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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Com bluff e sem bluff

«Esticamos a corda e poderia ter rompido. Isto foi um pouco um jogo de póquer do nosso presidente.» Esta declaração de Fernando Gomes, na apresentação do Relatório e Contas 2022/23, viria a revelar-se particularmente curiosa um mês mais tarde. O responsável pelas finanças da SAD falava do negócio Otávio e citou aquilo que descreveu como uma grande jogada de póquer de Pinto da Costa: «Este foi o risco que a administração, nomeadamente o presidente, correu. Foi o próprio presidente que disse: 'Nós não vamos vender o Otávio até 30 de junho, porque eles estão tão interessados no Otávio que virão buscá-lo mais tarde'».


Portanto, avaliando as palavras de Fernando Gomes, que não teria interesse em atribuir falsas declarações ao seu/nosso presidente, o FC Porto assumiu que iria vender Otávio, mas só depois de 30 junho, para não só ganhar mais com a transferência como para integrar essa venda no R&C de 2023/24, mais vantajosa para o fair-play financeiro. Tudo ok. Uma direção capaz de se mexer no mercado e surpreender na procura do melhor negócio possível é o que tudo queremos. 

Até que Pinto da Costa falou no Thinking Football Summit e explicou que rejeitou sempre as ofertas por Otávio. «Não aceitei, depois, a oferta dos 60M, mas num dia em que o nosso treinador não estava, por estar a ser operado, o Otávio veio ter comigo a chorar, a dizer que eu não lhe podia prejudicar a vida.» Portanto, segundo Fernando Gomes, a estratégia de Pinto da Costa era vender Otávio depois de 30 de junho; mas segundo Pinto da Costa, vender nunca foi opção e só aceitou a saída perante o pedido e as lágrimas do jogador.

Desengane-se quem pense que está aqui uma crítica. Pelo contrário, e basta voltar à primeira citação: estamos a falar de póquer. Bluff, estratégia, estar um passo à frente dos demais. Fernando Gomes deixou isso claro e, sendo ele o homem de confiança do presidente para as finanças da SAD há quase 10 anos, começamos finalmente a perceber melhor toda a estratégia do administrador. Lembrem-se: é póquer.

Quando Fernando Gomes assumiu a pasta das finanças, e não sendo justo avaliá-lo pelos resultados da época 2013/14 (substituiu Angelino Ferreira em fevereiro), ao fim de uma época o cenário era este: passivo de 276 milhões, ativo de 359 milhões e capitais próprios bastante positivos: 83 milhões. Tal se deveu à operação EuroAntas, que significou uma injeção de 110 milhões nos capitais próprios da SAD. «Hoje temos uma empresa sólida que é respeitada nos mercados internacionais», celebrou Fernando Gomes.

Pouco depois, contrato com a Altice. Entre os milhões que se perderam entre o pinhal e a árvore genealógica, foi um contrato que teve tudo para melhorar as finanças da SAD, com um bolo de 457 milhões que tinha tudo para aumentar a capacidade de investimento, reduzir a necessidade de vendas e reduzir a dependência de crédito. «A partir de agora podemos vir a deixar de ter de tomar decisões sob pressão. Permite gerir o clube de outra forma, mais objetiva económica e financeiramente e sem estar tão dependente dos ganhos ocasionais em janeiro e no final da época», dizia Fernando Gomes, numa entrevista publicada no DN no início de 2016. «De resto, a ideia é que este dinheiro não vá para reforços, porque para isso o FC Porto gera recursos suficientes. Iremos baixar custos, pagar dívida e ter uma gestão mais sã.» 

As cartas na mesa e o par nas mãos (leia-se, EuroAntas + Altice) de Fernando Gomes e da SAD abriam excelentes perspetivas para o turn e para o river. Mas tudo veio rapidamente a revelar-se um flop. Ainda nem o ano tinha acabado e veio daí o plano traçado por Fernando Gomes para apertar o cinto. Três anos era o prazo. A SAD não só falhou em toda a linha como rapidamente voltou as capitais próprios negativos: 35 milhões em 2019. Ou seja, a metade do Estádio sacrificada não resolveu problema nenhum: apenas o adiou.

Volvidos mais 4 anos (com pandemia pelo meio, certo, e aperto pelas punições e restrições há muito anunciadas pelo incumprimento do fair-play financeiro), o cenário é aquele que já todos conhecem. Desde que Fernando Gomes foi escolhido para assumir o pelouro das finanças, o passivo do FC Porto essencialmente duplicou: 532 milhões de euros. O ativo mantém-se agora praticamente inalterado, com 357 milhões de euros. Já os capitais próprios são abismais, ultrapassando os 175 milhões de euros. 

Só Pinto da Costa saberá como é possível manter um administrador com tão paupérrimo desempenho no cargo. Os números são claros. Imaginem que um treinador chega ao FC Porto, herda uma equipa campeã e passa ano após ano a ter os piores resultados desportivos da história do clube. Ora, é isso que tem sido feito no pelouro das finanças. Sendo que não é possível ignorar que tudo obedece, ou deve obedecer, a uma hierarquia. Fernando Gomes nunca teve ou terá a palavra na hora de vender ou comprar jogadores. Não pode, sozinho, fazer nada. 

Um presidente só é tão bom quanto os nomes que o rodeiam; o mesmo será dizer, quanto os nomes que escolhe para que o rodeiem. Mas voltamos ao início: estamos a falar de um mestre do póquer. E é nesse sentido que nasceu máxima expetativa em perceber o negócio antecipado por Pinto da Costa na entrevista à SIC e sobre o qual Fernando Gomes concedeu até duas entrevistas. O negócio que vai limpar os 175 milhões de capitais próprios negativos do FC Porto. Não se sabia, ou não se poderia saber, muito do negócio em causa, pois há contratos de confidencialidade (?) a respeitar, mas tanto Pinto da Costa como Fernando Gomes deixaram o universo portista de água na boca.

Foram-se as 12 badaladas, as uvas passas e os adeptos do FC Porto ficaram como estavam antes: na expetativa. Nada foi comunicado. É um facto: o Relatório e Contas do primeiro semestre da SAD só é revelado no final de fevereiro. Só aí haverá a atualização do passivo, do ativo e, consequentemente, dos capitais próprios da SAD. Mas uma operação que visava, de forma histórica e surpreendente, limpar o maior buraco da história das Sociedades Anónimas Desportivas em Portugal é algo que se enquadra na definição pura de «informação relevante» para o mercado, logo que teria que ser comunicada. Tanto é que a CMVM pediu esclarecimentos e o FC Porto remeteu-os para o final de dezembro, da mesma forma que Fernando Gomes prometeu, em outubro, que os sócios seriam informados até ao final do ano da misteriosa e impactante operação de recuperação financeira. 

Com 2024 em curso e sem mais detalhes sobre as cartas que Pinto da Costa terá na mão, resta esperar. Mas há uma certeza que pode tranquilizar os sócios: no final de fevereiro, faça chuva ou faça sol, o FC Porto terá que apresentar as contas do primeiro semestre. Com Otávio, com Champions, com Varela, com Iván Jaime, com tudo aquilo que fecha o último semestre e que foi prometido pela atual administração antes de se submeter a sufrágio. Podemos estar perante os maiores mestres do póquer, mas ninguém vai ter que ir às urnas enganado por um bluff, porque as cartas estarão na mesa. 

domingo, 21 de outubro de 2018

O orçamento do FC Porto para 2018-19

Começamos por uma curta viagem ao passado. Na apresentação das contas de 2015-16, Fernando Gomes, responsável financeiro da SAD, afirmou: «Os custos têm subido de forma abrupta. A SAD quer conter e tomar um novo rumo».

Um novo rumo, dizia Fernando Gomes, que definiu os seus objetivos: «Inflacionámos os salários para além do razoável. Em 2013/14 os salários do plantel eram de cerca de 40 milhões de euros e hoje são de 75. Entendemos que devemos conter e reduzir».

O administrador da SAD definiu, por isso, um plano: no espaço de 3 anos, a folha salarial do FC Porto iria baixar para 55 milhões de euros. Foi isto que Fernando Gomes traçou como objetivo, realçando que, numa primeira fase, o plano passava por «reduzir 20 milhões em salários nos próximos dois anos».

Os objetivos de Fernando Gomes (jornal O Jogo, 12-10-2016)

Cumpridas as épocas de 2016-17 e 2017-18, é tempo de observar o orçamento da SAD para a época 2018-19. O tal em que Fernando Gomes apontava para uma grande redução salarial e que baixaria os custos com o plantel para os 55 milhões de euros. 

O FC Porto terá, nesta época, a folha salarial mais alta da sua história, ultrapassando pela primeira vez os 80 milhões de euros. Depois da época de contenção que foi a mais cara da história do FC Porto, a folha salarial é elevada para os valores mais altos de sempre.


Os custos operacionais do FC Porto ascenderão, assim, aos 135,5 milhões de euros, cerca de dois milhões acima dos resultados de 2017-18. A folha salarial do plantel chega aos 81,7 milhões de euros quando, segundo as expetativas de Fernando Gomes, deveria nesta altura estar a caminho dos 55 milhões de euros - a não ser que esteja a contar com uma debandada em junho para baixar a folha salarial abruptamente. E continuamos sem descobrir onde é que está a poupança de 20,8 milhões de euros que o administrador diz ter sido feita com a «limpeza» do plantel da época passada. 

Os Fornecimentos e Serviços Externos, por sua vez, continuam na casa dos 43 milhões de euros, mantendo esta rubrica praticamente inalterada e sem perspetivas de descida. 

Em relação aos Proveitos Operacionais, a SAD estima os mais altos de sempre: 156,7 milhões de euros, essencialmente graças ao enorme aumento dos prémios da UEFA, com receitas de 67,15 milhões de euros (está novamente previsto o apuramento para os oitavos-de-final da Champions), e ao novo contrato de direitos televisivos - é a primeira vez em que entra oficialmente no exercício o contrato com a Altice, por isso as receitas televisivas rompem a barreira dos 40 milhões.


É de recordar que o contrato com a Altice ascende a 457,5 milhões de euros, por um período de 10 anos, e tecnicamente entrava em vigor apenas a 1 de julho. Mas a SAD já antecipou - e muito - dezenas de milhões de receitas deste acordo.

Há um ano, a SAD já tinha antecipado mais de 90 milhões de euros, através de vários contratos de factoring com empresas de crédito estrangeiras. No entanto, o R&C da época 2017-18 revelou que, em abril/maio, a SAD antecipou uma enorme fatia dessas receitas com mais dois contratos de factoring: nada mais, nada menos do que 111 milhões de euros - 11 milhões com a Star Fund e 100 milhões de euros com a Sagasta. Esta operação, de resto, é a principal responsável por o passivo da SAD ter disparado para os valores mais altos de sempre: 464 milhões de euros. Quando estes contratos de factoring terminarem (o acordo com a Sagasta termina em 2023), os valores envolvidos serão eliminados do passivo.

O Tribunal do Dragão, na análise do R&C de 2016-17

Importa reconhecer que antecipar receitas é uma prática corrente e natural em clubes de futebol, em que há despesas contínuas e mensais mas as receitas não são geradas da mesma forma. Mas coloquem simplesmente isto em perspetiva: o FC Porto já «antecipou» mais de 200 milhões de euros de um contrato de direitos televisivos que, tecnicamente, teve o seu início oficial apenas em julho.

Um contrato de 457,5 milhões de euros, a 10 anos, que oficialmente entrou em vigor há menos de 4 meses e do qual a SAD já «puxou» cerca de 200 milhões de euros. Há momentos em que nem vale a pena acrescentar mais nada e basta espelhar apenas os números, que falam por si. Mas em 2016 Fernando Gomes explicara para onde seria canalizada a receita dos direitos televisivos: «De resto, a ideia é que este dinheiro não vá para reforços, porque para isso o FC Porto gera recursos suficientes. Iremos baixar custos, pagar dívida e ter uma gestão mais sã». Confere?

Ainda nas Receitas, a SAD confirma que as receitas de gestão e exploração do Corporate Hospitality passam a ser consideradas na Publicidade e Sponsorização, mantendo-se assim na casa dos 22-23 milhões de euros, à imagem das duas últimas épocas. De realçar ainda que a SAD aponta para as maiores receitas de bilheteira no Dragão, com uma verba estimada em 9,3 milhões de euros. 

O grande crescimento dos Proveitos Operacionais permite que após várias épocas de enormes buracos, a SAD estime finalmente resultados positivos sem custos com passes. Nas últimas quatro épocas, por exemplo, a SAD orçamentou sempre prejuízos operacionais, que foram dos 18 aos 25 milhões de euros. Mas desta vez, pelo grande crescimento nas receitas, a expetativa é de um resultado favorável de 21 milhões de euros. É certo que a qualificação para a Liga dos Campeões é o que pode ditar a diferença entre um lucro de 20 milhões ou um prejuízo do mesmo valor, e não nos podemos esquecer que há 3 equipas a jogarem declaradamente para um lugar, mas enfim vemos perspetivas de bons resultados operacionais.

Mas chega? Não, não para 2018-19. Pois apesar de ter proveitos operacionais superiores a 150 milhões de euros, a SAD necessita de fazer 34,6 milhões de euros em proveitos com transferências. De recordar que o R&C de 2017-18 não incluía, ainda, as compras de Mbemba e Militão, e que as vendas do FC Porto no exercício de 2018-19 praticamente resumem-se, para já, a Layún, Gonçalo Paciência e João Carlos Teixeira. Portanto, estamos a falar na necessidade de, entre receitas operacionais e resultados com transações de jogadores, «fazer» mais de 185 milhões de euros para pagar a época 2018-19.

Tudo isto para, em junho, terminar a época 2018-19 com um lucro de 1,575 milhões de euros. É esta a proposta da SAD que vai a Assembleia Geral a 8 de novembro.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Pinto da Costa, Herrera e os seis milhões

Saidy Janko é uma daquelas contratações que nos levam a questionar onde estava exatamente o interesse desportivo da SAD no momento do negócio. Foi comprado sem interesse do treinador, sem persetivas de ser solução de equipa A e não tardou em receber guia de marcha.

No momento em que assinou pelo FC Porto, Janko publicou no Instagram uma mensagem em que agradecia à Key Sports Management por terem ajudado a concretizar a transferência. Certo é que no Relatório e Contas da SAD não há qualquer menção de um serviço de intermediação por parte desta entidade. A imprensa desportiva, nomeadamente o jornal Record, chegou a noticiar a intervenção de Paulo Rodrigues e Alexandre Pinto da Costa no negócio, mas o R&C da SAD não esclarece qual foi ao certo o empresário/empresa a lucrar com a transferência de Janko para o FC Porto.

A SAD comprou 80% do seu passe ao Saint-Étienne por 2,25 milhões de euros. E o negócio deve ter sido tão bom para o clube francês que eles nem se terão importado de não terem recebido um cêntimo no momento da concretização do negócio - Janko foi apresentado a 27 de junho mas, segundo a rúbrica de Fornecedores, no final do mês a SAD ainda devia a totalidade da transferência ao Saint-Étienne. 

Certo é que, apesar de Janko não ter ficado no plantel, arrisca-se a ser um jogador que o FC Porto nunca quererá vender. Isto com base na surreal afirmação de Pinto da Costa na apresentação do R&C.

No momento em que Fernando Gomes respondia a perguntas, Pinto da Costa decidiu intervir, em defesa do seu administrador da SAD: «Se o tivéssemos vendido não recebíamos tudo, porque só temos parte do passe [de Herrera]». É a primeira vez que isto aparenta ser um problema. O FC Porto sempre vendeu jogadores sem ter a totalidade do passe nas suas mãos. São já quase duas décadas em que o FC Porto praticava e defendia a política da repartição de passes e da envolvência de investidores/fundos/empresários/terceiros nos negócios.

Agora, subitamente, a venda de Herrera seria um problema, porque o FC Porto não receberia tudo. Ajudem, por favor: digam em que negócio é que o FC Porto alguma vez recebeu «tudo». De A de Alexandre a Z de Zahavi, não há grande negócio feito pelo FC Porto em que não surgisse uma terceira parte a lucrar. E agora, havia problema? Mas porquê? Por serem só 80%? Ou porque os 20% iriam para o Pachuca e não para um empresário parceiro?


Pinto da Costa é capaz de comover uma sala inteira com um discurso e uma eloquência incomuns para alguém com 80 anos, cativando e inspirando uma plateia inteira de portistas em noite de gala, e logo a seguir cometer argoladas destas que não têm o menor tipo de sentido ou coerência. 

Continuando, citando palavra a palavra o presidente do FC Porto: «No caso do Herrera, se tivéssemos vendido ou vendêssemos, só temos parte do passe. Portanto, não era tudo... Se pagássemos o que ele queria para a renovação, que eram 6 milhões de euros, éramos nós que pagávamos tudo, mas se vendêssemos tínhamos que distribuir...»

É uma novidade, e salutar: pela primeira vez, aparenta haver preocupação por ter que «distribuir» o dinheiro da venda de jogadores. Já era hora. Repare-se que, neste mesmo Relatório e Contas, o FC Porto fartou-se de distribuir na venda de Ricardo Pereira ao Leicester: a sua venda foi intermediada pela PP Sports. Quem? Nada mais, nada menos que a empresa que sucedeu à Energy Soccer (mudou de nome em 2017, mas manteve a morada e o mesmo escritório), que ficou celebrizada pela participação de Alexandre Pinto da Costa na empresa e que aparecia frequentemente a intermediar negócios de jogadores que não representava no FC Porto. Além destes serviços de intermediação, o FC Porto pagou uma percentagem ao Vitória de Guimarães e outra à bem conhecida Pacheco & Teixeira. Descontando tudo, o FC Porto recebe de Ricardo Pereira bem menos do que os 80% que receberia de Herrera. Mas aqui não aparentou ter havido problema.


Depois, o valor. Seis milhões de euros. Mas o que é que significa, afinal, pedir seis milhões de euros?

1. Herrera queria 6 milhões de euros de prémio de assinatura?
2. Herrera quer passar a ganhar 6 milhões de euros por ano?
3. A extensão de mais 2 ou 3 anos de contrato custariam mais 6 milhões de euros?
4. Os seis milhões pressupõe prémio de assinatura + aumento salarial?
5. Os seis milhões constituem o prémio de assinatura mais a comissão para os seus representantes?
6. Os seis milhões implicam um novo acordo por direitos de imagem?
7. Há um contrato por objetivos que obriga o FC Porto vender Herrera ou a rever o salário mediante a recusa de X propostas?
8. Este mesmo relatório e contas mostra que a operação de renovação de contrato de Aboubakar custou 5,1 milhões de euros. Não se sentirão outros jogadores no plantel no mesmo direito de ter as mesmas (ou melhores) condições e, até neste caso, entre eles Herrera?

Não sabemos. Pinto da Costa lançou a bomba ao ar e deixou que o tema se dividisse entre adeptos e imprensa, entre discórdia e especulação. O máximo que Pinto da Costa consegue com esta afirmação é colar uma imagem de ingratidão a Herrera e de exigências incomportáveis do ponto de vista salarial. Estamos a falar do capitão do FC Porto, que está na mesma situação que Marcano ou Maxi na época passada, mas Pinto da Costa decidiu que era boa ideia meter isto cá para fora.

Se se cruzarem com qualquer jogador do FC Porto da década de 90, eles dirão isto: «Para Pinto da Costa, o balneário é um templo, é sagrado». O presidente blindava o balneário como poucos, protegia os jogadores, afastava as polémicas. Neste caso, é o próprio presidente quem decide atirar a bomba e deixar que os efeitos se alastrem. O que ganhou com isto? Está à espera que no final da época se culpe Herrera, o pesetero, em vez da administração que se gabou de rejeitar 30 milhões de euros pelo mexicano e que deixou o ativo chegar ao final de contrato? Cada adepto que tire as suas conclusões, mas quem fica a arder são os cofres da SAD.

Já agora. Por que é que só houve aquele desabafo sobre Herrera? Então e sobre Brahimi, nem uma palavrinha? Que tal esclarecer os portistas sobre a lose-lose situation em que o argelino, saia ou renove, implicará um pagamento de 6,5 milhões de euros à Doyen? Só Herrera é que interessa?


Ou então bastava não ignorar que o Relatório e Contas estava literalmente ali ao lado e que é fácil tirar conclusões sobre o porquê da ausência de renovações de contrato. O orgulho de Fernando Gomes em afirmar que a SAD cumpriu as metas da UEFA era tanto que isto quase escapava: a SAD não tinha praticamente margem para renovar contratos na época passada, uma vez que estava no limite da margem autorizada pela UEFA.

O FC Porto não poderia apresentar mais de 20 milhões de euros de prejuízo nos parâmetros definidos pela UEFA. Ficou-se pelos 17,2 milhões. Ou seja, «sobraram» 2,8 milhões de euros. As renovações com Herrera e Brahimi dificilmente ficariam, cada uma, por menos desse preço, pois estamos a falar de jogadores de 28 anos que, após várias épocas em Portugal, pensam naturalmente em contratos mais vantajosos e na possibilidade, talvez única, de jogarem em ligas mais apelativas. 

Mas atenção. Não havia dinheiro para isto, mas houve dinheiro para, em junho, comprar Janko por 2,25 milhões de euros (por 80% do passe) e metade do passe de Rafa, ao Portimonense, por 1,5 milhões de euros - e note-se que Rafa havia sido cedido ao Portimonense em janeiro. Um negócio quase tão maravilhoso como a compra de Ewerton - dispensam Rafa em janeiro para recomprá-lo em junho, mesmo sem que houvesse intenção de Sérgio Conceição em reservar um lugar para ele no plantel (nem integrou o arranque dos trabalhos de pré-época). Só aqui são quase quatro milhões de euros que não serviram o propósito de reforçar o plantel e que, numa época sem grande margem para investimentos, poderiam ter sido muito mais bem usados. Os jogadores e os seus representantes não vivem na ignorância: eles conhecem estes casos e as contas do clube. 

Repare-se que a administração poderia ter aproveitado a oportunidade de realçar a importância que teriam para Sérgio Conceição e para o ataque ao bicampeonato. «Meus senhores, são jogadores importantes para o treinador, para o ataque ao bicampeonato e para as nossas ambições europeias». Mas não. O problema é que a SAD não tem o passe todo de Herrera e que ele pediu seis milhões para renovar - seja lá o que isso signifique.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A época de contenção que foi a mais cara de sempre

Diretos à aguardada análise do Relatório e Contas da SAD do FC Porto relativo à época 2017-18. O FC Porto cumpriu o acordo com a UEFA relativo ao fair-play financeiro? Sim. O FC Porto cumpriu o orçamento relativo à época 2017-18? Não. Porque uma coisa não significa a outra e passamos, por isso, à análise das principais alíneas relativas à época financeira 2017-18.

A SAD apresentou um orçamento que previa um prejuízo de 17,277 milhões de euros. A época 2017-18 acabou com um resultado negativo de 28,444 milhões de euros. Então, como se explica esta diferença de mais de 11 milhões de euros nos resultados da época e, simultaneamente, o cumprimento do fair-play financeiro?

Conforme O Tribunal do Dragão explicou em 2014, num post que já alertava para esta realidade iminente na SAD, a UEFA tem em consideração custos justificados com investimentos em futebol juvenil, infraestruturas e amortizações. Isso ditou que, para efeitos do fair-play financeiro, o FC Porto justifica essa diferença de 11 milhões com despesas autorizadas pela UEFA e, assim, não ultrapassa os 20 milhões de euros de prejuízo.

O orçamento da SAD para a época 2017-18, apresentado em novembro
A forma como Fernando Gomes apresentou estes dados faz esta tarefa parecer algo quase hercúleo, e não uma consequência de ser o responsável financeiro da única SAD/clube a ter sido punido pelo incumprimento do fair-play financeiro em toda a Europa em 2016-17, mas há que esclarecer o que foi ou não cumprido. 

E com isto vamos a um dado que pode parecer atípico, mas que é comprovado pelos números finais: a época 2017-18 foi a mais dispendiosa da história da SAD nos custos operacionais. Sim, numa época de assumida (?) contenção financeira, sem reforços para Sérgio Conceição, com um plantel de remendos, os custos operacionais atingiram o recorde de 133,71 milhões de euros, sensivelmente mais 15 milhões de euros do que o que estava orçamentado. A SAD ultrapassou os custos em 5 das 6 alíneas da rúbrica, com destaque para os fornecimentos e serviços externos e os custos com pessoal.

Custos operacionais foram os mais altos da história da SAD
Os FSE ficaram à beira dos 44 milhões de euros e os custos com pessoal atingiram os 78,8 milhões de euros, tornando esta folha salarial a mais cara da história do clube. 

Fernando Gomes começou por explicar esta parte com esta interessantíssima declaração: «Tínhamos previsto reduzir os Custos com Pessoal e eles subiram por uma questão muito simples: como fomos campeões nacionais, tivemos de pagar prémios ao plantel e à equipa técnica. Isso representou um encargo adicional de 6 milhões de euros, mas ainda bem que o tivemos». Ok, não há adepto que se oponha a pagar por ganhar. Mau é pagar e não se ganhar. Mas vamos por partes.

«Tínhamos previsto reduzidos os custos com pessoal». É verdade, tinham. Face ao orçamento da época passada, a SAD previa uma redução que não chegava aos 100 mil euros. E face aos resultados de 2016-17, a proposta de orçamento apontava para uma redução de perto de quatro milhões de euros. No entanto, Fernando Gomes diz que isto derrapou devido aos 6 milhões de euros que tiveram que ser pagos ao plantel em prémios pela conquista de título (uma prática habitual em todos os clubes, diga-se).

Mas... o orçamento apontava para custos salariais de 69,44 milhões de euros. Mesmo com seis milhões de euros de prémios, não chegam aos 78,8 milhões que aparecem nos resultados finais. E ainda que a diferença possa não parecer a mais significativa, resumir tudo isto ao pagamento dos prémios pela conquista do campeonato parece um tanto superficial. Afinal, na época 2016-17 a SAD previa custos de 69,5 milhões e gastou 73,2. Foi por causa dos prémios de campeão? Em 2015-16, a SAD previa custos de 68,8 milhões e gastou 75,79 milhões. Foi por causa dos prémios de campeão? Isto para dizer que o FC Porto vem de épocas consecutivas em que a folha salarial é maior do que o previsto, mesmo sem ter pago prémios pela conquista do Campeonato durante quatro temporadas seguidas.

E para que não restem dúvidas: mesmo que o FC Porto não tivesse pago prémios pela conquista do título, esta seria a época mais cara da história da SAD, pois os custos operacionais, mesmo sem os 6 milhões de euros de prémios referidos por Fernando Gomes, seriam superiores aos 124 milhões de 2015-16. 

Mas há mais. Recapitulando, a SAD propôs uma redução de 74 mil euros em salários face ao orçamento de 2016-17, de 3,822 milhões face aos resultados do ano passado e acabou com um aumento de 9,35 milhões de euros nos custos com pessoal. Falta portanto perceber em que universo se enquadrou esta previsão feita por Fernando Gomes há um ano:


Voltando a citar o site oficial do FC Porto, Fernando Gomes afirmara: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». Onde é que está a diminuição de 20,8 milhões se a folha salarial atingiu os valores mais altos da história do clube e ficou 9,35 milhões de euros acima do previsto? Foi tudo devido aos 6 milhões de euros que tiveram de pagar em prémios no plantel?

Os Proveitos Operacionais, por sua vez, ficaram acima das expetativas: a SAD previa 98,8 milhões de euros mas atingiu os 105,7 milhões. Quase todas as alíneas tiveram desempenhos positivos, mas a principal diferença vai para a «Publicidade», numa diferenciação que tem marcado os Relatório e Contas das últimas épocas. Acontece que no orçamento o FC Porto apresenta apenas nos proveitos «Publicidade», mas no Relatório e Contas final acrescenta «Sponsorização». Pode parecer idêntico, mas não é. Tanto que o FC Porto tinha apontado para 14,3 milhões e apresentou agora 23,6 milhões. O mesmo exercício da época passada, quando expectava 16,1 milhões e atingiu depois os 22,3 milhões. O porquê exato desta diferenciação é algo que ainda carece de uma explicação mais elaborada do que aquela que um blogue possa apresentar.

Proveitos operacionais tiveram uma evolução positiva e ficaram dentro do orçamentado
Naquele que é sempre o ponto mais delicado da época financeira, a SAD apresentou resultados com transações de passes de 50 milhões de euros, cerca de 5 milhões aquém do que estava previsto. O Tribunal do Dragão publicará posteriormente uma análise mais detalhada sobre os negócios do defeso - coisas curiosas como o porquê de que o FC Porto ter que pagar comissões à Gestifute pela transferência de Boly se o Wolves accionou uma suposta cláusula de compra, ou o porquê de o FC Porto ter comprado (e transferido logo depois) Rafa ao Portimonense por 1,5 milhões de euros depois de o ter cedido em janeiro -, numa altura em que tem sido muito difícil assegurar uma publicação mais regular de conteúdos no blogue, daí o atraso nesta análise e a ausência de algumas crónicas de jogo.

Mas há que destacar esta afirmação de Fernando Gomes face às situações contratuais de Brahimi e Herrera, que se aproximam de uma saída a custo zero (que, no caso de Brahimi, só se for uma sequência de zeros à direita) no final da época. «Para efeitos contabilísticos, é rigorosamente indiferente». Por mais surreal que possa parecer, Fernando Gomes não está a mentir: para efeitos contabilísticos não tem impacto, pois o FC Porto já amortizou as compras dos dois jogadores.

Mas... «Em termos financeiros pode não ser [indiferente], mas isso é outra história». Nesta lógica da batata de Fernando Gomes, todos os jogadores da formação podem sair a custo zero sem problema, pois não há amortização do passe dos jogadores. Em 2019, Danilo Pereira, por exemplo, também poderia sair a custo zero, pois o passe já terá sido amortizado. No ano seguinte Corona já pode sair, e atrás dele podem seguir-se Felipe e Alex Telles, pois o passe já terá sido todo amortizado. É surreal, aliás, um administrador da SAD ignorar que, se não há amortizações de passes, então as mais-valias com vendas de jogadores são maiores!

Tudo o que seja jogadores da formação, contratados a «custo zero» e jogadores com duração contratual já superior àquela prevista no primeiro contrato que assinaram pelo FC Porto podem ir à vida deles, pois em efeitos contabilísticos não faz diferença nenhuma. Agora falta saber como é que o responsável financeiro de uma SAD que depende da concretização de mais-valias para subsistir consegue afirmar isto com cara séria.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O orçamento da época 2017-18

A SAD já deu a conhecer a proposta de orçamento que será submetida a aprovação na Assembleia Geral de 27 de novembro. Depois de meses em que as (poucas) intervenções dos dirigentes da SAD apontavam para um caminho de contenção de custos, redução da despesa e de dar passos rumo à auto-sustentabilidade, este orçamento era, é, a oportunidade de conferir se há realmente planos para isso ou se eram meras palavras. E como é hábito, resta deixar os números falarem por si - e também deixarem claro que, se queremos razões para festejar esta época, só podemos mesmo contar com Sérgio Conceição e os jogadores.


Há um ano, a SAD apontava para custos operacionais (sem despesas com passes de jogadores) de 116,5 milhões de euros - o valor final acabou por atingir os 121,8 milhões. Desta vez, a SAD prevê gastar mais do que o que havia sido orçamentado há um ano: 118,5 milhões de euros. 

Isto indica desde logo uma coisa: a folha salarial praticamente não baixa, apesar de ter havido um desinvestimento no plantel para esta época. A SAD prevê custos com pessoal de 69,4 milhões de euros esta época. Aliás, há uma pequena redução face ao orçamento da época passada, mas não chega aos 100 mil euros. Já em relação aos resultados finais da temporada passada, que atingiram os 73,26 milhões de euros, a redução aproxima-se dos quatro milhões de euros.

Portanto, a partir deste orçamento, concluímos que a SAD propõe uma redução dos custos com pessoal de 74 mil euros em relação ao orçamento de 2016/17 e de 3,822 milhões de euros face ao Relatório e Contas final da temporada passada. Isto leva-nos desde logo a questionar de onde saíram estas previsões particularmente animadoras. 


Além deste relato do jornal O Jogo, o site oficial do FC Porto cita Fernando Gomes: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». De custos com plantel para salários, de 3,822 milhões de euros para 20,8 milhões, há aqui um triângulo das Bermudas qualquer, entre semântica e matemática, que faz as coisas não baterem certo. Onde está a poupança com 26 jogadores? Oportunidade para se explicar dia 27. A não ser que estejam à espera do mercado de inverno para emagrecer a folha salarial, quiçá com ativos bem remunerados que não estão a ser opção inicial para Sérgio Conceição. Especulação, nada mais. 

Os proveitos operacionais previstos também aparecem dentro da mesma linha. Na época passada, a previsão era de 98,4 milhões de euros, e ficou meio milhão acima da metade traçada. Agora, a SAD aponta para 98,8 milhões de euros. A maior fatia volta a ser esperada na UEFA, em que a SAD conta com a qualificação para os 1/8 de final da Liga dos Campeões. Mesmo havendo restrições nas opções de Sérgio Conceição e que não lhe tenham dado um único reforço para a Champions. 

Tudo isto resulta num prejuízo operacional de 19,737 milhões de euros, resultado que acaba por ser superior às previsões da época passada (18,1M€).

O resultado final esperado é então de um prejuízo de 17,277 milhões de euros (o prejuízo de 2016-17 transitará para este exercício), após serem considerados/esperados proveitos de 55 milhões de euros com transações de jogadores na próxima época. Posto isto, torna-se difícil de encontrar algo nesta proposta de orçamento que aponte para uma mudança de rumo, de redução de custos ou de aproximação da auto-sustentabilidade. Mas calma: Fernando Gomes por certo explicará, dia 27, que este é apenas o «ano zero» e que a verdadeira recuperação começará já em 2018-19. 

Coisa que nos leva a imaginar qual seria a disposição dos adeptos se um treinador do FC Porto que, estando há três anos e meio no cargo e que tenha estado envolvido nos piores resultados da história do clube, se desse ao luxo de prometer «calma que isto vai melhorar, estamos no caminho certo e a partir do próximo ano vamos começar a jogar futebol a sério». Tem tudo para correr bem. 

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Primeiras impressões do Relatório e Contas 2016/17

Após alguns dias de espera, chega então a aguardada análise do Relatório e Contas da época 2016-17, que será publicada em várias partes. Começamos pela análise geral, recordando sempre o orçamento desta época. Pela segunda época consecutiva, a SAD do FC Porto falhou nos objetivos propostos e fechou a época financeira com um elevadíssimo prejuízo. Depois dos 58,4 milhões de prejuízo na época passada, os piores resultados da história das SAD em Portugal, desta feita a administração fechou o exercício com 35,3 milhões de prejuízo.

O orçamento da SAD para esta época apontava para um saldo positivo de 2,7 milhões de euros no final da temporada, linhas que a administração não conseguiu cumprir. Esta época ficou marcada por o FC Porto ter sido, na temporada 2016-17, o único clube punido pela UEFA por não cumprir o fair-play financeiro (a SAD anuncia agora ter cumprido o acordo que foi posteriormente feito), possivelmente o ponto mais baixo de 20 anos de atividade da SAD e um mais um sinal que mostra o quão sábia foi esta frase de Pinto da Costa: «Misturar política com futebol dá sempre mau resultado». E nem um apelido de mítico goleador atenua a coisa.

Começando pelas principais rúbricas, os proveitos operacionais estiveram dentro do previsto, na casa dos 98 milhões de euros. O crescimento em relação à última época deveu-se meramente à qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, o que permitiu receitas na UEFA de mais de 30 milhões de euros. Os orçamentos da SAD são sempre de risco, mas bastava o play-off com a Roma ter corrido mal e poderia estar aqui um buraco de mais uma ou duas dezenas de milhões de euros. Felizmente, correu bem. Alguns pontos da rúbrica ficaram acima das expetativas, outros abaixo, mas no final os objetivos foram cumpridos no que aos proveitos operacionais diz respeito. 

Os custos operacionais, por sua vez, foram maiores do que o esperado e atingiram os 121 milhões de euros. O principal destaque vai para os custos com pessoal, que chegaram aos 73 milhões de euros. Por outras palavras, se não tivesse sido obtido o apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões, todas as receitas operacionais do FC Porto talvez não chegavam para pagar os salários. O desequilíbrio continua a ser gritante e a SAD continua assim em défice operacional, embora tenha decrescido de 41,5 milhões para 18,3 milhões de euros.

Os capitais próprios também levaram um golpe em relação ao último ano, ao passarem de 25 milhões de euros para 9,1 milhões de euros negativos. Porém, tendo em conta os interesses minoritários e as respetivas consequências da operação Euroantas, os capitais sociais da Empresa-Mãe chegam quase aos 69 milhões de euros negativos. Negativos. 

O ativo cresceu ligeiramente, atingindo os 378 milhões de euros, mas em contraste temos mais uma subida assinável do passivo, que chegou aos 387 milhões de euros negativos. Em causa está uma subida de mais de 160 milhões de euros de passivo em relação à época do último título conquistado. 

As compras do último exercício serão analisadas de forma mais detalhada num próximo post, mas aqui ficam as compras declaradas pela SAD.


Destaque para a grande curiosidade de um (ou mais, pois não é especificado) jogador ter custado 25 mil euros, mas depois aparecem custos de intermediação/contratação de um milhão de euros. A contratação de Soares foi mais cara do que o inicialmente previsto, de 5,6 milhões de euros pela totalidade do passe, e Galeno custou 1,5 milhões por 75% do passe, tendo sido contratado a um clube controlado pelo empresário António Teixeira. 

Note-se a curiosidade, que deve merecer atenção, de estarem aqui despesas de 50 milhões de euros em jogadores, mas neste momento só um está a ser titular indiscutível na equipa principal, Alex Telles. É também de realçar que a SAD detalha as compras de oito jogadores, mas depois enumera 15 empresários/empresas que receberam comissões de intermediação no momento da compra dos jogadores. 

A venda de André Silva, por sua vez, acaba por gerar uma mais-valia reduzida se tivermos em conta que se tratava de um jogador da formação (os jogadores da formação têm, por norma, mais-valias muito superiores, pois não há amortizações do passe). Neste caso, a mais-valia de André Silva ficou-se por 27,8 milhões de euros. É também de notar que a SAD, além de ter pago 10% a Jorge Mendes pela percentagem que o empresário detinha, ainda foi pagar depois comissão à Gestifute pela transferência. São mais de 10 milhões de euros que se «perdem» no cálculo da mais-valia. A mais-valia de Rúben Neves também acaba por ser quase irrisória, de 12,5 milhões de euros. Estamos basicamente a falar do valor que se pagou pela compra de Boly e Depoitre. Quando os jogadores da formação geram mais-valias mais reduzidas do que os atletas comprados no mercado, algo vai mal. 

O AC Milan e o Wolves também acabaram por conseguir modalidades de pagamento que parecem ser relativamente interessantes. Por exemplo, o clube italiano vai pagar apenas 14 milhões de euros por André Silva no primeiro ano, ficando os restantes 24 milhões para prazo não corrente. O Wolves também só vai pagar 5 milhões de euros por Rúben Neves esta época; quando tiver que pagar as restantes tranches, possivelmente já Rúben Neves terá sido levado por Jorge Mendes para um clube de outras ambições. 

Os empréstimos bancários merecerão também uma análise mais detalhada, mas a SAD continua a antecipar variadas receitas através de contratos de factoring, sobretudo com o já bem conhecido Internationales Bankhaus Bodensee. A dívida corrente da SAD à banca ascende aos 119 milhões de euros, com a dívida total a chegar aos 196 milhões de euros. 

Outra pequena curiosidade. Todos estarão recordados da surpresa que foi o FC Porto ter pago a totalidade do Estádio do Dragão ano e meio antes do previsto, no início de fevereiro de 2017 (ato que a SAD justificou com as elevadas taxas de juro e «contas de garantia associadas»). O R&C revela agora que, no mesmo mês, foi apresentada uma hipoteca do Estádio do Dragão como garantia juntamente do Banco Carregosa (que vai receber um Dragão de Ouro como Parceiro do Ano) na emissão de papel comercial, juntamente com os passes de Danilo, Felipe e verba da transferência de André Silva para o AC Milan. 

Palavra ainda para o contrato de direitos televisivos com a Altice que, como se sabe, só entrará em vigor em 2018. No entanto, a SAD já antecipou uma quantidade bastante significativa, com já mais de 90 milhões de euros entre os 457,5 milhões da totalidade dos contratos. Além do adiantamento que já tinha sido mencionado no anterior R&C, de 56,9 milhões, a SAD recorreu a diversos contratos de factoring para um adiantamento de mais 34 milhões de euros. Era este o contrato que iria «permitir gerir o FC Porto de maneira diferente», disse alguém. Pois. 

Bons desempenhos, até ver, só mesmo dentro das quatro linhas.  

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os lesados do NES

«Quem olhou para as contas da época passada, pode ver que as contas deram um prejuízo considerável. Assumidamente, não houve qualquer surpresa, porque ficou definido pela SAD que não haveria vendas, porque o treinador de então achou que os os jogadores não deveriam ser vendidos». Fernando Gomes, 07-06-2017

Três anos de trabalho
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Lembram-se dos tempos em que se dizia que, no FC Porto, o treinador treina, o jogador joga e a estrutura cuida de todo o resto? Entrámos, aparentemente, numa nova era: aquela em que o trabalho do treinador da equipa principal do FC Porto também passa por ser responsabilizado pelos prejuízos apresentados pela SAD. 

Fernando Gomes já habituou os adeptos do FC Porto às mais surreais intervenções, desde as camisolas sem patrocinador que ficam mais bonitas aos alertas para a necessidade de uma contenção que nunca chegou a pôr em prática.

Mas esta nova intervenção, de responsabilizar o treinador (no caso, o ex-treinador) pelo maior prejuízo da história da SAD, desafiam todos os limites da compreensão que se possa ter para decisões que, no cargo que ocupa, nunca são fáceis de tomar.

Aquando da operação Euroantas, o próprio Fernando Gomes admitiu que havia a necessidade de cumprir o fair-play financeiro. E na apresentação do maior prejuízo da história da SAD (em que ninguém se lembrou de dizer que era culpa do NES - como tem sido hábito, assim que um treinador deixa o FC Porto, leva com ele culpas que nunca lhe seriam imputadas enquanto estivesse no cargo), Fernando Gomes afirmou isto: «Nas nossas conversas estamos em sintonia relativamente ao que fazer: reduzir custos e não depender da venda de jogadores. Não temo sanções mais graves».

E agora, o que admitiu Fernando Gomes? «Se o FC Porto vai ter de vender jogadores? É evidente que sim.» Era capaz de ser mais fácil encontrar sintonia e segurança numa defesa composta por Kralj, Butorovic, Stepanov, Sonkaya e Benítez do que coerência nas palavras do administrador responsável pelas finanças do FC Porto. 

Esta falta de lógica não é nova. Basta recordar as palavras de Pinto da Costa em finais de novembro. «Havia dois caminhos. Era fácil apresentar resultados positivos: no último dia [de mercado], por exemplo, ofereceram-nos 30 milhões de euros por Herrera, 40 milhões por Danilo e quiseram pagar a cláusula de rescisão do André Silva que era de 25 milhões. Aí tínhamos feito 95 milhões e em vez de apresentarmos um resultado negativo íamos apresentar um resultado positivo de 40 e tal milhões. Mas a nossa opção foi aguentar porque tivemos prejuízo, mas os ativos continuaram cá, o André Silva renovou contrato».

Pinto da Costa afirmou, nesta entrevista à ESPN, que o FC Porto recusou as vendas (e fala no plural, não numa vontade expressa de NES - Danilo sempre foi imprescindível, mas Herrera foi opção intermitente e André Silva acabou secundado por Soares nas suas opções) devido a esta razão: «Não é só pelo dinheiro, é pelo prestígio porque o FC Porto, a par do Manchester United, é quem tem mais presenças na Champions e tínhamos a Roma para tentar eliminar logo a seguir. Se perdessemos esses três jogadores em cima da pré-eliminatória, as nossas possibilidades de eliminar o adversário iam diminuir muito. Foi uma opção e conseguimos o objetivo de ir para a Champions e esse prejuízo já está menor».

Ora então. O presidente do FC Porto afirmara que a SAD recusou propostas no último dia do mercado por Herrera, Danilo e André Silva, por causa do play-off com a Roma. Falta só realçar que o play-off com a Roma disputou-se a 17 e 23 de agosto. Ou seja, o FC Porto recusou a venda de jogadores porque queria estar na máxima força para um play-off que tinha sido disputado na semana anterior? 

Perante esta organização/coerência digna de um Phasianidae de cabeça cortada, o mais fácil acabou mesmo por ser isto, pelo menos na visão assumida por Fernando Gomes: coitados dos lesados do NES, neste caso, a SAD do FC Porto. 

Mas depois de tudo isto, a principal vítima tem um nome: Sérgio Conceição, que no dia seguinte à sua apresentação no FC Porto (uma excelente conferência de imprensa, a todos os níveis, com posições fortes e esclarecedoras em todas as vertentes) recebe a notícia de que ficará privado de 3 jogadores na Liga dos Campeões. 

O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions, devido à falta de jogadores formados no clube com mais de 21 anos, e agora viu a UEFA reduzir a lista de 25 para 22 jogadores, o que vai certamente limitar as opções do treinador. E não, a responsabilidade não é de Nuno Espírito Santo. Nunca será de mais renovar os votos de confiança e apoio no trabalho de Sérgio Conceição, que ainda não deu o primeiro treino e já ficou sem três jogadores. Bem vindo ao FC Porto, mister!

Este é, infelizmente, o resultado de uma das frases mais acertadas que Pinto da Costa alguma vez proferiu: «Nada tenho contra políticos que são políticos, mas quando os vejo no futebol deito logo as mãos à cabeça, cheira-me logo a esturro». Sem mais a acrescentar. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

O relatório e contas do primeiro semestre 2016/17

Depois da ausência de contas no primeiro trimestre, a SAD, seguindo a data limite imposta pela CMVM, deu a conhecer os primeiros detalhes do desenrolar da época financeira 2016-17. O R&C do primeiro semestre compreende todas as operações da SAD efetuadas entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2016 (exclui portanto o fim do pagamento do Estádio do Dragão e todas as operações do mercado de inverno). Passemos então à análise, tendo sempre presente aquilo que é previsto no orçamento desta época. 

A SAD chegou ao final dos seis primeiros meses da época com 29,58M€ de prejuízo. Está orçamentado um resultado positivo de 2,7M€ no final da temporada. O prejuízo é explicado por a SAD ainda não ter gerado qualquer mais-valia com transferências de jogadores no período em análise. 

É de recordar que a SAD, no orçamento, definiu a necessidade de «Proveitos com transações de passes de jogadores» no valor de 115,781 milhões de euros (para fazer face a custos de 47,2M€). Tendo em conta que a alínea das alienações de passes ficou em branco no primeiro trimestre, isso já deixa claro sobre o que será necessário até ao final de junho. Mas quem afirmou sem rodeios que recusou uma proposta de 30M€ por Héctor Herrera não há-de ter problema nenhum em fazer essas vendas antes do final de junho. Pois não?

Os proveitos operacionais atingiram os 58,76M€ nos primeiros seis meses. Todas as rubricas estão relativamente dentro do previsto - na Liga dos Campeões o FC Porto já atingiu os seus objetivos, e mesmo que seja afastado pela Juventus vai atingir os previstos 30M€ em receitas da UEFA. Há a assinalar que a SAD conseguiu, até ao momento, 42,9% das receitas de publicidade previstas, por isso a receita terá que aumentar significativamente no que resta da temporada.

Proveitos do primeiro semestre 2016-17
Em relação aos custos, destaque para o facto de o plantel desta época ser mais caro do que o da temporada passada, pelo menos nos primeiros 6 meses da temporada. Os custos com pessoal foram de 38,90M€ até ao final de dezembro, sensivelmente mais 2M€ do que na época passada. Os custos aumentaram nas seis alíneas especificadas no ponto 19, desde os órgãos sociais aos seguros. 

Este valor não vai propriamente ao encontro do que estava previsto no orçamento, que eram custos com pessoal de 69,51M€. Se os custos dobrassem no segundo semestre, isso resultaria em gastos de 77,8M€, muito acima do que estava orçamentado. Com os ajustes no mercado de inverno, veremos se esta rubrica será cumprida. Quanto aos restantes custos operacionais, tudo dentro da expetativa e do que estava orçamentado.

Custos operacionais do primeiro semestre 2016-17
Nos resultados operacionais sem transferências de jogadores, o prejuízo é de 4,96M€, bem inferior aos 19,64M€ do primeiro semestre de 2015-16. A diferença está essencialmente nas receitas da UEFA. 

Chegamos então ao capital próprio e a um dos focos mais negativos deste R&C: todos os efeitos gerados pela operação Euroantas, de incorporação do Estádio do Dragão na SAD, já se esfumaram. A SAD voltou a apresentar capitais próprios negativos, de 3,449M€. Há dois anos, depois da operação Euroantas, os capitais próprios eram de 56,6M€. E no final da temporada 2014-15, chegaram aos 83,1M€, um valor excelente. Neste momento, a SAD, com capitais próprios negativos, volta a pairar numa situação de falência técnica, o que infelizmente mostra que a operação Euroantas não foi mais do que aquilo que se temia na altura - um empurrar de problemas com a barriga. Uma situação que terá que ser retificada não só até ao final de junho, como nos exercícios seguintes. 

O ativo mantém-se praticamente inalterado face há um ano, no valor de 374M€. A principal alteração está nos ativos correntes, agora situados em 97,7M€. E chegamos a outro problema: à subida abrupta do passivo, que está a chegar a números preocupantes. 

O passivo estava, no final de dezembro, fixado em 377,5M€. No final da época 2012-13, a última em que o FC Porto foi campeão nacional, o passivo era de 220 milhões de euros. Ou seja, o passivo aumentou 71% desde a última conquista de um campeonato. Em 2010, por exemplo, o passivo era de apenas 160M€. Estamos a falar de um aumento de mais do dobro desde que se iniciou a dourada época de 2010-11, em que o FC Porto começou a gerar vendas milionárias como nunca, de Hulk a Falcao, de Mangala a James, etc. Resultado? Mais do dobro do passivo. 

O passivo, dirão alguns, não se paga, gere-se. Sim, até ao dia. O presidente Pinto da Costa afirmou, em 2013, que «quem vier a seguir basta não estragar». Desde essa afirmação o passivo da SAD aumentou mais de 150 milhões de euros. E desde esse ano, nem um título para amostra. 

Quanto às aquisições, o FC Porto gastou 47,47M€, com comissões de 4,2M€, em seis jogadores: Óliver, Alex Telles, Boly, Depoitre, Otávio e Govea. 

Óliver começa por ser uma surpresa. Primeiro, por os 20M€ corresponderem a apenas 85% do passe. Segundo, por a SAD já ter incluído a compra de Óliver nas contas do primeiro semestre, indicando que o seu passe foi comprado em setembro. Um tanto confuso, tendo em conta que só anunciaram a sua compra a 9 de fevereiro. Boly e Alex Telles custaram 6,5M€ cada por 100% do passe, enquanto Depoitre custou 6M€ por 90%, valores já esperados. 

O caso de Otávio também é uma surpresa, com a SAD a ter comprado mais 20% do seu passe por 2,257M€. A SAD já tinha a opção de comprar mais 20% à GE Assessoria Esportiva e 15% do pai de Otávio. A soma destes 35%, no acordo oficial, custariam mais 5M€ ao FC Porto. Para já, a SAD passa a ter 52,5% de Otávio. Destaque também para a compra de Govea, por 2M€ ao América, pela totalidade do passe. Uma compra que obriga a que Govea seja pelo menos incluído nos trabalhos de pré-temporada da equipa principal para 2017-18. Govea tem revelado valor acima da média na equipa B, apesar da má época que está a ser feita pela equipa na Segunda Liga. 

Uma vez mais, a SAD declara mais do que uma entidade por jogador (pelo menos entre os que são declarados neste R&C) na hora do pagamento de serviços de intermediação. Voltaremos a eles numa análise futura, mas assinale-se já a curiosidade de a Energy Soccer receber 244 mil euros de comissão pelo empréstimo de Aboubakar ao Besiktas. Uma vez mais, a Energy Soccer aparece como intermediária de um jogador que não representa. 

A SAD tem a receber pouco mais de 40M€ de outros clubes por venda de jogadores, dos quais apenas 8M€ do São Paulo (sem surpresa) não são uma verba corrente. É possível ver dívidas de 190 mil euros do Villarreal (por Adrián), 250 mil do Trabzonspor (por Suk) e 600 mil do Espanyol (por Reyes), mas mantém-se a curiosidade em torno da Doyen: mantém-se uma dívida de 2,788M€, pela alienação do passe de Brahimi. Por norma, a alienação de passes permite assegurar receitas para o curto prazo; neste caso, alienou-se o passe de Brahimi à Doyen para nada, pois a SAD não tinha tocado neste 2,788M€ até ao final de dezembro (importa no entanto lembrar que a dívida ao Granada, ex-clube de Brahimi, também se mantém nos 3,332M€ - o que não será de todo uma coincidência). 

Por outro lado, a SAD tem ainda a pagar mais de 75M€ a outros clubes/entidades por jogadores já presentes no plantel, dos quais 52M€ no prazo de um ano. É possível desde já constatar que a SAD terá a pagar 5M€ ao Atlético de Madrid até dezembro de 2017. Tendo em conta que, tecnicamente, o contrato de Óliver com a SAD só seria efetivado a partir de 1 de janeiro de 2018... Confuso. A situação dos restantes Fornecedores será merecedora de uma análise mais detalhada futuramente. 

Em relação à situação bancária, a SAD abriu cinco novos contratos de factoring entre outubro e dezembro, que superam os 35 milhões de euros e apenas um será liquidado ainda na corrente época - 6M€ ao já bem conhecido Bankhaus Bodensee. E o reembolso será, precisamente, a verba a receber da UEFA pela eliminatória contra a Juventus, uma prática já muito recorrente na gestão da SAD, de tentar antecipar o máximo de receitas possível - e com isso nunca tirar o máximo de proveito das mesmas, na medida em que há sempre juros a pagar. 

Mas além do Bankhaus, a SAD fechou um empréstimo de 6M€ com o Novo Banco e um de 18,578M€ com o Ectonian AG, este último com termo em 2019. E é aqui que entram as maiores preocupações. Em ambos os casos, a liquidação está prevista com o dinheiro dos direitos televisivos: a PPTV no caso do Novo Banco, dentro de seis meses, e o maior contrato de factoring já através da Altice, com o dinheiro de «épocas futuras», diz a SAD. 

E no que toca ao adiantamento de receitas, o maior destaque neste R&C é este:


O contrato com a Altice, pelos direitos televisivos e de exploração, só tem início a 1 de julho de 2018. Mas a SAD já dá conta de um adiantamento bastante significativo. Estamos a falar do recurso a 12,5% do valor total do contrato com a Altice um ano e meio antes do mesmo entrar em vigor. 

Fernando Gomes chegou a afirmar que o contrato com a Altice/PT ia permitir «gerir o FC Porto de maneira diferente». Pois. Diferente é a palavra, mas não para melhor. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

As contas do primeiro trimestre

Quem gosta de acompanhar as contas da SAD vai ter que esperar durante, pelo menos, mais três meses. O FC Porto não divulgou o R&C do primeiro trimestre de 2016-17, aproveitando a nova opção que permite que a SAD não tenha que prestar as informações trimestrais (directiva comunitária 2013/50 da União Europeia).

Contas só em fevereiro
Assim sendo, terminou o mês de novembro e o FC Porto não comunicou à CMVM as contas do primeiro trimestre, que basicamente incluíam todas as movimentações da SAD entre 1 de julho e 30 de setembro, com negócios curiosos como os de Boly ou Depoitre, entre muitos outros. 

Podia tê-lo feito, mas optou por não o fazer, tal como o Benfica. Já o Sporting decidiu apresentar as suas contas trimestrais. Convenhamos que tinha motivos mais sonantes para o fazer, pois tem um lucro de quase 63 milhões no primeiro trimestre. Mas a partir do momento em que uma SAD opta por divulgar as contas trimestrais, terá que o fazer durante os dois anos subsequentes. O FC Porto preferiu não divulgar nada perante o mercado e os seus sócios. 

Desta forma, a SAD do FC Porto terá até ao final de fevereiro para divulgar as contas do primeiro semestre, ou seja, os resultados do exercício até 31 de dezembro. O exercício será fechado antes da abertura do mercado de inverno, mas os resultados serão apresentados já depois do mercado de inverno fechar e da inevitabilidade do FC Porto vender jogadores em janeiro. 

Fica assim explicada a ausência de contas trimestrais da SAD para análise e debate neste espaço. Quem queria boas notícias, também não perdeu nada. 

Outras leituras:

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O orçamento do FC Porto 2016/17

O teor do último post terá sido mal interpretado por alguns leitores. O Tribunal do Dragão não pretende mudar o seu registo na bluegosfera: o exemplo do post de ontem, no caso com André Silva como figura, é apenas um exemplo de possível complementaridade aos conteúdos do blogue. Se há uma coisa em que este espaço aposta desde o início é numa diversidade de conteúdos (sempre tendo o futebol como denominador comum), e o exemplo de ontem era apenas mais um passo nesse sentido.

Disto isto, vamos ao orçamento para 2016-17. Os números podem ser comparados ora com base naquilo que era o orçamento há um ano, ora com base nos resultados do final da época 2015-16. Vamos tomar os dois últimos orçamentos como referência - comparar plano com plano, em vez de comparar resultado com plano, embora as duas coisas possam perfeitamente ser feitas.

Orçamento proposto para 2016-17
Há um ano, a SAD apontava para proveitos operacionais de 85,44M€. Agora, apontam para 98,415M€. É uma previsão animadora, pois a SAD consegue orçamentar receitas fixas quase nos 100M€. É claro que entre a previsão e a execução há um passo a dar (em 2015-16, a SAD ficou cerca de 10M€ abaixo da meta), mas o caminho para a sustentabilidade começa aqui: aumentar as receitas operacionais para reduzir a necessidade de venda de jogadores.

É claro que há uma receita que não é fixa: a Liga dos Campeões. Por norma, temos 3 equipas a jogar para 2 vagas. A presença na Liga dos Campeões não pode ser dada como uma meta garantida ano após ano. As receitas na UEFA não deveriam ser encaradas como essenciais para a sustentabilidade, mas sim como o extra que permita dar algum conforto à gestão da SAD.

No entanto, aparentemente bastará garantir os 1/8 desta edição da Liga dos Campeões. A SAD orça 30M€ de receitas na UEFA. Estão já garantidos 12M€ (+2M€ pelo playoff), 2M€ na fase de grupos (no cenário mais otimista, podem ser conseguidos mais 4,5M€ com três vitórias), e o apuramento para os 1/8 vale 5,5M€. Se a equipa conseguir essa meta, mais as receitas de market-pool, os 30M€ estarão quase conseguidos, o que reduz a pressão (não desportiva, mas financeira) de ter que assegurar o apuramento para a Champions 2017-18 (os 12M€ do apuramento não são incluídos neste orçamento, portanto). 

A SAD propõe-se a ultrapassar pela primeira vez os 15M€ em receitas de publicidade e as receitas de TV sobem 5M€ na previsão (não esquecendo que as receitas da PT/Altice já começaram a ser usadas na gestão de 2015-16). O aumento destas duas rúbricas é fundamental.

Quanto aos custos, não há redução por parte da SAD. Pelo contrário, a SAD prevê gastar mais em salários do que previa há um ano, com os custos salariais a terem uma estimativa de 69,5M€. Mas o pior está novamente nos Fornecimentos e Serviços Externos: uma subida de 5,6M€, para uns incomportáveis 38,5M€. Isto resulta em custos de 116,5M€. 

São portanto os custos operacionais mais altos da história da SAD, superando os que estavam previstos em 2014-15 (114,2M€). É também o terceiro orçamento suicida apresentado consecutivamente. No primeiro ano, a boa Champions, a valorização em massa do plantel e as vendas de jogadores como Jackson, Danilo e Mangala permitiram à SAD cumprir um orçamento de elevado risco. No segundo ano, o desastre anunciava-se e terminou com o maior prejuízo da história do futebol português. Agora, a SAD não só volta a arriscar como eleva ainda mais o risco. 

Ainda assim, como dado positivo nota-se a previsão de uma redução do défice operacional: de 22,3M€ para 18,1M€. Em 2014-15 o défice era de 25M€, por isso tem havido uma ligeira descida. Mas ainda insuficiente, sobretudo tendo em conta a extrema necessidade que continua a existir da venda de jogadores.

Vamos então ao problema... semântico. No orçamento de 2015-16, a SAD informou apenas de que precisava de um resultado com transações de passes de 72,59M€. Este ano expôs a informação de maneira diferente: necessita de proveitos de 115,781M€ e terá custos de 47,201M€. No final, aponta-se para um resultado operacional novamente na casa dos 18M€, para fazer face a juros que estão na casa dos 16M€ anuais.

Orçamento aprovado para a última época
A imprensa anunciou em massa a necessidade de fazer proveitos de 115,781M€ com jogadores. Nasceu logo a questão: são proveitos? São mais-valias? São vendas brutas? A verdade é que a SAD apresentou um cruzamento entre proveitos e custos, enquanto há um ano especificou apenas o resultado. Ou seja, podemos estar a falar de uma necessidade de um resultado com transações de passes de 68,58M€, uma redução de 5,5% face ao ano anterior. Um decréscimo muito reduzido, sobretudo se não der sinais de ser progressivo. 

O resultado com transações de passes de jogadores foi de apenas 7,1M€ na época passada, e na época anterior (na qual o FC Porto bateu o recorde de vendas) tinha sido de 51,12M€. Ou seja, o resultado esperado para esta época tem que ser maior do que o das duas últimas épocas juntas. Mas estamos a falar de resultado de transações, não de mais-valias. No que toca a mais-valias, na última época foram de 40,22M€, e em 2014-15 tinham sido de 86,4M€. Como nos orçamentos propostos pela SAD o termo mais-valias não é utilizado, temos que nos guiar pelo resultado da transação de passes. Por outras palavras, no final da época é bom que Jorge Mendes se prepare, pois é possível que tenha muito trabalhinho... E é bom que os corações dos portistas também estejam preparados, pois a ideia anunciada de manter os melhores jogadores durante mais anos não combina em nada com este orçamento. 

O resultado negativo de 2015-16 transita para este exercício, tal como o resultado de 2013-14 transitou para a época 2014-15. Nada de novo neste assunto. 

Quanto à última proposta da ordem de trabalhos, a entrada Eduardo de Vítor Rodrigues na SAD... Não aparenta ter grande lógica. Saiu Antero Henrique, administrador e número 2 (ou não, esse é o Maxi Pereira) da SAD, e o Conselho de Administração propõe para o seu lugar... um administrador não executivo. Portanto, tecnicamente Antero Henrique não é substituído no cargo de administrador executivo da SAD. Há várias formas de questionar isto, sendo uma delas: se não é necessário ninguém para substituir Antero Henrique nas funções executivas, então o que estava ele a fazer na SAD? Ou então, que polivalência é essa do restante Conselho de Administração que dispensa uma sucessão executiva?

É uma escolha de Pinto da Costa, que disse que não gostava de misturar política com futebol, mas o passado recente na composição do Conselho de Administração diz o contrário. Tirando o presidente, o CA passa a ter 3 administradores executivos e três não executivos. Até 2015 havia apenas, além do presidente, três executivos e um não executivo. Curiosidade para perceber em que medida a adição de dois administradores não executivos ao quadro da SAD vai ter influência.

Certamente que todos estarão na expetativa de ver os conhecimentos que Eduardo de Vítor Rodrigues tem de sociologia (área na qual fez todo o percurso académico) serem aplicados ao FC Porto. Era para isso que Auguste Comte, Montesquieu e Marx se levantavam de manhã: para que chegasse o dia em que a sociologia e o futebol se sentassem à mesa. O futuro dirá se um dia veremos o futuro administrador não executivo entregar um Dragão de Ouro a Marco António Costa. Mas é sem dúvida algo que se encaixa na realidade atual: sermos uns porreiros e uns amigalhões de quem um nos quis mal. O FC Porto perdeu o campeonato de 2014-15 por causa das arbitragens; os árbitros receberam ofertas ilícitas por parte do Benfica; mas o FC Porto não tem absolutamente nada a dizer sobre o kit Eusébio, e isso é reafirmado uma, duas, três vezes. O «Make love, not war» afinal não era uma ferramenta de combate à Guerra no Vietname, mas sim uma filosofia para o FC Porto atual. 

O presente orçamento e demais propostas do Conselho de Administração vão a votos a 17 de Novembro, em AG de acionistas, e será com certeza aprovado por larga maioria. Por norma, seriam manifestados desejos de cumprir este orçamento... para nunca mais ter que o repetir. Mas isso seria muito 2014. Ou muito 2015. 

Siga para o campo, pois vem aí um ciclo de jogos de máxima dificuldade e importância, nos quais o FC Porto vai jogar pelo 1º lugar e pelos 1/8 da Champions num curto espaço de tempo. Estar em crise mas ter oportunidade de estar na luta por todos os objetivos da época é uma crise que muitos desejariam ter. Há condições para inverter o rumo. Pelo menos dentro de campo.