sexta-feira, 1 de julho de 2016

Não há cláusula para a mística

Pela terceira vez em 5 anos, a SAD fechou uma época financeira com prejuízo. Depois dos 35,7M€ de 2011-12 e dos 40,7M€ em 2013-14, intercalados com resultados positivos de 20,3M€ em 2012-13 e 19,3M€ em 2014-15, a SAD vai voltar a apresentar um dos prejuízos mais elevados da sua história. 

Por norma, o FC Porto não se pronuncia sobre os resultados financeiros no fecho imediato da época. Por isso, o balanço só deverá ser feito em outubro, e isso inclui o enquadramento do fair-play financeiro, sobre o qual há muito ninguém do FC Porto se pronuncia. Embora só em outubro se devam conhecer os números finais do Relatório e Contas da época 2015-16, já é possível prever uma parte significativa. 

A venda de jogadores no período de 2015-16 foi francamente negativa. O FC Porto chegou ao último trimestre com apenas 29,98M€ dos 72,59M€ necessários nos resultados com transações de passes de jogadores. Faltavam à partida 42,6M€, e o FC Porto não comunicou ao mercado nenhuma venda relevante durante os últimos três meses.

Ou seja, a única boa venda declarada no período de 2015-16 acabou por ser Alex Sandro, que saiu no mercado de verão e gerou uma mais-valia de 21,3 milhões de euros. O FC Porto precisava de vender até 30 de junho, não o fez (o FC Porto não comunicou, ainda, a venda de Maicon, portanto ou a venda ainda não foi totalmente fechada ou a SAD considerou que o valor gerado não era relevante para o mercado), e os resultados estão - melhor, estarão em outubro - à vista. 

A insuficiência na rúbrica de venda de jogadores junta-se aos 15,73M€ que já estavam em falta face ao orçamento de 2015-16 nas receitas da UEFA. Tendo em conta que a SAD já fechou o terceiro trimestre com prejuízo de 37,904M€ e a atividade trimestral da SAD não é, por norma, autossustentável, por as receitas operacionais serem sempre inferiores aos gastos (e com o agravamento de não termos o prémio de 12M€ da UEFA que deveria entrar no último trimestre), o prejuízo será elevadíssimo.
Deixem-lo chamar
Dito isto, recuperemos o tema que marcou o último dia. O Jogo noticiou que o mercado (infelizmente não era o Bolhão) chamava por Rúben Neves: O Tribunal do Dragão fez a coisa mais simples do mundo, que foi colocar uma citação de Pinto da Costa, a propósito dos planos para Rúben Neves no FC Porto, sem acrescentar comentários ou considerações. A partir daqui, multiplicaram-se os comentários e as considerações. Todos na caixa de comentários, nenhum no texto do blogue. Conclusivo.

Mas podemos entrar na discussão: o que poderia significar uma venda de Rúben Neves? Certamente que não faltariam motivos válidos para defender a sua saída. Se algum dia acontecer, não faltará quem lembre que rende mais dinheiro do que Paredes, Costinha, Paulo Assunção e Fernando, seus antecessores, juntos; que nunca foi verdadeiramente um titular indiscutível no FC Porto; que é mais importante manter Danilo; que o FC Porto é, e sempre foi, um clube vendedor e exportador, que depende sucessivamente da venda de jogadores e refaz ciclicamente o plantel. 

Não concordar não significa deixar de compreender. Mas neste caso, a saída de Rúben Neves não poderia acontecer. Por estas palavras:

«Espero que ele fique muitos anos no FC Porto. O Rúben tem contrato até 2019 e não até 2017, como por vezes vejo escrito, e nós gostaríamos de o manter no clube, como uma espécie de João Pinto. Ou seja, que ele fosse um símbolo da transmissão da mística por várias gerações. Nunca quererei que saia do FC Porto». Isto não é um recado ao mercado. Isto não é um o FC Porto só vende pela cláusula. Não é um se faltar um euro para a cláusula do Quaresma, eu meto esse euro. Pinto da Costa não estava a falar para os compradores. Estava a falar para os portistas. 

Sim, objetivamente, se Rúben Neves rendesse mais dinheiro do que Paredes, Costinha, Paulo Assunção ou Fernando juntos seria fantástico. Sendo um talento de enorme futuro, nunca foi um titular verdadeiramente indiscutível; não esteve numa base de um FC Porto campeão. Mas com 19 anos, seria suposto o quê?

A permanência de Rúben Neves era essencial. Pinto da Costa prometeu que o FC Porto, com o novo contrato de direitos televisivos, iria apostar num modelo de continuidade de jogadores, ao invés de contratar já a pensar na saída. E apresentou Rúben Neves como a bandeira para passar a mística, como novo João Pinto. Não podia, por isso, nunca sair ontem. Nem amanhã. Nem a 31 de agosto. 

Capitão João Pinto
Por um momento, imaginem que na história do FC Porto não há o João Pinto a levar pedrada no Jamor (vídeo para os mais confusos); não há o João Pinto agarrado à Taça dos Campeões Europeus; não há o João Pinto para levantar a Intercontinental e a Supertaça Europeia; não há o João Pinto que ganhou 9 campeonatos; não há o João Pinto que é o recordista de jogos pelo FC Porto. Imaginem que João Pinto tinha saído aos 19 anos.

Não sabemos se Rúben Neves conseguirá, algum dia, ter o sucesso que João Pinto teve no FC Porto. Não sabemos se algum jogador, algum dia, o terá. Mas sabemos que Rúben Neves foi apresentado como sucessor de João Pinto na mística e história do FC Porto, pela palavra do presidente. Não há milhões que paguem a história do FC Porto. E Rúben Neves ainda mal começou a escrever a sua história no FC Porto. 

A época 2016-17 será a primeira de Rúben Neves enquanto futebolista sénior. Com a mesma idade, João Pinto ainda nem se tinha estreado, e só à sua sexta época de sénior João Pinto conquistou o primeiro campeonato pelo FC Porto. Rúben Neves não é João Pinto, mas poderá começar a ganhar bem mais cedo. Que Rúben Neves seja um dos alicerces do sucesso desportivo do FC Porto e não um ativo para tapar buracos nas contas SAD. A mística não tem cláusula de rescisão.

12 comentários:

  1. Normalmente concordo pela razão dos textos do TD mas este tem um vertente poética e emocional muito forte.

    Texto simplesmente lindo e verdadeiro, peço desculpa mas tenho que o dizer...

    "Obrigado Draconem, ass RGalego"

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  2. Caso o contrato com a Altice preveja um pagamento significativo até ao dia de ontem, poderia ser incluído no orçamento da época 2015/2016 e permitir respeitar o fair-play da UEFA?

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    1. Caro observador: Qualquer verba poderia ter sido incluída até ontem mesmo um proveito diferido com essa operador. Mas o contrato com a Altice só terá efeitos a partir da próxima época e mesmo assim ainda está a ser analisado pela Autoridade da Concorrência, visto que esses contratos não poderão ser superiores a 3 anos, o que não é o caso. Por outro lado, até lá, estamos presos ao contrato com a Olivedesportos. Não parece muito lógico recebermos "pelos dois lados". Cumprimentos

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  3. Vamos bater recordes de prejuízo. E isto vai ficar a manchar por uma série de anos no Fair-play financeiro da treta. Em outubro vamos ser presenteados com um número monstruoso.

    É um desfecho anunciado. A SAD anda há anos com uma política de risco elevado, sempre dependente de grandes vendas, todos os anos, para cobrir os gastos. Falhou o plano desportivo e cá está o resultado. E falhar no plano desportivo não foi por termos perdido os últimos 3 campeonatos, é mais grave, é termos perdido muita qualidade no plantel. Vendermos os bons jogadores e contratarmos muitos flops. Reyes, Quintero, Adrian, etc. Um clube como o nosso não se pode dar ao luxo de falhar assim, gastando largos milhões. Quando o FC Porto dá 10M por um jogador tem de ter a certeza que é craque. E mesmo assim há o risco de o jogador sofrer com lesões ou outro problema, não se afirmando e deixando-nos a arder.

    A solução é apresentar já um grande lucro na época que hoje começa.

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  4. Até ver, o Presidente concorda com o TdD. Ou vice-versa, dá igual.

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  5. O FC Porto vendeu o Imbula ao Stoke por 23 milhões, em janeiro ultimo mas não rendeu mais que 3 milhões de mais valias, entretanto comprou o Marega e Suk na mesma altura , os dois por um valor a rondar os 5 milhões. Pagou ordenados 2 treinadores. Muito mau esta época que terminou, sem a certeza da champions. O presidente avisou numa das entrevistas que concedeu ao Porto Canal e mais recentemente ao JN que contratações para esta época eram cirúrgicas, talvez já a contar com este problema do fair play financeiro.Para mim Ruben Neves tem de ganhar mais nervo/garra/agressividade para jogar na posição que normalmente joga. Vendas para equilibrar o orçamento, Indi, Marcano, Adrian, Aboubakar, Angel, Marega, Herrera

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  6. Muito bem dito e defendido contudo existe um problema... Ruben Neves tem clausula de rescisão e se a pagarem, basta convencer o jogador com um ordenado 5 ou 6 vezes superior e ele vai à sua vida.


    40M não é uma clausula para segurar o Ruben, mas sim para dizer ao mercado que o Ruben é negociável portanto o que o PdC disse nessa entrevista não é para se "escrever" (se fosse a clausula teria de ser de 140M e não de 40M).

    Outra das verdades mentirosas que andam por aì é dos direitos televisivos... Ah e tal mais de 40M€/época... pois sim mas só em 2018 e até lá ainda temos 2 épocas para tapar buracos portanto as vendas é para continuar.

    Pior... é que agora o fairplay financeiro que não foi cumprido por pura incompetência dos administrados, negociadores... enfim... dos planificadores financeiros de várias épocas a esta parte, vai-nos bater à porta... e agora?

    Se até Outubro não tivermos feito uma redução salarial decente, não tivermos um orçamento menor e não tivermos vendas suficientes para abater todo este saldo negativo transitado, não teremos desculpas para junto da UEFA, justificar esta falha... portanto... game over! Sanções efetivas vão chegar.

    E mais, este salto transitado negativo que estimo ser perto dos 50M€, vai-nos perseguir para as próximas épocas e enquanto contar para as contas dos 3 anos, vai ser um pau de obra para equilibrar orçamentos (penso que é assim que se fazem as contas para o fair play financeiro, ou seja corta-se o ano mais distante e acrescenta-se o ano transitado, e faz-se as contas).

    Enfim... tanto incompetência num clube dito profissional.

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  7. "O FC Porto precisava de vender até 30 de junho, não o fez (o FC Porto não comunicou, ainda, a venda de Maicon, portanto ou a venda ainda não foi totalmente fechada ou a SAD considerou que o valor gerado não era relevante para o mercado)".

    Mas, segundo a lei, os clubes não são obrigados a declarar o valor das transferências quando estas atingem/superam determinado valor? Acho que a comunicação/não comunicação dos valores ao mercado não está a depender das considerações das SAD's.
    Saudações portistas!

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  8. Por mim quase que quereo que a UEFA através do Fair Play Financeiro nos proíba de contratar jogadores por um par de anos. Pode ser que ajude o clube a regressar à realidade da vida.

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  9. Pois é amigos a chave está no 5º parágrafo "as receitas operacionais serem inferiores aos gastos".
    Imaginem o que seria uma empresa dita "normal" que estivesse sucessivamente ao longo de anos a gastar mais do que recebia.
    Os Proveitos inferiores aos Custos. A Sad não consegue imaginar o seu negócio apenas olhando para as Receitas da sua actividade. Está sempre a pensar que é uma empresa de compra e venda de jogadores. Qualquer dia vai dar para o torto, olá se vai!
    Saudações portistas

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  10. Caro observador: poder podia (não no Orçamento mas nas Contas). É o que se chama Proveitos diferidos. Aliás já os deve ter ido buscar à Olivedesportos com quem tem um contrato até final da época 2017. Essa vai ser a desculpa da Sad quando tiver que justificar à UEFA o descalabro deste ano.
    Saudações portistas

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  11. Mística sim. Precisamos muita que a maioria não sabe o que é estar e ser do FCP. Agora estou a ficar farto disto. a mística falta em quem manda.

    O Paços vende o Diogo Jota ao Atlético de Madrid e nós vamos emprestar-lhes o substituto (Gleison). A novela do Braga com o Rafa é igual. Parecemos o benfica do Damásio ou o sporting do Sousa Cintra.

    Quanto ao plantel, precisamos de Portugueses e poucos estrangeiros de qualidade. Porto de Mourinho tinha 8 portugueses no 11 e pouquíssimos estrangeiros no plantel. Olhem para a sub-21 e vão buscá-los Vezo, Bruno Fernandes, e Marcos Lopes.

    De resto temos miúdos bons na B. Marega, Suk, Evandro (que até gosto) Brahimi e os centrais é para por a andar daqui para fora. O Vezo é caro? - incluam no negócio do Brahimi, o Bruno Fernandes também? - com certeza a Udinese não se importava de um Quintero ou Bueno, etc, etc

    Alguns portugueses também não têm nível/ vontade de comer a relva - Sérgio Oliveira, Ricardo Nunes, Zé Manel (e não este gajo não vai ser o Marco Ferreira do tempo do Mourinho)

    Moutinho apenas me parece uma boa escolha pela mística. De resto parece bastante acabado (estilo Bruno Alves)

    Estrangeiros só se for um goleador e um central.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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