domingo, 23 de outubro de 2016

Artistas em dupla e a solo

Contra uma das equipas mais irritantes deste campeonato, alérgica a tudo o que não seja jogar com linhas recuadas, 10 jogadores atrás da linha da bola e só sair do seu meio-campo em pontapé longo, o FC Porto passou sem problemas um teste contra um adversário que ganhou no Dragão no ano passado, no mesmo dia em que o Tondela foi tirar pontos a Alvalade. São estes pontinhos que podem fazer muita diferença nas contas finais. 

Desta vez sem Otávio, voltou a estar em evidência outro bromance no FC Porto: Jota e André Silva, um a construir e outro a matar, numa exibição positiva a todos os níveis, direta ao pódio das melhores da temporada. Agora vem aí o mais difícil: não a visita ao Bonfim, onde o FC Porto ganhou todos os jogos que lá disputou desde 1998, mas as receções a Brugge e Benfica. Uma coisa de cada vez.





Saber ter a bola (+) - Contra uma equipa que não procura ter bola, o melhor a fazer é... tê-la. O FC Porto entrou pressionante, a obrigar o Arouca a desfazer-se da bola na primeira linha e com bastante equilíbrio a meio-campo: Herrera mais adiantado (quanto mais perto estiver de Danilo, pior), Óliver constantemente a procurar a bola no espaço e Danilo Pereira, uma vez mais, a segurar o meio-campo pelo pescoço. Com Jota a baixar, Corona a sair para zonas interiores e André Silva a arrastar marcações, o FC Porto termina a primeira parte com 78% de posse de bola e, mais importante, não se limitou a trocá-la - apostou em circulá-la tendo a baliza como destino. Na segunda parte o FC Porto voltou a sofrer uma quebra, ao entregar a iniciativa de jogo ao Arouca e deixar o adversário ter bola, mas sem que isso significasse lances de perigo para o adversário. Casillas só teve que se preocupar em não morrer de frio.

Um liberta o outro
Jota & André (+) - Por muito que André Silva tenha a disponibilidade de cair nos flancos, progredir com bola e tentar arriscar no 1x1, nada será melhor do que ter o nosso Ás de trunfo no seu habitat na natural: no coração da grande área, prontinho para dar o último toque. No primeiro golo, não cometeu o erro de se precipitar no remate: atirou para o lado oposto do defesa e marcou com tranquilidade. No segundo, colocou-se no sítio certo, ao fugir para as costas do defesa do Arouca e ganhar o lance de cabeça. Oportunista, entre os principais campeonatos da UEFA só um jogador tem mais golos do que André Silva (Modeste, do Colónia). Se quiserem contar com a pré-época e jogos de seleções, são 21 golos em 24 jogos. 

Há a destacar a forma como Diogo Jota soube descobrir André Silva nos dois lances: o primeiro com alguma felicidade, mas no segundo a colocar a bola na perfeição. Jogo muito inteligente de Jota, que teve que se dividir entre municiador de André Silva e homem que recuava para Herrera aparecer na grande área. Além de conferir verticalidade, dinâmica e maior capacidade de largura ao ataque do FC Porto, dispensa que seja André Silva a ter que fazer essa função. Resultado: em dois lances em que era preciso o avançado cair na ala (que era o que André Silva fazia até há bem pouco tempo), foi Jota a fazê-lo... e André Silva assim pôde ficar na área, pronto a faturar.


A revolta de Brahimi (+/-) - O que têm em comum Quaresma, Hulk ou Brahimi? Deliciaram os adeptos com grandes golos, grandes jogadas. E levaram muita gente ao desespero por quererem fazer tudo sozinhos, por se agarrarem em demasia à bola. Um dia aplaudidos, no outro assobiados. Um dia, tanto Quaresma como Hulk perderam a cabeça e, a quente, ripostaram contra a bancada, com gestos que não são bonitos. Ontem foi a vez de Brahimi fazê-lo.

Entrou e lançou a jogada do 2x0. Depois tentou o lance individual, uma, duas vezes. Abusou, e para isso há um treinador para repreendê-lo no banco e mandá-lo soltar a bola. O que não era necessário era, uma vez mais, um jogador do FC Porto ser assobiado na própria casa quando a equipa está a vencer. Aqueles 90 minutos deveriam ser sagrados, de rumo único. Não estamos a falar de gestão desportiva, da política da SAD, de comissões ou de qualquer outro assunto debatível fora do relvado: estamos a falar de um jogo, de 90 minutos, da equipa. No final do jogo, podemos tomar as considerações que quisermos, fazermos as mais diversas análises técnico-táticas, criticar os jogadores que quiserem. Mas isso não deveria acontecer durante 90 minutos.

A hipocrisia de um assobio
Brahimi marcou aquele incrível golo pela mesma razão que foi assobiado minutos antes: por ser Brahimi, por ser individualista, por ter pensado o mesmo que Maradona ou Messi pensaram um dia: «Esta só acaba na baliza». Foi um brilhante golo, genial, e depois Brahimi pisou os limites nos festejos. E com razão: os mesmos que o assobiaram por ter tentado o lance individual estavam a aplaudir por Brahimi ter concluído... um lance individual. Hipócrita, no mínimo. Brahimi está a viver uma situação difícil no FC Porto - estava convencido (e não apenas ele) que ia sair, acabou por ficar sem ter lugar garantido no 11, e ainda encontra adeptos que em vez de tentarem colaborar na reabilitação do jogador o assobiam quando a equipa está a ganhar.  Assobiar um jogador capaz de fazer golos assim não rima com proveito. Até porque não há assim tantos. 

Outros destaques (+) - Mais uma exibição imaculada de Marcano, também com Felipe uns furos acima dos últimos jogos. Layún ganhou definitivamente o lugar do lado direito, embora neste flanco não possa ser tão influente nos movimentos interiores (ainda assim, lançou o lance do 1x0). Danilo Pereira está também a atravessar um grande momento, próprio de quem parece ter sido uma combinação dos genes de Costinha, Paulo Assunção e Fernando. Nuno, desta vez, bem a mexer na equipa: a equipa ressentiu-se da saída de Óliver durante algum tempo, mas Rúben Neves acabou por dar serenidade ao meio-campo e Brahimi entrou para participar em 2 golos.





O factor Telles (+/-) - O FC Porto fez 15 cruzamentos na primeira parte. Nove deles foram de Alex Telles. Não fez um mau jogo, mas há várias coisas que têm que ser limadas neste processo. Se Alex Telles cruza tanto, tem que cruzar melhor. Têm sido poucos os cruzamentos realmente proveitosos do seu pé esquerdo. Está a ter a capacidade de aparecer muitas vezes em zona avançada, mas os lances acabam invariavelmente com um cruzamento. É Telles que só cruza ou são essas as instruções que recebe?

Era sabido que Nuno quer os laterais a dar largura. Logo, isso explica que Alex Telles não faça movimentos interiores quando tem oportunidade. Até porque se há Otávio ou Corona naquela zona, Telles tem que dar o espaço interior. Mas é preciso alguma flexibilidade: se Alex Telles tem mais possibilidades de criar perigo cortando para dentro do que cruzando, então deve fazê-lo. Estar invariavelmente a meter bolas na grande área, quando só temos André Silva para jogar de cabeça, não tem muito proveito. A rever. 

15 minutos à Corona (+/-) - Corona entrou com tudo e logo nos minutos iniciais esteve perto de fazer um grande golo. Depois do quarto hora, quiçá até por alguma limitação física, desapareceu. Corona teve bola, conseguia passar pelos adversários, mas depois faltou sempre algo: não aparecia o passe, não aparecia o remate, não se enquadrava com a baliza. Em compensação, depois entra Brahimi com tudo. Corona e Brahimi têm alternado boas entradas a partir do banco com titularidades de subrendimento. Quando - ou se - os 15 minutos se multiplicarem, o FC Porto pode encarar o médio prazo com maior otimismo, não esquecendo que no final do ano Brahimi deve ir à CAN, e Varela ontem jogou os primeiros 11 minutos em 2 meses (e aparentava já haver adeptos fartos dele, embora não jogasse desde agosto). Por isso, arrebita, Tecatito, que bem precisamos.

9 comentários:

  1. O Telles não corta para dentro talvez por ordem do treinador mas por outro lado o Layun na direita continua a vi para dentro e a emperrar o jogo porque não tem pé esquerdo. também é do treinador?
    Realmente é uma pena que o Telles não saiba cruzar uma bola

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  2. Já há algum tempo que venho comentando a situação do Alex Teles que insiste sempre numa solução de profundidade, não só ele como também sempre que pode mete a bola no Otavio, muitas vezes em más condições.... Estava a estranhar ainda não teres feito este reparo. Concordo a 200%.

    Mais um vi m post, parabéns pelo teu trabalho.

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  3. O jogo visto da bancada deu duas notas especiais:
    - Danilo, um monstro. A recuperar e a transportar bola, arriscar um pouco, algo que pouco faz (e talvez necessite de fazer mais, a par dos passes).
    - André Silva está muito bom na recepção e rotação para a baliza.

    Equipa a crescer mas com oscilações de exibição durante o mesmo jogo. É normal, mas podem e devem ter mais bola quando não estão com tanta intensidade. Aqui cheira-me a opção do Nuno porque sempre preferiu transições rápidas.

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  4. melhor em campo a leguas danilo, quanto a telles ( 10M )obvio que nao se pode comparar a sandro (20M) que mesmo assim era criticado no dragao por isto e aquilo que o levou a sair sem saudades. telles e um bom lateral esquerdo que realmente precisa de treinar os cruzamentos tensos mas se os fizesse muita bem valeria os tais 20M e nao estava ca. Layun e demadiado naif para mim nunca foi defesa em parte nenhuma no lado esquerdo nao da profundidade por nao ter pe esquerdo faz bem aqueles cruzamentos cortados com o pe direito, do lado direito nao da profundidade porque nao sabe e nao tem estaleca e nao faz um cruzamento decente, para jogar deve faze lo no lugar de herrera. Nao aprecio jogadores mexicanos acrescentam muito pouco aos jogos. R neves deve jogar e falta nos defenir a parte final das transiçoes. GANHAMOS ISSO E O MAIS IMPORTANTE.

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  5. o Alex Telles faz quase sempre as mesmas opções...tem de ser com a autorização pq seria impossível não ter sido corrigido até agora. Mas às vezes até chateia. Tantas vezes a procurar profundidade quando tem metros pela frente onde podia desequilibrar com bola...não consigo perceber

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  6. Quando até o Freitas Lobo repara em 3 penalties por marcar, algo vai muito podre. Não podemos ser tão macios dentro e fora do campo.

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  7. Eu acho que o Alex Telex não vem jogando bem, gostaria que ele conseguisse cruzar bem a bola, lançar melhor, as vezes me parece que ele esta cansado.

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  8. Sou brasileiro e apaixonado pelo FC Porto, Desde que o Jardel jogava ai, acompanho sempre os resultados e tenho todos os uniformes do time, desejo um grande abraço aos irmãos portugueses torcedores apaixonados por este clube multicampeão e gigante. Vivaaaaaaa FC PORTO.

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  9. Hoje o Jardel está com problemas no Brasil, mas continua apaixonado por este clube, amigos, orçam por ele, para que ele resolva os problemas de sua vida pessoal. Um grande abraço.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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