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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Faltou um remate, e tanto mais

Falemos do Benfica-FC Porto. O nervosismo e a ansiedade a sobreporem-se à necessidade de uma ideia de jogo mais clarividente e dominadora. Pouquíssimas chegadas à grande área adversária. O mais próximo de uma ocasião de golo que se viu em toda a segunda parte foi um remate em arco de Brahimi, a passar perto do poste. Um Benfica que pouco incomodou Casillas, mas que também pouco se deve ter sentido incomodado. A última substituição a limitar-se a uma troca de pontas-de-lança. Apenas uma defesa por parte do guarda-redes do Benfica em 90 minutos. Mas, para grande alegria dos adeptos do FC Porto, apareceu o golo de Héctor Herrera, ao cair do pano, a mudar a história do jogo e do Campeonato.

Confusos? É simples: este primeiro parágrafo é uma descrição do Benfica-FC Porto da época passada. Um jogo exatamente (bom, quase) igual ao que testemunhámos nesta tarde de domingo na Luz. A diferença? Desta vez não caiu aquela bola nos pés de Herrera. Desta vez foi o Benfica, numa única ocasião, a conseguir resolver o clássico e a levar para casa os três pontos. Mas o filme do jogo, esse, foi praticamente o mesmo. O que sentimos agora é o mesmo que teríamos sentido se o golo de Herrera não tivesse aparecido em abril - com a pequena diferença de que estar a dois pontos do primeiro lugar à 7ª ou à 30ª jornadas é bem diferente. 


Não são paninhos quentes, nem desculpas, nem conformismo. É a verdade. Este FC Porto não se distingue por ser o mais elegante ou clarividente nos jogos grandes. Isso mesmo ficou patente no seu percurso na Champions na época passada, em que cumpre os seus objetivos muito graças a lances de bola parada - e, pasmem-se, de onde nasceram os 4 pontos já somados na Champions esta época? De um penálti e de um canto. Não é coincidência: é identidade.

Nos clássicos, o FC Porto de Sérgio Conceição foi também isto. Uma equipa que consegue limitar os adversários a pouquíssimas ocasiões de golo. Em 3 clássicos contra o Benfica, foi a primeira vez em que sofreu um golo. E contra o Sporting, em cinco jogos, sofreu apenas dois. O problema é que este FC Porto é tão eficaz a limitar os adversários como a limitar-se a si próprio.

Não há evolução na ideia de jogo do FC Porto. E não houve investimento para isso. Neste momento, a única alternativa que o plantel oferece e que pode garantir melhorias imediatas na equipa é a presença de Óliver Torres, que ainda não foi ao 11 esta época e que deve ser o pior jogador do mundo nos treinos, tamanha a resistência de Sérgio Conceição em enquadrá-lo na equipa. Óliver tem ideias de circulação, de controlo, de variação de flancos, de progressão em posse. Não é só «passar para trás e para o lado».

E isso nem precisa de ser tão necessariamente mau. Olhamos agora sim para o desempenho do FC Porto na Luz, para constatar que a equipa teve uma mísera eficácia de 38% em bolas jogadas para a frente. Quer isto dizer que, nesta média, a cada 100 tentativas do FC Porto em fazer um passe para a frente, entrega a bola ao adversário em 62 ocasiões. Perante esta amostra, será assim tão benéfico limitar o FC Porto a bicadas para a frente? Não é melhor esperar, circular, criar espaço e então sim atacar, em vez de procurar sempre atalhos que não existem?

A verdade é que é este o modelo de Sérgio Conceição. O modelo que funcionou em grande parte da época passada. Mas não foi este modelo que trouxe bons jogos na Champions e nos clássicos. Aí, à margem daquilo que eram e são as bolas paradas, as ideias ofensivas do FC Porto são francamente escassas. Mas lá está: uma bolinha na gaveta no minuto 90 consegue mudar a história de muita coisa.


Sérgio Conceição precisa de ideias novas para a equipa. Não vamos ser campeões a limitarmo-nos a bicadas para a frente, à espera que o Marega atropele 3 defesas de cada vez. Sim, cá vai: «Na época passada também disseram que não éramos campeões com este plantel! O plantel é quase o mesmo!»

Não é. Saiu Ricardo Pereira e a lateral-direita ficou entregue a um lateral que no final de maio estava dispensado. Saiu o melhor central do FC Porto, Marcano, e Felipe voltou à forma horrenda da primeira metade da época passada. Danilo Pereira recupera de lesão, Soares salta de uma para outra, Aboubakar já de rastos também ficou fora de combate. Herrera e Brahimi estão muito longe do nível da época passada e esperemos bem que ninguém tenha o descaramento de os acusarem de traição ou algo do género se saírem a custo zero no verão - a SAD é que permitiu a chegada a esta situação. Alex Telles também uns furos abaixo, Corona a caminho de mais uma época de «para o ano é que é» e Hernâni no plantel. Quando o jogador que mais tem alimentado o ataque do FC Porto se chama Otávio, desculpem, mas algo de errado se passa. Quando saímos de um jogo arbitrado por Fábio Veríssimo no Estádio da Luz e só nos podemos culpar a nós próprios, algo de muito errado se passa

Não passem a Sérgio Conceição faturas que não lhe dizem respeito. Ele deixou claro na pré-época: era preciso subir o nível do plantel. Temos a entrada de Éder Militão, que está a ter impacto imediato, mas de resto não entrou ninguém no 11 do FC Porto. A equipa inicial não foi reforçada. Pelo contrário, foi enfraquecida! Não há jogada individual do Brahimi, o que limita a equipa a pouco mais do que bolas paradas e despejadas no Marega. Foi assim na época passada. Está a ser assim esta época, também com uma diferença notória: Aboubakar teve uma grande série goleadora até dezembro; esta época, não só não engatou como se lesionou gravemente. Falta pensador de jogo, falta desequilibrador, falta homem-golo. Por outras palavras, temos um bólide sem volante, pedais e motor. 

O que pode Sérgio Conceição mudar? Sem dúvida que a entrada de Óliver Torres no 11 é a cartada que ninguém, ou quase ninguém, percebe como permanece no baralho. Óliver não é um Deco nem um Lucho, mas é o único jogador neste plantel que tem ideias diferentes para a equipa. O único que não obriga a equipa a ter alergia à posse de bola, que tem que transformar cada momento de construção numa bicada para Marega. Já o vimos e repito: o melhor futebol do FC Porto de Sérgio Conceição foi o praticado no arranque da época passada, com Óliver no 11.

Agora, cada vez mais as equipas percebem o quão limitado está o FC Porto no seu processo de «construção». É certo que o Benfica não fez um bom jogo, como não o fez o FC Porto. A isso muito se deveu o facto de as duas equipas terem sempre estado mais interessadas em «trancar» os pontos fortes do adversário do que em imporem a sua própria força. 

Tomemos o exemplo do rendimento de Maxi Pereira e Alex Telles, que juntos só conseguiram completar 24 passes em todo o jogo. A cada duas vezes em que tocavam na bola, uma era perdida. O Benfica não os deixou envolverem-se no momento de tabela/profundidade da equipa. Com isso, praticamente secou os corredores da equipa e tirou-lhe toda a largura.

Além disso, o FC Porto quase não existiu na grande área do Benfica. Reparemos no mapa de todas as zonas em que o FC Porto tentou o passe:

Zonas de passe e construção: inexistente nas proximidades da grande área
O FC Porto não existiu nos últimos 20 metros. Exceções? O jogo aéreo de Danilo e Éder Militão, já nos últimos minutos, e pouco mais. Não houve tentativas de último passe, de rasgo, de procurar uma solução entre linhas. Zero. Ou Marega forçava a entrada (ganhou 2 cartões e nada mais pôde/conseguiu fazer), ou Brahimi fazia o movimento individual interior (tirando o remate em arco, não mais esboçou jogadas de perigo), ou esperava-se pelas bolas paradas. Joga-se muito pouco neste FC Porto. 

E se é certo que não deram a Sérgio Conceição condições apropriadas para lutar pelo bicampeonato, depois do milagre de superação e empenho que foi a época passada, o treinador campeão deve a si próprio e aos portistas a certeza de que está a esgotar todos os recursos disponíveis. O futebol da equipa não tem que ser uma manada de sprints: pode ser uma maratona bem gerida, com todos os momentos que isso implica. No final da época, o pior que pode acontecer a Sérgio Conceição é continuar a ser o principal responsável por não estarmos 6 anos a seco. 

E agora? Novamente a correr atrás do prejuízo, e a depender de si próprio. Foram mais os Campeonatos que o FC Porto conquistou do que os jogos em que venceu no Estádio da Luz, por isso uma derrota em casa do Benfica não tira o título a ninguém. Muito menos à 7ª jornada. O Benfica vai perder mais pontos, tal como o Sporting, tal como o Sp. Braga. Mas o FC Porto não pode estar refém dos deslizes dos rivais e deve a si próprio uma reorganização das ideias da equipa e do seu treinador. Afinal, não podemos mesmo contar com mais do que isso. 

domingo, 3 de junho de 2018

O ponta-de-lança invisível

Por motivos já por demais conhecidos, o Marítimo x Benfica de 2015-16 tornou-se o jogo mais comentado do momento. A reportagem da SIC, com testemunhos em discurso direto sobre as abordagens/subornos que foram apresentados a jogadores do Marítimo antes da partida, é matéria sólida nas suspeitas face à forma como o Benfica construiu e concluiu o seu ciclo de tetracampeão. Muito se tem comentado sobre este caso, mas houve uma pequena discussão que merece particular atenção.

Protagonistas: Manuel Queiroz e Rui Pedro Brás. O primeiro começou por referir que achou estranho que Fransérgio tivesse jogado a ponta-de-lança frente ao Benfica. Rui Pedro Brás mostrou-se prontamente indignado, acusando-o de estar a «insinuar qualquer coisa».


O programa avançou e, mais de 15 minutos depois, Rui Pedro Brás voltou ao tema e afirmou que o ponta-de-lança do Marítimo frente ao Benfica foi Djoussé, acusando o colega de painel de querer enganar os telespectadores e defendendo aguerridamente o clube da Luz.

Pois bem. Afinal, quem foi o ponta-de-lança frente ao Benfica? Fransérgio ou Djoussé? A resposta é... nenhum. Recuamos a 2015-16 e vamos observar as áreas de ação dos dois jogadores do Marítimo frente ao Benfica.


Primeiras impressões? Nem um, nem outro jogaram perto do eixo do ataque do Marítimo. Fransérgio jogou sobretudo atrás da linha de meio-campo do Marítimo, com algumas aproximações ao meio-campo adversário pela meia direita (a ação na grande área trata-se do posicionamento nas bolas paradas). No caso de Djoussé, jogou claramente encostado ao flanco direito.

Nem Fransérgio, nem Djoussé. E como curiosidade, vamos ver o posicionamento de outras unidades do Marítimo do meio-campo para a frente.



Que conclusões podemos tirar? O Marítimo não teve um único jogador que se aproximasse do eixo defensivo do Benfica. Zero. Nada parecido com um ponta-de-lança, nada parecido com um avançado. Não houve um único jogador que encostasse perto de Jardel ou Lindelof. Todo o espaço à entrada da grande área do Benfica não existiu para o Marítimo, que fez apenas um remate enquadrado durante todo o jogo.

O posicionamento de Damien é claro: jogou como médio-defensivo e praticamente não passou da linha do meio-campo. Éber Bessa também teve uma exibição com grande raio de ação no meio-campo. Mas depois observamos as zonas de ação de Alex Soares e Edgar Costa e ficamos com a impressão de que estiveram em campo 6 ou 7 minutos e foram ao banho. 

63 minutos de Alex Soares
A exibição de Alex Soares, que já veio a público afirmar que o Benfica ganhou com justiça e que o Marítimo não fez o suficiente para vencer, foi qualquer coisa de atípico. Em 63 minutos em campo, a sua presença foi praticamente inofensiva. Acertou 5 passes enquanto esteve em campo, só foi a uma bola dividida (estamos a falar do meio-campo, do centro do terreno, onde à partida há mais ação) e, como dá para avaliar pelo heat map, jogou com uma falta de intensidade notória.

Depois temos Edgar Costa, jogador que é representado pela GIC England (empresa que tem como CEO César Boaventura), que jogou pelo lado esquerdo. E repare-se desde logo que o Marítimo não jogou com ponta-de-lança, não jogou com ninguém no eixo central. Quando isso acontece, não é natural os extremos fazerem movimentos interiores e irem eles à grande área? Não é isso que o posicionamento de Edgar Costa e Djoussé sugere. Temos dois extremos que não puxam para dentro e que, se forem à linha, não têm ninguém na grande área para cruzar, pois o Marítimo não avançava no terreno, mesmo em superioridade numérica.

É deveras atípico, restando saber se foi ideia dos jogadores, má execução tática ou simplesmente o plano de Nelo Vingada, um treinador com décadas de futebol português e que, certamente, não terá prazer nenhum em acompanhar as investigações ao desfecho desta partida. Até porque já viu o seu nome ser associado à rede de manipulação de resultados que envolveu o Atlético e cujo relatório da Federbet foi publicado há um ano.

Curiosamente, esta semana Alex Soares comentou, em declarações ao jornal Record, o momento em que o Benfica fez o 1x0, por Mitroglou, no arranque da segunda parte.


Não sabemos se foi iniciativa de Alex Soares comentar este lance ou se se limitou a responder a uma questão da imprensa, mas é deveras curioso que fale do sucedido. E parece que o posicionamento dos jogadores do Marítimo causou mesmo muita confusão pela imprensa desportiva, pois o Record até diz que Alex Soares é «defesa». Dito isto, importa passar um olhar ao lance do 1x0. Resumo completo do jogo aqui.

Mitroglou foge a Patrick; Alex Soares corta a bola e isola o grego
O que aconteceu? Há uma primeira tentativa de remate de Mitroglou. A bola bate em Patrick e sobra para a entrada da grande área, onde apareceu André Almeida. É aqui que aparece Alex Soares, que vai à disputa de bola e acaba por ser o jogador do Marítimo, com um ligeiro toque, a colocar Mitroglou na cara do golo. 

Mas houve mais detalhes neste lance. Primeiro, Patrick faz o corte. A bola sobra para o ressalto. Mitroglou foge para o lado esquerdo e Patrick, ao invés de acompanhar o grego, vai para dentro e aproxima-se da zona de disputa da bola, embora veja que Mitroglou vai ficar isolado. Quem sobra? Edgar Costa. O extremo é um autêntico espectador em todo o lance. Vê que Mitroglou vai isolar-se entre ele e a linha defensiva do Marítimo, mas não se mexe até Mitroglou fazer o golo.

Edgar Costa, afastado do lance, vê Mitroglou a entrar pela esquerda
Como é claro, ninguém pode acusar os jogadores do Marítimo de errarem deliberadamente neste lance, pois estamos a falar de apenas um dos 63 golos que sofreram ao longo da época. Certamente que sofreram golos mais estranhos que este, com fífias maiores. Mas o jogo sobre o qual recaem suspeitas é este. Logo, há que ouvir a defesa dos intervenientes e apurar todas as circunstâncias. Ninguém está a dizer que erraram de propósito, mas num jogo em que há suspeitas de corrupção, são os próprios jogadores que terão interesse em virem a público defender a sua inocência e bom nome.

Mas recordemos o testemunho de um jogador do Marítimo na SIC, quando este afirmou que o Benfica lhe apresentaria um contrato vantajoso caso o jogo corresse bem. Sejamos francos. Como é que o Benfica justificaria esse tipo de negócio? Como é que se compra um jogador que podia até nem ser dos melhores do Marítimo? Não faria sentido nenhum comprar um atleta assim. Mas talvez não fosse preciso comprar.

Para todos os efeitos, houve um ex-jogador do Marítimo que assinou posteriormente pelo Benfica. Mas não foi comprado: foi contratado em final de contrato. Precisamente Patrick, um dos jogadores que surge associado às investigações da PJ face aos atletas do Marítimo que terão sido contactados por César Boaventura.


O Benfica nem se deu ao trabalho de apresentar Patrick aos associados, pois o brasileiro seguiu por empréstimo para o Vitória de Setúbal. Na lista de intermediários publicada pela FPF, é informado que a chegada de Patrick ao Benfica foi feita por intermédio de uma empresa chamada «FOOTBALL ASSESSORIA SERVIÇOS DESPORTIVOS, LDA». Não foi possível encontrar nenhum tipo de informação disponível online com uma empresa com este nome. É primeira vez que aparece no papel de intermediária nas listas publicadas pela FPF.

Mas o mais curioso é ler este trecho do jornal brasileiro Gazeta Online, que fala em duas empresas intermediárias completamente diferentes. O que levanta a questão: que empresa é esta, a Football Assessoria Serviços Desportivos, de nome tão genérico e sobre a qual não há informações online? Terá sido uma empresa criada com o propósito de meter Patrick no Benfica? Ou são tão low profile que nem disponibilizam informação online?


Voltando ao princípio. Fransérgio. Acabou por ser expulso já perto do final, por acumulação de cartões, na tal exibição em que o suposto ponta-de-lança jogou a maioria do tempo atrás da linha de meio-campo. Mas aparentemente o Benfica gostou da exibição, a avaliar por esta capa do jornal Record...

Falta saber do que gostou mais do Benfica: se do rendimento de unidades como Patrick ou Fransérgio, ou da grande exibição do ponta-de-lança invisível. 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primeiro Alvalade, depois o Vit. Setúbal

O clássico continua na próxima segunda-feira, às 20.00, no Estádio do Dragão, frente ao Vitória de Setúbal. Porque nada do que se conquistou ontem à noite na Luz terá valor se o FC Porto não der continuidade a esse resultado já na próxima ronda, frente a um adversário que na temporada passada empatou na Invicta. 

A margem de erro é diminuta e o FC Porto sabe que, vencendo o Vitória de Setúbal e o Marítimo, pode muito bem sentenciar o título na 33ª ronda. Para já, no entanto, nada é mais fulcral e difícil do que bater o Vitória de Setúbal. Isto no que ao Campeonato diz respeito, pois já na quarta-feira há uma final duríssima em Alvalade, frente ao Sporting, contra um adversário que vai ter que atacar desde o primeiro minuto e que, desde novembro, venceu todos os jogos das provas nacionais em casa e sempre sem sofrer golos.

Foi de uma justiça poética que Herrera, a quem foi anulado o legítimo golo da vitória na primeira volta, tenha sido autor do golo que decidiu agora o jogo na Luz. Mas foi difícil, muito difícil. Benfica melhor na primeira parte, FC Porto muito melhor na segunda. Jogo decidido num detalhe, na terceira vez na história do FC Porto em que o golo da vitória frente ao Benfica apareceu ao 90 minutos ou na compensação. Também foi assim com Bruno Moraes e Kelvin, em épocas em que o FC Porto foi campeão por um ponto. Por um ponto se ganha, por um se perde. Daí que nada importe mais, neste momento, do que o Vit. Setúbal.





Ricardo Pereira (+) - Entrou algo nervoso, o que o levou a cometer alguns lapsos defensivos, mas rapidamente se desinibiu e partiu para uma exibição que fez dele o melhor em campo ao longo dos 90 minutos. Cansou só de o ver correr por todo o campo, ora junto ao corredor, ora nos movimentos interiores. Foi responsável por quatro das cinco ocasiões de golo que o FC Porto criou na Luz, duas delas nas quais serviu de bandeja Marega na grande área, além de ter estado perto do golo num remate desviado pelo maliano. 

Foi o jogador em campo com mais ações com bola, 91 no total (o segundo melhor do FC Porto, Alex Telles, teve apenas 62), tendo-se ainda destacado na forma prática como defendeu (10 alívios, 10 bloqueios de passes/cruzamentos/remates). Uma exibição completa, na qual foi ainda o atleta com mais duelos ganhos (14). Fernando Santos estava a ver e só resta mesmo perguntar: como é que este rapaz nunca fez um jogo oficial (não particular, oficial) por Portugal?

Centrais (+) - Não foi o melhor jogo da dupla Marcano-Felipe, mas na visita ao melhor ataque da Liga dificilmente se poderia pedir mais. Marcano e Felipe secaram por completo Raúl Jiménez, estiveram quase sempre bem posicionados defensivamente e, contra uma equipa especialista em arrancar faltas, cada um deles cometeu apenas uma falta em 90 minutos. Jogaram muito mais adiantados no terreno do que, por exemplo, a dupla do Benfica, algo que contribuiu e muito para a subida de rendimento na segunda parte.

Iker Casillas (+) - Se Pizzi aproveitasse aquela oportunidade, quiçá estaríamos, neste momento, preocupados com o Sporting e com o 3º lugar. Iker Casillas apareceu quando foi necessário, com uma intervenção decisiva, e continua sem saber o que é perder com o Benfica ao serviço do FC Porto. Talismã.

Héctor Herrera (+) - Porquê sempre ele? Por exibições assim. Num meio-campo no qual as fivelinhas Otávio e Sérgio Oliveira, sobretudo na primeira parte, sentiram muitas dificuldades, Herrera teve que trabalhar por dois. E não havia Danilo. Foi uma exibição de trabalho do mexicano, que foi quem mais faltas sofreu (6), quem mais passes completou (38), teve 13 ações defensivas e foi o médio com mais duelos ganhos (10). E olhem, resolveu um clássico que inverteu a classificação do Campeonato no minuto 90, a jogar em casa do maior rival. Sérgio Conceição admitiu, um dia, a dúvida: «Um mexicano a capitão do FC Porto?». E não, um mexicano não: mas um jogador à Porto sim. Como Héctor. E obrigadinho por dar uma folga ao TdD por, segundo tantos, defender em demasia Herrera. Hoje lhe têm a agradecer a liderança e um travão ao penta do Benfica.






Primeira parte (-) - Divididos entre o receio e números de circo, foram 45 minutos de fazer arrancar os cabelos. Otávio incapaz de apertar Fejsa e de receber no miolo. Brahimi sempre a pegar na bola demasiado longe e a querer fintar em zona proibida. Soares com mais faltas cometidas do que remates ou jogadas de perigo. Marega novamente a aparecer no sítio certo, mas para falhar as melhores oportunidades. Sérgio Oliveira bem a ganhar no primeiro metro, mas depois a deixar-se entalar entre os jogadores adversários. E gritos, muitos gritos de Sérgio Conceição, que sabia que a coisa não estava a funcionar.

A primeira parte revelou uma vez mais uma equipa com muitas dificuldades em construir. O pouco que a equipa fez nasceu das investidas de Ricardo. Jogadores demasiado distantes uns dos outros, dificuldades em segurar a bola no ataque, bolas em profundidade que não resultavam em nada e imensas dificuldades em progredir em apoio. A segunda parte mudou e, embora o golo de Herrera tenha nascido de um ressalto e se desvie de toda a lógica de um plano tático, há dois detalhes que não se podem desvalorizar: é Óliver quem ganha metros com bola e «puxa» Brahimi, que vai finalmente recolher a bola no espaço interior e, rapidamente, tenta a tabela com Marega. A sorte também se procura, e esta acabou por ser merecida.


Já dissemos que é preciso ganhar ao Vit. Setúbal? Pronto. Mas primeiro vem aí mais um clássico. Duas festas em quatro dias na Luz e em Alvalade seria inédito na história do FC Porto e deixaria a equipa com uma mão na Taça de Portugal. Há semanas piores.  

Um pormenor: Herrera preferiu mostrar o símbolo na frente do que o nome nas costas

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O mesmo filme x3

Terceiro clássico da época. Terceira vez em que o FC Porto é muito superior ao rival. Terceira vez que não sofre golos. Terceira vez em que também não os marca. As grandes penalidades castigaram uma equipa que tem sabido ser melhor, que tem sabido manter a baliza trancada, mas à qual tem faltado muita clarividência nos grandes jogos para acertar na baliza.

Não se trata apenas dos clássicos, pois já tínhamos notado esse fenómeno na Liga dos Campeões. Antes da goleada ao AS Mónaco, em 10 golos, sete foram de bola parada, e os restantes divididos entre um contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada de insistência com vários ressaltos. 

Falta golo ao FC Porto nos grandes jogos. 270 minutos sem golos em clássicos - ainda que Aboubakar tenha marcado um golo limpo ao Benfica e que o golo anulado a Soares ao Sporting deixe muitas dúvidas; dúvidas essas que recomendariam que se deixasse o lance seguir - é algo para merecer a nossa preocupação, sobretudo sabendo que vêm aí mais quatro clássicos, que podem valer o Jamor ou até mesmo a liderança isolada/reforçada da I Liga. 

Exibicionalmente o FC Porto não se diminui. É mais forte, ataca mais, chega mais vezes ao último terço e tem sabido reduzir os rivais a escassíssimas oportunidades. Mas lá está: o FC Porto tem jogado sempre averso ao 0x0 inicial, é a equipa que mais luta para se desfazer dele, mas não tem sido feliz nesse aspecto. 

No que toca à Taça da Liga, houve diversas adversidades, desde o efeito psicológico de quebra por celebrar quase durante um minuto um golo que não valeu, a lesão de Danilo Pereira, a necessidade de remodelar um meio-campo que nunca tinha sido utilizado e a dureza imprópria neste jogo - FC Porto e Sporting têm uma média de 14 a 16 faltas cometidas e sofridas na I Liga, mas neste clássico cometeram 28 cada. 

E se já não bastava a maldita Taça da Liga, sobraram os malditos penáltis, onde o FC Porto tem sido imensamente infeliz. Benfica, Chaves, Braga, agora Sporting, não esquecendo os antecessores que vão desde o Fátima ao Schalke 04, o FC Porto tem perdido a esmagadora maioria de desempates por grandes penalidades nos últimos anos. Rui Patrício é forte nas grandes penalidades, mas acabou por defender tantos remates como Iker Casillas. Curiosamente, no último desempate com o Sporting o FC Porto tinha vencido, numa ronda em que só João Moutinho falhou. Desta vez saiu ao contrário. 

Aboubakar e Héctor Herrera (que até já tinha marcado desta forma a Rui Patrício num FC Porto x Sporting) nunca falharam uma grande penalidade em tempo regulamentar, mas desta vez erraram. O mesmo para Brahimi, que só tinha falhado 2 penaltys em toda a carreira e tinha uma eficácia de 80% na marca dos 11 metros, mas desta vez acertou no ferro. Correu quase tudo o que podia correr mal, enquanto o Sporting, inofensivo durante 90 minutos (a bola mais perigosa - a única - na direção de Iker Casillas foi-lhe endereçada pelo poste), teve a sorte grande nos penaltys. As meias-finais da Taça de Portugal já eram importantes, agora muito mais. 





Ricardo Pereira (+) - O melhor do lado do FC Porto, mesmo num jogo de dimensão física muito acima daquilo a que o lateral está habituado. Coentrão, Acuña ou Rúben Ribeiro não fizeram nada pelo seu corredor e Ricardo não se inibiu de ir ao ataque, com destaque para a grande jogada em diagonal que terminou com um remate para defesa de Rui Patrício. Fez quilómetros pelo corredor, deu sempre a zona central a Marega (poucos efeitos práticos, mas fartou-se de lutar) e mostrou uma condição física impressionante.


Alex Telles (+) - Certinho a defender, rápido a sair para o ataque. Não pôde chegar tantas vezes ao último terço como é habitual, mas tal como Ricardo fez um jogo irrepreensível na antecipação e na cobertura aos flancos. O Sporting não pôde utilizar os flancos para servir Bas Dost e isso deveu-se à boa exibição dos laterais do FC Porto, também sempre a saírem por cima nos lances de 1x1.

Reação à perda de Danilo (+) - Não há alternativa a Danilo no plantel do FC Porto. Isso já é um problema. Então perder Danilo nos primeiros minutos de um clássico, ainda pior. O FC Porto teve que reorganizar por completo a sua estratégia, com novas funções para Herrera e Sérgio Oliveira, Óliver a entrar a frio e o risco de ter a retaguarda mais exposta. Resultado? A partir dos 15 minutos, o FC Porto foi sempre superior ao rival e, na dimensão defensiva, não se sentiu a falta de Danilo. Ese também houve mais faltas do que o habitual, foi também porque foi necessário ser mais «rijo» perante a falta de Danilo. Grande resposta coletiva da equipa.





A definição (-) - Espaço para rematar? Mais um passe. Espaço para avançar? Vai remate daqui. Um colega ao segundo poste? Vai bola para o lado oposto. É um problema: o FC Porto chega sempre bem ao último terço, mas tem falhado bastante no momento de definição. Invariavelmente vimos Herrera, Sérgio Oliveira ou Marega chegarem com perigo à grande área, mas depois longe de tomarem a melhor decisão. Tendo em conta que o Sporting, em 180 minutos de clássico frente ao FC Porto, fez 2 remates à baliza, bastava aproveitar uma ou duas oportunidades das muitas criadas para ser feliz. 

Será a melhor fórmula? (-) - No Mónaco, Sérgio Conceição surpreendeu com a aposta em Sérgio Oliveira, num meio-campo reforçado. O FC Porto ganhou. Desde então, voltou a repetir isso mesmo em mais cinco jogos considerados «grandes». O FC Porto não ganhou nenhum deles. Talvez seja hora de repensar se esta estratégia funciona assim tão bem nos jogos de maior exigência. Sim, o FC Porto foi sempre melhor do que Benfica e Sporting, mas poderá Sérgio Oliveira ser o tal fator diferencial que vai aproximar o FC Porto da vitória? Não tem sido.

Além disso, há que colocar a questão: quantos clubes, em todo o Mundo, têm um jogador que só utilizam nos grandes jogos? Que tipo de jogador especial será Sérgio Oliveira que só jogou 26 minutos esta época em jogos de menor exigência, mas depois aparece 3 vezes como titular na Champions e 3 vezes em clássicos? Questionável, sobretudo quando há quase um espaçamento de dois meses desde a última aparição a titular. Uma vitória em seis jogos não é o melhor saldo para atestar a eficiência de uma fórmula para os grandes jogos. 

Os clássicos e o desenrolar da época mostram uma coisa: o FC Porto é melhor do que Benfica e Sporting. Mas aqui ninguém quer vitórias ou satisfações morais, mas sim resultados. A bola vai ter que entrar na próxima oportunidade. Para já o Moreirense. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Deixa-me só dar um jeitinho à casa

Já lá vão uns bons meses desde que Francisco Marques começou a divulgar e-mails de conteúdo comprometedor a envolver o Benfica, a arbitragem e os bastidores do futebol português. Até à data, as consequências práticas das divulgações semanais foram zero. Nada mudou, não houve punições, o Benfica segue impune. A única valia, até à data, foi a exposição do modus operandi que fez do Benfica tetracampeão e um eventual condicionamento para as épocas que se seguem.

Desde então, todos os que pretendem esclarecimentos sobre este caso - o FC Porto nunca acusou diretamente o Benfica de corrupção; o que fez foi expor matéria e apelar a sucessivas investigações - aguardam tomadas de posição públicas por parte das instâncias competentes. Passaram-se semanas sem haver uma única busca por parte da Polícia Judiciária. 

No verão, o MP e a PJ terão tentado levar a cabo buscas ao Benfica, mas o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa não cedeu as procurações. E segundo a revista Sábado, tal foi obra do juiz Jorge Marques Antunes, no seu último dia de serviço na instrução criminal, antes de ser transferido para outro tribunal. Foi o único esboço de uma tentativa de uma busca ao Benfica nos últimos meses.

Até que segunda-feira, no início desta semana, tivemos a confirmação de que as buscas ao Estádio da Luz estavam para breve. Como? Através desta declaração de João Correia, porta-voz da equipa de advogados do Benfica.

É absolutamente essencial que o Ministério Público e a Polícia Judiciária venham aqui a esta casa e verifiquem se aquilo que é divulgado pelo Porto Canal corresponde ou não à realidade.” Frase publicada no site oficial do Benfica há três dias. 


Portanto. Estão há meses, na praça pública, conteúdos que urgem ser alvo de investigação. E por milagre das coincidências, só hoje, três dias após este comunicado do Benfica, é que a PJ se apresenta no Estádio da Luz para começar a fazer buscas no caso dos e-mails!?

Isto faz lembrar aquela dona de casa muito preocupada com a forma como vai receber os convidados, que pede ao marido para empatar um pouco as visitas no hall de entrada enquanto dá um último jeitinho à sala. Então, enfim, tem a certeza que a sala está um brinquinho, pronta para receber as pessoas.

Como é claro, a partir do momento em que o Benfica incentiva a PJ a comparecer no Estádio da Luz, já tem a garantia de que a sala está bem arrumadinha. A PJ não vai encontrar absolutamente nada. Já estão a ver onde isto vai redondar: caso arquivado por falta de provas nas buscas. 

Isto faz lembrar todo o caso dos vouchers, em que também havia matéria para punir o Benfica por práticas ilícitas, em todo o dossier da Liga Aliança

Bruno de Carvalho revelou, no início de outubro de 2015, as ofertas ilegais que o Benfica fazia a equipas de arbitragem de todos os seus jogos. Só um ano depois é que foram feitas buscas no Estádio da Luz. Um ano depois! E qual foi a reação do Benfica a essas buscas? O Benfica emitiu um comunicado a afirmar que foi a própria SAD a convidar a PJ a fazer buscas na Luz. 

Ora, precisamente o mesmo que acontece agora no caso dos e-mails. Não é surpresa que, poucas horas após as buscas da PJ, o Benfica já tenha emitido um comunicado a realçar que foi o próprio clube a apelar à investigação: «Desde o primeiro momento [o Benfica] requereu e disponibilizou-se a fornecer toda a informação necessária a um cabal esclarecimento de toda esta situação». A papel químico. 

Este passo faz parte da lavagem já orquestrada e cujo desfecho já se antevê. A PJ não vai encontrar provas. Os cartilheiros virão a público, de peito cheio, afirmar que não houve provas nenhumas, que o clube colaborou com a investigação, que abriu a sua casa e que ninguém conseguiu encontrar nada. Tudo isto até ao passo final: caso arquivado. 

O FC Porto prometeu, no final de julho, que «o melhor ainda está para vir». É caso para se prepararem para expor «o melhor», porque se depender destas buscas da PJ, o Benfica sairá do caso dos e-mails da mesma forma que saiu dos vouchers: a rir-se e de forma livre e impune. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O árbitro vermelho

Adão Mendes é mais conhecido pelas funções que desempenhou na União de Sindicatos de Braga do que propriamente pela sua carreira como árbitro de futebol. No entanto, no meio tinha uma alcunha particularmente curiosa. Assim o recorda o Correio do Minho.

«No mundo da arbitragem era apelidado de 'árbitro vermelho' tendo em conta a sua filiação partidária», assim o recordam. Mas afinal, parece que a alcunha de «árbitro vermelho» se justificava por algo mais do que a sua filiação partidária.

O FC Porto não usou cartilhas, indiretas ou suspeitas: apresentou provas, factos, que atestam a forma como o Benfica controla a arbitragem. Este «esquema de corrupção para favorecer o Benfica» remonta à época 2013-14, precisamente a primeira do ciclo do tetra do Benfica e logo após o último título do FC Porto. Coincidência? Cabe ao Ministério Público apurar. 

É impossível ignorar, tanto quanto ver um golo marcado com a mão através do vídeo-árbitro. Os e-mails estão aqui como estiveram as escutas do Apito Dourado (processo de existência de corrupção no futebol português que apanhou, entre outros, Luís Filipe Vieira em escutas) no Youtube. O FC Porto foi julgado nas (in)devidas instâncias, mesmo pagando o preço de Portugal terminar em Leiria, e conseguiram associar uma imagem de 30 anos de corrupção ao FC Porto por culpa de dois jogos contra dois clubes simpáticos - Beira-Mar e Estrela de Amadora -, que já nem se encontram no mapa de futebol profissional em Portugal. E, diga-se, dois jogos dos quais o FC Porto nem precisava para ser campeão em 2003-04. Só conseguiram encontrar isso? A sério?

Agora, investiguem, enquanto se aplaude a posição do FC Porto, pela voz de Francisco J. Marques, de expor a teia de corrupção com factos e voz viva. Quando os interesses comungam na defesa do FC Porto e no combate aos adversários, não pode haver outra posição possível.

É de recordar, curiosamente, a posição do então diretor de comunicação do Benfica, João Gabriel, quando Marco Ferreira deu uma entrevista ao As em que falou da forma como Vítor Pereira protegia o clube da Luz. «Um frete do As ao amigo basco», chamou-lhe João Gabriel.

Então e agora? Será que esta também é um frete ao amigo basco? Não. É apenas a forma como o tetracampeonato do Benfica está a ser visto lá fora. Sujinho, sujinho, sujinho. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Lanterna e poste de iluminação

Sim, isto aconteceu. «Quem não salta é lapião». É isto que está escrito na base de um dos castigos aplicados ao FC Porto no jogo frente ao Nacional, devido a cânticos de parte dos adeptos. 


«Quem não salta é lapião». Uma expressão muito curiosa no relatório à responsabilidade de António Soares e Álvaro Maia, os delegados escolhidos para o FC Porto x Nacional. Afinal de contas, o que significa «lapião»? Que palavra é essa tão grave que justifica uma menção no relatório?

Abrimos o dicionário... e nada. A palavra «lapião» não existe. No entanto, o FC Porto foi multado por parte dos seus adeptos, aparentemente, ter gritado que «e quem não salta é lapião».

Isto já é motivo suficiente para o FC Porto se recusar a aceitar este castigo, pois o Conselho de Disciplina nem sequer é competente o suficiente para citar uma palavra corretamente num relatório. Mas vá, admita-se que o que estava em causa era a expressão «e quem não salta é lampião».

Mas nesse caso, o que significa ao certo «lampião»?


Algo está aqui a faltar nos dicionários Porto Editora. Vejamos. «Quem não salta é uma lanterna», é ofensivo? «Quem não salta é um poste de iluminação pública», é pejorativo? Onde está exatamente a ofensa em «lampião»? Cabe a quem escreveu o relatório e quem atribuiu um castigo ao FC Porto com base nele o esclarecer.

Sim, nas trocas de bocas entre adeptos, os benfiquistas são tratados muitas vezes por lampiões, e os portistas por tripeiros. Nesse caso, se «lampião» é uma palavra que motiva um castigo, onde está o castigo aplicado ao Benfica quando os adeptos, em pleno jogo, decidiram cantar «tripeiro, cabrão»?


Relativamente à segunda expressão que é invocada, o «filhos da puta SLB». Por mais absurdo que seja os adeptos do FC Porto estarem a pensar no Benfica quando a sua equipa está a golear o Nacional (o tempo é sempre mais bem aplicado em apoio à equipa do que em ofensa ao adversário - sobretudo ao adversário que nem sequer está em campo), onde esteve a coerência do Conselho de Disciplina durante o último Benfica x FC Porto?


Antes de cada pontapé de baliza, os adeptos do Benfica gritaram «filho da puta» dirigido a Iker Casillas, guarda-redes do FC Porto. Houve menção disso no relatório de jogo? Houve castigo com base na mesma ofensa? Ou o tratamento é diferente entre os adeptos do FC Porto e do Benfica?

Antes de pagar qualquer tipo de multa, o FC Porto só tem que invocar estas questões e precedentes. E a Porto Editora tem que atualizar o seu dicionário. 

PS: Uma vez mais, o FC Porto volta a receber multas por culpa dos petardos nas bancadas. Ou a(s) claque(s) assume(m), de vez, o fim desta brincadeira que no final da época custa dezenas de milhares de euros ao clube, ou então talvez seja boa ideia o FC Porto começar a apresentar essas faturas aos responsáveis pelo lançamento de petardos. Não digam que não é possível organizar uma coreografia ou falanges de apoio expressivas e pujantes o suficiente sem petardos. Se não é, nesse caso, o FC Porto já sabe a quem tem que apresentar as próximas faturas pelo lançamento de material pirotécnico. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O canto de Herrera e a defesa de Casillas

Três coisas diferenciam os dois clássicos que o FC Porto disputou esta época no Estádio do Dragão. Primeira: o FC Porto jogou muito, muito melhor contra o Benfica; Segunda: o erro de Herrera, contra o Benfica, fez notar defeitos nos quais poucos reparariam se o jogo tivesse acabado antes daquele pontapé de canto, enquanto desta vez Casillas evitou uma enxurrada de críticas que provavelmente se seguiriam devido à postura do FC Porto depois do 2x0; por fim, o FC Porto, não jogando bem, consegue um bom resultado contra o Sporting, ao contrário do que aconteceu frente ao Benfica, jogo em que mostrou até determinada altura o melhor futebol da época.

Não é tempo de vitórias morais: o FC Porto precisava de vencer, e venceu. Se era jogo em que se podia jogar mal, desde que se vencesse, era este. Este resultado permite tratar a luta pelo título como um assunto praticamente a 2 até ao final da época, ao mesmo tempo em que deixa o apuramento para a Liga dos Campeões muitíssimo bem encaminhado.


O mérito repete-se: o FC Porto tem mais pontos do que aqueles que tinha em qualquer uma das últimas três épocas, mas tem menos pontos do que o campeão em qualquer uma das últimas sete temporadas. No entanto, há que saudar que em 11 jornadas no Dragão o FC Porto só perdeu 2 pontos, precisamente frente ao Benfica. 

O Sporting é uma equipa extremamente limitada fora de casa. Basta dizer que só ganhou 3 jogos fora de portas no Campeonato, sempre por 1x0, e sempre por um detalhe quase sempre chamado Bas Dost, com dois golos em cima do apito do árbitro. Além de que tem uma diferença de golos negativa fora de casa. O FC Porto não podia falhar. E não falhou. 

Segue-se a primeira de 6 jornadas em que o FC Porto sabe o que tem que fazer para não estar com ouvidos ou esperanças noutros estádios: 18 pontos antes da visita ao Benfica. Aproxima-se o último terço do campeonato e o FC Porto tem, à data de hoje, as melhores condições que já teve esta época para lutar pelo título. Teve, contra o Sporting, a ponta de felicidade que faltou noutras alturas, ainda que seja importante perceber que não hão-de ser muitas as vezes em que se consegue tão bom resultado jogando tão pouco, sobretudo na segunda parte. 





Soares (+) - «Não será de estranhar se NES o utilizar já contra o Sporting, para tentar ganhar o jogador. Se Soares tiver a felicidade de contribuir ativamente para uma vitória no clássico, ganha desde logo um crédito enorme sobre a sua contratação», escrevia O Tribunal do Dragão no post do balanço do mercado. Assim foi, NES lançou logo Soares e foi uma aposta ganha para o clássico, com 2 golos na estreia. De notar que o FC Porto fez apenas 3 remates à baliza em todo o jogo, e desses 2 foram os golos de Soares.

Mas o que mais se fez notar foi a quantidade de vezes que o FC Porto solicitou Soares durante o jogo. Para se ter noção, Soares foi a 38 bolas durante o jogo (André Silva e Diogo Jota, juntos, não costumam ir a tantas num só jogo). É certo que perdeu a maioria dos lances que disputou (24 vezes), mas era difícil pedir mais: arrancou 8 faltas, fez 2 dos 6 passes do FC Porto para situação de finalização e conseguiu 2 golos nos 2 primeiros remates ao serviço do FC Porto. Um estreia de sonho e a confirmação: o clássico serviu para ganhar o jogador, tanto que NES até fez algo que nunca tinha feito esta época - substituir André Silva antes dos 65 minutos.


Casillas (+) - Tremeu num cabeceamento de Bryan Ruiz, não teve punhos de ferro para o remate de Alan Ruiz, e acabou definitivamente com um fantasma chamado... Manuel Neuer. A partir de agora, quando nos lembrarmos de uma exibição sobrenatural de um guarda-redes no Dragão, não nos recordaremos do festival de Neuer pelo Schalke 04. Acabou. Agora pensaremos na exibição de Casillas. Foi apenas uma defesa? Pois foi. Mas foi uma defesa que valeu um clássico, clássico esse que pode valer muito mais nas próximas semanas. No momento em que tudo, literalmente tudo ia cair, Casillas manteve o FC Porto de pé. Que mais se pode pedir a um guarda-redes?

Outra vez, a entrada (+/-) - Dois extremos criativos, dois avançados. Uma ideia clara de começar a pressionar logo no início de construção do Sporting. Abdicar de uma construção mais lenta logo no início para empurrar cedo o Sporting para o seu meio-campo. O FC Porto apresenta-se com unidades e plano de ataque, marca cedo, não deixa o Sporting fazer nada nos primeiros 20 minutos. Tal como contra o Benfica, NES não teve receio de preparar um FC Porto declaradamente ofensivo para o clássico, sem receio do adversário na entrada em campo. Mas uma vez mais, foi uma intenção que se esfumou por completo na segunda parte. A diferença é que desta vez houve Casillas.





Demasiados Rebelos (-) - O Estrela da Amadora tinha, na década de 90, um central chamado Rebelo. Um daqueles dinossauros rijos como já não há no futebol português, guiado pela máxima «ou passa a bola, ou passa o jogador». Rebelo não facilitava: estava lá para chutar a bola para longe. E jogo após jogo, ouvia-se na Reboleira: «Alivia, Rebelo!» E assim era, minuto após minuto: o Rebelo fazia questão de devolver a bola para o meio-campo adversário. Fez bem o seu trabalho.

Houve um fenómeno similar no Dragão: parecia não haver meio-campo, tamanha a insistência em que as bolas era diretamente chutadas em profundidade para as costas das laterais do Sporting. Pode ser uma boa jogada para surpreender o adversário, mas quando o FC Porto não faz outra coisa o jogo todo, é óbvio que há motivos para preocupação.

Danilo, Marcano e Felipe têm uma eficácia de passe acima dos 82% na Liga. São por norma certinhos na saída de bola. Contra o Sporting, Danilo teve 54,2%, Marcano 61,1%, Felipe 78,6%. Mais, Maxi teve 53,3%, Alex Telles 50% e Casillas 39,1%. Isto tem uma justificação: o FC Porto só procurava bater bola na frente para o flanco. Poucas vezes construiu jogadas pelo meio, tanto que Óliver Torres fez apenas 29 passes em todo o jogo e Danilo 24. Em média, Danilo costuma fazer 57 e Óliver 48.

Cada bola longa do FC Porto nas costas das laterais era uma bola entregue ao Sporting. O FC Porto bateu mínimos de posse de bola no campeonato no Dragão, com 34%, mas mais preocupante ainda, errou 37% dos passes que fez. É certo que o 1x0 nasceu, inicialmente, da intenção de uma bola longa, mas houve dois fatores que diferenciaram o lance: primeiro, André Silva ganhou a primeira bola de cabeça, coisa que poucas vezes os avançados do FC Porto conseguiram fazer; depois, Corona soube esperar pelo momento exato para meter a bola no sítio certo na grande área. Foi uma das poucas vezes em que houve cabeça no ataque do FC Porto, em que houve uma jogada desenhada que não fosse um balão para a frente.

O lance do 2x0 ajudou, e muito, a disfarçar uma exibição que estava a ser limitada: o passe de Danilo é soberbo, mas foi a diagonal de Soares a torná-lo ainda melhor. Se é certo que o FC Porto, apesar de tudo, quase não permitiu que o Sporting existisse na primeira parte, na segunda o FC Porto desiste por completo de ter a bola. Apareceram demasiados Rebelos em campo: o que importava era que a bola estivesse longe do meio-campo do FC Porto e que o relógio passasse. O Sporting entra 43 vezes na grande área, faz 18 cruzamentos, e apesar de não ter tido propriamente muitos remates perigosos viu o FC Porto dar-lhe por completo a iniciativa de jogo.

Ganhámos? Sim, que foi o que interessa. Mas bastava Casillas não ter chegado àquela bola, ou Rui Patrício ter chegado a uma das de Soares, que isto e muito mais cairia em cima da exibição da equipa e das opções do treinador. O ideal é que isto tenha sido um meio para um fim: o FC Porto usou armas diferentes para ganhar ao Sporting, mas não tenciona acabar a época a jogar resumido ao chutão para a frente. Se é verdade que no final funcionou, bastava a luva de Casillas ter escorregado e tudo seria diferente. Ganhámos quando importava, mas não vamos ganhar muitas vezes assim. Nem vale a pena tentar.


PS: Um à parte. Se dúvidas existiam para alguns, um exemplo perfeito de como Jorge Jesus nunca, nunca poderá vir a treinar o FC Porto. Nunca. Logo após um clássico, cair em cima de um miúdo que fez a sua estreia pela equipa principal num grande clássico revela um nível de asquerosidade do qual nem Jorge Jesus parecia ser capaz. É certo que o problema maior não é Palhinha: Jorge Jesus estava a deixar uma crítica maior a Bruno de Carvalho do que ao próprio Palhinha. Na prática, o que Jesus estava a afirmar é que não teve os reforços que queria, estava a deixar um recado interno. Por isso, «paga-se um bocadinho caro» ter uma equipa com uma grande base da formação. Acontece que Jorge Jesus estava habituado, no Benfica, a ter todos os jogadores caros que queria. E sem ter compras de luxo, não consegue ir além de um nível mediano que, no final, roça a mediocridade. Um treinador que culpa um jogador de não levar o guião correcto, quando o treinador é que é o responsável por passar o guião aos jogadores, diz tudo sobre o seu nível. Jorge Jesus, no Dragão, nunca. Ou então sim, desde que seja sempre como treinador visitante... e derrotado. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Despenalização

«Em Inglaterra, quando um jogador é mal expulso é-lhe retirada a punição. No nosso jogo contra o Moreirense, foi mal expulso um jogador nosso e não lhe retiraram o cartão».

Nuno Espírito Santo, 06/01/2017

O texto de hoje do Dragões Diário, nomeadamente o primeiro parágrafo, foi tão pertinente e incisivo que dispensa que se lhe acrescente algo. Fosse, seja, sempre assim. Era preciso cultivar a ideia de que Danilo Pereira foi expulso por insultos ao árbitro. E se a FPF foi cúmplice nisso, o FC Porto só tem que agir para apurar consequências e responsabilidades. A Assembleia Geral da FPF tem mais de 80 delegados. Dêem-lhes que fazer. 

Nuno Espírito Santo notou, e bem, que Danilo Pereira não viu o seu cartão amarelo ser retirado, algo que provavelmente aconteceria em Inglaterra. Mas a verdade é que Portugal tem precedentes de despenalização de cartões.

Hoje como há 15 anos atrás, há coisas que não mudam. Vamos recordar o FC Porto x Benfica de 2001-02. Reviravolta, golos de Deco, Alenichev e Capucho (chapéu!), grande jogo. Se o Benfica ganhasse, passava à frente do FC Porto. Como perdeu, ficou a 3 pontos e mais perto do 5º lugar do que do 3º. Não era o tempo de ficarem sem o seu melhor jogador. Então o que acontece? O insuspeito Record traz o relato de então, com Simão Sabrosa a ser despenalizado de um cartão amarelo.


O precedente já tinha sido aberto antes, também a envolver o Benfica, e também a envolver o FC Porto. Neste caso, com Poborsky, que foi castigado com um cartão amarelo depois de ter simulado uma falta para penalty - Vítor Baía não lhe tocou, mas Nuno Gomes fez justiça ao falhar o penalty. Acontece que o CJ da FPF decidiu depois retirar o cartão amarelo a Poborsky.

Certo. Reformularam-se os organismos, mudaram as pessoas, mas o denominador em comum mantém-se. Não é que o FC Porto seja sempre o lesado. Por exemplo, Cabral viu vermelho direto num Braga x Benfica. Que aconteceu? O cartão vermelho foi-lhe retirado e na jornada seguinte já estava a jogar na Luz.

Os tempos até eram dourados para o FC Porto, que era pentacampeão, mas nem isso parecia ajudar o clube junto do CJ da FPF. Nem José Guilherme Aguiar, pois o FC Porto tentou uma despenalização de Jardel contra o mesmo SC Braga, por má amostragem de um cartão amarelo que resultou numa expulsão, mas o jogador não foi despenalizado. 

Também houve precedentes? Houve. Costinha e McCarthy já viram ser retirados cartões que tinham sido mostrados erradamente. Então, é caso para questionar: por que é que agora Danilo não teve o mesmo direito? Vamos supor que foi, como a FPF quis cultivar, por insultos ao árbitro. Então, vamos novamente calcular os precedentes.

Quando Rui Vitória, no Marítimo x Benfica, mandou Vasco Santos para o Ricardo Carvalho sem prenome e sem V (algo que as imagens televisivas mostraram, ao contrário de qualquer tipo de insulto por parte de Danilo), que aconteceu? Nada, só um calorzinho na orelha. 


Mas isto na Luz faz escola. Reparem na naturalidade com que Pizzi, porventura o melhor jogador do Benfica nesta fase, admitiu no 15º Encontro Nacional de Jovens Árbitros (uma vez mais, a proximidade entre clube e arbitragem sobressai) que insulta árbitros. «Já chamei nomes, já disse várias coisas que não se podem dizer aqui». Não deve haver nenhum jogador que nunca tenha soltado uma palavrinha para a mãe de um árbitro. O problema é a diferença de tratamento e os precedentes que só vão servindo o Benfica. 

Porque não foi Danilo despenalizado? Que responda a FPF. E se é tão claro que Danilo foi expulso por protestos, então qual o motivo para não o terem afirmado publicamente, protegendo assim o seu árbitro e evitando serem alvo de chacota em todo o mundo pela expulsão mais ridícula de sempre? Pois.

Numa jornada em que o Benfica vai a Guimarães, o FC Porto a Paços de Ferreira e ao primeiro deslize do rival podemos passar a depender de nós próprios na luta pelo título, todo o cuidado é pouco. 

PS: À saída do supermercado, ao fazer marcha atrás, não vi uma velhinha que estava sossegada na berma da estrada e passei-lhe por cima. Seguindo os ensinamentos da escola Luís Godinho, vou processar a malandra por se ter metido à frente - neste caso atrás - e agredido a minha viatura. A não ser que alguém se lembre de distribuir mails a denunciar que a velhota me insultou. É capaz de ajudar. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A mãozinha por trás de um padrão

Estão cumpridos os clássicos da primeira volta. O Benfica ganhou 4 pontos, um deles sacado no Dragão nos descontos, o Sporting conseguiu 3 pontos e o FC Porto teve um empate com sabor a derrota. Destacam-se duas conclusões: o Benfica, sendo inferior nos dois clássicos, teve os melhores resultados; e as decisões consideradas difíceis, polémicas ou duvidosas dos árbitros favoreceram todas o Benfica. 

Seguem seis lances que envolvem situações de bola na mão vs. mão na bola na grande área, todos eles ocorridos nos clássicos desta época. Nenhum deles é absolutamente conclusivo: todos geram dúvidas. E todos eles foram arbitrados em constante prejuízo do FC Porto e benefício do Benfica. 

Primeiro caso, a envolver Gelson Martins no momento anterior ao golo do empate do Sporting frente ao FC Porto. Tiago Martins mandou jogar.


Mesmo jogo, nova situação de braço na bola na grande área, desta vez com Bryan Ruiz. O Sporting virou para 2-1 na sequência do lance e o FC Porto perdeu em Alvalade.


FC Porto-Benfica. Mitroglou joga a bola com o braço na grande área do Benfica. Artur Soares Dias nada assinala. 


Exatamente no mesmo lance, a bola ressalta para o braço de Felipe. Aqui, Soares Dias assinala falta do defesa do FC Porto, que tinha acabado de assistir André Silva para o que seria o 1x0 na primeira parte. 


Mais recentemente, o Benfica-Sporting. Pizzi joga a bola com o braço na grande área, sem oposição de qualquer adversário, e lança o contra-ataque que o Benfica transformou no 1-0.


No mesmo jogo, novo lance a envolver um braço, a bola e a grande área. Sem oposição, Nelson Semedo joga a bola com o braço. Jorge Sousa nada assinalou.


São, todos eles, lances que suscitam dúvidas. Não são unânimes, e neste caso são lances que vão além do clubismo, pois diferentes pessoas de diferentes clubes podem ter diferentes opiniões. O que só mostra que o vídeo-árbitro, neste caso, não vai servir absolutamente para nada, pois só vai adensar polémicas e dúvidas - qualquer benfiquista defende que estes lances são legais, enquanto qualquer sportinguista/portista vai considerar que houve infrações. Imaginem quando um árbitro tomar decisões através das mesmas imagens que qualquer adepto vê...

Mas o que está em causa é isto: em todos estes lances, o FC Porto foi sempre a equipa prejudicada, seja contra Benfica, seja contra o Sporting. Quando chegou a vez do Benfica-Sporting, foi o Sporting a ser o prejudicado. O que se conclui? O FC Porto, em caso de dúvida, foi desfavorecido em todos os lances que envolvem mão, bola e a grande área; o Benfica foi favorecido em todos; e o Sporting foi beneficiado contra o FC Porto e prejudicado contra o Benfica. 

Mas não há-de ser mais do que um punhado de coincidências. Daquelas que valem campeonatos. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Grandes e pequeno

Na época passada, o Benfica perdeu os 2 clássicos com o FC Porto, tendo ainda perdido por 3x0 em casa com o Sporting. Acabou por ser campeão. Isto diz desde logo que não é pelo resultado de ontem que o FC Porto reduz ou aumenta as suas hipóteses na luta pelo título. Na verdade, até as aumenta como nunca no que toca a termos exibicionais: vimos um FC Porto vulgarizar o Benfica durante grande parte do jogo, numa das poucas vezes esta época em que mostrou fibra de campeão.

Infelizmente, o minuto 92 dá para os dois lados. Um detalhe decidiu o jogo, e transformou uma exibição que estava a encher de orgulho todos os portistas na típica enxurrada de críticas que não existiriam se Herrera não tivesse cometido aquele erro, ou se não tivessem metido Herrera em campo, ou se tivessem vendido Herrera. Um único erro é pretexto para encontrar mil e um responsáveis, ainda que a exibição tenha sido exatamente a mesma. A exibição, sim, merece nota positiva. O resultado, infelizmente, não.

O FC Porto já perdeu 9 pontos em 10 jornadas. Na época passada, em 34 jogos, o Benfica perdeu apenas 14 e o Sporting 16. A equipa já perdeu muitos pontos, uns de mãos beijada e outros por erros de arbitragem, e as contas - que é o que conta sempre para a história - começam a ficar complicadas. 

É sabido, desde o início, que esta não é uma época em que o FC Porto se tenha preparado convenientemente para o título, desde a forma como foi gerida a pré-época à escolha dos marujos para este leme. Mas o que mais custa é que a equipa mostrou ontem capacidade, muita capacidade, e fez quase até ao final os adeptos acreditarem que aquele jogo podia ser um ponto de viragem.

No final, fica (quase) tudo na mesma. Dentro de campo sinais muito positivos até determinada altura, nas contas tudo igual. Na verdade, infelizmente não fica tudo na mesma: o FC Porto deixa de depender de si próprio na luta pelo título. Seria difícil sob qualquer circunstância, ontem complicou-se um pouco mais, ironicamente no dia em que o FC Porto mais força e argumentos mostrou para se chegar à frente. É futebol... e mais umas coisas.




Óliver Torres (+) - Podem falar de Nuno Espírito Santo, de Herrera ou de Artur Soares Dias. Mas o momento-chave foi este: o FC Porto morreu quando Óliver Torres saiu de campo. Pensemos naquilo que foram os primeiros 5 minutos do FC Porto em campo: primeira posse de bola, Maxi manda um balão para a frente; segunda posse, mais um biqueiro para a frente; terceira bola, balão de Felipe para André Silva; quarta bola, cruzamento de Alex Telles a meio do meio-campo; quinta bola, mais um balão de Felipe para a frente. Estes foram os minutos iniciais do FC Porto e foram assustadores, pois davam a ideia de que o FC Porto ia jogar à imagem do que vinha sendo hábito para NES. Mas tudo mudou, graças a Óliver.

O FC Porto começa a crescer quando deixa de mandar o chutão para a frente e Óliver começa a baixar mais para ir buscar a bola. Foi aí que o FC Porto cresceu: médio a vir buscar a bola e a iniciar a transição rápida e apoiada com a bolinha no chão. Óliver fez um jogo simplesmente sensacional, tendo mantido toda a equipa a funcionar à sua volta. Colou a bola ao pé, distribuiu-a, arrastou os jogadores do Benfica, progrediu, meteu o FC Porto a jogar na órbita da grande área. Aos 67 minutos, saiu de campo. O FC Porto não voltou a ser o mesmo.


À Porto (+) - Ser Porto não é ganhar sempre, mas tem que ser lutar sempre para ganhar. Ontem, os jogadores deixaram claro que deram tudo, tudo para ganhar. Lutaram por cada bola, pressionaram o adversário, meteram o pé, fizeram cara feia nos sprints, jogaram com objetividade durante a maior parte do jogo e contagiaram os adeptos com a sua garra e crer. Excelente atitude, a todos os níveis. Ontem, não mereciam aquele soco no estômago. Nada a apontar na entrega e dedicação da equipa. 

Outros destaques (+) - Mais um bom jogo de Alex Telles. Ganhou quase todos os lances pelo seu corredor, apoiou o ataque, acelerou o jogo a partir do seu flanco e ainda roubou 6 bolas. Está num bom momento. Danilo Pereira, mais do mesmo: foi o principal recuperador de bolas e foi sempre a garantia de equilíbrio num meio-campo de alta rotação. Diogo Jota fez um golo e a sua versatilidade em campo foi sempre uma arma útil ao FC Porto (ora caía no flanco, ora desequilibrava em zona interior). Seria interessante descobrir por onde andam os indignados pela contratação de este suposto benfiquista. Corona decidiu várias vezes mal e mostrou muita hesitação, mas agitou o jogo, fez diagonais perigosas e com ele em campo o FC Porto tinha sempre uma via para criar perigo. Palavra também para mais um jogo limpo e autoritário de Marcano, a disponibilidade de André Silva e o empenho de Otávio no meio-campo. Mereciam muito mais. 





Machadada final (-) - Uma pequena retrospetiva de jogos contra o Benfica. Em 2003, Mourinho tirou Alenichev e meteu Tiago. Ninguém o acusou de ser medroso. Na Supertaça de 2004, Víctor Fernández tirou Quaresma e meteu Bosingwa. Ninguém o acusou de ser defensivo. Em 2011, na Luz, Villas-Boas trocou Falcao por Maicon. Ninguém o acusou de ter medo.

O que têm estes 3 jogos em comum? O FC Porto ganhou ao Benfica. Por isso, ninguém ousou criticar a opção defensiva tomada pelo treinador. Aconteceria exatamente o mesmo se o jogo ontem tivesse terminado aos 91 minutos. Se aquele golo de Lisandro não tem acontecido, todos estariam satisfeitos com NES, a fundamentar teorias de crescimento da equipa e a elogiar a sua estratégia. Como o FC Porto não venceu, voltou tudo a cair em cima do treinador, naquele tal ciclo vicioso.

A diferença? Nos três jogos referidos, estamos a falar de uma alteração de Fernández, outra de Mourinho e outra de Villas-Boas. Neste caso, as três alterações de NES deram sinais ao FC Porto para recuar. Foram três alterações defensivas. Nuno Espírito nem sequer ousou refrescar o ataque. Não, todos os sinais dados para dentro de campo foram para recuar. Por isso, o problema não foi tirar Jota para meter Herrera. O problema foi que aquela já era a terceira alteração de cariz defensivo. A melhor maneira de defender um 1x0 é esticar o jogo, refrescar o ataque, manter quem segure a bola na frente. Nuno preferiu recuar. 

Nuno Espírito Santo foi o que tem sido desde que chegou ao FC Porto: um treinador com mentalidade demasiado pequena. Um treinador que foi o que não podia ser: pequeno. E esta é a crítica que sumariza tudo: quando Rui Vitória começou a mexer na equipa, o Benfica melhorou. Quando Nuno começou a mexer na equipa, o FC Porto piorou. Provavelmente, muitos não teriam ou subscreveriam estas críticas se o FC Porto tivesse ganho. Mas é por isso que O Tribunal do Dragão opinou negativamente muitas vezes em relação ao pensamento e estratégia de NES mesmo após bons resultados. Porque quando se perde pontos é muito fácil apontar o dedo e criticar; difícil é conseguir ter sentido crítico durante as vitórias, de modo a alertar para coisas que podem acontecer no futuro se a equipa não mudar. Ontem foi uma delas. Se o FC Porto cumprir alguns dos seus objetivos, não será «graças a». Será «apesar de». 

Nem Brahimi nem Depoitre para segurar a bola na frente. Não, Nuno quis recuar. Sentiu medo de um Benfica que tinha sido quase inofensivo até então. Em sua defesa, era lógico que, após a entrada de André Horta, o FC Porto tinha que reforçar o meio-campo. E fê-lo bem, com Rúben Neves. Mas e depois? Que sinais foram dados à equipa? O FC Porto deixou de pressionar a saída de bola do Benfica e, com isso, deixou o adversário crescer. É claro que nenhuma equipa joga 90 minutos de alta rotação, mas faltou capacidade ao FC Porto para gerir o jogo com e sem bola e manter o Benfica no seu meio-campo. E isso começa no trabalho do seu treinador.

Agora, Herrera. Cometeu um erro, um erro que custou caro. Ingrato para um jogador que é capitão do FC Porto e que sempre teve uma conduta profissional irrepreensível. Errou. No último jogo frente ao Benfica, fez um golo e foi o melhor em campo, tendo sido decisivo na vitória na Luz. Ontem conheceu o outro lado da moeda.

Todos sabem que Herrera, no FC Porto, não é peixe na água. Mas já teve grandes jogos, já teve grandes momentos de forma, já revelou utilidade em vários momentos nos últimos 3 anos. Mas talvez seja possível concordar com uma coisa: provavelmente, nenhum leitor d'O Tribunal do Dragão recusaria uma proposta de 30M€ por Herrera. Se calhar nem de 20M€. Portanto, quem considerou que rejeitar 30M€ e manter Herrera era a melhor estratégia é que deveria opinar sobre isto. Ninguém imaginaria que o jogador cometesse aquele erro, mas aconteceu. Não foi um auto-golo, não foi um penalty, não foi uma expulsão. Foi um corte mal calculado, como tantos acontecem em todos os jogos. Este veio na pior altura e para o pior jogador possível (se tivesse sido Rúben Neves, Óliver ou André Silva, ninguém lhes dirigiria um décimo das críticas). 

Paragem para as seleções, depois do jogo mais amargo da época. Porquê tanta amargura? Porque vimos que o FC Porto era capaz. E uma equipa que vulgariza de tal forma o tricampeão durante (quase) 90 minutos não pode baixar as armas por causa de um erro.