domingo, 18 de janeiro de 2015

Os campeões fazem-se a comer relva (ou lama). E o pobre Urreta numa sopa de coincidências.

Maestro no batatal
Aquele batatal de Penafiel é tão fértil que se lançarem lá algumas sementes acabam com a fome mundial. Era o típico jogo onde para ganhar era preciso comer a relva (ou a lama, neste caso). Para ver a importância desta vitória, basta lembrar que perdemos a liderança no dilúvio frente ao Boavista. E desde então o Benfica não voltou a sair do poleiro. 

Três pontos importantes, 6ª vitória consecutiva e provas de um crescimento sustentado da equipa. Não relativamente ao seu modelo de jogo habitual, que ontem não se viu (nem se podia ver), mas sim na perspectiva de vestir o fato-macaco, ser pragmática e adaptar-se às circunstâncias para ganhar. Segue-se uma difícil série de jogos até ao fim de Janeiro. Hora de sacudir a lama e guardar bem guardado o fato-macaco, que certamente voltará a ser necessário.





O Capitão (+) - Já não é apenas Jackson, o goleador. É também Jackson, o capitão, o líder, o exemplo. Um jogaço, tão bom que parecia estar a jogar em relva curta e verdinha. A forma como inventa as jogadas do primeiro e do terceiro golo resolveram qualquer problema de falta de criatividade. Depois voltou a estar na hora certa para picar o ponto. Lutou no meio-campo, aguentou porrada, empurrou a equipa para a frente. No jogo com piores condições para se jogar futebol, fez o melhor jogo da época.

Goleador e líder
Óliver (+) - Foi eleito o MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão 3 vezes nos últimos 4 jogos. Volta a candidatar-se novamente. É um dos mais puros talentos do futebol mundial, de recorte técnico muito acima da média, mas foi perfeito a adaptar-se às dificuldades que o jogo tinha para oferecer. Lutou, assistiu, marcou e provou uma vez mais que joga em qualquer campo, em qualquer equipa (ouviste, Simeone?). Infelizmente para nós, num talento destes, e a jogar a este nível, o futuro nunca se resumirá apenas à questão «Atlético ou FC Porto?».

A entrada de Marcano (+) - Perdoa-lhes, Lopetegui. Falo daqueles que acham que podem ver ópera ou tiki-taka quando é preciso calçar barbatanas ou os botins. Quaresma não ultrapassou um único jogador em velocidade, adornava quando era preciso jogar simples e o FC Porto tinha perdido o controlo do jogo. A entrada de Marcano foi decisiva, pois o Penafiel não voltou a criar perigo. O meio-campo ficou fechado e Óliver pôde subir para zonas mais aditadas (surgindo depois o 3-1). Ganhar um jogo com uma substituição, nota máxima para Lopetegui ontem. De destacar ainda as exibições incansáveis de Alex Sandro e Herrera e as duas assistências de Casemiro (ainda assim com várias falhas defensivas, na variação de flanco e em boa hora substituído).





Bolas paradas (-) - O que será preciso para voltar a ver um golo na sequência de uma bola parada? Apenas 3 golos nasceram de pontapés de canto esta época. Já sofremos mais golos do que os que marcámos desta forma. Os lances estudados parecem sempre mal estudados, raramente ganhamos uma bola ao primeiro poste e quando o marcador a tenta meter no segundo sai um balázio para a linha de fundo. Na Liga dos Campeões e nos jogos de maior dificuldade não podemos ser tão perdulários nestes lances.

Medo (-) - Não é que Tello tenha jogado mal. Tentou aparecer, reclamou protagonismo, teve algumas diagonais perigosas, arrastou marcações e esteve perto do golo. Esteve bem melhor do que Quaresma, por exemplo. Mas a forma como em dois lances se encolhe, com medo de ir ao choque, personifica tudo aquilo o que não é um jogador à Porto. Medo de quê, Tello? Não sei o que te ensinaram na Catalunha, mas aqui jogas num clube onde se corta a ponta da chuteira e se pinta a meia para poder jogar com um dedo do pé partido. O medo é uma cena que não pode assistir ninguém aqui.

Jornal OJOGO, 18-01-2015
Três ex-árbitros internacionais, e não há acordo relativamente a nenhum lance. Se aqui não há acordo, algum dia haveria em conversas entre adeptos em que cada um defende a sua causa? O erro faz parte do futebol. Neste caso não há erro, há dúvidas nos 2 primeiros golos, pois a pespectiva da imagem ilude (o que levou o comentador Luís Freitas Lobo, que tinha garantido que o primeiro golo era «claramente» em fora-de-jogo, a fazer mea culpa no final e a dizer que estava em linha, após ter visto uma nova imagem). Mas aceito que foi claramente uma arbitragem polémica. E porquê? Porque há posição duvidosa nos 2 primeiros golos. Mas se há dúvidas, então beneficia-se quem ataca. E morre assim a polémica.

PS: Uma extrema coincidência que Urreta tenha acabado de se envolver num sururu com Marçal, no Paços de Ferreira x Nacional, para ver cartão amarelo. Numa sopa de coincidências, é o 5º cartão amarelo e o próximo jogo do Paços é contra o... Benfica, clube que tem opção de recompra de Urreta. É preciso ter muito azar, Urreta.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa

Detesto o discurso da vitimização na boca de um portista. Coitados de nós, somos o clube com mais títulos no futebol português. Coitados de nós, somos o clube que mais troféus venceu a nível mundial nos últimos 15 anos. Coitados de nós, o FC Porto tornou-se uma referência internacional, aclamada em três continentes, produziu jogadores e treinadores de escala planetária e tem o presidente mais consagrado do futebol mundial. Tudo isto num clube que entrava em campo a perder só por atravessar a ponte. O clube de uma cidade passou a ser um clube de e para o Mundo. Quase que concordo, coitadinhos de nós.

Quando falo em vitimização falo, por exemplo, quando vemos uma capa do Record ou da Bola. Se eu estou a gerir um negócio em que 90% dos meus consumidores querem o produto A, então eu não vou apostar no produto B só porque 10% o querem. A não ser que tenha vontade de ver o meu negócio falir rapidamente. Não me belisca que num Record ou numa Bola o FC Porto esteja reduzido a um quadradinho. É normal, uma leitura rápida na Marktest diz que cerca de 90% dos compradores dos jornais são simpatizantes de Benfica ou Sporting. Logo fazem os jornais bem em dirigir-se para o seu público alvo. No negócio, sobretudo num meio precário, não há romantismo. 

Não há vitimização, apenas negócio. Ora na Gala das Quinas não havia negócio. Havia uma gala que supostamente tinha como objectivo premiar os melhores dos melhores. Era o momento para dar destaque e atenção àqueles que se distinguem acima dos demais.

Concordei, por exemplo, que fossem dadas as Quinas de Platina a Eusébio. Era um futebolista acima de tudo o resto na sua época. Entre azares e Salazares, o FC Porto acima de tudo nunca foi campeão contra o Benfica do Eusébio por uma razão mais simples do que possa aparentar: eram melhores do que nós. O Benfica era melhor do que nós, logo ganhava mais vezes.

O Sporting teve um bom momento nas décadas de 40 e 50, mas ficou-se por aí. Fala-se, por exemplo, dos lendários 5 violinos, como se tivessem dominado anos a fio o futebol português. O que muitos não sabem é que os 5 violinos só jogaram 3 anos juntos. Foram tricampeões? Olha, parabéns. Fizeram tanto como o Jesualdo Ferreira no FC Porto. E ninguém recorda Jesualdo Ferreira como sendo um bicho-papão do futebol português.

O Benfica era, indiscutivelmente, melhor. Até que apareceu uma dupla que desafiou isso. Bendita hora em que nasceu Albertino Eduardo Ferreira Ventura Pereira. Não tenho memórias sobre se era bom ou mau jogador (o que aparenta indicar a tendência mais para o mau), mas foi o dia em que o Albertino decidiu preferir o Boavista ao FC Porto que lançou Pinto da Costa para o clube e que levou a que recuperasse o Mestre Pedroto 10 anos após a sua saída. 

O Benfica deixou de ser melhor. Parafraseando o Pedroto do século XXI, que também dá pelo nome de Mourinho, em condições normais éramos melhores. E em condições anormais, também. Pedroto e Pinto da Costa mudaram a história do futebol português. Pinto da Costa é o rosto das grandes obras, mas é o primeiro a reconhecer que Pedroto, qual engenheiro, planeou-a. Inovou os treinos, lançou os mind-games quando as conferências de imprensa se reduziam a 2 microfones e 3 cadeiras de plástico, estudou adversários, obrigou a que o Homem e o futebolista coubessem dentro da mesma pessoa, começou a criar aquilo a que hoje chamamos uma estrutura. Foi o primeiro treinador a estender o percurso académico ao relvado e colocou o FC Porto a jogar num estilo que, anos mais tarde, foi apresentado pelo Barcelona de Cruijff como sendo uma novidade.

Pedroto na largada, Pinto da Costa ao leme desde então. Com muitos, muitos marujos de estimada qualidade e importância. Mas dois se destacaram. A FPF tem o presidente com mais títulos do futebol mundial e a sua melhor participação numa prova de Selecções ainda é graças a uma espinha dorsal do FC Porto (final do Euro 2004). E Pedroto deu o primeiro título à Seleção Nacional, um europeu de juniores. Quando muito se fala de Carlos Queiroz (que até foi premiado) como o mentor da formação em Portugal, dá que pensar.

Não recordar José Maria Pedroto e não enaltecer o papel de Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, na Gala das Quinas, comprova que a Gala não quis distinguir os melhores. Quis distinguir os preferidos. Como gostar de Pedroto e Pinto da Costa, que tiveram a ousadia de acabar com a normalidade que tantos apreciavam? O FC Porto passou a ganhar mais porque passou a ser melhor. Muito melhor. Cá dentro e lá fora.

Há mais, claro. Uma coisa de que nem todos os portistas gostam de falar: Apito Dourado. E sinceramente, não percebo porquê o preconceito. Por conveniência, há uma tendência extraordinária em associar o Apito Dourado ao norte, mais concretamente a FC Porto e Boavista, sobretudo. Só por aí já falham na definição e mostram o quão filtrada é a mediatização do Apito.

O Apito Dourado foi um escândalo de corrupção no futebol português. Não no FC Porto, no futebol português. As escutas que vazaram para público foram feitas de forma filtrada. Dois utilizadores anónimos no Youtube largaram as escutas que incriminavam o FC Porto. Nunca se ouviu falar de outras escutas. Até que um dia o jornal Público decide transcrever uma escuta que também mostrava o presidente do Benfica a escolher árbitros (a jornalista que escreveu essa notícia está hoje no CM, curiosamente). Uma escuta que convenientemente nunca caiu no Youtube. Nem outras. Anos depois, numa extrema coincidência, a CMTV consegue em exclusivo novas escutas. Escutas essas que também iam contra o FC Porto. Será que a CMTV teve acesso aos dois utilizadores anónimos do Zimbabué do Youtube? Ou os de Zimbabué é que foram beber à mesma fonte?

O Apito Dourado foi um caso afunilado, que ignorou a envolvência de outros clubes protagonistas de tráficos de influência e corrupção no futebol português, com o objectivo de acertar no FC Porto. E dito isto, a opinião pouco popular entre portistas: o FC Porto foi punido e bem. As escutas mostram que houve de facto tráfico de influências a anteceder esses jogos. Por isso, considerei justa a punição, opinião que ainda mantinha aquando da absolvição.

Dito isto, retrospectiva que dá vontade de rir: a corrupção suprema dos últimos 30 anos foram dois jogos contra Estrela da Amadora e Beira-Mar? Um clube que desapareceu, outro que anda a pairar na cova. O máximo que conseguiram arranjar para associar o FC Porto a uma imagem de corrupção que dominou os últimos 30 anos foram 2 jogos contra dois clubes simpáticos, logo numa época em que fomos campeões europeus? É o máximo que conseguiram espremer do Apito Dourado? Falo abertamente do Apito Dourado pois é isto que fica: numa indústria centenária como o futebol, que move milhares e milhões, e como tal nos bastidores as actividades pouco cristalinas se acumulam, o máximo que conseguiram arranjar para associar o FC Porto a corrupção foram jogos contra Beira-Mar e Estrela da Amadora. Durmo bem.

Entretanto, Benfica e Sporting respiram desportivismo, transparência, ética. Um vice-presidente deposita dinheiro na conta de um árbitro e ninguém se apercebe no clube. E se esse vice-presidente se chamasse Reinaldo Teles ou Antero Henrique, como seria? Ou então um treinador reúne-se com um jogador adversário para combinar um resultado na Taça UEFA. E se esse treinador se chamasse Pedroto ou Vítor Pereira? Limpinho, limpinho.

Não há a mínima justificação para o ignorar de Pedroto e Pinto da Costa na Gala da FPF. Nem o estigma que para muitos ainda existe sobre o Apito Dourado, um processo que revela corrupção não no FC Porto, mas no futebol português. E supostamente, ontem foram celebrados os 100 anos do futebol português...

Percebo que esta página, uma página de algo que dava um livro, queira ficar bem escondida entre o centenário do futebol nacional. Não choca. O que choca é que a FPF tenha ignorado que as suas páginas mais ricas tiveram prefácio em antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto. E foram escritas com as letras de Pedroto e Pinto da Costa.

Carlos Daniel insistia que daqui a 100 anos todos vão recordar aquela noite, onde se distinguia os melhores dos melhores. Vá, concordemos. Os feitos de Pedroto e Pinto da Costa são grandes de mais para ficarem reduzidos a um século. Perpetuarão pelos milénios que hão-de vir.

PS: Pinto da Costa trocaria qualquer homenagem ou referência por uma vitória contra o Penafiel. A última vez que vi o presidente explodir de alegria no banco foi em Penafiel, há 10 anos, quando McCarthy fez o golo da vitória aos 93 minutos. É favor de dar-lhe neste dia mais uma alegria, mais uma vitória. Como Pedroto nos ensinou. Como Pinto da Costa nos habituou.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Kelvin, do minuto 92 à saída. Uma reflexão

«Podia ser um espaço dedicado ao golo do Ademir, ao calcanhar do Madjer, ao aceno fatal do Deco em Gelsenkirchen ou ao voo do Falcao em Dublin. A história do FC Porto é rica em momentos que são eternizados com um único pontapé ou cabeceamento, mas há um que mereceu uma distinção acima de todas as outras: o golo de Kelvin, no célebre minuto 92.

O espaço K não representa apenas um momento na história do FC Porto. Representa toda a história de Kelvin no FC Porto. O menino brasileiro virou um campeonato ao contrário com um pontapé. Decisivo, sim, sobretudo por ter sido na penúltima jornada. Mas num campeonato, um ponto na primeira jornada pode ser tão decisivo como um na última para as contas finais. Em 2006-07, o FC Porto foi campeão com um ponto de vantagem. E se Bruno Moraes não tivesse derrubado o Benfica à cabeçada no último minuto?

O momento foi de Kelvin. Mas e se Liedson não tivesse feito a tabela? E se Varela, antes, não tivesse soltado para o lado esquerdo? E se João Moutinho não tivesse recuperado a bola num lançamento de linha lateral para o Benfica? Mais do que um golo de Kelvin, foi um golo do FC Porto. Mais um na sua história.

Depois de ter sido o herói em 2012-13, Kelvin ficou no plantel quase para ser peça de museu. Que sentido faria inaugurar o espaço K com um jogador emprestado ao Guimarães? Foi por isso que Kelvin ficou no plantel. E com isso queimou-se um ano em que Kelvin podia evoluir como necessita. Não foram apenas os adeptos e o jogador a ficar agarrados às memórias do minuto 92: os próprios dirigentes do FC Porto agarraram-se a isso.

A memória é eterna. Kelvin não, por isso está de saída do FC Porto, por não entrar nos planos de Lopetegui.»

Foi escrito em Junho, mas pode perfeitamente ser repetido, palavra por palavra, agora que Kelvin foi emprestado ao Palmeiras. Sai com ano e meio de atraso. Paulo Fonseca não contava com ele, Lopetegui não conta com ele. Não são adeptos do FC Porto, são treinadores e profissionais, logo não sentem qualquer tipo de nostalgia 92 ao olhar para Kelvin.

Que tem talento todos sabemos. Que isso não chega, também. Podia ter tido mais oportunidades, especialmente em 2013-14, mas os adeptos não têm acesso aos dados todos para compreender a sua situação. Como por exemplo os treinos ao longo da semana, onde muito pode acontecer. Ou muito pouco.

O golo de Kelvin ao Benfica foi o melhor que podia ter acontecido ao FC Porto e o pior que podia ter acontecido ao jogador. Em 2013-14 ficou para ser peça de museu. Esta época ficou mesmo sabendo-se desde o início que Lopetegui não contava com ele. A sua situação não foi bem gerida pelos responsáveis do FC Porto, que tinham a obrigação de procurar uma solução para fazer evoluir um jogador que custou pouco mais de 3 milhões de euros por 90% do passe (entretanto já reduzido a 75%).

Ninguém ou poucos se preocuparam com o que Kelvin ainda podia fazer no futuro. A carreira dele, aos olhos de muitos, estava feita. Fez o golo que valeu o tri. O minuto 92 vale 3 milhões de euros? Vale pois. E a partir daí o Kelvin passou a ser sempre o menino do minuto 92. Aos olhos de adeptos e dirigentes. A história estava contada e poucos se preocuparam em preencher a próxima página.

O Palmeiras é um clube que não é órfão de instabilidade e crises directivas, contratou um camião de jogadores para a próxima época e, o pior de tudo, tem um treinador de 64 anos que nunca treinou na Europa. Oswaldo de Oliveira não tem nada para ensinar a Kelvin no que ao futebol moderno diz respeito. Na vertente técnica, Kelvin é acima da média. Fisicamente, tacticamente e psicologicamente tem muito para aprender e desenvolver, e infelizmente muito dificilmente será no Palmeiras que isso vai mudar.

Atento às palavras de Lopetegui, que diz que «consideramos que foi uma boa opção». Então, se Lopetegui entendeu que emprestar Kelvin ao Palmeiras foi a melhor opção, mais preocupado fico. Kelvin precisava, e precisa, de princípios europeus. A não ser que o próprio Lopetegui não acredite que evolua no sentido de se tornar num jogador importante no FC Porto. Uma importância para além do minuto 92, vá.

Há mais um pormenor importante: o contrato. O empréstimo ao Palmeiras é até ao final de 2015 e o contrato de Kelvin acaba 6 meses depois, por isso como é natural regressa ao Brasil com contrato renovado, à imagem do que se passou com Walter. E depois? V de Volta ou aproveitar a eventual valorização no mercado brasileiro? O coração que bateu 92 vezes num segundo pede a primeira; a experiência diz que o segundo caminho está traçado.

Boa sorte, Kelvin.

PS: Quantos jogadores emprestados a clubes brasileiros regressaram ao FC Porto para ser primeira opção? Não é retórica, é mesmo uma questão.

Evandro, Quintero, Quaresma e a prova dos 9 na Taça da Liga

Quintero em destaque
Pronunciar o nome «Taça da Liga» é quase tão eficiente como contar carneirinhos. Mas não restam dúvidas de que é uma prova que o FC Porto quer ganhar. Disse-o o representante da SAD no sorteio e dizem-lo as opções de Lopetegui (não necessariamente os 11 titulares, mas a forma como geriu os 2 primeiros jogos no que toca a substituições). Se é uma Taça para ganhar, espera-se então que se atinga um determinado nível exibicional. Um nível que hoje não foi atingido...

... e era difícil que fosse o contrário. Mudanças em todos os sectores, na dinâmica da equipa, nas funções de jogadores que já foram titulares mas em diferentes tarefas (Rúben, Campaña, Quintero, Ádrian)... Com tantas mudanças em tantos capítulos, era difícil esperar muito.

Dia de estreia para Ivo Rodrigues. Nervoso e condicionado fisicamente, pareceu. Não foi a estreia que idealizou mas as oportunidades voltarão a surgir se o nível na equipa B se mantiver elevado e a vaga no plantel principal surgir. Quanto a Gonçalo Paciência, claro que todos gostaríamos de ter visto um pouco dele, mas é de recordar que no Domingo fez 90 minutos de elevada exigência contra o Benfica B. Já teve um prémio importante pelo trabalho que está a desenvolver ao ser convocado. Já tinha acontecido com Ivo em Vila do Conde: convocatória e banco. Só depois veio a titularidade.

Saudar o regresso do capitão, Helton. Dificilmente voltará a ser o número 1, mas o papel de um capitão não se esgota dentro das 4 linhas. No que toca à Taça da Liga segue-se o Braga, onde será preciso mostrar bem mais do que hoje.





Evandro (+) - Sempre de cabeça levantada, tudo o que faz faz bem. Num meio-campo sem rotinas, teve sempre uma linha de passe para dar e soube conduzir o jogo. É um médio completo e um exímio marcador de penaltys, coisa tão rara por estas bandas. Quanto mais tempo de jogo tiver, maior qualidade terá para oferecer à equipa.

Quintero (+/-) - Juanfer, Juanfer... O golo e os pormenores de classe mostram (uma vez mais) que é um jogador de um talento enorme. E no meio de uma boa exibição, demonstra-se mais uma vez o porquê de não ser titular absoluto no FC Porto. A reacção à perda da bola é lenta (a principal diferença em relação a Oliver), não ganha um lance no corpo-a-corpo e quando a equipa não tem bola desaparece. Isto são lacunas que o Quintero tem que colmatar, mas que também têm que ser disfarçadas pelo colectivo.  Num 11 renovado e sem rotinas, era difícil ajudá-lo. Com a bola nos pés faz a diferença. Para ser titular indiscutível no FC Porto, também tem que saber jogar sem ela.

A rever (+/-) - Ricardo e José Ángel foram os jogadores que melhor replicaram as rotinas da equipa habitualmente titular. Sempre ofensivos, por vezes até em demasia e com muito espaço descoberto nas suas costas, que o U. Madeira lá aproveitou para fazer um golo (após uma perda de bola de Quaresma, antes da má reacção de Reyes, claramente a precisar de tempo de jogo e rotinas, aqui ou noutro clube). Pouco havia para fazer, mas o que havia Marcano fez bem. De Quaresma, fez um golo e ganhou um penalty, mas não consegue ultrapassar um jogador em velocidade. E está na fase da carreira em que já não é suposto fazê-lo. Quaresma não pode ser o jogador que rasga no FC Porto, porque já não tem velocidade para tal. Pode (e deve ser) o elemento que recebe, permite o movimento exterior do lateral, cruza e procura o jogo interior de forma mais simples. Não é por acaso que Jesualdo, um treinador que bem o conhece, disse que nesta fase da carreira tem que trocar de posição, como fez por exemplo Luís Figo. Campaña e Rúben mantiveram sempre o meio-campo equilibrado, mas num jogo destas características convém que alguém mais do que o terceiro médio (no caso Evandro) dê algo mais ao ataque.





Prova dos 9 (-) - Os jogos da Taça da Liga têm características próprias. Lopetegui roda a equipa e, com isso, roda também as rotinas de jogo. E hoje houve um grande problema. O FC Porto está habituado a um modelo onde Jackson tem um papel importantíssimo. E não é apenas por causa dos golos, mas pela sua movimentação: solta-se dos centrais para baixar, segura sempre a bola, ganha no ombro-a-ombro, consegue tocar e depois rodar para a grande área, onde é igualmente forte no jogo aéreo e a finalizar de primeira.

Um ponta-de-lança assim é raro (e curiosamente havia um protótipo de tal no banco). O que se viu hoje? Ádrian sem conseguir fazer o papel de Jackson. Nem era suposto, pois não tem características para isso. Uma, duas, três vezes em que Ádrian baixa para receber na zona central e perde a bola. Percebe-se que Lopetegui o teste na posição 9 enquanto Aboubakar está na CAN, e é de esperar que um jogador do estatuto de Ádrian cumpra minimamente bem o papel. Mas o jogador estava a começar a mostrar qualquer coisa a jogar a partir de um flanco e este jogo foi, digamos, um hiato na sua evolução. Adrian não pode jogar sozinho a 9. Ou joga a partir de um flanco ou como 2º avançado num 4x4x2.  Dado o contexto deste jogo, percebe-se a aposta na posição 9, mas não parece ser solução para quando for a doer.


domingo, 11 de janeiro de 2015

A crescer ao ritmo dos golos

Desde o empate no Estoril, o FC Porto venceu cinco de seis jornadas por três ou mais golos. O que estraga a pintura, como todos sabemos, é a derrota com o Benfica. É a diferença entre estar a 6 pontos do primeiro lugar e ser líder. Mas tirando esse jogo de má memória e atípico, há evolução. Há vitórias confortáveis. Há provas de valor da equipa. Há uma equipa que está a cumprir a sua obrigação e a fazê-lo de forma competente.

E no final ouvimos a promessa do pirralho Óliver Torres: «Ainda não viram o melhor FC Porto». Todos sabemos que nem o melhor FC Porto depende de si próprio para ser campeão, mas a vida e o projecto de um clube não se esgota numa época. Muito menos numa época que ainda nem a meio vai. Resta continuar a fazer a nossa parte, com qualidade e competência, e deixar que o Benfica perceba a mensagem: a pressão está do vosso lado, pois quando escorregarem vamos cair em cima de vocês. O mesmo grito de revolta que teríamos dado há 30 anos, portanto, e tentar encontrar o difícil equilíbrio entre determinação, confiança, arrogância e conformismo. Há igrejas. Há catedrais. E há ainda quem ajoelhe. Maio, esse mês religioso, ainda vai distante.





Herrera (+) - Continua a correr tanto como há um ano. Mas corre melhor. Cada vez mais inteligente na ocupação e criação do espaço, entende-se cada vez melhor com Óliver. Tem que aprender a finalizar melhor para se tornar num médio ainda mais completo, mas também já sabe tirar assistências da cartola. Excelente primeira parte, um pouco mais apagado na segunda. Imprescindível.

Óliver (+) - Obviamente, Óliver. Operário e maestro, equilibrador e desequilibrador em comunhão perfeitas. A visão de jogo no primeiro golo é de génio e a ratice no segundo idem. Há mil formas de festejar um golo, mas Óliver prefere apontar sempre para os adeptos. Consulta lá os teus ancestrais, porque de certeza que encontras antepassados com sangue azul.

Efeito Ádrian (+) - Quaresma saiu com cara feia e Quintero entrou com a mesma feição. O resultado estava feito, pouco mais havia a contar. Ádrian entra para os últimos minutos. Pega na bola, encara rapidamente a defesa, deixa um, dois para trás. Aplausos. Volta a pegar na bola, deixa um, dois para trás. Aplausos. Tenta um toque bonito com o calcanhar, perde a bola. Aplausos. É assim que se ganha um jogador: com determinação do atleta e apoio dos adeptos. Bonito de se ver.

Outras notas (+/-) - Laterais competentes, equilibrados, mas com algum desacerto na hora de cruzar e alguns passes errados. Centrais sem sobressaltos, tirando um toque de calcanhar de Maicon, mas devidamente compensado com aquele grande corte nos descontos. Quaresma tentou sempre ser interventivo e não lhe faltou atitude, mas nem sempre decidiu bem e não dá para mais que 65/70 minutos (mais ridículo do que a feição ao ser substituído é assobiar a substituição). Evandro teve um momento que já merecia. Um suplente de luxo.





Tello (-) - Não é que Tello tenha jogado mal. Foi perigoso nas diagonais, tentou combinar com o lateral, teve dois remates com perigo e tem um papel importante no segundo golo. Mas mantém-se o problema: sem a velocidade sobra-lhe muito pouco. Tem que aprender a fintar em espaço curto. Tem que saber como ultrapassar um defesa sem que isso implique dar-lhe 5 metros de avanço. Tem que procurar jogar mais ao primeiro toque. Ainda é um produto inacabado, mas com Brahimi na CAN é preciso o melhor Tello. Mas se calhar, até no banco havia quem com o mesmo tempo de jogo teria feito tanto ou mais. Terça-feira será uma oportunidade para o mostrar.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Obviamente, Óliver

Do «não comento» chega-se com facilidade ao «não desminto». E se não desminto, «admito». É o suficiente para criar uma história ou alimentá-la. Neste caso uma história por muitos ansiada: a permanência de Óliver Torres no FC Porto.

Muita especulação...
Enrique Cerezo diz a O Jogo a frase mais básica e natural de todas. «É natural que o FC Porto queira ficar com Óliver». A notícia estaria em dizer o contrário. Qual é o objectivo do FC Porto? Ganhar títulos. Como é que se consegue isso? Tendo uma equipa forte. Com Óliver Torres, o FC Porto é mais ou menos forte? Dispensa-se a resposta.

Infelizmente, o pensamento SADista de ver no futebol unicamente um negócio está cada vez mais enraizado em alguns adeptos. A ponto de ainda hoje criticarem o FC Porto por estar a valorizar Óliver Torres para o Atlético. Como se não estivesse a acontecer o contrário - Óliver é que está a valorizar o FC Porto, pois há um FC Porto com e sem Óliver. Com Óliver é muito mais forte. 

Claro que não é possível dissociar a vertente económica-financeira da desportiva. No FC Porto estão interligadas, Mas o objectivo principal é sempre o sucesso desportivo. Ter Óliver Torres, mesmo por empréstimo, deixa o FC Porto mais perto desse sucesso desportivo. Submissão? Parvoíce. Qualquer jogador titular do FC Porto iria para o Atlético, vice-campeão europeu e campeão espanhol. E nenhum titular do Atlético iria para o FC Porto. É a realidade, não necessariamente pela dimensão do clube, mas pelo contexto desportivo e financeiro em que está envolvido.

Nos últimos 10 anos o FC Porto só teve 6 emprestados. Uma média das mais baixas que hão-de encontrar no futebol europeu. Ter jogadores emprestados é uma operação natural. No FC Porto criou-se um preconceito em redor disso, unicamente pela obsessão (e necessidade) de comprar-valorizar-vender. Mau é investir milhões em jogadores que nem sequer entram para melhorar o 11 titular. Ólivers? Mais, por favor.

... e uma certeza: craque
Dito isto, o plano para manter Óliver em 2015-16. Um plano que não é mais que especulação e uma sopa de possibilidades. Claro que o FC Porto gostaria de manter Óliver. Claro que Óliver gostaria de ficar no FC Porto de Lopetegui se não entrar nos planos de Simeone. Mas certezas não há absolutamente nenhuma.

É normal que Óliver não tenha feito parte do plantel do Atlético de Madrid. Afinal trava-se de um suplente do Villarreal. Mas há uma grande diferença entre ser um suplente do Villarreal e o maestro do FC Porto. Óliver é hoje muito mais jogador do que era há seis meses. Diz-se que não se enquadra no estilo que Simeone prefere. Um dia hei-de descobrir que tipo de estilo prescinde de um jogador combativo, tecnicista, tacticamente inteligente, que joga e faz jogar, se adapta a várias posições e momentos do jogo e nunca se esconde de nada. Hoje não é o dia.

Pagar a cláusula de rescisão de Óliver é impossível. Uma contratação a título definitivo teria que envolver várias partes, nomeadamente clubes, Gil Marin, Jorge Mendes e o próprio Óliver. Renovar o empréstimo, quiçá. Muitas possibilidades e especulações, nenhuma certeza. Aliás, há uma certeza: este Óliver tem lugar em qualquer FC Porto, seja à luz de que contrato for. E se se conjugar alguma possibilidade de permanência, será sempre uma excelente notícia para a principal ambição do FC Porto: o sucesso desportivo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Deu para muito e dá para muito mais

O Gil Vicente é fraquito. Quão fraquito? Tão fraquito que em 15 jornadas ainda não venceu um único jogo. E tão fraquito que para perder na Luz teve que ser com um golo em fora-de-jogo. A vitória por 5x1 foi justificada em pleno e podia ter sido bem mais gorda. Dava para mais em Barcelos... e pode dar para muito mais nas 19 finais que restam até ao final do Campeonato.

Os primeiros 20 minutos foram maus, mas apesar de ser essa a vontade de todos não é fácil entrar a matar. Muito menos contra uma equipa ultra-defensiva, no único campo em que o FC Porto de Vítor Pereira perdeu no Campeonato e contra um treinador que, durante mais de 5 anos, foi o único a ir buscar três pontos ao Dragão. Mesmo contra dez em grande parte do jogo, a partir daí foi do melhor FC Porto que se viu esta temporada. Em qualidade, dinâmica, concentração e sobretudo em atitude.

Apesar de Brahimi e Aboubakar terem partido para a CAN, Lopetegui tem margem para rodar convenientemente o plantel entre Taça da Liga e Campeonato nas próximas semanas. Há segundas linhas que vão aparecer em Janeiro com maior espaço, o que vai permitir evoluir alguns jogadores e aumentar a competitividade do plantel. E acima de tudo, aproximar este FC Porto da dimensão que 23 mil adeptos num treino merecem.





Óliver (+) - Com a expulsão de Jander, o Gil Vicente perdeu a (pouca) capacidade de pressão que tinha no meio-campo. Isso permitiu que Óliver pudesse receber a bola em zonas mais adiantadas e que não estivesse tão agarrado ao início de construção. O resultado foi uma exibição de requinte, no papel de organizador de jogo, a oferecer sempre uma linha de apoio ao portador da bola. O golo foi um pormenor que a sua exibição, já fantástica, dispensava. Gracias a Lopetegui por ter convencido os adeptos - e sobretudo a SAD - que ter um miúdo de 19 anos emprestado era uma boa ideia. Poucos ou nenhuns achariam o mesmo e este mérito, aqui, jamais será esquecido.

Dinâmica e atitude (+) - A facilidade com que o FC Porto conseguiu criar situações de finalização e entrar na grande área foi assustadora, no bom sentido. O facto do Gil Vicente estar reduzido a 10 contribuiu para isso, mas o FC Porto nunca se encolheu, nunca abrandou o ritmo de jogo e procurou sempre o próximo golo. Os 5 golos não nasceram por o Gil Vicente ser ultra-defensivo, nasceram por o FC Porto estar sempre com o pé no acelerador. Isso levou a que nem me chateasse com a expulsão de Alex Sandro: ao minuto 90 ainda foi com tudo tentar ganhar uma bola. É esta a raça que faz os campeões, rapazes.

Outros apontamentos (+) - Madjer, perdão, Indi foi verdadeiramente uma excelente contratação do FC Porto. Isto porque por norma os nossos patrões da defesa ou são criados por cá ou precisam de 2 ou 3 anos de casa para se adaptarem. Indi chegou e mandou. Herrera pecou pela finalização (quem aparece tão bem em zonas de finalização tem que ser mais eficaz), de resto esteve em bom nível, dinâmico e a assegurar a verticalidade do meio-campo. Brahimi regressou ao seu nível na segunda parte (onde também vimos o melhor Danilo), Jackson Martínez desperdiçou algumas ocasiões mas fez o golo da ordem e voltou a mostrar que tem reportório para ser mais do que um finalizador. Até deu para Ádrian se envolver na manobra colectiva da equipa, finalmente, e não parecer um corpo estranho.





Duo em baixa (-) - Um bom golo não faz uma boa exibição. Mais que isso, nem sempre salva uma má exibição. Casemiro fez um golo de levantar qualquer estádio, mas até aí foi um acumular de erros que volta a dizer que a titularidade só se vai justificando por estatuto (e pela ausência de Rúben Neves). O problema nem é, como se ia vendo de Ádrian, o passar ao lado do jogo; é fazer asneira quase sempre que interfere no jogo. Oxalá que o grande golo seja o despertador. E mais uma prova de que vir de um clube grande não é garantia de nada é Tello. Sem Brahimi, esta é altura de ver o Tello rápido, explosivo, que entra com facilidade na grande área e é forte no um para um. Nos últimos jogos, tem-se visto pouco mais que zero. Em Barcelos foi mesmo um zero, tanto que Lopetegui não lhe deu mais que 5 minutos para se redimir da má primeira parte. Se o Barcelona te quiser fazer regressar de certeza que não é pelas boas exibições, Tello.