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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Elefantes na sala da família

A FIFA deu razão ao FC Porto no caso Caballero. Foi um advogado do jogador, Fernando Villa, a revelar o desfecho do processo. E fê-lo com uma frase que desperta algumas questões.

«En la mañana de hoy recibimos la notificación de la FIFA. La demanda de Libertad fue rechazada, Maurito Caballero con el Oporto como jugador libre».

Ora segundo o advogado, Caballero chegou ao FC Porto livre de contrato com qualquer outro clube. E é aqui que começam as questões. Se Caballero era um jogador livre, por que é que a SAD pagou 1,53 milhões de euros, na época desportiva 2012/13, à sociedade MHD, S.A.? Curiosamente, esta era praticamente a quantia que o Libertad exigia ao FC Porto pela transferência de Caballero.


Mas outro dos advogados de Caballero disse, há 3 anos, que o FC Porto só teria a pagar 365 mil euros por direitos de formação. Então, porquê estes 1,53M€ pagos a outra daquelas empresas? - o Google ajuda como pode e diz-nos que a MHD é provavelmente um escritório situado em Chardonne, na Suíça.

Um jogador «livre»
De facto, poderia dar-se o caso do Libertad ter apenas em sua posse os direitos desportivos (o direito de inscrição, que só um clube pode ter) e os direitos económicos pertencerem a terceiros. Mas o Libertad alegava que não era o caso, que Caballero era jogador deles. O Libertad não poderia alegar o direito a receber dinheiro pela transferência se não tivesse direitos económicos do jovem paraguaio, que foi despachado para o Liechtenstein.

Assim sendo, e repetindo, se a FIFA diz que o Caballero era um jogador livre, por que é que se pagou 1,53M€ por ele a uma empresa da qual nada se sabe? Faz lembrar o caso de Kayembé, que tinha acabado contrato com o Standard Liège e cujo custo já vai em 3,165M€. Demagogia, dirão alguns, mas estes 4,7M€ pagos por dois miúdos que estavam livres já davam para comprar um central jeitosito...

Curiosamente, o Football Leaks chegou a divulgar um contrato de acordo entre o FC Porto e Ricardo Rivera, de janeiro de 2013, que trazia informações diversas sobre o negócio. Mas o mesmo não foi analisado, pois faltavam as assinaturas que validariam o documento, que também não estava timbrado. 

Entre as diversas cláusulas que estavam previstas: o FC Porto pagaria 30% da mais-valia futura de Caballero acima de 2M€ ao seu agente; o FC Porto inicialmente não ficaria com 100% do passe, mas teria opções de compra progressivas, por valores assustadores: mais 10% por 2M€; se Caballero fizesse 20 jogos pela equipa A, mais 10% por 2M€; por mais 20 jogos, mais 2M€ por 10%. Ou seja, só por 30% do passe, Caballero custaria 6M€. Felizmente, até onde se sabe, não se seguiu por esta via. Das duas, uma: ou o agente era louco por apresentar uma proposta assim ao FC Porto, ou então achava que havia duas pessoas loucas o suficiente para assinar este acordo na SAD do FC Porto.

Mas este documento mostrou também o envolvimento da Northfields Sports BV, uma empresa que se sabe ser ligada a Marcelo Simonian, empresário próximo de Antero Henrique para diversos negócios na América do Sul, desde Lucho González a Víctor García. Empresa essa que está diretamente associada a uma novidade que hoje se conhece. 



O R&C do primeiro trimestre mostrou que o FC Porto pagou uma mais-valia sobre Jackson Martínez à Northfields Sports BV, cerca de 2M€, sem se perceber porquê. A SAD sempre declarou ter 100% dos direitos económicos de Jackson Martínez, até que depois de Jackson ter renovado a SAD atribuiu 5% da futura transferência ao felizardo Henrique Pompeo - que depois andou a ameaçar publicamente o FC Porto pelo impasse nas negociações com o Atlético.

Mas o Football Leaks mostrou hoje uma carta enviada por um representante da Northfields Sports à SAD, a 14 de julho de 2015, a notificar o FC Porto para o pagar de 10% da mais-valia acima de 9,57M€ (Jackson Martínez tinha custado, no total, 9,63M€ - 8,887M€ por 100% do passe e 750 mil euros de encargos). E na carta é dito que este acordo foi celebrado a 15 de julho de... 2012. Ou seja, uma semana depois de Jackson Martínez ter sido contratado ao Jaguares. Se o negócio com o Jaguares foi fechado a 7 de julho, porquê a celebração deste acordo para cedência de uma mais-valia de 10% uma semana depois? Os documentos também mostram o que se suspeitava: o Atlético não bateu a cláusula de rescisão de Jackson; pagou, isso sim, os 35M€ numa só tranche. São coisas diferentes, pois se o Atlético tivesse batido a cláusula o FC Porto não teria que pagar mecanismos de solidariedade, nem comissões à Gestifute (aliás, note-se que o FC Porto, aquando da venda de Jackson, pagou comissões a pelo menos 3 entidades diferentes: Pompeo, Gestifute e Northfields Sports. Que trabalheira!).

Entretanto, foi também divulgada a situação da partilha de passes de uma série de atletas do FC Porto na data de encerramento do relatório e contas semestral de 2014-15. Há muitos casos que merecem análise, mas um acima de todos: Rúben Neves. Já tinha sido noticiado, aquando da sua renovação de contrato, que José Caldeira tinha tido intervenção na assinatura do novo acordo. Mas não nos termos que o Football Leaks dá a conhecer - e que o FC Porto está, desde o primeiro dia, à vontade para desmentir.

A renovação de Rúben Neves
A SAD cedeu 5% do passe de Rúben Neves a José Caldeira pela renovação de contrato. O curioso é que na altura foi noticiado que foi a Unifoot a surgir no papel de intermediária, mas não, terá sido outra empresa ligada a Caldeira, a Prestige Sports. E aqui se levantam questões: porquê ceder 5% do passe do nosso maior valor da formação numa renovação de contrato?

Alguém imagina que foi Rúben Neves a sentar-se à mesa na SAD e a fazer a seguinte exigência: «Ora bem eu concordo em renovar contrato, mas quero que o José Caldeira, irmão do administrador da SAD Adelino Caldeira, seja compensado e bem compensado»?. Isto não é uma transferência internacional. Não envolve conversações entre clubes, nem com fundos, nem sequer com partilhas de passes ou múltiplos empresários. Rúben Neves era um atleta da formação do FC Porto, que nem tinha empresário quando assinou o seu primeiro contrato profissional. Então porquê meter José Caldeira no papel de intermediário, se as coisas seriam facilmente resolvidas entre atleta e clube?

5% podem parecer réstias, mas não são. Rúben Neves continua a ser um dos jovens de 18 anos mais promissores do planeta, e não será difícil imaginá-lo a ver ser transferido por 40M€ a médio prazo. Ora 5% de 40M€ são 2 milhões de euros. Dar potenciais 2M€ a um empresário numa renovação de contrato de um jovem de 17 anos é coisa que se calhar nem o Real Madrid ou o Barcelona fazem. É uma renovação, não uma contratação.


Isto já para não falar do eterno possível conflito de interesses. José Caldeira é irmão de Adelino Caldeira, administrador da SAD. Ninguém pode ficar chocado só por este negócio, pois não é um caso isolado. Alexandre Pinto da Costa intermedeia vários negócios do FC Porto, mesmo sem ser o empresário dos jogadores em causa. Afzal, aqui descrito como o ex-cunhado de Antero Henrique, também já fez muitos negócios como intermediário para o FC Porto. E até o genro de Pinto da Costa já foi associado a negociações em nome do FC Porto.

José Peseiro disse hoje que o caso de Maicon vai ser tratado «dentro da família». Ironicamente, parece mesmo que há muitas coisas a ser tratadas em família no FC Porto. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O preço de uma cláusula

Em Imbulição, impunha-se a questão a propósito do comunicado do FC Porto à CMVM sobre a transferência de Jackson Martínez para o Atlético: «Temos só um pequenino problema semântico: «Irá exercer a cláusula de rescisão». Irá, mas quando?»

O R&C anual de 2014-15 revela que o Atlético não pagou, de facto, a cláusula de rescisão de Jackson Martínez no dia em que o FC Porto enviou o comunicado à CMVM. O comunicado do FC Porto já apontava nesse sentido, ao anunciar o «irá exercer». Foi uma informação comunicada já perto da meia-noite, para evitar que a SAD tivesse o segundo ano consecutivo de prejuízos - um saldo negativo acumulado de quase 65M€ em dois anos.

Daí que os 35M€ do Atlético estejam na rúbrica de clientes, em dívida, no final de 2014-15. Note-se que o FC Porto tem a receber quase 60M€ de outros clubes ao longo do exercício 2015-16, inclusive 2M€ da transferência de Souza do São Paulo para o Fenerbahçe. Há ainda a dívida do Fluminense, de 2,125M€, mas que provavelmente não será paga, uma vez que se trata da transferência de Walter. De referir ainda que entre as dívidas não correntes, tirando a transferência de Alex Sandro, só está prevista a entrada, para 2016-17, de 12M€ do Real Madrid (Danilo) e 2,5M€ da Doyen (possivelmente para encaminhar para o Granada, por Brahimi).

Dívidas de outros clubes ao FC Porto durante o período de 2015-16
De volta ao tema inicial, a cláusula de rescisão de Jackson Martínez. O Atlético nunca anunciou o pagamento da cláusula de rescisão. Aliás, o Atlético anunciou isto no seu site: «Atlético de Madrid y Oporto han llegado a un acuerdo para el traspaso de Jackson Martínez a nuestro club». Se o Atlético paga a cláusula de rescisão, não tem que chegar a acordo com ninguém. Tem que depositar o dinheirinho e pronto.

Foi Henrique Pompeu a apresentar a proposta do Atlético, por fax, na condição de procurador. O empresário, que tinha direito a 5% da receita, até fez ameaças públicas ao FC Porto. Se o Atlético apresentasse, de facto, os 35M€ a pronto e Jackson invocasse a rescisão, o FC Porto só tinha era que aceitar.

Apesar das dúvidas que se levantaram sobre se o Atlético paga, ou não, a cláusula de rescisão, no R&C o FC Porto, no ponto (iii) da alínea d) das Alienações, anuncia o pagamento de um valor a Jackson Martínez pela rescisão de contrato. Se se tivesse tratado de uma transferência normal, não haveria motivo nenhum para um pagamento por rescisão ao jogador. Logo pode-se depreender a existência do pagamento da cláusula, possivelmente em julho.

Distribuição de lucro
Por outro lado, o ponto (ii) levanta a maior questão de todas. «Proporção do valor da mais-valia atribuível à Northfields Sports B.V.» Não sendo o valor especificado, entre as quatro alíneas é possível apontar para uma comissão superior a 2M€. O FC Porto comunicou à CMVM que teria que atribuir 5% a Pompeo, mas nunca falou de nenhuma mais-valia a esta empresa sem grande informação pública de Marcelo Simonian. Se o Atlético paga a cláusula, o FC Porto não tem que pagar comissões a ninguém. Se alguém ligado a Jackson as exigia, teria que ser o Atlético de Madrid a pagar. 

Jackson chegou com Manso, passou para Pompeo e agora gera uma comissão, nunca antes especificada, para Simonian? Porquê? A fazer lembrar o caso de Otamendi, jogador que chegou ao FC Porto pelas mãos do referido empresário. A 31-12-2013, o FC Porto tinha 100% do passe de Otamendi. No início de fevereiro vendeu-o ao Valência, por 12M€, e anunciou que deduziu «a proporção no valor de venda do passe detidos por terceiros (10%)». Ou seja, no espaço de um mês, foram subtraídos 10% ao passe de Otamendi. Não se soube por quanto, nem a quem, nem porquê.

A venda de Jackson Martínez, sob qualquer circunstância, foi um excelente negócio financeiro, na medida em que se tratava de um ponta-de-lança já quase com 29 anos, a gerar uma mais-valia superior aos 21/22M€ que eram a base para um bom negócio. Mas se a cláusula de rescisão é paga, não há sentido em que o FC Porto assuma despesas em relação ao negócio. Muito menos de um valor bem considerável, a um empresário que nada tinha a ver com o negócio e numa transferência na qual, supostamente, o dinheiro só teria que cair na conta. As restrições da FIFA para comissões de 3% não servem para nada se depois se andam a atribuir «mais-valias» desta magnitude.

PS: André André e André Silva foram eleitos os melhores jogadores de agosto e setembro dos campeonatos profissionais nacionais. Dois dragões que vão conquistado a pulso, e com extremo mérito, o seu lugar no FC Porto. Parabéns aos dois!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Imbulição

35M€ por 95% do passe
Faltava menos de uma hora para o soar do gongo, mas às 23h04 surgiu o fumo branco na CMVM. O FC Porto vende um ponta-de-lança de quase 29 anos por 35 milhões de euros, uma das mais brilhantes transferências (do ponto de vista financeiro, pois no desportivo deixa um enorme vazio) da história da SAD. Temos só um pequenino problema semântico: «Irá exercer a cláusula de rescisão». Irá, mas quando? Melhor das sortes a Jackson Martínez e que no R&C anual não seja necessário avançar para um Show me the money, parte III.

Esta foi uma época verdadeiramente atípica. Foi necessário avançar para a operação Euroantas para cumprir o fair-play financeiro. Não é dinheiro real, mas fará uma grande diferença no balanço para calcular o FPF (em 2017-18 já não poderemos contabilizar o lucro de 20,3M€ de 2012-13 e vamos ter que incluir o prejuízo de 40,7M€ do ano seguinte, sabendo-se que não podem ser apresentadas perdas superiores a 30M€), que foi encarado com muita negligência. 

Além disso, em 2014-15 tivemos contabilizados 97M€ brutos com a venda de três titulares (Mangala, Danilo e Jackson), foram incluídos dois prémios de participação na Liga dos Campeões, uma rara ida aos 1/4 da Champions e ainda outras fontes de receita extraordinária. Em 2014-15 teremos certamente a época com maiores receitas da história da SAD. E isto não vai acontecer todos os anos. Teremos capacidade para vender 3 titulares por pelo menos 30M€ cada todos os anos?  Se calhar até há capacidade para isso. Preocupante é precisar dessa capacidade para subsistir, e de haver quase sempre o mesmo denominador: Jorge Mendes.

Com o patrocinador ainda por resolver (sendo que não vai gerar uma verba muito significativa, por mais que se dramatize esta questão - basta ver o impacto da PT aqui e aqui) e desconhecendo-se ainda, no domínio público, os termos da renegociação/liquidação do maior empréstimo do Novo Banco, a SAD está neste momento com boas condições financeiras, fruto das receitas extraordinárias esta época. E qual é a primeira coisa que se faz com algum dinheiro extra? Imbula. 

Uma loucura, a qualquer preço
20 milhões de euros, o jogador mais caro da história do FC Porto. Apenas mais um milhão do que Hulk, que teve um investimento progressivo, num espaço de 5 anos (5,5M€ + 13,5M€). Começando pela parte desportiva. Imbula, se não tiver problemas de adaptação, tem tudo para singrar no FC Porto, ajudar a ganhar títulos e sair por um bom dinheiro (é difícil querer e ter mística quando já se faz contas à saída de um jogador no momento da chegada). É uma boa contratação, que acrescenta potencial e qualidade ao plantel. E é também uma verdadeira loucura.

O FC Porto não entra, como é lógico, com 20M€. Nem sequer com metade. Com o fim da partilha de passes, a SAD passa a ser obrigada a comprar 100% do passe dos jogadores. Mas os fundos continuam a operar normalmente, e neste caso é a Doyen Sports a permitir ao FC Porto contratar Imbula.

Que quer isto dizer? A Doyen entra com o financiamento e o FC Porto tem que ressarcir o fundo progressivamente. Se em 2016 Imbula não estiver valorizado? Paguem uma tranche. E se em 2017 já evoluiu mas ainda pode render mais? Paguem mais um bocado e aguentem mais um aninho. E se em 2018 já vale 35M€? Esqueçam lá o resto, vendam e passem para cá o lucro. É uma das maneiras de contrariar a limitação da FIFA. 

É uma aposta de imenso risco. Ponto prévio, a apostar grandes quantias em grandes jogadores, que seja em qualidade imediata, que não deixe de ter potencial para o futuro. Para Imbula vai ser chegar, jogar e fazer jogar. Mas há sempre o risco de um jogador - não tem que ser Imbula - contratado a 100% e por uma grande quantia não se afirmar. E aí de certeza que não vai ser o fundo a arder, mas sim a SAD, que tem que pagar. Mas como se sabe, o risco é o modelo de gestão do FC Porto de Pinto da Costa e restante SAD.

Com Walter, que foi contratado por 6M€ com 75% e envolveu um financiamento da For Gool, correu mal, muito mal, tanto que o FC Porto foi obrigado a renovar com ele até 2017, para ainda dar mais uma oportunidade ao ativo para se valorizar e ressarcir o fundo. Como não se valorizou, torna-se um fardo. Isto tudo por causa de 6M€. Imaginem por 20M€. Felizmente, Imbula tem um enorme potencial, tem mercado e tem tudo para dar certo no FC Porto. Mas para cometer estas loucuras vai ser preciso ser altamente incisivo no ataque ao mercado. O fundo dá-nos algo a ganhar. Mas é o clube quem fica com tudo a perder.

Como não é possível fragmentar o passe, o FC Porto não pode, por exemplo, começar por comprar apenas uma parte. A SAD esgotou tanto quanto possível essa possibilidade nos últimos 2 anos, de Reyes a Quintero, de Brahimi a Aboubakar. Agora, é preciso ter a 100%, logo os investimentos vão ser maiores, mesmo que o dinheiro seja pago às tranches a longo prazo. Hulk foi contratado inicialmente por 5,5M€, e 5 anos depois custou mais 13,5M€. Se fosse hoje, o jogador custaria no imediato 19M€ (sendo a SAD perdeu 10% do jogador antes de comprar a última parcela), mesmo que o FC Porto só acabasse de pagar esse valor daqui a 5 anos.

Só duas notas de preocupação. Como é que, segundo a bem informada imprensa francesa que antecipou a transferência, o pai/empresário de Imbula vai receber 2M€ com as novas restrições da FIFA? Com os 3% em vigor, temeu-se aqui que muitas transferências tivessem inflação para, paralelamente, aumentar a chucha dos 3%. Mas isto rebenta a escala e não corresponde ao regulamentado. A esclarecer.

Outra nota é o problema que isto pode trazer a curto prazo na gestão de mais-valias. O FC Porto comprava barato, valorizava e vendia caro. Vendia bons jogadores por 20M€. Agora compra por 20M€. Tendo em conta que em 2014-15 foi necessária uma mais-valia de 66M€ com jogadores (numa época com dupla participação na Champions), quanto mais caras forem as contratações mais difícil será gerar uma mais-valia significativa. Pagar 20M€ também implica que se confie imenso no potencial do jogador e que este investimento possa, no futuro, ser dobrado. Mas pode ser a diferença entre cumprir o orçamento com a venda de dois jogadores... ou precisar do dobro.

Tempo de apoiar Imbula, que não só vai ter que ajudar o FC Porto a conquistar títulos como vai ter nas costas a pressão de ter que evoluir para corresponder a um investimento alto. Um investimento de que o jogador não tem culpa, logo não será a ele que a fatura desta loucura terá que ser cobrada no futuro. Seja pelo lucro, seja pelo prejuízo. É uma loucura. Resta saber se sairá barata ou muito cara.

Pergunta(s): Reações à contratação e ao investimento em Imbula?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Show me the money, parte II

A época 2014-15, em termos contabilísticos e financeiros, acaba amanhã, dia 30. Neste momento tudo se resume a isto: ou a venda de Jackson Martínez é fechada até à meia-noite de terça-feira e o orçamento será cumprido e superado em termos de expetativas de lucro, ou a SAD vai apresentar prejuízo anual dois anos consecutivos pela primeira vez desde o pós-Gelsenkirchen. 

Já todos perceberam que algo de errado se passa. Nélio Lucas e Galliani brindam à contratação de Jackson no avião, o presidente anuncia que Jackson escolheu o Milan, depois aparece o Atlético e Pompeo dá-o por garantido em Madrid, tal como o próprio jogador. Temos tudo para uma novela mexicana. Ou colombiana. 
Querem? Paguem.

Ponto prévio: Jackson Martínez é/foi capitão do FC Porto, três vezes Dragão de Ouro (o recordista) e passou três épocas a levar a equipa às costas, com máximo profissionalismo e capacidade de sacrifício dentro de campo (que é o que importa, não é as palavras bonitinhas fora dele). Provavelmente nunca tivemos um jogador tão bom em 3 épocas tão atribuladas. Logo, não queriam começar a vender o filme de que a culpa é do jogador.

Foi de facto o FC Porto quem trouxe Jackson para a ribalta europeia. Trouxe, não descobriu, porque na altura já era um nome muito falado para a Premier League, e talvez só não tenha assinado antes pelo Liverpool pois era difícil atribuir licença de trabalho na altura. Mas para a história fica que foi o FC Porto quem abriu as portas da Europa a Jackson Martínez. Depois, surge a célebre promessa de Pinto da Costa. Como Deco, Quaresma ou Falcao a tiveram. Como até o próprio Varela teve e depois foi encostado. «Ficas mais um ano e depois sais». 

Mas claro, para isso acontecer, há que haver um comprador disposto a pagar o que o FC Porto quer. Por vezes corre mal, como foi exemplo Varela e até Quaresma, que em 2008 passou de 39,999.999M€ para 18,6M€, com o perdido Pelé à mistura. Para Jackson não há esse problema, pois é um jogador com mercado e que tem características quase únicas no futebol europeu. Se calhar há melhores pontas-de-lança. Mas como Jackson não há mais nenhum. E vender um ponta-de-lança que vai fazer 29 anos acima dos 30M€ é simplesmente brilhante. 

E todos se aperceberam disso desde o início. A matilha começou cedo a cercar o osso, a começar pela controversa troca de agentes, de Manso para Pompeo, com uma bifurcação na SAD pelo meio, sendo que um dos desvios nem integra o mapa de órgãos sociais - e nunca há-de integrar. Qual foi o interesse em Pompeo passar a representar Jackson? Absolutamente nenhum. Um empresário sem rede, sem contactos para grandes transferências. O FC Porto atribuiu-lhe, na renovação de Jackson, 5% de uma futura transferência. E para quê, se na hora de vender para o Milan teve que ser pelo tipo do costume (Jorge Mendes)? Que fez Pompeo para o FC Porto lhe atribuir um potencial valor de 1,75M€? Jorge Mendes sim, justifica grandes comissões, pois tem sido um ganha pão para FC Porto e Benfica. Agora Pompeo?

Na verdade, Pompeo (na condição de procurador para Jackson) acabou por apresentar a proposta do Atlético de Madrid, que decidiu agir numa operação-relâmpago quando tudo se conjugava para Jackson rumar a Milão. E Pompeo vem agora ameaçar dar nomes aos bois. Só há um pequenino problema para este empresário: ele disse que o Atlético ia pagar a cláusula de rescisão. Logo, tudo isto quer dizer, tal como se temia aqui, que o Atlético não se disponibilizou, até à data de ontem, a pagar cláusula nenhuma.

Se o Atlético quisesse de facto pagar a cláusula, Pompeo não tinha que andar a pedir reunião nenhuma. Era muito fácil, bastava Jackson notificar a SAD - até podia ser por fax, como Villas-Boas fez - com vista à rescisão e o Atlético fazer o depósito dos 35M€ à ordem. Como parecia ser mais lógico, o Atlético até pode estar disposto a pagar os 35M€, mas nunca a pronto.

Assim, a SAD só vende se quiser. E tal como Jackson Martínez não estava obrigado a ir para Milão, o FC Porto também não está obrigado a vendê-lo ao Atlético. A solução? Tudo sentado à mesa, a pensar nos superiores interesses do FC Porto, e não em decidir quem faz ponte para onde. Tal como em campo não ganham os jogadores, mas sim o clube, fora dele quem deve ganhar é sempre o FC Porto. 

Se as restrições da FIFA forem de facto aplicadas, no máximo será atribuída uma comissão de 1,05M€, além dos 1,75M€ a que à partida Pompeo terá direito. Se o Atlético quisesse de facto pagar a cláusula, não se começaria a discutir Moya - não vale a pensar falar em Óliver pois já era ponto de interesse antigo, que dependerá sempre da pré-época que fizer com Simeone. Assim sendo, que façam valer as suas boas relações, que se sentem à mesa e que se concretize o melhor para o FC Porto, que é o dinheirinho ser contabilizado até à meia-noite de dia 30. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Show me the money

Quando Pinto da Costa disse «Jackson escolheu o Milan», era sempre algo para suspeitar. Tinha que haver outra cartada na manga. Ou dar um empurrãozinho para aproximar Jackson de Milão, ou simplesmente para dar um último aviso ao mercado: se o querem, é agora ou nunca. Seja qual for a intenção, resultou pelo melhor, pelo menos no dossiê Jackson.

35 milhões de euros por um ponta-de-lança que faz 29 anos em breve. Desportivamente, Jackson era o melhor que poderíamos ter. Financeiramente, é um negócio sem paralelo, do melhor que o FC Porto já conseguiu fazer. Falta só uma coisa: show me the money.

Dragão de Ouro
O Atlético comprometeu-se a pagar a cláusula de rescisão. À hora em que este texto é escrito, ainda não o fez. Pois a partir do momento em que a cláusula é accionada, o FC Porto tem imediatamente que notificar o mercado regulador. Exatamente como aconteceu em 2011, com Villas-Boas: a 20 de junho tiveram que declarar que não tinha sido paga nenhuma cláusula, mas no dia seguinte o negócio estava oficializado. É uma questão de horas, nunca de dias.

Para a cláusula de rescisão ser accionada, o pagamento tem que ser feito a pronto e tem que Jackson Martínez a pedir a rescisão. Tendo o Atlético e o FC Porto boas relações, é surpreendente e quase bom de mais para ser verdade que a cláusula seja paga. O Atlético é um clube avantajado financeiramente e habitualmente cumpridor, mas pagar 35M€ sem antes tentar negociar esta quantia? 

Só se justifica por FC Porto e Milan, com a Doyen como ponte, já terem chegado antes a acordo. Mas a vontade do jogador também conta. E é a Doyen que é parceira do FC Porto, não é o FC Porto que é parceiro da Doyen. Temos pena, mas o melhor é a proposta do Atlético, apesar de se tratar de um clube com quem também ainda temos muito que discutir, da baliza ao ataque, passando pelo meio-campo. Daí que bater 35M€ de uma só vez, sem puxar outras cartas à mesa, seja verdadeiramente surpreendente. Bom de mais até para, a esta hora, ainda estar na expetativa sobre se é paga a cláusula, ou se é pago o valor da cláusula. São coisas diferentes.

De qualquer forma, com a venda de Jackson Martínez, e salvo a existência de despesas que não estavam previstas, o FC Porto não só cumpre como supera as obrigações orçamentais. Além da mais-valia de Jackson ir além dos 21M€ que eram vistos como base (não esquecer que Pompeo tem direito a 5% - e se for o Atlético a fazer o depósito da cláusula, não temos que pagar mais comissões nenhumas), conseguimos a receita extraordinária com Casemiro. Orçamento cumprido em esforço, mas cumprido, e bem. E para nunca mais repetir, de preferência.

domingo, 14 de junho de 2015

Análise 2014-15: os avançados

A hora da sucessão
Há Jackson Martínez e há o resto. O resto tem potencial, mas quando há Jackson não há espaço para muito mais do que esperar na sombra do colombiano. Pela terceira época consecutiva, não conseguimos ter o melhor ataque do campeonato, ficando sempre atrás do Benfica. Mesmo assim, Jackson consegue durante três épocas seguidas ser o melhor marcador, faz 92 golos em 3 épocas e tornou-se um dos melhores pontas-de-lança do mundo. Sem ele, as últimas três épocas teriam sido bem mais complicadas do que o foram.

E agora, a sucessão. Um tema que tem sido difícil de gerir. Aboubakar é o sucessor natural, Gonçalo Paciência pouco tempo tem de primeira equipa e André Silva ainda não o tem. Alberto Bueno foi um negócio de oportunidade, com vista a algo mais do que um 4x3x3. Entre Kléber, Ghilas e até Walter e Caballero há 16M€ investidos sem retorno à vista. Leonardo Ruiz vai fazer a primeira época na B, restando saber se demoram muito a fechar a compra do passe (sem desculpas para inflações à Kayembe). Ainda vai chegar mais um ponta-de-lança do mercado. O natural seria Aboubakar partir como primeira opção, até porque Gonçalo não vai começar a pré-época, abrindo espaço para a terceira vida de Kléber. Mas podemos admitir que está tudo em aberto no que toca ao ataque, seja em 4x3x3, seja no 4x4x2 que na época passada só funcionou na cabeça de Lopetegui e frente ao BATE. Vamos à análise.

Jackson Martínez - Passou a época a receber elogios semana após semana, logo tudo o que se diga agora torna-se redundante. Talvez só Danilo possa competir com ele na designação de melhor jogador da época. Foram três anos a levar a equipa às costas, na mais ingrata das tarefas - fê-lo não em tempos de hegemonia, como Jardel, Lisandro ou até Falcao, mas sim durante três épocas de grande dificuldade e exigência para o FC Porto. É o 2º melhor marcador estrangeiro da história do clube, só atrás do insuperável Jardel. Além de toda a valia desportiva, saindo pela fasquia dos 30M€ ainda se torna num excelente negócio financeiro para a SAD. Merecia sair com mais títulos na bagagem. É sempre subjetivo definir quem é o melhor, mas foi o mais completo ponta-de-lança que o FC Porto teve em muitos anos.

Aboubakar - Chegou para crescer na sombra de Jackson. Aproveitou dentro do possível as suas oportunidades, fazendo 8 golos na época de estreia e revelando o potencial que levou o FC Porto a apostar na sua contratação. Não é Jackson, claro que não. Mas pode ocupar o lugar de Jackson, mesmo que isso implique que Lopetegui passe a utilizar o seu 9 de maneira diferente. Jackson Martínez jogava pela equipa, enquanto que neste caso a equipa terá que jogar um pouco mais para Aboubakar. E a própria equipa, sobretudo do ponto de visto criativo no meio-campo, terá que render muito mais, pois Jackson disfarçava muita coisa. Aboubakar tem condições para começar a próxima época como primeira opção, desde que lhe peçam para fazer de... Aboubakar, não de Jackson.

Adrián López - Tal como Falcao não é o jogador que viram no Man. United esta época, Adrián também não é o que mostrou no FC Porto. No início da época, foi uma contratação que genericamente gerou entusiasmo, excepção à parte de ter chegado por 11M€, tão reais quanto os 8,6M€ de Roberto ou os 6M€ de Pizzi. É certo que o feitio do jogador não ajudou. Não é que seja mau profissional, mas revelou-se frágil psicologicamente para aguentar a pressão de as coisas não terem começado desde o início a correr bem. Mas também foi contratado para uma equipa na qual não tinha espaço. Não podia ser extremo, não podia ser 9. Lopetegui tentou encaixá-lo naquela variação de 4x4x2, mas o esquema não funcionou de todo. E sendo esse o único esquema onde Adrián podia entrar, o jogador também ficou sem grande margem. Depois veio a lesão e terminou a história de Adrián no FC Porto. Ficando no plantel o FC Porto teria que começar a liquidar os 11M€, mas nem um décimo do investimento conseguiu justificar - e o pior é a massa salarial. Logo há que esperar que Jorge Mendes encontre uma solução.

Gonçalo Paciência - Tem caraterísticas raríssimas. Estivesse já a jogar numa liga estrangeira (na Bélgica ou na Holanda, por exemplo, os jogadores jovens começam mais cedo a jogar nas primeiras equipas) e já o comparariam a Ibrahimovic. No FC Porto, num clube onde a exigência é máxima e havia Jackson Martínez, era difícil ter muito tempo de jogo. Podia ter saído por empréstimo, mas Lopetegui quis que ficasse a trabalhar e evoluir sob a sua supervisão. É bom de mais para estar na equipa B ou limitado a minutos residuais na equipa A. Já vai para a 3ª época de senior, logo precisa de jogar numa equipa principal. Se Lopetegui não encontrar espaço competitivo para ele, talvez o empréstimo seja a melhor solução. Resta responder à questão: quem chegar do mercado terá mais potencial e oferecerá mais a curto prazo do que Gonçalo Paciência? Não faz sentido contratar um projeto de jogador quando temos um projeto chamado Gonçalo. Nem sequer investir no mercado quando o contrato de Gonçalo acaba em 2016.

Os bês - André Silva foi prejudicado pelo impasse na sua renovação e, de certa forma, pela tentativa de coexistir com Gonçalo na equipa B, desviando-o para uma ala - o seu lugar é a posição 9. Vai para o 2º ano de sénior, o que indicia que possa continuar na B, mas se já podermos aumentar o estímulo competitivo a que está sujeito só há a ganhar. Anderson (que só chegou em janeiro) e Roniel fizeram uma época exemplar daqui para que não devia servir uma equipa B - como porta de importação para jogadores cujo agenciamento é melhor do que o talento demonstrado.

Pergunta(s) - O sucessor de Jackson deve vir do mercado ou do plantel? Que papel para Gonçalo Paciência em 2015-16?

domingo, 24 de maio de 2015

Terminou a época, arranca 2015-16

Quem viaja com o FC Porto para todo o lado ao longo da época, faça sol ou faça chuva, e consegue encontrar forças para ir apoiar a equipa ao aeroporto depois de uma derrota por 6-1 (apoiar, que é diferente da falácia que é dizer «receber em euforia»), tem o direito de no fim da época não estar satisfeito. Neste caso, os protestos foram feito da maneira mais correcta possível: a insatisfação ficou clara, sem necessidade de insultar. Os adeptos têm direito ao protesto, não ao insulto. Vale para adeptos, claques e para quem esteve à porta do centro de treinos.

Obrigado e boa sorte, Danilo
Os jogadores perceberam a mensagem. Perceberam o quão atípico é o FC Porto acabar uma época sem títulos. Nenhum outro clube em todo o mundo ganha de forma tão frequente como o FC Porto. Mas a frequência não pode nunca ser confundida com facilidade. É sempre difícil ganhar um título, seja ele qual for, sobretudo quando temos novos profissionais que (ainda) não estão habituados a ganhar, e adeptos que não estão habituados a não ganhar. Em 2015-16 todos estarão mais bem preparados, mas isso será aprofundado na análise detalhada de fim de época, que será publicada aos poucos.

Foi o dia de despedida a alguns dos nossos, ainda que só Danilo o tenha feito a nível oficial. Daqui a duas semanas já nos estaremos a roer com saudades de ver o FC Porto jogar e impacientes para que chegue a pré-época.





Danilo (+) - A época estava acabada, não havia nada mais a ganhar. Danilo tem muito com que se preocupar: mudança de casa para Madrid, foi pai há pouco mais de um mês, vai jogar num clube onde todos passam de bestas a bestiais e vice-versa em duas semanas e vai disputar a sua primeira grande competição pelo Brasil, a Copa América. Que faz ele? Galga o corredor como se estivesse numa final da Liga dos Campeões, nunca se encolhe na disputa dos lances e ainda oferece aos adeptos um último lance de alegria na época. Fez-se um jogador à Porto, honrando a mítica camisola 2, e afinal todo o silêncio nas bancadas foi a melhor homenagem possível para ele: não havia palavras que lhe pudessem agradecer o suficiente.

Jackson Martínez (+) - Ok, esteve muito mal na finalização. Mas acaba a época como o melhor marcador, pelo 3º ano consecutivo, e seria sempre o mais forte candidato ao 4º (Pinto da Costa sabe porque e para quem está a falar, isto a propósito da capa de O Jogo). É a definição de um profissional exemplar, que não precisa de conhecer a história do FC Porto para a honrar a cada segundo. Esteve 3 anos a levar a equipa às costas, em meses moribundos para o FC Porto, e também não pensou um único segundo no mercado enquanto jogava a feijões contra o Penafiel. Um campeonato em 3 anos é muito pouco para um jogador deste calibre. A liga portuguesa também. Um dos melhores pontas-de-lança da nossa história e provavelmente o melhor da atualidade. Se não for, não faz mal. Também há quem prefira Heineken à Carlsberg.

Destaques de fim de época (+) - Quaresma, também inconformado em fim de época, voltou a ser dos mais perigosos no ataque, cruzando várias vezes com perigo. Evandro deu cabeça e critério a um meio-campo que estava desgastado e desorganizado. E Aboubakar, nos últimos minutos, desatou o nó, com um oportuno golo e uma boa assistência.





Pela metade não chega (-) - Quintero teve apontamentos de qualidade. Como tem sempre que a bola lhe chega aos pés. Mas ao fim de 2 anos, ainda não conseguiu corrigir o que o impede de se afirmar numa grande equipa: é excessivamente lento, a circulação de bola perde sempre velocidade quando lhe chega aos pés (raramente solta de primeira) e só consegue desembaraçar-se em drible curto (e cada vez menos). A SAD investiu mais 4,5M€ nele, numa época que não foi melhor do que a primeira. Comprámos a totalidade do passe quando Quintero ainda jogava a 50%. Há várias questões a esclarecer: É o FC Porto que não aproveita o talento de Quintero, ou é Quintero que não aproveita o seu talento? E o talento que Quintero tem, será o suficiente para fazer dele um jogador que seja mais do que alguém que aparece a espaços? Todos os futebolistas podem ter talento. Mas nem sempre o talento faz um futebolista.

Terminou 2014/15. Segue-se o balanço, setor por setor, protagonista por protagonista, e a antecâmara para 2015/16, ao longo das próximas semanas.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A diferença entre 78 e 81 pontos

Lopetegui e os jogadores têm que seguir o politicamente profissional: dizer que o título ainda é possível. Logo, percebe-se que Lopetegui tenha apostado praticamente no melhor 11 à disposição. Mas... Como bons portistas, temos que acreditar no FC Porto. Mas não temos que acreditar em Rui Vitória ou no Guimarães, nem em Carlos Pereira - oh, se não podemos! - ou no Marítimo.

Isto para dizer que teria sido uma boa oportunidade para lançar as segundas linhas. Porque há vários jogadores caros no plantel que, se não servem para jogar contra o Gil Vicente no Dragão, então o seu futuro deve ir à mesa. Mas é Lopetegui quem vê quem trabalha bem ou mal ao longo da semana, logo neste caso a opção do treinador deve sempre ser respeitada.

Mas seria bom aproveitar os últimos dois jogos da época para dar uma oportunidade a menos utilizados, sobretudo porque o campeonato já está, com maior ou menor fé, perdido. E resume-se de forma muito simples: é por culpa própria que o FC Porto não tem mais que 78 pontos. Mas é pelos factores externos que todos conhecem que o Benfica tem 81 pontos. Factores esses que o FC Porto, sobretudo a nível directivo, não combateu como devia. A SAD construiu (a valente preço, que exigiu a Lopetegui valorização de activos e ao plantel uma excelente Champions - objetivos cumpridos) um bom plantel, mérito nisso, mas há que se mentalizar de algo: o tempo dos campeonatos em piloto automático acabou. Uma lição a aprender para o último triénio do 13º mandato de Pinto da Costa, onde não podemos repetir a passividade demonstrada esta época. Repetindo os erros, não há forma de pensar em 2016-2020.





Abono em tempos de fome
Jackson Martínez (+) - Não foi campeão europeu, como Derlei ou McCarthy, não foi tetracampeão, como Lisandro López, nem resolveu uma final europeia, como Falcao. Jackson fez algo não menos significativo: foi líder, goleador, referência e inspiração nos últimos 3 anos, nos quais o FC Porto atravessou uma das fases mais delicadas dos últimos 30 anos, inclusive tendo como rival um Benfica forte (e não falamos necessariamente apenas de força futebolística) como há muito não se via. O melhor marcador do FC Porto no séc. XXI faz 30 golos por época e deixa saudades, muitas saudades. Porque Jackson não liderou o FC Porto em tempos áureos, como McCarthy, Derlei, Lisandro ou Falcao. Liderou-o em tempos difíceis. Merece ser perpetuado no museu.

Óliver e Quaresma (+) - Não tendo sido a mais brilhante exibição do FC Porto, não faltou clarividência. Ao contrário do que aconteceu no Bonfim, onde quase não houve oportunidades de golo, desta vez o FC Porto soube criar várias ocasiões. Para isso muito contribuiu Quaresma, preciso nos cruzamentos e a ajustar o seu estilo de jogo à velocidade que já não é muita. De Óliver, o de sempre. Virtuoso, rápido a criar e a corresponder a linhas de passe, e a cruzar muito melhor. De destacar também a boa exibição de Maicon (foi de um dos seus chatíssimos passes longos que começou o lance do 1x0).





2015-16 tem que começar já! (-) - As velhas críticas do costume. Uma dúzia de cantos, zero de perigo (ps: o golo de Jackson é um lance que acontece 1 ou 2 vezes na carreira de um jogador, que nasce da inspiração de predestinados e não de planos de treino). É gritante a falta de evolução no FC Porto nas bolas paradas desde o início da época. Até mesmo em livres cruzados para a grande área, é extremamente raro vermos algum jogador ganhar uma bola de cabeça e criar perigo. Livres batidos de qualquer maneira, movimentações na área que não revelam grande estudo prévio. Agora como há 6 meses: se Lopetegui não consegue evoluir a equipa neste aspecto, que se contrate alguém para reforçar a equipa técnica que o consiga. Por outro lado, a falta de verticalidade em vários momentos do jogo. Somos uma equipa de posse, de ataque planeado, que joga mais com a cabeça do que com o pulmão. Mas num contexto de futebol português, temos que saber jogar em mais de 30 metros, atacar com velocidade e agressividade o último 1/3 do campo e encurtar a distância nas transições. Não é mudar o estilo de jogo, é readaptá-lo. Se não melhorarmos estes dois aspectos, em 2015-16 poderemos repetir erros há muito detetados. E o FC Porto, como qualquer clube com qualquer profissional, tem o direito a errar, desde que trabalhe para corrigir esses erros. 2015-16 tem que começar já.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Uma boa Champions, uma eliminatória normal, um mau jogo

Não é um dia feliz para ser portista. Isto porque somos os únicos adeptos de futebol que não podem desfrutar daquilo que o Bayern Munique fez, em particular nos primeiros 45 minutos. Podemos apontar os muitos erros cometidos por Lopetegui e os jogadores na primeira parte - oh, se podemos! -, mas tudo se resume a isto: eles não deram hipóteses. O Bayern deu um banho de bola. Desafio alguém a mostrar 45 minutos melhores do que estes por parte de uma equipa esta época.

Todos os ingredientes jogavam a seu favor e o Bayern foi letal. Cada tiro, cada melro. Não somos brasileiros, mas como no Mundial 2014 lá estava a língua portuguesa a ser trucidada pela alemã em 45 minutos. Não nos deram hipóteses. O Bayern fez hoje aquilo que o FC Porto não o deixou fazer na primeira mão. A única surpresa (ou a única contrariedade à lógica) foi não o ter feito no Dragão.

A lei do (muito) mais forte
O Bayern tem plantel, treinador e projecto assumidamente construído e com provas dadas para ganhar a Liga dos Campeões. Para o FC Porto, pensar em algo mais do que os 1/8 já seria ir além das expectativas e objectivos traçados. Perder uma eliminatória por 3 golos nestas circunstâncias é normal. Não temos que estar conformados ou satisfeitos, que não estamos, temos que aceitar a superioridade de quem é, em condições normais, melhor do que nós. Ou que tem armas muito melhores do que as nossas.

Desde o momento em que saiu a bolinha do sorteio que tínhamos um objectivo: lutar, disputar a eliminatória, orgulhar e dignificar o clube. Na primeira mão fizemos tudo isso com nota máxima. Nos primeiros 45 minutos da segunda mão, não fizemos nada disso, porque o Bayern foi muito, muito melhor do que nós. E na segunda parte, já o conseguimos (o Bayern não precisava de fazer muito mais, mas ninguém faz 90 minutos daquilo que o Bayern fez no primeiro tempo). Aquele remate do Jackson, do qual nenhum portista se vai esquecer, era o momento do se... Mas foi também o momento que mostra que o FC Porto, mesmo perdendo por 5-0 ao intervalo, ainda estava lá para tentar bater o pé ao Bayern.

Não é uma vitória moral. É cumprir com aquilo que estava ao nosso alcance: lutar, fazer tremer um Bayern de argumentos superiores em toda a linha, brindar os adeptos com momentos de alegria e orgulho durante a eliminatória e terminar a época com objectivos cumpridos na Liga dos Campeões, financeira e desportivamente. É difícil pedir mais do que isto.

Fizemos uma boa Liga dos Campeões, onde fomos eliminados numa eliminatória «normal», fazendo um mau jogo na segunda mão. Ao 12º jogo o FC Porto caiu na Europa. Quando voltarem a ouvir falar de um clube português que vá aos 1/4 da Champions invicto, por favor avisem. Orgulho no percurso da equipa. Lutámos pela eliminatória e pelo golo que nos fizesse acreditar até aos 86 minutos, altura em que Marcano é expulso e Xabi Alonso dá a estocada final. O trabalho que começou em agosto, quando ainda nem bilhete para a Champions tínhamos, não pode ser avaliado com base no que se passou entre os 14 e os 40 minutos de um único jogo, logo contra a equipa com mais argumentos para ser campeã europeia.





Jackson Martínez (+) - O que faz um jogador de uma equipa que está a perder por 5-0, arrisca levar mais e sabe que, aconteça o que acontecer, no fim da época vai ganhar muito mais dinheiro para outro lado? Jackson honrou o símbolo que levava ao peito e a braçadeira no braço. Acaba a segunda parte completamente rebentado, a lutar contra tudo e contra todos, disputando cada bola como se o apuramento dele dependesse. Não pensou um único segundo no Benfica, nem no risco de se lesionar. Foi até aos limites, provando não só o grande ponta-de-lança que é, como também o grande líder e capitão. Este senhor tem lugar no museu. É um dos nossos 5 maiores goleadores de sempre na Liga dos Campeões e ficará na história do clube.

Rúben Neves (+) - Lançar um miúdo de 18 anos para um jogo dos 1/4 da Liga dos Campeões quando a sua equipa está a perder por 5-0? Se nos dissessem isso no início da época, achávamos um ato de loucura. Neste caso foi um ato de lucidez. O Bayern baixou obviamente o ritmo, não só porque quis e podia, mas também porque era impossível repetir o que fez na primeira parte. Mas quando o FC Porto chega ao intervalo, tem 36% de posse. Acaba a partida com 47%, muito graças à entrada de Rúben Neves. 85% de eficácia de passe (Evandro teve 100%, mas jogou menos e não arriscou tanto), agressividade na recuperação e saída de bola, critério e inteligência, determinação em ajudar o FC Porto a fazer um, dois golos. Nota para Ricardo. Já não havia muito a fazer defensivamente, então ajudou o ataque (mais que Quaresma e Brahimi) e esteve no lance do golo.





Toda a primeira parte (-) - O Bayern foi demolidor, e dava a ideia que estava num dia em que ia atropelar fosse quem estivesse do outro lado. Mas isso não invalida o demérito que o FC Porto teve na estratégia e na abordagem de jogo. Lopetegui entendeu apostar em Reyes. O FC Porto já ganhou uma Taça UEFA a jogar com Ricardo Costa a lateral e já defrontou o Barcelona com Aloíso na esquerda, não é por aí. O problema foi a forma como (não) se defendeu. «Laterais» a fechar demasiado por dentro, Quaresma e Brahimi muito mal a fechar os flancos e a defender, e um amadorismo no jogo aéreo que faz corar qualquer equipa (aos 27 minutos estamos a perder por 3-0, por três lances perdidos no jogo aéreo). Fabiano, Maicon, Marcano, Indi e Casemiro foram incapazes de lidar com este vendaval. Era difícil de o fazer, mas também nunca se demonstraram preparados para o enfrentar. A estratégia falhou redondamente.

O FC Porto cumpriu e superou as expectativas que estavam definidas para a Liga dos Campeões. Tentou ao máximo ir mais além, não conseguiu. Agora é tempo de pensar no Benfica, e tentar virar uma eliminatória onde estamos a perder por 2-0. Só não levantamos a cabeça porque para isso ela teria que baixar primeiro.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Inferno de Dante

Sempre preparados
Copo meio cheio ou meio vazio? Não foi Xabi Alonso que perdeu aquela bola. Foi Jackson que a recuperou. Também não foi Dante a perder a bola. Foi Quaresma a recuperá-la. Como é que uma equipa fortíssima, com a maior percentagem de passes certos na Champions, com 9 jogadores titulares que já ganharam Liga dos Campeões/Mundial (os únicos 2 que não o fizeram são Bernat, o jogador mais utilizado por Guardiola, e Lewandowski, um dos melhores pontas-de-lança do mundo e o segundo melhor em campo no Dragão) consegue sofrer dois golos daquela forma em 10 minutos? Simples: mérito do FC Porto.

Nunca o Bayern ou Guardiola levaram com uma pressão tão grande como a de hoje do FC Porto. O Bayern está habituado a jogar contra equipas recuadas, que dão espaço na primeira fase de construção, que só pensam em sair para o contra-ataque quando o Bayern perder a bola ou falhar um passe. O FC Porto não esperou por isso. Forçou o Bayern a perder a bola, forçou o Bayern a falhar passes, e reduziu alguns dos melhores avançados do mundo a muito pouco ofensivamente (tiveram mais bola e mais ataques, mas não foram mais perigosos).

Agora querem fazer de Dante e Boateng, titularíssimos na segunda defesa menos batida das Ligas europeias (a melhor é o FC Porto!), pernetas que caíram por cá de pára-quedas? Erraram porque o FC Porto os forçou a isso. Por isso é que erraram hoje e não noutros jogos da Liga dos Campeões ou da Bundesliga. Lopetegui e os seus foram premiados pela audácia, desinibição, coragem e determinação em representar o FC Porto ao mais alto nível. Uma verdadeira exibição à Porto, onde ninguém se encolheu, todos sabiam o que fazer e quiseram sempre mais do que o Bayern.

O Bayern fez quase 600 passes, o FC Porto nem metade disso. Mas a equipa soube agarrar-se à qualidade e utilidade em detrimento da quantidade. Porque se há uma bola e o Bayern em campo, normalmente essa bola é para o Bayern. Soubemos mantê-la longe das zonas de perigo e fomos lá buscá-la nas 3 vezes em que precisámos para marcar. Lopetegui e os jogadores estiveram sempre preparados, fazendo jus ao mote da temporada.

E agora, como escreveu Dante Alighieri, depois do inferno vem o purgatório (que será Munique), e só depois podemos pensar em chegar ao paraíso. Uma equipa que tenha dois golos de vantagem em Munique só tem uma coisa garantida: vai levar massacre, vai ter que sofrer, vai ter que estar preparada para ir buscar a bola ao fundo das redes e metê-la no meio-campo, vai ter que levar bolada, vai ter que se superar em todos os capítulos. Vamos pensar nisso depois de ganhar à Académica, ok?





Preparação e resposta (+) - A vitória não começa em erros do Bayern, começa no plano de jogo do FC Porto: forçá-los a errar. Assim foi. Guardiola ensinou um médio (Fàbregas) a jogar a avançado, mas Lopetegui tem em Jackson um avançado que sabe jogar como médio. Isto levou a que a equipa tivesse sempre o meio-campo equilibrado e depois contasse com o talento que recheia os flancos para sair para o ataque, além da insanidade que foi a pressão no corredor central. Alguém se lembra de um lance de Müller, Götze ou Lewandowski que tenha ficado na retina? O FC Porto esteve preparadíssimo a todos os níveis para vencer. Essa era a vitória que se exigia. A outra, o 3-1, foi um regalo.

Quaresma, sete anos depois (+) - Quando Quaresma se isola, traz à memória o FC Porto-Schalke 04, mas agora não havia Farias ali ao lado para reclamar a bola. «Dass, não faças como em 2008, faz como em Londres, ao Cech, trivela nisso!» E assim o fez. Esqueçam os dois golos: o momento, já perto do fim, em que vai até ao limite fazer um corte acrobático, que o rebenta todo, e que o leva a pedir substituição a Lopetegui (alguma vez o tinham visto pedir substituição antes?) é o que define a sua exibição: estava disposto a tudo para que o FC Porto ganhasse e dedicou-se até ao limite. Aquela braçadeira que perdeu, por culpa própria, no início da época pode regressar ao braço, por mérito próprio, na próxima pré-época.

Os tais dedos (+) - Guardiola queixou-se que faltavam mãos ao Bayern e dedos ao FC Porto. Um segredo que ninguém se preocupou em descobrir quando diziam que o pobre Bayern ia jogar com remendos: Guardiola contou com os seus 10 jogadores mais utilizados em campo. O FC Porto, apenas com 9 dos 10 mais. Pobre Bayern, tão desfalcado. Adiante. A defesa fechou mal e falhou o corte no golo do Bayern, mas globalmente fez um jogo bastante positivo. Bom entendimento entre Maicon e Martins Indi (quantas bolas ganhou Lewandowski de cabeça?), Danilo e Alex competentes a defender e perigosos a atacar (Danilo hoje mais conservador). Alex Sandro anda a pedir a renovação...

Casemiro, não há maior elogio que este: fez lembrar Fernando contra o Zenit em 2013. Que animal! Óliver esteve sublime a organizar e distribuir jogo, sempre rápido a reagir à perda. Herrera foi essencial para manter sempre os equilíbrios e dar velocidade pela zona central. Brahimi teve que se adaptar a jogar em zonas mais recuadas, mas guardou bem a bola, desequilibrou quando pôde e arrastou sempre 2 jogadores com ele. Boa entrada de Rúben Neves.

O trunfo (+) - Fez lembrar o regresso de Derlei à Corunha, em 2004. Regresso em pleno de Jackson, um segredo bem guardado no Olival. Que enormíssima exibição, do mais completo ponta-de-lança que o FC Porto alguma vez teve. Jackson faz tudo. Não há função que não consiga desempenhar. E fá-lo com o bónus de que (quase) tudo o que faz, faz bem,  com uma exibição que deve ter feito Lewandowksi corar de vergonha. Aboubakar no banco e Gonçalo na bancada não tinham outro remédio que não fosse aplaudir. Top. Admire e aprendam.





Então... (-) - Meus senhores. Ganharam por 3-1 a uma equipa que: tem um orçamento que ronda os 400 milhões de euros; é treinada por um treinador top, que ganhou 2 Champions, 3 Mundiais de Clubes e marcou uma geração no futebol internacional; tem 6 campeões do mundo no 11 e uma carrada de campeões europeus; tem o estatuto e o peso que leva a que não se expulse um guarda-redes que faz falta sobre um jogador isolado aos 2 minutos; é uma equipa alemã, e a final da Champions vai jogar-se em Berlim; foi a 3 das últimas 5 finais da Champions; está a passear na Bundesliga e só tem que pensar na Champions; em 22 jogos nunca tinha perdido com clubes portugueses em eliminatórias; e que foi largos períodos dominada e massacrada pelo FC Porto, que não vai às meias-finais há 11 anos, joga com plantel e treinador novos esta época, está sob enorme pressão no campeonato e ainda luta contra os ostracismo que não conhece fronteiras.

A eliminatória ainda é uma incógnita. Mas o jogo, por si só, hoje merece ser recordado como um dos grandes triunfos da história do FC Porto. Como em Viena, 90 minutos que honram os pergaminhos do clube e que merecem espaço entre eles. Em 180 minutos é mais difícil? Talvez. Mas de Viena ao Dragão foram 180 minutos em que todos se renderam ao que se passou: o FC Porto foi melhor do que o Bayern e desfez a lógica do futebol. Um divino orgulho onde muitos esperariam uma Divina Comédia.


segunda-feira, 2 de março de 2015

Tello e outro «calcanhar vagabundo»

Uma noite que a equipa e Lopetegui mereciam e precisavam. O Sporting, parecendo que não, era a equipa com menos derrotas no Campeonato. Não perdeu nenhum dos clássicos anteriores. Hoje foi reduzido a pó, não criou uma única ocasião de perigo e o 3x0 acabou por ser um resultado simpático para o rival. O Sporting nunca foi candidato ao título, mas pode sempre baralhar estas contas, tanto que até aqui tinha tirado pontos em todos os jogos com os rivais. Hoje era essencial vencer, para continuar na luta, mas de pouco valerá se não ganharmos em Braga já na sexta-feira. Cada jornada é uma final e há mais 11 para disputar. 

Red3nção
Planeamento perfeito de Lopetegui (no pós-jogo é sempre engraçado ver o drama que é saber que vai jogar Marcano em vez de Indi, Casemiro em vez de Rúben Neves ou Tello em vez de Quaresma - mas só um tem que tomar decisões e viver com as consequências, sejam boas ou más, e esse alguém é o treinador), atitude e empenho máximo dos jogadores, capacidade para corrigir os erros dentro do próprio jogo, evolução, espectáculo e Tello em dose tripla, como já não se via desde os tempos de António Oliveira. 

Em Braga haverá máxima dificuldade, pois estamos a falar de uma equipa que ganhou 2 vezes ao Benfica e que já só está a um ponto do 3º lugar, por isso também vai encarar o jogo como uma final, na medida em que vão lutar pela Champions. Tem o plantel praticamente na máxima força, pois de quatro titulares que tinha em risco para esta jornada não perdeu nenhum. Sorte diferente teve o Arouca, que ficou de uma só vez com 4 jogadores suspensos, todos por acumulação de cartões, para a recepção ao Benfica. Há sorte e há azar, já o dizia Lopetegui. Mas a pedido de alguns portistas, na próxima semana voltaremos com maior profundidade a esta questão.





Tello (+) - Incontornável. Três vezes perfeito na desmarcação, na frieza e na eficácia. Objectivo, rápido, dinâmico, com bom entendimento com Herrera e Danilo e com a vontade que não tínhamos visto muitas vezes. Os últimos 5 golos do FC Porto, que valeram 6 pontos que nos mantiveram na luta, passaram todos por ele. Quando se faz 3 golos num clássico, todo o louvor nunca é de mais. Este Tello, em Braga, na Luz e na Champions, será um ás de trunfo.
O único leão que rugiu

Óliver Evandro (+) - Colocar Brahimi no meio-campo, de início, era um suicídio e não havia a menor justificação para isso. O FC Porto precisava de disciplina, consistência, critério e capacidade de manter a bola no meio-campo, e ganha tudo isso com Evandro. Brahimi a 10 só contra autocarros ou em situações de emergência. Evandro é um médio completo, no verdadeiro sentido da palavra, que acrescenta na mesma medida visão de jogo e capacidade na transição defensiva. Sem Óliver, é o substituto ideal e liberta Herrera para aparecer no ataque. Evandro sabe jogar ao primeiro toque, Brahimi enrola-se demasiado à bola, o que é um risco para um médio na zona central.

Jackson (+) - O facto de Jackson jogar distante na grande área é, muitas vezes, um problema para o FC Porto. Isto porque Brahimi e Quaresma não são extremos que consigam ganhar a bola em velocidade nas costas da defesa. Quando Jackson baixa e tenta fazer o último passe, poucas vezes o FC Porto aproveita esses lances. A solução era Tello, que consegue ganhar esse espaço, mas não raras vezes definia mal. Hoje saiu tudo bem a Tello a finalizar, por isso Jackson conseguiu fazer duas excelentes assistências (aquele calcanhar é mágico) e tirar o melhor proveito possível do seu afastamento da grande área. Contra equipas que jogam com a linha defensiva subida, é algo que faz todo o sentido. Na maioria dos jogos da primeira liga, Jackson tem que estar mais próximo da grande área. Em Braga, na Luz ou na Champions, é uma fórmula para explorar.

Alguém viu Montero
e Slimani?
Muralha (+/-) - Desde que Martins Indi passou para o banco, Maicon e Marcano fizeram 5 jogos na primeira liga. E o FC Porto não sofreu nenhum golo. Para isso também muito contribuiu... Casemiro. Maicon e Marcano revelam grande entendimento, jogam bem com a linha defensiva subida e complementam-se nas dobras. Casemiro foi absolutamente essencial na segunda parte. É sofrível no início de construção e falha o mais simples dos passes, mas na marcação, na recuperação (é o jogador com mais recuperações de bola no campeonato), na agressividade que é necessária em jogos desta categoria e na dimensão física que Rúben Neves ainda não consegue dar foi essencial. Infelizmente, sobra um problema: Casemiro não funciona na saída de bola, Maicon só sabe recorrer ao pontapé longo e hoje Marcano, sobretudo nos primeiros 20/25 minutos, quando era pressionado cometia falhas. Não havendo Óliver para pegar no jogo mais atrás, há que melhorar o entendimento entre Evandro e Herrera nesta dinâmica, sobretudo porque contra equipas que jogam recuadas não podemos ter os 2 centrais e mais 2 médios recuados na saída de bola. Mas defensivamente, Casemiro tornou-se importante no FC Porto.

Outros destaques (+) - Tivemos o melhor Alex Sandro. Contra Nani ou Carrillo, esteve sempre impecável a defender e apoiou sempre bem o ataque, criando também desequilíbrios (mesmo tendo Brahimi apagado no flanco). Danilo com maiores preocupações defensivas, mas seguro. Herrera acompanhou o mau início da equipa, mas na segunda parte foi um monstro. Encheu o meio-campo e foi essencial para que o FC Porto fizesse 45 minutos de alta rotação e intensidade. E mais uma vez, a capacidade que o FC Porto de Lopetegui tem para recuperar a bola no momento de início de transição do adversário, criando desde logo um lance de perigo nos últimos 30 metros, é do melhor que vemos no futebol europeu. Jogão.





20/25 minutos (-) - Um pouco ao encontro da crítica que foi feita no início de construção. Casemiro é essencial defensivamente, mas na saída de bola, nos primeiros 20/25 minutos, o FC Porto chegou a ter momentos de amadorismo. Não havia soluções. O FC Porto tinha 3 jogadores para sair (Marcano, Maicon, Casemiro) e nenhum o conseguia fazer. Passes à queima para os laterais, dificuldades em fazer chegar a bola ao meio-campo e com isso Evandro e Herrera tinham que recuar, até ao momento em que o FC Porto jogava num espaço de 40/50 metros, e quando a bola chegava finalmente a um dos médios interiores já só havia Jackson para dar apoio na zona central; a alternativa era o balão à procura de Tello. A rever, pois nem sempre haverá um calcanhar mágico a desatar o que está a ser difícil. Uma nota para Brahimi, que mais uma vez tem que aprender a conjugar o seu virtuosismo com o sentido colectivo da equipa. Sobretudo quando as coisas individualmente não estão a correr bem.

Julgo que todos os portistas saem deliciados com este excelente triunfo. Mas como muita gente tem expectativas ainda mais altas, esperamos ter correspondido a todos os apelos.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A caminho de onde merecemos estar

Nota prévia: à hora em que este texto é publicado, ainda há o risco do árbitro Mark Clattenburg decidir anular o penálti do Danilo. Por isso, as desculpas antecipadas se os leitores vão ser induzidos em erro.

Danilo marcou
Enorme FC Porto. Mas enorme mesmo. Enorme porque fez do Basel pequeno. Quantos remates fez o Basel em todo o jogo? Um. Ora vejam lá quantos remates o Basel fez na receção ao Liverpool: 11 remates e 56% de posse. E agora vejam lá contra o Real Madrid: 17 remates (!!!!) e 45% de posse de bola.

Se acharem o Real Madrid e o Liverpool equipas fraquinhas, há mais por onde escolher. Em 2013-14 ganharam ao Chelsea em Londres, por 2x1. E quando receberam o Chelsea, sabem o que aconteceu? Venceram por 1x0, com 16 remates contra apenas 1 da equipa de José Mourinho. O todo-poderoso e milionário Chelsea, treinado pelo melhor do mundo, só fez um remate em Basel e foi bombardeado durante todo o jogo. Há 3 anos, Manchester United e Bayern Munique perderam ali. Podíamos continuar, mas já se deve perceber a ideia.

Isto para dizer que portista que não esteja hoje satisfeito com a prestação do FC Porto, o melhor é mesmo fazer amizade com PES, FIFA ou seja lá que jogo for, porque só mesmo na Playstation é que podem atingir essa perfeição que idealizem. O que o FC Porto fez hoje foi de grande nível e merece todo o reconhecimento. Estamos a caminho dos 1/4 da Champions e com todo o mérito.





Exibição (+) - O FC Porto reduziu o Basel a pó. Em termos de anular o futebol do adversário (que é o princípio básico para qualquer equipa que jogue fora nos 1/8 da Champions), o FC Porto secou o Basel. A excepção foi, claro, o golo, com muita passividade da defesa e Fabiano mal na fotografia. De resto, o Basel não fez nada. E não foi porque estivessem satisfeitos com o 1x0, o FC Porto é que não deixou. Seria bom criar mais situações de golo, mas a forma como a equipa treinada por Jaime Pacheco Paulo Sousa entrava a matar inibe qualquer jogador. Mas o FC Porto não só secou o Basel como criou boas situações para marcar. Em termos de Champions, não se pode pedir mais.

Um tanque de combate
Óliver (+) - Fez mais de 50 passes, num jogo fora, onde cada jogador do FC Porto que tivesse a bola levava porrada. Eficácia de passe: 96%, segundo o site da UEFA. Hoje o FC Porto até podia ter perdido por 3x0, que a pior notícia da noite nem seria o resultado, mas sim a lesão de Óliver, tamanha que é a sua qualidade, importância e influência. 

Jackson Martínez (+) - Há um lance em que o Quaresma cruza para a grande área e todos perguntam: onde está o Jackson? Que tarefa ingrata é ser o ponta-de-lança do FC Porto. Passou o jogo todo a levar porrada, a baixar para recolher e dar linha de passe, a aguentar a bola, a ser sistematicamente agarrado por um central da escola Materazzi e a empurrar a equipa para a frente. Quase que se torna difícil pedir, depois disto, que ainda marque o golo da praxe. Provavelmente não é o melhor ponta-de-lança do mundo, mas o FC Porto não ficaria a ganhar com nenhum outro que viesse para o lugar dele neste momento. Top, Jackson.

Outras notas (+) - Danilo ao nível que justifica o interesse de grandes clubes. É ele que ganha e marca o penalty, e o espírito de entrega é contagiante para colegas e adeptos. Maicon e Marcano não estão bem no lance do golo (falhas graves), de resto jogo certinho e não deixaram que Fabiano tivesse que fazer uma única defesa. Alex Sandro a bom nível, Quaresma e Ruben Neves com boas entradas em campo.





Levar a bola para casa (-) - Os adversários conhecem cada vez mais Brahimi. Por isso leva sistematicamente com 2 ou 3 defesas em cima dele. E sabes o que significa quando tens 3 defesas à tua volta, Brahimi? Significa que tens 2 colegas livres. Tem que passar a bola, tem que aprender a soltar a bola, tem que deixar de abusar nos lances individuais. Herrera muito bem no equilíbrio no meio-campo (fez 13km), mas desta vez pouco eficaz no passe. E algo que urge rever: há algum pacto para não aleijar a baliza? Uma, duas, três vezes que há espaço para rematar e a equipa prefere sempre lateralizar. Chutem!

Desconcentração e pouca objectividade (-) - Em termos de controlo de jogo e das ameaças do adversário, o FC Porto esteve fortíssimo. Mas isso não significa que a equipa não tenha de melhorar em termos de objectividade. Há pouca verticalidade (quando Herrera não a dá, e sobretudo na ausência de Óliver, tudo se perde no FC Porto), pouco desequilíbrio na zona central e muito futebol mastigado perto da grande área. Depois, o problema de sempre: nos jogos grandes, o FC Porto sofre um golo quase sempre ao primeiro lance de perigo do adversário. Isso já nos custou a Taça de Portugal (Sporting), a liderança do Campeonato (Benfica) e quase duas derrotas na Champions (Shakhtar). Uma vez é azar, várias vezes é desconcentração e má preparação.

Jornal AS (-) - Não vamos criticar a exibição de Casemiro. Vamos criticar o Jornal AS. Porque pior que a exibição do Casemiro, só mesmo este comentário do Jornal AS: «Casemiro, cedido en el conjunto portugués por el Real Madrid, fue el más destacado del partido y lideró a su equipo en los momentos más difíciles».


O FC Porto não reagiu a isto. Então que sentido fará reagir a isto?