terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Outro paralelismo


Tal como no post anterior, vamos começar com um paralelismo. Em Paços de Ferreira, no empate 0x0, o FC Porto rematou 23 vezes, 7 à baliza. Contra o Moreirense, rematou 22, 7 à baliza. Em Paços de Ferreira criou 14 ocasiões de perigo (5 na primeira parte). Contra o Moreirense, 16 (7 na primeira parte). Em Paços de Ferreira, o FC Porto entrou na grande área 59 vezes e ganhou 14 cantos. Contra o Moreirense, entrou 62 vezes e ganhou 11 pontapés de canto. 

Que quer isto dizer? No que diz respeito ao volume ofensivo, o FC Porto produziu praticamente o mesmo. A mesma equipa, a mesma produção, com a diferença do FC Porto ter jogado contra 10 na segunda parte (algo que acabou por não surtir efeito no resultado). Ainda assim, os mesmos adeptos que ficaram minimamente satisfeitos com a vitória frente ao Moreirense são os mesmos que ficaram insatisfeitos com o empate em Paços de Ferreira.

A diferença? A eficácia. É isto que tem diferenciado o FC Porto que faz os adeptos acreditar do FC Porto que não parece ter estofo para o título. A equipa joga sempre dentro da mesma linha, o que faz a diferença é a bola que bate no poste, a que sofre um ressalto e entra, a que o guarda-redes deixa escapar ou não.

A equipa é a mesma, o rendimento é o mesmo. Suficiente? Não, ainda não. Mas este não é um FC Porto de duas caras. Tem apenas uma. E essa cara só sorrirá no final da época se tiver eficácia a acompanhá-la. 




Héctor Herrera (+) - Um case study. Herrera foi o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a jornada (6). Fez 6 desarmes e 14 recuperações de bola, tendo só sido ultrapassado neste aspeto por Danilo na reta final do jogo. Do meio-campo para a frente, foi o mais eficaz no passe, com 86%. Preencheu toda a meia direita, foi à linha, fartou-se de apoiar Maxi Pereira quer no ataque quer na defesa, também ajudou no miolo e durante grande parte da partida foi o único jogador a preencher o buraco de 30 metros entre a linha média e os avançados do FC Porto. Fez tudo isto, mas ainda há-de haver quem acha que jogou mal. É obra.

Iván Marcano (+) - Quando o Tribunal do Dragão considerava Marcano o melhor central do FC Porto, muitos entendiam isso como uma crítica ao nível dos centrais no clube, essencialmente desde 2014-15. Hoje, já ninguém pode duvidar de que afirmar isso não é mais do que enaltecer a qualidade de Marcano. Um central que marca um golo e faz uma assistência será sempre motivo de destaque, mas uma vez mais, Marcano assume-se como o patrão de uma defesa que sofre poucos golos e que nunca será a causa para um FC Porto sem títulos. A renovação já não é tabu, e não será nunca uma má opção.


Óliver Torres (+) - Não sabe jogar mal - e o FC Porto não sabe, pelo menos da mesma maneira, jogar sem ele. Mas há de facto algo que falta ao futebol de Óliver: intervenção direta em golos. Se é verdade que mostrou isso com Lopetegui, com NES Óliver não ter tido tanta influência direta perto da grande área. As coisas começam a mudar: em dezembro fez a primeira assistência, agora contribuiu com um belo golo, num remate que pode parecer fácil mas que não está ao alcance de todos - a capacidade de perceber exatamente onde e como tem que colocar a bola, em vez de chutar com ansiedade. Não é que seja essencial Óliver marcar mais golos - por exemplo, Sergio Ramos tem mais golos na carreira do que Iniesta, que não deixa de ser dos melhores médios de sempre -, mas será sempre importante para que se afirme como um dos melhores médios da Europa. E porque não cansa insistir: Óliver tem que jogar na zona central. Não na esquerda, não a partir da esquerda: na zona central. É ali que está a virtude de Óliver - e, com ele, do FC Porto.

Avançados (+) - Diogo Jota foi sempre o jogador capaz de agitar o ataque e de acrescentar velocidade às transições. Tem grande mérito na jogada do 2º golo e foi o complemento perfeito a André Silva e à ausência de uma referência clara à esquerda - palavra para Alex Telles, que teve que fazer praticamente o corredor todo durante parte do jogo. Desequilibrou e voltou às boas exibições, depois de um período em que perdeu um pouco de fulgor. André Silva fez um golo à ponta-de-lança, perdeu oportunidades para bisar, mas o que mais há a destacar na sua exibição foi a forma como caiu nos flancos, segurou a bola, esperou apoios e deixou de apostar naqueles 1x1 que eram quase sempre inconsequentes. Ah, já agora: de todos os jogadores que passaram pelo FC Porto e estão no ativo, só dois tiveram melhor média de golos do que ele: uns tais de Falcao e Jackson Martínez. Tem 21 anos e um ano de equipa principal. Só mesmo para lembrar.




A pontaria (-) - Muitas vezes discute-se a mera eficácia ou ineficácia, mas há algo a ter em conta: a quantidade de remates que saem entre os postes. De nada vale haver queixas da eficácia se o que o FC Porto fez foi fazer pontaria à bancada, em vez de dar muito trabalho ao guarda-redes. Neste caso, em 45 minutos, a jogar contra 10, o FC Porto fez apenas 4 disparos entre os postes - dois deles de André Silva na mesma jogada. É muito pouco para uma equipa que se afirma candidata ao título, que joga em casa e que joga contra 10. A determinada altura, a bancada parece que tinha íman nos remates. É preciso afinar a pontaria. Só dão golo os remates que levarem a direção da baliza. Sim, uma descoberta tão chocante quanto ver que a bola é redonda, mas que tem sido algo em que o FC Porto tem falhado (contra o Paços de Ferreira, também apenas 4 remates à baliza na segunda parte).

Coxos contra 10 (-) - Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com 10 tenta fazer? Encurtar o campo. Reduzir os espaço, tentar que o jogo não alargue para não ficar desequilibrada. Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com mais um tem que fazer? Abrir o jogo, ganhar profundidade e largura, porque assim é impossível uma equipa com 10 permanecer equilibrada na altura de variar o flanco.

Mas aquilo que vimos, durante grande parte da segunda parte, foi o FC Porto jogar coxo do lado esquerdo, sem ninguém que assegurasse largura constante naquele flanco. Quando Alex Telles não subia, o FC Porto perdia um espaço de 10 a 15 metros na largura do campo que podiam ter ajudado a criar muitas mais ocasiões de golo. Não foi coincidência alguma que a melhor ocasião de golo da segunda parte tenha aparecido quando Diogo Jota - dividido entre a faixa e o apoio a André Silva - conseguiu romper por aquele lado e ir à linha cruzar. O FC Porto nunca preencheu declaradamente aquela zona, e com isso ajudou a que o Moreirense, apesar de jogar com 10, não tenha sofrido um único golo de bola corrida, e o único que o FC Porto tenha conseguido marcar contra 10 tenha sido na sequência de um canto. Contra 10, exigia-se outro tipo de clarividência e produtividade. 

Ficam os 3 importantes pontos, numa jornada em que o FC Porto ganhou em 3 campos. Na época passada, o FC Porto na segunda volta fez menos 7 pontos do que na primeira. A ambição tem que passar por, desta vez, melhorar. Venham já mais 3 no sábado.

5 comentários:

  1. Mais uma vez, sobra pouco para dizer depois desta análise. Alguns reparos apenas:
    - Marcano é um bom central. O melhor dos últimos anos. Mas está muito longe da qualidade dos grandes centrais que por aqui passaram.
    - O mesmo para Jota e A. Silva. São potenciais avançados de futuro. Mas muito longe ainda do nível de Falcão ou Jardel (no caso de A. Silva) ou de Lisandro Lopez ou Derlei (no caso de Jota).
    - A Herrera e a Oliver Torres faltam apenas uma coisa: baliza! Naquela posição não podem jogar 2 jogadores, em simultâneo, sem esse "plus". Juntem a estatística dos 2 ao longo da época em remates enquadrados com a baliza: o Mexicano terá um dos piores rácios da Europa. O Espanhol melhor um pouco, apenas porque tenta menos. Na maior parte dos jogos Herrera não faz mais do que um par de remates enquadrados com a baliza. E tenta muitas vezes. Até pode ser falta de confiança... porque a potência está lá. Já o espanhol nunca será um rematador. E não tem que ser. Mas quando jogam os dois, sacrificamos logo a eficácia do remate. E isso irrita os adeptos.
    Para terminar: falta qualidade ("star quality") do Danilo para a frente, daquela que resolve jogos... que tira coelhos da cartola. Precisamos de jogadores que resolvam jogos... nem que seja á pedrada. E isso não existe no plantel. Portanto o calvário vai continuar. Com altos e baixos. Com momentos de euforia... e de depressão.

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  2. Não entendo bem os reparos sobre o Herrera, com recados para a família portista. Atendendo à sua performance durante a época, até parece que estamos a falar de um prodígio. Tem qualidade, é um facto, mas para capitão falta-lhe muita coisa naquela postura. Não esqueço a postura em 2 lances em Alvalade e o tal lance contra o SLB. Errar todos erram, mas a postura era o que até há uns anos diferenciava o tal "jogador à Porto". Devíamos falar da sua prestação contra o Moreirense como "uma prestação normal", mas se se eleva é porque nos outros jogos não é bem assim. Apesar de tudo, nunca o assobiei e sempre o apoio durante os 90min, tal como a todos os jogadores do FCP. Mas consigo ter a minha opinião: jogador instável, bom, mas instável.

    Falando da comparação que fez, com o jogo de Paços, apenas questiono: 34 jogos iguais aos de Paços ficamos em que lugar? Se fosse 34 jogos igual ao Moreirense, ficamos em 1º. SLB de Trapatoni não jogava nada, mas marcava sempre mais um do que os adversários. Qualidade de jogo é a possível, pois isso não é novidade: NES quer a equipa a jogar da forma que joga e ponto. Se calhar não tem capacidade para mais. O Leiria jogava bem para a sua dimensão(Mourinho), a Académica também (AVB) e até o Paços (Fonseca). Rio Ave e Valência foram equipas normais, nada de extraordinário.

    Não somos melhores do que há uma semana, mas temos mais 3 pontos. E, infelizmente, a 1ª preocupação devem ser os 3 pontos, e depois a exibição. Entre ganhar e jogar bem, prefiro ganhar. E como diz o comentário do José Pinto: ganhar nem que seja à pedrada.

    Já agora, sobre os adeptos portistas: esses sim, têm "star-quality". Anulam os pseudo adeptos, anulam assobios e apoiam a equipa! Apesar de tudo, dos resultados e exibições, a equipa nunca está sozinha!

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  3. Continuam a faltar os remates de fora da área e de meia distância. A entrada de Kelvin podia servir para abrir a equipa mas foi mais do mesmo. Ficou mais uma vez a ideia de que Brahimi faz muita falta e que não há um substituto a condizer, mesmo quando Otávio estiver pronto pois não é ala nem nada que se pareça. A questão do flanco esquerdo foi muito bem abordada, será que é assim tão difícil de ver do banco do FCP? Se calhar NES devia aderir à moda inglesa e pôr alguém a ver o jogo de lá de cima da bancada para ganhar outra perspectiva dos acontecimentos.

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  4. o porto melhorava 50% se tivesse um lateral direito novo que fisesse o corredor, maxi acabou e coloca muitas vezes em risco filipe porque os adversarios atacam muitas vezes por ali e em velocidade. falta realmente o remate a entrada da area, os cantos parece que ja sao treinados. O treinador e medroso, a equipa tem de cruzar mais e nao o faz, andre silva falha muito golo como quando nos juniores e na B. No entanto se tudo isso existisse eramos quase operfeitos e isso nenhumna equuipa o e. COM ARBITRAGENS COMO AS DE CONTRA O MOREIRESE ESTAVAMOS CLARAMENTE EM PRIMEIRO LUGAR.

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  5. Temos um treinador limitado e que é incapaz de dar um golpe de asa nos momentos em que é preciso surpreender. Se queremos ser campeões é urgente um avançado que faça a diferença. Pelo andar da carruagem não vamos ter nenhum. Gastar dinheiro só por gastar não vale a pena.Soares e afins são uma brincadeira.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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