segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Víctor Garcia, Gudiño e Quintero

Até 2020
Não há como abordar estes temas sem fingir qualquer tipo de surpresa. Víctor Garcia renovou, Gudiño também e Quintero também. São três promessas que ainda podem dar muito ao FC Porto. Mas são também mais um exemplo de uma gestão que deixa muito a desejar.

Começando por Raúl Gudiño, era por de mais óbvio que um contrato de três anos para o guarda-redes mais caro da história do clube era um disparate. Todos conhecem o potencial de Gudiño. É provavelmente o melhor guarda-redes a jogar numa equipa de formação do FC Porto na última década. Mas deram-lhe apenas um contrato de 3 anos.

Que significava isso? Que a curto prazo o FC Porto voltaria a fazer-lhe um novo contrato, que implicaria novamente o pagamento de comissões. Porque é isso que acontece: gerir assim este tipo de contratos resulta, meramente, no pagamento de comissões a dobrar. 

Mas o caso de Víctor Garcia é mais grave. Recordando um post anterior:

Até 2020
«O FC Porto podia tê-lo comprado logo no primeiro ano em que esteve emprestado? Podia, pois podia. Mas terá sido mais interessante deixar que fosse a Northfields Sports, uma empresa de Marcelo Simonian, a comprar primeiro Victor Garcia, por uma ninharia, para depois o FC Porto comprar 50% do passe com inflação: 1,8M€. Alguma vez viram algum jogador sair da Venezuela com uma avaliação de 3,6M€?»

O pior não foi pagar 1,8M€ por Víctor Garcia. Foi ter-lhe dado apenas um contrato de um ano! Em dezembro, Víctor Garcia lá renovou até 2020. A SAD pagou comissões a dobrar numa operação incompreensível, pois se o jogador mais caro da Venezuela só tem direito a um contrato de um ano...

Quanto a Quintero, continua a ser o que era quando foi contratado: um projeto de jogador. Um rapaz com talento, mas muito longe de ainda ser um futebolista capaz de jogar numa equipa grande.

Até 2021
A isso muito se deve a falta de empenho de Quintero nos 2 primeiros anos do FC Porto. Chegou a pensar que era a estrela, que era o melhor sub-20 do Mundial, e esqueceu-se que no FC Porto só vinga quem trabalha ao máximo. Não jogou mais com Paulo Fonseca porque se aplicava pouco nos treinos. Não ficou com Lopetegui por não se aplicar o suficiente e estar sempre chateado com o mundo.

Ainda assim, a SAD assumiu um investimento de 9,5M€ nos 100% do passe de Quintero. Como o contrato acabava em 2017, ou se assumia o prejuízo e procurava-se a transferência definitiva, ou aumentavasse ainda mais a aposta em Quintero, mesmo sem este nunca ter dado provas de evolução. A SAD escolheu o segundo caminho.

A experiência de Quintero em França não está a ser a melhor. Só começou a ser titular no fim de novembro e tem apenas um golo e duas assistências. Falta-lhe tudo o que um grande futebolista precisa de ter: regularidade, consistência e grande disponibilidade de trabalho. Ter olhinhos no pé esquerdo não chega.

Mas após esta renovação, de 4 anos, só podemos admitir que Quintero vai regressar ao plantel do FC Porto no verão. Sobra a questão: que treinador é que a SAD idealizou para ajudar Quintero a evoluir no curto prazo? Uma renovação destas pressupõe grandes planos para Quintero, e de Quintero para o FC Porto. O mesmo se aplica a Gudiño e Víctor García: não ter planos de médio prazo após estes negócios, nomeadamente de integração no plantel em 2016-17, seria simplesmente um mau ato de gestão.

PS: O treinador será tema depois de ser apresentado, pois primeiro é preciso ouvir que justificação Pinto da Costa tem para todo este processo.

Sem condições para ser campeão

Tentemos contextualizar isto com cara séria, sem ninguém se rir: numa jornada em que o primeiro classificado empata em casa com o último, o FC Porto consegue ficar ainda mais distante do primeiro lugar, sem depender de si próprio para ser campeão; e no espaço de 4 jornadas, o FC Porto perdeu 8 pontos para o Benfica de Rui Vitória. Inaceitável, e assim não há a mínima hipótese de lutar pelo título de campeão.

Não há milagres
O erro de Casillas mudou toda a história do jogo. O Vitória de Guimarães mostrou ser uma equipa limitada, de futebol pobre, sem ideias ofensivamente e limita-se a manter um bloco defensivo coeso e organizado. Mas o mais grave é mesmo isso: não precisaram de jogar porra nenhuma para ganharem ao FC Porto.

Não há milagres, e esta derrota é da inteira responsabilidade da administração do FC Porto. Se olharmos ao que foram as opções técnicas ao longo da partida, haveria muito a criticar. Mas ninguém pode levantar uma única crítica a Rui Barros. Ninguém tem direito a fazê-lo. E a justificação é muito simples: por maior que seja o elefante na sala, Rui Barros não é treinador principal. Não pode ser responsabilizado.

A culpa, ou responsabilidade, aplica-se a quem despediu Lopetegui sem ter uma 
única alternativa em vista. Já lá vão 11 dias desde que Lopetegui foi despedido, e desde então Rui Barros foi exposto a uma situação estremamente desconfortável, à qual só quem ama o clube se sujeita. Haveria pelo menos três ou quatro «Machados» a aplicar à estratégia e à gestão do jogo, mas não há moral absolutamente nenhuma para criticar Rui Barros. A responsabilidade, além dos jogadores, é da administração do FC Porto.

Se o pós-Lopetegui já seria difícil - só alguém iludido poderia pensar que, saindo Lopetegui, a partir daqui seria um mar de rosas -, assim será muito mais. Já não é o título a estar em risco, mas sim o apuramento direto para a Liga dos Campeões.





Esboço de reação (+/-) - Não houve muito a destacar positivamente no FC Porto. Maxi Pereira esteve sempre ao ataque, cruzou com perigo e foi possivelmente o mais empenhado em campo. Herrera estava a ser o melhor do FC Porto, o único a conseguir fazer sempre circular a bola e a criar linhas de passe nas variações, mas incompreensivelmente saiu (poderíamos pedir responsabilidades se tivéssemos, de facto, um treinador principal no banco). E Brahimi, apesar dos habituais exageros, ainda foi o único a acrescentar alguma magia à anarquia tática do FC Porto, tendo sido o mais perigo num jogo em que quase não criámos ocasiões de golo (o jovem guarda-redes adversário só teve que ir ao chão buscar bolas perdidas). Destaque para a dimensão física que Danilo emprestou ao jogo e para a entrada de Varela.





Casillas (-) - Cada bola que foi parar ao seu raio de ação fazia-o tremer como não se via num guarda-redes espanhol desde Roberto. Ficou claramente sem confiança devido ao lance do golo, um lance que ironicamente abordou com demasiada confiança (a mania de tentar sempre agarrar a bola tinha que correr mal um dia). Pior exibição com a camisola do FC Porto, a tirar o que deu no penálti defendido diante do Tondela. Errou, Casillas sabe que errou, mas também não tem culpa de à sua frente estarem 10 jogadores que não criaram uma única grande ocasião de golo.

Aboubakar (-) Chegámos à fase em que ser muito humilde, trabalhador e bom rapaz já não chega. Nem um remate, nem um passe, nem sequer uma progressão de 3 metros com bola. Aboubakar não conseguiu fazer nada de positivo ao longo da partida e sempre que era solicitado o FC Porto perdia o lance de ataque. Exibição péssima, daquele que é e vai continuar a ser o ponta-de-lança titular do FC Porto - quem acha que é Suk quem vai, a curto prazo, mudar isso só pode mesmo que estar com muta ilusión.

Outros destaques (-) - Layún teve sempre grande disponibilidade a subir, mas não acertou um cruzamento. Corona adornou demasiado os lances, foi lento a executar e acabou substituído depois de um bom começo de jogo. André André esbarrou sempre contra a defesa adversária, mas o lance do minuto 30 é mau de mais: perde a bola e fica parado em campo, em posição de fora de jogo, durante meio minuto a apertar a chuteira. A sua melhor fase parece já ter dias distantes.

Será mesmo o melhor plantel? (-) - Estas foram as três respostas ao resultado que saíram do banco do FC Porto: Varela, que não é titular no campeonato desde agosto; André Silva, inexperiente e vítima do mau momento da equipa (em 5 jogos com ele em campo, o FC Porto só ganhou o jogo da Taça no Bessa, em que ele entrou aos 90 minutos); e Sérgio Oliveira, que se estreou no campeonato para passado 10 segundos ver cartão amarelo. Foram estes 3 jogadores em que o FC Porto apostou quando estava a perder por 1-0 e a 5 pontos do Sporting. Isto parece um banco digno de uma equipa que assume querer ser campeã nacional?

A super-estrutura, sobre a qual alguém um dia disse que valia mais do que qualquer treinador - «No FC Porto qualquer treinador é campeão» -, vai para o 12º dia ainda sem oficializar a contratação do sucessor de Lopetegui. Que bem está a correr.

À data de hoje, o FC Porto não tem condições para ser campeão nacional. Ainda há tempo para mudar isso, mas não é com esta postura, nem com estes protagonistas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

De Osvaldo a Suk e um salto a Carregosa

Osvaldo foi uma grande jogada de risco na tentativa de ganhar uma solução. Correu mal. Só não sabemos o quão mal correu, pois o FC Porto nunca clarificou o moldes da transferência de Osvaldo.

Vai e não voltes
A única coisa que se soube foi que Rui Gomes da Silva, vice-presidente do Benfica, afirmou em direto na SIC Notícias que Osvaldo custou 4M€. O FC Porto nunca o desmentiu, e no R&C do primeiro trimestre apresentou despesas não discriminadas com outros jogadores de 8,62M€. Para quem se deu ao trabalho de desmentir os números da transferência do Hernâni, há um ano, numa diferença pouca, e não o faz quando Osvaldo é falado por 4M€, deixa a desejar a nível de coerência.

Osvaldo foi um erro, um playboy que estava mais interessado nas portuenses e no Porto do que no FC Porto. O Tribunal do Dragão escreveu na altura que Osvaldo nunca foi um goleador na carreira, mas havia a expetativa de que conseguisse pelo menos lutar pela titularidade com Aboubakar. Não resultou. E Osvaldo estava a ganhar o dobro de Aboubakar. Não deixa saudades e sai na linha de Pizzi.

Chega então Suk, uma opção muito longe de reunir consenso. Não é melhor do que Aboubakar neste momento e a médio prazo não promete mais do que André Silva. São jogadores diferentes, mas isso não é necessariamente bom.

Já estava contratado antes de Lopetegui ser despedido e entretanto vai chegar um novo treinador (que salvo um volte-face será Sérgio Conceição), o que deixará sempre Suk pendente face à sua integração nos planos do futuro técnico. Mas a maior incógnita prende-se com as caraterísticas de Suk, desadequadas ao modelo que o FC Porto teve nos últimos anos.

Suk é um avançado que faz a diferença quando tem 40 metros à sua frente, quando está num modelo de jogo que lhe permite ter profundidade. Nunca jogou numa equipa como o FC Porto, de posse, que joga com o avançado como apoio e não como referência para o passe longo. Vai acontecer o mesmo que a Hernâni há um ano (com a diferença de que Suk é mais jogador e tem mais provas dadas): ou o seu futebol sofre uma formatação ou vai ter dificuldades em entrar na equipa.

Ainda não sabemos que uso o futuro treinador do FC Porto quererá dar ao ponta-de-lança, mas não será difícil imaginar que manterá o 4x3x3. Suk jogava num esquema e modelo diferente em Setúbal, e é difícil encaixar este tipo de jogadores no mercado de inverno.

Suk até 2020
Suk gosta de tentar a meia distância e de assumir o um para um, mas não está habituado a jogar sem espaço, que é o que vai acontecer no FC Porto. Algo que pode não parecer importante, mas que é, é o facto de Suk ser... sul-coreano. Os futebolistas asiáticos, salvo algumas exceções, são por norma muito humildes, disciplinados, respeitadores, com muita vontade de aprender e trabalhar. São pontos a favor de Suk, pois não têm cá faltado pontas-de-lança com qualidades, que tinham que mudar/evoluir, mas não tiveram humildade para o reconhecer, exemplos vão desde Walter ou Ghilas a Osvaldo.

Suk, que terá custado um pouco mais do que os 1,7M€ noticiados (só se saberá no R&C - e também falta confirmar que foi Alexandre Pinto da Costa, uma vez mais, a lucrar num negócio do FC Porto), não é de todo a solução ideal, mas é ele quem já cá está. Resta desejar boa sorte ao sul-coreano, esperar que lhe deem espaço competitivo já na Taça da Liga e que consiga fazer dois pares de golos importantes na segunda metade da época. E oxalá que no verão não esteja já na lista de emprestáveis.

E por falar em empréstimos. O FC Porto sempre falou dos fundos como sendo importantes para chegar a jogadores mais caros. Tudo bem. Mas os leaks desta sexta-feira mostram que os fundos já servem outro propósito para a SAD, bem mais preocupante.

Conforme O Tribunal do Dragão aqui analisou na altura, o 3º trimestre foi particularmente difícil em termos financeiros para o FC Porto, que teve que recorrer a múltiplas formas de financiamento para pagar todas as despesas correntes (um crédito de 3M€, a 2 meses, com o Banco Carregosa, mais 1,5M€ com o Montepio e um financiamento de 5M€ da - não vale a pena googlarem - For Gool Co Ltd, que tem Herrera como garantia e retorno em caso de transferência). 

É normal para uma SAD, cujas receitas não constantes, ter que recorrer a créditos ao longo do ano para pagar todas as despesas. O que não é normal é ter que ser a Doyen a pedir um empréstimo para o FC Porto.

Com patrocínio da Doyen
Segundo os documentos leakados, o FC Porto começou por pedir um empréstimo de 3M€ à Doyen, que disse não ter fundos para isso. Então a Doyen assegurou as garantias sobre 80% do valor pedido pelo FC Porto ao Banco Carregosa, com a Doyen a entrar em contacto com o banco para que o empréstimo fosse feito. Contratamos jogadores da Doyen, com a Doyen, pagamos relatórios de jogadores, de scouting e de preferência sobre atletas à Doyen, e agora também usamos os connects da Doyen para ter dinheiro líquido.

Isto já não é depender dos fundos para contratar jogadores mais caros. É depender de fundos para conseguir financiamento para pagar salários e despesas correntes. Isto supera o limite do admissível na ligação aos fundos. Mais do que dependência, já começa a ser uma questão de sobrevivência para o FC Porto. Não queremos mais quatro anos disto.

PS: Suk é natural de um país asiático, com quase 50 milhões de habitantes, que tem uma das 15 economias mais ricas do mundo e poucos jogadores nacionais a jogar num clube do calibre do do FC Porto. E ainda assim, a sério que apresentam o rapaz com uma camisola sem patrocinador? Há muita gente a dormir.

PS2: Até domingo Rui Barros será o treinador do FC Porto e é com ele que vamos tentar buscar três pontos a Guimarães. A partir de segunda-feira será tempo de falar do seu sucessor.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A Taça e três elefantes na sala

Um dérbi à antiga: um Boavista a jogar sob a máxima «é canela até ao pescoço» e um FC Porto a ter que lutar contra muito mais do que 11 jogadores do outro lado. A equipa sobreviveu e apurou-se para as meias-finais da Taça de Portugal. Faltam 3 jogos para atingir o objetivo de regressar aos títulos esta época, e numa eliminatória a duas mãos (algo feito pela FPF para ajudar os clubes grandes a chegar ao Jamor) não pode haver desculpa nenhuma para admitir outra coisa que não seja eliminar o Gil Vicente (há quanto tempo ninguém ouve o Fiúza falar?).

Lisboa é que é bom
O FC Porto ganhou, mas há muito mais a discutir. Não só a questão do treinador, mas sobretudo o que se passou ontem no Bessa. Tanto a expulsão de Imbula como o penálti de Indi não deixam margem para dúvidas: são boas decisões. O problema foi o critério utilizado por Nuno Almeida, o árbitro algarvio que só serve para apitar nos estádios de Benfica e Sporting.

É ver para crer: Nuno Almeida apitou 12 jogos do Benfica, dos quais 11 em casa. O único que apitou fora foi... o jogo entre Arouca e Benfica, em campo neutro, em Aveiro. A jogar em casa e apitado por Nuno Almeida, o Benfica tinha vencido sempre todos os jogos.

O historial com o Sporting também é maravilhoso: em 15 jogos, 14 em Alvalade. Os 12 primeiros foram todos em Alvalade. Ao 13º, foi a Vizela arbitrar um jogo fácil para o Sporting, da Taça de Portugal. 

Em relação ao FC Porto, foi o 10º jogo, o 4º fora de casa. No espaço de 1 ano, Nuno Almeida já arbitrou dois jogos do FC Porto fora de casa, tantos quanto Benfica e Sporting nos últimos 13 anos em que arbitrou. É um exemplo do critério de Vítor Pereira.

Que faz o FC Porto em relação a isto? Uma piadinha no Dragões Diário. O critério de Vítor Pereira e Nuno Almeida quase atiraram o FC Porto para fora da Taça de Portugal - neste momento o troféu que mais hipóteses temos de conquistar. Que faz o FC Porto? Nada, zero, caladinho. Agora ainda pior, pois já não temos um treinador que se insurja contra isso nas conferências de imprensa.

E agora falamos do nosso Rui Barros. Ele próprio o diz: é um homem grato ao FC Porto, ao serviço do FC Porto, que vai dar sempre o melhor de si. Só há um problema: não é, nunca foi, e nunca quis ser treinador principal de futebol.

Muitos outros ex-jogadores do FC Porto fizeram parte de equipas técnicas do clube, mas a determinada altura quiseram dar os seus próprios passos de treinador. De João Pinto a Domingos, de Pedro Emanuel a Capucho, há muitos exemplos de homens que quiseram efetivamente ser treinadores principais.

Não é o caso de Rui Barros. Ele é portista, sente-se bem no FC Porto e quer contribuir para o clube. Dará sempre o seu melhor. Mas não é treinador principal.

Portista, mas não treinador
Nem vale a pena discutir o perfil técnico-táctico, nem o facto de ter trabalhado de perto com vários treinadores do FC Porto (Nuno, Pedro Emanuel e Costinha são exemplos de treinadores de quem se dizia terem absorvido os conhecimentos de Mourinho, mas saíram pela porta pequena dos clubes por onde passaram). Rui Barros é demasiado boa pessoa e demasiado correto para exercer um cargo desses. Rui Barros não será o tipo de treinador/homem que vai repreender os jogadores do FC Porto, que se vai insurgir contra as arbitragens, que vai ter o punho de ferro que se exige no dia a dia de um treinador do FC Porto. Não é um comunicador, tanto que, na sua humildade, até deixou escapar na flash-interview que ia ser o treinador em Guimarães, tendo depois sido obrigado a corrigir isso na conferência de imprensa. É um amigo, uma pessoa agradável, mas tem pouco ou nada daquilo que caracteriza um grande treinador principal.

Enquanto estiver no cargo de treinador, Rui Barros não vai receber outra coisa que não seja apoio. Porque a responsabilidade não é sua. Não é treinador principal, nunca foi, logo não lhe podemos exigir o quer que seja. Está no cargo que ocupa de alma e coração, mas não será a ele que se podem apresentar as faturas em caso de falhanço de objetivos. Se Lopetegui ainda cá estivesse, de certeza que culpavam Lopetegui. Como já não cá está e Lopetegui já não pode ser culpado (ou será que pode?), não esperem que isso recaia em Rui Barros.

Daí que faça este comentário aqui, e não nos Machados, pois Rui Barros jamais poderá estar associado a algo negativo neste FC Porto: a hesitação após a expulsão de Imbula. O FC Porto estava rebentado fisicamente e não tinha meio-campo. Brahimi estava esgotado, Varela só fechava o flanco e Herrera estava sozinho a segurar o meio-campo todo. Rui Barros demorou 16 minutos a decidir entrar Rúben Neves, e olhava para ele de minuto a minuto, com claro ar de indecisão. Podia ter custado caro, pois aqui é o treinador quem tem que dar a resposta. Mas acontece que Rui Barros, um grande futebolista do FC Porto, não é treinador.

Portanto, quando Pinto da Costa disse que o futuro treinador do FC Porto vai ser «uma pessoa», não foi de todo a resposta ideal. Pelo menos, que seja um treinador.





Herrera (+) - Foi ele, quase sozinho e como pôde, que segurou o meio-campo do FC Porto na segunda parte. Fechava os espaços, segurava a bola e pressionava quase num fenómeno de omnipresença. Ainda conseguia levar a bola ao ataque, como foi exemplo o último remate de Aboubakar. Teve a importante ajuda de Danilo a proteger as suas costas. Desde a saída de Evandro (que até estava muito bem na partida), Herrera teve que jogar por dois: primeiro quando Imbula estava em campo; depois quando Imbula saiu.

Brahimi (+) - Um lance, uma eliminatória. Contra-ataque, deixa dois jogadores para trás e finaliza com eficácia. Fosse sempre assim. Foi o jogador em maior evidência na primeira parte e entendeu-se bem com Layún nas subidas pelo corredor. Bonita a forma como festejou o penalty defendido por Helton.

Varela a defender (+/-) - A atacar, foi quase uma nulidade. A defender, esteve impecável. A verdade é que qualquer lateral gosta de jogar com Varela no seu flanco, pois é um jogador inteligente, certinho taticamente, que está sempre bem posicionado no momento defensivo. O problema é que quando elogiamos um atacante pelo que este faz defensivamente, é porque falta algo no ataque. A Varela, faltou-lhe tudo do meio-campo para a frente. Defensivamente, esteve impecável.

O momento (+) - Primeiro, Indi salvou Helton de uma grande asneira, embora tenha sido mais demérito de Uchebo do que o contrário. Depois, foi a vez de Helton salvar um disparate de Indi. Helton detesta ser suplente, e não é Casillas que muda isso, mas quando é chamado a campo diz presente. Merece ir ao Jamor e ir à tribuna levantar esta Taça.







A entrada de Imbula (-) - Não é só a entrada para a expulsão: é a entrada em campo. Os adeptos têm que meter algo na cabeça: quem se esforça e trabalha ao máximo nos treinos, joga. É sempre assim. Os treinadores são sempre sensíveis ao trabalho desenvolvido pelos seus jogadores ao longo da semana. Imbula não joga mais porque parece que anda cá a passear e a fazer um favor ao FC Porto.

Acorda, rapaz!
Absolutamente inaceitável a sua postura em campo. Quando olhamos para ele, vemos que há ali um touro capaz de pegar na bola, arrancar, deixar dois ou três jogadores para trás e criar logo perigo. Nós já o vimos fazer isso, sabemos que há ali talento - não de 20M€, oh se não, mas há ali coisas boas.

O problema é que o Imbula que vemos em campo é lento, preguiçoso, completamente à margem da equipa. Mesmo que tenha entrado a frio, após a lesão de Evandro, teve o intervalo para aquecer como devia ser. Mas nada mudou. Não recupera bolas, não age com rapidez, não pressiona, não transporta, não mete o pé, nada. 

É certo que nem era suposto Imbula vir para o FC Porto, mas a Doyen não se entendeu com os parceiros de Milão e Imbula veio fazer uma época ao futebol português. Esperavam que chegasse, engatasse e se valorizasse a grande nível. O problema é que para isso é preciso uma coisa muito importante: trabalhar. Imbula anda desinteressado, próprio de quem sabe que, jogando bem ou mal, no fim da época já terá para onde ir. O problema é que é o FC Porto quem lhe paga, todos os meses, o salário. Mas Imbula pouco ou nada se esforça e nem a saída de Lopetegui lhe parece ter dado vontade de acordar. Se não soubéssemos que há ali potencial, ninguém se dava ao trabalho de se preocupar. Mas exigimos muito mais de Imbula pois sabemos que ele pode dar muito mais. Pode e deve, se não que se faça a vontade do pai dele. 

Muitos adeptos, há uma semana, diziam que queriam ver o que Imbula faria com um bom treinador. Eu estou mais interessado em ver o que Imbula faria comportando-se como um futebolista profissional do FC Porto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

¿Por qué te callas? A Robertada

O Football Leaks foi vítima do seu próprio mediatismo: começou a divulgar tantos documentos, alguns que nada acrescentavam, que a determinada altura as notícias que envolviam os leaks começavam a ser recebidas com alguma indiferença.

A imprensa portuguesa também ajudou, ao deixar de publicitar este blogue - quase todos os meios de comunicação desistiram, de um momento para o outro, de o fazer, exceção feita ao jornal Record. Quando foi para divulgar coisas como o contrato de Jorge Jesus e algumas transferências do FC Porto, até espaço em debates televisivos tiveram. Agora, fez-se silêncio.

A determinada altura muitos questionavam por que é que não apareciam informações sobre os negócios mais obscuros do Benfica, em particular o caso Roberto. Pois bem, apareceram informações bastante curiosas sobre o negócio Roberto. Viram-las em algum jornal ou meio de comunicação?

Houve apenas um jornal a escrever sobre isso: o Record, através do jornalista António Varela. Pois bem, mas acontece que o Record decidiu voltar atrás e apagou a notícia (o link original era este) que havia escrito sobre Roberto. Infelizmente para eles, ainda está disponível em cache. Passando a reproduzi-la abaixo:



Que se passou, Record? A notícia deixou de ter pertinência informativa de um momento para o outro? Ou será que a sua publicação chateou alguém? Por qué te callas, Record? Vá, para que o Record não esteja sozinho nesta guerra, vamos falar um pouco da transferência de Roberto.

A ver se ninguém se perde pelo caminho: Roberto foi transferido para o Saragoça em 2011, por anunciados 8,6M€, dos quais o clube na verdade só pagou 1%, ou seja, 86 mil euros.

Duas épocas depois, o Benfica, num brilhante ato de gestão desportiva, voltou a contratar/recuperar Roberto, alegando que o fez porque o BE Plan, a entidade que deveria ser responsável por 99% do pagamento, não o fez. Como todos saberiam, à partida, que não o faria, daí a expressão «milhões da treta» usada de pronto por Pinto da Costa.

O Saragoça estava falido, com uma dívida superior a 100 milhões de euros, e devia mais de 15 milhões a ex-jogadores. Não poderia nunca comprar um jogador por 8,6 milhões. Entrou então em cena a BE Plan, que incluía três sociedades comerciais: a BE Plan Energia 1, a BE Plan Energia 2 e a BE Plan Energia 3. Todas elas tinham como representante Agapito Iglesias, que, tal como Luís Filipe Vieira, se trata de um empresário da construção civil.

Ora, isso é ilegal, pois os dirigentes de clubes não podem ter participações em negócios de jogadores. Era claramente o caso de Agapito Iglesias em relação a esta transferência de Roberto.

De volta à cronologia da Robertada, o Benfica tinha informado a CMVM, em 2013, que recuperou o passe de Roberto devido a incumprimento do Saragoça. Mas a tal notícia apagada pelo Record, com base nos documentos da Football Leaks, mostra que o Benfica pagou 86 mil euros para voltar a ter os direitos federativos de Roberto.

«São milhões da treta». E eram!
E então Roberto assinou um novo contrato com o Benfica, válido até 2017. O Benfica não informou o mercado regulador sobre esta pertinente informação. O guarda-redes foi então emprestado ao Olympiacos, em 2013/14, após acabar a época no Saragoça. Até que a 4 de fevereiro de 2014 Roberto rescindiu com o Benfica; depois assinou pelo Atlético; e um dia depois estava a ser anunciado a título definitivo no Olympiacos.

Ora Saragoça, Atlético, Benfica, Olympiacos... Qual é o limite de inscrições por ano admitida pela FIFA? Por quantos clubes pode alinhar um jogador? Quais são as consequências em caso de incumprimento das regras? Podem perguntar ao Meyong e ao Belenenses, eles explicam.

O dinheiro de Roberto, que nunca entrou no Benfica, ficou então pendurado até fazerem de Pizzi o jogador mais caro da história do clube (14M€) e de terem avaliado Raúl Jiménez em 18M€ após uma época em que se só fez um golo em Espanha.

Todo este processo mostra como é fácil fornecer informação que não corresponde na íntegra à verdade. O Benfica não forneceu, como ordena a CMVM, informação de máximo grau de fiabilidade ao mercado durante o caso Roberto - até porque logo o primeiro comunicado anuncia um acordo com o Saragoça, e não com o BE Plan, por 8,6M€. Este tipo de negócios podem fazer as ações disparar e iludir os investidores. Que fez a CMVM? Estava muito ocupada, certamente.

Mas o mais curioso é que o Benfica vendeu Roberto a uma entidade que nada tinha a ver com futebol. A BE Plan foi criada em 2009, na altura no âmbito da construção de um parque eólico. A empresa de Agapito Iglesias estava registada no BORME como sendo uma entidade de «promoção e construção de todo o tipo de edifícios». Até que em setembro de 2011 decidiu mudar...


... Dois meses depois da transferência de Roberto, a BE Plan decidiu mudar e informou que passou a ser uma empresa «dedicada à representação de desportistas». Posteriormente, descobriu-se em Espanha que Agapito esteve envolvido, também com Jorge Mendes, em transferências de jogadores que nunca pertenciam efetivamente ao Saragoça, como foram exemplos Juan Carlos (Braga) e Tales (Sporting).

Sabemos que há alguns espaços na blogosfera que já debateram bastante a tendência/coincidência para o Benfica, que é presidido por um empresário da construção civil, adorar negociar com clubes que estão a construir novos estádios ou infraestruturas. Até onde se sabe, o facto de tanto Luís Filipe Vieira como Agapito serem empresários da construção civil e terem estado envolvidos nesta Robertada não é mais do que uma coincidência. Tal como foi coincidência que, depois da Robertada, Luís Filipe Vieira, na condição de empresário, tenha ido a Espanha fechar um negócio para um Complexo Turístico.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Desmistificando

Sai uma nova rúbrica: desmistificando. Teorias ou falsidades que alguns plantam e outros colhem. Por outro lado, uma espécie de desmancha-prazeres ao serviço da verdade.

Numa altura em que já conseguiram a proeza de apontar mais treinadores ao FC Porto do que jogadores espanhóis durante a era Lopetegui, nasceu algures a teoria de que Villas-Boas poderia rumar ao FC Porto por via de um acerto com o Zenit face ao pagamento de Hulk.

Como é óbvio, trata-se de uma mentira, pois o Zenit já não deve um único cêntimo por Hulk. O Zenit devia uma última tranche de 10 milhões de euros à entrada para 2014-15, e esta quantia foi direcionada para o pagamento de uma CCC do BES, que venceu em agosto de 2014.

No final do 1.º semestre de 2015-16, os clubes/empresas que deviam dinheiro ao FC Porto eram estas:

Como veem, o Zenit já não integra a lista de clubes devedores. Mas seguindo essa lógica AVB/Hulk/Zenit, vamos então negociar: descontamos uma bocado do Alex Sandro em troca do Allegri; ou o resto do Mangala a troco do Pellegrini. Pena que o Atlético já tenha pago tudo pelo Jackson, senão ainda dávamos um cheirinho no Simeone.

Que Pinto da Costa e Antero Henrique consigam, rapidamente, concretizar a contratação do novo treinador do FC Porto - ou, pelo menos, que já saibam quem é o alvo, o que já nem parece ser pedir muito. Importa resolver rapidamente a questão, não só para acabarem com essa dança de apontar 50 treinadores ao FC Porto (já agora, é suposto, com a saída de Lopetegui, dar um passo em frente - não é um passo atrás nem um passo ao lado), mas sobretudo para bem da equipa.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Chicotada psicológica

O termo «chicotada psicológica» é um dos mais bem conseguidos do léxico do futebol português. Porque trocar de treinador a meio da época é, sobretudo, retirar o ar pesado que se abate sobre uma equipa quando o treinador é contestado. Os jogadores são os mesmos, o trabalho desenvolvido até então é o mesmo, e muitas vezes o staff técnico também é o mesmo. Mas a disposição muda, pois o princípio básico quando se substitui um treinador é melhorar.

O FC Porto passou com tranquilidade e competência um teste que poderia tornar-se difícil. Exatamente o mesmo 11 do último jogo e uma primeira parte longe de ser brilhante, mas na segunda parte, sobretudo após o golo de Corona, a equipa soltou-se para uma agradável exibição.

Quarta-feira é dia de regresso ao Bessa, num jogo que certamente não será tão fácil como este último. É um ciclo em que seis dos próximos sete jogos são disputados fora do Dragão. Urge resolver a questão da equipa técnica o quanto antes, até porque não faz sentido reforçar e/ou arrumar a casa sem o aval do novo treinador.





Tração à frente (+) - Com ou sem cunho de Rui Barros, foi a grande mudança na estratégia do FC Porto em relação aos últimos jogos: o papel dos médios interiores no início de construção. Com Lopetegui, um dos médios baixava sempre para junto do trinco/pivô - e no último jogo viu-se o absurdo que era os três médios baixarem para o início de construção. Ontem, Herrera e André André nunca baixavam: Danilo Pereira ficava sozinho no início de construção, e os médios ficavam em zonas mais adiantadas para receber a bola. Isto pode ser um risco contra equipas que pressionam muito à frente, mas não num contexto de futebol português funciona bem. O FC Porto jogou mais a pensar na progressão e na baliza do que na linha de passe, o que fez a diferença.

O meio-campo (+) - Um regalo. Danilo fez um jogo quase perfeito, não só porque aguentou a retaguarda sozinho - deu velocidade à equipa no primeiro passe e, depois do 2x0, libertou-se para o ataque, tendo feito uma belíssima assistência e um belo golo de calcanhar. Herrera fez um jogo completo, de grande intensidade: apareceu na zona do ponta-de-lança (bom golo), esteve envolvido em todas as transições da equipa, impecável na variação de flancos, na pressão, na recuperação e a oferecer linhas de passe. André André esteve uns furos abaixo dos colegas de setor, mas não deixou de fazer um bom jogo, com a assistência para Herrera e no apoio aos flancos. Destaque ainda para a excelente entrada de Evandro na partida.


Outros destaques (+) - Além do envolvimento de Maxi Pereira e Layún (já leva 9 assistências) no ataque, é de destacar o papel de Brahimi e Corona nos flancos. O argelino é mais forte a puxar marcações; o mexicano é mais forte a furá-las. Brahimi foi o principal dínamo criativo da primeira parte, mas Corona roubou a cena pela forma como fez o 2x0 - pegar na bola, arrancar e rematar, com objetividade e velocidade. E claro, há que destacar Aboubakar. Começou por ser perdulário, como nos últimos jogos, mas apareceu no sítio certo para conseguir duas belas finalizações.

Nada a destacar negativamente, na medida em que se trata de um momento delicado para o clube, de transição - e ainda não se sabe para onde, ou para quem. Golear por 5-0 em casa do Boavista, coisa que não se via há 34 anos, é positivo sob quaisquer circunstâncias. Resta aguardar, continuar a apoiar os jogadores e dar máxima tranquilidade a Rui Barros para preparar o jogo de quarta-feira, no qual um dos objetivos da época estará em jogo.