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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

34 coisas a reter do Relatório e Contas 2015/16

- No orçamento proposto há um ano, a SAD pretendia fechar o exercício com um lucro de 1,793 milhões de euros. Terminou com um prejuízo de 58,411 milhões de euros, o maior da história do futebol profissional em Portugal. 

- O FC Porto apontava para receitas operacionais de 85,433 milhões de euros. Ficou-se pelos 75,811 milhões de euros, muito por causa das receitas da UEFA (a SAD esperava 27,437M€, mas terminou com apenas 11,603M€). Na generalidade das restantes rubricas, merchandising, bilheteira, direitos televisivos e publicidade, a SAD ficou ligeiramente acima das expetativas e cumpriu com o que estava orçamentado. Nas receitas operacionais, o problema foi por isso a Liga dos Campeões - não é possível continuar a dar por garantido, orçamento após orçamento, que o FC Porto vai estar sempre presente na Champions. 

- Nos custos operacionais, eram esperadas despesas de 107,76 milhões de euros. Os custos acabaram por bater o recorde de 124,325 milhões de euros. A folha salarial ficou quase 7M€ acima do que estava previsto, algo verdadeiramente preocupante e negativo, sobretudo tendo em conta que em janeiro saíram alguns dos mais bem pagos do FC Porto, casos de Tello, Imbula e Osvaldo. Custos com pessoal de 75,79M€ são uma violação do que já era incomportável. A SAD diz que a subida se deve essencialmente às indemnizações de Julen Lopetegui e José Peseiro (dois exemplos em que erros de gestão desportiva têm consequências financeiras - um pelo momento da saída, outro pela chegada). 

- Os Fornecimentos e Serviços Externos voltaram a disparar: a SAD gastou sensivelmente mais 6M€ do que estava previsto, ao chegar aos 38,662M€ de despesa. 

- Toda a receita da atividade corrente da SAD não chega para pagar os salários da época 2015-16. 

- A SAD tinha que apresentar um resultado de 72,591M€ com transações de passes. Após custos, amortizações e perdas por imparidade, a SAD apresentou apenas 7,102M€ (no que toca a mais-valias, contando com Alex Sandro, as mesmas chegaram a 40,22M€). 

- A SAD pretendia fechar o exercício com um prejuízo de 22,323 milhões nos resultados operacionais sem vendas de jogadores. O prejuízo foi mais do dobro do que estava orçamentado, 48,614M€

- Nos últimos três exercícios, o FC Porto acumulou um resultado negativo de quase 80M€ - pior que em todos os anos anteriores de atividade da SAD juntos. 

- O ativo subiu para 375M€, uma subida de 15,81M€, algo que se deve unicamente ao valor do plantel, que subiu quase 25M€ na rubrica de ativos tangíveis. 

- Em contraste, o passivo sofreu uma subida abrupta, de 73M€, atingindo agora quase os 350M€. O passivo corrente aumentou cerca de 25% no prazo de um ano, estando agora nos 202 milhões de euros. 

- A SAD explica o prejuízo com uma «decisão estratégica de não transferência de alguns ativos da sociedade, com finalidade de competir ao mais alto nível em 2016-17». Buster Keaton, Charlie Chaplin e Harold Lloyd dão por eles a pensar que deixaram muito por fazer no mundo da comédia. 

- A SAD informa, pela primeira vez, que Helton rescindiu o contrato que tinha com o FC Porto. Assim sendo, já não é um profissional assalariado pelo clube e já não tem qualquer ligação a este emblema.

- O capital próprio mantém-se positivo, mas desceu 57,25 milhões de euros no espaço de um ano, um espelho do prejuízo apresentado. Os efeitos da operação Euroantas, cuja cedência do clube para a SAD também fazia parte de uma «visão estratégica e ponderada», estão cada vez mais reduzidos. 

- Face à subida do passivo, e tendo em conta que um dos empréstimos obrigacionistas conhecerá o prazo para reembolso neste exercício, a SAD diz que «o Conselho de Administração está a estudar a realização de uma operação financeira para reestruturação deste passivo, de forma a assentar uma parte significativa da sua dívida no longo prazo».

- Pela primeira vez, a SAD decidiu pronunciar-se sobre o falhanço do fair-play financeiro. A SAD não podia apresentar mais de 8,6 milhões de euros de prejuízo, o que significa que falhou o FPF por cerca de 50 milhões de euros. Resta agora aguardar que a UEFA se pronuncie sobre as punições a aplicar ao FC Porto - e que o Conselho de Administração responda depois por elas e que assuma as responsabilidades pelas mesmas. Aqui a culpa - se preferirem, a responsabilidade - não é dos blogues, não é da imprensa, não é dos adeptos, não é do árbitro, não é do Marega, não é do Lopetegui e não é do Trump: é do Conselho de Administração da SAD. Democraticamente reeleito por 79% dos associados votantes, diga-se. 

- Maicon saiu para o São Paulo por 12M€, gerou uma mais-valia de 9M€ e o FC Porto indica que comprou 50% de Inácio por 3M€. Mas o FC Porto pagou no total 6M€ ao São Paulo. Se Inácio custou 3M€ por metade do passe, a que se devem os restantes 3M€ pagos ao São Paulo?

- O FC Porto pagou 15,162 milhões de euros com encargos com transferências na última época. O FC Porto detalha as compras de 11 futebolistas (há 5M€ pagos por jogadores que não são discriminados) e pagou comissões a um total de 25 entidades diferentes. 

- A SAD tem 60% do passe de Víctor García, pois já tinha adquirido 10% no último trimestre de 2014/15, além dos 50% que comprou depois à Northfields. 

- A SAD tem a receber 50,69M€ de outros clubes no prazo de um ano. Entre os novos devedores, entram o Stoke (13,37M€), o Portimonense (615 mil), o Atlético Paranaense (500 mil) e a Real Sociedad (300 mil). Nota para a Doyen, cuja dívida em relação ao FC Porto aumentou no último ano, para os 2,877 milhões de euros. 

- A SAD já começou a antecipar as receitas do novo contrato com a PT/Altice (que só entra em vigor em 2018), ao utilizar 10M€ como garantia para um empréstimo junto do Montepio.

- A SAD antecipou 13,37M€ da receita de Imbula, ao recorrer ao Macquarie Bank, banco australiano.

- A SAD está mesmo apostada na antecipação de receitas - tentar tapar os buracos do presente comprometendo o futuro. Outro exemplo foi o contrato com a Unicer: foi renovado em abril e, no mesmo mês, a SAD usou-o como garantia para um empréstimo de 4,2M€ junto do BIC. 

- No R&C Individual, a SAD dá conta de adiantamentos de 4M€ em 2014-15 e de 27M€ em 2015-16 nas receitas televisivas. No R&C Consolidado, os adiantamentos apontam para 36,9M€ em 2015-16 e 9M€ em receitas do patrocinador principal.

- Fernando Gomes disse, no início de janeiro, que o contrato com a Altice ia permitir «gerir o FC Porto de outra forma». É esta a forma de que falava?

- O FC Porto deve 37,743M€ no prazo de um ano a outros clubes.

- Em dezembro, o FC Porto tinha uma dívida corrente de 1M€ e uma não corrente de 1,8M€ ao Portimonense, pela contratação de Danilo. Neste momento (a 30 de junho), a dívida não corrente mantém-se (1,8M€), mas a dívida corrente já é de 2,75M€. O que significa que o FC Porto comprou mais jogadores ao Portimonense - ou através do Portimonense -, mas não há detalhes sobre isso. Gleison é um desses casos.

- Nos Fornecimentos e Serviços Externos, destaque para um aumento de 601 mil para 3,5 milhões de euros do FC Porto em despesas com os direitos de imagem dos seus jogadores. Há mais 2M€ de despesas que não são discriminadas. Nota para uma descida na «Publicidade e Propaganda» para sensivelmente metade, agora de 1,06M€.

- Nos custos com pessoal, o plantel mantém-se na casa dos 54M€. As remunerações dos Órgãos Sociais subiram para 1,97M€, apesar dos vencimentos de Pinto da Costa (520 mil euros) e administradores da SAD (287) se manterem inalterados. As rescisões com Lopetegui, Helton, Peseiro e restantes staff saíram caro, pois a rubrica ascende a 4,4 milhões de euros. 

- Em 2015, o FC Porto tinha 329 profissionais no Grupo. Neste momento, são 431, com destaque no aumento dos administrativos (de 133 para 217), dos técnicos desportivos (37 para 54) e dos atletas (77 para 85). No Museu, saíram sete pessoas, estando agora 25 ao serviço do FC Porto. 

- O FC Porto teve proveitos de 2,769M€ com empréstimos de jogadores. Em sentido inverso, teve custos de 3,347 com empréstimos de jogadores. 

- A SAD incluiu uma alínea em que dá conta de operações realizadas com Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, na envolvência da Energy Soccer em transferências e renovações de contratos. A Energy Soccer faturou 465 mil euros com comissões nas saídas de Rolando e Quaresma, na compra de Fede Varela, na renovação de Leandro Silva e na assinatura do contrato profissional com Rui Pires (menino a seguir com muita atenção). Estão pendentes 108 mil euros. Saúda-se que a SAD apresente estes detalhes das contas, mas deveria ser aplicável a todos os membros do Conselho de Administrações que negoceiam com familiares. 

- A SAD diz que os custos de Alex Telles, Depoitre e Boly implicaram um valor global de 19M€. Tendo em conta que Alex Telles, segundo o Galatasaray, custou 6,5M€, a SAD confirma que investiu 12,5M€ em Depoitre e Boly. 

- Fernando Gomes diz que foram rejeitados 95M€ por André Silva, Danilo e Herrera. Tendo em que conta que Fernando Gomes diz que tal permitiria apresentar resultados positivos, então foram propostas apresentadas até 30 de junho. Assim sendo, André Silva tinha uma cláusula de rescisão de 25M€, por isso houve um total de 70M€ propostos por Danilo e Herrera. Tendo em conta que Danilo tem uma cláusula de 40M€, ou andaram a oferecer propostas acima das cláusulas, ou o FC Porto rejeitou uma proposta de pelo menos 30M€ por Herrera. É a vez de Cervantes, Dumas e Dickens sentirem as suas obras incompletas. 

- O FC Porto justifica-se com esta frase: «Demos um passo atrás, para darmos agora dois ou três em frente». Esperemos é que tenham reparado que já têm o abismo debaixo dos pés.

sábado, 17 de setembro de 2016

Otávio by BMG

Otávio não foi um pedido de Lopetegui, nem de qualquer outro treinador. Otávio foi uma aposta da SAD, numa oportunidade de fazer uma transferência com um parceiro do FC Porto, no caso o Banco BMG, através do Coimbra Esporte Clube.

Este é um exemplo de como pode ser fácil contornar a proibição da partilha de passes de jogadores por terceiros. Se os agentes não podem controlar os jogadores, controlam os clubes. 

Ricardo Guimarães, presidente do BMG e antigo presidente do Atlético de Mineiro, decidiu começar a investir em jogadores, criando para o efeito o BR Soccer, registado na CVM e que em 2013 já tinha uma carteira de mais de 100 jogadores, muitos deles protagonistas de transferências muito caras (como Marquinhos, Óscar ou Bernard). Ora o fundo controla a empresa Vevent, que por sua vez assumiu o comando do CEC.
O Jogo, 17.09.2016

Como o Coimbra Esporte Clube serve apenas para manter e transferir os direitos dos jogadores, esses jogadores são espalhados por clubes como Corinthians, Atlético, Cruzeiro, Vasco, São Paulo, Internacional, Fluminense...

A partir daqui, a modalidade de compra é conhecida. No primeiro negócio, o BMG comprou 50% do passe de Otávio por cerca de 1,35 milhões de euros, e adquiriu também 15% que estavam na posse de um fundo japonês. Isso totalizou os 65% que o Coimbra Esporte Clube tinha de Otávio.

No fecho de mercado de 2014, o Inter transferiu os direitos desportivos para o FC Porto. Os direitos de inscrição podem ser transferidos livremente, o que foi o caso. A imprensa, ao consultar o contrato que foi celebrado, chegou a noticiar que a transferência se tinha processado sem custos. Conforme foi explicado aqui, não foi o caso.

Não foi ao Internacional que o FC Porto comprou Otávio, mas sim ao Coimbra Esporte Clube. E ao contrário do que escreveu hoje O Jogo, o FC Porto não comprou 32,5% do passe por 2,5 milhões de euros. Comprou 33%.

«Uma diferença de 0,5% não é nada». É sim, é uma questão de rigor. O FC Porto comprou 33% de Otávio, por 2,5M€, e cedeu 0,5% a uma parte desconhecida. 

Por exemplo, ninguém terá reparado que no terceiro trimestre da última época o FC Porto comprou mais 0,5% do passe de Diego Reyes. Inicialmente tinha comprado 95%, alienou metade e tinha ficado com 47,5%. Nos últimos valores declarados, a SAD já informou ter 48%. Qual foi a pertinência de aumentar, de 47,5% para 48%, a percentagem do passe de um jogador que acabou novamente dispensado? 

Podem não ser quantias muito significativas em empresas que têm receitas e gastos superiores à centena de milhões de euros. Mas no caso de Otávio, desses 0,5% já estaríamos a falar de mais de 37 mil euros, tendo em conta o valor que o FC Porto gastou por 33% do passe. E no caso de Reyes, por esses 0,5%, à luz do que foi pago na transferência inicial, também estamos a falar de 35 mil euros.

Há empresários que não faturam 72 mil euros. E pode não ser uma quantia muito significativa, mas isso dependerá sempre do destino do dinheiro. Por exemplo, por mil euros o FC Porto comprou André Silva. Por 35 mil euros Jorge Mendes comprou 40% de Diogo Jota. Por 750 euros o Benfica comprou Renato Sanches. Por 30 mil euros o Sporting comprou Gelson Martins. E 72 mil euros pagam duas rendas anuais do centro de treinos do FC Porto no Olival. Com pouco é possível fazer muito. Como nota de curiosidade, também foram comprados mais 10% de Hernâni antes de ter sido sem surpresa dispensado. Com que sentido?

Portanto Otávio custou 2,5M€ e foi uma transferência tratada por Reinaldo Teles e Adelino Caldeira. Quando os adeptos discutem o mercado, fala-se um pouco de tudo, de Pinto da Costa a Antero Henrique, de Alexandre Pinto da Costa a Jorge Mendes, da Doyen a Luciano, mas esquecem-se que basta (aliás, é necessário) a assinatura de dois membros do Conselho de Administração para validar uma transferência. Neste caso, no contrato entre o FC Porto e o Internacional para a transferência dos direitos federativos de Otávio, foram Caldeira e Reinaldo a formalizarem o acordo.


O que O Jogo não explicou hoje foi quanto custa comprar mais de Otávio. Neste caso, o FC Porto tem a opção de comprar mais 35% do passe de Otávio por 5 milhões de euros, às entidades GE Assessoria Esportiva (20%) e ao pai de Otávio (15%). Importa dizer que estes 35% já estavam na posse das referidas entidades quando Otávio chegou ao FC Porto. Ou seja, o FC Porto não vai tocar na percentagem que toca ao Coimbra Esporte Clube/BMG, que assim continuará a ter 32% - isto desconhecendo a quem cedeu o FC Porto os restantes 0,5%.

Otávio ficaria assim a um custo de 7,5 milhões de euros por 68% (passados a 67,5%) do passe, além de encargos de 400 mil euros no momento da compra. É uma compra inflacionada, pois Otávio era um suplente do Internacional, sem percurso nas seleções brasileiras, no momento em que foi contratado.

Mas conforme foi opinado na altura, havia sentido desportivo na contratação de Otávio. Não era um Zé Manuel, um Sami ou um Anderson Dim (que chegou depois de Otávio, também via BMG, e a maioria dos adeptos já nem deve saber por onde ele anda - ou sequer que cá esteve). A qualidade, a classe e o potencial eram visíveis. Faltava o mais importante, e Otávio está a tê-lo: empenho, disponibilidade e humildade para aprender.

Sendo jogadores diferentes, tem qualidade como Quintero tinha, mas com uma mentalidade competitiva muito superior. Otávio não é um brinca na areia, não é o craque que pensa que já sabe tudo e o FC Porto tem todas as razões para estar satisfeito com o seu profissionalismo.

Obviamente que, há dois anos, Otávio não valia a avaliação de 7,5M€. São os riscos de começar por avançar para uma percentagem do passe e deixar as cláusulas de compra posteriores com uma grande inflação. Os otimistas poderão dizer que isso é uma maneira de proteger o investimento («É melhor ter dado apenas 2,5M€, e esperar para ter a certeza de que ia evoluir, do que dar logo 7,5M€»). Isso é altamente relativo. Não há partilha de risco no futebol, o risco está sempre em cima dos clubes. Walter é o perfeito exemplo disso - jogou pela última vez pelo FC Porto em 2011, mas no R&C do primeiro semestre ainda tinha contrato com a SAD, que tinha 15% do seu passe. 

Otávio não custou nada na primeira época, pois a dívida ao CEC manteve-se inalterável até ao R&C do primeiro semestre de 2015-16. Os 2,5M€ entretanto já foram pagos, além dos 400 mil euros de encargos. Agora, a maioria dos portistas admitirá que Otávio merece o tal investimento de mais 5M€ por 35% do passe. Pois, mas talvez mereça pelo que é hoje, não pelo que era há 2 anos. Foi graças ao trabalho desenvolvido pelo FC Porto (e neste caso com uma pequena ajuda do V. Guimarães) que Otávio atingiu este nível. Agora, o custo de Otávio dobrou.  E há casos em que até pode triplicar, como o de Gleison.

Otávio tem contrato por mais 3 anos, pelo que neste momento não há pressas para aumentar a percentagem do passe (nem a SAD devia comprar mais percentagem de passes antes de ter em mãos grandes propostas para venda). Mas é tempo de rever a forma como se permite que a percentagem do passe dos jogadores para compras futuras seja tão inflacionada. De 2,5M€ por 33% para 5M€ por 35% vai uma grande diferença. A avaliar por aquilo que eram as cláusulas das partes que não o FC Porto e o CEC, Otávio não estava a ser avaliado em 7,5M€ em 2014, mas sim em quase 15M€

Que o Otávio siga a sua evolução e continue com a mesma e louvável postura. Se continuar assim, o investimento progressivo será um passo natural. Mas o FC Porto não tem que calcular a sua gestão de hoje para ontem, mas sim de hoje para amanhã. 

PS: Luís Filipe Vieira disse durante o jantar de deputados benfiquistas com assento parlamentar que a sua SAD vai apresentar lucros pelo 3º ano consecutivo, o que disse ser um «feito único para os principais clubes portugueses.» Mentiu, pois a SAD do FC Porto conseguiu gerar lucros 5 anos consecutivos, entre 2006 e 2011. Os ares parlamentares fazem mesmo a boca fugir da verdade.

PS2: O empresário de Otávio, na sua entrevista a O Jogo, disse algo importantíssimo. «Ele diz que não há grupinhos no balneário». Mas por mais importante que isso seja, não basta haver sintonia no balneário, é preciso haver sintonia dentro de campo. E é algo que teremos forçosamente que ver contra o Tondela. 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Recondução e coincidência poética

Uma curta reflexão a abrir: o FC Porto (clube) detém cerca de 3/4 das ações da SAD e mantém todas as ações de categoria A, o que confere o poder de designar os elementos do Conselho de Administração da SAD.

Ora a atual direção está em final de mandato e só em abril vai ser formalmente reeleita (poderia até não ser, se houvesse uma forte lista concorrente, coisa que nunca existiu na era Pinto da Costa e que continuará a não existir). Que sentido faz uma direção em fim de mandato eleger, atempadamente, a administração da SAD para o próximo quadriénio?

Imaginem - só mesmo imaginando - que uma lista alternativa ganharia as eleições para o clube, um mês depois de o Conselho de Administração da SAD ter sido reconduzido a novo mandato. Não faz sentido. Primeiro deveriam ocorrer as eleições do clube e só depois a direção eleita deveria designar os membros da SAD. Até porque quando o clube assumiu a maioria da SAD, aquando da operação Euroantas e da absorção da parte da Somague, era suposto isso conferir maior poder de intervenção dos associados nos destinos do FC Porto. Neste caso, a administração da SAD foi reeleita ainda antes dos sócios se poderem pronunciar. E sem que tenha sido apresentado aos associados um plano para os próximos anos.

Posto isto, a entrada de Antero Henrique no Conselho de Administração da SAD acabou por ser a principal novidade na AG que reconduziu Pinto da Costa e restantes parceiros à reeleição. Antero Henrique vê, no papel, os seus poderes no FC Porto serem reforçados, o que faz com que o Conselho de Administração aumente para sete elementos, dos quais dois não executivos - José Américo Amorim junta-se a Vieira de Sá. 

Na prática, Antero Henrique passa a poder validar, diretamente, contratos ou transferências que envolvam a SAD - é sempre necessária a assinatura de dois membros do Conselho de Administração. Até aqui, só Pinto da Costa, Fernando Gomes, Adelino Caldeira e Reinaldo Teles, independentemente de conduzirem ou não os processos em causa, podiam validar esses documentos. Antero Henrique vê assim ser aumentada a sua influência na SAD, inclusive após o processo Operação Fénix, embora a sua influência no FC Porto seja patente de há 10 anos para cá, com ou sem estatuto oficioso de administrador da SAD.

Um lamento que, por clara e infeliz coincidência, o R&C do primeiro semestre tenha sido comunicado à CMVM há apenas três dias - era necessário um intervalo de cinco dias para os acionistas colocarem, atempadamente, questões à AG. Esteve representado 83,78% do capital social da SAD. A sua composição, a saber: 


A SAD foi reconduzida antes das eleições no clube, no qual Pinto da Costa também vai ser reconduzido, com mais ou menos votos. Mas seria bom apresentar o quanto antes o seu programa para o 14º mandato, de modo a que os sócios pelo menos saibam que estão a votar num projeto para os próximos quatro anos, e não apenas num currículo de três décadas. É tempo de trabalhar presente e futuro, não de reconhecer o passado - reconhecimento pelo passado é eterno e intocável, mas é isso mesmo: passado, não futuro.

Não haverá listas alternativas, pois nenhum candidato terá a coragem de concorrer contra Pinto da Costa. Quem o fizer será eternamente visto como o homem que desafiou Pinto da Costa. Basta ver que qualquer voz de contestação que se levante é imediatamente abafada por diversas vias. Nas AG também não é fácil intervir - basta ver quando, há um ano, nas alterações de estatutos, um sócio decidiu abster-se (e disse porquê) e foi imediato pressionado pelo barulho de fundo da sala, onde muitos marcam presença não para discutir o que importa mas para abafar quem ouse questionar alguma ação.

E por muito que haja cada vez mais interessados e preocupados com o rumo do clube nos últimos anos, estamos ainda a falar de uma minoria. Disse Vítor Baía, e bem, que há quem esteja a preparar-se nos bastidores para avançar, mas só o vai fazer quando Pinto da Costa decidir sair (uma ironia Vítor Baía estar a ser puxado para uma dessas mesmas jogadas, mas isso é tema para outra altura). E quando o fizer, terão que ser os sócios a escolher, não uma elite já pré-definida, que pensa que vai direitinha para o poder - ou que vai poder continuar a manter o poder quando o presidente sair. Não são eles quem vão escolher. Nem sequer Pinto da Costa. São os sócios. Quem quiser que se chegue à frente com os seus projetos, pois é o projeto que deve ser eleito, não os homens ou o seu passado.

Pinto da Costa vai estar hoje em Cantanhede e seria bom ouvir as perspetivas para o próximo quadriénio da SAD, até porque foram os acionistas a reconduzir esta administração. Uma palavra para sócios e adeptos ficaria bem, sobretudo antes de uma jornada importantíssima.

Para render até 4,425M€
Entretanto, o Football Leaks escolheu o dia seguinte à reeleição dos órgãos sociais da SAD para divulgar o contrato com as comissões da renovação de contrato de Rúben Neves. O timing é uma coincidência poética. Mas é oportuno conhecer os seus contornos e confirmar que isto vai bem além dos 5% do passe (potencialmente convertíveis a 2M€ no momento de uma transferência).

A saber, José Caldeira embolsou 225 mil euros só com a renovação do contrato de Rúben Neves, na altura quando ele ainda tinha 17 anos. Depois disto, a SAD paga 100 mil euros por 20 jogos oficiais; e mais 50 mil se chegar aos 30 jogos; e mais 50 mil por 40 jogos. Posto isto, «em consideração pelos servidos prestados pelo agente ao clube» (palavras da SAD), o irmão de Adelino Caldeira ficou com 5% do passe.

Em relação aos serviços, e embora isto seja a justificação padrão em todos os contratos da SAD (e até em todos os clubes), é curioso ver os três pontos que justificam a intervenção de José Caldeira e interpretar o que cada um deles quer realmente dizer: a) aconselhar o FC Porto na estratégia de renovação (claramente, era preciso um grande aconselhamento para o clube perceber que tinha que renovar com Rúben Neves; podia haver dúvidas); b) servir como intermediário e informar o jogador das condições que o FC Porto tem para ele (o Rúben Neves chegou há pouco tempo ao clube, passa pouco tempo nas instalações do clube e tem uma agenda muito preenchida, que o impediria de se sentar à mesa com a Administração da SAD; ainda bem que houve um pombo-correio a resolver este problema); c): convencer o jogador a aceitar o FC Porto em vez de procurar outro rumo para a sua carreira (ainda bem que José Caldeira aconselhou Rúben Neves a renovar, se não ele, um portista de berço e sangue, até era capaz de assinar pelo Benfica. Uma estátua para Caldeira, pois sem ele não havia Rúben Neves!).


Mas... Se a proposta para a transferência de Rúben Neves para outro clube for apresentada por José Caldeira, então a percentagem que o empresário tem direito passa a ser de 10%. Ou seja, potencialmente 4M€ se tivermos em conta o valor da cláusula de rescisão. Tendo em conta que José Caldeira surgiu como intermediário e que o empresário é agora Jorge Mendes, pouco leva a crer que José Caldeira tenha capacidade ou conhecimentos para apresentar uma boa proposta por Rúben Neves. 

Mas para efeitos contratuais José Caldeira pode então, na melhor das hipóteses para o empresário, ganhar 4,425M€ com a transferência de Rúben Neves, um produto da formação do FC Porto e que se calhar Caldeira nem conhecia até começar a jogar na equipa principal - ou seja, três meses antes da renovação. 

Este foi o último contrato de Rúben Neves do qual se tenha tido conhecimento. O FC Porto já disse que ele tem contrato até 2019, mas desconhece-se em que termos. O que se conhece, para já, é quanto José Caldeira pode ganhar. Infantino, ajuda lá a malta a calcular quanto é 3%.

PS: As coisas que se fazem para desestabilizar o Benfica em semana de derby!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Elefantes na sala da família

A FIFA deu razão ao FC Porto no caso Caballero. Foi um advogado do jogador, Fernando Villa, a revelar o desfecho do processo. E fê-lo com uma frase que desperta algumas questões.

«En la mañana de hoy recibimos la notificación de la FIFA. La demanda de Libertad fue rechazada, Maurito Caballero con el Oporto como jugador libre».

Ora segundo o advogado, Caballero chegou ao FC Porto livre de contrato com qualquer outro clube. E é aqui que começam as questões. Se Caballero era um jogador livre, por que é que a SAD pagou 1,53 milhões de euros, na época desportiva 2012/13, à sociedade MHD, S.A.? Curiosamente, esta era praticamente a quantia que o Libertad exigia ao FC Porto pela transferência de Caballero.


Mas outro dos advogados de Caballero disse, há 3 anos, que o FC Porto só teria a pagar 365 mil euros por direitos de formação. Então, porquê estes 1,53M€ pagos a outra daquelas empresas? - o Google ajuda como pode e diz-nos que a MHD é provavelmente um escritório situado em Chardonne, na Suíça.

Um jogador «livre»
De facto, poderia dar-se o caso do Libertad ter apenas em sua posse os direitos desportivos (o direito de inscrição, que só um clube pode ter) e os direitos económicos pertencerem a terceiros. Mas o Libertad alegava que não era o caso, que Caballero era jogador deles. O Libertad não poderia alegar o direito a receber dinheiro pela transferência se não tivesse direitos económicos do jovem paraguaio, que foi despachado para o Liechtenstein.

Assim sendo, e repetindo, se a FIFA diz que o Caballero era um jogador livre, por que é que se pagou 1,53M€ por ele a uma empresa da qual nada se sabe? Faz lembrar o caso de Kayembé, que tinha acabado contrato com o Standard Liège e cujo custo já vai em 3,165M€. Demagogia, dirão alguns, mas estes 4,7M€ pagos por dois miúdos que estavam livres já davam para comprar um central jeitosito...

Curiosamente, o Football Leaks chegou a divulgar um contrato de acordo entre o FC Porto e Ricardo Rivera, de janeiro de 2013, que trazia informações diversas sobre o negócio. Mas o mesmo não foi analisado, pois faltavam as assinaturas que validariam o documento, que também não estava timbrado. 

Entre as diversas cláusulas que estavam previstas: o FC Porto pagaria 30% da mais-valia futura de Caballero acima de 2M€ ao seu agente; o FC Porto inicialmente não ficaria com 100% do passe, mas teria opções de compra progressivas, por valores assustadores: mais 10% por 2M€; se Caballero fizesse 20 jogos pela equipa A, mais 10% por 2M€; por mais 20 jogos, mais 2M€ por 10%. Ou seja, só por 30% do passe, Caballero custaria 6M€. Felizmente, até onde se sabe, não se seguiu por esta via. Das duas, uma: ou o agente era louco por apresentar uma proposta assim ao FC Porto, ou então achava que havia duas pessoas loucas o suficiente para assinar este acordo na SAD do FC Porto.

Mas este documento mostrou também o envolvimento da Northfields Sports BV, uma empresa que se sabe ser ligada a Marcelo Simonian, empresário próximo de Antero Henrique para diversos negócios na América do Sul, desde Lucho González a Víctor García. Empresa essa que está diretamente associada a uma novidade que hoje se conhece. 



O R&C do primeiro trimestre mostrou que o FC Porto pagou uma mais-valia sobre Jackson Martínez à Northfields Sports BV, cerca de 2M€, sem se perceber porquê. A SAD sempre declarou ter 100% dos direitos económicos de Jackson Martínez, até que depois de Jackson ter renovado a SAD atribuiu 5% da futura transferência ao felizardo Henrique Pompeo - que depois andou a ameaçar publicamente o FC Porto pelo impasse nas negociações com o Atlético.

Mas o Football Leaks mostrou hoje uma carta enviada por um representante da Northfields Sports à SAD, a 14 de julho de 2015, a notificar o FC Porto para o pagar de 10% da mais-valia acima de 9,57M€ (Jackson Martínez tinha custado, no total, 9,63M€ - 8,887M€ por 100% do passe e 750 mil euros de encargos). E na carta é dito que este acordo foi celebrado a 15 de julho de... 2012. Ou seja, uma semana depois de Jackson Martínez ter sido contratado ao Jaguares. Se o negócio com o Jaguares foi fechado a 7 de julho, porquê a celebração deste acordo para cedência de uma mais-valia de 10% uma semana depois? Os documentos também mostram o que se suspeitava: o Atlético não bateu a cláusula de rescisão de Jackson; pagou, isso sim, os 35M€ numa só tranche. São coisas diferentes, pois se o Atlético tivesse batido a cláusula o FC Porto não teria que pagar mecanismos de solidariedade, nem comissões à Gestifute (aliás, note-se que o FC Porto, aquando da venda de Jackson, pagou comissões a pelo menos 3 entidades diferentes: Pompeo, Gestifute e Northfields Sports. Que trabalheira!).

Entretanto, foi também divulgada a situação da partilha de passes de uma série de atletas do FC Porto na data de encerramento do relatório e contas semestral de 2014-15. Há muitos casos que merecem análise, mas um acima de todos: Rúben Neves. Já tinha sido noticiado, aquando da sua renovação de contrato, que José Caldeira tinha tido intervenção na assinatura do novo acordo. Mas não nos termos que o Football Leaks dá a conhecer - e que o FC Porto está, desde o primeiro dia, à vontade para desmentir.

A renovação de Rúben Neves
A SAD cedeu 5% do passe de Rúben Neves a José Caldeira pela renovação de contrato. O curioso é que na altura foi noticiado que foi a Unifoot a surgir no papel de intermediária, mas não, terá sido outra empresa ligada a Caldeira, a Prestige Sports. E aqui se levantam questões: porquê ceder 5% do passe do nosso maior valor da formação numa renovação de contrato?

Alguém imagina que foi Rúben Neves a sentar-se à mesa na SAD e a fazer a seguinte exigência: «Ora bem eu concordo em renovar contrato, mas quero que o José Caldeira, irmão do administrador da SAD Adelino Caldeira, seja compensado e bem compensado»?. Isto não é uma transferência internacional. Não envolve conversações entre clubes, nem com fundos, nem sequer com partilhas de passes ou múltiplos empresários. Rúben Neves era um atleta da formação do FC Porto, que nem tinha empresário quando assinou o seu primeiro contrato profissional. Então porquê meter José Caldeira no papel de intermediário, se as coisas seriam facilmente resolvidas entre atleta e clube?

5% podem parecer réstias, mas não são. Rúben Neves continua a ser um dos jovens de 18 anos mais promissores do planeta, e não será difícil imaginá-lo a ver ser transferido por 40M€ a médio prazo. Ora 5% de 40M€ são 2 milhões de euros. Dar potenciais 2M€ a um empresário numa renovação de contrato de um jovem de 17 anos é coisa que se calhar nem o Real Madrid ou o Barcelona fazem. É uma renovação, não uma contratação.


Isto já para não falar do eterno possível conflito de interesses. José Caldeira é irmão de Adelino Caldeira, administrador da SAD. Ninguém pode ficar chocado só por este negócio, pois não é um caso isolado. Alexandre Pinto da Costa intermedeia vários negócios do FC Porto, mesmo sem ser o empresário dos jogadores em causa. Afzal, aqui descrito como o ex-cunhado de Antero Henrique, também já fez muitos negócios como intermediário para o FC Porto. E até o genro de Pinto da Costa já foi associado a negociações em nome do FC Porto.

José Peseiro disse hoje que o caso de Maicon vai ser tratado «dentro da família». Ironicamente, parece mesmo que há muitas coisas a ser tratadas em família no FC Porto. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Culpas e responsabilidades

Não há adepto do FC Porto que perdoe um jogador que não dá tudo. Se não mete o pé ou não puxa mais um bocado no sprint, não é perdoado. Porque todos os adeptos exigem que cada jogador faça o que está ao seu alcance para ajudar o FC Porto a vencer. Se fazemos essa exigência aos jogadores, não era de esperar menos face à exigência perante a administração da SAD.

Começando por aqui: o caso das prendas ilegais do Benfica às equipas de arbitragem. Este caso foi descaradamente arquivado pela Liga, mesmo quando os regulamentos estão chapados e aos olhos de qualquer pessoa. Mas a lavagem pública que foi feita levou muita gente, inclusive portistas, a aceitar este desfecho com naturalidade. 

Culpas e responsabilidades
Inaceitável. Veja-se lá que a comissão de inquérito foi perguntar aos árbitros se eles se sentiam pressionados ou coagidos. Isto é um gozo! Nos regulamentos, o que é punível não é o sentimento dos árbitros: é a oferta de prendas de valor comercial. Não interessa o sentimento do árbitro, o que é ilegal foi a prática do Benfica - que aparentemente deixou de entregar os seus kits (se não havia nada incriminatório, por que deixar de os entregar?). Vítor Pereira mentiu, em defesa do seu clube (por seu, entenda-se o único clube que o segura na instância da arbitragem), e o Benfica só teve que esperar que o caso chegasse a este desfecho.

Que fez o FC Porto perante tudo isto? Nada. Ficou calado, sem uma única reação. Mas porquê? Ficar em silêncio perante isto é a mesma coisa que o Maicon parar de correr, que o Herrera falhar um passe e o Varela perder a bola: é uma gestão que não faz tudo o que está ao seu alcance para ganhar. Indiferença? Reféns de alguma coisa? Ou estratégia? Nada o justifica.

Na perspetiva de um dirigente do FC Porto, não pode haver maior vergonha de que esta: Bruno de Carvalho, indiretamente, fez mais pela defesa do FC Porto neste processo do que todos os dirigentes do FC Porto juntos (o FC Porto é que foi 2º classificado em 2014-15, não foi o Sporting, logo, sem o colinho descarado, o campeão seria o FC Porto) . Não há como aceitar isto.

Sabe-se lá porquê, alguns portistas meteram na cabeça, e cultivaram essa ideia, que o FC Porto tinha que ganhar 34 jogos em 34 jornadas. Como se isso existisse, como se isso fosse possível. Todas as equipas perdem pontos todos os anos, e perdem sempre em jogos teoricamente mais acessíveis; o que não foi normal foi o camião de pontos que o Benfica garantiu à boleia de erros de arbitragens sempre em prejuízo dos seus adversários. 

E perante isto, que fez o FC Porto? Nada. Aliás, despediu a única pessoa, por mais ou menos valias que tenha tido, a contestar todo o desenrolar da última época.

E com isto chegamos ao jogo com o Arouca. Uma equipa que perde em casa com o Arouca não pode ser campeã, como é natural. Não se sabe bem porquê (ou talvez sim), mas gerou-se por aqui um mini-motim nos últimos dias na caixa de comentários. Porque o FC Porto tinha ganho ao Estoril e ao Gil Vicente, e tinha contratado Peseiro, Marega e Suk no mercado de inverno, logo não se podia criticar nada de nada. Ora foda-se. Que FC Porto é este que acha que os seus problemas foram resolvidos por ganhar dois jogos ao Estoril e ao Gil Vicente!?

O erro do auxiliar de Rui Costa (e não é que o FC Porto não mete nome ao sujeito!?) prejudicou gravemente o FC Porto. O problema é que este não é um erro de arbitragem isolado. Acontece na jornada que antecede a visita do FC Porto à Luz. Vamos a seis pontos, podemos sair de lá a nove. A luta pelo título já está longe para o FC Porto, mas até o acesso à Liga dos Campeões já está em causa (e que grande rombo financeiro será falhar o apuramento). E este erro de arbitragem é apenas mais um dos muitos que se acumularam nos últimos tempos, sem que o FC Porto o combatesse declaradamente. 

Todos gozam com o circo que o Sporting montou. Protestam sem razão, preparam comentadores para os espaços televisivos, montaram uma máquina de propaganda similar à célebre do Benfica e fazem o papel de eternos coitadinhos e vítimas. E sabem o que é que também estão a fazer? Tudo o que está ao seu alcance para serem campeões! E a verdade é que podem, à 21ª jornada, ficar já com praticamente irrecuperáveis 8 pontos de avanço sobre o FC Porto, e vergonhosos 11 na jornada seguinte. O Sporting, porra! O Sporting!

Veja-se lá que até meteram Cosme Machado a admitir publicamente um erro de arbitragem, violando a alínea G, do artigo 19 do do subtítulo II do regulamento de arbitragem. Alguém acredita que agora vamos ver o árbitro auxiliar (vá, metam nome ao sujeito) dar uma entrevista a assumir que prejudicou o FC Porto? Veja-se a diferença de tratamento que será feita.

E agora, voltamos a fazer uma piadinha no Dragões Diário e depois volta tudo a esperar que José Peseiro faça o milagre? Esta reação do Dragões Diário é novamente de um amadorismo que não tem descrição. Por acaso viram o árbitro Rui Costa a levantar a bandeirinha quando Brahimi marcou? Não? Pois não, pois quem assinala os fora-de-jogo não é o árbitro principal, é o auxiliar. E o FC Porto achou que o interessante era realçar o parentesco entre Rui Costa e Paulo Costa, nem sequer metendo nome ao responsável pela perda de pontos do FC Porto. Volvidos quase dois anos, tempo de fazer um balanço: que anda Manuel Tavares a fazer no clube? Que política de comunicação é esta levado a cabo desde a sua chegada ao FC Porto? Mudanças, para ontem!

Quanto a José Peseiro, não vale a pena tecer críticas ao jogo de ontem. Se tiver sucesso no FC Porto, é um herói. Se não tiver, quem assumiu a aposta nele só tem que se responsabilizar pelo sucedido. Porque quem, através da análise feita nos últimos 10 anos, julgou que encontrou em José Peseiro o homem para esta «missão impossível» no FC Porto só pode ter uma justificação muito boa.

Culpas e responsabilidades
Além de trazermos um treinador sem o hábito de lutar por títulos (atravessamos uma fase em que é necessário um treinador que faça do FC Porto campeão, não um treinador que venha para o FC Porto para ser campeão - são coisas diferentes), o FC Porto consegue a proeza de sair do mercado de inverno mais fragilizado do que quando começou o mês de janeiro. Todos sabem que as equipas de José Peseiro mostravam-se muito frágeis no momento de transição defensiva. Ok, alguém achou que era no FC Porto que isso ia mudar. Mas além disso saem do mercado de inverno sem uma única tentativa de reforço do setor.

José Peseiro também não tem culpa que Ángel comece o jogo a dormir, que Casillas não saia da baliza, que Indi não ganhe uma bola de cabeça e que Maicon tenha tido mais uma paragem cerebral. É um treinador que sempre teve dificuldades em preparar as suas equipas defensivamente, mas que culpa pode ter um treinador perante estes erros individuais? E que culpa tem o treinador que vê a sua equipa ter um golo mal anulado? Discutam o que quiserem, mas não será por Peseiro que o FC Porto deixará de ser campeão; tal como, cruel realidade, dificilmente será com ele que algum dia o será. Pelo menos não esta época, onde não houve tempo para preparar uma equipa com pré-temporada e devido reforço do plantel.

O FC Porto manteve a aposta assumida de que ia lutar para ser campeão e sai do mercado de inverno com Suk e Marega. Não vale a pena continuar a criticar as contratações, porque já estão feitas e são estes que sobram para ir à luta, mas sinceramente que esperavam? Quem achou que era com Peseiro, Suk e Marega que o FC Porto ia passar do 3º lugar para o título?

E se o FC Porto não conseguir um bom resultado na Luz e for eliminado pelo Dortmund? Também se faz o funeral a José Peseiro ou começa-se, finalmente, a perceber que o problema vai muito além do treinador? Não tarda e o cemitério de treinadores, que ficava mais a sul, muda-se de vez para norte.

Considerem-se estes os «Machados» a atribuir pelo jogo de ontem. «Bonés» nem um, nem sequer um chapéuzito. Podemos alegar que o FC Porto construiu oportunidades de golo, atacou, tentou, e teve um golo mal anulado que mudou toda a história do jogo. Mas de que nos podemos verdadeiramente queixar se Bracalli acaba o jogo com menos defesas do que Casillas?

Esta administração vai ser reeleita dentro de dois meses (Pinto da Costa, na última entrevista que deu, nem sabia ao certo quando eram as eleições), e para um mandato de 4 anos inédito da história do FC Porto. Mas em vésperas de eleições, desejava-se uma postura bem diferente para esta fase débil do FC Porto. Em vésperas de eleições, o máximo que esta administração conseguiu garantir para lutar pelo título foi contratar José Peseiro (isto não é uma crítica ao treinador, é simplesmente questionar o que fez nos últimos 10 anos para merecer receber um telefonema de Pinto da Costa logo após o empate com  Rio Ave...), o 13º guarda-redes com contrato profissional, tornar Marega o jogador mais caro da história de um clube português insular e contratar Suk.

Culpas e responsabilidades
Uma vez mais: Pinto da Costa vai ser reeleito, mantendo a atual administração. E é exatamente por isso que esta exigência é aqui clamada. É por isso que há críticas sempre de sentido construtivo. É por isso que se questionam negócios ou apresentam-se sugestões: porque esta administração vai ficar veiculada ao FC Porto durante mais 4 anos. E de certeza que nenhum adepto do FC Porto quer que os próximos 4 anos sejam um filme dos últimos três. É por isso que este espaço não é de luas, de achar que quando se ganha ao Gil Vicente está tudo bem e que quando se perde com o Arouca está tudo mal. Mas quando se perde com o Arouca, podem ter a certeza de que há muita coisa que está mal. 

Pinto da Costa tem uma remuneração fixa de 520 mil euros. Reinaldo Teles, Adelino Caldeira e Fernando Gomes de 287 mil euros (o salário de Antero Henrique não é conhecido, por não ser administrador). Todo o portista tem o direito de exigir que, perante as condições de que usufruem, os dirigentes lutem cada dia, cada segundo pela defesa dos interesses do FC Porto. Não é ficar calado à espera de encontrar um treinador que engate e que camufle os problemas da equipa.

Não podemos viver de memórias de há 25 anos atrás. Não podemos desculpar o presente com base na gratidão pelo passado. O passado é grandioso, intocável, eterno. Mas chega um dia em que o passado já não é mais do que... passado. Se o presidente dos últimos 3 anos se chamasse Joaquim, de certeza que os sócios pensariam duas vezes antes de elegê-lo para os próximos quatro anos, pois é impossível ficar satisfeito com o desenrolar das últimas três épocas. Temos que pensar nos próximos 4 anos, não nos últimos 30, pois o FC Porto é um clube de futuro, não de passado.

Pinto da Costa, Antero Henrique e Fernando Gomes, sem esquecer a restante administração, são e continuarão a ser os dirigentes que carregam as expetativas de centenas de milhares de adeptos, muitos deles que continuam a confiar cegamente nesta administração e a achar que a culpa é sempre ou do treinador, ou do jogador, ou do árbitro. Precisamos de uma administração que mereça ficar no FC Porto pelo que faz no presente e pelo que planeia para o futuro, não pelo que fez no passado.

Queremos mais e melhor. Isto não é pedir uma nova administração: é exigir mais de quem cá está e de quem cá vai continuar independentemente do que faça!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Caro Julen,

Nada é mais volátil do que o mundo do futebol. Há menos de duas semanas, após a primeira vez em que foste líder isolado em Portugal, Pinto da Costa não hesitou em vir a público afirmar que os assobios te davam sorte. Dar a cara nas vitórias é fácil, nas derrotas nem tanto. Passadas duas jornadas que se traduziram numa perda de 5 pontos, era necessário tomar uma decisão. A SAD, na palavra do seu presidente, o único que ainda te segurava, optou pelo mais fácil.

A situação tornou-se insustentável. Não eras o maior dos problemas do FC Porto, mas também não estavas a conseguir ser solução. Era necessário mudar alguma coisa. A equipa estava numa espiral regressiva da qual não dava sinais de conseguir sair. Numa jornada prometes que vamos ser campeões, na outra empatas com o Rio Ave e és convidado a sair. Num jogo tudo muda. 

Os treinadores espanhóis estão destinados a não serem os mais felizes no futebol português. Sais estando a 4 pontos da liderança. O teu compatriota Víctor Fernández saiu quando estava empatado com o Sporting no 1º lugar, e já tinha no bolso uma Supertaça, uma Taça Intercontinental e o apuramento para os 1/8 da Champions.

Pinto da Costa tinha que assumir uma decisão, pois as paredes começavam a ficar curtas. De rajada, vemos de um lado Vítor Baía lançar a cana sobre a candidatura à presidência do FC Porto; e António Oliveira, sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada (é que nem um jornal falou nessa possibilidade), decide mandar um comunicado a todas as redações, só mesmo para lembrar «olá, estou aqui». 

Os adeptos, na sua generalidade, já não te queriam. Os jogadores, salvo algumas exceções de peso, também não te queriam. O staff técnico do Olival não te queria. O Conselho de Administração não te queria. E Pinto da Costa deixou de te querer. Não havia como continuar, Julen. Mas há coisas que a história de uma passagem pelo FC Porto sem títulos (desde Couceiro que não acontecia - Luís Castro é um caso à parte, que nunca na vida pode ser repetido!) não podem apagar.

Para começar, o FC Porto isola-te como responsável único do mau momento da equipa. Ninguém veio a público falar, ninguém deu a cara. A SAD demite-te ainda antes de saber sequer quem poderá ser o teu sucessor. Se um treinador português, se uma velha raposa mais experimentada, se alguém que conheça a casa. Isso significa que o FC Porto acha que o melhor é saíres já, e depois logo se vê. Vamos ao Bessa com o nosso Rui Barros, um grande portista mas sem a fibra de treinador principal. Pelo menos, vamos ao Bessa com um capital de apoio dos adeptos do FC Porto, coisa que contigo não seria possível.

Não é nada contra ti, Julen, pois o próximo treinador, ao fim de três ou quatro maus resultados, também fica com o pescoço na guilhotina. O FC Porto tem-se habituado a dar mais valor a treinadores depois de eles saírem do que enquanto cá estavam, como são exemplos Jesualdo Ferreira, Vítor Pereira ou até Paulo Fonseca. Não sei se será o teu caso, mas há méritos que ninguém te retira.

Começando pelo princípio. Chegaste e ajudaste a reabilitar competitivamente um clube que vinha de uma época miserável e uma SAD que apresentou o maior prejuízo da sua história. Algo ninguém pode negar: és um excelente manager, telefonista, diretor desportivo. Soubeste convencer a vir para o FC Porto quem, sem a tua intervenção, não viria. E até convencerias a vir quem o FC Porto não conseguiria pagar.

A tua primeira vitória no FC Porto é desconhecida à maioria dos adeptos, mas merece realce: o bate pé às contratações comissionistas, cuja lógica ia muito além do campo desportivo - ou não chegava sequer ao campo desportivo. Podemos falar claramente de Sami. Perguntaste, e bem, por que é que a SAD tinha dinheiro para contratar quem tu não precisavas e não para contratar quem te daria jeito. Podias ter feito o mais fácil: aceitavas o Sami e deixavas muitas famílias felizes, até o ex-cunhado. Mas não. Deixaste claro que tu é que escolhias quem jogava e quem faria o plantel. E muito bem.

Confesso que não percebi algumas contratações tuas. Porquê o Campaña ou o Andrés, por exemplo? Ainda assim, os nomes em quem falhaste saíram bem mais em conta do que todos aqueles em que a SAD tem falhado nos últimos anos.

Dizem que não sabes aproveitar o plantel que o FC Porto tem à disposição. Não concordo. É verdade que tinhas, e tens, obrigação de fazer muito melhor com o que tens. Mas estás longe de ter o melhor plantel em mãos. E se no ano passado o FC Porto tinha um plantel muito melhor, é também teu mérito.

Jackson, Danilo e Alex Sandro já eram matéria-prima de elite, mas foi após uma época contigo que saíram deixando 92,5M€ na Invicta. Com um guarda-redes sempre contestado (Fabiano) e sem ter uma grande dupla de centrais, conseguiste ter a melhor defesa de toda a Europa na época 2014-15. Ganhaste 20 jogos consecutivos no Estádio do Dragão, coisa que não voltaremos a ver nos próximos anos. 

Lançaste o Rúben Neves, que se não fosses tu iria iniciar a época nos sub-19, e sabe lá Deus onde estaria a (não) ser manifestado o seu talento por esta altura. Pegaste num miúdo, Óliver, e num sarrafeiro, Casemiro, e tornaste-os jogadores de equipa grande na liga espanhola. Meteste Herrera e Brahimi a brilharem ao mais alto nível na Champions. Meteste o Tello a marcar e a assistir como nunca em 2014-15. E até fizeste do Quaresma o jogador que nunca foi coletivamente.

Optaste por deixar sair o Quaresma, e bem, pois os adeptos não imaginam o que é ter um balneário com vedetas. Depois seguiu-se uma série de saídas importantíssimas. É verdade que o FC Porto vende 2 ou 3 titulares por época - e foi isso que aconteceu. Saíram Alex, Danilo e Jackson. Óliver e Casemiro não eram nossos e nunca haveria dinheiro para os ter. Logo, acabou por acontecer o normal, que é perder os tais dois ou três jogadores do clube em vendas milionárias. Mas aconteceu o que é normal na gestão da SAD: venda de dois ou três ativos; não aconteceu o que é normal na gestão de um treinador: perda de cinco ou seis titulares.

Uma coisa chocante é a tua revelação de que achavas que a SAD ia aplicar o dinheiro em novas contratações. Das duas, uma: ou ninguém te explicou como funciona a SAD do FC Porto, ou estavas com muita, mesmo muita ilusión. Qualquer uma é grave, mas não pá para acreditar que a SAD não te tenha explicado que não havia tusto para reforços, exceção feita a parcerias com fundos. Por outro lado, sempre questionaste, e bem, como é que havia dinheiro para tantas coisas e não para a maior prioridade: reforçar o plantel. O plantel principal deixou de ser a porta de entrada de contratações que não serviam propósitos desportivos - em compensação, na equipa B e nas camadas jovens dispararam.

O que foi a época 2014-15 desportivamente? Fizeste uma brilhante Champions. Ajudaste a apurar o FC Porto a frio e fizeste 11 jogos consecutivos sem perder na Liga dos Campeões - hão-de passar muitos anos até um treinador de um clube português voltar a fazê-lo. O desastre de Munique foi próprio de quem não tinha laterais suplentes inscritos na UEFA. Aos 75 minutos ainda estávamos a discutir o apuramento para as meias-finais com uma equipa muitíssimo superior a nós.

É verdade, inventaste na Taça de Portugal. Subestimaste o Sporting, e partir daí muitos adeptos ficaram com o pé atrás - e nunca mais o tiraram do sítio. Mas também foi um dos muitos jogos em que foste pé frio. Penaltys falhados, ineficácia a atacar, erros individuais a defender. Detalhes, detalhes e mais detalhes. Mas o detalhes foram-se acumulando e deixaram de ser detalhes para passarem a ter tendência. Foram demasiados jogos em que o FC Porto foi incapaz de dar a volta a uma desvantagem no marcador - apenas uma reviravolta em ano e meio.

No campeonato, ainda assim, fizeste 82 pontos. Tantos como o Mourinho em 2004, mais do que o Co Adriaanse e em três épocas do ciclo do penta. Para aquilo que eras - um treinador sem experiência a nível de clubes na luta por títulos, coisa que muitos pareciam esquecer que eras: inexperiente -, foi bem razoável. Tiveste, aliás, a segunda melhor defesa de sempre num campeonato a 34 jornadas. Podias, e devias, ter sido campeão. Mas os adeptos deixaram-se iludir pela máquina de propaganda que visava lavar o roubo que foi a forma como o Benfica tirou o campeonato ao FC Porto.

Só tu, sozinho, te insurgiste contra isso. Contra-atacaste sozinho, perante tudo e todos. O Jesus, o Manuel José e o Gomes da Silva. Atacaste as arbitragens tendenciosas, as nomeações e a comunicação social que desprezava tudo o que de bom o FC Porto conseguisse. Não é um problema, é tradição. Mas os adeptos deixaram-se levar pela própria propaganda encarnada - e o problema foi esse.

Pinto da Costa elogiou mais vezes publicamente um treinador que só era líder do campeonato devido ao colinho do que defendeu o FC Porto. Tudo calado, tudo no canto. O Benfica ganhou um campeonato da forma mais ilícita de que há memória e ninguém na SAD do FC Porto protestou. Porquê? Por indiferença? Por não ter moral para o fazer? Por outras razões? Não sabemos qual, e também não sabemos qual será a mais grave.

Temos uma SAD paga a peso de ouro. Reinaldo Teles, Adelino Caldeira e Fernando Gomes têm remuneração fixa anual de 287 mil euros, mas nunca saíram a público para defender o FC Porto. Podem alegar que é o presidente que o tem que fazer, mas não há mais ninguém na SAD? Não podem dar a cara pelo FC Porto? É verdade que por vezes, nomeadamente nas intervenções de Fernando Gomes, sai uma mescla que torna o silêncio ouro. E Antero Henrique, o «homem forte do futebol», porque é que só dá entrevistas a jornais estrangeiros a falar sobre o «modelo» e «a estrutura»?

O FC Porto foi atacado por inúmeras frentes em 2014-15, numa época em que muitos queriam que fosse o funeral do clube, depois do desastre que foi 2013-14. Lopetegui defendeu o clube sozinho. Ajudou a manter a SAD de pé. Depois de Lopetegui tanto ter defendido o FC Porto, seria altura de defender Lopetegui. A SAD nunca o fez.

Tu querias ganhar no FC Porto, sei que sim. Em condições normais, já terias ganhado em 2014-15. Esta época não conseguiste segurar o leme, reconheço. Há jogadores que não ajudam, mas não há treinador que passe pelo FC Porto sem ter problemas no balneário - muitos estão de passagem e não pensam na próxima vitória, só pensam no próximo milhão. Há quem diga que és convicto, como um treinador do FC Porto tem que ser. Mas muitas vezes foste casmurro e inflexível, que é algo que dificilmente serás no teu próximo clube. 

Os próprios jogadores sabem jogar com a instabilidade do treinador. Um jogador que sabe que o treinador não é apreciado pelos adeptos, e nem sequer pela própria SAD, é um jogador que sabe que o treinador já não é a voz autoritária inquestionável. Perdeste o balneário também por isso. Quiseste ser punho de ferro quando muitos jogadores sabiam que estavas a prazo. Um treinador só consegue triunfar no FC Porto enquanto tem apoio. Quando deixa de o ter, perde tudo.

Chega a hora de seguir caminhos separados. O FC Porto vai voltar a vencer sem ti. E tu hás-de vencer sem o FC Porto. Como tem sido apanágio nos últimos anos, o tempo confirmará se as culpas se podiam, ou não, resumir ao treinador.

Boa sorte, Julen. E força, FC Porto. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Eis o orçamento para 2015-16

O FC Porto já deu a conhecer à CMVM a proposta de orçamento que será apresentada (e aprovada) na AG de 12 de novembro. O Tribunal do Dragão, tal como já fez há um ano, volta a resumir os principais destaques da proposta, um trabalho inexistente a nível de comunicação social - daí que tantos tenham ficado surpreendidos com os gastos salariais em 2014-15, quando na verdade a SAD até acabou por gastar ligeiramente menos do que estava orçamentado desde outubro.

Para começar, importa referir que o resultado positivo individual de 2014-15 (17,92M€) vai, como é lógico, transitar para 2015-16. Posto isto, o plano para a época já em curso é este:


Em relação ao que estava orçamentado para 2014-15, o FC Porto prevê menos 3,77M€ de receita, menos 6,432M€ de custos operacionais e o prejuízo operacional baixa 2,652M€, de 24,975M€ para 22,323M€. O grande destaque vai para o aumento da necessidade de resultados com passes de jogadores, que sobe 8,2%, para 72,591M€, os números mais altos da história da SAD.

Feita a comparação com o que estava orçamentado, vamos comparar a proposta para 2015-16 com os valores finais de 2014-15.

As receitas operacionais baixam de 93,589M€ para 85,443M€. Basicamente esta descida deve-se à quebra nas receitas da UEFA, pois a SAD orçamentou como objetivo ir aos oitavos-de-final da Champions, que é e deve continuar a ser a meta realista para as contas, e agora só entra um prémio de participação. Para já a SAD perspetiva descidas na bilheteira e nas receitas televisivas, enquanto a publicidade, mesmo sem main sponsor para as camisolas, aponta para admissíveis e normais 13,626M€. Podem recordar em baixo as receitas de 2014-15:


Em relação aos custos, a SAD orçamenta menos 1M€ de salários esta época e os FSE mantêm-se praticamente intactos. Só estas duas rúbricas custam à SAD mais de 100 milhões, o que significa mais um orçamento de elevado risco, sem grande intenção manifestada de reduzir os custos e de encurtar a dependência da venda de jogadores. Foram estas as despesas: 

Chegamos ao maior destaque da proposta de orçamento para 2015-16: o resultado de 72,591M€ previsto com vendas de jogadores. As amortizações e perdas de imparidade com passes não sofrem grandes alterações (mais de meio milhão do que os valores de 2014-15), mas a necessidade de mais-valias disparou. É certo que a SAD projeta menos do que o que foi conseguido na última época (82,5M€), mas inicialmente o que estava orçamentado era 66,529M€. Além disso, em 2014-15 entraram enormes negócios com Mangala, Danilo ou Jackson Martínez. Quantos jogadores terá o FC Porto, neste momento, para negociar com uma base de 30M€ pela percentagem do passe na posse da SAD...?

Podíamos referir que a venda de Alex Sandro já entra para abater parte dos necessários 72,591M€, mas quando a SAD fez o orçamento para 2014-15 também já contava com a mais-valia de Mangala para abater um terço dos 66,529M€ necessários. Agora fica a questão: como é que a SAD, que neste caso delega a Lopetegui a responsabilidade de fazer evoluir os jogadores (quais jogadores?), tenciona obter este dinheiro em vendas?

Tendo em conta que não faz muito sentido falar em negociar jogadores contratados este ano nem jogadores trintões, quem sobra? De Brahimi a SAD tem 50%, de Aboubakar 30%. Herrera (80%) está longe do pico de valorização, Maicon é o capitão e nunca teve grande mercado e Indi, embora esteja agora a ser titular, ainda não atingiu o nível de grande central que o valor pago por ele prometia. Quem sobra para vender? Pois... Apresentar uma necessidade de 72,591M€ com resultados de transações de passes no mesmo dia em que Pinto da Costa diz querer manter Rúben Neves durante muitos anos dá que pensar. Por fim, entre o que está orçamentado, os custos financeiros sobem pouco menos de 200 mil euros e os proveitos baixam mais de meio milhão.

Posto isto, fica à consideração dos leitores e dos sócios do FC Porto o ponto 5 da ordem de trabalhos:

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Lopetegui, a política de comunicação do FC Porto e mais umas coisinhas

A ideia principal passava por uma newsletter para adeptos. Foi daí que nasceu o Dragões Diário. Um mês depois da sua criação, o Dragões Diário deixou de ser, pelo menos em termos mediáticos, uma newsletter para adeptos: passou a ser o principal mecanismo de defesa e contra-ataque para o FC Porto em termos de comunicação.

O impacto na comunicação social está a ser imenso. Faz capas de jornais, motiva respostas institucionais, rende milhares de page-views e faz disparar as vendas de Barral Dermaprotect. Os adeptos do FC Porto concordam quase todos com o mesmo: isto só peca por tardio. Mas há cuidados a ter em conta.

Questão: isto é a palavra do FC Porto ou a palavra de Francisco J. Marques? Tendo experiência e responsabilidades como diretor de informação, FJM está identificado com o clube, percebe como funciona e logo custa a crer que alguma vez desse alguma resposta que não estivesse em sintonia com o que pensa o estado-maior do Dragão. Mas não deixa de ser curioso que todos os textos sejam assinados por FJM, ao contrário do que acontece, por exemplo, em comunicados oficiais. Logo, é o FC Porto quem está a falar ou FJM? Aparentemente, FJM em nome do FC Porto. Se assim é, que seja para continuar.

Mas a assinatura a título pessoal já é uma imagem de marca sua. De recordar o que escreveu quando trocou o jornalismo (Lusa, JN, Público...) pela direção de informação do FC Porto. «Ao longo da minha carreira de jornalista escrevi textos simpáticos e antipáticos para com o FC Porto, para com o Benfica, para com o Sporting e para com todos os clubes. É a vida. É um facto indesmentível que escrevi que o FC Porto se sagrou pentacampeão, que o FC Porto venceu a Taça UEFA, que o FC Porto venceu a Liga dos Campeões, a Taça Intercontinental, o tetracampeonato e nunca o fiz em relação ao Benfica, mas a culpa não é minha. Juro

Do Apito Dourado à
Liga Aliança
Era urgente rever a política de comunicação do FC Porto. Pinto da Costa intervém cada vez menos publicamente e nem sempre com a maior pertinência - em 2014-15, destaca-se a forma como se insurgiu contra as nomeações do Conselho de Arbitragem, mas a determinada altura parecia mais interessado em (contra-)atacar Fernando Gomes do que a forma como a FPF, em odores de cumplicidade, (não) tem reagiu ao CA e à Liga Aliança que comprometeu a verdade desportiva do futebol português como não se via desde o Apito Dourado. Com a diferença de que o Apito Dourado parou convenientemente em Leiria, enquanto a Liga Aliança não vai além da capital. Já para não falar que o processo Apito Dourado assentou, essencialmente e factualmente, em dois jogos de alegado benefício ao FC Porto, contra Beira-Mar e Estrela da Amadora. Façam lá as continhas sobre de quantos Apitos Dourados o Benfica beneficiou nas primeiras 22 jornadas do campeonato.

Ainda sobre o Dragões Diário, resta ter o cuidado de não banalizar a palavra do FC Porto. Diariamente, tem sido notícia um pequeno trecho do Dragões Diário. Quase sempre pertinente, mas se diariamente o FC Porto se insurgir sempre contra algo a sua palavra vai começar a merecer alguma indiferença. Há que guardar as críticas para as alturas mais pertinentes possível. Em 2014-15 já não há muito mais a fazer, mas a partir da próxima época há que ser tão seletivo quanto possível. Mesmo nos tempos de maior sangue na guelra de Pinto da Costa, passavam semanas e semanas sem que o presidente falasse. Mas quando falava, o impacto era imediato.

Se essa seleção for bem feita, o FC Porto só tem a ganhar. Era importantíssimo mudar de estratégia, pois temos que ter uma voz presente na defesa do FC Porto. Antero Henrique quase só dá uma entrevista anual em épocas de títulos (não fala desde a promoção ao Museu em 2013), as responsabilidades financeiras e perfil de Fernando Gomes não recomendam que seja ele a fazê-lo, Adelino Caldeira idem e Rui Cerqueira, apesar do papel no Porto Canal e no site/redes sociais do FC Porto, praticamente não se manifesta publicamente desde a conferência de imprensa com os erros de Duarte Gomes, em 2011. Precisávamos de uma nova voz, desde que FJM esteja sempre em sintonia, dentro de possível, com o estado-maior do FC Porto.

O manto protetor
É bom ver a urticária que vai provocando. O mesmo se aplica às conferências de imprensa de Lopetegui. Fica tudo tão incomodado com a palavra do treinador do FC Porto que ninguém pára para pensar na questão essencial: o que é que Lopetegui tem dito que é mentira? Tal como o Dragões Diário se assentou em factos para falar sobre a nomeação de João Capela (já aqui avaliada anteriormente), Lopetegui nunca saiu do campo dos factos/estatística ou da mera opinião pessoal. Nunca acusou um árbitro de querer errar propositadamente, de querer beneficiar o Benfica, de querer prejudicar o FC Porto. Nunca acusou ninguém de ser desonesto e sempre o afirmou: no dia em que tiver provas do contrário, pede para sair de Portugal, tal como José Mourinho o fez em janeiro de 2004, após um clássico com o Sporting. Aliás, Lopetegui vai-se limitando, nas conferências de imprensa, a responder a perguntas. Se os jornalistas lhe fazem essas perguntas, é porque sabem que algo de errado se passa, mas é sempre mais fácil puxar pela boca do treinador do FC Porto em vez de escrever o que todos vêm e sabem.

A maior excepção ao politicamente correto chama-se Jorge Jesus, que à sexta época no Benfica está finalmente à beira de conseguir fazer aquilo que Jesualdo Ferreira fez em 3 anos de FC Porto: ganhar três campeonatos. Com a diferença que Jesualdo, nos 4 anos à frente do FC Porto, passou sempre a fase de grupos da Champions, coisa que Jorge Jesus só fez uma vez, e não teve túneis nem colinho. É um facto que Jorge Jesus goza de uma proteção que nunca um treinador em Portugal teve. Agride jogadores adversários, agentes de segurança, tem justificações e desculpas para recorrentes falhas ao serviço do Benfica e ainda continua a ser aclamado como mestre da táctica, um treinador de 60 anos que só uma vez na carreira meteu os pés nos 1/8 da Champions. E depois de tanta preocupação face à falta de títulos de Lopetegui em 2014-15, que dizer de um treinador que entre 2010 e 2013 recebeu 12 milhões de euros brutos, sempre com orçamentos na casa 100 milhões, para depois ver o FC Porto ser tricampeão com apenas uma derrota? Ah, Lopetegui ameaçou que lhe dava um puñetazo? Foi fraquito. Jorge Jesus não se fica pelas ameaças: soca logo.

Lopetegui fala a título pessoal
Lopetegui deu a Jorge Jesus o tratamento que este fez por merecer. O que disseram após o clássico só ambos saberão. Mas só um dos treinadores decidiu ir meter uma acha e chorar um bocadinho junto do Sol. Percebe-se, foi importante para o treinador do Benfica apresentar logo publicamente a sua versão dos factos, não fosse Lopetegui fazê-lo primeiro e entalá-lo. Adiante, esta é apenas mais uma prova de que com Lopetegui não há subserviência, nem mesmo num clube cuja estrutura (ou parte dela) pensou, nos últimos anos, que o treinador era quase um mero adereço e que no FC Porto qualquer um é campeão. Como se sabe, Pinto da Costa é um grande admirador de Jorge Jesus. E não foi isso que inibiu Lopetegui de, uma vez mais, não ter papas na língua.

Para terminar, Lopetegui vai-se tornando num case study face às reações de muitos adeptos do FC Porto. Todos conhecem a expressão «jogador à Porto», mas há diferentes formas de o explicar. Mas por norma, todos concordam que um profissional à Porto é alguém que dá o peito às balas na defesa do FC Porto, que se insurge contra a injustiça e desvalorização que muitos fazem perante o nosso clube, que demonstra raça, determinação, vontade de vencer. Ora Lopetegui demonstrou tudo isto ao longo da época do FC Porto. Por isso, pode-se concluir que na cabeça de muitos adeptos um jogador/treinador à Porto é simplesmente alguém que ganha (a única coisa que faltou a Lopetegui esta época - também a mais importante). Se não ganha, então não presta. E isso não é um adepto do FC Porto, é um adepto de vitórias.

Balanço e expetativas
Ninguém pode estar satisfeito com 2014-15, pois é, faltando 2 jornadas para o fim do campeonato, uma época sem títulos. Será necessariamente uma época má? O FC Porto fez uma óptima Liga dos Campeões, não só de grande valia desportiva como financeira. Fez um campeonato em termos de pontuação e percentagem de vitórias muito acima da média, que só não nos dá a liderança porque, depois de 2011-13, há outro Vítor Pereira talhado para o campeonato nacional (na Europa é que já não consegue/pode fazer muito). Na Taça de Portugal, estivemos mal, embora os clássicos sejam os jogos onde há mais possibilidades de perder e o jogo que o Sporting fez só aconteça uma vez em 10 (prova disso foi a sua segunda visita ao Dragão). Sobra a Taça da Liga, mas depois de Pinto da Costa ter dito que esta o Benfica podia ganhar todas, é a Lopetegui que vão cobrar a factura por não termos ganho esta competição?

Temos razões para crer que 2015-16 será uma época melhor. Em relação a Lopetegui não havia apenas dúvidas no plano técnico-táctico. É um treinador que não estava habituado a lidar com nada daquilo que é o quotidiano de um técnico do FC Porto e de qualquer outro clube: gestão do balneário, definição de um 11 base, contacto semanal com imprensa, um ou dois jogos por semanas, extensão de uma equipa B/camadas jovens, pressão por ter que manter uma equipa competitiva enquanto tem que lançar outras opções para valorizar, evoluir e vender, ter poder e responsabilidades no mercado de transferências, saber o que é ter um clube rival, lidar com más arbitragens, jogar em campos com declive (...). Resumidamente, o FC Porto talvez nunca teve um treinador tão pouco preparado para estas funções como Lopetegui. Ainda assim, brilhámos na Europa e em Portugal os 78 pontos que somamos chegavam e sobravam para chegar ao título em épocas anteriores. Tudo isto enquanto Lopetegui teve que ser permanentemente a voz de defesa ao FC Porto, muitas vezes sem que fosse defendido ou escudado pela estrutura.

É o homem certo no lugar certo. 2015-16 será a época certa para o provar.

PS: Após tantos meses, alguém acordou, depois de tanto disparte que foi escrito. Mais vale tarde que nunca, não é? No fim da época logo se verá se continuamos a meter gasolina cara, à espera que o motor arranque, ou se devolvemos ao stand.

PS2: Empréstimo obrigacionista sobe para 45M€. Um valor que representa 50% das receitas operacionais que estavam previstas pelo FC Porto para 2014-15. Como prognósticos no fim do jogo são fáceis, alerte-se agora: isto é desafiar os limites do risco e o cinto tem que apertar. Tal como devemos ser criteriosos no uso da palavra no Dragões Diário, teremos que o ser no ataque ao mercado no próximo defeso. Lopetegui saberá que terá que encurtar a lista de compras. E a SAD também.