tem que lutar por um lugar nos 1/8 da Liga dos Campeões. Na pré-época, Sérgio Conceição falou em «meia dúzia de jogadores sem capacidade» para jogar no FC Porto. Neste momento, numa altura em que Danilo e Soares ainda recuperam de lesões, o que apetece mesmo dizer é que falta mais meia dúzia de jogadores com capacidade para jogar no FC Porto. Porque em algo teremos que concordar: seja em 4x3x3 ou 4x4x2, o treinador campeão merece e precisa de melhores soluções. 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A contratação e os reforços

Já lá vai mês e meio desde a contratação de Sérgio Conceição, mais três semanas de trabalho de pré-temporada, com o ciclo habitual - muita motivação, sede vencer e uma pressa descomunal em querer ver algo de diferente em relação à última época (os treinadores anteriores também passaram por isso - e neste caso, pegou a imagem de um FC Porto mais rematador e incisivo na proximidade da grande área, algo impossível de concluir após dois jogos particulares numa digressão pelo México). Irrelevante, como em muito do que se possa passar durante uma pré-temporada - o ideal, nesta fase e por mais irónico que possa ser, é expor tantas fragilidades quanto possível, de modo a que não deixem dúvidas de que necessitam de ser colmatas (seja com mais tempo de trabalho, seja com recurso ao mercado). Só conta a partir do dia 9 de agosto. 

Porém, a amostra nos primeiros 45 minutos em Guimarães já revelou um FC Porto muito, muito próximo do que se poderá idealizar para a época 2017-18. Maior facilidade para jogar ao primeiro toque e procurar a tabela perto da grande área; maior movimentação e versatilidade no último terço; capacidade de colocar mais gente na frente sem que isso implique a perda de equilíbrio no momento do contra-ataque; e uma dinâmica forte e funcional na tentativa de assegurar, simultaneamente, a profundidade através da subida dos laterais e presença no jogo interior. 

Muito positivo, restando apenas acrescentar um detalhe que pode fazer a diferença ao longo da época: quando há uma presença forte no ataque, os golos podem acabar por surgir em lances isolados, e não necessariamente através do que se construiu. Foi o caso dos golos de Aboubakar e Soares, que não nascem das melhores jogadas que o FC Porto fez na partida, mas que revelam o oportunismo que vai ser necessário muitas vezes para somar pontos - forçar o erro do adversário ao invés de tentar seguir o plano de construção da própria equipa. Sem dúvida, uma exibição que aguça a vontade de todos em ver mais deste FC Porto, apesar da expulsão de André André ter tornado a segunda parte atípica. 

Enquanto isso, o mercado. Até ver, o FC Porto fez uma contratação e ainda não foi buscar reforços ao mercado, mas já os tem. Vamos por partes.

Vaná foi o único jogador comprado pelo FC Porto até ao momento, um nome que não garante nada além de mais uma alternativa a Iker Casillas para a época 2017-18. Foi contratado para ser suplente de Peçanha no Feirense, mas saltou para a titularidade à 8ª jornada e foi um nome determinante para que o Feirense se aguentasse na primeira liga. 

Fez portanto uma época interessante, como é habitual vermos muitos outros guarda-redes da Primeira Liga o fazerem - foi isso que fez com que guarda-redes como Fabiano ou Bracalli saltassem para o FC Porto. Se garante alguma coisa para o FC Porto na época 2017-18, não garante, pois Iker Casillas tem a titularidade assegurada, salvo alguma eventual lesão.

Contrato até 2021
Quem não se lembra do muito criticado Fabiano, que foi só e apenas o guarda-redes menos batido das Ligas europeias na época 2014-15, e ainda assim não faltou quem lhe passasse o atestado de insuficiência para as balizas do FC Porto? O que Vaná fez no Feirense Fabiano fez no Olhanense, por exemplo. Agora, ser o guarda-redes menos batido das Ligas europeias (algo que se torna sempre mais fácil de alcançar quando há uma grande defesa à frente), isso já não é algo que se testemunhe frequentemente. 

Vaná é portanto uma contratação, não um reforço. E foi precisamente esta a premissa do post Contratações ou Reforços, feito há ano e meio que centrava outro nome implicado nesta contratação de Vaná: José Sá.

Conforme perspetivado, José Sá tem passado a sua estadia no FC Porto a conviver mais com o banco do que com a hipótese de jogar. Neste caso, não interessa o nome ser José, Miguel ou Artur: enquanto Iker Casillas estiver no FC Porto, o lugar será dele. E embora José Sá nunca tenha evidenciado ser um guarda-redes particularmente acima da média na sua geração, só terá hipóteses de evoluir jogando regularmente na próxima época. No FC Porto não o conseguirá, logo, a entrada de Vaná convida à sua saída, apesar de Sérgio Conceição não ter aberto o jogo quanto a isso. 

A baliza, no entanto, estará no fundo da lista de preocupações. Se Casillas renova por mais um ano, é para assegurar a titularidade ao longo da temporada. Há sempre o risco de uma lesão, mas já o havia o ano passado. Dentro de um ano a sucessão será provavelmente um tema de grande preocupação, mas para já o FC Porto volta a ter um nome que, desportivamente, dá garantias. 

Temos então a primeira e única contratação até ao momento, mas não é o mesmo que dizer que não há reforços. Há, e apesar de Vaná ser a única compra, o plantel não está de todo mais fragilizado do que o da temporada passada, que é o que por norma acontece quando o FC Porto começa a vender jogadores.

Entre os jogadores que caberiam nos planos para 2017-18 sem margem para dúvidas, destacam-se obviamente as saídas de Rúben Neves e André Silva. Rúben Neves, cuja operação já foi aqui descrita à melhor maneira de um prós e contras (que os há, sem dúvida), é um dos maiores talentos à escala mundial, mas dificilmente emergiria como primeira escolha para 2017-18, essencialmente devido à permanência de Danilo Pereira. Ainda que não haja uma alternativa ao nível de Rúben Neves, não é por aqui que o FC Porto, para o curto prazo, ficou fragilizado.

Quanto a André Silva, a venda ao AC Milan, por 38 milhões de euros, só é má se tivermos em conta que Pinto da Costa garantiu aos sócios que tinha rejeitado uma proposta de 60 milhões por ele. Se não fosse isso, seria uma venda bastante boa, próxima dos valores pelos quais foram saindo grandes avançados do FC Porto, como Falcao ou Jackson. André Silva poderia, sem dúvida, evoluir e render mais após mais uma época no FC Porto, mas dificilmente um jogador do futebol português se valoriza além da fasquia dos 40/45 milhões de euros. 

Desportivamente, e apesar de ter sido uma boa venda, o FC Porto perdeu um jogador importante, muitas vezes mais pelo trabalho que desenvolvia do que pelos golos que marcava. Mas objetivamente, André Silva fez 11 golos de bola corrida em 2016-17 no Campeonato. Ora, são números que um Aboubakar de cabeça limpa ultrapassa com facilidade. E se é certo que André Silva dava outras coisas ao FC Porto, Aboubakar também tem caraterísticas únicas no futebol português. 

Dois reforços sem ir ao mercado
Todos se recordarão que Aboubakar disse que não queria voltar ao FC Porto. São declarações que ninguém gosta de ouvir, mas que têm um contexto. Inicialmente, era suposto o Besiktas ficar com Aboubakar - só não o fez por causa do Fair-Play Financeiro da UEFA. Assim, o que tinha sido prometido ao jogador era que seria comprado no final do empréstimo. Não foi isso que aconteceu.

Além disso, é bom recordar que Aboubakar foi afastado do plantel do FC Porto por causa de um tal de Laurent Depoitre. Aboubakar ficou fora da lista da Champions de um dia para o outro, para que pudesse ser inscrito Depoitre. Então imaginem o ridículo quando se conclui que, na verdade, Depoitre nem sequer poderia ser inscrito para o play-off com a Roma. 

Aboubakar tem tudo para ser um reforço em toda a linha, mas há uma situação contratual para resolver o quanto antes. Nenhum jogador sub-30 do plantel principal deve iniciar uma época em final de contrato, sob pena de o ver assinar em janeiro por outro clube. Aboubakar é um jogador com mercado e potencial, tornando-se ainda mais apetecível por não haver CAN em 2018 a atrapalhar. Pelo dinheiro que renderia numa eventual transferência, o FC Porto não só dificilmente recuperaria o que já investiu em Aboubakar como não teria garantia nenhuma de ir buscar um avançado melhor ao mesmo preço.

Outro reforço, a todos os níveis, é também Ricardo Pereira, que torna Maxi Pereira num pequeno grande problema. No plantel, Maxi é um dos poucos jogadores que sabe o que é ser campeão, ainda que o tenha sido pelo rival. O seu espírito competitivo deixa-o em condições de fazer mais uma época, sem dificuldades, mas há que lembrar o quão raro e difícil é vermos um lateral de 33 anos no FC Porto. 

A um ano do final de contrato, que presente para Maxi Pereira? Ricardo dá todas as garantias para jogar a lateral-direito (tem a margem de progressão e a disponiblidade física para recuperar no corredor que Maxi já não tem), embora Sérgio Conceição já tenha deixado claro que tem também algumas expetativas sobre Ricardo numa zona mais adiantada. Seja qual o for o problema, ainda assim, Ricardo será parte da solução. 

Rafa vai ter mais dificuldades em jogar em 2017-18, tendo em conta que há várias opções para as laterais, mas é interessante traçar o paralelismo com os investimentos de 2011-12, quando o FC Porto investiu mais de 25 milhões de euros em Danilo e Alex Sandro; neste caso, já há dois laterais de presente e futuro que não implicaram nenhuma loucura.

Ainda na defesa, há Diego Reyes e Martins Indi, mas provavelmente só um ficará no FC Porto. Jogaram com regularidade na última época, mas aproximam-se do final de contrato, implicaram investimentos caros (no caso de Reyes, há ainda o problema de o seu passe ter sido partilhado, desde o início, com uma offshore de Pini Zahavi) e por isso quem ficar tem que renovar. Em cada um deles há um problema no seu perfil enquanto central: Diego Reyes, sendo ectomorfo, continua a ter dificuldades na dimensão física, mas continua a ter um punhado de caraterísticas que podem fazer dele um belíssimo central; no caso de Martins Indi, tem um grande problema no jogo aéreo, a única coisa a limitá-lo enquanto central. Cabe a Sérgio Conceição e às oportunidades de mercado decidir quem fica. 

Entre os recuperados para o plantel principal, destaque ainda para três nomes: Sérgio Oliveira, Mikel Agu e Hernâni. Sérgio Oliveira foi treinado por Sérgio Conceição no Nantes, mas não foi uma única vez titular com ele, tendo jogado apenas 109 minutos na Liga francesa, apesar de só não ter sido convocado para 3 jornadas. Se Sérgio Conceição não viu grande espaço para Sérgio Oliveira no Nantes, dificilmente acontecerá no FC Porto, tornando-o um forte candidato a ser vítima da sobrelotação do meio-campo. 

Mikel anda a trabalhar perto do plantel principal do FC Porto desde os tempos de Jesualdo Ferreira e é um dos jogadores oriundos da formação que mais oportunidades - e contratos - tem tido (melhor só mesmo Abdoulaye, emprestado pela 8ª vez - mais 7 ou 8 empréstimos e fica no ponto para ser opção no FC Porto). Após uma má experiência na Bélgica, jogou com regularidade em Setúbal, a médio defensivo, ele que curiosamente fez os seus melhores jogos pelo FC Porto B quando jogou a central. Veremos se ficará no plantel, embora pouco leve a crer que possa ser mais do que a sombra de Danilo e que encontre algum espaço nas Taças. A seu favor, o facto de poder ser inscrito na lista A da UEFA como jogador da formação. 

Sobra Hernâni, que nunca revelou créditos para ser opção no FC Porto, para além do trunfo que é a sua velocidade. Fez uma boa época em Guimarães, mas não é jogador para ultrapassar o campo da rotatividade e da utilidade em alguns jogos no FC Porto; sem ter estofo para ser opção regular no 11 inicial, cabe ao FC Porto estudar uma solução de mercado que garanta dois jogadores - um extremo com qualidade para entrar no 11 e «puxar» o melhor de Corona, Brahimi ou até Otávio e mais um ponta-de-lança, sobretudo se o 4x4x2 for para manter. Dois jogadores que hão-de chegar, de preferência dentro das próximas duas jornadas, pois a sua necessidade é clara. Tanto quanto o facto de nem valer a pena andarmos a tentar enganar alguém com Marega.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Os outros reforços

Óliver Torres - 5M€
Boly - 3,76M€
Imbula - 4,8M€
Jesús Corona - 4,475M€
Felipe - 4M€
Alex Telles - 3,412M€
Brahimi - 3,332M€
Miguel Layún - 3M€
Depoitre - 3M€
José Sá/Marega - 2,425M€
Danilo Pereira - 3,165M€
Omar Govea - 1M€
Víctor García - 1,7M€
Otávio - 1,1M€
Kayembé/Djim(s) - 1,3M€
Danilo - 0,85M€
Outros - 6,2M€

Confusos? A explicação é simples. O FC Porto tem previsto até ao final de dezembro de 2017, no corrente ano civil, o pagamento de 52,5 milhões de euros por jogadores já existentes no seu plantel. Isto sem considerar os 25 milhões de euros que terão que ser «pagos», ou renegociados, por estes quatro jogadores em prazo não corrente (isto é, para lá do final de 2017): Óliver, Boly, Inácio e Govea.


Qualquer portista concordará: são necessários reforços e Sérgio Conceição disse que vinha para ensinar, não para aprender, mas também não disse que vinha para fazer milagres. São necessárias soluções, particularmente do meio-campo para a frente, mas antes de pensar em quanto vai custar o extremo Y e o ponta-de-lança X, há a considerar quanto ainda vai custar quem cá está.

Há, logicamente, algo que equilibra um pouco a balança, que são os cerca que 32M€ a receber por parte de outros clubes entre o segundo semestre de 2016/17 e o primeiro de 2017/18, em grande parte graças às vendas de Alex Sandro e Imbula. Dinheiro já com destinatário, por certo, mas é um exercício que nesta altura da época ajuda a arrefecer as expetativas quanto à urgência de reforços.

Só pela lista acima referida, note-se que o FC Porto tinha, na apresentação do R&C do primeiro semestre, previsto o pagamento de cerca de 20M€ por parte de jogadores que já não fazem parte do plantel ou que não serão opção para Sérgio Conceição. Esses mesmos 20M€ talvez serviriam para o treinador preencher todas as lacunas que identifica no plantel, mas é um problema com o qual todos os treinadores, infelizmente, lidam: com as réstias de apostas falhadas de antigos treinadores ou, sobretudo, por parte da SAD.

Por isso, o contexto convida precisamente àquilo que Sérgio Conceição está a fazer: espremer, ao máximo, a matéria prima que já tem à disposição. No Olival, há neste momento quase um «11» de jogadores que não estavam no plantel na época passada e que, noutras circunstâncias, talvez não teriam em vista perspetivas de fazer parte do plantel.

Sérgio Conceição ainda não sabe quando vai ter reforços no mercado. Por isso, faz aquilo ao qual convidam as circunstâncias: vai tentar descobrir reforços naquilo a que muitos chamariam lista de dispensas.

Podendo começar por aqui: por 4 milhões de euros, que é quanto ele renderia numa saída, dificilmente se arranja um ponta-de-lança melhor do que um Aboubakar de cabeça limpa; e se em tempos tivemos que pagar mais de 25 milhões de euros por dois excelentes laterais (Danilo e Alex Sandro), neste caso temos aqui à disposição uma dupla que já não vai mexer com os cofres - Ricardo Pereira e Rafa. Três exemplos de reforços ideais: qualidade, baixo ou nulo custo e já à disposição do treinador. 

Suficiente? Talvez não. Mas é um exemplo que já deveria ter sido seguido muito antes, e não apenas pelos treinadores: antes de pensar em ir lá fora, vamos tentar aproveitar tudo o que está cá dentro.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A luta de Sérgio

Estamos no defeso de 2014, marcado pela saída de Paulo Fonseca e pelo período de transição de Luís Castro. Os adeptos estavam fartos de um treinador que, no entender de muitos, não percebia «a mística». Queriam um «discurso à Porto». Queriam «garra». Queriam um treinador que parasse de confundir os nomes dos clubes e que batesse menos palmas no banco de suplentes.

Chegou Lopetegui. Época e meia depois, Lopetegui saía. E saía com os adeptos a suspirarem por alguém que representasse todos os lugares comuns: a mística, a garra, o ser Porto, o não jogar resguardado contra o Benfica.  

Depois José Peseiro chegou, viu e partiu. E adivinhem que conclusão deixou nos adeptos: que era necessário um treinador com mais garra, que não fosse mosquinha morta, que jogasse sempre para ganhar, que entendesse o ser Porto.

Chega então depois Nuno Espírito Santo, que muito apreciavam por ser um treinador «da casa», que entendia «a mística», que representava o ser Porto. NES revela-se então um treinador manso, de pouca determinação, pouca ambição e mais preocupado em ser politicamente correto do que em contra-atacar pelo FC Porto. A que conclusão chegaram muitos adeptos? Que falta garra, que falta mística, que falta o ser Porto. Que estão cansados de ver um treinador mansinho. 

Uma, duas, três vezes... E nasce o padrão. Os adeptos acabam sempre a pedir a mesma coisa. Nem todos: há quem entenda que a competência é mais importante do que a paixão, sendo certo que competência sem paixão dificilmente rima com sucesso. Mas podem ter a garantia de uma coisa: dentro de um ano, já ninguém andará a suspirar pela falta de mística ou pela falta de garra. Porque com Sérgio Conceição encontramos o expoente máximo disso mesmo: a garantia de garra, de ambição, de entendimento e conhecimento da mística. No final da época que se avizinha, só se poderá pedir uma de duas coisas: ou a sua continuidade, ou o fim da história da mística e da garra, passando a suspirar por competência. Não necessariamente apenas do treinador. 

Sérgio Conceição é então o escolhido para comandar o FC Porto, faltando todavia acertar a rescisão com o Nantes, processo naturalmente demorado e que tem muito que se lhe diga. Isto confirma, desde logo, que a SAD não tem planos de mudar e que se revela incapaz - ou desinteressada - em contratar um treinador habituado a ganhar. Podemos começar por recordar este excerto escrito a 1 de junho de 2016, dia da confirmação de NES como treinador do FC Porto. 
«No processo de escolha do treinador, é mais ou menos consensual que a escolha não seria... consensual. Nunca é, diga-se. Mas há perfis que correspondem mais às necessidades do presente do que outros.
Neste caso, a escolha de Pinto da Costa, Nuno Espírito Santo, mostra que o FC Porto não vai mudar. Vai continuar a apostar num treinador que vem para o FC Porto para tentar vencer pela primeira vez, em vez de procurar apostar num treinador já experimentado, com títulos, com experiência internacional (algo que é difícil conjugar com um bom conhecimento do campeonato nacional, diga-se), capaz de apostar em jovens enquanto faz evoluir jogadores e capaz de se ajustar a um plantel sob constantes alterações.
Não é que o FC Porto não seja capaz de os ir buscar. Claro que é, pois quem teria dinheiro para cobrir o contrato de Jorge Jesus com o Sporting, ou teve dinheiro para comprar Marega em janeiro, então tem dinheiro para um bom treinador. Não vai porque não quer, não é por não haver capacidade financeira. 
Mas Pinto da Costa insiste na sua fórmula de sempre. Como Mourinho, como Villas-Boas, como Paulo Fonseca, como Lopetegui: treinadores sem títulos a nível de clubes, com pouca experiência, que vêm para o FC Porto para tentar ganhar pela primeira vez. A questão é: o FC Porto é um clube que proporcione essas condições?»
Basta substituírem o nome de Nuno Espírito Santo pelo de Sérgio Conceição. Ou a SAD não quer, ou não consegue contratar um treinador de um perfil superior

O FC Porto não é, neste momento, um clube ganhador, que esteja a conquistar títulos e troféus. Não é um clube onde os treinadores chegam, veem e vencem. Vamos cumprir um período de pelo menos cinco anos sem títulos. Temos então o nome de Sérgio Conceição: é um treinador ganhador? Também não, ainda não conseguiu troféus na sua carreira de treinador.

Dirão que foi esse padrão que fez do FC Porto um clube vitorioso: treinadores jovens, sem títulos, que chegaram às Antas ou ao Dragão para ganhar pela primeira vez. Falta é reconhecerem que os tempos mudaram: nenhum treinador chegou ao FC Porto de Pinto da Costa após um período de seca de quatro anos sem títulos, com um Benfica tetracampeão e numa crise financeira grave na SAD. Sérgio Conceição não encontra o mesmo que José Mourinho ou André Villas-Boas encontraram: encontra um desafio muito, muito maior pela frente. 

Então. Clube que não está a ganhar + treinador que nunca ganhou... O que faz os adeptos acreditarem? Nada mais do que a mística e a vontade intrínseca de vencer. Pois se o clube não está, atualmente, numa fase vitoriosa, que exigências podem ser apresentadas a Sérgio Conceição para que ganhe no FC Porto pela primeira vez? E que condições terá ele para isso?

Não é o início de uma análise depreciativa. Pelo contrário. Para quem aprecia resultados, Sérgio Conceição deu goleada a Marco Silva, por muito boa imprensa que este último tenha tido. Quando Marco Silva chegou ao Hull, a equipa estava a três pontos da linha de água. Acabou a seis. Quando Sérgio Conceição chegou ao Nantes, a equipa estava na zona de despromoção. Deixou-a no 7º lugar, às portas da zona de qualificação europeia. Para quem privilegia os resultados como base de avaliação de um treinador, nem há discussão, pelo menos face à época 2016-17 (lógico que Marco Silva fez mais no Estoril do que Sérgio Conceição nos clubes portugueses que treinou). 

Mas a maior questão é: porquê Sérgio Conceição? É bom recordar o que disse Pinto da Costa nesta entrevista: «Quando tenho na equipa Hulk, James e Falcao, o treinador é indiferente. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores nem capacidade económica para substituí-los». 

Este comentário, além de desvalorizar imenso o bom trabalho que Villas-Boas e Vítor Pereira (sem coincidência, os últimos treinadores campeões pelo FC Porto) fizeram, antecipa a questão: Sérgio Conceição vai ter um Hulk, um James ou um Falcao? Se não, então será Sérgio Conceição aquele treinador que vai elevar a qualidade de um plantel razoável, ao invés de ter um plantel que eleva a qualidade do próprio treinador?

Se o contexto económico da SAD não é favorável, não havendo perspetivas de Hulks ou Falcoes, a SAD pedirá a Sérgio Conceição aquilo que ainda não conseguiu na sua carreira: vencer como treinador. E o que faz Sérgio Conceição? Corre em direção às balas.

Ao contrário de Nuno Espírito Santo, que não fez nada na sua carreira (quer como guarda-redes, quer como treinador) sem Jorge Mendes, Sérgio Conceição subiu a pulso e trata as dificuldades por tu. Até há bem pouco tempo, Sérgio Conceição era um treinador aclamado e adorado em Nantes. E não foi fácil encontrar isso na sua carreira.

Estamos a falar de um técnico que teve problemas por todos os clubes por onde passou, não só no balneário como com os dirigentes. No Nantes, pelos bons resultados que apresentou, tornou-se um nome indiscutível e aclamado. E que faz ele agora? Tenciona abdicar de tudo isso em prol de se juntar à luta pelo FC Porto, onde sabe que qualquer treinador corre o risco de se queimar.

A vitória de Sérgio Conceição começa aqui: larga zonas de confronto para enfrentar o risco. Quer ser ele o treinador a pôr fim ao maior jejum de troféus nos últimos 30 anos. Ninguém lhe vai prometer um Hulk, um Falcao ou um James. Ou então, num contexto mais atual, ninguém lhe vai prometer um Casillas, um Maxi, um Brahimi ou um André Silva. Que faz ele? Quer abraçar o desafio. Sem pensar duas vezes, quiçá sem saber muito bem o que vai encontrar no FC Porto. 

Nenhum adepto sabe ainda se Sérgio Conceição vai jogar em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Se vai jogar em posse, em transição rápida, se vai ser híbrido. Não é, até à data, um treinador que tenha diferenciado os clubes por onde passou com um estilo de jogo particularmente brilhante ou positivo. O Paços de Paulo Fonseca jogou melhor futebol que o Braga ou o Guimarães (apenas 8 vitórias em 2015-16) de Conceição, por exemplo. O que não é garantia de nada, mas que sugere uma coisa: o FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo

Está, isso sim, a contratar sede de vencer e um homem que vai ao encontro das dificuldades, trocando o conforto pelo risco. Sérgio Conceição não é, provavelmente, a melhor escolha para treinador. Mas como homem, já começou a vencer pelo FC Porto: está disposto a queimar-se a ele próprio para tentar a reerguer o clube que aprendeu a respeitar e a amar.

Sérgio Conceição, o homem e o treinador, terá todo o apoio ao longo da sua estadia no FC Porto, sempre que esteja envolvido no compromisso de crescer e vencer. Se Sérgio Conceição falhar, não é o falhanço nem do homem, nem do treinador, mas sim do modelo e da estrutura que gere o FC Porto. Não há, por isso, pressão para Sérgio Conceição. Mas não duvidem: não será homem para fugir dela.

Força, Sérgio!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

«Os reforços estão identificados»

Citação de Nuno Espírito Santo, 21.07.2016


Mais de cinco semanas depois desta frase de Nuno Espírito Santo, o FC Porto recebeu 4 jogadores para o plantel principal. Depoitre, contratação em contrarrelógio pela mão de Luciano D'Onofrio e que chegou sem aparentar encaixar muito bem no que estava a ser preparado até então por Nuno Espírito Santo; Óliver Torres (que estava de facto há muito tempo identificado e, este sim, tinha que ser um jogo de paciência) e Diogo Jota (a hipótese possível para ter mais um extremo, mais rápido e vertical, sem implicar grandes custos imediatos), ambos por Jorge Mendes; e a fechar o mercado, Boly, que não a era prioridade do FC Porto, tanto que o clube preferiu esperar até ao limite pela possibilidade de ter Mangala por empréstimo, em vez de fechar logo um jogador que chegou a estar com tudo feito para rumar ao FC Porto antes de Rafa.

O plantel está fechado e o FC Porto pode ter conseguido ontem o melhor reforço da época. Chama-se Yacine Brahimi. O plantel, comparativamente há um ano, pode não ser estar necessariamente mais fraco (entre os jogadores que terminaram a época, entre os que podiam ter um papel importante só saiu Aboubakar), pelo contrário, resta saber se será suficiente para lutar pelos objetivos propostos. Estamos melhores do que há uma semana, estamos melhores do que há um mês. Mas estamos a falar da necessidade de recuperar mais de uma dúzia de pontos em relação a Benfica e Sporting (tomando por referência a classificação da última época). São três fortes candidatos ao título, e ninguém no FC Porto pode assumir a dianteira do favoritismo, por reconhecer o quão difícil será lutar por este título. O mercado de transferências não foi tão bom como o de Mark Zuckerberg, isso não. Mas o plantel não piorou, que é algo que não pôde ser dito na pré-época de 2015-16.

Começando pela questão financeira. A SAD só vai apresentar o seu orçamento para 2016-17 na segunda quinzena de outubro, mas esperam-se tempos muito difíceis. A SAD está sistematicamente a falhar nas suas metas financeiras, sobretudo de há dois anos e meio para cá. O FC Porto precisava mais de 70M€ de mais-valias no último exercício, e não as fez. Alex Sandro foi a última boa venda do FC Porto. E apesar de o FC Porto ainda ter conseguido recuperar nas receitas da UEFA que estavam previstas, ao apurar-se para a Champions (dar por garantido o apuramento para 2017-18 seria novamente um risco enorme), é claro que não vai chegar. Se terá que haver vendas em janeiro, o futuro o dirá.

Já neste mês de Setembro há um reembolso/renegociação de 17M€ ao Novo Banco, que tinha como garantias Herrera ou Brahimi. Nenhum deles saiu. O orçamento para 2016-17 já terá um buraco que em tudo se espera superior a 40M€ (vai ser o maior da história do futebol português), a avaliar pelas receitas que não entraram na última época; e se o FC Porto voltar a apresentar um orçamento suicida, muito distante da autos-sustentabilidade, assusta imaginar a quantidade de jogadores que tenha que ser vendida no final da época. E se Jorge Mendes (uma vez mais, um exemplo de que sem propostas de Jorge Mendes é bem mais difícil para o FC Porto vender jogadores) não tiver propostas boas, mais difícil será. (IN)felizmente, já tem mão sobre as nossas duas maiores pérolas da formação, Rúben Neves e André Silva. É certamente um tema mais apropriado para o final da época 2016-17, mas que quando chegar não pode deixar ninguém surpreendido.

Desportivamente falando, vamos começar por Brahimi. É de um amadorismo histórico a gestão do FC Porto do seu caso. Todos davam como adquirido que Brahimi iria sair. Não saiu, também porque a Doyen Sports é incapaz de fazer uma boa venda para o FC Porto. O FC Porto já deu muito dinheiro a este fundo, que tem sido incapaz de arranjar boas propostas para jogadores do FC Porto (ou pelo menos que se tenham concretizado em saídas). Repare-se que o maior negócio com intervenção da Doyen, Mangala, só foi possível porque foi Jorge Mendes a conduzir as negociações com o City. E agora a Doyen não arranja sequer uma boa saída para Brahimi? Façam lá uma coisa: quando arranjarem uma boa proposta por Sérgio Oliveira, visto que compraram 25% do passe já depois da FIFA ter proibido a partilha de passes por terceiros, o FC Porto volta a negociar com vocês. Boa? O Sporting já fez mais dinheiro sem Doyen do que o FC Porto com Doyen. A refletir. 

Reforço entre o caos
Quem decidiu que Brahimi não ia mais a jogo pelo FC Porto? A SAD, porque tinha toda a convicção que o ia vender? Nuno Espírito Santo, por não querer usar/criar dependência de um jogador que tinha os dias contados? O próprio Brahimi, por já não estar com a cabeça no FC Porto? Felizmente, Brahimi não fez falta no playoff da Champions, mas fez muita falta em Alvalade. 

E do lado contrário podemos ver exemplos que envergonham o FC Porto - aliás, não envergonham o FC Porto, envergonham sim quem tomou estas decisões para o clube. Slimani estava vendido ao Leicester, mas jogou contra o FC Porto e marcou; e há bem pouco tempo, Matic também já estava vendido ao Chelsea, ainda fez birra numa manhã de clássico, mas foi a jogo e ajudou a derrotar o FC Porto.

Pobre do portista que aceitar que Benfica e Sporting façam mais para ganhar os seus jogos do que o FC Porto. Isso é inaceitável! O FC Porto tinha um ativo valioso nos seus quadros que não estava a utilizar. Quem inibiu a sua utilização deve assumir responsabilidades. Podia haver a hipótese/necessidade de sair, mas que estivesse integrado e a jogar até então. Compreender-se-ia a sua ausência se o FC Porto já tivesse um sucessor/alternativa, mas não tinha. Ou tinha Adrián López, que chegou a estar dispensado na equipa B. Uma explicação sobre este caso, é o mínimo que se pode pedir, sobretudo com a imprensa inglesa a afirmar que o FC Porto recusou 40M€ por Brahimi. Depois de termos testemunhado, na novela Rafa-Braga-Benfica-Araújo (só para não dar um exemplo do FC Porto), que um simples empresário pode deitar um negócio que estava feito a perder por causa de uma comissão, seria bom o FC Porto explicar por que é que Brahimi acabou por não sair. Não finjam que não se passa nada. Estamos em 2016, na era da comunicação. 

E agora tem que começar a reabilitação de Brahimi, percebendo que pode ser o maior reforço para o FC Porto esta época. Vai ser um grande desafio para Nuno Espírito Santo, recuperar o jogador. Tem todas as caraterísticas que podem interessar a NES, mas em janeiro vai para a CAN, e não está com ritmo competitivo. Se estiver bem, se estiver comprometido com o FC Porto (não é fácil, pois é um jogador que estava convencido de que ia sair - não estamos a falar de um jogador que estava a jogar e que mantinha a mera expetativa de sair), Brahimi pode ser um grande reforço. Até lá, que se explique a sua ausência. E não deixem Nuno Espírito Santo em fogo cruzado, a responder por decisões que não tenham sido tomadas por ele.

E agora vamos ao último negócio do defeso - tirando Areias, mais um entre muitos negócios difíceis de compreender que o FC Porto tem vindo a fazer com o V. Guimarães nos últimos anos, tendo o único de facto pertinente sido a contratação de Ricardo Pereira. Seria, sem dúvida, interessante o FC Porto revelar a cláusula de compra que tem de Areias. Interessante ou chocante. Mas ei, pode dar sorte: a última vez que o FC Porto teve um Areias em campo ganhou ao Chelsea. E era Nuno o guarda-redes. Pronto, está explicado. 

Qualidade =/= preço
Boly não é o perneta que muitos querem fazer parecer. Pelo contrário, Boly tem qualidade. É certo que não é Mangala, mas o FC Porto sabia perfeitamente que, se o City recebesse uma proposta melhor, Mangala deixaria de ser hipótese. Esperar para 31 de agosto para reforçar a defesa - estamos a reforçar a defesa ou a mudar a dupla de centrais? -, isso sim, é de uma enorme preocupação. Sobretudo depois das irrisórias justificações publicadas para que o negócio de Boly tenha sido congelado/abortado no início do mês: de que o jogador tinha feito demasiadas exigências. Sim, sim. Porque um tipo que há um ano estava no Braga B ia roer a corda com os dentes todos. Claro, claro. 

Mas Boly vale, à data de hoje, uma avaliação de 8M€? Não, não vale. Não só porque isso torná-lo-ia o defesa-central mais caro da história do FC Porto e uma das maiores vendas da história do Braga. Depois de quase mais uma comidela, que seria o negócio Rafa (em boa hora o FC Porto não o fez), António Salvador volta a rir-se na hora de negociar com o FC Porto. Faz uma boa venda e fica com uma dupla de centrais bastante boa de jogadores dispensados pelo FC Porto (Ricardo Ferreira, que infelizmente está lesionado e era/é o melhor defesa do Braga, e André Pinto). 

Todos os jogadores comprados pelo FC Porto nesta janela de transferências chegaram com uma avaliação entre 6 e 8M€. Foi assim com Boly, Depoitre, Layún, Felipe e Alex Telles. O resto dividiu-se entre empréstimos e jogadores em free-agent (considerem mudar esta expressão para expensive-agent). Como se explica então que o FC Porto, tendo dificuldades financeiras, só tenha comprado jogadores na casa dos 6M€?

Aqui já se reflete o quão mal a SAD está a lidar com o fim da partilha de passes imposto pela FIFA. Há três épocas, o FC Porto dificilmente absorveria a totalidade dos passes de todos estes jogadores. Neste caso, é logo obrigado a comprar os 100%, pelo que todas as compras estão a ser inflacionadas nesse sentido. Além disso, são contratações cujo maior impacto (no que toca ao pagamento a outros clubes) não é imediato. O que explica que se prefira o caro, a pagar mais tarde, em detrimento do mais barato, mas a pagar mais agora. É perceber, mas não é concordar.

É de recordar que os centrais mais caros da história do FC Porto (Indi e Reyes) foram emprestados. Felipe, o 3º mais caro, está a adaptar-se. Marcano está a fazer um grande início de época, mas não é difícil adivinhar que, ao primeiro erro, metem-lhe a cabeça na guilhotina. À partida, pensando em Boly, Marcano e Felipe, é natural que se mantenha a dupla de centrais atualmente titular. Mas quando chega um central de 8M€, por norma tem que jogar. Não faz muito sentido NES encostar Marcano na sua melhor fase, tal como não fará sentido um central de 8M€ não jogar. Certo é que passamos a ter, pelo menos, 3 centrais para o totobola, pois Reyes e Chidozie (que continua no clube) não contavam para Nuno. 

É bom não esquecer que Boly, há um ano, estava na lista de dispensáveis do Braga. Depois de ter mostrado algumas coisas boas no Auxerre (ainda que não esquecendo que, mesmo após duas épocas na Ligue 2, nenhum clube francês lhe quis pegar - atenção à condição física!), saiu e foi para a equipa B. Só teve a oportunidade de fazer um jogo na equipa A. No arranque da época 2015-16, Paulo Fonseca deu-lhe uma oportunidade e Boly agarrou-a. Fez uma boa época, mas apenas isso: uma boa época. E de repente já merece ser o defesa mais caro da história do FC Porto, do Braga e de todo o futebol português?

A história de que os jogadores valem o que os clubes pagam por eles é muito gira, mas é para clubes que respiram saúde financeira, não para o FC Porto, que vem acumulando prejuízos colossais. Os clubes que não dependem de mais-valias para subsistir, esses sim, podem pagar o que quiserem; mas para quem, além de depender de mais-valias, nem sequer fez essas mesmas mais-valias, não.

Dito isto, enunciemos as qualidades de Boly. Sim, porque Boly tem qualidade. O que está em causa é o preço aplicado ao contexto. Boly é um central que joga muito bem na dobra. Antecipa-se muito bem, corta muitos lances em antecipação, chega facilmente primeiro aos cruzamentos, ganha quase tudo pelo ar. Além disso, Boly mostrou, em Braga, ser bastante competente no primeiro passe. Não inventa. É o típico central que limpa tudo. 

Mas há o lado contrário. Boly joga muito melhor na dobra do que na marcação, e tem muitas dificuldades quando é forçado a manter posição. No 1x1, Boly (ainda) treme muito, chega a ser duro de rins. Tudo o que seja para limpar, contem com Boly. Mas se um avançado vai para cima dele, a coisa complica-se. Aí Boly já não é um especialista no desarme. 

No Braga, Boly preocupava-se sobretudo em limpar e afastar as bolas da grande área. Para o lado que estivesse virado, fazia o corte. E faz isso muito bem. Mas no FC Porto não vai poder ser assim. O FC Porto não mete simplesmente a bola para fora. Bolas cortadas pela linha lateral, ou pela linha de fundo, só em caso de extrema necessidade. Aqui, Boly tem que transformar um desarme num início de construção. Recuperar e sair a jogar. Vai ser uma nova realidade para ele. Por isso, sim, Boly tem qualidade; mas não tem qualidade que valha o que custa, e há muitos aspetos no seu jogo que vão necessitar de maturação. 

Como o FC Porto teve boas referências de Boly enquanto profissional - soube esperar pela sua oportunidade em Braga -, oxalá chegue com toda a disponibilidade para aprender e evoluir. O fardo do que custou não estará sobre ele. 

Alternativa
Quanto à composição do plantel do FC Porto, há uma limitação no ataque: André Silva não tem suplente. Porque Depoitre não é suplente de André Silva: é uma alternativa a André Silva. São coisas diferentes. Porque o FC Porto não pode jogar da mesma forma tendo André ou Depoitre em campo. Tendo André Silva em campo, o FC Porto tem um avançado com grande amplitude de jogo, que sabe cair nos flancos, vem buscar jogo atrás e consegue acelerar no último terço. Depoitre não corresponde a esse perfil. Depoitre é um homem para segurar a bola mais próximo da grande área e impor a sua capacidade física. O FC Porto, em função do avançado que estiver em campo, vai jogar de diferentes formas. 

Com a chegada de Óliver Torres e a possível recuperação de Brahimi, o FC Porto fica com outros argumentos para lutar pelos seus objetivos. Mas isso não invalida que uma pré-época assumidamente iniciada em Abril deste ano não podia espelhar tamanha desorganização e má gestão. Não tivesse o FC Porto conseguido o apuramento para a Champions e as coisas podiam estar bem mais feias. E não era preciso muito para isso acontecer: bastava apanhar um Tiago Martins em Roma. 

Tendo em conta que o FC Porto ainda cedeu vários jogadores (uma vez mais, o FC Porto não comunicada nada aos adeptos, que só vão sabendo das saídas de jogadores através da imprensa), vamos deixar essa análise para um próximo post, até porque com a pausa para os jogos internacionais será tempo de deixar Nuno Espírito Santo e o plantel trabalharem. Mas alguém se lembra de Helton?

Muitos adeptos esquecem que Helton ainda é um profissional assalariado do FC Porto. Helton não terminou a carreira, nem rescindiu contrato. A única coisa que a SAD e Helton informaram, num comunicado conjunto, foi que Helton não integraria o plantel de 2016-17. À data de hoje, não havendo ainda confirmação contrária, Helton é um futebolista do FC Porto que não tem colocação. Como o é Quintero, por exemplo. Se não fosse pedir muito, resolver as coisas com o ex-capitão do FC Porto calhava bem.

Dispensemos o clichê do vamos à luta com os que temos. Havíamos de ir com quem? Com os que não temos? Tem que ser dessa forma, não poderia ser de outra. 1/8 da Liga dos Campeões, tentar lutar pelo título até ao final e entrar na Liga dos Campeões, fazer os possíveis para regressar ao Jamor. Em cada jogo, deixar claro que o FC Porto esgotou todas as armas à sua disposição para ganhar. É o mínimo que se pode pedir. E o máximo também. Força, equipa.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Quanto tempo esperou Nuno por Depoitre?

Voltemos até 2006. Co Adriaanse queria Jan Vennegoor of Hesselink. O chamado «pinheiro». Pediu-o uma, duas, três vezes. Queria-o tanto que ameaçou bater com a porta. Pinto da Costa disse que não, uma, duas, três vezes. Porque era caro, porque (citando) não podia «hipotecar as contas por este ou aquele jogador», e que «se fosse para tirar os pés do chão iríamos buscar o Deco ou o Ricardo Carvalho». Ou seja, o equivalente a ir buscar o Boly por 6M€, ou o Rafa por 20M€. Se fosse para perder a cabeça, não iria por aí.

Marc Janko Laurent Depoitre
Co Adriaanse não teve o seu pinheiro e depois acabou por sair. E depois dele sair, o futuro deu razão a Pinto da Costa. Hesselink assinou pelo Celtic no mesmo ano e marcou apenas três golos, apesar de ter tido problemas físicos. E desde então, nunca mais se revelou goleador. E de 2006 em diante, o FC Porto foi tricampeão e ninguém sentiu a falta do pinheiro.

Dez anos depois, Nuno teve o que Co Adriaanse não teve. Pediu um pinheiro e teve-o, apesar do desconhecimento total de Pinto da Costa em relação a Laurent Depoitre. Mas importa colocar desde já a questão: quanto tempo esperou Nuno por este pinheiro?

Desde o início da pré-época, Nuno Espírito Santo tem apostado num esquema que dispensa por completo o pinheiro. Ao ponta-de-lança, no caso André Silva, é pedida maior mobilidade, que descaia muitas vezes para os flancos, que tenha capacidade para levar a bola e encaixar numa transição rápida, seja com bola no espaço ou no pé. Depoitre não corresponde, de todo, a estas caraterísticas.

Depoitre encaixa num esquema que não foi trabalhado pelo FC Porto nos jogos de pré-época. Falta saber porquê. Nuno só se lembrou agora que quer ter soluções numa dinâmica diferente, que implique o tal tanque perto da grande área, ou está desde o início da pré-época à espera que lhe deem esse pinheiro? E Depoitre acaba por ir direto à lista de inscritos da UEFA, sem treinar, empurrando para fora da lista Aboubakar (se sair, o FC Porto necessita de um terceiro avançado - Gonçalo Paciência seria uma boa e pertinente aposta, a nível desportivo e financeiro), que fez toda a pré-época. Tudo soa a má preparação/gestão, ou pelo menos bem tardia. 

Experimentar um esquema com um homem de área, um ponta-de-lança mais fixo, quiçá até enquadrando André Silva para um 4x4x2, deveria ter sido algo preparado desde o início da pré-época. Neste caso, o pinheiro só chega depois de terminada a pré-época - a mesma pré-época que supostamente teria sido iniciada em abril.

Felizmente, numa coincidência tremenda, Luciano D'Onofrio apareceu para - citando o presidente - desbloquear o negócio. Foi uma sorte Nuno Espírito Santo querer um ponta-de-lança que estivesse no raio de ação de D'Onofrio, que todos os defesos vai fazendo negócios com o FC Porto. Salutar coincidência. 

Antes de falar do jogador, podemos já notar um dos padrões deste defeso. João Carlos Teixeira, Felipe e Depoitre foram todos apresentados ao lado de Pinto da Costa. Zé Manuel (para todos os efeitos uma contratação neste defeso) e Alex Telles não. Mas João Carlos, Felipe e Depoitre têm todos algo em comum: Pinto da Costa diz que foram todos contratados mediante a preferência de Nuno Espírito Santo.

Sobre João Carlos, Pinto da Costa disse que foi um dos nomes pedidos por Nuno na primeira reunião de preparação para esta época. Sobre Filipe, disse que Nuno estava sempre a telefonar para saber quando chegava. E agora, sobre Depoitre, diz que nem conhecia o jogador, mas que era um pedido de Nuno. Por outras palavras, se correr bem, Nuno Espírito Santo recolhe o mérito, por ter olho para o jogador; se correr mal, Pinto da Costa já responsabilizou o treinador pelas escolhas. É uma abordagem bem diferente da feita com Lopetegui, na qual Pinto da Costa só falou do subrendimento de Imbula ou Campaña depois de Lopetegui sair. Neste caso, já todos ficam a saber que são pedidos de Nuno Espírito Santo. Qual Mateus 27:24-25.

Pinto da Costa também mostra uma postura diferente da sua última entrevista. «Contratei jogadores que não conhecia, só por causa do parecer dele», disse, sobre Lopetegui, dando depois do exemplo de Campaña e garantindo que não voltaria a contratar jogadores sem os conhecer. Neste caso, assumiu sem rodeios o contrário em relação a Depoitre. 

E agora aí temos Depoitre. E não vale de muito aprofundar a análise individual sobre Depoitre. Pois é simples: será tão útil quanto o caudal ofensivo do FC Porto e as bolas que lhe derem na grande área. Depoitre é um jogador limitado tecnicamente, que está na grande área para finalizar, para servir de referência, para arrastar os centrais. Não pode fazer quase nada do que André Silva fez na pré-época, embora não seja tão lento quanto a sua estampa física possa sugerir. O rendimento de Depoitre vai depender da dinâmica do FC Porto, e de uma abordagem totalmente diferente da que foi feita na pré-época. A partir daí pode dar um Vinha, pode dar um Tiago Caeiro, pode dar um Graziano Pellè.

O FC Porto não revelou o custo de Depoitre. Desmentir os 12M€ que a RTBF, a RTP lá do sítio, avançou já seria um bom começo (embora possa enquadrar-se no tão patético que nem merece resposta). Já os valores noticiados em Portugal, 4+2,5 milhões de euros, também parecem francamente elevados. O FC Porto é o primeiro clube a pagar alguma coisa por Depoitre, que nunca foi dado como hipótese concreta para outro clube, tirando os habituais rumores da imprensa inglesa (falaram em Stoke, WBA e Tottenham no início do ano, mas nada durante a pré-época), que quase nunca podem ser levados a sério.

O percurso de Depoitre
Senão vejamos. Do top 10 da liga belga, Depoitre foi o que de mais tempo precisou para marcar, com um golo a cada 207 minutos. Considerando todos os avançados que chegaram à dezena de golos, Depoitre teve mesmo a segunda pior média na relação minuto/golo (pior só Zinho Gano, outro pinheiro).

Depoitre fez a sua melhor época em 2014-15, quando foi essencial para que o Gent conquistasse o primeiro título da sua história. Na altura, o Transfermarkt, o site que muitos usaram para o avaliar em 6,5M€, avaliava-o em 2,5M€. Esta época, Depoitre fez 14 golos na liga belga e um na Champions. Foi isso que justificou que o seu passe valha agora três vezes mais? Certamente que não. Terá sido o único jogo que fez pela Bélgica? Improvável, pois o valor de Licá também não triplicou quando fez o seu único jogo por Portugal. É de facto intrigante avaliar Depoitre em 6,5M€, tendo em conta que o Gent nunca vendeu um jogador por tanto dinheiro.

A valorização de Depoitre, Transfermarkt
Quem não se lembra de Vossen, avançado belga que chegou a ser uma paixão de pré-época de adeptos do FC Porto? Vossen, em três épocas no Genk, fez 78 golos. O dobro dos que Depoitre marcou nos últimos 3 anos. Mais barato, mais experiente, mais qualidade, e que talvez seria mais útil ao FC Porto do que Depoitre. É certo que nenhuma estatística vai abonar a favor de Depoitre, que teve números modestos no Gent e começou a carreira profissional já tarde. Janko, por exemplo, tinha muito mais serviço mostrado e custou 3M€ no mercado de inverno (quando os preços estão mais inflacionados) de 2012 ao FC Porto. E teve logo colocação no fim da época, após ter ajudado a chegar ao título.

André Silva é um jogador que pode envolver-se na construção da equipa. Já Depoitre é um jogador que precisa que construam para ele. Fisicamente é forte, segura bem a bola, é bom de cabeça. Mas não lhe peçam para ganhar uma bola nas costas da defesa, para conduzir um contra-ataque, para se destacar no 1x1. Depoitre está lá para tentar encostar o que lhe derem. Mas isso não pode ser a mesma coisa que jogar exclusivamente para a pontaria de um ponta-de-lança, coisa que o FC Porto não faz desde os tempos de Jardel. Esse não será nunca o caminho.

E agora? Agora é esperar que as bolas cheguem a Depoitre e que chamar-lhe «tronco» seja uma coisa positiva.

PS: Post publicado antes do FC Porto informar que Depoitre não pode jogar o play off da Champions.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Três semanas depois

Três semanas após o último post, as contas do plantel do FC Porto só tiveram subtrações. Desde a confirmação da compra de Alex Telles, Nuno Espírito Santo tem passado as semanas e jogos de pré-época a riscar quem considera que não serve, quem realmente não serve, a treinar quem no dia seguinte poderá já não estar no clube e à espera de reforços seus.

Não surpreende, na medida em que era facílimo prever, através do orçamento projetado para a última época e do R&C do terceiro trimestre, que não haveria compras significativas no FC Porto enquanto não houvesse vendas (desde a saída de Alex Sandro que o FC Porto não gera uma mais-valia considerável). É normal que os adeptos questionem, então, como é que Alex Telles e Felipe chegam por mais de 12M€. Simples, negócios com condições específicas, só possíveis através de determinado parceiro. E esperamos que, com a chegada de Alex, a defesa do FC Porto não se torne numa escola de samba, como dizia Pedroto.

De certa forma, até também por ser tratar de uma operação ligada ao BMG (em forma nesta pré-temporada), fazem lembrar o caso de Otávio, um dos jogadores que mais têm agradado na pré-temporada. Otávio assinou contrato no final de agosto de 2014, mas no seu primeiro ano não custou um cêntimo ao FC Porto. Assinou não porque a SAD tivesse disponibilidade para investir no jogador naquele momento (até porque não era um pedido do treinador), mas porque permitia assegurar desde logo um miúdo com talento, sem grandes implicações financeiras no ano que se seguia (algo que por vezes pode correr mal, como foi o caso com Adrián López, mas estava em causa um valor bem mais reduzido), e negociando com parceiros habituais. 

Entretanto, no segundo trimestre de 2015-16, a SAD pagou os 2,5M€ (correspondentes a 33% do passe - a SAD tem agora 32,5%) ao Coimbra Esporte Clube, clube usado pelo BMG para transferir jogadores. Otávio não deixará nunca de ser um jogador caro (os 2,5M€ por 33% do passe não significam que o jogador estava avaliado em 7,5M€ - era ainda mais caro, pois a opção de compra de mais 35% do passe é de 5M€), mas foi um exemplo de um negócio sem custos imediatos, conseguido só através de determinada parceria.

Além de Felipe e Alex Telles, só Miguel Layún foi comprado para a nova época (João Carlos Teixeira, uma aposta interessante, chegou a custo zero e Zé Manuel, o dono da velocidade vertiginosa, foi uma contratação que só pode envergonhar quem o levou para o FC Porto). A opção de compra por Layún previa que o FC Porto teria que pagar 3M€ agora e mais 3M€ até o final de 2016-17. Valia bem o investimento, tendo em conta que o FC Porto já poderia ter lucrado com Layún (numa espécie de Iturbe-Hellas-Roma). Se não o fez, é porque tem bons planos para o jogador.

De resto, ainda não houve compras, mas houve saídas de jogadores que haviam sido anunciados como reforços. Depois de Rafa, foi a vez de Josué e Hernâni receberem guia de marcha, deixando assim Otávio como o único jogador prometido por Pinto da Costa que vai, de facto, integrar o plantel principal. E não deixa de ser (pausa para encontrar a palavra mais apropriada)... Discutível como é que, da equipa do FC Porto B que ganhou a Segunda Liga, não há nenhum jogador promovido definitivamente à equipa A (Chidozie e André Silva foram promovidos a meio da última época).
Contrato até 2019

Mas as dispensas mais recentes - Josué, Hernâni e Quintero - merecem uma análise mais profunda. Começando por Hernâni, jogador cuja contratação ao Guimarães foi na altura avaliada negativamente pel'O Tribunal do Dragão, por considerar que Hernâni estava para aquele Guimarães como Licá estava para o Estoril. Assim foi, sem surpresa, pois Hernâni nunca revelou ter caraterísticas para jogar no FC Porto, nem para valer o investimento de mais de 3M€. Há muitos portistas que tinham/têm algum apreço por Hernâni, mas talvez por de facto nunca ter tido assim tantas oportunidades. Ainda assim, não é surpresa nenhuma que esteja desde já condenado a empréstimos sucessivos. O FC Porto, em alguns casos, tem-se deixado entusiasmar muito por pouco com alguns jogadores em Guimarães. Assim foi com Tiago Rodrigues, assim foi com Hernâni. Que não se volte a cometer o mesmo erro já neste mercado.

Contrato até 2017
O caso de Josué também tem um desfecho previsível, mas por motivos diferentes. É um jogador com qualidade e caraterísticas que são úteis para ser ter num plantel. Mas o FC Porto decidiu prescindir dele, e após três empréstimos diferentes, Josué tem todo o direito de recusar um quarto. E fossem todos assim: não faz sentido o FC Porto andar a renovar sucessivamente com jogadores para os emprestar. Que haja mais Hugos Leais - após meio ano cedido à Académica, percebeu logo que não tinha futuro no FC Porto e quis sair, apesar de ter mais três anos de contrato. E a única coisa que pediu para rescindir foi três lugares no camarote, abdicando de todo o dinheiro que teria a receber. E seguiu o seu caminho. 

Veja-se o exemplo de Mikel, que já tem mais renovações de contrato do que jogos na equipa A. Ou Abdoulaye, que anda desde 2010 a ser emprestado e que voltou a renovar contrato para continuar a rodar por outros clubes. Lá para 2024 deve estar no ponto para resolver os problemas na defesa.

Josué está no seu direito de não querer renovar. Vai fazer 26 anos, já fez três empréstimos, já fez parte do plantel principal e, neste caso, ouviu da boca de Pinto da Costa que iria fazer parte do plantel. Quem tem que decidir quem faz parte do plantel é o treinador, não é o presidente, mas Josué cresceu num FC Porto em que a palavra de Pinto da Costa sempre foi sagrada e suprema. Se ouve o presidente garantir-lhe um lugar no plantel e acaba dispensado, é normal que não sinta motivação em renovar. Josué, provavelmente, nunca conheceu um FC Porto em que a palavra de Pinto da Costa não fosse cumprida. 

Se marcou na final da Taça, a culpa foi de quem o deixou ir para Braga, pois um jogador, quando está em campo, defende a camisola que tem vestida, não o clube que tem o seu passe. Josué poderia ser útil ao plantel, embora dificilmente tivesse espaço cativo na equipa titular. Resta tentar garantir o melhor encaixe possível com uma venda imediata - eventualmente garantindo uma parte significativa de uma futura transferência, pois é um jogador que se pode valorizar, e estando a um ano do final do contrato nenhum clube vai querer pagar muito por ele.

E com isto chegamos a Quintero, com vontade de bofetear uma cabeça que não faz jus aos pés que tem. Nuno Espírito Santo tentou, mas Quintero não quer saber. Sobra a questão: como é que, desde 2013, houve tanta incapacidade em antecipar que Quintero era um caso perdido e o porquê de tanto investimento progressivo num jogador que não correspondia?

Contrato até 2021
O caso mais preocupante já nem é a compra dos restantes 50% do passe, por 4,5M€, durante a curta (e única) boa sequência de jogos que Quintero fez com Lopetegui. O problema foi, em janeiro, renovar com Quintero por mais 4 anos, para ele logo depois ser afastado pelo Rennes. Foram cerca de 10M€ investidos num jogador sem retorno. E a renovação de contrato já não vai ao encontro da teoria da proteção do investimento, pois a SAD já pagou tudo o que tinha a pagar por Quintero. Concluir que Quintero não ia a lado nenhum era algo que deveria ter acontecido antes de se renovar por mais 4 anos e ter mais despesas com uma renovação de contrato, não depois de se ter reforçado, por duas vezes, o investimento nele.

E agora? O que se faz a um jogador com contrato por mais 5 anos que desperdiçou todas as oportunidades que lhe foram dadas no FC Porto? Dá para garantir royalties com todos os CDs de reggaeton que lançar até 2021? Já se recuperava uma parte do investimento. Neste caso, neste momento não resta mais do que tentar recuperar tanto quanto possível o investimento feito em Quintero. Até lá, metam-lo a dar voltas ao Olival e liguem o sistema de rega. Pode ser que a cabeça refresque.

Pergunta(s): Concordam com o afastamento de Quintero, Josué e Hernâni? Que temas gostariam de ver serem abordados nos próximos posts?

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Notas de pré-época

Bom teste de pré-época. Bom na medida em que expõe, desde logo, muitos erros a corrigir. E o tempo de errar e fazer experiências é este. Em 2014-15 Lopetegui dedicou-se quase sempre ao 4-3-3 na pré-época e depois sentiu-se a falta de um esquema alternativo mais rotinado. Hoje já começou a experimentar nesse sentido, mesmo sem grande sucesso.

Borussia 2x1 FC Porto
O Borussia está numa fase da pré-época muito mais adiantada, fez uma excelente Bundesliga, jogou em casa (o FC Porto só ganhou 3 de 15 jogos na Alemanha), o fator físico é muito decisivo nesta fase e o próprio FC Porto tem rotinas físicas, táticas e técnicas a melhorar. Vai levar o seu tempo, como é natural. Mas há desde já notas a reter.

Se Lopetegui quer jogar com quatro médios, então que jogue com quatro médios. Óliver é um jogador não só inteligentíssimo como ágil e tecnicista, que lhe permitia estar entre o papel de quarto médio e terceiro avançado. Evandro não. A ideia de colocar Evandro nesse papel não parece promissora. Se Lopetegui quer jogar com quatro médios, então que jogue com quatro médios, não com algo que não é bem extremo, não é bem médio, e que nem sequer potencia o melhor que o jogador nessa posição tem.

Por outro lado, há a rever a falta de criativos. Quintero foi dado como dispensável e para emprestar a um clube europeu estrangeiro, Óliver saiu e entre os reforços não há propriamente nenhum médio criativo. Criativo na medida em que seja capaz de desequilibrar sozinho, de tirar um ou dois adversários da frente, e não apenas de fazer o último passe e de prolongar a circulação. O mais próximo disso seria Bueno, mas sente-se que ainda falta algo ali no miolo. Algo a preencher.

O FC Porto teve uma falta de criatividade evidente na zona central. Não havia capacidade para um jogador arriscar, criar espaço, ser mais vertical. Se não houver essa capacidade, a equipa perde-se num futebol Defouriano, de constantes trocas de bola para trás e para o lado, à espera que algo apareça. Tello era o único com velocidade para rasgar na primeira parte, mas o Borussia jogou com a linha defensiva recuada e esteve sempre à espera do erro do adversário. Dois erros, dois golos (Casillas tem que melhorar na rapidez a reagir às bolas rasteiras). 

De positivo, sobretudo, Aboubakar. Sempre a pressionar, sempre a dar apoio aos médios, a recuar para dar linha de passe e segurar a bola, e ele próprio a tentar desequilibrar e arriscar. Muito bem. Pode é haver o problema que havia com Jackson: Lopetegui pede tanto ao 9 que recue e dê apoio ao meio-campo que, depois, ou a equipa desacelera ou impõe velocidade e arrisca-se depois a não ter ninguém na grande área. Há que gerir bem o esforço do 9 e do médio mais adiantado.

Outra boa notícia é, sem surpresa, Varela. Joga como um miúdo de 20 anos que luta pela oportunidade de uma vida e que tem algo a provar. Não inventa. Recebe, define, executa. Drible fácil, cruzamento prático. Não tenho dúvidas de que estará em quase todos os jogos com Lopetegui. E se estiver sempre com esta atitude e objetividade, melhor.

Lopetegui procurou mais criatividade na segunda parte, mas aí faltava capacidade física. Brahimi não estava bem, e para poder jogar em profundidade é essencial que os jogadores estejam já numa boa condição. Assim é natural que se tenha priveligiado mais a circulação e o futebol apoiado. Mas não há que enganar, assim teremos dificuldades contra os autocarros da primeira liga. Que tal um 4x4x2 que não pensa em quatro médios, mas sim em quatro avançados?

Marcano também esteve a um nível bastante bom, sobretudo físico. Já Maicon vai para 7ª época a querer complicar o que deve facilitar e a insistir em charutadas que são repetidas demasiadas vezes para não serem, também elas, um pedido do treinador. Não faz sentido expor tanto um central ao início de construção tendo bons médios na saída de bola. Simplifica, Maicon. Já José Ángel tem que perder o vício de se enrolar e andar à volta da bola. Ou passa ou progride. O seu ponto fraco é a cobertura. Por isso, quanto mais tempo mantiver a bola, sobretudo na zona recuada, pior. Se Alex Sandro sair haverá um novo lateral, mas quem fica no plantel tem sempre que dar garantias como alternativa.

Tempo de corrigir os erros. Quantos mais houver nesta fase, melhor. Pré-épocas cor-de-rosa podem disfarçar muita coisa. Assim, como diz Lopetegui, sabemos o que precisamos. E não basta ter soluções no plantel: é preciso soluções dentro de campo. Segunda-feira será melhor. Daqui a três semanas terá que ser bom.