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domingo, 3 de junho de 2018

O ponta-de-lança invisível

Por motivos já por demais conhecidos, o Marítimo x Benfica de 2015-16 tornou-se o jogo mais comentado do momento. A reportagem da SIC, com testemunhos em discurso direto sobre as abordagens/subornos que foram apresentados a jogadores do Marítimo antes da partida, é matéria sólida nas suspeitas face à forma como o Benfica construiu e concluiu o seu ciclo de tetracampeão. Muito se tem comentado sobre este caso, mas houve uma pequena discussão que merece particular atenção.

Protagonistas: Manuel Queiroz e Rui Pedro Brás. O primeiro começou por referir que achou estranho que Fransérgio tivesse jogado a ponta-de-lança frente ao Benfica. Rui Pedro Brás mostrou-se prontamente indignado, acusando-o de estar a «insinuar qualquer coisa».


O programa avançou e, mais de 15 minutos depois, Rui Pedro Brás voltou ao tema e afirmou que o ponta-de-lança do Marítimo frente ao Benfica foi Djoussé, acusando o colega de painel de querer enganar os telespectadores e defendendo aguerridamente o clube da Luz.

Pois bem. Afinal, quem foi o ponta-de-lança frente ao Benfica? Fransérgio ou Djoussé? A resposta é... nenhum. Recuamos a 2015-16 e vamos observar as áreas de ação dos dois jogadores do Marítimo frente ao Benfica.


Primeiras impressões? Nem um, nem outro jogaram perto do eixo do ataque do Marítimo. Fransérgio jogou sobretudo atrás da linha de meio-campo do Marítimo, com algumas aproximações ao meio-campo adversário pela meia direita (a ação na grande área trata-se do posicionamento nas bolas paradas). No caso de Djoussé, jogou claramente encostado ao flanco direito.

Nem Fransérgio, nem Djoussé. E como curiosidade, vamos ver o posicionamento de outras unidades do Marítimo do meio-campo para a frente.



Que conclusões podemos tirar? O Marítimo não teve um único jogador que se aproximasse do eixo defensivo do Benfica. Zero. Nada parecido com um ponta-de-lança, nada parecido com um avançado. Não houve um único jogador que encostasse perto de Jardel ou Lindelof. Todo o espaço à entrada da grande área do Benfica não existiu para o Marítimo, que fez apenas um remate enquadrado durante todo o jogo.

O posicionamento de Damien é claro: jogou como médio-defensivo e praticamente não passou da linha do meio-campo. Éber Bessa também teve uma exibição com grande raio de ação no meio-campo. Mas depois observamos as zonas de ação de Alex Soares e Edgar Costa e ficamos com a impressão de que estiveram em campo 6 ou 7 minutos e foram ao banho. 

63 minutos de Alex Soares
A exibição de Alex Soares, que já veio a público afirmar que o Benfica ganhou com justiça e que o Marítimo não fez o suficiente para vencer, foi qualquer coisa de atípico. Em 63 minutos em campo, a sua presença foi praticamente inofensiva. Acertou 5 passes enquanto esteve em campo, só foi a uma bola dividida (estamos a falar do meio-campo, do centro do terreno, onde à partida há mais ação) e, como dá para avaliar pelo heat map, jogou com uma falta de intensidade notória.

Depois temos Edgar Costa, jogador que é representado pela GIC England (empresa que tem como CEO César Boaventura), que jogou pelo lado esquerdo. E repare-se desde logo que o Marítimo não jogou com ponta-de-lança, não jogou com ninguém no eixo central. Quando isso acontece, não é natural os extremos fazerem movimentos interiores e irem eles à grande área? Não é isso que o posicionamento de Edgar Costa e Djoussé sugere. Temos dois extremos que não puxam para dentro e que, se forem à linha, não têm ninguém na grande área para cruzar, pois o Marítimo não avançava no terreno, mesmo em superioridade numérica.

É deveras atípico, restando saber se foi ideia dos jogadores, má execução tática ou simplesmente o plano de Nelo Vingada, um treinador com décadas de futebol português e que, certamente, não terá prazer nenhum em acompanhar as investigações ao desfecho desta partida. Até porque já viu o seu nome ser associado à rede de manipulação de resultados que envolveu o Atlético e cujo relatório da Federbet foi publicado há um ano.

Curiosamente, esta semana Alex Soares comentou, em declarações ao jornal Record, o momento em que o Benfica fez o 1x0, por Mitroglou, no arranque da segunda parte.


Não sabemos se foi iniciativa de Alex Soares comentar este lance ou se se limitou a responder a uma questão da imprensa, mas é deveras curioso que fale do sucedido. E parece que o posicionamento dos jogadores do Marítimo causou mesmo muita confusão pela imprensa desportiva, pois o Record até diz que Alex Soares é «defesa». Dito isto, importa passar um olhar ao lance do 1x0. Resumo completo do jogo aqui.

Mitroglou foge a Patrick; Alex Soares corta a bola e isola o grego
O que aconteceu? Há uma primeira tentativa de remate de Mitroglou. A bola bate em Patrick e sobra para a entrada da grande área, onde apareceu André Almeida. É aqui que aparece Alex Soares, que vai à disputa de bola e acaba por ser o jogador do Marítimo, com um ligeiro toque, a colocar Mitroglou na cara do golo. 

Mas houve mais detalhes neste lance. Primeiro, Patrick faz o corte. A bola sobra para o ressalto. Mitroglou foge para o lado esquerdo e Patrick, ao invés de acompanhar o grego, vai para dentro e aproxima-se da zona de disputa da bola, embora veja que Mitroglou vai ficar isolado. Quem sobra? Edgar Costa. O extremo é um autêntico espectador em todo o lance. Vê que Mitroglou vai isolar-se entre ele e a linha defensiva do Marítimo, mas não se mexe até Mitroglou fazer o golo.

Edgar Costa, afastado do lance, vê Mitroglou a entrar pela esquerda
Como é claro, ninguém pode acusar os jogadores do Marítimo de errarem deliberadamente neste lance, pois estamos a falar de apenas um dos 63 golos que sofreram ao longo da época. Certamente que sofreram golos mais estranhos que este, com fífias maiores. Mas o jogo sobre o qual recaem suspeitas é este. Logo, há que ouvir a defesa dos intervenientes e apurar todas as circunstâncias. Ninguém está a dizer que erraram de propósito, mas num jogo em que há suspeitas de corrupção, são os próprios jogadores que terão interesse em virem a público defender a sua inocência e bom nome.

Mas recordemos o testemunho de um jogador do Marítimo na SIC, quando este afirmou que o Benfica lhe apresentaria um contrato vantajoso caso o jogo corresse bem. Sejamos francos. Como é que o Benfica justificaria esse tipo de negócio? Como é que se compra um jogador que podia até nem ser dos melhores do Marítimo? Não faria sentido nenhum comprar um atleta assim. Mas talvez não fosse preciso comprar.

Para todos os efeitos, houve um ex-jogador do Marítimo que assinou posteriormente pelo Benfica. Mas não foi comprado: foi contratado em final de contrato. Precisamente Patrick, um dos jogadores que surge associado às investigações da PJ face aos atletas do Marítimo que terão sido contactados por César Boaventura.


O Benfica nem se deu ao trabalho de apresentar Patrick aos associados, pois o brasileiro seguiu por empréstimo para o Vitória de Setúbal. Na lista de intermediários publicada pela FPF, é informado que a chegada de Patrick ao Benfica foi feita por intermédio de uma empresa chamada «FOOTBALL ASSESSORIA SERVIÇOS DESPORTIVOS, LDA». Não foi possível encontrar nenhum tipo de informação disponível online com uma empresa com este nome. É primeira vez que aparece no papel de intermediária nas listas publicadas pela FPF.

Mas o mais curioso é ler este trecho do jornal brasileiro Gazeta Online, que fala em duas empresas intermediárias completamente diferentes. O que levanta a questão: que empresa é esta, a Football Assessoria Serviços Desportivos, de nome tão genérico e sobre a qual não há informações online? Terá sido uma empresa criada com o propósito de meter Patrick no Benfica? Ou são tão low profile que nem disponibilizam informação online?


Voltando ao princípio. Fransérgio. Acabou por ser expulso já perto do final, por acumulação de cartões, na tal exibição em que o suposto ponta-de-lança jogou a maioria do tempo atrás da linha de meio-campo. Mas aparentemente o Benfica gostou da exibição, a avaliar por esta capa do jornal Record...

Falta saber do que gostou mais do Benfica: se do rendimento de unidades como Patrick ou Fransérgio, ou da grande exibição do ponta-de-lança invisível. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Deixa-me só dar um jeitinho à casa

Já lá vão uns bons meses desde que Francisco Marques começou a divulgar e-mails de conteúdo comprometedor a envolver o Benfica, a arbitragem e os bastidores do futebol português. Até à data, as consequências práticas das divulgações semanais foram zero. Nada mudou, não houve punições, o Benfica segue impune. A única valia, até à data, foi a exposição do modus operandi que fez do Benfica tetracampeão e um eventual condicionamento para as épocas que se seguem.

Desde então, todos os que pretendem esclarecimentos sobre este caso - o FC Porto nunca acusou diretamente o Benfica de corrupção; o que fez foi expor matéria e apelar a sucessivas investigações - aguardam tomadas de posição públicas por parte das instâncias competentes. Passaram-se semanas sem haver uma única busca por parte da Polícia Judiciária. 

No verão, o MP e a PJ terão tentado levar a cabo buscas ao Benfica, mas o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa não cedeu as procurações. E segundo a revista Sábado, tal foi obra do juiz Jorge Marques Antunes, no seu último dia de serviço na instrução criminal, antes de ser transferido para outro tribunal. Foi o único esboço de uma tentativa de uma busca ao Benfica nos últimos meses.

Até que segunda-feira, no início desta semana, tivemos a confirmação de que as buscas ao Estádio da Luz estavam para breve. Como? Através desta declaração de João Correia, porta-voz da equipa de advogados do Benfica.

É absolutamente essencial que o Ministério Público e a Polícia Judiciária venham aqui a esta casa e verifiquem se aquilo que é divulgado pelo Porto Canal corresponde ou não à realidade.” Frase publicada no site oficial do Benfica há três dias. 


Portanto. Estão há meses, na praça pública, conteúdos que urgem ser alvo de investigação. E por milagre das coincidências, só hoje, três dias após este comunicado do Benfica, é que a PJ se apresenta no Estádio da Luz para começar a fazer buscas no caso dos e-mails!?

Isto faz lembrar aquela dona de casa muito preocupada com a forma como vai receber os convidados, que pede ao marido para empatar um pouco as visitas no hall de entrada enquanto dá um último jeitinho à sala. Então, enfim, tem a certeza que a sala está um brinquinho, pronta para receber as pessoas.

Como é claro, a partir do momento em que o Benfica incentiva a PJ a comparecer no Estádio da Luz, já tem a garantia de que a sala está bem arrumadinha. A PJ não vai encontrar absolutamente nada. Já estão a ver onde isto vai redondar: caso arquivado por falta de provas nas buscas. 

Isto faz lembrar todo o caso dos vouchers, em que também havia matéria para punir o Benfica por práticas ilícitas, em todo o dossier da Liga Aliança

Bruno de Carvalho revelou, no início de outubro de 2015, as ofertas ilegais que o Benfica fazia a equipas de arbitragem de todos os seus jogos. Só um ano depois é que foram feitas buscas no Estádio da Luz. Um ano depois! E qual foi a reação do Benfica a essas buscas? O Benfica emitiu um comunicado a afirmar que foi a própria SAD a convidar a PJ a fazer buscas na Luz. 

Ora, precisamente o mesmo que acontece agora no caso dos e-mails. Não é surpresa que, poucas horas após as buscas da PJ, o Benfica já tenha emitido um comunicado a realçar que foi o próprio clube a apelar à investigação: «Desde o primeiro momento [o Benfica] requereu e disponibilizou-se a fornecer toda a informação necessária a um cabal esclarecimento de toda esta situação». A papel químico. 

Este passo faz parte da lavagem já orquestrada e cujo desfecho já se antevê. A PJ não vai encontrar provas. Os cartilheiros virão a público, de peito cheio, afirmar que não houve provas nenhumas, que o clube colaborou com a investigação, que abriu a sua casa e que ninguém conseguiu encontrar nada. Tudo isto até ao passo final: caso arquivado. 

O FC Porto prometeu, no final de julho, que «o melhor ainda está para vir». É caso para se prepararem para expor «o melhor», porque se depender destas buscas da PJ, o Benfica sairá do caso dos e-mails da mesma forma que saiu dos vouchers: a rir-se e de forma livre e impune. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Não é preciso mais nada

Como unha e carne. O ponto 3 do artigo 61º já desmantela a teoria de que possa haver Pedro Guerra sem Benfica. Não pode. O regulamento disciplinar da FPF é muito claro e refere-se a «dirigentes, representantes e colaboradores». Logo, quando o próprio Pedro Guerra se enuncia como um mero «colaborador» do Benfica, já está a dar reconhecimento suficiente para que o clube seja julgado pelas suas ações.


E face às últimas revelações no Porto Canal, vimos que Adão Mendes, vice-presidente da AF Braga - membro da APAF -, apelou ao administrador do Benfica Paulo Gonçalves para que a nota de Manuel Mota fosse «positiva», depois de um Marítimo-Vit. Guimarães. 

Porquê este interesse em que Manuel Mota tivesse nota positiva num Marítimo-Vit. Guimarães, um jogo que não interferia com os objetivos do Benfica? Porque no jogo seguinte que apitou na I Liga, Manuel Mota foi chamado precisamente a arbitrar o Benfica-Rio Ave

Ora, poderia ser difícil que Manuel Mota fosse chamado a arbitrar um jogo de um candidato ao título tendo nota negativa num Marítimo-Vit. Guimarães. Mas Manuel Mota lá foi nomeado para o Benfica-Rio Ave. Lembram-se do que aconteceu nesse jogo?

Podemos começar por lembrar que Roderick, ex-Benfica, não foi convocado para esse jogo, por alegados problemas físicos. Certo é que 3 dias depois foi chamado para jogar na Liga Europa e que agora foi transferido para o Wolves, uma das lavandarias, perdão, clubes geridos por Jorge Mendes. 

O Benfica venceu esse jogo por 1-0, golo de Talisca, aos 60 minutos. Golo esse que não deveria ter acontecido, pois foi precedido de uma falta por marcar de Maxi Pereira. E oito minutos depois, aconteceu isto:


Esmael Gonçalves acabou por introduzir a bola na baliza e fazer aquele que poderia ter sido o 1x1 final. Porquê tanto interesse em que Manuel Mota tivesse nota positiva? Pois assim a sua nomeação para o Benfica-Rio Ave não seria comprometia por uma má prestação numa jornada anterior. E todos constataram a imensa felicidade e circunstâncias que levaram o Benfica a esta vitória sobre o Rio Ave. 

Há também a assinalar o interesse em que Manuel Mota tivesse uma boa classificação. Afinal, não sendo Manuel Mota internacional, segundo os regulamentos só seria recomendável para arbitrar jogos de grande dificuldade se ficasse no top 12 da classificação dos árbitros. E ficou, numa posição confortável mas numa classificação particularmente renhida - bastava ter menos 0,035 pontos e Manuel Mota ficaria abaixo da classificação necessária. 

Perante estas circunstâncias e o pedido para que Manuel Mota tivesse nota positiva, vemos uma infração do ponto 1 do artigo 61º, que proíbe «comportamento ou decisão destinados a modificar ou falsear a veracidade e a autenticidade de documentos, procedimentos ou deliberações». Neste caso, a modificar a nota atribuída a um árbitro que estava na lista dos meninos queridos do Benfica.

Não é preciso mais nada para que o Benfica seja punido à luz destas normas. Apenas que os regulamentos e respetivas punições sejam aplicados. 

AGORA PARTILHEM TUDO. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O árbitro vermelho

Adão Mendes é mais conhecido pelas funções que desempenhou na União de Sindicatos de Braga do que propriamente pela sua carreira como árbitro de futebol. No entanto, no meio tinha uma alcunha particularmente curiosa. Assim o recorda o Correio do Minho.

«No mundo da arbitragem era apelidado de 'árbitro vermelho' tendo em conta a sua filiação partidária», assim o recordam. Mas afinal, parece que a alcunha de «árbitro vermelho» se justificava por algo mais do que a sua filiação partidária.

O FC Porto não usou cartilhas, indiretas ou suspeitas: apresentou provas, factos, que atestam a forma como o Benfica controla a arbitragem. Este «esquema de corrupção para favorecer o Benfica» remonta à época 2013-14, precisamente a primeira do ciclo do tetra do Benfica e logo após o último título do FC Porto. Coincidência? Cabe ao Ministério Público apurar. 

É impossível ignorar, tanto quanto ver um golo marcado com a mão através do vídeo-árbitro. Os e-mails estão aqui como estiveram as escutas do Apito Dourado (processo de existência de corrupção no futebol português que apanhou, entre outros, Luís Filipe Vieira em escutas) no Youtube. O FC Porto foi julgado nas (in)devidas instâncias, mesmo pagando o preço de Portugal terminar em Leiria, e conseguiram associar uma imagem de 30 anos de corrupção ao FC Porto por culpa de dois jogos contra dois clubes simpáticos - Beira-Mar e Estrela de Amadora -, que já nem se encontram no mapa de futebol profissional em Portugal. E, diga-se, dois jogos dos quais o FC Porto nem precisava para ser campeão em 2003-04. Só conseguiram encontrar isso? A sério?

Agora, investiguem, enquanto se aplaude a posição do FC Porto, pela voz de Francisco J. Marques, de expor a teia de corrupção com factos e voz viva. Quando os interesses comungam na defesa do FC Porto e no combate aos adversários, não pode haver outra posição possível.

É de recordar, curiosamente, a posição do então diretor de comunicação do Benfica, João Gabriel, quando Marco Ferreira deu uma entrevista ao As em que falou da forma como Vítor Pereira protegia o clube da Luz. «Um frete do As ao amigo basco», chamou-lhe João Gabriel.

Então e agora? Será que esta também é um frete ao amigo basco? Não. É apenas a forma como o tetracampeonato do Benfica está a ser visto lá fora. Sujinho, sujinho, sujinho. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Lanterna e poste de iluminação

Sim, isto aconteceu. «Quem não salta é lapião». É isto que está escrito na base de um dos castigos aplicados ao FC Porto no jogo frente ao Nacional, devido a cânticos de parte dos adeptos. 


«Quem não salta é lapião». Uma expressão muito curiosa no relatório à responsabilidade de António Soares e Álvaro Maia, os delegados escolhidos para o FC Porto x Nacional. Afinal de contas, o que significa «lapião»? Que palavra é essa tão grave que justifica uma menção no relatório?

Abrimos o dicionário... e nada. A palavra «lapião» não existe. No entanto, o FC Porto foi multado por parte dos seus adeptos, aparentemente, ter gritado que «e quem não salta é lapião».

Isto já é motivo suficiente para o FC Porto se recusar a aceitar este castigo, pois o Conselho de Disciplina nem sequer é competente o suficiente para citar uma palavra corretamente num relatório. Mas vá, admita-se que o que estava em causa era a expressão «e quem não salta é lampião».

Mas nesse caso, o que significa ao certo «lampião»?


Algo está aqui a faltar nos dicionários Porto Editora. Vejamos. «Quem não salta é uma lanterna», é ofensivo? «Quem não salta é um poste de iluminação pública», é pejorativo? Onde está exatamente a ofensa em «lampião»? Cabe a quem escreveu o relatório e quem atribuiu um castigo ao FC Porto com base nele o esclarecer.

Sim, nas trocas de bocas entre adeptos, os benfiquistas são tratados muitas vezes por lampiões, e os portistas por tripeiros. Nesse caso, se «lampião» é uma palavra que motiva um castigo, onde está o castigo aplicado ao Benfica quando os adeptos, em pleno jogo, decidiram cantar «tripeiro, cabrão»?


Relativamente à segunda expressão que é invocada, o «filhos da puta SLB». Por mais absurdo que seja os adeptos do FC Porto estarem a pensar no Benfica quando a sua equipa está a golear o Nacional (o tempo é sempre mais bem aplicado em apoio à equipa do que em ofensa ao adversário - sobretudo ao adversário que nem sequer está em campo), onde esteve a coerência do Conselho de Disciplina durante o último Benfica x FC Porto?


Antes de cada pontapé de baliza, os adeptos do Benfica gritaram «filho da puta» dirigido a Iker Casillas, guarda-redes do FC Porto. Houve menção disso no relatório de jogo? Houve castigo com base na mesma ofensa? Ou o tratamento é diferente entre os adeptos do FC Porto e do Benfica?

Antes de pagar qualquer tipo de multa, o FC Porto só tem que invocar estas questões e precedentes. E a Porto Editora tem que atualizar o seu dicionário. 

PS: Uma vez mais, o FC Porto volta a receber multas por culpa dos petardos nas bancadas. Ou a(s) claque(s) assume(m), de vez, o fim desta brincadeira que no final da época custa dezenas de milhares de euros ao clube, ou então talvez seja boa ideia o FC Porto começar a apresentar essas faturas aos responsáveis pelo lançamento de petardos. Não digam que não é possível organizar uma coreografia ou falanges de apoio expressivas e pujantes o suficiente sem petardos. Se não é, nesse caso, o FC Porto já sabe a quem tem que apresentar as próximas faturas pelo lançamento de material pirotécnico. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Tondela não merecia isto

As críticas foram bem audíveis nos últimos dias. E trata-se, de facto, de uma grande injustiça. O Tondela, na visita ao estádio de um grande do futebol português, perdeu por 4-0. Mas o problema não esteve apenas no resultado final, mas em dois lances nos quais o Tondela foi claramente prejudicado.

Falamos de um penalty e de uma expulsão, imerecidas e injustificadas, que acabaram por prejudicar o Tondela no jogo em causa. Jogar no estádio de um grande do futebol português já é, por si só, complicado. Mas quando a equipa da casa beneficia de um penalty mal assinalado, e vê um jogador do Tondela ser mal expulso, só se pode lamentar o tratamento de que o Tondela foi alvo.

Passando às imagens, o lance em causa é este:


Neste lance, André Almeida não sofre qualquer falta de Pica na grande área. Não havia grande penalidade a favorecer o Benfica, nem o Tondela ficaria sem um dos seus defesas. O Benfica acabou por vencer por 4-0. Venceria de qualquer maneira? Certamente. Mas custa sempre ver um clube modesto, como o Tondela, ser assim prejudicado pela arbitragem em casa de um grande. Felizmente, Gilberto Coimbra, presidente do Tondela, reagiu de pronto a esta injustiça...

Hmm, afinal não. Criticou o Sporting e o Jorge Jesus depois de ir a Alvalade e queixou-se imenso da arbitragem agora que o Tondela perdeu com o FC Porto, também por 4-0. Contra o Benfica, por incrível que possa parecer, Gilberto Coimbra não se lembrou de condenar a arbitragem.

De certeza que não terá nada a ver com isto.


No que diz respeito ao FC Porto, uma vitória sem sobressaltos, ainda que não há-de ser sempre que, no espaço de 3 minutos, a equipa beneficie de um penalty e uma expulsão, momentos que certamente ajudaram a que, na segunda parte, o 4x0 até tenha sido pouco para todas as ocasiões que a equipa construiu. 

53 pontos em 22 jornadas, um saldo bastante positivo e acima das expetativas, sobretudo tendo em conta que, nas últimas 12 épocas, só por 3 vezes o FC Porto tinha mais pontos nesta fase: no segundo ano com Jesualdo Ferreira, na época com Villas-Boas e na segunda época com Vítor Pereira. Três épocas que acabaram em festa nos Aliados. Se há momento para acreditar é este, independentemente do que se passar na eliminatória com a Juventus.




Rúben Neves (+) - Tem que haver algo de extraordinário para Rúben Neves não ser titular no FC Porto. E há: chama-se Danilo Pereira, imprescindível pelo que acrescenta à equipa. Mas Rúben Neves tem a capacidade de dar ao meio-campo do FC Porto uma qualidade de circulação de bola, de amplitude de jogo e de cabecinha a construir (sem Óliver em campo, a sua importância neste aspeto foi ainda maior) incomuns.

Um exemplo. Nos últimos 4 jogos, Danilo Pereira fez 36 passes no meio-campo adversário. Rúben Neves, que joga na mesma posição, fez mais contra o Tondela. 

Rúben Neves vs. Tondela
São jogadores de caraterísticas muito diferentes, o que ajuda a explicar a diferença. Mas Rúben Neves tem essa capacidade: de empurrar a equipa para os últimos 45 metros. O facto do Tondela ter jogado com 10, e ter deixado de pressionar tanto, ajudou a essa subida, claramente, mas é uma capacidade intrínseca no futebol de Rúben Neves: obriga todas as linhas a subir, pela forma como circula a bola. Defensivamente, também não esteve longe do rendimento habitual de Danilo, com 19 ações defensivas, entre recuperações, desarmes e intercepções. O único problema de Rúben é este: só podem jogar 11 de cada vez. Mas pode ter o que nem todos tiveram: muitos anos de FC Porto pela frente.


André André (+) - O seu melhor jogo esta época. Esteve literalmente por todo o lado, impecável no passe (93%), recuperou várias vezes a posse no meio-campo adversário e manteve, em sintonia com Rúben Neves, a equipa equilibrada no meio-campo na transição defensiva. Uma exibição a fazer lembrar o seu grande momento de forma em outubro/novembro de 2015, tamanho que foi o pulmão que foi capaz de mostrar em campo.

André André vs. Tondela
A capacidade de criar (+) - Sim, jogar em superioridade numérica, contra uma das equipas com maiores fragilidades do campeonato, ajuda. Mas foi um dos jogos em que o FC Porto mais capacidade teve de levar a bola a zonas de finalização. Foram efetuados 18 passes que deixaram um colega em situação privilegiada para atirar à baliza e fazer jogo. Foi o recorde desta época, também com grande destaque para o número de entradas na grande área do Tondela (51). Dos 24 remates, 15 foram feitos dentro da grande área do Tondela, o que mostra a facilidade para criar situações de finalização. Além disso, foram efetuados 33 cruzamentos, ainda que desses só 8 tenham tido seguimento direto na grande área. Quando se cria oportunidades desta forma, ninguém terminará o jogo a lamentar a ineficácia: no meio de tantos lances, pelo menos um há-de entrar.

Outros destaques (+) - Mais dois golos para a dupla André Silva/Soares, a revelar um bom entendimento - Soares mais fixo no eixo central, André Silva sempre mais recuado e a cair muitas vezes nas faixas. O golo de Soares foi uma delícia de finalização, a colocar a bola onde quis. Já leva 4 jogos em 3 jogos, uma excelente média - os «dois pares de golos» que se pediam para ajudar o FC Porto na luta pelo título podem já estar feitos -, embora haja ainda muita coisa para melhorar quando é forçado a ir para o 1x1 (foi o único, a par de Rúben Neves, que não fez nenhum drible - não que tenha precisado para marcar) e na forma como tem que perceber as movimentações dos colegas (algo que o levou a ser o jogador com mais perdas de bola em campo). 

Há ainda a destacar que, dos 10 remates que André Silva e Soares fizeram, nove foram efetuados dentro da grande área. Ou seja, a bola está a chegar à grande área e aos pontas-de-lança. Quando assim é, tudo é mais fácil. Palavra ainda para um bom jogo de Corona.




A rever (-) - Os golos e a superioridade numérica na segunda parte ajudam a que isso se «esqueça», mas no primeiro tempo foi nítido, uma vez mais, o fosso que é criado entre o meio-campo e a linha avançada. Faltava muitas vezes alguém para ir receber a bola entre linhas e uma referência no eixo central. André André tinha limites para subir, pois só sobraria Rúben Neves no meio-campo, e Otávio aparecia poucas vezes em zonas interiores. Jogar com apenas dois médios obriga a uma disciplina e versatilidade na dinâmica da equipa que o FC Porto, com estas unidades, ainda não revelou da forma desejada. Isto provocou, algumas vezes, um desequilíbrio na zona central, algo que poderia ter sido muito perigoso - aos 30 minutos já tínhamos os centrais e o médio defensivo amarelados.

Quando se criam muitas oportunidades, a bola acaba por entrar. Mas a forma como foram desperdiçadas várias ocasiões, com André Silva, Soares e Otávio à cabeça, não é coisa para se repetir. Foram ocasiões que, falhadas noutro jogo qualquer, poderiam ter custado caro. Como por exemplo contra a Juventus.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Despenalização

«Em Inglaterra, quando um jogador é mal expulso é-lhe retirada a punição. No nosso jogo contra o Moreirense, foi mal expulso um jogador nosso e não lhe retiraram o cartão».

Nuno Espírito Santo, 06/01/2017

O texto de hoje do Dragões Diário, nomeadamente o primeiro parágrafo, foi tão pertinente e incisivo que dispensa que se lhe acrescente algo. Fosse, seja, sempre assim. Era preciso cultivar a ideia de que Danilo Pereira foi expulso por insultos ao árbitro. E se a FPF foi cúmplice nisso, o FC Porto só tem que agir para apurar consequências e responsabilidades. A Assembleia Geral da FPF tem mais de 80 delegados. Dêem-lhes que fazer. 

Nuno Espírito Santo notou, e bem, que Danilo Pereira não viu o seu cartão amarelo ser retirado, algo que provavelmente aconteceria em Inglaterra. Mas a verdade é que Portugal tem precedentes de despenalização de cartões.

Hoje como há 15 anos atrás, há coisas que não mudam. Vamos recordar o FC Porto x Benfica de 2001-02. Reviravolta, golos de Deco, Alenichev e Capucho (chapéu!), grande jogo. Se o Benfica ganhasse, passava à frente do FC Porto. Como perdeu, ficou a 3 pontos e mais perto do 5º lugar do que do 3º. Não era o tempo de ficarem sem o seu melhor jogador. Então o que acontece? O insuspeito Record traz o relato de então, com Simão Sabrosa a ser despenalizado de um cartão amarelo.


O precedente já tinha sido aberto antes, também a envolver o Benfica, e também a envolver o FC Porto. Neste caso, com Poborsky, que foi castigado com um cartão amarelo depois de ter simulado uma falta para penalty - Vítor Baía não lhe tocou, mas Nuno Gomes fez justiça ao falhar o penalty. Acontece que o CJ da FPF decidiu depois retirar o cartão amarelo a Poborsky.

Certo. Reformularam-se os organismos, mudaram as pessoas, mas o denominador em comum mantém-se. Não é que o FC Porto seja sempre o lesado. Por exemplo, Cabral viu vermelho direto num Braga x Benfica. Que aconteceu? O cartão vermelho foi-lhe retirado e na jornada seguinte já estava a jogar na Luz.

Os tempos até eram dourados para o FC Porto, que era pentacampeão, mas nem isso parecia ajudar o clube junto do CJ da FPF. Nem José Guilherme Aguiar, pois o FC Porto tentou uma despenalização de Jardel contra o mesmo SC Braga, por má amostragem de um cartão amarelo que resultou numa expulsão, mas o jogador não foi despenalizado. 

Também houve precedentes? Houve. Costinha e McCarthy já viram ser retirados cartões que tinham sido mostrados erradamente. Então, é caso para questionar: por que é que agora Danilo não teve o mesmo direito? Vamos supor que foi, como a FPF quis cultivar, por insultos ao árbitro. Então, vamos novamente calcular os precedentes.

Quando Rui Vitória, no Marítimo x Benfica, mandou Vasco Santos para o Ricardo Carvalho sem prenome e sem V (algo que as imagens televisivas mostraram, ao contrário de qualquer tipo de insulto por parte de Danilo), que aconteceu? Nada, só um calorzinho na orelha. 


Mas isto na Luz faz escola. Reparem na naturalidade com que Pizzi, porventura o melhor jogador do Benfica nesta fase, admitiu no 15º Encontro Nacional de Jovens Árbitros (uma vez mais, a proximidade entre clube e arbitragem sobressai) que insulta árbitros. «Já chamei nomes, já disse várias coisas que não se podem dizer aqui». Não deve haver nenhum jogador que nunca tenha soltado uma palavrinha para a mãe de um árbitro. O problema é a diferença de tratamento e os precedentes que só vão servindo o Benfica. 

Porque não foi Danilo despenalizado? Que responda a FPF. E se é tão claro que Danilo foi expulso por protestos, então qual o motivo para não o terem afirmado publicamente, protegendo assim o seu árbitro e evitando serem alvo de chacota em todo o mundo pela expulsão mais ridícula de sempre? Pois.

Numa jornada em que o Benfica vai a Guimarães, o FC Porto a Paços de Ferreira e ao primeiro deslize do rival podemos passar a depender de nós próprios na luta pelo título, todo o cuidado é pouco. 

PS: À saída do supermercado, ao fazer marcha atrás, não vi uma velhinha que estava sossegada na berma da estrada e passei-lhe por cima. Seguindo os ensinamentos da escola Luís Godinho, vou processar a malandra por se ter metido à frente - neste caso atrás - e agredido a minha viatura. A não ser que alguém se lembre de distribuir mails a denunciar que a velhota me insultou. É capaz de ajudar. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Formação, Manel e desculpas

Começando por não uma, não duas, mas três excelentes notícias. A renovação dos contratos de dois membros da nossa excelente geração de Diogos e de Afonso Sousa, neto de um campeão de Viena. Diogo Dalot é o protótipo de lateral-direito moderno. Não há memória do FC Porto ter, na sua formação, um lateral da sua idade e qualidade. Não é por acaso que aos 16 anos já tinha sido chamado aos treinos da equipa A por Lopetegui (tal como por exemplo Paulo Fonseca chamou Rúben Neves quando tinha 16). São chamadas que premeiam a qualidade e potencial de grandes promessas, muito diferente de por exemplo ver Musa treinar com a equipa A do FC Porto esta época (não jogou ainda nem um minuto na B). Quanto mais cedo Dalot começar a jogar num patamar acima, melhor. 

Uma boa aposta
Diogo Queirós, capitão campeão europeu de sub-17, é candidato a reeditar a escola de grandes defesas centrais do FC Porto. Forma boa dupla com o homónimo Leite, já tem uma estampa física considerável para a sua idade, lê bem o jogo e já tem sido um dos destaques da Youth League. Outro jogador que só tem a ganhar em subir de patamar mais cedo (a equipa B tem dado sucessivas oportunidades a centrais estrangeiros, sem grande sucesso - no curto prazo, é tempo de privilegiar a formação neste setor).

Sobra então Afonso Sousa. É mais novo, tem bons genes futebolísticos, jogador de recorte técnico e que joga com grande envolvência coletiva (um exemplo, vejam este golo marcado por Afonso ao Tondela, que também mostra como é que se abatem autocarros). Vai ter que ganhar dimensão física (ainda só tem 16 anos), essencial para a sua afirmação (há o exemplo de Vítor Andrade, um dos maiores talentos do FC Porto durante a formação, mas a quem faltou essa dimensão na transição para sénior - não é ainda um caso perdido, fica a nota). 

Assinaladas estas três boas notícias, falemos de um rapaz já muitas vezes mencionado neste espaço. Chama-se Rui Pedro, tem 18 anos e é o melhor marcador da UEFA Youth League. É há muito visto como um potencial avançado de futuro no FC Porto, tendo inclusive sido destacado para o Projeto Jogador de Elite. Pep Lijnders, na avaliação que fez dele, comparou-o desta forma com Gonçalo Paciência: «O Rui Pedro não faz o impossível, como Gonçalo, mas é melhor no domínio do possível».

Um pequeno Falcao
Por outras palavras, Rui Pedro talvez não tenha, ainda, a capacidade de inventar um golo com uma grande finta, uma rabona, um túnel ao adversário ou um slalom que só acaba na baliza. Mas tem aquela ratice que nos leva a descrever os avançados que estão sempre no sítio certo, que marcam em meia oportunidade, que se antecipam e movimentam na perfeição, que pressiona e está sempre a mexer-se no ataque. Há quem lhe veja coisas de Falcao, mas todos sabemos o quão perigosas são essas comparações.

Rui Pedro, para quem não se recorda, começou a época a jogar na equipa B. Uma aposta que fazia todo o sentido - os nossos melhores jovens têm que jogar em escalões acima. Mas depois do fim de agosto, Rui Pedro deixou de jogar na equipa B. Porquê? Chegou Areias, emprestado pelo V. Guimarães. O FC Porto nunca se pronunciou sobre o absurdo que seria enquadrar uma cláusula de compra de mais de 500 mil euros sobre este jogador, por isso vamos pular esta consideração. Meramente hipotética, claro. 

O FC Porto passou a apostar em Areias como ponta-de-lança da equipa B. É titular há 6 jornadas e marcou um golo. Rui Pedro voltou aos juniores. Logo, atrasam o desenvolvimento de Rui Pedro para estar a utilizar um jogador emprestado pelo V. Guimarães que, perdão, não justifica que o FC Porto secunde a aposta em Rui Pedro para estar a valorizar um jogador em nada superior a, por exemplo, Tomané. Com a pequena diferença de que Tomané ainda conseguiu ser titular em Guimarães, fez alguns golos, enquanto Areias não contou para a equipa A do Vitória... onde joga Marega.

Na última época fez 9 golos na equipa B, na anterior tinha feito 14. Justifica-se a aposta? Não. Qualquer avançado, jogando com regularidade no FC Porto B, marca uma dúzia de golos sem grandes problemas. Quem não se lembra de Dellatorre? Avançado brasileiro de qualidade sofrível, mas que conseguiu ser titular toda a época na equipa B, levando até a que muitos considerassem que valia a pena avançar para a compra do seu passe. O futuro, como sempre, foi bem esclarecedor. Mas rezam as crónicas que Dellatorre está a deslumbrar na Liga Tailandesa. 

Justifica-se?
Areias não é, à data de hoje e muito provavelmente de amanhã, uma solução que dê mais perspetivas de presente e futuro do que Rui Pedro. E pior ainda: Areias está emprestado pelo V. Guimarães! Nem sequer é um jogador do FC Porto! E já agora, quanto custaria mesmo ficar com Areias? Pois é. A gestão deste caso é tudo aquilo que o FC Porto não deve fazer na sua formação e equipa B.

Rui Pedro voltou aos sub-19 para estar num escalão que não oferece competitividade. Nos sub-19, já não vai aprender muito mais. À 10ª jornada, a equipa de juniores já leva 8 pontos de vantagem na liderança. Não vai haver estímulo competitivo até à fase final. Até lá, Rui Pedro podia estar a jogar na bem mais competitiva Segunda Liga, mas não, joga o avançado que não serviu para a equipa A do Guimarães. Isto não é ser simpático com Areias (na última vez que tivemos um Areias em campo, até ganhámos ao Chelsea de Mourinho), que de certeza quer lutar pelo seu espaço e ganhar o seu lugar, mas estamos a falar da gestão de ativos da formação do FC Porto. Areias nem sequer é jogador do FC Porto. E será uma surpresa se for no futuro. Podia ser o Areias, podia ter o Tomané. O problema é que Rui Pedro está a ser ultrapassado por quem não é melhor. 

E agora uma história. Era uma vez o Manel. O Manel tinha uma mercearia. Era um negócio rentável, bem sucedido. O Manel por vezes importava produtos caros, mas conseguia vendê-los a compradores que tinham mais dinheiro. Tudo corria bem ao Manel. Mas em 2014, o Manel viu-se perante um grande problema. A sua mercearia deu um prejuízo de 40,7 mil euros, o maior que alguma vez tinha dado. O Manel ficou em apuros, pois sabia que uma entidade que seguia as suas contas não ia admitir um prejuízo tão grande no ano seguinte. O problema nem era apenas o resultado líquido, mas sim o cruzamento entre passivo e ativo. 

O Manel fez o que nunca esperaram que fizesse. Hipotecou a sua casa. Isso iria permitir ao Manel que a sua mercearia ficasse com um ativo muito mais superior. O Manel deu por si a ter a sua mercearia com capitais próprios de 83,1 mil euros no final de 2015. Problema resolvido!, pensou. Em 2015, a mercearia do Manel até deu um lucro de cerca de 20 mil euros!

Mas passou-se mais um ano e o Manel viu a sua mercearia voltar a dar prejuízo. Foram 58,4 mil euros, o maior que alguma vez deu. E de repente, a hipoteca feita pelo Manel em 2014 começou a perder o seu efeito. Acontece que os 83,1 mil euros que tinha de capitais próprios em 2015 passaram, no espaço de um ano, a ser de apenas 25,8 mil euros. 

O Manel tem um prejuízo acumulado de quase 80 mil euros desde 2014 e conseguiu que os seus capitais próprios fossem reduzidos em quase 70% no espaço de um ano, tendo agora apenas 25,8 mil euros. Problema? Não. O Manel, otimista, está feliz, pois tem 25,8 mil euros. Fim da história. 

PS: Durante meses, O Tribunal do Dragão deu o seu contributo no caso dos vouchers, da Liga Aliança e em diversos temas a envolver léxicos como colinho, arbitragem e derivados do sistema. Hoje, é tempo de apresentar as devidas desculpas por se ter dado a todo esse trabalho. Tudo aquilo que contribuiu, diretamente ou indiretamente, fora de campo (ou dentro, ao ritmo do apito) para que o Benfica fosse tricampeão, não diz respeito ao FC Porto. Assim o afirmou o presidente, que diz que o caso dos vouchers, uma prática do Benfica que não tem defesa em nenhum regulamento, não diz respeito nem interessa ao FC Porto. Assim sendo, as desculpas por todo o tempo que os leitores d'O Tribunal do Dragão perderam a ler aqui sobre temas que não interessam ao FC Porto. Aqui fica uma informação mais útil e talvez mais importante: uma caixa de 48 pastilhas de Rennie tem um PVP de 4,95€. Coisas que importam. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Será que chega?

Admitamos uma coisa: o Sporting tem uma estratégia. Pode funcionar ou não, mas tem uma estratégia. E passa muito pelo seu diretor de comunicação, Nuno Saraiva: fazer barulho. Com Nuno Saraiva a mandar bitaites (esqueçam, o professor Hernâni Gonçalves não merece que usem esta expressão de forma tão depreciativa) dia sim, dia sim, Octávio Machado calou-se. E Bruno de Carvalho também passou a ser menos interventivo publicamente e no Facebook.

A ideia é colocar Nuno Saraiva a fazer barulho para que não se debatam outros temas. Porque enquanto se discute o que Nuno Saraiva escreve, esquecem-se outras questões. Como por exemplo, o elevado prejuízo apresentado pelo Sporting, de 32 milhões de euros, só ultrapassado pela gestão de Godinho Lopes; as arbitragens; o facto do Sporting ter um dos - senão o - plantéis mais caros da sua história; as polémicas que envolvem Jorge Jesus; ninguém questiona as novas contratações, que assim têm todo o tempo para se adaptarem e não há pressão sobre elas; É uma estratégia. 

O FC Porto não tem que se preocupar com o que diz Nuno Saraiva. O Sporting cortou relações institucionais com o FC Porto, logo podem muito bem depositar os seus desejos hipócritas de boa sorte para as competições europeias no prenome do Ziegler. Mas é impossível ficar alheio ao convite deixado pelo diretor de comunicação do Sporting, e citando:

«Também vos convido a visitar o nosso Museu Sporting. Está, reconheço, nesta fase, tecnologicamente menos evoluído. Mas, no que respeita a troféus conquistados, tinham de ampliar o vosso no mínimo 10 vezes o tamanho actual.»

Portanto, 10 vezes? Será que chega? Vamos lá ver.

O Sporting tem dois museus. E segundo a insuspeita WikiSporting, o Museu do Sporting tem 1000 metros quadrados, entre oito áreas temáticas de exposição. E o Museu Leiria tem 500 metros quadrados. Portanto entre dois museus, o Sporting tem 1500 metros quadrados de história e oito áreas temáticas.

Agora vamos ajudar Nuno Saraiva a descobrir as dimensões do Museu do FC Porto:


Fazendo então as continhas. O Sporting, tendo dois museus, tem uma área de 1500 metros quadrados e oito zonas temáticas. E o FC Porto tem um espaço de 7000 metros quadrados, com 27 áreas temáticas (e nem vale a pena assinalar a diferença tecnológica e a qualidade da infraestrutura), que tornou-se a maior atração do país

Então tendo o FC Porto um espaço que é imensamente maior do que o do Sporting, recheado de troféus internacionais que são desconhecidos em Alvalade, Nuno Saraiva sugere que o Museu tem que ser aumentado no mínimo 10 vezes? É caso para dizer, bem podem colocar-se em bicos de pés, mas ainda terão que comer muita sopinha para poderem preencher uma área de 7000 metros quadrados de conquistas.

Posto isto, e em dia de FC Porto x FC Copenhaga, há que mencionar uma situação que passou em branco nas duas últimas semanas. Chidozie foi suspenso por dois jogos na Segunda Liga, por causa do lance que aconteceu aos 37 segundos deste vídeo.

O exercício é muito simples: comparar esta suposta cotovelada de Chidozie a outros lances que estão na memória recente de todos os portistas e adeptos do futebol português. E também comparar a celeridade com que estes casos são tratados. 


Este lance aconteceu a 28/08 e Chidozie, dois dias depois, estava a ser suspenso por 2 jogos. É de uma rapidez imensa, sobretudo quando comparada por exemplo com a cotovelada de Slimani a Samaris, lance que demorou quase 5 meses para ser analisado e que terminou com absolvição por parte da Justiça Federativa - antes de em Junho, já após o fim da época, deliberarem por fim um jogo de suspensão. E é difícil descobrir em que medida esta ação de Chidozie pode ter sido mais violenta do que a forma como Coates, William Carvalho e Slimani abordaram determinados lances no último Sporting x FC Porto. O problema é este e a palavra vai ser cada mais utilizada: critério, conforme explica o insuspeito Jorge Coroado. Venha do grego, kritérion, ou do latim, criteriu, o critério é essencial para compreender em que medida é que as coisas podem ser julgadas e comparadas. Seja entre comparar este lance de Chidozie com os de Slimani, seja entre perceber a diferença entre 1500 e 7000 metros quadrados. 

Mas o critério não pode desagradar a todos. Bruno de Carvalho, até há bem pouco tempo, defendia ferozmente o regresso ao sorteio dos árbitros e o fim do sistema de nomeações. 


E agora, que o sistema de nomeações se manteve? Ah, como as coisas mudam...

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Uma nova escola

Já é por demais conhecida a história de Alexandre Gomes, filho de José Fontelas Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem, e que foi este ano contratado pelo Sporting. Vamos admitir a extrema coincidência de uma pessoa com forte influência na arbitragem ter um filho a jogar nos juvenis do Sporting. O miúdo é por certo o último a ter culpa de coisa alguma.

Mas o problema é quando se começa a formar um ligeiro padrão. No final de maio, Luciano Gonçalves chega à presidência da APAF. E depois do clássico entre Sporting e FC Porto, teve a sua primeira grande intervenção pública nessa condição. Disse isto.

«Não faz sentido, semana após semana, este tipo de críticas à arbitragem. Na nossa opinião, o Tiago Martins fez uma grande arbitragem no seu primeiro clássico». 

A bem da verdade, não foi a primeira vez que se pronunciou sobre a arbitragem. Depois das críticas do Benfica à arbitragem de Manuel Oliveira, veio a público dizer isto: «Criticar o árbitro, dizer que ele errou faz parte, é o mundo do futebol. Agora daí a levantar este ambiente de crispação junto dos árbitros e dos dirigentes da arbitragem é completamente errado. O ambiente criado pelo presidente do Benfica é desnecessário». Ena, um líder da APAF a mandar o presidente do Benfica ter cuidado com o que diz? Bravo! Como pode alguém criticar o presidente do Benfica? Hmmm...

Entretanto, José Fontelas Gomes saiu da APAF para o Conselho de Arbitragem. Luciano Gonçalves fazia parte da sua lista e foi então apoiado por Fontelas Gomes, por ser visto como uma solução de «continuidade». Elogie-se a sua intenção de tornar públicos os relatórios dos árbitros. Por certo, todos temos curiosidade em ver o que disse Tiago Martins no seu relatório de jogo. 

Mas a sintonia com José Fontelas Gomes vai muito além da arbitragem. Pois, Fontelas Gomes não é o único a ter um filho a jogar no Sporting. 



Não precisamos de mais do que fazer o exercício de imaginar o que se diria se Fontelas Gomes e Luciano Gonçalves tivessem os seus filhos a jogar no FC Porto. Quantos e quantos conflitos de ética tentariam descobrir? Neste caso, silêncio absoluto. 

Luciano Gonçalves fez carreira de árbitro, embora nunca ao mais alto nível. Mas teve também outras profissões. Por exemplo, no passado recente, era distribuidor independente da Herbalife, uma empresa de suplementos nutricionais. Não há problema nenhum em sê-lo, logicamente. 

Mas uma vez mais, é de uma extrema e inocente coincidência ver um dos parceiros da Herbalife, promovido pelo próprio Luciano Gonçalves...


Não sabemos o que levava aquele batido do Slimani, mas deve ser rico em nutrientes que fortalecem as articulações do cotovelo. Há mais, desde apresentações a televisão de boa qualidade (tudo publicações de Luciano Gonçalves nas redes sociais tornadas públicas). 


E no final, um bom manjar sabe sempre bem. 


Mau seria Luciano Gonçalves não aproveitar a visibilidade do terceiro maior clube português para promover a marca com a qual trabalhava. Fez ele muito bem. Mas é interessante imaginar como seria chegar ao Olival e ver os jogadores do FC Porto a brindar com herbalife, com filhos de pessoas influentes da arbitragem em Portugal nos escalões de formação, o Sporting a queixar-se da arbitragem e depois fazermos todas as ligações aqui descritas.

A terminar, uma questão: alô, FC Porto? Está aí alguém?

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Levantar o moral, parte II

As notícias sobre a valorização das ações das SAD são sempre um fenómeno interessante. Sobretudo porque raramente são notícia, exceção para a imprensa da especialidade, como seria de esperar. São interessantes porque tornam-se notícia com uma pinça particularmente seletiva, daquelas que, conforme demonstrado no exemplo de ontem, podem servir para uma bela injeção de moral.

O último grande exemplo aconteceu aquando da ida de Jorge Jesus para o Sporting, o próximo adversário. Propagou-se por toda a imprensa a informação de que as ações da SAD do Sporting tinham subido quase 10%. Era o efeito Jorge Jesus, escrevia-se. Claro que todos se esqueceram de mencionar que no segundo semestre de 2014-15 as ações estiveram sempre mais elevadas do que no pico de valorização aquando da contratação de Jorge Jesus. Pormenores.





E agora, podemos esperar tratamento igual para o FC Porto? Não há efeito Jorge Jesus, mas há efeito Liga dos Campeões. Se com Jorge Jesus as ações subiram «quase 10%», no seguimento do apuramento para a Champions as ações da SAD do FC Porto subiram 14,47%. 


Há outra grande diferença. Este é o segundo valor mais elevado das ações da SAD nos últimos 365 dias, só ultrapassado pelo dia 7/6/2016 (dia em que saíram muitas notícias a dar conta de uma iminente saída de Brahimi). Logo, se as ações da Sporting SAD são notícia pela contratação de Jorge Jesus, mesmo tendo estado anteriormente. durante 6 meses, sempre mais elevadas, onde está a coerência que torna as ações do FC Porto notícia?

Isto com mais uma grande diferença. As ações do Sporting subiram «quase 10%» quando fez um contrato de 15M€ de salários para um treinador. Já as do FC Porto subiram 14,47% ao arrecadar um prémio de 14M€ pelo acesso à Champions. Outra vez, pormenores.

É um dia feliz para o FC Porto, que confirmou a contratação de Óliver Torres. Tendo em conta que a SAD não explicou os contornos da transferência (como é claro, nunca o FC Porto manteria um jogador emprestado por meia época, logo o empréstimo de ano e meio vai ao encontro do calendário financeiro, não do desportivo), e visto que ainda não está fechado tudo o que há para fechar com o Atlético, o negócio não pode para já ser comentado além da adição desportiva. E essa não poderia ser melhor.

Reforço até 2017 [...]
Óliver Torres é um excelente reforço, que acrescenta qualidade à equipa, ao plantel e a todos os jogadores que estiverem em campo com ele. Chega já numa fase adiantada do início de época, por isso é natural que precise de algum tempo para ganhar ritmo competitivo e entrar na equipa. Óliver é, simultâneamente, um reforço para o meio-campo que também oferece novas soluções para a ala. Mas é preciso mais. Brahimi e Aboubakar (podem considerar Depoitre, mas o FC Porto precisa de um 3º avançado) ainda não têm substitutos, até porque ainda não saíram. Podemos pensar num central, mas para isso é preciso pensar na dupla titular (só faz sentido a chegada de um defesa se for melhor do que Marcano e/ou Felipe, e já idealizando com qual deles vai jogar). E entre todos os jogadores que procuram o seu espaço no plantel, clarifique-se de vez o papel de Bueno, sendo que com a entrada de Óliver um dos médios fica com espaço ainda mais reduzido e possivelmente terá que sair (Sérgio Oliveira seria a opção mais natural). É que num instante já lá vão todas as vagas para inscrever jogadores na Champions - e um jogador que não entra nas contas para a Champions dificilmente terá um papel relevante a nível interno.

Óliver já cá está, os portistas estão contentes, mas domingo é dia de colocar os pézinhos no chão. Não há estádio mais complicado para o FC Porto em Portugal do que Alvalade. O Sporting agiganta-se sempre que defronta o FC Porto. Jogam como se fosse o jogo da vida deles, motivados por uma espécie de «podem ganhar mais campeonatos em 3 anos do que nós em 30, mas este jogo não ganham!». E tem sido assim. O FC Porto não ganha em Alvalade há 11 jogos, 8 anos, e nem quando o Sporting andava a pairar na cova, nos tempos de Godinho Lopes, lá conseguiu vencer. Nem quando tínhamos o melhor plantel pós-Gelsenkirchen, em 2010-11. A história pode sempre ser desafiada, e o FC Porto provou isso em Roma, mas sempre com o reconhecimento de que nada é garantido. Muito menos em Alvalade. O FC Porto não pode ser o clube que vai da euforia à depressão de um jogo para o outro. E vice-versa.

PS: Ironia do destino. Depois d'O Tribunal do Dragão ter escrito que Maxi Pereira estava há 12 anos sempre a jogar ao mais alto nível, sem parar e sem ter uma lesão grave, e que por isso dificilmente iria fazer 40 jogos esta época, De Rossi fez questão de mudar isso. Uma entrada assassina atirou Maxi para o estaleiro durante dois meses. O presidente da Roma diz que o árbitro foi nojento, então seria boa ideia mandar-lhe uma imagem da perna de Maxi e a conta da cirurgia, para ele ver o que é de facto «nojento». Layún ganha com naturalidade o lugar no lado direito (a não ser que Nuno se lembre de recuperar o projeto-Varela da pré-época), e o FC Porto fica sem alternativas diretas para as laterais durante dois meses. É aqui que deveria entrar a utilidade de ter uma equipa B, pois ir ao mercado buscar um lateral para ser alternativa durante 2 meses, tendo uma equipa B campeã da Segunda Liga e uma equipa bicampeã de sub-19, seria não estar a aproveitar as muitas soluções que o FC Porto oferece internamente. Ironicamente, qualquer um dos que estão emprestados (Rafa, Víctor Garcia e Ricardo) dariam as garantias necessárias. As melhoras, Maxi. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Para levantar o moral


É uma daquelas coincidências que podem soar a mania da perseguição. Mas que maravilham. O Benfica é o único clube português entre os 50 mais valiosos do Mundo, escreve hoje o Record, citando a tabela da Brand Finance.

Até aqui tudo bem. A Brand Finance usa os seus critérios, a KPMG (que coloca FC Porto e Benfica no top30) usa outros, a Deloitte usa outros. Mas o mais curioso é olhar para o dia em que a Brand Finance publicou a sua tabela da época 2015-16: 6 de junho de 2016.

Portanto, dois meses e meio depois, o Record lembra-se de publicar uma notícia que coloca o Benfica como único clube português entre os 50 mais ricos do Mundo, omitindo por completo que estão a citar um estudo já consideravelmente antigo. É de facto uma coincidência inocente que se tenham lembrado deste estudo logo no rescaldo do empate frente ao V. Setúbal, na Luz, e do apuramento do FC Porto para a Liga dos Campeões. Não vá o moral precisar de um empurrãozinho. 

Por estes dias, anda tudo incomodado com as afirmações de Rui Gomes da Silva, que queria que o FC Porto perdesse em Roma. Nada mais natural. Não é apenas uma questão clubística, mas financeira. Se o FC Porto não fosse à Liga dos Campeões, o Benfica ia receber mais de market-pool. E bem precisa.

O Record bem pode tentar dar um puxãozinho ao moral, mas Rui Gomes da Silva conhece bem a realidade financeira do Benfica, e sabe o quão importante é (à imagem do FC Porto - primeiro a nossa casa, depois a dos outros) tentar acumular o máximo de receitas possível na UEFA. 

Afinal, o Benfica voltou a ser a SAD que mais gasta em Portugal, com gastos totais (que incluem amortizações) de 131,6M€ só nos primeiros nove meses de 2015-16. E ainda que as receitas operacionais do Benfica sejam mais altas, a dependência de mais-valias no Benfica cresceu a pique. Sobretudo desde que Luís Filipe Vieira prometeu que deixaria de ser necessário continuar a vender jogadores.

É uma realidade que contrasta. O FC Porto precisa de vender jogadores porque não faz nenhuma venda relevante desde Alex Sandro; já o Benfica continua a ter que vender apesar de já ter transferido Renato e Gaitán. As notícias de que o Benfica quer (precisa) chegar aos 100 milhões de euros em vendas antes do final do mês deveriam fazer Luís Filipe Vieira sentir-se ofendido. Afinal, ele prometeu que a partir de 2014 não seria necessário vender mais jogadores. Mas o facto de ter uma dívida de corrente de 200 milhões de euros à banca não deve ter nada a ver com isso. O que importa é o ativo, a cassete mais clássica neste campo. Mas ainda está para nascer o jogador ou o fornecedor que tenham sido pagos com ativos. 

O Manuel, não pode ser?
Tudo isto numa semana em que João Ferreira ouviu, ironicamente, uma espécie de não pode ser, ao ouvir críticas pela nomeação de Manuel Oliveira para o Benfica - V. Setúbal. Nas escutas do processo Apito Dourado, em 2004, Luís Filipe Vieira insurgiu-se perante Valentim Loureiro, ao criticar a retirada de Paulo Paraty para arbitrar as meias-finais da Taça (que dariam direito a uma final contra o FC Porto). Rejeitou quatro árbitros até ouvir o nome de João Ferreira. Esse «pode ser», porque os outros «não dão garantias». 

Ironicamente, inverteram-se os papéis. Manuel Oliveira não deu garantias ao Benfica, na 2ª jornada, e João Pode Ser Ferreira ouviu das boas de Luís Filipe Vieira. Para quem não se recorda, Manuel Oliveira estava na linha da frente para ser promovido a internacional em 2014-15, mas foi ultrapassado por Tiago Martins (que vai arbitrar o Sporting x FC Porto) e Fábio Veríssimo, os tais que tinham dois jogos de primeira liga. Podem iniciar a contagem: já passaram [x] dias desde que Manuel Oliveira arbitrou no Estádio da Luz. Voltar a fazê-lo antes de o atirarem para a segunda categoria parece um desafio à altura. Resta saber o que será mais provável: Manuel Oliveira chegar à idade do seu (quase) homónimo da sétima arte ou voltar a arbitrar o Benfica na Luz. 

Mas ei, nem tudo é mau. Dentro de quatro dias começa o Euro2016 e dentro de duas semanas teremos o São João. Como? Esses eventos já passaram? Chatice. Pensava que estávamos a 6 de junho. Fomos traídos pela lógica cronológica do Record. Lá se foi o moral.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Pontapé de saída

Quem não se lembra do colinho que até atropelou os regulamentos da FIFA? Tiago Martins e Fábio Veríssimo foram promovidos a árbitros internacionais contra as diretrizes da FIFA, que indicam que os árbitros «devem ter arbitrado regularmente na principal divisão do seu país durante pelo menos dois anos».

Tiago Martins foi promovido quando tinha dois jogos de Primeira Liga, enquanto Fábio Veríssimo, no espaço de um mês, passou de árbitro na distrital a árbitro internacional.

Entretanto, mudou a mosca, mas o resto permaneceu intacto. Saiu Vítor Pereira, entrou José Fontelas Gomes. Mas não sem em novembro último Vítor Pereira pisar, uma última vez, as recomendações da FIFA. João Pinheiro, então com 27 anos e apenas dois jogos de Primeira Liga, foi promovido a internacional, juntamente com Sérgio Piscarreta, que em 2015 passou do C2N3 para a primeira categoria. E que bem correu.


Piscarreta foi despromovido no ano seguinte não só à sua promoção à primeira categoria mas também no seu ano de estreia como árbitro internacional. Isto no ano seguinte à histórica descida de Marco Ferreira, que logo depois abandonou a arbitragem e revelou o que passava nos bastidores. Nunca será de mais lembrar. 


O Conselho de Arbitragem não só promove árbitros contra as diretrizes da FIFA como é capaz de, no ano seguinte, despromover o mesmo árbitro. É histórico para Piscarreta. Nenhum outro campeonato na Europa tem um caso idêntico. 

E agora vemos a ascensão de João Pinheiro, um jovem árbitro, agora de 28 anos, que foi promovido a árbitro internacional em novembro de 2015 - um mês após ter apitado pela primeira vez um jogo grande, no caso um jogo do Benfica na Taça de Portugal. Tirando isso, tal como Tiago Martins, tinha apenas 2 jogos de Primeira Liga na carreira. 

João Pinheiro foi um de 11 árbitros a declarar apoio a José Fontelas Gomes na corrida à presidência do Conselho de Arbitragem, num elenco de luxo que contava com nomes como João Capela, Carlos Xistra, Bruno Paixão, Jorge Ferreira e Manuel Mota. E agora, na primeira época completa que terá Fontelas Gomes como presidente do CA, o jovem árbitro vai estrear-se num jogo grande da Primeira Liga.

Qual? O Tondela - Benfica. Oxalá o jogo corra bem, pois seria tramado um jovem e promissor árbitro, internacional aos 27 anos, ficar desde logo manchado pela histórica dificuldade do Benfica em começar os campeonatos a vencer.


Está dado o pontapé de saída para a carreira de Fontelas Gomes à frente do CA, na mesma jornada em que Fábio Veríssimo, outro internacional precoce, vai arbitrar o FC Porto, enquanto Carlos Xistra vai dirigir o Sporting. Sporting esse que merecerá todo o interesse em ser seguido durante a época 2016-17, em particular a sua equipa de juvenis, que contratou o talentoso Alexandre Gomes. Que só por mera e impertinente coincidência é filho de José Fontelas Gomes. Aquela perguntinha que irrita: o que se diria se fosse o FC Porto?

PS: Já foi dito praticamente tudo sobre o caso Depoitre. Ninguém sabia que o jogador não podia ser inscrito para o playoff da Champions. Mas a quem gere os destinos do FC Porto é sempre exigível muito mais. E nem é exigir assim tanto, basta saber os regulamentos das provas em que o clube está inscrito. O presidente confirmou que o assunto foi tratado com máxima celeridade, enquanto estava a acompanhar a Volta, e Depoitre chegou ao Porto na companhia de D'Onofrio às 2 da manhã. Pinto da Costa diz que foi inscrito com o objetivo de estar disponível para a Champions. Ou seja, não houve nenhuma reserva ou cautela assumida, pois a verdade é que o FC Porto julgava que o jogador podia jogar. Não podia, até porque o regulamento não permite diferentes interpretações. Felizmente o «esclarecimento» publicado pelo FC Porto não é assinado pelo Conselho de Administração, senão a vergonha seria ainda maior. Ou então é maior ainda por não ser diretamente assumido, e por ter que ser Nuno Espírito Santo (já começa!) quem teve que responder às questões sobre esse tema.

Depoitre vs. pré-época
Mas de facto, é confusa a questão de contar com Depoitre já para o playoff da Champions. Conforme foi defendido no post anterior, o FC Porto passou toda a pré-época a treinar e a trabalhar um esquema no qual Depoitre não encaixa (pelo menos nunca tão bem como André Silva). E era com uma semana de trabalho que ia já ser opção contra a Roma? As caraterísticas de Depoitre são mais importantes do que os mais de 50 treinos que Nuno fez com o plantel? É verdade que meter um ponta-de-lança forte na grande área para o chuveirinho não é a tática mais complicada de se trabalhar, mas o FC Porto teve quase 2 meses para preparar uma dinâmica de jogo forte, em que se assuma e possa confiar em André Silva. Se Depoitre iria fazer falta, tinha que ser contratado muito antes, não em cima do fecho das inscrições. A demora tem uma palavra, a mais utilizada nos últimos três dias: amadorismo. Um erro que não víamos em Portugal desde que o Sporting, de Godinho Lopes, tentou inscrever Marius Niculae (com as devidas diferenças, de bem maior gravidade pendente para o FC Porto). Bater no fundo não é perder com o Tondela, é ter um ato de gestão só à altura do Sporting de Godinho Lopes. 

Embora Depoitre tenha sido contratado com o objetivo de estar já disponível contra a Roma, não foi contratado para jogar apenas o playoff. A época será longa e oxalá consiga revelar utilidade em jogos futuros. De preferência antes do final do mês. Porque se acham que já seria útil com uma semana de treinos, então isso só pode deixar água no boca para quando tiver um mês de trabalho.

O FC Porto começa amanhã um campeonato para o qual não é favorito. Não, o FC Porto não é favorito para ser campeão em 2016-17. E o que é isso de ser favorito? Basicamente, aquilo que o Bayern Munique era na final da Taça dos Campeões Europeus de 87, ou aquilo que o Manchester United era nos oitavos de 2004, ou aquilo que a França era no Euro 2016. O padrão está bem claro: o favoritismo cai quando se depara contra uma equipa onde todos remam para o mesmo lado, em prol do bem comum e maior. O problema existe quando acham que isto tem que começar pelos internautas, e não pelos superiores. A Nuno Espírito Santo e ao plantel uma mensagem de força e incentivo. Enquanto lutarem pelo FC Porto, os portistas lutarão com vocês.

PS2: Só para lembrar. O International Board aprovou uma série de alterações nas leis de jogo para esta época, que o FC Porto vai estrear em Vila do Conde. Era só mesmo para lembrar. Não vá alguém esquecer-se dos regulamentos.