quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Champions é nossa amiga

Oh, se é! O FC Porto não se pode queixar de falta de sorte nesta edição da Liga dos Campeões. 4 expulsões desde o playoff, mais um penalty, mais um adversário francamente banal pela frente (ainda que jogar na Bélgica não seja historicamente fácil - quem não se lembra do terror que foi em tempos visitar o Anderlecht?) e, uma vez mais, se o FC Porto não conquistasse pontos seria por manifesta aselhice própria. Um penalty caído do céu salvou a noite, mas infelizmente mostrou que a grande exibição realizada frente ao Nacional já está em pergaminhos passados: não foi ponto de viragem, foi até ver a exceção. 

Não é que uma vitória tirada a ferros, em cima do apito final, não saiba bem. Sabe. Mas já tivemos amostras suficientes disso esta época. Como não vai dar para contar sempre com um penalty nos descontos, há muito mais para melhorar - essencialmente, o mesmo desde o início da época - do que para celebrar. 




Layún (+) - Mal defensivamente na primeira parte, absolutamente decisivo do meio-campo para a frente desde então. Galvanizou a equipa para a reviravolta, não só pelo bom golo que marcou, mas também pela forma como empurrou a equipa para a grande área adversária, onde entrou 9 vezes, além de ter recuperado 11 bolas. Foi também o jogador com maior acerto de remate (3/4). Tendo em conta que a nossa dupla de avançados rematou pela primeira vez nos últimos 15 minutos, isso diz tudo do papel que Layún desempenhou em terrenos mais adiantados.

Iván Marcano (+) - Impecável. Em 3 jogos de Champions, fez apenas duas faltas. Isso não faz dele um central macio, mas sim que sabe jogar limpo, é prático, joga simples e evitou por várias vezes males maiores para a baliza do FC Porto. Está a ser dos melhores do FC Porto desde o início da época, e não é por um défice de qualidade em seu redor: tem mesmo sido eficiente. Não bate com a mão no peito, não dá entrevistas, não escreve #somosporto todos os dias: Marcano limita-se a ser um bom profissional, empenhado e responsável. Que ousadia, Iván!


Danilo Pereira (+) - Ser o médio-defensivo do FC Porto é uma trabalheira. A Danilo Pereira, não lhe bastou as muitas bolas que recuperou (9) e os lances de corpo-a-corpo que disputou contra os mais corpulentos belgas (14). Com Óliver a correr muito (está no top10 com mais quilómetros na Champions), mas sem grande orientação, e Héctor Herrera a regressar ao 8 (não a posição, mas o seu limbo de exibições entre o 8 e o 800), foi Danilo a empurrar a equipa para a frente, procurando correr para terrenos que não deviam ser seus. Quase sempre bem no passe (89%), uma garantia de equilíbrio. 

Outros destaques (+) - As entradas de Brahimi e Corona foram absolutamente decisivas. Agitaram um jogo no qual Herrera e Diogo Jota não estiveram bem. O FC Porto ganhou velocidade, verticalidade, capacidade de rasgo nas e a partir das alas. Se jogassem sempre com a postura e empenho demonstrado ontem, Nuno dificilmente pensaria em abdicar do 4x3x3. Otávio voltou a estar em alguns dos principais lances de perigo do FC Porto (muito bem na desmarcação para Layún) e foi dos poucos a desequilibrar na primeira parte. Um par de boas intervenções de Casillas e nervos de aço de André Silva num momento de enormíssima pressão. Os penaltys não eram uma especialidade sua na formação, mas quem não treme num momento como aquele revela estofo para assumir essa responsabilidade. Claro que a conversa seria outra se o guarda-redes se tivesse lançado para a esquerda, mas um bom penalty é aquele que é rematado para o lado... de dentro. 




Outra vez, pequenos (-) - Não vale a pena repetir críticas a Nuno Espírito Santo. Tentou dar continuidade às coisas boas que o FC Porto fez na Choupana, mas nada foi igual. Vimos, essencialmente nos primeiros 60 minutos, uma equipa de posse de bola estéril, quase inofensiva no último terço, novamente com mentalidade de equipa pequena. O meio-campo foi um poço sem ideias. O FC Porto teve a felicidade de marcar um golo em contra-ataque e um de penalty, mas são circunstâncias e resultados que só podem maquilhar o resto.

O FC Porto dificilmente sairá deste limbo: quando a equipa ganhar, os adeptos, portistas de coração e com boa vontade face ao presente e futuro do FC Porto, vão tentar enaltecer as coisas boas, mesmo que elas não existam; vão repetir «assim sim!», que a equipa está a crescer, que afinal há qualidade e que há raça e crer na equipa; quando o mau resultado voltar a aparecer, recuperam as críticas antigas, tendo sempre Nuno Espírito Santo como alvo principal, por, pasme-se, estar a jogar exatamente da mesma forma que sempre jogou na sua carreira de treinador. Ninguém pode dar mais do que tem, mas confirma-se que é muito mais fácil revelar ambição como guarda-redes suplente do que como treinador principal.

Agora o Arouca, equipa mandada para fora da Taça pelo Real Massamá, que ganhou apenas um jogo esta época e joga à imagem do seu treinador: equipa atrás da linha da bola, borradinha, com esperanças de que o placar não chegue a mexer. Por outras palavras, tem tudo para nos moer o juízo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Feito, próximo

A Taça de Portugal é como o Martelinho: pode ser uma faca de dois legumes, muito em função do resultado. Nuno Espírito Santo optou por colocar a base dos melhores jogadores em campo, preferindo não correr muitos riscos (se é que era possível correr grandes riscos contra o Gafanha, em campo neutro, jogasse sem jogasse).

Não é propriamente incomum os treinadores do FC Porto usarem uma base mais consolidada de jogadores no primeiro jogo de Taça, ao invés de mudar meia equipa. Até Villas-Boas não prescindiu de Hulk contra o Limianos. Nuno fez a sua escolha, a equipa passou o jogo-treino sem dificuldades e a única interrogação em torno das suas escolhas é o que se dirá a jogadores como Sérgio Oliveira, João Carlos Teixeira ou Varela: se não servem para jogar contra o Gafanha, a que momento da época é que poderão mostrar utilidade à equipa dentro de campo?

Nuno também optou por dar continuidade ao 4x4x2 que tão bem funcionou contra o Nacional, ainda que dificilmente seja contra o Gafanha que uma equipa consolida ou deixa de consolidar o modelo e dinâmicas de jogo. O jogo contra o Club Brugge, amanhã, já será um teste bem mais difícil, no país onde todos aprendemos a detestar o Anderlecht. Aí sim, já será possível tirar sinais mais conclusivos, até porque em caso de um mau resultado (um empate dificilmente saberá bem) o apuramento para os 1/8 pode complicar-se. Bem mais do que ganhar ao Gafanha, pelo menos.




Iván Marcano (+) - Desta vez com Boly ao lado, voltou a fazer uma exibição irrepreensível e sai deste jogo como um dos melhores do FC Porto. Dizer que o nosso central foi o melhor contra o Gafanha, num jogo de Taça, não quer dizer que o adversário atacou muito, mas sim que Marcano soube ser prático e ajudar a equipa nos processos ofensivos: passou rapidamente no início de construção, controlou sempre o espaço em profundidade, deu indicações a Boly (bom ver Marcano assumir-se e ter voz na defesa), fez a assistência para o 2x0 e foi mais rápido e agressivo na recuperação. Contra o Gafanha, um bom ou um não tão bom Marcano podem não fazer diferença, mas contra o Club Brugge acreditem que fará.

Otávio (+) - Dá ao FC Porto o que tem faltado: rasgo individual. Aquele jogador que, qual Madjer, Deco ou Hulk, pega na bola, assume o lance individual, com objetividade, encontra um atalho para a baliza e faz golo. Brahimi pode fazer isso, Corona pode fazer isso, mas não o estão a fazer. Esse papel está a ser um exclusivo de Otávio esta época. Um belo golo e uma vez mais a destacar-se na forma como consegue distribuir jogo e crescer a partir do lado esquerdo. Os lances de perigo nasciam sempre dos seus pés.


A entrada de Corona (+) - Esteve com problemas físicos, teve 25 minutos para mostrar serviço, faz um golo e uma assistência. Objetivamente, não dá para pedir mais. Oportuno no 2x0, atento à movimentação de Depoitre no 3x0, volta a mostrar mais nos minutos em que é suplente utilizado do que nos jogos em que é titular. Nota para um bom regresso de Maxi Pereira à equipa. 




A rever (-) - Muitas vezes, jogar na Taça é uma missão ingrata para jogadores pouco utilizados. Admita-se isso. Se um jogar faz o primeiro jogo pelo FC Porto, por mais frágil que seja o adversário, se não revelar já bom entendimento com os colegas as coisas podem correr mal. Herrera não teve essa desculpa. Do meio-campo para a frente, Nuno Espírito Santo não mexeu, mas Héctor pareceu muitas vezes um corpo estranho à equipa. Muita hesitação na progressão e a soltar a bola, sem conseguir acelerar o jogo e pouco participante na circulação. Se o FC Porto rejeitou uma proposta de 30M€, não foi pelo jogador que vimos contra o Gafanha. Há também que insistir na melhoria da capacidade de meia-distância. Contra equipas que enfiam o Boeing 777 na grande área, ter capacidade de remate à entrada da grande área pode resolver muitos problemas.

Está feito, venha o próximo.

PS: O FC Porto, num salutar ato de transparência, publicou uma imagem de um contrato assinado por Helton e administradores da SAD que visa demonstrar que a rescisão já foi feita a 15 de Setembro. Há que acabar com o ruído, sem dúvida, pois criar ou alimentar polémicas com ex-capitães, independentemente dos argumentos de cada parte, nunca traz nada de bom. Só não se percebe o porquê do FC Porto fazer questão de mostrar uma rescisão assinada a 15 de Setembro, se no R&C de época 2015-16 o FC Porto já dava conta de uma rescisão ocorrida até 30 de Junho de 2016. Um R&C anual já deveria ser fonte de informação suficientemente esclarecedora para evitar dúvidas ou polémicas.



Helton é passado, um passado que será sempre recordado com carinho enquanto foi o número 1 da baliza do FC Porto, vencer o Club Brugge tem que ser o futuro. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

«Senão, um dia, pode não haver recuperação fácil»

«É evidente que os recursos que estão afetos ao futebol vão sendo cada vez mais curtos para fazer face às exigências do futebol. Tem de haver sensatez e prudência nesse equilíbrio. Senão, um dia, pode não haver recuperação fácil».

Faz este fim-de-semana dois anos que Fernando Gomes, administrador da SAD do FC Porto, disse estas palavras no Porto Canal. Um apelo à contenção de custos e o reconhecimento de que ia ser necessário apertar o cinto.

Afinal, o FC Porto tinha acabado de apresentar um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14. Os custos com pessoal eram de 48,8M€. Os custos operacionais foram de 95,17M€. Os proveitos operacionais atingiram os 72,6M€. O défice operacional de 22,5M€. Os salários cobriam 67% dos proveitos operacionais (a UEFA não recomenda mais de 70%). O passivo era de 233M€. O valor investido no plantel foi de 46,5M€. Os encargos sobre transferências foram de 4,8M€. A dívida total em empréstimos era de 139M€.

Há dois anos, Fernando Gomes tinha feito um reconhecimento geral da necessidade de reduzir os custos, não só aplicável ao FC Porto como à generalidade do futebol português. Dois anos depois, através do R&C de 2015-16, podemos concluir que o FC Porto não só não reduziu os seus custos comparativamente a 2014 como foi capaz de aumentar de forma abrupta todas as alíneas.

O prejuízo de 2015-16 foi de 58,4M€. Os custos com pessoal aumentaram 27M€. Os custos operacionais aumentaram 30M€, para 124,4M€. Os proveitos operacionais tiveram um ligeiro aumento para 75,8M€. O défice operacional dobrou para os 48,6M€. A totalidade das receitas operacionais não chega para cobrir 100% dos salários. O passivo está à porta dos 350M€. O investimento total no plantel foi de 78,4M€, dos quais 15,16M€ em encargos. A dívida total de empréstimos chegou aos 178,35M€ (dos quais 10M€ após a operação Euroantas). Uma realidade um bocadinho ao lado daquela a que Fernando Gomes apelava em 2014. 

Já no início do ano, Fernando Gomes falava do acordo do FC Porto com a PT/Altice. «É um grande acordo que permite sobretudo que o FC Porto, enquanto empresa, possa ser gerido de forma menos contingente. Até agora, os encargos operacionais eram sempre superiores aos proveitos operacionais, sem contar com as mais-valias das transações de passes de jogadores. A partir de agora podemos vir a deixar de ter de tomar decisões sob pressão. Permite gerir o clube de outra forma, mais objetiva económica e financeiramente e sem estar tão dependente dos ganhos ocasionais em janeiro e no final da época. É essa a grande vantagem». Ainda não chegámos a 2018, mas o contrato com a PT/Altice já parece uma espécie de oásis no deserto, insuficiente para matar a sede.

E ainda na entrevista ao Porto Canal, Fernando Gomes afirmou: «Este ano, fizemos um aumento de capital que superou o capital social negativo e resolveu os nossos problemas do fair-play financeiro. Não é preciso um grande resultado para, no próximo ano, cumprirmos o fair-play financeiro».

Chegamos a 2016 e o FC Porto falhou o fair-play financeiro. Não podia apresentar um prejuízo de mais de 8,6M€, apresentou de 58,4M€. Em 2014, a SAD apostou na absorção do Estádio para resolver o problema dos capitais próprios. Dois anos depois, revelou-se incapaz de gerar as receitas necessárias para cumprir com o fair-play financeiro.

O fair-play financeiro não era só para cumprir num ano, mas sim ano após ano. Enquanto aguardamos que a UEFA fale sobre o que poderá acontecer ao FC Porto, é bom lembrar que a época 2016-17 vai ser ainda mais difícil do que a época anterior no que toca ao FPF.

Em 2014-15, 19,3 milhões de euros de lucro. Em 2015-16, 58,4 milhões de prejuízo. Logo, à partida para esta época, a SAD já vai ter que apresentar 9,1 milhões de euros de lucro para não violar as regras para o triénio que acaba em 2017. Isto apenas para cumprir o fair-play financeiro, não para tapar todos os buracões da época passada. Resta aguardar para conhecer em que medida as deliberações da UEFA podem ditar novas regras/limites financeiros para o FC Porto cumprir no curto prazo.

Por fim, apetece perguntar: por onde andaram as palavras ditas por Fernando Gomes em 2014 nos últimos dois anos? 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

34 coisas a reter do Relatório e Contas 2015/16

- No orçamento proposto há um ano, a SAD pretendia fechar o exercício com um lucro de 1,793 milhões de euros. Terminou com um prejuízo de 58,411 milhões de euros, o maior da história do futebol profissional em Portugal. 

- O FC Porto apontava para receitas operacionais de 85,433 milhões de euros. Ficou-se pelos 75,811 milhões de euros, muito por causa das receitas da UEFA (a SAD esperava 27,437M€, mas terminou com apenas 11,603M€). Na generalidade das restantes rubricas, merchandising, bilheteira, direitos televisivos e publicidade, a SAD ficou ligeiramente acima das expetativas e cumpriu com o que estava orçamentado. Nas receitas operacionais, o problema foi por isso a Liga dos Campeões - não é possível continuar a dar por garantido, orçamento após orçamento, que o FC Porto vai estar sempre presente na Champions. 

- Nos custos operacionais, eram esperadas despesas de 107,76 milhões de euros. Os custos acabaram por bater o recorde de 124,325 milhões de euros. A folha salarial ficou quase 7M€ acima do que estava previsto, algo verdadeiramente preocupante e negativo, sobretudo tendo em conta que em janeiro saíram alguns dos mais bem pagos do FC Porto, casos de Tello, Imbula e Osvaldo. Custos com pessoal de 75,79M€ são uma violação do que já era incomportável. A SAD diz que a subida se deve essencialmente às indemnizações de Julen Lopetegui e José Peseiro (dois exemplos em que erros de gestão desportiva têm consequências financeiras - um pelo momento da saída, outro pela chegada). 

- Os Fornecimentos e Serviços Externos voltaram a disparar: a SAD gastou sensivelmente mais 6M€ do que estava previsto, ao chegar aos 38,662M€ de despesa. 

- Toda a receita da atividade corrente da SAD não chega para pagar os salários da época 2015-16. 

- A SAD tinha que apresentar um resultado de 72,591M€ com transações de passes. Após custos, amortizações e perdas por imparidade, a SAD apresentou apenas 7,102M€ (no que toca a mais-valias, contando com Alex Sandro, as mesmas chegaram a 40,22M€). 

- A SAD pretendia fechar o exercício com um prejuízo de 22,323 milhões nos resultados operacionais sem vendas de jogadores. O prejuízo foi mais do dobro do que estava orçamentado, 48,614M€

- Nos últimos três exercícios, o FC Porto acumulou um resultado negativo de quase 80M€ - pior que em todos os anos anteriores de atividade da SAD juntos. 

- O ativo subiu para 375M€, uma subida de 15,81M€, algo que se deve unicamente ao valor do plantel, que subiu quase 25M€ na rubrica de ativos tangíveis. 

- Em contraste, o passivo sofreu uma subida abrupta, de 73M€, atingindo agora quase os 350M€. O passivo corrente aumentou cerca de 25% no prazo de um ano, estando agora nos 202 milhões de euros. 

- A SAD explica o prejuízo com uma «decisão estratégica de não transferência de alguns ativos da sociedade, com finalidade de competir ao mais alto nível em 2016-17». Buster Keaton, Charlie Chaplin e Harold Lloyd dão por eles a pensar que deixaram muito por fazer no mundo da comédia. 

- A SAD informa, pela primeira vez, que Helton rescindiu o contrato que tinha com o FC Porto. Assim sendo, já não é um profissional assalariado pelo clube e já não tem qualquer ligação a este emblema.

- O capital próprio mantém-se positivo, mas desceu 57,25 milhões de euros no espaço de um ano, um espelho do prejuízo apresentado. Os efeitos da operação Euroantas, cuja cedência do clube para a SAD também fazia parte de uma «visão estratégica e ponderada», estão cada vez mais reduzidos. 

- Face à subida do passivo, e tendo em conta que um dos empréstimos obrigacionistas conhecerá o prazo para reembolso neste exercício, a SAD diz que «o Conselho de Administração está a estudar a realização de uma operação financeira para reestruturação deste passivo, de forma a assentar uma parte significativa da sua dívida no longo prazo».

- Pela primeira vez, a SAD decidiu pronunciar-se sobre o falhanço do fair-play financeiro. A SAD não podia apresentar mais de 8,6 milhões de euros de prejuízo, o que significa que falhou o FPF por cerca de 50 milhões de euros. Resta agora aguardar que a UEFA se pronuncie sobre as punições a aplicar ao FC Porto - e que o Conselho de Administração responda depois por elas e que assuma as responsabilidades pelas mesmas. Aqui a culpa - se preferirem, a responsabilidade - não é dos blogues, não é da imprensa, não é dos adeptos, não é do árbitro, não é do Marega, não é do Lopetegui e não é do Trump: é do Conselho de Administração da SAD. Democraticamente reeleito por 79% dos associados votantes, diga-se. 

- Maicon saiu para o São Paulo por 12M€, gerou uma mais-valia de 9M€ e o FC Porto indica que comprou 50% de Inácio por 3M€. Mas o FC Porto pagou no total 6M€ ao São Paulo. Se Inácio custou 3M€ por metade do passe, a que se devem os restantes 3M€ pagos ao São Paulo?

- O FC Porto pagou 15,162 milhões de euros com encargos com transferências na última época. O FC Porto detalha as compras de 11 futebolistas (há 5M€ pagos por jogadores que não são discriminados) e pagou comissões a um total de 25 entidades diferentes. 

- A SAD tem 60% do passe de Víctor García, pois já tinha adquirido 10% no último trimestre de 2014/15, além dos 50% que comprou depois à Northfields. 

- A SAD tem a receber 50,69M€ de outros clubes no prazo de um ano. Entre os novos devedores, entram o Stoke (13,37M€), o Portimonense (615 mil), o Atlético Paranaense (500 mil) e a Real Sociedad (300 mil). Nota para a Doyen, cuja dívida em relação ao FC Porto aumentou no último ano, para os 2,877 milhões de euros. 

- A SAD já começou a antecipar as receitas do novo contrato com a PT/Altice (que só entra em vigor em 2018), ao utilizar 10M€ como garantia para um empréstimo junto do Montepio.

- A SAD antecipou 13,37M€ da receita de Imbula, ao recorrer ao Macquarie Bank, banco australiano.

- A SAD está mesmo apostada na antecipação de receitas - tentar tapar os buracos do presente comprometendo o futuro. Outro exemplo foi o contrato com a Unicer: foi renovado em abril e, no mesmo mês, a SAD usou-o como garantia para um empréstimo de 4,2M€ junto do BIC. 

- No R&C Individual, a SAD dá conta de adiantamentos de 4M€ em 2014-15 e de 27M€ em 2015-16 nas receitas televisivas. No R&C Consolidado, os adiantamentos apontam para 36,9M€ em 2015-16 e 9M€ em receitas do patrocinador principal.

- Fernando Gomes disse, no início de janeiro, que o contrato com a Altice ia permitir «gerir o FC Porto de outra forma». É esta a forma de que falava?

- O FC Porto deve 37,743M€ no prazo de um ano a outros clubes.

- Em dezembro, o FC Porto tinha uma dívida corrente de 1M€ e uma não corrente de 1,8M€ ao Portimonense, pela contratação de Danilo. Neste momento (a 30 de junho), a dívida não corrente mantém-se (1,8M€), mas a dívida corrente já é de 2,75M€. O que significa que o FC Porto comprou mais jogadores ao Portimonense - ou através do Portimonense -, mas não há detalhes sobre isso. Gleison é um desses casos.

- Nos Fornecimentos e Serviços Externos, destaque para um aumento de 601 mil para 3,5 milhões de euros do FC Porto em despesas com os direitos de imagem dos seus jogadores. Há mais 2M€ de despesas que não são discriminadas. Nota para uma descida na «Publicidade e Propaganda» para sensivelmente metade, agora de 1,06M€.

- Nos custos com pessoal, o plantel mantém-se na casa dos 54M€. As remunerações dos Órgãos Sociais subiram para 1,97M€, apesar dos vencimentos de Pinto da Costa (520 mil euros) e administradores da SAD (287) se manterem inalterados. As rescisões com Lopetegui, Helton, Peseiro e restantes staff saíram caro, pois a rubrica ascende a 4,4 milhões de euros. 

- Em 2015, o FC Porto tinha 329 profissionais no Grupo. Neste momento, são 431, com destaque no aumento dos administrativos (de 133 para 217), dos técnicos desportivos (37 para 54) e dos atletas (77 para 85). No Museu, saíram sete pessoas, estando agora 25 ao serviço do FC Porto. 

- O FC Porto teve proveitos de 2,769M€ com empréstimos de jogadores. Em sentido inverso, teve custos de 3,347 com empréstimos de jogadores. 

- A SAD incluiu uma alínea em que dá conta de operações realizadas com Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, na envolvência da Energy Soccer em transferências e renovações de contratos. A Energy Soccer faturou 465 mil euros com comissões nas saídas de Rolando e Quaresma, na compra de Fede Varela, na renovação de Leandro Silva e na assinatura do contrato profissional com Rui Pires (menino a seguir com muita atenção). Estão pendentes 108 mil euros. Saúda-se que a SAD apresente estes detalhes das contas, mas deveria ser aplicável a todos os membros do Conselho de Administrações que negoceiam com familiares. 

- A SAD diz que os custos de Alex Telles, Depoitre e Boly implicaram um valor global de 19M€. Tendo em conta que Alex Telles, segundo o Galatasaray, custou 6,5M€, a SAD confirma que investiu 12,5M€ em Depoitre e Boly. 

- Fernando Gomes diz que foram rejeitados 95M€ por André Silva, Danilo e Herrera. Tendo em que conta que Fernando Gomes diz que tal permitiria apresentar resultados positivos, então foram propostas apresentadas até 30 de junho. Assim sendo, André Silva tinha uma cláusula de rescisão de 25M€, por isso houve um total de 70M€ propostos por Danilo e Herrera. Tendo em conta que Danilo tem uma cláusula de 40M€, ou andaram a oferecer propostas acima das cláusulas, ou o FC Porto rejeitou uma proposta de pelo menos 30M€ por Herrera. É a vez de Cervantes, Dumas e Dickens sentirem as suas obras incompletas. 

- O FC Porto justifica-se com esta frase: «Demos um passo atrás, para darmos agora dois ou três em frente». Esperemos é que tenham reparado que já têm o abismo debaixo dos pés.

domingo, 9 de outubro de 2016

Mudança de paradigma

Na sequência deste post, a segunda parte da revolução anunciada pelo - ou através do - JN no FC Porto com a entrada de Luís Gonçalves na estrutura. Foi escrito que o FC Porto vai passar a privilegiar ao máximo a contratação de jogadores portugueses para os sub-19, e a contratação de estrangeiros passará a ser feita só em circunstâncias excepcionais. 

Jornal de Notícias, 07/09/2016
É uma necessidade, sobretudo quando tendo em conta que, nos últimos sete anos, não foi contratado um único jogador para os Sub-19 que se tivesse afirmado no FC Porto, ou que tenha neste momento um papel ativo na equipa principal. 

Para já, podemos ver com agrado que o plantel de juniores do FC Porto para esta época é na sua esmagadora maioria composto por portugueses. Há cinco estrangeiros no plantel. Mário Évora, guarda-redes cabo-verdiano que provavelmente nunca sairá do estatuto de suplente; Ayou Abou, marroquino ex-Barcelona que faz a segunda época no clube; Moses John, um desconhecido nigeriano que ainda não jogou; Yan Dinghao, um médio chinês - não há futebolistas chineses com qualidade para o FC Porto e pouco leva a crer que Dinghao inverta a história; e por fim James McArthur, um ganês que dificilmente sairá com mediatismo maior do que aquele com que chegou. De resto, tudo portugueses e um bom arranque de época (11 jogos e 10 vitórias, duas delas na Youth League). 

Se tivermos como referência os jogadores que foram recrutados para os Sub-19 nos últimos sete anos, vemos que tem havido uma incapacidade imensa em encontrar juniores com qualidade para chegarem à equipa A do FC Porto. A saber, e lista é longa:

Adivinha quem é
Yero, Gilmar, Rody, Engin, Bacar Baldé, Katalic, Renato, Abdoulaye, Cristian Atsu, Rafinha, Fábio Nunes, Samir Abdr, Romário, Ebo, M'Bola, Mikel, Rafael Floro, Thibaut Vion, Sagna, Víctor Garcia, Kokovic, Li Shuai, Rúben Alves, Jonathan, Ricardo Tavares, Pius, Elvis, Fidélis, Gudiño, Chidera, Leonardo Ruiz, Tony Djim, Malthe, Lumor, Matheus, Chidera, Ayoub, Luiz Sousa, Mouhamed, Oleg, Xavi, Dinghao, Moses, Fali, McArthur. 

Ufa. A maioria destes jogadores são desconhecidos para os adeptos. Muitos não sabem de onde vieram, muitos não sabem para onde foram, muitos não sabem sequer que passaram pelo FC Porto. Os processos de contratação da maioria destes jogadores são desconhecidos, mas se para se contratar jogadores conhecidos como Casemiro ou Dani Osvaldo são necessários contratos de scouting, o que esperar de miúdos desconhecidos que chegam dos 4 cantos do mundo?

Estamos a falar de jogadores que chegaram do Senegal, Gana, Costa do Marfim, Zâmbia, Nigéria, Venezuela ou Equador. E de toda esta lista, só seis jogadores chegaram a alinhar pela equipa A, a saber: Chidozie, Víctor García, Mikel, Abdoulaye, Yero e Cristian Atsu.

De todos estes, aquele que acabou por desempenhar o papel mais relevante na equipa A foi Cristian Atsu, apesar ter sido muitas vezes opção para Vítor Pereira sobretudo por o nosso último treinador campeão não ter muito por onde escolher (1 golo e 4 assistências em 32 jogos). Podia ter crescido mais no FC Porto, mas foi mal acompanhado na gestão da sua carreira e pouco mostrou desde que saiu do FC Porto. 

Mas é um exemplo do quão fragmentado já pode estar um jovem africano quando chega ao FC Porto. No momento da transferência para o Chelsea, a Energy Soccer, de Alexandre Pinto da Costa, ficou com 150 mil euros. E um fundo, cujo nome não foi revelado, ficou com 25%. Assim a mais-valia pela venda ao Chelsea ficou abaixo dos 2M€, com a curiosidade de depois a SAD ter utilizado o valor da conta a receber do Chelsea (1,5M€) para o ceder à Good for Sports Limited, a uma taxa de 8%. 

Sete anos de FC Porto
Um caso ainda mais demonstrativo é o de Mikel Agu, que tem mais renovações de contrato do que jogos pela equipa A. Mikel está agora a jogar com regularidade em Setúbal, embora nunca tenha revelado estofo e qualidade para ter espaço na equipa A (os melhores jogos que fez na equipa B foram como central). Está desde 2009 no clube, sempre a ter oportunidades de treinar no plantel principal, mas nunca mostrou estar em condições para dar o passo competitivo que faltava (com ou sem lesão, não faria parte das opções de Lopetegui para 2014-15). 

Do passe de Mikel, é sabido que a SAD cedeu 10% do seu passe ao SIF, em 2012, por cerca de 100 mil euros. Desde então, o passe do jogador já passou por diversas fragmentações: 10% ao Megapp FC, 25% a uma entidade chamada Sans Souci, e depois mais 10% cedidos ao SIF; à luz de um protocolo com a Sans Souci, a SAD cedeu 25% da receita líquida de uma futura venda. Qual a pertinência/razão de todas estas operações? Qual o sentido de ser necessário fragmentar tanto e tantas vezes o passe de um jogador que chegou ao FC Porto em 2009 e que esteve dois anos à espera para ser inscrito (não podia jogar antes dos 18 anos)? Não vale a pena falar dos já conhecidos casos de Rúben Neves ou André Silva: é essencial manter a totalidade dos passes dos nossos jovens mais promissores. 

Yero pode eventualmente ser recordado como um dos jogadores mais altos da história do FC Porto, e pelos 57 minutos em que representou a equipa principal. Uma prova de que a ordem do substantivo pode fazer toda a diferença: a diferença entre um grande jogador e um jogador grande.

O sexto empréstimo
Abdoulaye, um jogador que conseguiram convencer que tinha propostas de Liverpol, Dortmund e Benfica, voltou a renovar e a ser emprestado pelo FC Porto. Estamos a falar de um jogador sem quaisquer qualidades para jogar a este nível e que já foi emprestado seis vezes. Algo a repensar no futuro imediato do FC Porto é chegar à conclusão que há jogadores que, por mais vezes que sejam emprestados, nunca se vão valorizar a ponto de ser possível lucrar algo com uma transferência. Abdoulaye é um desses casos. Em final de contrato, era uma oportunidade para deixar o jogador ir à sua vida. Mas não. Continua emprestado.

60% do passe de Abdoulaye eram propriedade da Unifoot, de José Caldeira, segundo o R&C da SAD de 2010-11. Mas no R&C de 2012/13, o FC Porto informou que comprou 60% à Pearl Design, com um custo total de 1,1M€. Estávamos a falar de um júnior africano sem escola, que ainda assim implicou um investimento considerável. 

Curiosamente Abdoulaye partilha com Chidozie o dia de nascimento - 1 de janeiro. E quanto a Chidozie, que renovou até 2020 (a renovação justifica-se, falta saber se o mesmo se aplica aos eventuais custos do seu passe), é possível recuperar a avaliação feita no final da época passada. 

«Sub-19, equipa B e equipa A na mesma época. Foi um carrossel de emoções para Chidozie, lançado às feras na Luz. O Tribunal do Dragão foi da opinião de que Diogo Verdasca, tendo o mesmo número de oportunidades que Chidozie, faria igual ou melhor. Opinião que se mantém, mas José Peseiro escolheu confiar em Chidozie, que acusou toda a sua inexperiência ao longo destas semanas.

A grande exibição de Casillas contra o Benfica disfarçou muita coisa. Chidozie comete os erros próprios da idade e da sua inexperiência. Bruno Alves, Jorge Costa ou Ricardo Carvalho não jogavam no FC Porto aos 19 anos por um motivo. O mesmo que penalizou Chidozie: inexperiência e falta de devida preparação. Repare-se que Chidozie nem sequer teve um parceiro consistente ao lado, o que não ajudou. Não houve jogo em que Chidozie não cometesse erros graves de posicionamento. Mais culpa das circunstâncias do que propriamente do jogador, que fez o que podia, sem a preparação devida.»

Chidozie tem jogado pela equipa B e aparece como 4º ou 5º central (mediante um possível recuo de Danilo) da equipa A. Continua a ter algumas caraterísticas interessantes, mas tudo dependerá do acompanhamento e espaço competitivo que tiver nos próximos dois anos. No R&C da SAD, que deve ser dado a conhecer a 20s de outubro, poderá ser possível ver os eventuais custos envolvidos na sua chegada. Um júnior oriundo da Nigéria não pode custar milhões (basta dois para ser plural). 

A valorização de García
Sobra então Víctor García, um caso já aqui analisado e debatido. Esteve inicialmente emprestado ao FC Porto, com a possibilidade de ser comprado por um valor consideravelmente baixo, mas a SAD prolongou o empréstimo e Víctor García acabou por custar 1,8M€, por 50% do passe, pagos à já popular Northfields Sports, empresa muitas vezes envolvida e sempre paga bem em negócios do FC Porto na América do Sul - com a saída de Antero Henrique da SAD, fica a expetativa de ver se o FC Porto continuará a negociar com esta empresa ligada a Marcelo Simonian. Não deve haver muitos clubes a pagar 1,8M€ por metade de um júnior da Venezuela. 

Chidozie, Víctor García, Mikel, Abdoulaye, Yero e Cristian Atsu foram os sub-19 estrangeiros que conseguiram jogar pela equipa A do FC Porto nos últimos anos. É pouco, muito pouco. E tendo em conta que não se aproveitou um único jogador da equipa B que conquistou a Segunda Liga na última época, é lógico que urge repensar não só aproveitamento a ser feito da nossa formação, mas sobretudo o recrutamento que estava a ser feito. É essencial detetar os talentos portugueses mais cedo e questionar se vale a pena continuar a ter este tipo de abordagens em mercados como o africano. 

Um exemplo? Rafa e Diogo Jota, que ainda com idade sub-19 estavam no Feirense e no Paços de Ferreira, e que neste momento são os dois avaliados em potenciais 40M€ juntos (um pelo que poderia custar, outro pelo que poderá custar). E por vezes, muitos desses talentos estão fora do mapa dos três grandes até à idade de juniores. Exemplos: Raúl Meireles estava no Boavista, Rolando no Belenenses, Bruno Alves no Varzim, Ricardo Carvalho no Amarante, e a lista pode continuar, jogadores que conquistaram muitos títulos importantes no FC Porto.

Terá a Gestifute um departamento de scouting mais capaz do que o FC Porto? Não, certamente. Os empresários não podem ser mais rápidos do que o FC Porto, até porque atacar os jovens do mercado nacional sai muito mais barato do que recrutar sub-19s em África ou na América do Sul. A mudança de paradigma é mesmo essencial: o FC Porto tem que ser mais rápido a chegar aos jovens portugueses e trocar as prioridades. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma equipa

Foi o melhor e mais consistente jogo da temporada. Quem faz um hat-trick na estreia a titular no campeonato, aos 19 anos, centra naturalmente todas as atenções, mas pela primeira vez esta época vimos um FC Porto organizado, a controlar e dominar o jogo, a potenciar as suas individualidades e a revelar entendimento em todas as fases do jogo. Uma equipa que sabia o que estava a fazer e que sabia como o fazer. Vimos uma equipa.

Foi um bom jogo, o melhor da época e primeiro verdadeiramente categórico. Mas foi apenas um jogo, e basta um deslize antes do jogo com o Benfica para os seus efeitos ruírem. Que a lei 360 que teu pautado o FC Porto sempre que há uma boa exibição não se repita.

Porque o futebol tem destas coisas, é bem recordar o que aconteceu a 17 de Abril. O FC Porto ganhou também por 4x0 a este mesmo Nacional, no Estádio do Dragão, duas semanas depois de «bater no fundo» contra o Tondela. O presidente reagiu assim a esta vitória:

«Ontem a equipa mostrou o espírito que todos queremos e que pedi aos jogadores que assumissem. A exibição que fizeram, com cinco portugueses, alguns deles vindos das camadas jovens – e depois de ver o que esta a fazer a equipa B – foi um acordar. Não que os jogadores não tivessem vontade ou alma, mas às vezes é preciso acordá-las, sensibilizá-las e responsabilizá-las (...) Foi isso que ontem fez, entendendo que era um ponto de viragem. Qualquer individuo que não tivesse visto o passado recente diria que era uma equipa à Porto», disse o presidente, considerando o Nacional «uma boa equipa da liga», com um «bom treinador» e considerando que o FC Porto já tinha saído «do fundo».

Duas semanas depois, o FC Porto perde com o Sporting em casa e todos se esquecem desses 4x0 ao Nacional. O futebol tem memória curta, mas tem também um toque de ejaculação precoce. Por isso, cabecinha e pézinhos no chão. Os problemas que o FC Porto tinha antes do jogo continuam a ser hoje exatamente os mesmos. A diferença é que a equipa mostrou soluções que ainda não tinha mostrado.





Pressão constante (+) - O FC Porto entrou em campo a pressionar na saída do Nacional. Fez o 1x0. Que continuou a fazer? A pressionar. Fez o 2x0. Que continuou a fazer? A pressionar. Fez o 3x0. Que continuou a fazer? A pressionar. Regressou dos balneários, e o que continuou a fazer? A pressionar. Pela primeira vez em longas semanas, o FC Porto assumiu-se como equipa grande em campo, reclamando sempre a posse de bola, não deixando o Nacional construir e sendo capaz de controlar o jogo com bola, em vez de recuar as suas linhas e fechar o meio-campo. O que acontece quando o FC Porto não se encolhe depois do 1x0? Aparecem golos. Dois, três, quatro, com a equipa finalmente a saber meter gente em zonas de finalização. O FC Porto soube controlar o jogo com bola e o Nacional acaba o jogo sem rematar à baliza. Não se pode pedir mais, porque não há mais para pedir, a não ser mais do mesmo.

Uma equipa (+) - André Silva e Diogo Jota a rasgar a defesa do Nacional, com constantes movimentações e a terem várias ocasiões para marcar. Otávio e Óliver a jogarem e fazer jogar, a oferecerem soluções de passe, a aguentarem a bola em zonas próximas da grande área e a servirem os colegas. Herrera a transportar jogo e a assegurar o pulmão no meio-campo. Danilo Pereira a segurar a retaguarda com a dimensão física que o FC Porto deixa de ter com esta estratégia. Layún (mais) e Alex Telles a darem profundidade e a acelerarem o jogo a partir dos flancos. Marcano e Felipe simultaneamente atentos à profundidade e a conseguirem impedir que os avançados do Nacional levassem perigo à baliza do espectador Casillas. 11 jogadores em campo, cada um com o seu papel e cada um a cumpri-lo bem. É difícil? É. Ontem pareceu fácil.

Diogo Jota (+) - Pois é. A sua chegada ao FC Porto só peca por tardia. Jota, um pequeno Griezmann, tem uma capacidade fora do comum em jogar orientado para a baliza e com muita objetividade quando se aproxima da grande área. Apesar da excelente tabela no lance do 1x0, Jota quando recebe a bola procura sobretudo a baliza, tendo uma capacidade fora do comum de procurar o melhor espaço para rematar. Fez três golos e provocou um silêncio mórbido em todos os que andavam revoltados por - citando - um lampião vir para o FC Porto emprestado pelo Patético de Madrid, só para fazer um frete ao Mendes. Se assim é, venham mais, por favor. Mau, só não terem ido buscá-lo quando estava no Paços.


Outros destaques (+) - André Silva, mesmo mantendo uma capacidade abaixo da média no 1x1 (o PJE visava precisamente aperfeiçoar este tipo de movimentos), marcou e deu a marcar, desgastou e arrastou a defesa, teve presença física na grande área e fez um bom jogo. Tem que aprender a definir melhor perto da grande área. Otávio e Óliver mostraram como é possível manter uma equipa equilibrada taticamente e um meio-campo pressionante e aguerrido, enquanto se assegura jogadores criativos e capazes de fazer a diferença em campo (Óliver melhor no 4-3-3, mas também adequado e bem no 4-4-2). Herrera, embora tenha perdido alguns lances na dimensão física no meio-campo, conseguiu libertar e transportar jogo para zonas mais adiantadas. Danilo voltou a fazer uma exibição impecável, mantendo o nível exibicional, e Layún foi a habitual constante de dinâmica e perigo pelo lado direito, com a agradável nota de se estar a adaptar melhor do que o esperado quando vai para zonas anteriores (para um destro, não é fácil fazê-lo pelo lado direito). Saúde-se o regresso de Maxi Pereira, mas com Layún a jogar assim ou Maxi o empurra para o lado esquerdo, ou vai continuar sentado nos próximos jogos. 

Nos últimos 20 minutos, Nuno Espírito Santo, já com o resultado feito, voltou a mudar o esquema tático, desta vez um 4x3x3 com Layún adiantado no corredor (e que funcionou bem, diga-se). Experiências quando o jogo está controlado e o FC Porto está a vencer por 4x0, aí sim, não magoam ninguém. Mas a maneira como o FC Porto jogou ontem contra o Nacional não deixa dúvidas quanto à fórmula em que o FC Porto terá que apostar para as próximas semanas. Alguém um dia disse que «em equipa que ganha não se mexe». Uma expressão infeliz. Mas em equipa que ganha e joga bem, aí sim, não se mexe. Não mexe!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Quem era a equipa de Champions em campo?

Não há nada mais normal para o FC Porto do que perder em Inglaterra. Em 17 jogos, 15 derrotas e 2 empates com golos em cima do minuto 90, de Costinha e Mariano González. 10 golos marcados, 47 sofridos. O FC Porto já foi com equipas bi, tri e tetracampeãs a Inglaterra, mas nunca conseguiu vencer. Dificilmente iria ser ontem, com uma equipa tão mal preparada e treinada, que iria conseguir.

Perder em Inglaterra é normal, mas provavelmente o FC Porto nunca terá apanhado um adversário tão fraco como este Leicester. Na Champions, o FC Porto defrontou sempre as melhores equipas inglesas: United, Liverpool, Chelsea, Arsenal, City. Este Leicester, com todo o mérito que teve na conquista da última época, é mais fraco e joga pior do que qualquer uma delas à época.

Afinal, quem é o clube de Champions aqui? O Leicester, que só ontem ouviu pela primeira vez o hino da Champions no seu estádio, e que há um ano nem sequer sonhava estar nessa posição, ou o FC Porto, que é o recordista de presenças na Liga dos Campeões e todos os anos joga declaradamente para o objetivo de ir aos oitavos-de-final?

Façam um exercício de introspecção. Quantos jogos viram de facto do Leicester esta e na época passada? Viram de facto um futebol que deslumbrava e dominava? Ou limitaram-se a absorver, através da imprensa, os ecos da grande época do Leicester? Todos sabiam dos resultados, que o Mahrez é bom, que o Vardy é um matador, que o Leicester tomou a dianteira na Liga mais competitiva do mundo. Mas quantos jogos viram de facto do Leicester?

A equipa que defrontou ontem o FC Porto estava ao nosso alcance. O Leicester quase não criou ocasiões de golo, não tem um futebol dominador, não tem cultura de campeão. Joga com o ADN de equipa pequena - o mesmo que Nuno Espírito Santo, com ou sem intenção, tem tentado implementar no FC Porto pelo futebol praticado, é certo -, muito aguerrida, juntinha, mas que não pratica um futebol que assuma o jogo, que garante muitas ocasiões de jogo e que distinga uma equipa forte em determinado momento do jogo. 

A diferença esteve no cruzamento de Mahrez para Slimani. Ah, o jeitaço que dá ter argelinos em campo! O FC Porto devia considerar em arranjar um desses. Ontem se calhar teria dado jeito. Vai na volta e se calhar havia um ali pela bancada...

O Leicester nem sequer tem um enorme treinador. Não brinquem. Até há um ano, ninguém dava dois tostões por Ranieri para ganhar o quer que seja. Ganhou a Liga Inglesa, muito bem, foi histórico, teve mérito. Mas um treinador pode fazer uma boa época em 30 anos, mas não é uma boa época em 30 anos que faz um treinador. Jaime Pacheco não passou a ser um mestre da tática quando foi campeão pelo Boavista. Não queiram fazer de Ranieri o que não é. 

O Leicester teve ontem 90 minutos para contrariar tudo isto. Pouco fez para mostrar que era um bicho-papão ou superior. Teve Slimani, essa besta filha de um casamento entre a Lei de Murphy e o efeito borboleta no dia em que Ghilas assinou pelo FC Porto. A diferença esteve aí. Este Leicester é um adversário ao alcance do FC Porto. Ponto.

Por isso, o problema de ontem do FC Porto não estava no Leicester. Estava em Inglaterra. A barreira psicológica não estava em vencer o Leicester, mas sim no historial absolutamente negro em Inglaterra. E estava também na fraca qualidade de um FC Porto que só despertou a partir dos 70 minutos e que mostra um banco onde Nuno Espírito Santo, ainda que não possa haver as maiores expetativas/exigências de grande sucesso sob a sua orientação, teima em não mostrar ponta de evolução desde o início da época.

Faltam 4 jogos, 12 pontos, e o Leicester de ontem não passa no Dragão. Isto se o FC Porto dos últimos 20 minutos de ontem lá decidir aparecer. Os oitavos-de-final continuam ao nosso alcance, mas é essencial fazer o pleno frente ao Club Brugge. 




Danilo Pereira (+) - Os elogios d'O Tribunal do Dragão à exibição de Danilo frente ao Boavista não foram consensuais. Estes têm que ser. Defensivamente, Danilo voltou a estar impecável, desta vez com atenções redobradas por o Leicester jogar com dois pontas-de-lança. No total, foram 28 ações defensivas de Danilo (precipitou-se um pouco no momento que antecede o 1x0 - já lá vamos), entre duelos aéreos, cortes e recuperações de bola, numa exibição quase irrepreensível a nível defensivo. Foi rápido a distribuir e impediu que o Leicester ganhasse caudal ofensivo na segunda parte. Apesar de não ter conseguido fazer uma pré-época adequada, é neste momento imprescindível ao FC Porto. É a única garantia de equilíbrio numa equipa sem fio de jogo.

As entradas em campo (+) - Nos últimos 20 minutos, vimos um bom FC Porto. Pressionante, rápido a chegar ao último terço, a meter gente na grande área e a criar algumas situações de remate. Foi curto, mas foi uma reação saída do banco. André André (dificilmente manterá a titularidade depois deste jogo - André André será sempre uma alternativa útil no plantel, mas nunca será um jogador à volta do qual se possa construir um 11 titular do FC Porto) e Adrián saíram, Herrera e Jota entraram e o FC Porto agitou o jogo. Jota vai sempre à procura da baliza (foi praticamente o primeiro a dar trabalho a Schemichel... aos 72 minutos!) e Herrera soube empurrar a equipa, dando dinâmica, verticalidade e velocidade ao jogo do FC Porto. A entrada de Corona, que fez mais num quarto de hora do que nos jogos a titular que vinha fazendo esta época, fez o FC Porto encostar o Leicester à sua grande área. A bola no poste podia ter tido melhor sorte, mas quem joga apenas 20 minutos não se pode queixar. Nota positiva para as exibições de Layún, Otávio, a espaços, e Óliver. 





A (falta de) tática (-) - «A base do nosso modelo vai ser o 4x3x3. É algo que é da história do FC Porto e que se identifica muito com a ideia que eu tenho para o jogo, um 4x3x3 ofensivo e pressionante, que condiciona a construção contrária e que tem muita gente em zonas de finalização». Estas foram as palavras de Nuno Espírito Santo na pré-época. O FC Porto nunca chegou a espelhar as ideias aqui descritas, pois tem sido quase sempre uma equipa que joga na expetativa, recuada, no erro do adversário (sendo que nem tenta provocar esse erro, ao não pressionar) e que deixa sempre o oponente construir.

Nuno tem o direito de concluir que afinal o 4x3x3 que previa não era o mais adequado ao plantel, e com isso apostar no 4x4x2. Mas o que se tem visto não é uma equipa com plano A e B, não é uma equipa híbrida, não é uma equipa versátil: é uma desorganização absoluta de uma equipa que não tem um fio de jogo, não tem um plano para atacar além do pontapé para a frente, (quase) não tem como libertar individualidades para resolver um jogo e cria poucas situações de perigo. Nuno Espírito Santo tem dito após todos os jogos que o problema é a eficácia, mas não é: o FC Porto cria pouquíssimas situações efetivas de perigo.

Houve uma boa oportunidade para André Silva logo no início do jogo, mas depois só nos últimos 20 minutos é que o FC Porto consegue rematar à baliza. Além disso, estar a oscilar de tática de um jogo para o outro, com isso alterando o posicionamento/funções de jogadores como Adrián e André Silva, prejudica toda a equipa e os próprios jogadores. O FC Porto não tem uma base criada, não tem um padrão de jogo, não tem ligações criadas entre os setores, e os jogadores não revelam grande sintonia quando estão em campo (a espaços, Otávio e André Silva - essa receção de bola, menino! - são os únicos que se vão entendendo). De nada vale ter bom balneário se não houver sintonia em campo. 

Hm, Depoitre? (-) - Num jogo em que o FC Porto nada tinha a perder, sem que André Silva estivesse a ter uma noite feliz, sem experiência ou grande dimensão física no ataque (o FC Porto acaba o jogo com Óliver, Jota, Corona e André Silva na frente), contra uma dupla de centrais fortíssima fisicamente (Huth e Wes Morgan, dois tanques), Nuno Espírito Santo não encontrou utilidade para Depoitre para este jogo? Esta contratação corre o risco de meter Marega num bolso. Mas o grave foi ter confiado em Lopetegui para contratar Campaña, uma solução de fecho de mercado, que veio por empréstimo e que segundo o R&C do FC Porto nem implicou o pagamento de uma comissão discriminada. De não conhecer uma solução de recurso que vem emprestada a não conhecer um dos - senão mesmo o segundo - pontas-de-lança mais caros da história do FC Porto vai uma grande diferença. 

O golo (-) - Lembram-se daquele amigo sportinguista a quem dávamos baile por causa dos golos do Domingos e do Kostadinov? Se o karma tivesse um filho chamava-se Slimani. Meia oportunidade e marca. Mas não podemos ignorar a má abordagem defensiva do FC Porto no momento do golo. Primeiro momento: numa tabela junto à linha, em menos de 4 metros, o Leicester liberta-se da pressão de André André. No raio de ação da bola estão André, Danilo (deixa a sua zona para ir pressionar na segunda linha) e Adrián. Layún está colado à linha, Felipe a 3 metros, Marcano (arrastado por Vardy) 3 metros ao lado. O FC Porto tem o lado esquerdo completamente descoberto, com apenas Alex Telles naquela zona e Otávio ainda distante. Alex Telles é obrigado a ir fechar por dentro, para encurtar a distância em relação a Marcano, e com isso abre-se uma via rápida no corredor. A partir do momento em que o Leicester, logo após a tabela, abre o jogo, a equipa do FC Porto fica toda partida. Bastou um passe longo. Mahrez cruzou sem oposição de Alex Telles (e Mahrez já tinha o apoio do lateral), Felipe ficou a marcar Slimani com os olhos (não se pode deixar um ponta-de-lança destes ganhar a frente) e o Leicester marca num lance em que o FC Porto tinha 10 homens nos últimos 25 metros, tendo bastado para isso um cruzamento e um desvio.


O Leicester não é uma equipa de grande futebol, mas rasgou o FC Porto com uma simplicidade gritante. Tabela curta junto à linha, abertura para o lado direito, cruzamento para a zona onde aparecem os dois avançados e golo. Tão simples, tão difícil. Um FC Porto organizado no processo defensivo, sabendo que espaços ocupar e quem tem que sair na pressão, não permitiria que tivesse havido aquele cruzamento de Mahrez. Sem a bolinha na grande área, podia haver 10 Slimanis em campo, e nenhum deles faria estragos. 

Sendo o Leicester ou não, o FC Porto nunca pode definir o objetivo de ir aos 1/8 da Champions contando com uma vitória em Inglaterra. Por isso, não é o resultado de ontem que deixa os oitavos em risco. Se estão em risco, é pelos 2 pontos que foram dados ao Copenhaga. Há que recuperar do prejuízo diante do Club Brugge. Agora vamos à Choupana, antes de uma paragem para os jogos internacionais. Terminar o primeiro ciclo de 11 jogos com apenas 5 vitórias significaria um dos piores arranques das últimas décadas. Chegamos ao ponto em que só desejamos ver um FC Porto organizado em campo e que não jogue recuado e com medo de sofrer. Já seria um upgrade que nos deixaria mais próximos de vencer. 

PS: Dá para parar de usar a vitória em Roma como referência para o quer que seja? A não ser que continuem convencidos de que vamos jogar contra 9 em todas as partidas. Pelo contrário, ontem jogámos pela primeira vez contra 11 na Europa esta época. Não correu muito bem.