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sexta-feira, 15 de junho de 2018

Análise 2017-18: os centrais

Saiu a custo zero
Iván Marcano - Um exemplo de sobriedade e maturidade em toda a sua estadia no FC Porto. Chegou com low profile, rapidamente agarrou e justificou o lugar no 11, chegou ao grupo de capitães e despediu-se como campeão, marcando inclusive o último golo da época 2017-18 (na qual fez sete golos e uma assistência). O FC Porto não conseguiu renovar com o espanhol atempadamente e, naturalmente, Marcano tornou-se um alvo cada vez mais apetecível no mercado, a ponto de ter ofertas muito superiores às do FC Porto para prosseguir a carreira. Perto dos 31 anos, seguiu o caminho lógico, mudando-se para Itália e deixando o FC Porto órfão daquele que foi o melhor central da I Liga na última época. Com o aproximar do final do contrato, logicamente que passou a ser cada vez mais «caro» renovar com Marcano. O tempo dirá se a compra de novos centrais para 2018-19 se revelará mais ou menos dispendiosa do que teria sido renovar com Marcano, que faria perfeitamente mais duas épocas de bom nível. Para já despedimo-nos de um profissional exemplar e de um dos bons jogadores do FC Porto da última década.

Contrato até 2021
Felipe - Abençoada a hora em que Sérgio Conceição decidiu mandar o brasileiro para o banco durante uns jogos. Na primeira parte da época, chegou a ser sofrível ver Felipe em alguns momentos. Desconcentrado, desleixado, ultrapassando muitas vezes os limites da agressividade e cometendo uma enxurrada de faltas desnecessárias e em posições comprometedoras. Quando voltou à equipa, em janeiro, surgiu renovado, apesar da comprometedora exibição no Restelo, e partiu para uma série de boas exibições, tendo ainda conseguido tornar-se o 2º central com mais interceções na Liga (80) e o 2º defesa com mais duelos aéreos ganhos (134) - dois dados notáveis quando temos em consideração que o FC Porto foi a equipa que menos teve que defender na Liga. Na próxima época, sem Marcano, Felipe terá que assumir o papel de «patrão» da defesa e a sua responsabilidade será redobrada, tendo em conta que o setor defensivo será o que terá mais alterações na equipa. O Felipe da segunda metade da época tem tudo para dar conta do recado. 

Final de contrato
Diego Reyes - O central mexicano foi comprado ainda em 2012. Nas duas primeiras épocas jogou mais pela equipa B do que pela A, seguiram-se dois empréstimos para Espanha e regressou ao Dragão para ter a sua época de maior utilização, mas ainda assim insuficiente para agarrar-se ao 11. Reyes entrou bem na equipa quando Felipe saiu do 11, teve uma sequência de boas exibições que justificavam a continuidade, mas depois da eliminatória com o Liverpool o central deixou de ser aposta. Reyes chegou ao final de contrato e o seu futuro passa pela saída do FC Porto, numa operação que pode revelar-se particularmente complexa - não esquecer que o passe de Reyes, ainda antes do jogador chegar ao Dragão, foi alienado ao fundo Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi, e neste tipo de acordos os fundos nunca perdem dinheiro. Embora tenha conseguido algumas boas exibições na última época, Reyes teve diferentes treinadores, diferentes (pré-)épocas no FC Porto e, ainda assim, nunca conseguiu ter o estofo necessário para se fixar na equipa. Foi um investimento caro da SAD, mas apesar de ter feito a sua melhor época pelo FC Porto, mesmo com a saída de Marcano o clube prefere recrutar novos centrais no mercado do que tentar a renovação com Reyes. Ficará sempre a impressão de que Reyes poderia ter dado mais, mas foram cinco épocas à espera que se afirmasse - e como dar-lhe a sexta oportunidade implicaria um contrato prolongado, percebe-se que os seus agentes estejam a procurar uma solução longe do Dragão e que a SAD já prepare o futuro nesse sentido.

Contrato até 2022
Osorio - Fez apenas um jogo pelo FC Porto - derrota no Restelo. Não mais voltou a jogar... e foi campeão. Apesar de a contratação de Osorio não ter trazido quaisquer benefícios para 2017-18, no momento do seu empréstimo por parte do Tondela já estava prevista a sua permanência a título definitivo no Dragão. Osorio tem caraterísticas físicas e atléticas muito interessantes, mas no Tondela não mostrou nenhum potencial fora do comum - revelou até muitas dificuldades no jogo aéreo e em aspetos básicos de um central. Fica a dúvida se fica no clube por causa da cláusula de compra obrigatória, ou se Sérgio Conceição acredita de facto no seu valor. Osorio tem tudo o que se pode desejar a nível físico e atlético num central, mas tem basicamente que evoluir em todos os aspectos - marcação, posicionamento, timing de entrada sobre a bola, jogo aéreo. Para já ganhou uma pré-época para mostrar serviço, sabendo que, com as saídas de Marcano e Reyes, é a par de Felipe o único central a transitar de uma época para a outra. Será preciso muito, muito trabalho por parte do venezuelano. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Campeões e recordistas

Não há maior testemunho da reabilitação competitiva que Sérgio Conceição injetou no FC Porto: ainda adeptos, jogadores e clube estavam na «ressaca» da conquista do Campeonato e já o treinador se tinha proposto ao recorde de pontos num Campeonato a 34 jornadas. Ninguém entrou em campo em Guimarães já a festejar, com cara e cabelo pintados e meramente para cumprir calendário. Não, havia um recorde a alcançar.

E o FC Porto tornou-se a equipa com maior pontuação de sempre num Campeonato a 34 jornadas (não confundir com aproveitamento máximo de pontos - essa marca foi estabelecida em 2010-11, com 93,3% de pontos conquistados). O Benfica também fez 88 pontos em 2015-16, certo, mas com uma vantagem de apenas dois pontos sobre o segundo classificado. Logo, os 88 pontos do FC Porto ganham especial relevância por terem deixado o Benfica a um Celta de Vigo de distância, leia-se, a sete pontos. 

Concluiu-se assim uma época que pode ser resumida numa palavra: superação. Sérgio Conceição não teve pudor em assumi-lo: não tinha o melhor plantel, não tinha os melhores jogadores, não teve reforços no mercado de verão. Não passou a ter um plantel vasto e completo no decorrer da 
época. Mas construiu uma equipa, que jogou até ao limite. É certo que a qualidade exibicional do FC Porto decresceu bastante desde o final de fevereiro - desde então, a esmagadora maioria das vitórias foram conseguidas pela margem mínima -, mas isso não retirou os estatutos de melhor ataque e melhor defesa ao plantel. Nem de melhor futebol.

Campeões nacionais com 7 pontos de avanço, objetivos cumpridos na Liga dos Campeões, e as finais da Taça da Portugal e da Taça da Liga ficaram à distância de um pouco mais de felicidade nas grandes penalidades. Plantel valorizado em várias unidades e comunhão absoluta entre adeptos e equipa. Segue-se um merecido descanso, com a garantia de que na próxima época será muito, muito difícil fazer melhor; mas que ninguém duvide que a meta de Sérgio Conceição será precisamente essa - mais e melhor.




Iván Marcano (+) - Na sua mais do que provável despedida do FC Porto, assinou o golo da vitória e entrou para a lista dos 10 defesas mais goleadores da história do clube. Exibição muito sóbria na defesa, com os atacantes do Vitória a não darem muito trabalho, por isso foi na grande área adversária que Marcano mais se distinguiu, tendo ainda criado uma ocasião de golo. A caminho de completar 31 anos, está no pico de maturidade e experiência, e arrisca deixar um vazio que o plantel, neste momento, não tem condições para preencher.


Alex Telles (+) - Fechou a época com a 14ª assistência no Campeonato, 20ª na época, e termina a temporada como o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a época - 95 no total. É certo que o brasileiro bate as bolas paradas, algo que ajuda a reforçar os números, mas é mais do que Brahimi (50 ocasiões) e Herrera (40), o 2º e 3º mais influentes, juntos. Certinho na defesa, disponível no ataque, voltou a estar na génese das principais jogadas de perigo dos dragões. Termina a época como uma das tentações do mercado de verão... e um forte candidato a ver o seu estatuto reforçado no Dragão em 2018-19.

Héctor Herrera (+) - Nem parecia que estava na ressaca de uma semana de festa e relaxamento. Foi de longe o jogador com mais ações com bola (90), ganhou 9 dos 14 duelos que disputou, criou uma ocasião de golo e esteve surpreendentemente bem no passe longo, ao acertar 6 das suas 7 tentativas. Encheu o meio-campo e acumulou um total de 16 intervenções na defesa, entre cortes, desarmes e recuperações de bola. Um jogo de pulmão cheio.

O regresso de Fabiano (+) - Um pouco à margem do jogo, mas é um momento que merece ser assinalado. Para quem não se recorda, Fabiano foi o guarda-redes menos batido das Ligas europeias em 2014-15. Uma prova de que o futebol e as balizas podem ser mundos tão complexos que o mais difícil - não sofrer golos - pode não ser de todo suficiente para encher as medidas a treinadores e adeptos. Perdeu a titularidade e o lugar no clube depois dos 6x1 de Munique. O mesmo jogo onde também estiveram jogadores como Marcano, Herrera ou Brahimi, agora «heróis» da época 2016-17.

Fabiano foi dispensado e emprestado ao Fenerbahçe, depois de Casillas ter sido contratado (ao contrário do que chegou a dizer Pinto da Costa ao El País, tendo afirmado que a hipótese Casillas só surgiu depois de Fabiano ter ido para a Turquia). O brasileiro dificilmente teria muito espaço para jogar no Fenerbahçe, pois Demirel é quase intocável para o clube e adeptos. Esteve duas épocas no Fenerbahçe, mas sofreu uma lesão grave. Voltou a Portugal e ao FC Porto meramente para tratar da lesão, mas Sérgio Conceição decidiu incluí-lo no plantel como sendo jogador da equipa A. Um ano depois da grave lesão, voltou a jogar, para ser campeão. A emoção no final não é indiferente a nenhum adepto: ver um jogador superar tamanho calvário, até à emoção de voltar a ser campeão no FC Porto, chega a ser simbólico e algo no qual cada adepto se pode rever. 

Terminou a época 2017-18, que será sempre recordada com orgulho e satisfação. A época do «Mar Azul».

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Foi mesmo mais do que 45 minutos

«Até metia dó ver o Estoril em campo. Não conseguia dar dois toques na bola. (...) quando se prepara 45 minutos e não se consegue dar três toques na bola, não se ganha uma bola, não se ganha uma segunda bola (...)». Foram declarações muito, muito fortes as expressadas por Ivo Vieira no final da partida. Não é hábito vermos um treinador rasgar assim a sua equipa, a quente, no final das partidas. Mas houve um rasgão ainda maior: dentro de campo. 

O FC Porto devorou completamente o Estoril em campo. O Estoril não conseguiu fazer nada porque o FC Porto não deixou, com uma exibição que quase apetece a dispensa de circulação, espaço entre-linhas, profundidade e os conceitos habituais. Foi, simplesmente, um massacre.

Fortíssimos na reação à perda da bola, rápidos a definir e a atacar, sistematicamente a levar a bola à grande área e a criar ocasiões de golo. Lances ganhos pelo ar, pelo chão, no corpo a corpo, fosse como fosse. O FC Porto sufocou por completo o Estoril e personificou, na perfeição, a vontade em chegar ao título de campeões nacionais.

Eram precisos dois ou três golos e o FC Porto fê-los com facilidade. E nem havia assim tantas razões para duvidar que isso seria possível. Afinal, estamos a falar do segundo melhor ataque do FC Porto dos últimos 32 anos à 23ª jornada - melhor só o FC Porto de Robson, em 1996, que levava 62 golos, mais um do que os marcados até ao momento nesta época. Foram três, podiam ter sido muitos mais. Em 45 minutos, nos quais o FC Porto aplicou uma intensidade e criou uma quantidade de ocasiões que poucas equipas conseguem em 90'.

Cinco pontos de vantagem a 11 jornadas do final. Que significa isto? Nada. Basta o clássico com o Sporting correr mal e, aí, já damos ao Benfica a oportunidade para tentar chegar ao primeiro lugar quando os dragões forem à Luz. Por isso, nada está ganho, nada está garantido. Garantia apenas esta: é essencial vencer o Portimonense.




Iván Marcano (+) - O massacre ofensivo começou cá atrás: na forma como Marcano se fartou de lançar ataques com passes longos e bolas metidas na perfeição nos flancos. Inteligentíssimo a colocar as bolas ora em Marega, ora em Brahimi, ora ele próprio a ganhar alguns metros e a empurrar a equipa para o meio-campo do Estoril. Com os avançados do Estoril a darem pouco trabalho, serviu basicamente como o primeiro construtor de jogo.

Héctor Herrera (+) - Para a frente, para trás, para a direita, para a esquerda. Herrera pressionou, desarmou, cortou, passou, criou, sempre de dentes cerrados e em máxima intensidade. Foram 45 minutos de alta rotação nos quais Herrera esteve em todo o lado, inclusive na génese dos dois golos de Soares, depois de ele próprio ter ficado perto de inaugurar o marcador.

Soares (+) - Terceira jornada consecutiva a bisar, desta feita em dois lances oportunos, nos quais cumpriu a máxima dos pontas-de-lança: estar na grande área para o último toque. Mas não se limitou a isso, pois não raras vezes descaiu para os flancos, baralhou as marcações e criou ainda duas ocasiões de golo. Já leva sete golos em fevereiro, está com a confiança renovada e agarrou o lugar no 11, perante a ausência de Aboubakar das opções. Uma vez mais, Sérgio Conceição recupera um jogador que esteve de malas feitas. 


Estratégia (+) - De encontro aos parágrafos iniciais: o FC Porto engoliu por completo a equipa do Estoril, empurrando os 11 jogadores para a sua grande área e encontrando sempre superioridade em todos os momentos do jogo, quer nos duelos, quer nas bolas divididas, quer no jogo aéreo. A equipa soube levar a bola até à grande área do Estoril como nunca, tanto que, da totalidade dos 23 remates na partida, apenas um foi obtido de fora da grande área. A velocidade de execução, as constantes quedas dos avançados nos flancos e a pressão constante sobre o Estoril foram chaves para uma vitória importante, categórica e curta, tamanha que foi a superioridade do FC Porto. Negativo, muito negativo, só mesmo as lesões de Alex Telles e Corona.

Segue-se o Portimonense. Dá para fingir que são só 45 minutos?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os Pentas: Outubro de 2017

Novembro já deu ao FC Porto duas saborosas vitórias, mas é tempo de análise ao desempenho do plantel em outubro último. Um mês que arrancou com um empate em Alvalade, resultado que manteve o FC Porto na liderança e cuja vantagem foi dobrada na jornada anterior. A primeira etapa da Taça de Portugal foi superada sem problemas, mas a Taça da Liga continua a ser um fenómeno difícil de compreender. A derrota na visita ao Leipzig custou, mas no Campeonato os triunfos dilatados sobre Paços e Boavista reafirmaram uma candidato forte ao título. Em mês de Taças há maior rotatividade de jogadores, o que torna mais difícil definir um top 5, mas estas são as escolhas d'O Tribunal do Dragão. 

5. Ricardo Pereira

Só jogou em três dos seis jogos do FC Porto disputados em outubro, mas curiosamente (ou não) esteve em todas as vitórias do clube. Duas assistências e um golo ao Paços de Ferreira, numa das exibições que foi das melhores a nível individual de todo o plantel esta época, e uma exibição particularmente bem conseguida na visita ao Boavista. Parece ter agarrado de vez a titularidade no lado direito da defesa e aproximou-se do rendimento de Alex Telles, embora o brasileiro continue a ser o rei dos passes para finalização, embora muito graças às bolas paradas. 

4. Moussa Marega

Continua na senda da combinação agridoce de um jogador que lidera várias estatísticas de passes falhados, más receções e bolas perdidas com muita luta, golos importantes e algumas assistências. Voltou a ser útil no Campeonato, no qual conseguiu dois golos e duas assistências no último mês, mantendo a sua contribuição de um golo por jornada. É o mais rematador do plantel (3,8 remates por jogo) e o segundo que mais faltas arranca (atrás de Brahimi), embora na Champions as suas limitações sejam mais evidentes. Na I Liga, no entanto, a sua dimensão física continua a fazer de Marega mais vezes solução do que problema, para surpresa e agrado. Estará ausente ao longo do mês de novembro e será a altura de fazer o balanço: o FC Porto é mais ou menos forte com Marega?

3. Iván Marcano

Voltou a mostrar a sua vocação goleadora, ao marcar dois golos no último mês, um na Taça e um na Champions. Apesar dos três golos sofridos na Alemanha, Marcano continua a somar exibições que combinam autoridade, inteligência e uma enorme capacidade no jogo aéreo. Tirando Maurides, irmão de Maicon e que tem uma capacidade forma do normal para jogar de cabeça, Marcano é o central que mais bolas de cabeça ganha no Campeonato e o que mais tackles ganha, com 73%. Em 11 jornadas disputadas, continua a ser notável a sua forma limpa de jogar (fez apenas 8 faltas, o que lhe dá menos de uma falta cometida a cada 120 minutos). E porque não custa lembrar: pode assinar a custo zero por qualquer clube dentro de menos de dois meses. 

2. Vincent Aboubakar

Voltou a ser o homem-golo do último mês, ao contribuir com cinco remates certeiros e uma assistência. Destacou-se no Bessa, ao inventar e finalizar a jogada do 1x0 depois de uma primeira parte fraca da equipa. Já é o 6º melhor marcador da história do FC Porto na Champions e é o terceiro portista com melhor média de golos na competição, só atrás dos heróis de Viena Madjer e Juary. Já leva intervenção direta em 38% dos golos da equipa, sendo o mais influente nesse capítulo. Na pré-época entendeu-se com Soares, depois com Marega e agora prepara-se para guiar o ataque do FC Porto a solo. Está bem entregue.

1. Yacine Brahimi

Repete a eleição de melhor jogador do mês, sem que possa haver grande surpresa. Três assistências e um golo no último mês, mas todos sabem que a magia de Brahimi não encontra meramente nos golos o melhor espelho. Foi o MVP no Bessa e em Alvalade e trata-se de um desequilibrador de uma dimensão à parte neste campeonato, com já 56 dribles eficazes, mais de metade do segundo melhor - um nome que merece atenção para o mercado de inverno... Gonçalo Paciência, com 24. É também o jogador que mais duelos ganha no Campeonato (96), tendo inclusive a melhor eficácia de 1x1 em toda a Liga - 73% dos lances resultam em jogadas de perigo. À margem da criatividade do ataque, destaca-se cada vez mais nas recuperações de posse e na forma como se envolve na primeira linha de pressão. Tem contrato até 2019, vai fazer 28 anos e o FC Porto dificilmente conseguirá, algum dia, fazer uma venda que faça jus à valia e qualidade de Brahimi. O melhor mesmo é continuar a desfrutar dela dentro de campo. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dois pontos perdidos?

O FC Porto queria sair líder de Alvalade: e saiu. O Sporting queria passar para o primeiro lugar: e falhou o seu objetivo. Basta isto para se concluir que o FC Porto saiu do clássico por cima do adversário. Com um sabor agridoce, pois foi a melhor equipa e fez, sobretudo na primeira parte, os melhores 45 minutos que o FC Porto fez em Alvalade desde o ano da última vitória, em 2008. Mas sair do estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal invicto, líder da I Liga, com mais soluções no plantel e a jogar bom futebol só pode ser encarado como muito positivo.

Não, Sérgio, não foram dois pontos perdidos (embora se entenda e subscreva a ambição): foi confiança ganha, soluções ganhas, equipa mais forte e coesa, e ao contrário do que aconteceu em 2014-15, época na qual o FC Porto perdeu a liderança logo após a ter recuperado, desta feita a equipa dominou o Sporting e agarrou-se ao primeiro lugar com todo o mérito. Vila do Conde, Braga e Alvalade já lá vão, três deslocações a casa de equipas dos seis primeiros lugares da tabela e com ambições europeias. Perfeito. 




A primeira parte (+) - Não fosse a eficácia e teriam sido 45 minutos perfeitos, nos quais o FC Porto reduziu o Sporting a um único lance de algum perigo, o cabeceamento de William Carvalho (e mesmo no segundo tempo, o lance de maior aflição foi um remate de Bruno Fernandes para as couves). O FC Porto ganhou o meio-campo, teve sempre profundidade, foi capaz de ser criativo (Brahimi e Aboubakar bem a criar, mas faltou pragmatismo e sentido prático na hora de rematar) e obrigou o Sporting a correr muito, muito mais. Taticamente, tudo saiu bem ao FC Porto, que controlou o jogo com e sem bola. Naquele que foi o primeiro clássico de Sérgio Conceição, meteu no bolso Jorge Jesus.

Outra vez, Brahimi (+) - E novidades? Perdeu gás na segunda parte (assim como toda a equipa), mas encheu o campo na primeira parte. Saíram dos seus pés as principais jogadas de perigo, assegurou que Piccini não dormiu bem na última noite e foi quem melhor soube aproveitar o espaço entre linhas. Tem que apostar mais no remate à entrada da grande área, pois quem ganha espaço e se enquadra com a baliza como Brahimi não pode estar sempre à espera que apareça mais um jogador para fintar. À margem desse pormenor, começa este mês como acabou o último: o melhor em campo.


Os três pilares (+) - Casillas só teve que fazer uma defesa em todo o jogo e o Sporting foi reduzido a cinco tentativas de remate. A equipa defendeu bem em bloco, mas há que realçar a importância de Marcano, Felipe e Danilo Pereira. Ganharam todos os lances aéreos nos últimos 25 metros, fizeram apenas 3 faltas e bloquearam 29 tentativas de ataque do Sporting no último terço, entre cortes e alívios. Defensivamente, tudo correu à equipa, também com um papel importante de Herrera e Sérgio Oliveira em manter o meio-campo composto. Casillas tocou na bola metade das vezes de Rui Patrício (22-44), o que diz tudo de uma noite que, num clássico, não costuma ser tão tranquila para os guarda-redes. 




Pormenores (-) - A hesitação que levou ora Brahimi, ora Aboubakar a perderem tempo e espaço para rematar nas melhores condições; a finalização de Marega na cara de Rui Patrício; o lance em que Herrera, tendo Layún solto na direita e Aboubakar a correr para o segundo poste, decide rematar; o lançamento de Alex Telles para uma zona proibida do campo, que forçou o erro de Danilo. Tudo isto são pormenores, mas foram todas jogadas candidatas a decidir um clássico. Não deram prejuízo, mas também não deram o lucro mais desejado. Já se sabe: os clássicos decidem-se nos pormenores, e estes merecem maior acerto nos momentos-chave.

A quebra física (-) - O FC Porto fez 60/65 minutos de elevada intensidade, e isso refletiu-se no rendimento da equipa durante a segunda parte. Era necessário mexer, mas Sérgio Conceição deparava-se com um problema: não havia músculo/pulmão no banco. A decisão era difícil, mas a entrada de Otávio, para a saída de Herrera, fragilizou naturalmente a equipa na dimensão física do meio-campo. Soares e Corona entram também já relativamente tarde, mas era dos pés de Aboubakar e Brahimi, desgastados, que poderia sair o caminho para a vitória em Alvalade. Sérgio Conceição está a fazer milagres, ao reinventar/resgatar jogadores como Marega, Sérgio Oliveira ou o próprio Herrera, mas não pode jogar o que não tem no baralho. 

Líderes à 8ª jornada, pela primeira vez desde 2013, e curiosamente, tal como na época com Paulo Fonseca, logo após um clássico com o Sporting, que permitiu passar a somar 22 pontos em 24 possíveis. Recomenda-se, por isso, que a calma que seja companheira da confiança ao longo da época. Mas quando um treinador sai de casa de um candidato ao título insatisfeito porque jogou muito melhor e manteve o primeiro lugar, isto diz tudo da mentalidade competitiva que habita no balneário do FC Porto. Não é só à Porto: é à Conceição. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Como disse?

A imprensa é um eterno universo de preocupação para muitos adeptos. Não é surpresa para ninguém que determinados títulos têm maior proximidade com alguns clubes. Que existe compadrio - uma palavra provavelmente até elegante de mais para o caso - entre A Bola e o Benfica, não é novidade. E que o jornal O Jogo é, historicamente, o jornal que maior apreço recebe por parte do FC Porto, também não. Mas a notícia trazida hoje à capa é grave.

Cada adepto pode escolher o que lhe ocupa o topo das preocupações: ou o facto de Luís Filipe Vieira, o leitor, dar entrevistas à Bola que não o são; ou uma manchete d'O Jogo acusar basicamente a SAD de amadorismo. 

Em causa estão duas pequenas frases. 


«Última reunião foi na época passada» e «negociações com os jogadores em risco vão começar agora». É brincadeira, certo?

O FC Porto está em plena época 2017-18, em que para já tudo tem corrido bem. Teve dificuldades na venda e colocação de jogadores no último defeso, ficou com um caso bicudo por resolver (Bueno), e entre os excedentários/dispensáveis só Depoitre saiu por um valor acima do que seria expectável no mercado (quase 4M€). Ainda assim, há expectativa em ver se a folha salarial conseguirá descer um pouco (a previsão para a última época foi de 69,5M€ - um aumento de 28% em relação ao último campeonato conquistado).

E perante a ausência de reforços, transmitiu-se a ideia de que reforços eram os que ficavam. Mas então agora a SAD do FC Porto é acusada de ter iniciado a época sem antes ter assegurado a continuidade de ativos que estão em final de contrato?

Iván Marcano é um dos capitães do FC Porto e um jogador essencial no plantel. «Última reunião foi na época passada». A sério que o FC Porto começaria uma época sem assegurar, dentro do possível, que Iván Marcano era para continuar? Sem haver contactos diretos nesse sentido? E as negociações «com os jogadores em risco, vão começar agora»? Apenas agora, a menos de 4 meses de poderem assinar por outro clube a custo zero?

A SAD basicamente não comprou ninguém no último defeso. Houve muito menos trabalho para fazer a nível de mercado. E com isto, não houve tempo para encaminhar as renovações de contrato antes da época começar? 

É sabido que Iván Marcano quer ficar no FC Porto. E vai ficar, seguramente, porque estamos a falar de um capitão e de um profissional exemplar. Mas num mundo tão volátil como o futebol, em que as intenções e lealdade mudam ao ritmo do cifrão e de um dia para o outro, esta acusação de uma gestão de puro amadorismo é demasiado grave. 

Tomemos como exemplo a situação de Vincent Aboubakar. Fabrice Picot, o empresário do avançado, disse em julho que Aboubakar queria «jogar e ajudar» o FC Porto, mas que «a renovação não está nos planos». Por norma, um jogador que se recusa a renovar não volta a jogar. Neste caso, que alternativa poderá ter o FC Porto?

Não há alternativas no ataque. O FC Porto depende de Aboubakar pelo menos até janeiro. Tem que jogar, não há alternativa. E sabemos que o camaronês tem um empresário que não hesitou em afirmar que não havia planos para renovar. Quem garante que Aboubakar estará a ter o melhor tipo de aconselhamento nesta fase?

«Escuta, Vincent, já deu para ver que o FC Porto não pode prescindir de ti. O mercado está fechado e não podem jogar até janeiro só com Marega e Soares, por isso tens lugar quase sempre garantido. Fazemos assim: continua a jogar bem, a fazer golos, e depois em janeiro já podes assinar por outro clube a custo zero. E como não têm nada a pagar ao FC Porto, até pagam uma comissão e um prémio de assinatura bem mais altos». Claro, isto é meramente ficcional e extremamente pessimista. Mas estamos no futebol. 

O próprio Diego Reyes, único central suplente na equipa principal, está em final de contrato. Assim como Maxi Pereira, que dificilmente ficará para a próxima temporada. E na véspera, O Jogo trouxe-nos também à capa uma notícia de que Reyes mostrava serviço como alternativa a Danilo Pereira. 

Já não há uma alternativa de raiz a Danilo no plantel. Sugerem Reyes, que é então simultaneamente único central suplente e alternativa à posição 6. Está em final de contrato. 

Não passa pela cabeça de ninguém perder Iván Marcano e Aboubakar. Se tal acontecesse, Reyes entrava no 11, deixava de haver central suplente e a tal alternativa sugerida a Danilo; se Aboubakar deixasse de ser opção, Marega e Soares tinham que durar os 90 minutos semana após semana, ou então Sérgio Conceição teria que passar a jogar em 4x3x3. O pior que podia acontecer: o treinador ser forçado a mudar a sua tática por não ter opções suficientes no plantel. 

E já existem consequências disso. Perante a incerteza em torno de Corona, especula-se que Ricardo Pereira pode jogar a extremo. Tudo bem, tem qualidade para isso, e Maxi Pereira dá garantias de qualidade. Mas isso implica que, perante a ausência de um único jogador, Sérgio Conceição tem que mexer em dois setores; e mexe em dois setores apesar de ter Hernâni no plantel. Não é o maior atestado de confiança e de profundidade no plantel, diga-se.

Já que não foram capazes de dar um único reforço ao treinador, o mínimo que se pede é que Iván Marcano, Diego Reyes e Aboubakar tenham o seu futuro totalmente assegurado e comprometido com o FC Porto o quanto antes. Infelizmente, já temos variados exemplos de que no futebol a palavra não chega.

Ou então O Jogo está simplesmente mal informado e está tudo tratado, a tempo e horas. Isso. 

PS: Uma declaração de Petr Cech, guarda-redes do Arsenal, que vale a pena afixar. «Quando José Mourinho chegou ao Chelsea proveniente do FC Porto, ele trouxe com ele uma coisa essencial: veio de um clube onde não era aceitável para ele terminar o Campeonato em segundo lugar. Ele trouxe o mesmo espírito para o Chelsea». 

O Chelsea, um dos clubes mais poderosos do futebol atual, tomou como exemplo para crescer o FC Porto. Não é necessário acrescentar mais nada. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Os Pentas: Agosto de 2017

Uma nova rúbrica de análise n'O Tribunal do Dragão, à qual chamaremos «Os Pentas». Mensalmente, serão destacados os cinco melhores jogadores do último mês. Este tipo de comentários são, naturalmente, muito convidativos a diferentes interpretações e opiniões, por isso é natural que o top 5 mude de adepto para adepto. São sempre convidados a defender o contrário na caixa de comentários e em participar na sondagem, que inclui uma pré-seleção de 10 jogadores e dos quais poderão escolher cinco. 

5. Yacine Brahimi

Terminou o mês de agosto com apenas um golo, mas tem sido o denominador comum na hora de criar desequilíbrios, sobretudo pela forma como ataca a partir do lado esquerdo. Brahimi continua a destacar-se sobretudo no momento individual (é o principal driblador da Liga, com uma eficácia de 6 lances/jogo, mais do dobro de Gelson Martins), mas também já provou saber integrar-se na manobra coletiva da equipa, tanto que, por exemplo, na goleada ao Estoril fez mais passes do que Danilo Pereira, por norma o dominador neste capítulo. É o jogador com mais situações de 1x1 ganhas no campeonato, com um total de 36. A palavra-chave: desequilíbrio

4. Óliver Torres

Óliver é elegante e inteligente a jogar, mas na última época teve um problema: estava sempre demasiado longe de zonas de decisão, quer para o remate, quer para o último passe. Prova disso é que na temporada passada fez apenas três assistências para golo - tantas quanto já conseguiu fazer esta época. A estratégia de Sérgio Conceição exige um enorme desgaste de Óliver, mas acentua e explora todas as suas qualidades. Óliver dá amplitude ao jogo do FC Porto (é o 2º atleta da Liga que mais passes longos completa), e há um dado que explica porquê: na época passada, o passe médio de Óliver era de 18 metros; esta temporada, é de 22 metros. Isso também implica uma menor eficácia de passe (82%), mas Óliver tem sido fundamental na organização e dinâmica na equipa. A palavra-chave: maestro

3. Aboubakar

É o responsável direto por metade dos pontos já conquistados pelo FC Porto. Fez o golo da vitória em Tondela e um hat-trick na receção ao Moreirense. Não é o avançado mais eficaz que se pode ter (é o mais rematador da Liga, com 5,8 remates/jogo), mas enquadrou-se na perfeição na equipa, com um trabalho importante longe da grande área sem deixar nunca de ser referência no eixo - é o jogador com mais situações de remate na grande área no campeonato. Tem que melhorar o seu jogo de costas para a baliza e ser mais objetivo no 1x1, mas Aboubakar arrancou a época sendo decisivo. A palavra-chave: golos

2. Alex Telles

Correr, cruzar, correr, cruzar, correr, cruzar. Alex Telles tem desempenhado com grande distinção a missão que Sérgio Conceição tem para ele nesta equipa. Responsável por assegurar a profundidade no flanco, é o jogador que mais cruza no campeonato (4,3/jogo), o que mais situações de golo cria (3,3) e consegue isso mantendo uma notável eficácia de passe (90%). E apesar da preponderância ofensiva, defensivamente foi sempre capaz de ser eficaz, embora as ideias de Sérgio Conceição façam dele um jogador que vai alinhar sempre com a bandeja nos braços. A palavra-chave: municiador.

1. Iván Marcano

O FC Porto ainda não sofreu golos esta época, e muito o deve à forma como Marcano se reafirma como o patrão da defesa e um dos improváveis líderes de balneário. Marcou um golo no último mês, mas é naturalmente pelo que faz na defesa que se destaca. É o jogador que mais lances de cabeça ganha no Campeonato (na defesa ainda não perdeu nenhum, com eficácia de 100% em 14 situações), o que mais desarmes faz e sofreu o triplo das faltas que cometeu até ao momento (apenas duas). Não só o melhor central do Campeonato, é um elemento preponderante em toda a linha no FC Porto, com desempenhos irrepreensíveis na missão de não sofrer golos. A palavra-chave: líder


Os MVPs escolhidos pelos adeptos em agosto:

1.ª jornada (FC Porto x Estoril, 4x0): Óliver Torres, 64%
2.ª jornada (Tondela x FC Porto, 0x1): Jesús Corona, 41%
3.ª jornada (FC Porto x Moreirense, 3x0): Aboubakar, 92%
4.ª jornada (SC Braga x FC Porto, 0x1): Danilo Pereira, 44%

Os Pentas de Agosto/2017 segundo os leitores: 

1. Vincent Aboubakar, 77%
2. Óliver Torres, 72%
3. Iván Marcanio, 64%
4. Yacine Brahimi, 61%
5. Danilo Pereira, 42%

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ideias firmes


Minuto 31: Soares lesiona-se, olha-se para o banco e sobra uma única solução para o ataque - Marega. O que fazer? O mais natural - leia-se, o que a maioria dos treinadores possivelmente faria - talvez teria sido lançar Otávio, recuperar o plano B da pré-época e colocá-lo nas costas de Aboubakar. Que fez Sérgio Conceição? Deu a maior prova da existência de um coletivo e de uma ideia de jogos fortes.

Sérgio Conceição não rasgou os planos da equipa por causa de um jogador. Lesionou-se um avançado, lançou o único que restava. Desde o minuto em que Marega entrou em campo, não se cansou de berrar e de dar indicações sobre a função que tinha que fazer - jogar sobre a meia direita do ataque, o que Soares estava a fazer. O que estava em causa não era o jogador em campo: era a função do atleta naquela posição. 

A equipa manteve a identidade e os valores em que passou a acreditar durante a pré-época - e Sérgio Conceição fê-lo mesmo recorrendo a um jogador que, sejamos francos, só foi integrado nos trabalhos de pré-época perante a inexistência de reforços. Assim se demonstra que a equipa está criada: agora só falta saber quem são os jogadores. Não houve Soares, houve Marega. Houve FC Porto.





Serviço de bandeja (+) - Aboubakar rematou nove vezes. A história da eficácia não foi a melhor para contar, mas destaca-se isto: oito desses remates aconteceram na grande área. Que diz isto? Que as bolas chegam à grande área, onde até um ponta-de-lança como Aboubakar, que não é particularmente forte no jogo aéreo, encontra oportunidades para atirar à baliza. Aboubakar esteve mais tempo longe da grande área, mas perante o caudal ofensivo da equipa, Brahimi, Óliver e companhia tiveram sempre gente na grande área, pronta para rematar. O 3x0 é também um bom exemplo disso, em que até Marega conseguiu encontrar o seu espaço para fazer um bom golo. E mesmo com Sérgio Conceição a apostar em Soares/Marega para jogarem no lado direito, mais longe da grande área, nunca faltou presença na grande área. Jogando assim, há-de sempre haver uma bola que acaba lá dentro, seja como for. 

Brahimi (+) - Isto de ter Brahimi logo à primeira jornada parece mesmo ser boa ideia. Nem sempre bem sucedido no drible e nas incursões pelo meio, mas foi sempre o principal agitador do FC Porto, não deixando nunca de ser solicitado na construção da equipa - prova disso é que fez mais passes do que o próprio Danilo Pereira, que em 2016-17 era quase sempre o elemento com mais passes da equipa. Fez um golo, criou várias jogadas de perigo e mostrou que o seu talento não ter que ser refém de disciplina tática num esquema com dois avançados. Ele e Conceição.

Óliver Torres (+) - Depois de uma época em que Óliver esteve sempre longe de zonas de decisão, arranca com duas assistências e não se intimidou nesta nova função, que o deixa mais «exposto» no meio-campo. O jogo passa sempre por ele e com ele há sempre uma solução, como uma bússola que mete tudo a funcionar à sua volta. Está lançado para uma boa época.


Iván Marcano (+) - Não houve muito para fazer na defesa (ainda que Iker não deixasse de ter oportunidade para brilhar), mas o que houve Marcano resolveu sem problemas. Só perdeu um lance em toda a partida, sem consequências, e distinguiu-se naquele clássico que inquieta sempre os adeptos do FC Porto: a quantidade de vezes em que vemos o central bater diretamente para a frente. Neste caso, também foi bem sucedido neste capítulo, e ainda foi ao ataque marcar um golo que poderia ter tido o mesmo desfecho de tantos outros no passado - anulado injustamente. Ah. E não é nada pessoal, Iván, mas a braçadeira de capitão do FC Porto combina sempre bem com alguém que partiu ou rachou alguma coisa. À Porto.





A primeira meia hora (-) - O primeiro jogo da épooca é sempre sinónimo de ansiedade e decisões percepitadas. A equipa entrou a querer fazer tudo rápido e tudo bem, e isso traduziu-se em 30 minutos sem lances de perigo, para além de uma ou duas tentativas de Aboubakar (o golo de calcanhar seria de antologia...). Muitos passes errados, cruzamentos mal tirados e alguma confusão na movimentação dos colegas. Erros normais para uma 1.ª jornada, diga-se, mas que têm que ser trabalhados e corrigidos no curto prazo, pois nem todas as equipas serão tão amorfas como este Estoril e nem sempre poderemos contar com um Mano para ajudar. 

Um pequeno pormenor (-) - Por certo já viram muitas vezes um treinador mudar de ideias quanto a uma substituição após haver um golo. Neste caso, vimos Hugo Miguel expor-se ao ridículo de validar uma substituição no FC Porto e só depois recorrer ao VAR para validar o golo de Marcano. Imaginem que estava 0x0, Sérgio Conceição tirava um central para lançar um avançado, e logo a seguir concluía-se que afinal o FC Porto tinha acabado de fazer o 1x0? Absurdo.

Estreia a vencer, goleada, primeiro lugar e uma ideia clara de que temos equipa. Mas se ninguém quiser voltar a cometer os erros de 2013-14, cujo início de época quase justificava um apedrejamento a AVB por ter dispensado Licá da Académica, não custa nada lembrar: faltam reforços. E importa reafirmá-lo agora, pois a partir da 5ª jornada será inútil dizê-lo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

E nada mudou

Antes do Paços x Benfica, o FC Porto estava a um ponto da liderança. Quando acabou o jogo em Paços, passámos a estar a dois. Nada de positivo estava garantido com o empate do Benfica em Paços de Ferreira - pelo contrário, tinham aumentado a vantagem. A euforia precoce paga-se muitas vezes caro. Ou fazíamos o nosso trabalho diante do V. Setúbal, ou nem valia a pena pensar no resultado do Benfica. Não fizemos o nosso trabalho e, assim, fica tudo igual.


Antes desta jornada, o FC Porto sabia que tinha que ir ganhar à Luz para subir à liderança a sete jornadas do final do campeonato. Depois do empate frente ao V. Setúbal, mantém-se tudo igual: temos que ir ganhar à Luz. 

Até à época 2016-17, o FC Porto levava 27 vitórias consecutivas sobre o Vitória de Setúbal. 27. Esta época não ganhou nenhum dos dois jogos. E não é um acaso: este é o mesmo V. Setúbal, com o mesmo anti-jogo e o mesmo Bruno Varela, que ganhou ao Benfica no Bonfim e que foi empatar à Luz. Um jogo é acidente, dois talvez, quatro já formam um padrão: este V. Setúbal é uma equipa talhada para tirar pontos aos candidatos ao título. 

Os adeptos deram tudo à equipa esta semana, desde o apoio no aeroporto até à enchente no Estádio do Dragão. A oportunidade foi desperdiçada e assim se vê o que pode acontecer no espaço de 24 horas, tamanha que foi a inversão de motivação e disposição entre portistas e benfiquistas. Agora, o FC Porto vai ter 90 minutos para tentar mudar o campeonato. Uma oportunidade que pode ser a última e no jogo mais difícil da época, que pode muito bem acabar por ser o rosto da mesma. 




Alex Telles (+) - Subiu, subiu, subiu, cruzou, cruzou, cruzou, lutou, lutou, lutou. Se é certo que tentou invariavelmente o mesmo movimento, não pareceu haver indicações para tentar o contrário. Meteu 18 vezes a bola na grande área, não cometeu erros defensivamente, recuperou oito vezes a posse de bola e foi o jogador mais solicitado em todo o jogo (108 toques na bola, um recorde esta época). Não foi por ele que o FC Porto fez apenas um golo em 180 minutos frente ao V. Setúbal.

Óliver (+/-) - Após uma série de jogos em que o regresso a um esquema com três médios revelou o melhor Óliver da época, o FC Porto regressou ao 4x2x4 e ao limbo que deixa Óliver engolido no meio-campo. Foi demasiadas vezes forçado a recuar para pegar no jogo, faltaram-lhe soluções para a saída curta e, com isso, o FC Porto voltou à insistência em jogar com bola direta. Foi vítima de um esquema que não o favoreceu nem a ele, nem a equipa. Ainda assim, foi dos seus pés que saiu o cruzamento para o golo de Corona e, enquanto resistiu fisicamente, era o único a ter cabeçinha para não se deixar levar pela ansiedade causada pelo empate. 

Iván Marcano (+) - Ninguém gosta de perder no FC Porto, mas Marcano é, provavelmente, o jogador que pior lida com maus resultados neste plantel. É visível a sua expressão de frustração/raiva sempre que a equipa sofre um golo, sempre que uma bola não entra, sempre que a equipa de arbitragem não toma uma decisão justa ou que agrade. Isso, é à Porto. Marcano é o rosto da revolta desta equipa, não só face às circunstâncias que não podemos controlar, como ao que podemos fazer. Quanto ao jogo, Marcano teve um total de 28 ações defensivas em todo o jogo, tendo sido o jogador que recuperou mais vezes a posse de bola (11). E isso quer dizer uma coisa: os médios, desta vez, não foram tão eficazes no momento de recuperação, nem os avançados na pressão à saída do V. Setúbal. Valeu Marcano.




Porquê mudar? (+/-) - Dizer que este empate se deve à mudança de esquema tático de NES é injusto e não faz sentido. Se o FC Porto estivesse em 4x3x3, as bolas de Marcano e André Silva tinham entrado em vez de ir ao poste? João Pinheiro teria assinalado as grandes penalidades sobre André Silva? Felipe não teria escorregado no momento do golo do V. Setúbal? Não, não foi por isso que o FC Porto não ganhou.

Hoje não fez nem jogou menos do que em muitas outras vitórias esta época. A questão é: porquê mudar agora? O FC Porto tinha encontrado um momento de estabilidade, não só tática como emocional, no regresso a um esquema com três médios. As coisas funcionavam. NES poderá ter antecipado um V. Setúbal muito defensivo no Dragão, mas jogar com mais avançados não significa atacar mais nem melhor. 

Se na primeira parte o FC Porto esteve bem, na segunda Bruno Varela, contas feitas, só teve que fazer duas defesas. Apenas duas, num jogo em casa e que valia a subida ao primeiro lugar. O FC Porto não deixou de ter as suas ocasiões: rematou 23 vezes, criou 17 situações de finalização e foi 58 vezes à grande área adversária. Está dentro da média das últimas jornadas em casa. A questão é: porquê mudar agora, quando tudo estava a funcionar? Porquê agora?

Soares à esquerda (-) - O FC Porto tem um problema típico: só podem jogar 11. Mas a tentativa de fazer coexistir Óliver, Corona, Brahimi, André Silva e Soares na mesma equipa tem levado Soares a ser exposto a um trabalho ingrato nos últimos jogos, que não só prejudica o jogador como não beneficia a equipa. Soares tem feito a diferença na grande área, mas hoje esteve constantemente refém do flanco esquerdo, onde invariavelmente ou perdia a bola, ou falhava o passe, não tendo conseguido completar um único drible. Não é culpa do jogador, pois não está a jogar num lugar que favoreça as suas caraterísticas. Nem o FC Porto está a ser favorecido com esta insistência. Soares tem que estar na grande área pronto para receber, não recuado para ajudar a bola a chegar à grande área.

Pânico (-) - Aconteceu o que não podia ter acontecido: o FC Porto perdeu a calma, perdeu a paciência, deixou-se vencer pela ansiedade de ver os minutos passarem e o 1x1 resistir. Isso levou a que, na segunda parte, a equipa tenha jogado muito menos do que na primeira. Menos objetividade, menos critério, e uma ideia clara que o FC Porto não estava preparado para reagir à adversidade de ver o tempo passar.

O exemplo da utilização de Diogo Jota é sugestivo. Jota entrou para o lugar de Corona, para jogar na zona interior do lado direito, dar velocidade e objetividade ao ataque. Mas passados 14 minutos, foi mandado jogar a lateral-direito. E de repente, Depoitre, que não era opção desde 3 de janeiro, é lançado em desespero para tentar apanhar uma bola na grande área. Foram momentos em que o FC Porto perdeu a calma, perdeu a objetividade, perdeu a identidade e deixou-se levar pelo desespero de meter a bola na grande área e esperar que alguém lá chegasse. 

Uma jornada que não mudou o que estava previsto há uma semana atrás: é preciso tentar ir ganhar à Luz. Se deixou ou não marcas na equipa, o clássico será uma boa oportunidade para responder a isso.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Derby à moda do Porto

Estas sabem melhor do que qualquer recital que termine em goleada. Um derby no verdadeiro sentido da palavra. A raça, a garra e o crer a terem que se sobrepor à qualidade durante grande parte do jogo. A motivação e determinação que crescem à medida que o campo inclina, com o patrocínio do jovem árbitro a quem um dia chamámos «um wonderboy apropriado para Maxi Pereira» - e que agora ironicamente o expulsou.

Boavista, aquele Boavista de que tanto gostamos: sarrafeiros, sujos, a olharem para nós como se tivessemos canela até ao pescoço. Esta é a imagem de marca do Boavista nos derbys. E que gozo nos dá vencê-los após estas circunstâncias. Não imaginamos um Boavista de nenhuma outra forma. Ajudam a apimentar os derbys desta forma, diga-se. 

Este tipo de jogos só servem para enrijecer os jogadores. Não viram ninguém a encolher-se, a tirar o pé, a deixar-se afetar pela pressão. Pelo contrário: foi uma prova cabal do espírito deste grupo de trabalho, que teve como consequência uma boa vitória.




Óliver e o golo (+) - Tão simples, tão difícil, tão bom: toda a inteligência de Óliver neste lance, mas também um exemplo de como toda a equipa foi capaz de estar bem colocada nesta jogada. É Marcano, longe de grande área, que vai junto à linha obrigar a puxar o lateral-esquerdo. Com isso, abriu-se um enorme espaço na zona interior para Corona - que está sempre em posição regular pois Brahimi e Soares estão a empurrar a linha defensiva. O passe de Óliver é sublime, pois foi capaz de esperar pelo melhor momento para aproveitar a melhor solução. O seu passe deixa para trás 3 jogadores do Boavista e coloca Corona numa posição perfeita para cruzar. Nuno pode imaginar mil e uma formas para o FC Porto jogar, mas pode ter a certeza de uma coisa: Óliver e mais 10. E com Óliver em campo, quem está à sua volta jogará sempre melhor.

As zonas de ação de Óliver contra o Boavista
A partir daqui, o cruzamento de Corona foi perfeito, a fazer a bola cair entre o guarda-redes e o último defesa, para Soares aparecer. E este não é um golo em que era preciso encostar: Soares está sozinho na grande área. Corona só o tinha a ele para finalizar. A bola foi lá direitinha, mas Soares soube atacar o espaço certo - Brahimi já estava, também ele muito bem, pronto para a segunda bola nas costas. Um excelente golo, e com uma boa jogada ganhou-se o derby.


Iván Marcano (+) -  O Boavista teve quatro tentativas de remate à baliza: duas foram defendidas por Casillas... e as outras foram cortadas por Marcano. Continua numa forma irrepreensível: o seu sentido posicional é simplesmente perfeito. Tem estado sempre bem colocado, chega a todas as bolas, voltou a ganhar todos os lances pelo ar e ajudou a que Boly também fizesse um jogo positivo. Um percurso à Pedro Emanuel: chega ao FC Porto numa idade já avançada, sem que dêem muito por ele, começa de forma algo intermitente na equipa, agarra o lugar e torna-se indiscutível não só pela sua qualidade, mas pela forma como personifica tudo o que os adeptos querem ver num central. Se quiser bater um penaltyzinho decisivo, a malta também agradece. 

Brahimi (+) - Brahimi completou 10 dribles durante a partida - a equipa toda do Boavista teve 9 e os jogadores do meio-campo para a frente do FC Porto também 9. Isto mostra bem a influência e o que distingue Brahimi. Mas não são fintas inconsequentes, ou voltas de 360º: Brahimi vai para cima dos defesas com objetividade, a partir do lado esquerdo, descompõe toda a defesa adversária e tentou sempre servir os colegas - não rematou nenhuma vez, algo que também lhe faltou, pois andou sempre à procura de alguém na grande área. Como é que conseguimos chegar até meio da época sem tirar proveito do seu talento, e mantendo-se na luta pelo título, será sempre um mistério.

A corrida de NES (+) - O melhor momento de Nuno Espírito Santo ao serviço do FC Porto: a forma como se impôs, de imediato, na defesa a um dos seus. Corona foi anjinho, podia ter ali arranjado sarilhos dos grandes (Talocha devia ter sido expulso, mas Corona podia ter prejudicado toda a equipa por ter reagido a quente - e acabou por estar na origem da expulsão do treinador), mas foi muito bom ver NES a reagir, de pronto, na defesa a um dos seus jogadores. Treinador que esteja sempre na linha da frente na defesa ao seu plantel, independentemente de todas as limitações táticas, terá sempre apreço pela sua liderança. Um gesto que valeu mais do que 50 conferências de imprensa monocórdicas e politicamente corretas. NES foi mais Porto naquele sprint do que em 70 repetições de «Somos Porto» ou «o Dragão é a nossa fortaleza». Um gesto vale mais do que mil palavras. 




A rever (-) - Brahimi estava a ser forte nos movimentos interiores - e com isso, ia abrir-se espaço do lado esquerdo. Normalmente, essa lacuna é preenchida com a subida do lateral-esquerdo. Mas o que vimos foi que Soares passou a maior parte do jogo encostado ao lado esquerdo. Uma vez mais, isso é expor Soares a um trabalho que não deveria ser o seu. Esse desvio de posição fez dele o jogador com mais perdas de bola e com apenas um lance ganho em 1x1 entre os 14 que tentou disputar.

Soares está de pé quente, tem que ser aproveitado na grande área. A primeira e única bola que lhe deram deu em golo. Estar sucessivamente encostado ao flanco acaba por o prejudicar, embora seja nítido, desde o início da época, que NES vai sempre pedir isso ao seus avançados. Soares está a superar as expetativas neste seu arranque no FC Porto, mas se querem fazer dele o que não é, isso acabará por prejudicar o jogador. Entre os 14 golos de Soares na Liga, 13 foram marcados no enquadramento entre a marca de penalty e a baliza (a exceção foi o golo ao Tondela). Junto ao flanco, está a ser o jogador com mais perdas de bola. Quanto mais perto estiver da grande área, melhor. 

Ainda neste âmbito, o FC Porto perdeu muito na segunda parte com a saída de Corona. Pois Corona estava a conseguir dar muita largura do lado direito. Com a entrada de Jota, o FC Porto afunilou demasiado o seu jogo - forçou Maxi Pereira a subir mais vezes e a falta de pernas fez-se notar na segunda parte. É certo que o FC Porto não tem outro extremo direito no plantel, não com as caraterísticas de Corona, mas era necessário procurar dar maior largura naquela fase.

Além disso, houve pouca gente a chegar a zonas de finalização. Entre os médios do FC Porto, só houve um toque na grande área adversária, de Óliver. Os três médios passaram a maior parte do jogo atrás da linha de meio-campo (André André começou por pressionar muito à frente, mas adiantava-se apenas no momento defensivo, deixando sempre um vazio que só Brahimi preenchia com os movimentos interiores). Corona e Brahimi não remataram nenhuma vez, o que mostra que o FC Porto, apesar de ter tido boas oportunidades, meteu pouca gente em zonas de finalização e faltou mais gente a rematar.

O Boavista, aliás, foi mais vezes à grande área do FC Porto do que o contrário - ainda que tenha criado menos lances de perigo, mas Casillas revelou-se, uma vez mais, decisivo no pouco que teve que fazer. Num derby, sobretudo jogado da forma a que o Boavista obrigou, é sempre complicado e o que importa é vencer. Mas vêm aí jogos em que a raça, o crer e a determinação não vão chegar. Não é preciso muito: basta multiplicar aqueles 15 minutos iniciais. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Lógica por linhas tortas

Há dias em que o futebol tem lógica. A Juventus é pentacampeã italiana e vai a caminho de um inédito hexa, o que mostra bem que estão numa das melhores fases da história do clube. Só o que Pjanic e Higuaín custaram paga todo o plantel do FC Porto. A Juventus tem um dos melhores plantéis da Europa, com o equilíbrio perfeito entre experiência, maturidade e talento. São técnica e taticamente muito superiores ao FC Porto. Posto isto, a única surpresa para esta eliminatória será a Juventus não passar. Tal como ontem a surpresa seria a Juventus não se impor no Dragão.


Há dias em que o futebol tem lógica. A Juventus é melhor, foi melhor e ganhou o jogo. Não há portista que não entre numa eliminatória destas sem uma pontinha de esperança em vergar a lógica. Foi graças a essa atitude que Viena e Gelsenkirchen, ou Sevilha e Dublin, ou até Tóquio não são apenas nomes de cidades para nós. Mas os argumentos da Juventus são imensamente superiores, a todos os níveis.

Na Liga dos Campeões, o FC Porto já cumpriu os seus objetivos, com uma dose de felicidade já bem generosa: as três expulsões contra a Roma (agora provámos o efeito contrário) e o penalty em Brugge que pode muito bem ter invertido o rumo da fase de grupos. Sem estas incidências nestes dois jogos podíamos nem ter chegado a esta eliminatória contra a Juventus. Isso sim seria preocupante, pois passar a fase de grupos era um objetivo e uma necessidade. A partir daqui, ou se contraria toda a lógica e expetativas, ou acontece o que aconteceu no Dragão: o testemunho de uma equipa superior.

Ninguém pode exigir aos jogadores ou a Nuno Espírito Santo que eliminem uma das melhores Juventus da história. Muito menos quando, ainda há bem pouco tempo, o FC Porto atravessava reconhecidamente uma das fases mais negativas da história do clube. Estes opostos dificilmente terminarão com a eliminatória em festa.

Antes de defrontar a Juventus, o FC Porto tinha que ganhar ao Boavista. Continua a ter que fazê-lo. Não há que pensar em Turim mas sim nos 9 pontos que têm que ser feitos contra Boavista, Nacional e Arouca. A nossa luta é esta e já vai dar trabalho de sobra. 




A organização defensiva (+) - É o único traço verdadeiramente positivo da identidade da equipa esta época. Raramente apanham o FC Porto num momento de descompensação defensiva. Mesmo com dez, a Juventus poucas vezes entrou no último terço em superioridade, as tabelas poucas vezes tiveram consequência e Felipe (muito bem no jogo aéreo) e Marcano foram ótimos na missão possível: afastar a bola da grande área. Quanto à organização defensiva, só se pode elogiar Nuno Espírito Santo. E depois podem puxar pela memória e lembrar-se da última vez que disseram isto: «Naquele ano ganhámos o campeonato porque defendíamos muito bem». Pois.


Brahimi (+) - Do meio-campo para a frente, tudo o que de bom pudesse acontecer teria que nascer dos pés de Brahimi. Foi ele o único a tentar algo enquanto esteve em campo: seis dribles em progressão, nove duelos ganhos, um dos três remates do FC Porto (nenhum à baliza) e o único capaz de mostrar alguma habilidade na procura da baliza da Juventus. Com a sua saída desapareceram de campo as únicas ideias do FC Porto para tentar chegar ao golo. 

Herrera (+/-) - Não pela exibição, mas por aquela velha frase de que uma imagem vale mais do que mil palavras. O estado do pé de Herrera é sugestivo. Não o viram a queixar-se, não pediu para sair. Aguentou, não virou a cara à luta e honrou a braçadeira de capitão que tinha no braço pela sua atitude. Também é por isso que é capitão: um estatuto que tem que ser reconhecido e compreendido pelo treinador e pelos colegas, não pelos adeptos. Quem acha que esta atitude não é significativa talvez tenha o cérebro em pior estado do que o pé de Herrera. 




A ausência de Óliver (-) - Esta Juventus tem um rosto: Pjanic. Que delícia é vê-lo jogar. Todo o futebol da Juve passa por ele: seja no passe curto, na progressão, na variação de flanco ou no momento de esticar o jogo. Sem Pjanic, esta Juventus não seria a mesma. Uma espécie de FC Porto sem... Óliver.

Não havia ponta de fio de jogo no FC Porto do meio-campo para a frente, mesmo antes da expulsão de Alex. Ninguém a saber tratar a bola, a perceber o momento para a soltar, para apoiar, para solicitar os colegas. Nada. Ou Brahimi ia para cima dos defesas, ou nada acontecia. Não houve um único passe nos últimos 35 metros para situação de finalização - o mais próximo disso foi o cruzamento de Layún para Herrera. Nada. Não iam ser Danilo, Rúben ou Herrera a consegui-lo. E mesmo que André Silva tivesse continuado com Soares na frente, dificilmente haveria capacidade para imaginar uma jogada que desmontasse a organização defensiva da Juve.

Percebe-se a intenção de NES: quis jogar para o 0x0 e esperar que, em Turim, o FC Porto tivesse o espaço desejado para as transições rápidas e explorar o espaço em profundidade. Mas podem contar pelos dedos das mãos as vezes em que apanham a defesa da Juve em contra-pé, seja no modelo em que jogaram ontem, seja no esquema de três centrais. Não funcionou. 

O FC Porto anunciou a compra do passe de Óliver a 9 de fevereiro. Desde então foi três vezes para o banco, e ontem nem de lá saiu. Dá para compreender esta gestão de recursos? A SAD anuncia a compra do ativo mais caro da história do clube (a par de Imbula), e logo a seguir Óliver deixa de contar como titular para NES? Querer encontrar a melhor versão desde FC Porto sem Óliver é algo que nunca baterá certo. 

O abandono a Soares (-) - Soares estava a fazer a sua estreia na Liga dos Campeões. Há confiança pelos golos que marcou recentemente, mas ter que jogar contra Chiellini e Barzagli é um pouco diferente do Campeonato português. No momento da expulsão de Alex Telles, a decisão seria sempre difícil para NES. Saiu André Silva, mas a forma como Soares ficou completamente desamparado no ataque foi deveras preocupante. Pediram-lhe o impossível. Soares não seria nunca uma solução para jogar em profundidade, o que já retirou metros à equipa. Houve uma clara tentativa de colocar Soares a segurar a bola, mas depois o apoio nunca chegava. Isso fez com que Soares fosse o jogador com mais perdas de bola em campo, só tivesse arrancado 2 faltas (crítica extensível a toda a equipa - com 10, o FC Porto tinha que procurar os lances de bola parada), não tenha ganho nenhum lance de 1x1 e nem um esboço de remate para amostra. Sem culpas no cartório: Soares ficou sozinho no ataque para tentar ser o que não é. É mais um ajudar, mas não alguém que vai resolver tudo sozinho. Não é Hulk, é Soares. Não queiram fazer dele um salvador da pátria. O resultado esteve à vista: Casillas levou para casa uma camisola de Buffon sem pinga de suor.

Uma noite má (-) - Todos os jogadores têm noites más. E se calhar foi melhor tê-la contra a Juventus do que contra o Boavista. Mas algo se passou com Alex Telles, que fez 27 minutos irreconhecíveis para um jogador da sua já demonstrada valia. 8 perdas de bola, 7 passes falhados, 3 faltas e uma única chegada aos últimos 30 metros. Foi mau, ele sabe que foi mau, mas há que assumir que foi apenas isso: uma noite má, como calha a todos. Uma reação contra o Boavista será bem vinda, Alex. O outro Alex, que estava do outro lado, andou meses a ouvir coisas bem menos simpáticas nos seus primeiros tempos no FC Porto. 

Faltam 12 jornadas para o final do campeonato e é nelas que o FC Porto tem que pensar. Talvez nem o melhor FC Porto chegaria para bater esta Juventus. Mas no Campeonato português, mesmo sem o melhor FC Porto, estamos na luta e a depender de nós próprio. Talvez mais «apesar de» do que «graças a», mas as contas do campeonato são as mesmas: dependemos de nós próprios para chegar ao título. E não há o risco de aparecer nenhuma Juventus pelo caminho.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Identidade alternativa

No início da época, Nuno Espírito Santo disse à revista Dragões que queria uma equipa construída em dois princípios: a) «pressão intensa para recuperar a bola»; b) «chegar o mais rapidamente possível a zonas onde podemos transformar essa posse em golo».

Em Guimarães, ficou patente que já não é defeito, é feitio: o FC Porto desistiu de ser uma equipa que assume o jogo em posse, que constrói, que trabalha para abrir o espaço. Estamos em fevereiro, e não é nos últimos três meses da época que isso vai mudar. 

O FC Porto mostrou-se, em Guimarães, uma equipa forte e preparada na pressão ao adversário, capaz de matar a esmagadora maioria das jogadas de ataque antes dos últimos 25 metros. Uma equipa muito organizada e fiável na pressão defensiva. Para recuperar a bola e suster o adversário, excelente. O problema aparece depois: quando é preciso fazer alguma coisa com a bola. 


Foi a 5ª vitória consecutiva e o superar de um ciclo de jogos extremamente complicado, num período que coincide com um divórcio da posse de bola: 46% frente ao Rio Ave, 52% frente ao Estoril, 34% contra o Sporting e 42% em Guimarães. Não há comparação com as 4 primeiras jornadas do campeonato, no qual o FC Porto teve 60% contra o Rio Ave, 66% frente ao Estoril, 45% em Alvalade e 55% contra o Vitória de Guimarães.

O FC Porto não deixou o Vitória de Guimarães fazer quase nada durante os 90 minutos (a única defesa de Casillas foi a um remate em posição irregular) e voltou a ser muito oportuno no ataque, conseguindo muito com pouco: Soares aproveitou a única oportunidade que os avançados tiveram até à entrada de Diogo Jota e o mesmo Jota, com a ajuda de Alex Telles, aproveitou um erro de Douglas. 

O fato de macaco não ganha concursos de estética, mas mantém o FC Porto na luta pelo título. 




Matar a jogada (+/-) - Com as saídas de Óliver e Corona, o FC Porto jogou com um único criativo em campo: Brahimi. O resto da equipa dividiu-se na missão de matar cedo os ataques do Vitória de Guimarães, pressionando e tentando depois meter rapidamente a bola em Soares ou André Silva. Havia três vias para atacar: ou Brahimi pegava no jogo a partir do lado esquerdo; ou Alex/Maxi conseguia subir e o FC Porto aproveitava a profundidade; ou então era chutão direto para Soares ou André Silva. A construir, o FC Porto poucas vezes conseguiu jogadas de perigo, mas o pragmatismo e a forma como não se deixou o Vit. Guimarães avançar esteve lá. Atentos a este pormenor:


Estas foram as zonas em que o FC Porto fez faltas. Ou seja, nenhuma nos últimos 25 metros, o que mostra que o FC Porto nunca teve problemas em matar a jogada mais à frente. Daí que toda a defesa do FC Porto, Danilo incluído, só tenha feito 3 faltas em todo o jogo: porque do meio-campo para a frente formou-se uma barreira de combate que meteu o pé, o corpo, foi de carrinho, foi pelo ar e varreu quase todos os lances em que o V. Guimarães saía com perigo. Só Brahimi e Soares fizeram 11 faltas: e não foram momentos de antidesportivismo, mas sim de raça na pressão sobre o adversário. Ninguém se importou em jogar feio para servir um propósito maior: ganhar.

Iván Marcano (+) - Absolutamente imperial. Ganhou 100% dos tackles e lances aéreos, teve 12 ações defensivas (o mais interventivo em campo), bloqueou um remate e ainda foi ao ataque criar uma situação de golo. Se pouco se viu do V. Guimarães no ataque, foi muito por culpa dele. Uma exibição irrepreensível de um senhor jogador.


Alex Telles (+) - A quantidade de vezes em que lhe era pedido para meter a bola em profundidade faz com que seja o jogador com mais perdas de bola e passes errados em campo. Mas é injusto avaliar por esse prisma: Alex Telles segue a estratégia da equipa. Quando pôde subir pelo flanco, indo à linha em vez de fazer logo um balão de 40 metros para o ataque, fez a diferença: é dele o cruzamento para o 1x0 e a assistência, com toda a calma e inteligência do mundo, para Diogo Jota matar o jogo. Pensar numa dinâmica que permita a Alex Telles subir em vez de mandar o balão para a frente não era mal pensado: sem isso o FC Porto dificilmente venceria em Guimarães. 

A entrada de Diogo Jota (+) - Sozinho, fez mais remates à baliza do que todos os companheiros, o que diz tudo sobre a forma como a sua entrada agitou o jogo. Entrou numa fase em que o V. Guimarães já estava mais adiantado, o que abriu mais espaço para o FC Porto entrar em transição rápida. André Silva e Soares só tinham conseguido 2 remates e quatro toques na grande área adversária (dois deles no lance do 1x0), essencialmente porque não eram servidos. Diogo Jota, com a sua velocidade e objetividade, conseguiu sozinho - depois com a ajuda de Alex Telles - semear o pânico na defesa do V. Guimarães. Pode só ter mais 3 meses de FC Porto pela frente: se for sempre assim, deixará todos a suspirar por mais.




Desapoiados (-) - Um pouco ao início do que já foi referido: o FC Porto esteve bem a recuperar a bola. O problema aparecia depois de recuperar a bola: e agora, o que se faz com ela? A primeira parte foi particularmente sofrível neste aspeto. Soares e André Silva tiveram que inventar, entre eles, com ajuda de Alex Telles e Herrera, praticamente a única ocasião de perigo do primeiro tempo, onde o FC Porto poucas vezes foi à grande área adversária (seis, contra 14 do V. Guimarães).

Com pouca profundidade nos flancos (a não ser quando Maxi e Alex conseguiam subir - fizeram 6 dos 7 cruzamentos do FC Porto), Soares e André Silva raramente foram servidos na grande área. Depois, no meio-campo, não havia ninguém para o último passe em zonas interiores - ainda que Herrera tenha feito a diferença no lance do 1x0, ao ajudar a povoar a grande área. O único momento em que o FC Porto desequilibrava era quando Brahimi pegava na bola do lado esquerdo. 

O FC Porto esteve muito bem montado para o momento de recuperação, mas depois falta algo: o momento de construção. Uma estratégia que não surpreenderia, por exemplo, para uma eliminatória com a Juventus, mas que é incomum numa equipa a jogar para o título em Portugal. Nem sempre poderemos contar com o ressalto ou a bola perdida. Contra o Tondela, dentro de uma semana, espera-se um bocado mais - a garra só ganha campeonatos se vier acompanhada de qualidade.