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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Salazar estaria orgulhoso

Despedida do Estádio do Dragão da época 2016-17, com a garantia de que se completará um ciclo de, pelo menos, cinco anos sem que voltemos a festejar um título na nossa fortaleza. A mesma fortaleza em que o FC Porto não consentiu uma única derrota esta época, mas em que somou três empates que comprometeram seriamente a luta pelo título.

Mas ao contrário do que se possa fazer crer, este não é um título que se perde em casa - o FC Porto, na época 1999-2000, somou 49 pontos em 51 possíveis e mesmo assim não deu para chegar ao título. Este é um título que se perdeu por muitas vias: começando pela pré-época, com uma má escolha para o cargo de treinador e uma má abordagem na gestão/reforço/definição do plantel; perdeu-se com sucessivos erros arbitrais que impediram o FC Porto de ganhar pontos e confiança preciosas em algumas jornadas; perdeu-se com a falta de crescimento da equipa e de qualidade individual em alguns momentos; perdeu-se porque o FC Porto falhou em quase todos os momentos decisivos, enquanto o Benfica raramente tremeu quando o FC Porto pressionou - mesmo que tenha havido fatores externos a reforçarem-lhes as varetas na hora da pressão. Inegável, mas para a história fica sempre o mesmo: o FC Porto perdeu este título de campeão para o Benfica. Mais um. 

E agora? E agora há quem clame que o Benfica pode ser tetra pela primeira vez, mas que o FC Porto continua a ser o único penta. Quem diria, um portista cada vez mais agarrado ao passado para combater a realidade do presente. Talvez ignorem é que, dentro de um ano, o penta pode muito bem deixar de ser um exclusivo, sobretudo se não houver melhorias necessárias de forma gritante, desde a equipa técnica à postura da SAD em todas as posições do futebol profissional (desde o mercado aos órgãos de poder), bem como reajustes no plantel em todos os setores. E acima de tudo, não pensar que é com uma troca de treinadores que se resolvem todos os problemas, sobretudo quando conseguem escolher um pior do que o que já cá estava, sem quaisquer valias ou currículo que o recomende para o FC Porto.

Esta vitória sobre o Paços de Ferreira não será recordada nos livros de história, infelizmente, mas não deixa também de ser curioso a facilidade com que desta vez se apitaram duas grandes penalidades a favor do FC Porto. Ainda assim, a maior história do jogo não é essa. Já lá vamos.





Héctor Herrera (+) - Um golo atípico na sua carreira, de cabeça, e uma bela assistência para Diogo Jota. Sem Danilo de início e com André André a baixar muitas vezes no início de construção, aproveitou para se libertar e foi o jogador mais interventivo em campo, tendo não só chegado várias vezes a zonas de finalização como tido diversas ações defensivas (16 no total). Uma boa exibição, mas ainda assim não deve continuar a haver muitas pessoas que teriam recusado uma proposta de 30M€ por ele no último verão. Fica também uma palavra para mais uma exibição bastante razoável de Otávio no meio-campo. 

Diogo Jota (+) - Entrou, agitou o ataque, fez um golo, arrancou um penálti e confirmou um estatuto invulgar para um jogador emprestado no seu primeiro ano de equipa grande: é o jogador do FC Porto com maior influência direta em golos por minuto no Campeonato. Diogo Jota faz um golo ou assistência a cada 110 minutos, uma média excelente para um menino que completou apenas 20 anos em dezembro. E agora? Agora terá a palavra o FC Porto, o Atlético de Madrid e Jorge Mendes. Não necessariamente por esta ordem. 





Será que chega? (-) - Quando Soares chegou ao FC Porto e teve uma entrada a matar, não tardaram as comparações com grandes goleadores da história do FC Porto. Uns falaram em Derlei, outros chegaram a Jardel. Mas talvez a comparação mais ajustada seria esta: Adriano. Não necessariamente pela qualidade técnica dos jogadores, mas por terem tido o seguinte papel: excelentes como reforços de inverno, mas talvez não o suficiente para serem considerados titulares no FC Porto a longo prazo.

Soares superou claramente as expetativas no FC Porto - 12 golos em 16 jogos é sempre excelente, apesar de nos últimos 9 jogos ter apontado apenas 3. Mas será necessário ponderar seriamente se terá a capacidade de se assumir como um titular indiscutível e decisivo no FC Porto. Adriano (que curiosamente também foi determinante num clássico contra Sporting, este sim verdadeiramente decisivo e a valer o título) também chegou, foi determinante na luta pelo título, mas a longo prazo viu-se que não deu para mais. 

Soares, que teve uma exibição francamente má no seu último jogo no Dragão (nenhum remate, nenhuma jogada de perigo), pode e deve ter a oportunidade de fazer a pré-época com a equipa, quiçá com um treinador que saiba trabalhar avançados, e com isso talvez até consiga evoluir e afirmar-se como uma solução de créditos de médio prazo, em vez de ser apenas um reforço de inverno com impacto imediato. No entanto, o presente recomenda que ninguém entre na próxima época a pensar que o FC Porto será Soares e mais 10. 

A cuspidela de Nuno (-) - Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Sim. O mesmo Benfica que se aguentou na liderança ao som do apito, que tem ostracizado o FC Porto em todas as ocasiões, que vários portistas tentaram combater ao longo do último ano, com um revoltante sentimento de injustiça. Não, o FC Porto não jogou futebol de campeões em 2016-17, mas que ninguém diga que o Benfica jogou muito mais. Não foi um campeão incontestável. Nunca saberemos o que aconteceria em campos menos inclinados.

Mas o que faz NES? Cospe em toda a luta dos portistas ao longo da época, ao felicitar o Benfica. Percebe-se, de certa forma, que o faça. Afinal, os comentadores afetos ao Benfica em espaço televisivo têm feito questão de elogiar, e muito, NES desde o início da época. Por uma dupla razão: não só têm todo o interesse desportivo em manter NES no FC Porto como mantêm de pé o bom nome de um cliente de Jorge Mendes. E podem ter a certeza: não faltarão, nos próximos dias, benfiquistas a enaltecerem que fez um excelente trabalho e que merece continuar. Nem é preciso cartilha para o antecipar. Preocupante é que também haja portistas a partilharem dessa opinião, mas é um direito que lhes assiste. O problema é que as consequências, depois, tocarão a todos. 

O orgulho de Salazar (-) - Muitos portistas - e o próprio clube nas suas vias oficiais - decidiram chamar a este Campeonato a Liga Salazar. Mas muito possivelmente o que mais honra o legado de António Salazar não é o tetra do Benfica: foi o que se passou nas bancadas do Estádio do Dragão, com os Colectivo 95 a serem impedidos de fazer o que já se fez em tantas outras ocasiões - manifestarem o total e legítimo direito à crítica. À crítica. Não à ofensa, não à difamação, não ao insulto. À crítica. 

Os Colectivo não são a claque mais popular de Portugal, todos sabem isso. Mas são tudo aquilo que deve ser uma claque. Não priorizam merchandising ou proximidade com dirigentes/funcionários em detrimento da sua postura de adeptos independentes no Estádio do Dragão. Apoiam. Sofrem pela equipa. Viajam com a equipa. Estão lá nos maus momentos. Mas também têm algo fundamental: ter posição crítica. Essa mesma posição que, note-se, foi censurada por quem tem no seu cargo uma função que inclui a «ligação» entre adeptos. Os C95 esperaram pelo final da época para assumirem essa posição crítica. Ao longo da temporada, nunca faltou apoio à equipa. E agora, no final da temporada e numa fase em que se impõe a análise e o balanço, querem inibir o direito de opinião a quem sempre batalhou pelo FC Porto!?

O próprio presidente do FC Porto já tinha feito a distinção entre os verdadeiros portistas e os demais, entre os bons e os maus. Este episódio foi nesse sentido: bom portista, aparentemente, é aquele que fecha os olhos a tudo o que está mal, que come e cala, e que começa cada vez mais a invocar o passado em vez de se preocupar com presente e futuro. Não é uma conversa nova: já vem desde o milagre de Kelvin. São quatro - a caminho de cinco - anos a seco.

Nenhum, nenhum dos portistas que vibraram com o golo de Kelvin, há quatro anos, imaginaria que esta seria a realidade do presente: o Benfica se calhar está mais perto de ganhar o quinto Campeonato consecutivo do que o FC Porto o primeiro em cinco anos. 

Fica aqui uma total de manifestação de solidariedade para com os C95, como não poderia deixar de ser num espaço que também sempre fez uso da crítica legítima, sustentada e construtiva. Ainda assim, a tarja erguida não parece corresponder totalmente à verdade: o espírito de campeão já não parece viver em todos os portistas. 


Pró ano há mais. Do mesmo?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Identidade alternativa

No início da época, Nuno Espírito Santo disse à revista Dragões que queria uma equipa construída em dois princípios: a) «pressão intensa para recuperar a bola»; b) «chegar o mais rapidamente possível a zonas onde podemos transformar essa posse em golo».

Em Guimarães, ficou patente que já não é defeito, é feitio: o FC Porto desistiu de ser uma equipa que assume o jogo em posse, que constrói, que trabalha para abrir o espaço. Estamos em fevereiro, e não é nos últimos três meses da época que isso vai mudar. 

O FC Porto mostrou-se, em Guimarães, uma equipa forte e preparada na pressão ao adversário, capaz de matar a esmagadora maioria das jogadas de ataque antes dos últimos 25 metros. Uma equipa muito organizada e fiável na pressão defensiva. Para recuperar a bola e suster o adversário, excelente. O problema aparece depois: quando é preciso fazer alguma coisa com a bola. 


Foi a 5ª vitória consecutiva e o superar de um ciclo de jogos extremamente complicado, num período que coincide com um divórcio da posse de bola: 46% frente ao Rio Ave, 52% frente ao Estoril, 34% contra o Sporting e 42% em Guimarães. Não há comparação com as 4 primeiras jornadas do campeonato, no qual o FC Porto teve 60% contra o Rio Ave, 66% frente ao Estoril, 45% em Alvalade e 55% contra o Vitória de Guimarães.

O FC Porto não deixou o Vitória de Guimarães fazer quase nada durante os 90 minutos (a única defesa de Casillas foi a um remate em posição irregular) e voltou a ser muito oportuno no ataque, conseguindo muito com pouco: Soares aproveitou a única oportunidade que os avançados tiveram até à entrada de Diogo Jota e o mesmo Jota, com a ajuda de Alex Telles, aproveitou um erro de Douglas. 

O fato de macaco não ganha concursos de estética, mas mantém o FC Porto na luta pelo título. 




Matar a jogada (+/-) - Com as saídas de Óliver e Corona, o FC Porto jogou com um único criativo em campo: Brahimi. O resto da equipa dividiu-se na missão de matar cedo os ataques do Vitória de Guimarães, pressionando e tentando depois meter rapidamente a bola em Soares ou André Silva. Havia três vias para atacar: ou Brahimi pegava no jogo a partir do lado esquerdo; ou Alex/Maxi conseguia subir e o FC Porto aproveitava a profundidade; ou então era chutão direto para Soares ou André Silva. A construir, o FC Porto poucas vezes conseguiu jogadas de perigo, mas o pragmatismo e a forma como não se deixou o Vit. Guimarães avançar esteve lá. Atentos a este pormenor:


Estas foram as zonas em que o FC Porto fez faltas. Ou seja, nenhuma nos últimos 25 metros, o que mostra que o FC Porto nunca teve problemas em matar a jogada mais à frente. Daí que toda a defesa do FC Porto, Danilo incluído, só tenha feito 3 faltas em todo o jogo: porque do meio-campo para a frente formou-se uma barreira de combate que meteu o pé, o corpo, foi de carrinho, foi pelo ar e varreu quase todos os lances em que o V. Guimarães saía com perigo. Só Brahimi e Soares fizeram 11 faltas: e não foram momentos de antidesportivismo, mas sim de raça na pressão sobre o adversário. Ninguém se importou em jogar feio para servir um propósito maior: ganhar.

Iván Marcano (+) - Absolutamente imperial. Ganhou 100% dos tackles e lances aéreos, teve 12 ações defensivas (o mais interventivo em campo), bloqueou um remate e ainda foi ao ataque criar uma situação de golo. Se pouco se viu do V. Guimarães no ataque, foi muito por culpa dele. Uma exibição irrepreensível de um senhor jogador.


Alex Telles (+) - A quantidade de vezes em que lhe era pedido para meter a bola em profundidade faz com que seja o jogador com mais perdas de bola e passes errados em campo. Mas é injusto avaliar por esse prisma: Alex Telles segue a estratégia da equipa. Quando pôde subir pelo flanco, indo à linha em vez de fazer logo um balão de 40 metros para o ataque, fez a diferença: é dele o cruzamento para o 1x0 e a assistência, com toda a calma e inteligência do mundo, para Diogo Jota matar o jogo. Pensar numa dinâmica que permita a Alex Telles subir em vez de mandar o balão para a frente não era mal pensado: sem isso o FC Porto dificilmente venceria em Guimarães. 

A entrada de Diogo Jota (+) - Sozinho, fez mais remates à baliza do que todos os companheiros, o que diz tudo sobre a forma como a sua entrada agitou o jogo. Entrou numa fase em que o V. Guimarães já estava mais adiantado, o que abriu mais espaço para o FC Porto entrar em transição rápida. André Silva e Soares só tinham conseguido 2 remates e quatro toques na grande área adversária (dois deles no lance do 1x0), essencialmente porque não eram servidos. Diogo Jota, com a sua velocidade e objetividade, conseguiu sozinho - depois com a ajuda de Alex Telles - semear o pânico na defesa do V. Guimarães. Pode só ter mais 3 meses de FC Porto pela frente: se for sempre assim, deixará todos a suspirar por mais.




Desapoiados (-) - Um pouco ao início do que já foi referido: o FC Porto esteve bem a recuperar a bola. O problema aparecia depois de recuperar a bola: e agora, o que se faz com ela? A primeira parte foi particularmente sofrível neste aspeto. Soares e André Silva tiveram que inventar, entre eles, com ajuda de Alex Telles e Herrera, praticamente a única ocasião de perigo do primeiro tempo, onde o FC Porto poucas vezes foi à grande área adversária (seis, contra 14 do V. Guimarães).

Com pouca profundidade nos flancos (a não ser quando Maxi e Alex conseguiam subir - fizeram 6 dos 7 cruzamentos do FC Porto), Soares e André Silva raramente foram servidos na grande área. Depois, no meio-campo, não havia ninguém para o último passe em zonas interiores - ainda que Herrera tenha feito a diferença no lance do 1x0, ao ajudar a povoar a grande área. O único momento em que o FC Porto desequilibrava era quando Brahimi pegava na bola do lado esquerdo. 

O FC Porto esteve muito bem montado para o momento de recuperação, mas depois falta algo: o momento de construção. Uma estratégia que não surpreenderia, por exemplo, para uma eliminatória com a Juventus, mas que é incomum numa equipa a jogar para o título em Portugal. Nem sempre poderemos contar com o ressalto ou a bola perdida. Contra o Tondela, dentro de uma semana, espera-se um bocado mais - a garra só ganha campeonatos se vier acompanhada de qualidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Outro paralelismo


Tal como no post anterior, vamos começar com um paralelismo. Em Paços de Ferreira, no empate 0x0, o FC Porto rematou 23 vezes, 7 à baliza. Contra o Moreirense, rematou 22, 7 à baliza. Em Paços de Ferreira criou 14 ocasiões de perigo (5 na primeira parte). Contra o Moreirense, 16 (7 na primeira parte). Em Paços de Ferreira, o FC Porto entrou na grande área 59 vezes e ganhou 14 cantos. Contra o Moreirense, entrou 62 vezes e ganhou 11 pontapés de canto. 

Que quer isto dizer? No que diz respeito ao volume ofensivo, o FC Porto produziu praticamente o mesmo. A mesma equipa, a mesma produção, com a diferença do FC Porto ter jogado contra 10 na segunda parte (algo que acabou por não surtir efeito no resultado). Ainda assim, os mesmos adeptos que ficaram minimamente satisfeitos com a vitória frente ao Moreirense são os mesmos que ficaram insatisfeitos com o empate em Paços de Ferreira.

A diferença? A eficácia. É isto que tem diferenciado o FC Porto que faz os adeptos acreditar do FC Porto que não parece ter estofo para o título. A equipa joga sempre dentro da mesma linha, o que faz a diferença é a bola que bate no poste, a que sofre um ressalto e entra, a que o guarda-redes deixa escapar ou não.

A equipa é a mesma, o rendimento é o mesmo. Suficiente? Não, ainda não. Mas este não é um FC Porto de duas caras. Tem apenas uma. E essa cara só sorrirá no final da época se tiver eficácia a acompanhá-la. 




Héctor Herrera (+) - Um case study. Herrera foi o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a jornada (6). Fez 6 desarmes e 14 recuperações de bola, tendo só sido ultrapassado neste aspeto por Danilo na reta final do jogo. Do meio-campo para a frente, foi o mais eficaz no passe, com 86%. Preencheu toda a meia direita, foi à linha, fartou-se de apoiar Maxi Pereira quer no ataque quer na defesa, também ajudou no miolo e durante grande parte da partida foi o único jogador a preencher o buraco de 30 metros entre a linha média e os avançados do FC Porto. Fez tudo isto, mas ainda há-de haver quem acha que jogou mal. É obra.

Iván Marcano (+) - Quando o Tribunal do Dragão considerava Marcano o melhor central do FC Porto, muitos entendiam isso como uma crítica ao nível dos centrais no clube, essencialmente desde 2014-15. Hoje, já ninguém pode duvidar de que afirmar isso não é mais do que enaltecer a qualidade de Marcano. Um central que marca um golo e faz uma assistência será sempre motivo de destaque, mas uma vez mais, Marcano assume-se como o patrão de uma defesa que sofre poucos golos e que nunca será a causa para um FC Porto sem títulos. A renovação já não é tabu, e não será nunca uma má opção.


Óliver Torres (+) - Não sabe jogar mal - e o FC Porto não sabe, pelo menos da mesma maneira, jogar sem ele. Mas há de facto algo que falta ao futebol de Óliver: intervenção direta em golos. Se é verdade que mostrou isso com Lopetegui, com NES Óliver não ter tido tanta influência direta perto da grande área. As coisas começam a mudar: em dezembro fez a primeira assistência, agora contribuiu com um belo golo, num remate que pode parecer fácil mas que não está ao alcance de todos - a capacidade de perceber exatamente onde e como tem que colocar a bola, em vez de chutar com ansiedade. Não é que seja essencial Óliver marcar mais golos - por exemplo, Sergio Ramos tem mais golos na carreira do que Iniesta, que não deixa de ser dos melhores médios de sempre -, mas será sempre importante para que se afirme como um dos melhores médios da Europa. E porque não cansa insistir: Óliver tem que jogar na zona central. Não na esquerda, não a partir da esquerda: na zona central. É ali que está a virtude de Óliver - e, com ele, do FC Porto.

Avançados (+) - Diogo Jota foi sempre o jogador capaz de agitar o ataque e de acrescentar velocidade às transições. Tem grande mérito na jogada do 2º golo e foi o complemento perfeito a André Silva e à ausência de uma referência clara à esquerda - palavra para Alex Telles, que teve que fazer praticamente o corredor todo durante parte do jogo. Desequilibrou e voltou às boas exibições, depois de um período em que perdeu um pouco de fulgor. André Silva fez um golo à ponta-de-lança, perdeu oportunidades para bisar, mas o que mais há a destacar na sua exibição foi a forma como caiu nos flancos, segurou a bola, esperou apoios e deixou de apostar naqueles 1x1 que eram quase sempre inconsequentes. Ah, já agora: de todos os jogadores que passaram pelo FC Porto e estão no ativo, só dois tiveram melhor média de golos do que ele: uns tais de Falcao e Jackson Martínez. Tem 21 anos e um ano de equipa principal. Só mesmo para lembrar.




A pontaria (-) - Muitas vezes discute-se a mera eficácia ou ineficácia, mas há algo a ter em conta: a quantidade de remates que saem entre os postes. De nada vale haver queixas da eficácia se o que o FC Porto fez foi fazer pontaria à bancada, em vez de dar muito trabalho ao guarda-redes. Neste caso, em 45 minutos, a jogar contra 10, o FC Porto fez apenas 4 disparos entre os postes - dois deles de André Silva na mesma jogada. É muito pouco para uma equipa que se afirma candidata ao título, que joga em casa e que joga contra 10. A determinada altura, a bancada parece que tinha íman nos remates. É preciso afinar a pontaria. Só dão golo os remates que levarem a direção da baliza. Sim, uma descoberta tão chocante quanto ver que a bola é redonda, mas que tem sido algo em que o FC Porto tem falhado (contra o Paços de Ferreira, também apenas 4 remates à baliza na segunda parte).

Coxos contra 10 (-) - Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com 10 tenta fazer? Encurtar o campo. Reduzir os espaço, tentar que o jogo não alargue para não ficar desequilibrada. Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com mais um tem que fazer? Abrir o jogo, ganhar profundidade e largura, porque assim é impossível uma equipa com 10 permanecer equilibrada na altura de variar o flanco.

Mas aquilo que vimos, durante grande parte da segunda parte, foi o FC Porto jogar coxo do lado esquerdo, sem ninguém que assegurasse largura constante naquele flanco. Quando Alex Telles não subia, o FC Porto perdia um espaço de 10 a 15 metros na largura do campo que podiam ter ajudado a criar muitas mais ocasiões de golo. Não foi coincidência alguma que a melhor ocasião de golo da segunda parte tenha aparecido quando Diogo Jota - dividido entre a faixa e o apoio a André Silva - conseguiu romper por aquele lado e ir à linha cruzar. O FC Porto nunca preencheu declaradamente aquela zona, e com isso ajudou a que o Moreirense, apesar de jogar com 10, não tenha sofrido um único golo de bola corrida, e o único que o FC Porto tenha conseguido marcar contra 10 tenha sido na sequência de um canto. Contra 10, exigia-se outro tipo de clarividência e produtividade. 

Ficam os 3 importantes pontos, numa jornada em que o FC Porto ganhou em 3 campos. Na época passada, o FC Porto na segunda volta fez menos 7 pontos do que na primeira. A ambição tem que passar por, desta vez, melhorar. Venham já mais 3 no sábado.

domingo, 23 de outubro de 2016

Artistas em dupla e a solo

Contra uma das equipas mais irritantes deste campeonato, alérgica a tudo o que não seja jogar com linhas recuadas, 10 jogadores atrás da linha da bola e só sair do seu meio-campo em pontapé longo, o FC Porto passou sem problemas um teste contra um adversário que ganhou no Dragão no ano passado, no mesmo dia em que o Tondela foi tirar pontos a Alvalade. São estes pontinhos que podem fazer muita diferença nas contas finais. 

Desta vez sem Otávio, voltou a estar em evidência outro bromance no FC Porto: Jota e André Silva, um a construir e outro a matar, numa exibição positiva a todos os níveis, direta ao pódio das melhores da temporada. Agora vem aí o mais difícil: não a visita ao Bonfim, onde o FC Porto ganhou todos os jogos que lá disputou desde 1998, mas as receções a Brugge e Benfica. Uma coisa de cada vez.





Saber ter a bola (+) - Contra uma equipa que não procura ter bola, o melhor a fazer é... tê-la. O FC Porto entrou pressionante, a obrigar o Arouca a desfazer-se da bola na primeira linha e com bastante equilíbrio a meio-campo: Herrera mais adiantado (quanto mais perto estiver de Danilo, pior), Óliver constantemente a procurar a bola no espaço e Danilo Pereira, uma vez mais, a segurar o meio-campo pelo pescoço. Com Jota a baixar, Corona a sair para zonas interiores e André Silva a arrastar marcações, o FC Porto termina a primeira parte com 78% de posse de bola e, mais importante, não se limitou a trocá-la - apostou em circulá-la tendo a baliza como destino. Na segunda parte o FC Porto voltou a sofrer uma quebra, ao entregar a iniciativa de jogo ao Arouca e deixar o adversário ter bola, mas sem que isso significasse lances de perigo para o adversário. Casillas só teve que se preocupar em não morrer de frio.

Um liberta o outro
Jota & André (+) - Por muito que André Silva tenha a disponibilidade de cair nos flancos, progredir com bola e tentar arriscar no 1x1, nada será melhor do que ter o nosso Ás de trunfo no seu habitat na natural: no coração da grande área, prontinho para dar o último toque. No primeiro golo, não cometeu o erro de se precipitar no remate: atirou para o lado oposto do defesa e marcou com tranquilidade. No segundo, colocou-se no sítio certo, ao fugir para as costas do defesa do Arouca e ganhar o lance de cabeça. Oportunista, entre os principais campeonatos da UEFA só um jogador tem mais golos do que André Silva (Modeste, do Colónia). Se quiserem contar com a pré-época e jogos de seleções, são 21 golos em 24 jogos. 

Há a destacar a forma como Diogo Jota soube descobrir André Silva nos dois lances: o primeiro com alguma felicidade, mas no segundo a colocar a bola na perfeição. Jogo muito inteligente de Jota, que teve que se dividir entre municiador de André Silva e homem que recuava para Herrera aparecer na grande área. Além de conferir verticalidade, dinâmica e maior capacidade de largura ao ataque do FC Porto, dispensa que seja André Silva a ter que fazer essa função. Resultado: em dois lances em que era preciso o avançado cair na ala (que era o que André Silva fazia até há bem pouco tempo), foi Jota a fazê-lo... e André Silva assim pôde ficar na área, pronto a faturar.


A revolta de Brahimi (+/-) - O que têm em comum Quaresma, Hulk ou Brahimi? Deliciaram os adeptos com grandes golos, grandes jogadas. E levaram muita gente ao desespero por quererem fazer tudo sozinhos, por se agarrarem em demasia à bola. Um dia aplaudidos, no outro assobiados. Um dia, tanto Quaresma como Hulk perderam a cabeça e, a quente, ripostaram contra a bancada, com gestos que não são bonitos. Ontem foi a vez de Brahimi fazê-lo.

Entrou e lançou a jogada do 2x0. Depois tentou o lance individual, uma, duas vezes. Abusou, e para isso há um treinador para repreendê-lo no banco e mandá-lo soltar a bola. O que não era necessário era, uma vez mais, um jogador do FC Porto ser assobiado na própria casa quando a equipa está a vencer. Aqueles 90 minutos deveriam ser sagrados, de rumo único. Não estamos a falar de gestão desportiva, da política da SAD, de comissões ou de qualquer outro assunto debatível fora do relvado: estamos a falar de um jogo, de 90 minutos, da equipa. No final do jogo, podemos tomar as considerações que quisermos, fazermos as mais diversas análises técnico-táticas, criticar os jogadores que quiserem. Mas isso não deveria acontecer durante 90 minutos.

A hipocrisia de um assobio
Brahimi marcou aquele incrível golo pela mesma razão que foi assobiado minutos antes: por ser Brahimi, por ser individualista, por ter pensado o mesmo que Maradona ou Messi pensaram um dia: «Esta só acaba na baliza». Foi um brilhante golo, genial, e depois Brahimi pisou os limites nos festejos. E com razão: os mesmos que o assobiaram por ter tentado o lance individual estavam a aplaudir por Brahimi ter concluído... um lance individual. Hipócrita, no mínimo. Brahimi está a viver uma situação difícil no FC Porto - estava convencido (e não apenas ele) que ia sair, acabou por ficar sem ter lugar garantido no 11, e ainda encontra adeptos que em vez de tentarem colaborar na reabilitação do jogador o assobiam quando a equipa está a ganhar.  Assobiar um jogador capaz de fazer golos assim não rima com proveito. Até porque não há assim tantos. 

Outros destaques (+) - Mais uma exibição imaculada de Marcano, também com Felipe uns furos acima dos últimos jogos. Layún ganhou definitivamente o lugar do lado direito, embora neste flanco não possa ser tão influente nos movimentos interiores (ainda assim, lançou o lance do 1x0). Danilo Pereira está também a atravessar um grande momento, próprio de quem parece ter sido uma combinação dos genes de Costinha, Paulo Assunção e Fernando. Nuno, desta vez, bem a mexer na equipa: a equipa ressentiu-se da saída de Óliver durante algum tempo, mas Rúben Neves acabou por dar serenidade ao meio-campo e Brahimi entrou para participar em 2 golos.





O factor Telles (+/-) - O FC Porto fez 15 cruzamentos na primeira parte. Nove deles foram de Alex Telles. Não fez um mau jogo, mas há várias coisas que têm que ser limadas neste processo. Se Alex Telles cruza tanto, tem que cruzar melhor. Têm sido poucos os cruzamentos realmente proveitosos do seu pé esquerdo. Está a ter a capacidade de aparecer muitas vezes em zona avançada, mas os lances acabam invariavelmente com um cruzamento. É Telles que só cruza ou são essas as instruções que recebe?

Era sabido que Nuno quer os laterais a dar largura. Logo, isso explica que Alex Telles não faça movimentos interiores quando tem oportunidade. Até porque se há Otávio ou Corona naquela zona, Telles tem que dar o espaço interior. Mas é preciso alguma flexibilidade: se Alex Telles tem mais possibilidades de criar perigo cortando para dentro do que cruzando, então deve fazê-lo. Estar invariavelmente a meter bolas na grande área, quando só temos André Silva para jogar de cabeça, não tem muito proveito. A rever. 

15 minutos à Corona (+/-) - Corona entrou com tudo e logo nos minutos iniciais esteve perto de fazer um grande golo. Depois do quarto hora, quiçá até por alguma limitação física, desapareceu. Corona teve bola, conseguia passar pelos adversários, mas depois faltou sempre algo: não aparecia o passe, não aparecia o remate, não se enquadrava com a baliza. Em compensação, depois entra Brahimi com tudo. Corona e Brahimi têm alternado boas entradas a partir do banco com titularidades de subrendimento. Quando - ou se - os 15 minutos se multiplicarem, o FC Porto pode encarar o médio prazo com maior otimismo, não esquecendo que no final do ano Brahimi deve ir à CAN, e Varela ontem jogou os primeiros 11 minutos em 2 meses (e aparentava já haver adeptos fartos dele, embora não jogasse desde agosto). Por isso, arrebita, Tecatito, que bem precisamos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma equipa

Foi o melhor e mais consistente jogo da temporada. Quem faz um hat-trick na estreia a titular no campeonato, aos 19 anos, centra naturalmente todas as atenções, mas pela primeira vez esta época vimos um FC Porto organizado, a controlar e dominar o jogo, a potenciar as suas individualidades e a revelar entendimento em todas as fases do jogo. Uma equipa que sabia o que estava a fazer e que sabia como o fazer. Vimos uma equipa.

Foi um bom jogo, o melhor da época e primeiro verdadeiramente categórico. Mas foi apenas um jogo, e basta um deslize antes do jogo com o Benfica para os seus efeitos ruírem. Que a lei 360 que teu pautado o FC Porto sempre que há uma boa exibição não se repita.

Porque o futebol tem destas coisas, é bem recordar o que aconteceu a 17 de Abril. O FC Porto ganhou também por 4x0 a este mesmo Nacional, no Estádio do Dragão, duas semanas depois de «bater no fundo» contra o Tondela. O presidente reagiu assim a esta vitória:

«Ontem a equipa mostrou o espírito que todos queremos e que pedi aos jogadores que assumissem. A exibição que fizeram, com cinco portugueses, alguns deles vindos das camadas jovens – e depois de ver o que esta a fazer a equipa B – foi um acordar. Não que os jogadores não tivessem vontade ou alma, mas às vezes é preciso acordá-las, sensibilizá-las e responsabilizá-las (...) Foi isso que ontem fez, entendendo que era um ponto de viragem. Qualquer individuo que não tivesse visto o passado recente diria que era uma equipa à Porto», disse o presidente, considerando o Nacional «uma boa equipa da liga», com um «bom treinador» e considerando que o FC Porto já tinha saído «do fundo».

Duas semanas depois, o FC Porto perde com o Sporting em casa e todos se esquecem desses 4x0 ao Nacional. O futebol tem memória curta, mas tem também um toque de ejaculação precoce. Por isso, cabecinha e pézinhos no chão. Os problemas que o FC Porto tinha antes do jogo continuam a ser hoje exatamente os mesmos. A diferença é que a equipa mostrou soluções que ainda não tinha mostrado.





Pressão constante (+) - O FC Porto entrou em campo a pressionar na saída do Nacional. Fez o 1x0. Que continuou a fazer? A pressionar. Fez o 2x0. Que continuou a fazer? A pressionar. Fez o 3x0. Que continuou a fazer? A pressionar. Regressou dos balneários, e o que continuou a fazer? A pressionar. Pela primeira vez em longas semanas, o FC Porto assumiu-se como equipa grande em campo, reclamando sempre a posse de bola, não deixando o Nacional construir e sendo capaz de controlar o jogo com bola, em vez de recuar as suas linhas e fechar o meio-campo. O que acontece quando o FC Porto não se encolhe depois do 1x0? Aparecem golos. Dois, três, quatro, com a equipa finalmente a saber meter gente em zonas de finalização. O FC Porto soube controlar o jogo com bola e o Nacional acaba o jogo sem rematar à baliza. Não se pode pedir mais, porque não há mais para pedir, a não ser mais do mesmo.

Uma equipa (+) - André Silva e Diogo Jota a rasgar a defesa do Nacional, com constantes movimentações e a terem várias ocasiões para marcar. Otávio e Óliver a jogarem e fazer jogar, a oferecerem soluções de passe, a aguentarem a bola em zonas próximas da grande área e a servirem os colegas. Herrera a transportar jogo e a assegurar o pulmão no meio-campo. Danilo Pereira a segurar a retaguarda com a dimensão física que o FC Porto deixa de ter com esta estratégia. Layún (mais) e Alex Telles a darem profundidade e a acelerarem o jogo a partir dos flancos. Marcano e Felipe simultaneamente atentos à profundidade e a conseguirem impedir que os avançados do Nacional levassem perigo à baliza do espectador Casillas. 11 jogadores em campo, cada um com o seu papel e cada um a cumpri-lo bem. É difícil? É. Ontem pareceu fácil.

Diogo Jota (+) - Pois é. A sua chegada ao FC Porto só peca por tardia. Jota, um pequeno Griezmann, tem uma capacidade fora do comum em jogar orientado para a baliza e com muita objetividade quando se aproxima da grande área. Apesar da excelente tabela no lance do 1x0, Jota quando recebe a bola procura sobretudo a baliza, tendo uma capacidade fora do comum de procurar o melhor espaço para rematar. Fez três golos e provocou um silêncio mórbido em todos os que andavam revoltados por - citando - um lampião vir para o FC Porto emprestado pelo Patético de Madrid, só para fazer um frete ao Mendes. Se assim é, venham mais, por favor. Mau, só não terem ido buscá-lo quando estava no Paços.


Outros destaques (+) - André Silva, mesmo mantendo uma capacidade abaixo da média no 1x1 (o PJE visava precisamente aperfeiçoar este tipo de movimentos), marcou e deu a marcar, desgastou e arrastou a defesa, teve presença física na grande área e fez um bom jogo. Tem que aprender a definir melhor perto da grande área. Otávio e Óliver mostraram como é possível manter uma equipa equilibrada taticamente e um meio-campo pressionante e aguerrido, enquanto se assegura jogadores criativos e capazes de fazer a diferença em campo (Óliver melhor no 4-3-3, mas também adequado e bem no 4-4-2). Herrera, embora tenha perdido alguns lances na dimensão física no meio-campo, conseguiu libertar e transportar jogo para zonas mais adiantadas. Danilo voltou a fazer uma exibição impecável, mantendo o nível exibicional, e Layún foi a habitual constante de dinâmica e perigo pelo lado direito, com a agradável nota de se estar a adaptar melhor do que o esperado quando vai para zonas anteriores (para um destro, não é fácil fazê-lo pelo lado direito). Saúde-se o regresso de Maxi Pereira, mas com Layún a jogar assim ou Maxi o empurra para o lado esquerdo, ou vai continuar sentado nos próximos jogos. 

Nos últimos 20 minutos, Nuno Espírito Santo, já com o resultado feito, voltou a mudar o esquema tático, desta vez um 4x3x3 com Layún adiantado no corredor (e que funcionou bem, diga-se). Experiências quando o jogo está controlado e o FC Porto está a vencer por 4x0, aí sim, não magoam ninguém. Mas a maneira como o FC Porto jogou ontem contra o Nacional não deixa dúvidas quanto à fórmula em que o FC Porto terá que apostar para as próximas semanas. Alguém um dia disse que «em equipa que ganha não se mexe». Uma expressão infeliz. Mas em equipa que ganha e joga bem, aí sim, não se mexe. Não mexe!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Jota: só peca por tardio

Um pequeno salto até Setembro de 2014. O Paços de Ferreira vem jogar ao Olival, no campeonato de juniores. Um rapaz chamado Diogo Jota decide fazer isto.


Um mês depois, com 17 anos, já começava a jogar na equipa principal do Paços. Marcou logo na estreia. Um talento inato, que passou sempre despercebido aos olhos não só dos principais clubes nacionais mas também da FPF (nunca tinha sido chamado às Seleções jovens).

Chega então o mês de Dezembro, e com ele a quadra natalícia, em que somos todos tomados por um espírito de generosidade. Começa então o ataque a Jota, mas não por parte dos 3 grandes do futebol português, nem por parte de qualquer outro clube. Foram sim empresários a começar a comprar o seu passe.

O primeiro foi Teixeira da Silva, o empresário que ficou com direito a 10% da mais-valia numa futura venda de André Silva. A 5 de Dezembro de 2014, comprou 20% do passe de Diogo Jota por menos de 38 mil euros (IVA incluído).


Mas a 31 de Dezembro, já em vésperas de réveillon, Jorge Mendes volta a fazer a sua magia, ao comprar 40% passe de Diogo Jota por... 35 mil euros.


São 60% do passe de Jota vendidos por 65 mil euros (sem IVA incluído). Depois chega o Atlético, uma vez mais com a mão de Jorge Mendes, e paga isto pelo jogador.


Agora, Diogo Jota vai jogar no FC Porto, por empréstimo. Tal como já disse O Jogo, a opção de compra é de 22M€, com a coincidência imensa de ser o mesmo que o Benfica pagou por Raúl Jiménez, ou o mesmo que custaria Vietto quando foi hipótese. Um número mágico para o Atlético, aparentemente. Sendo um empréstimo, e tendo o Atlético que salvaguardar-se a todos os níveis, é também natural que o Atlético exija uma cláusula de compensação se o jogador não for utilizado com frequência. 

Diogo Jota é um jogador de enorme potencial. Fez uma grande época em Paços de Ferreira - possivelmente até mais proveitosa do que a de Rafa em Braga, embora em realidades distintas. 12 golos e 8 assistências na sua primeira época de sénior, e logo já na Primeira Liga, são números de excelência para um jovem português da sua idade. Curiosamente, de todos os jogadores que estiveram no jogo de juniores acima referido, só Diogo Jota já se afirmou numa Primeira Liga. Sobretudo porque não houve medo de apostar no seu talento. Os resultados estão à vista.

Sobre Jota, as únicas dúvidas que podem haver em relação à pertinência da sua contratação é se terá já o estofo competitivo para jogar e fazer a diferença no FC Porto a curto prazo. Jogadores por empréstimo, por norma, têm que ser jogadores para os quais o FC Porto tem planos de curto prazo. Jota tem 19 anos, vai fazer apenas a segunda época de sénior e a primeira num clube que luta por títulos. O FC Porto dificilmente pode, à data de hoje, fazer planos para o jogador para lá de 2017. Por isso, tem que ser um jogador para acrescentar algo no imediato. Não pode ser uma aposta de futuro, pois não sabemos se terá futuro no FC Porto para lá de 2017. 

O FC Porto precisa de extremos e é a possibilidade de ter uma solução barata e de qualidade. Jota começou por jogar a médio-ofensivo, mas no Paços subiu no terreno. É avançado, mas funciona muito bem jogando a partir de um flanco. Não é extremo de procurar a linha, mas sim de jogar sempre com maior proximidade de zonas interiores e da baliza. Caraterísticas que por certo agradam a Nuno Espírito Santo, que quer os extremos em zona interior.

Diogo Jota diz que se inspira em Griezmann na forma de jogar. É rápido, hábil, finaliza bem e é muito objetivo quando vai para cima do defesa. O talento está todo lá, resta saber como se adaptará aos comportamentos coletivos da equipa, sobretudo na transição defensiva e na pressão ao adversário. As suas caraterísticas são uma boa adição ao plantel, falta saber se já estará no ponto de maturação desejado. Se fosse uma contratação do FC Porto ao Paços de Ferreira, seria excelente. Assim, vindo por empréstimo do Atlético, a sua evolução vai ter que acelerar contra o tempo, pois não faz sentido trazer um jogador por empréstimo se for para andar só a jogar nas Taças e pouco mais.

Podemos ir ao elefante na sala, nomeadamente alguns comentários antigos de Diogo Jota nas redes sociais. Esta é primeira geração de jovens futebolistas que crescem com acesso permanente a redes sociais. E não há rapaz que abdique de mandar as suas postas clubísticas. Diogo Jota era um miúdo do Gondomar, nem sequer estava no Paços. Provavelmente nem imaginaria que, dentro de 3 anos, ia chegar até aqui. Fez o que qualquer rapaz da sua idade pode fazer: escrever parvoíces na internet.

É benfiquista? Não interessa. Ou pelo menos não interessou quando o Paços anunciou que tinha tudo feito com o Benfica para a transferência, mas Diogo Jota recusou. O portismo é um bem precioso, mas há um ainda maior. Chama-se profissionalismo. Todos os grandes portistas que já tivemos no clube eram grandes profissionais. Mas nem todos os grandes profissionais eram portistas. É possível ser-se profissional sem se ser portista, mas não é possível ser-se portista sem se ser profissional. A função do futebolista que chega não é ser portista, é fazer os portistas felizes. Diogo Jota tem é que ser profissional, lutar pela camisola que veste e fazer mais coisas destas: 


PS: Leicester, Club Brugge e Copenhaga. Resumidamente, o FC Porto já passou em grupos mais complicados e já foi eliminado em grupos mais fáceis. O objetivo é ir aos 1/8, algo que já foi assumido. No ano passado o FC Porto parecia ter feito o suficiente, mas 10 pontos não chegaram. Apontemos, pelo menos, aos 11 esta época, embora sempre com a intenção de ganhar todos os jogos. Será certamente um grupo competitivo. O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra (15 derrotas em 17 jogos), não ganhou nas três últimas visitas à Dinamarca e na Bélgica perdeu seis jogos em sete. Leicester, Club Brugge e Copenhaga são campeões dos respetivos países e, muito provavelmente, cada uma destas equipas pensa o mesmo que o FC Porto: «O grupo podia ser muito mais complicado». Pois podia. E também podia aparecer um grupo mais fácil. Tipo com APOEL, Artmedia e Áustria Viena. Canja.