quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O regresso de Kelvin e as apostas reforçadas

Kelvin vai regressar ao FC Porto, garante o Jornal de Notícias. O seu contrato com o São Paulo vai terminar, por isso o passo lógico é regressar à base, restando saber se é para reintegrar os quadros do clube ou continuar de empréstimo em empréstimo. Segundo o JN, vai ser para regressar ao plantel.

E aqui começam as novidades: «A decisão foi tomada pelo presidente Pinto da Costa e pelo novo diretor-geral do clube, Luís Gonçalves». Então, a decisão é tomada por duas pessoas e nenhuma delas é o treinador? A reintegração ou não de Kelvin deve passar pelas opções de Nuno Espírito Santo. Brahimi em janeiro irá para a CAN e faz todo o sentido tentar, antes de tudo, aproveitar as soluções da casa, mas integrar Kelvin sem que faça parte dos planos de Nuno Espírito Santo seria repetir um erro de 2013.

Em 2013, Paulo Fonseca não contava com Kelvin. Mas Kelvin teve que ficar no plantel - por um lado porque seria mal visto pelos adeptos que o herói do título saísse (seria algo atirado ao treinador ao primeiro mau resultado), por outro porque havia o espaço K para inaugurar, e era necessária a presença de Kelvin (não faria sentido inaugurar um espaço em homenagem a um jogador emprestado a outro clube). 

Contrato até 2018
Os últimos três anos da carreira de Kelvin foram tempo deitado fora, inclusive os dois empréstimos ao Brasil, onde Kelvin não teve treinadores que o ajudassem a conseguir as noções básicas para um extremo no futebol europeu, sobretudo no processo defensivo, na objetividade e no jogo sem bola. No Palmeiras, passou praticamente um ano a aquecer o banco.  No São Paulo está a ter tempo de jogo, mas em 31 jogos fez apenas 2 golos e 2 assistências, além de que já teve 3 treinadores diferentes no último ano. Para um jogador com o potencial que Kelvin tem, mas que pouquíssimo evoluiu desde que se vinculou ao FC Porto, este não é um meio favorável para ele. Situação há muito prevista.

Se Nuno Espírito Santo estiver disposto a dar uma oportunidade a Kelvin, muito bem. Mas possivelmente terá que ser a última. O contrato de Kelvin termina em 2018. Que não se faça a asneira que se fez com Quintero: renovar o contrato por 4 anos para depois se decidir que não vai fazer parte do plantel. Com Kelvin, se renovar, que seja para ficar no plantel; se não houver perspetivas de ficar no plantel, e após 3 anos em que o FC Porto pouco se preocupou em fazer evoluir o jogador, não restam grandes justificações para defender o ativo. 

Como curiosidade, uma retrospetiva. Em março de 2011, Kelvin já era oficialmente jogador do FC Porto, contratado ao Paraná, por 3 milhões de euros, por 90% do passe.

Por isso foi com grande curiosidade que foi visto o contrato que o FC Porto fez com Mohammed Afzal para a compra do jogador. Os serviços prestados pelo conhecido agente eram os tradicionais, que justificam os contratos de todos os clubes:


O FC Porto pagou 150 mil euros a Afzal e reservou-lhe 15% de uma futura transferência (o FC Porto obrigou-se a vender Kelvin por 10M€, ou a comprar a percentagem do empresário caso tivesse uma proposta desse valor pela quantia proporcional).  O mais curioso foi ver a data da assinatura do contrato entre o empresário e a SAD: 2 de julho de 2011.

Ou seja, o FC Porto fez um contrato com o empresário Afzal em julho pelo aconselhamento na contratação de um jogador que já estava comprado em março? Poderia estar em causa o facto de Kelvin só ter feito 18 anos a 1 de junho. Mas este contrato foi celebrado um mês depois, e o FC Porto especificava no documento que o clube «pretende celebrar um contrato» com Kelvin, numa altura em que já estava comprado e no mapa de ativos da SAD. Mas lá está. O FC Porto tinha acabado de ganhar a Liga Europa. Os adeptos estavam felizes, ninguém ou poucos se preocupavam com a situação financeira da SAD. Quando os maus resultados aparecerem, muitos acordam. A frase «nós só queremos o Porto campeão» define qual o fim que pretendemos, mas não pode justificar e desculpar todos os meios - sobretudo em campos paralelos.

É importante transmistir a imagem de que Luís Gonçalves já trabalha ativamente no clube (na SAD, tendo em conta que Antero Henrique comunicou a sua demissão no início de setembro, a mesma só terá efeito a partir do final do próximo mês, seguindo o que está previsto em todas as empresas cotadas em bolsa), mas há mais duas curiosidades escritas pelo JN.

Primeiro, a de que «será reforçada a aposta na matéria-prima do clube», dizendo que a equipa B terá um papel muito importante. Se a aposta será reforçada não sabemos, mas pior não vai ser de certeza, tendo em conta que nenhuns dos campeões da Segunda Liga foram promovidos à equipa A (André Silva e Chidozie já estavam a trabalhar com o plantel principal na época passada).

Outro destaque é o de que a equipa de juniores vai passar a centrar-se mais na contratação de jogadores portugueses. Ótimo. Mas repare-se neste pormenor do JN: «A exemplo do que continuará a acontecer com a equipa B, a prioridade dos responsáveis portistas é trabalhar a todo o vapor com matéria-prima do clube». Assim sendo, os estrangeiros que chegam à equipa B vão deixar de vir na sua maioria por empréstimo, com cláusulas de compra altas? Tome-se o exemplo de Ismael Díaz. Já podia e devia ter sido comprado, mas foi emprestado pelo segundo ano consecutivo ao FC Porto, com uma cláusula de compra altíssima. Ou seja, o FC Porto está a valorizar e a fazer evoluir um jogador (do Panamá!) que ainda nem está nos quadros do clube, pelo segundo ano consecutivo. Neste caso, não há apostas a reforçar, mas sim grandes mudanças para fazer. Esperemos que Luís Gonçalves contribua nesse sentido. 

Os discursos de inauguração de Pinto da Costa em casas do FC Porto eram, em tempos, um regalo de se ouvir. Que seja o caso em Marco de Canaveses, aproveitando obviamente para galvanizar os portistas (há um jogo importante já no sábado), mas sem sacudir culpas ou levantar areia. 

PS: Antero Henrique precisou de sair do FC Porto para se insurgir publicamente contra um artigo do jornal A Bola? Por que é que nunca o fez enquanto estava em funções na SAD? Certamente que teria sido muito mais útil ao FC Porto que Antero Henrique tivesse quebrado o silêncio enquanto estava na SAD, não depois de sair. Agora já não é um assunto que diga respeito ao FC Porto, pelo que pode fazer a título pessoal o que bem entender. Em defesa do FC Porto, que fale agora o presidente (ou outro membro do Conselho de Administração). De preferência não apenas depois de vitórias. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Colheita de 2013

«Como clube trabalhamos com um plano de 15 anos, mas com os jogadores marcamos um ciclo de três anos.» Foi desta forma que Antero Henrique descreveu o modus operandi do FC Porto, numa entrevista à Marca em 2013, naquela que foi a sua penúltima entrevista como dirigente do FC Porto - a última foi esta, em 2013, na altura como promoção ao Museu do FC Porto. Depois, acabaram os títulos, acabaram as entrevistas de Antero Henrique, na eterna relação causa-efeito ou efeito-causa.

Nunca se percebeu muito bem a questão do plano de 15 anos, pois os dirigentes são eleitos para mandatos de 3 a 4 anos, mas os ciclos de três anos para os jogadores eram compreendidos, no plano do recrutamento-desenvolvimento-rendimento. E com isso vemos, com curiosidade, como ficou a colheita de 2013, precisamente o último ano em que o FC Porto conseguiu o título.

As chegadas para 2013-14
Foram mais de 35M€ investidos em Reyes, Tiago Rodrigues, Ricardo, Josué, Carlos Eduardo, Licá, Herrera, Ghilas, Quintero e Bolat. Nenhum destes jogadores saiu para cumprir o tal ciclo de valorização a três anos. E o único jogador que conseguiu ter uma sequência de rendimento e influência na equipa titular foi Héctor Herrera, que até é um mal-amado para muitos adeptos do FC Porto. Se assim é, isso diz muito sobre o sucesso da colheita de 2013. E foi este o ano em que tudo começou a falhar - Vítor Pereira conseguiu adiar os problemas durante dois anos. 

Mas lá está, a culpa era de Paulo Fonseca, não era? Quando um treinador não é capaz de ter um reforço que cause um impacto considerável na equipa A, é difícil pedir o quer que seja. Ter chegado a janeiro na liderança do campeonato já foi bem mais significativo do que se possa pensar. Na altura, era sem dúvida fácil criticar e questionar porque é que Quintero ou Ghilas não jogavam mais. O tempo, como costuma ser habitual, dá razão aos treinadores do FC Porto (Nuno Espírito Santo, esperemos, já merecerá outra sensibilidade por parte de crítica e adeptos). E Quintero é o caso mais flagrante. 

A questão já tinha sido aqui debatida. Paulo Fonseca tentou puxar por Quintero, mas Quintero não quis saber. Lopetegui tentou puxar por Quintero, mas Quintero não quis saber. E Nuno Espírito Santo entendeu, ainda antes do início da época, que não valia a pena tentar puxar por Quintero.

O talento está lá, o resto não. O mercado fechou e Quintero nem sequer encontrou um clube europeu onde jogar. Todos vimos, a espaços desde 2013, talento naquele pé esquerdo. Não deve ter havido muitos portistas a torcer o nariz à sua contratação em 2013, que até foi das mais celebradas no defeso. Mas a verdade é que havia uma grande razão para nenhum clube italiano o ter ido buscar ao Pescara, e para o facto de o FC Porto não ter tido grande concorrência na hora de o contratar.

Resultado de imagem para quintero
Contrato até 2021
Em agosto de 2013, Pinto da Costa disse isto: «Já o acompanhávamos na Colômbia, desde muito jovem. Na época passada foi observado no Pescara e sabíamos como era o seu modo de vida e a sua forma de estar dentro e fora do futebol. Sabíamos tudo sobre o Quintero». Um tiro completamente ao lado, pois ou Quintero mudou por completo desde que aterrou no Porto, ou é precisamente o «seu modo de vida e a sua forma de estar dentro e fora do futebol» que o impedem de ser um grande futebolista.

Não há nada a prender o FC Porto. Quintero já foi pago e a SAD tem 100% do passe. Mas não há justificação alguma para Quintero ter renovado por mais 4 anos em Janeiro, até 2021, para depois nem sequer entrar nas contas para 2016-17. Quem decidiu que Quintero ia renovar se o FC Porto não ia contar com ele para a próxima época? Em 2013, o presidente disse que o FC Porto sabia tudo sobre Quintero. Não sabia. Houve um erro de casting, acontece, todos os clubes os cometem. Mas em 2016 já tinha obrigação de saber. 

A não ser que o FC Porto consiga as tais royalties com todos os CDs de reggaeton que Quintero lançar até 2021 - imaginem o single Quintero ft. Dani Stone «Joder el Oporto (A culpa no es nuestra)» -, é um caso perdido. O mínimo seria ter arranjado um clube para suportar o empréstimo por um ano, mas nem isso. Aparentemente, para o próprio Ricardo Calleri, foi bem mais fácil tratar da renovação de contrato do que arranjar um clube para o jogador. É para isto que se pagam centenas de milhares a empresários?

Contrato até 2018
Além de Quintero, há a alarmante situação de Kayembé, o tal que tinha que dar craque. Não deu, confirmando o erro que foi comprar Kayembé nos moldes em causa. Um jogador que tinha acabado o contrato de formação com o Standard Liège acaba por custar 2,6 milhões de euros. Não foi exceção, mas regra, envolvendo novamente a Danubio, empresa ligada a Luciano D'Onofrio que tem feito vários negócios questionáveis com o FC Porto. Ainda se tentou arranjar um lugar para Kayembé como lateral da equipa B (com isso encostando Rafa!), passou por Arouca e Rio Ave, mas não ter clube para Kayembé nesta fase chama à responsabilidade quem avançou para a sua compra em 2014. 

No R&C do primeiro semestre, o FC Porto ainda devia 957 mil euros a esta empresa, não sendo claro em relação a que jogador, mas significa que ainda há investimentos que estão a ser pagos e que não estão a ser rentabilizados. Proteger e rentabilizar os ativos da SAD é o mínimo que se exige a qualquer administração. Os dispensados para o FC Porto são, por norma, jogadores muito interessantes para outros clubes (até Marega já marca em Guimarães). Então, como se justifica a ausência de colocação para Quintero ou Kayembé, dois jogadores que custaram mais de 12 milhões?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Duas saídas da administração da SAD? (Atualização)

(Post atualizado no final, com informação de última hora do FC Porto).

Luís Gonçalves é o substituto de Antero Henrique. Mas é o substituto de exatamente o quê?

É de recordar que a 10 de fevereiro, na composição do Conselho de Administração para o quadriénio 2016-2020, era esta a equipa que foi comunicada à CMVM e que seria proposta em Assembleia-Geral: Pinto da Costa, Adelino Caldeira, Reinaldo Teles e Fernando Gomes (além do não-executivo Rui Vieira de Sá).

Vinte dias depois, sem que nada o fizesse antever, Antero Henrique surge nomeado como administrador da SAD. A 7 de abril, Pinto da Costa explicou quais seriam as funções de Antero Henrique: «O futebol de formação será da sua responsabilidade».

Mais detalhadamente, o presidente anunciou uma remodelação na estrutura do FC Porto. «Dividi o clube em seis setores: o financeiro, do qual será responsável o dr. Fernando Gomes; o jurídico, que estará a cargo do dr. Adelino Caldeira; o futebol de formação será da responsabilidade do sr. Antero Henrique; o Património será da competência do eng.º Eduardo Valente; as casas, filais e delegações serão da competência do sr. Alípio Jorge. E introduzi um novo setor, que é o do planeamento dos novos projetos e do qual será responsável o professor Emídio Gomes, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte».

Assim sendo: Fernando Gomes, departamento financeiro; Adelino Caldeira, departamento jurídico; Antero Henrique, futebol de formação. E futebol principal? Só sobraria o administrador da SAD Reinaldo Teles e o próprio Pinto da Costa. No entanto, aquilo que o FC Porto anuncia hoje é que Luís Gonçalves substituiu Antero Henrique nas funções de «diretor-geral».

Antero Henrique era diretor para o futebol de formação, diretor-geral ou partilhava funções com Reinaldo Teles? Isso mesmo foi admitido pelo presidente a 19 de abril. «Se (Antero Henrique) propuser algo que entendermos que não está bem, não se faz. Dá-lhe até mais coesão perante o grupo que ele dirige, no futebol, visto que ele e o Reinaldo Teles é que têm os contactos.» Se Antero Henrique e Reinaldo Teles tinham os contactos, é a eles que devem atribuídas responsabilidades pelas ocorrências da pré-época? São estas coisas que Pinto da Costa deveria esclarecer.

Além disso, a 26 de maio, quando o FC Porto emitiu um comunicado a negar qualquer influência de Alexandre Pinto da Costa na SAD e a assegurar a união total do Conselho de Administração, Antero Henrique e Reinaldo Teles assinaram o documento na qualidade de administradores. Tal como aquando do envio do R&C do 3º trimestre à CMVM. 

Mas hoje, 2 de setembro, se formos ao site oficial do FC Porto...


Vemos que Antero Henrique e Reinaldo Teles não figuram no Conselho de Administração, enquanto Luís Gonçalves, o substituto de Antero Henrique, também não. Então, não entrando Luís Gonçalves no mapa de administradores da SAD, quem fica a desempenhar as funções que desempenhava Antero Henrique? Ninguém? Então o que estava Antero Henrique a desempenhar de tão extraordinário para não ter, no imediato, um substituto?

E se Antero Henrique e Reinaldo Teles tinham «os contactos», por que é que Reinaldo Teles já não está na lista do Conselho de Administração? E agora, como fica o futebol de formação? Sendo Luís Gonçalves um assumido homem de scouting, e não de contactos e empresários, a quem serão doravante imputadas responsabilidades pela abordagem do FC Porto no mercado de transferências? E se já havia notícias que apontavam Antero Henrique à saída em maio (um mês depois das eleições!), como é que se inicia uma época assim? E que garantias de união e coesão a SAD do FC Porto pode dar se, logo no arranque da primeira época do novo mandato, já cai um dos administradores? Ou caíram já dois, visto que Reinaldo Teles não está na lista? O que acontece ao projeto que foi apresentado em Abril e que visava reerguer o FC Porto? 

Há mil e uma questões que podíamos colocar. Mas não é tempo de os portistas colocarem questões. É sim tempo de Pinto da Costa dar respostas.

Atualização: depois d'O Tribunal do Dragão ter feito este post, o FC Porto acrescentou, no seu site oficial, o nome de Reinaldo Teles ao Conselho de Administração da SAD.

Cronologia

10.02.2016 - A SAD envia à CMVM a proposta de composição do Conselho de Administração para o quadriénio 2016/2020, mantendo-se inalterável. Antero Henrique não está na lista. 

03.03.2016 - Antero Henrique é nomeado administrador da SAD, depois de não ter integrado o quadro inicialmente proposto que foi comunicado oficialmente à CMVM. No espaço de 20 dias, Antero saltou para um cargo que não estava previsto para ele.

07.04.2016 - Pinto da Costa fala dos seus planos para o novo mandato: «O futebol de formação será da responsabilidade do sr. Antero Henrique».

19.04.2016 - Pinto da Costa, após a reeleição da SAD, explica por que Antero Henrique foi oficialmente promovido a administrador. «A entrada do Antero Henrique aconteceu para dar mais coesão à administração, para sentir mais cobertura e apoio de toda a administração. Se propuser algo que entendermos que não está bem, não se faz. Dá-lhe até mais coesão perante o grupo que ele dirige, no futebol, visto que ele e o Reinaldo Teles é que têm os contactos.»

25.05.2016 - Surgem notícias que dão conta de uma (nova) ameaça de Antero Henrique de deixar a administração da SAD, ainda antes da contratação de Nuno Espírito Santo e do ataque à redefinição do plantel da nova época.

25.06.2016 - É publicado no site do FC Porto um comunicado do Conselho de Administração, negando as «alegadas divisões na administração da FC Porto SAD». «Como sempre aconteceu, no seio da administração convivem ideias diferentes, conceções diferentes, caminhos diferentes e da discussão sempre saiu um percurso comum, que todos trilham em defesa dos interesses do FC Porto. É assim desde 1997, quando esta sociedade foi constituída. Desta vez não é diferente e do salutar confronto de ideias sairá uma política que por todos será executada sem quaisquer dúvidas ou constrangimentos.»

18.08.2016 - Novas notícias a apontarem Antero Henrique à saída do FC Porto. 

23.08.2016 - Pinto da Costa, ainda em Roma, reage a essas mesmas notícias. «Eu não reajo a notícias. Uns disseram que sim, outros não. Eu não sei se saio amanhã, nenhum de nós tem a vida nas mãos. É assunto que não é assunto. Foi uma encomenda que foi dada à TVI24. (...) Esse 24 transferências já nos transferiu tantos jogadores que cai no ridículo.»

01.09.2016 - O FC Porto informa que Antero Henrique abandona todas as funções que ocupava no clube e na SAD.

01.09.2016 - Os associados e adeptos do FC Porto aguardam explicações de Pinto da Costa e Antero Henrique sobre o sucedido. E se quiserem continuar a fingir que não há conflitos de longa data na SAD, força. Não tomem é todos os portistas por devoradores de gelados com a testa. Um líder não desmente ou ignora os conflitos. Um líder assume-os, enfrenta-os e resolve-os. E nas palavras de Pinto da Costa, «só os ratos é que fogem». Portanto, que se façam ouvir Antero Henrique e Pinto da Costa. Os motivos para a saída de um e o porquê de um Conselho de Administração (re)eleito em Abril, para um mandato de 4 anos, já estar a ser remodelado. Se os visados não se pronunciarem sobre o sucedido, não esperem que seja um blogue a fazê-lo. 

Ou então continuem a fingir que está tudo bem.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

«Os reforços estão identificados»

Citação de Nuno Espírito Santo, 21.07.2016


Mais de cinco semanas depois desta frase de Nuno Espírito Santo, o FC Porto recebeu 4 jogadores para o plantel principal. Depoitre, contratação em contrarrelógio pela mão de Luciano D'Onofrio e que chegou sem aparentar encaixar muito bem no que estava a ser preparado até então por Nuno Espírito Santo; Óliver Torres (que estava de facto há muito tempo identificado e, este sim, tinha que ser um jogo de paciência) e Diogo Jota (a hipótese possível para ter mais um extremo, mais rápido e vertical, sem implicar grandes custos imediatos), ambos por Jorge Mendes; e a fechar o mercado, Boly, que não a era prioridade do FC Porto, tanto que o clube preferiu esperar até ao limite pela possibilidade de ter Mangala por empréstimo, em vez de fechar logo um jogador que chegou a estar com tudo feito para rumar ao FC Porto antes de Rafa.

O plantel está fechado e o FC Porto pode ter conseguido ontem o melhor reforço da época. Chama-se Yacine Brahimi. O plantel, comparativamente há um ano, pode não ser estar necessariamente mais fraco (entre os jogadores que terminaram a época, entre os que podiam ter um papel importante só saiu Aboubakar), pelo contrário, resta saber se será suficiente para lutar pelos objetivos propostos. Estamos melhores do que há uma semana, estamos melhores do que há um mês. Mas estamos a falar da necessidade de recuperar mais de uma dúzia de pontos em relação a Benfica e Sporting (tomando por referência a classificação da última época). São três fortes candidatos ao título, e ninguém no FC Porto pode assumir a dianteira do favoritismo, por reconhecer o quão difícil será lutar por este título. O mercado de transferências não foi tão bom como o de Mark Zuckerberg, isso não. Mas o plantel não piorou, que é algo que não pôde ser dito na pré-época de 2015-16.

Começando pela questão financeira. A SAD só vai apresentar o seu orçamento para 2016-17 na segunda quinzena de outubro, mas esperam-se tempos muito difíceis. A SAD está sistematicamente a falhar nas suas metas financeiras, sobretudo de há dois anos e meio para cá. O FC Porto precisava mais de 70M€ de mais-valias no último exercício, e não as fez. Alex Sandro foi a última boa venda do FC Porto. E apesar de o FC Porto ainda ter conseguido recuperar nas receitas da UEFA que estavam previstas, ao apurar-se para a Champions (dar por garantido o apuramento para 2017-18 seria novamente um risco enorme), é claro que não vai chegar. Se terá que haver vendas em janeiro, o futuro o dirá.

Já neste mês de Setembro há um reembolso/renegociação de 17M€ ao Novo Banco, que tinha como garantias Herrera ou Brahimi. Nenhum deles saiu. O orçamento para 2016-17 já terá um buraco que em tudo se espera superior a 40M€ (vai ser o maior da história do futebol português), a avaliar pelas receitas que não entraram na última época; e se o FC Porto voltar a apresentar um orçamento suicida, muito distante da autos-sustentabilidade, assusta imaginar a quantidade de jogadores que tenha que ser vendida no final da época. E se Jorge Mendes (uma vez mais, um exemplo de que sem propostas de Jorge Mendes é bem mais difícil para o FC Porto vender jogadores) não tiver propostas boas, mais difícil será. (IN)felizmente, já tem mão sobre as nossas duas maiores pérolas da formação, Rúben Neves e André Silva. É certamente um tema mais apropriado para o final da época 2016-17, mas que quando chegar não pode deixar ninguém surpreendido.

Desportivamente falando, vamos começar por Brahimi. É de um amadorismo histórico a gestão do FC Porto do seu caso. Todos davam como adquirido que Brahimi iria sair. Não saiu, também porque a Doyen Sports é incapaz de fazer uma boa venda para o FC Porto. O FC Porto já deu muito dinheiro a este fundo, que tem sido incapaz de arranjar boas propostas para jogadores do FC Porto (ou pelo menos que se tenham concretizado em saídas). Repare-se que o maior negócio com intervenção da Doyen, Mangala, só foi possível porque foi Jorge Mendes a conduzir as negociações com o City. E agora a Doyen não arranja sequer uma boa saída para Brahimi? Façam lá uma coisa: quando arranjarem uma boa proposta por Sérgio Oliveira, visto que compraram 25% do passe já depois da FIFA ter proibido a partilha de passes por terceiros, o FC Porto volta a negociar com vocês. Boa? O Sporting já fez mais dinheiro sem Doyen do que o FC Porto com Doyen. A refletir. 

Reforço entre o caos
Quem decidiu que Brahimi não ia mais a jogo pelo FC Porto? A SAD, porque tinha toda a convicção que o ia vender? Nuno Espírito Santo, por não querer usar/criar dependência de um jogador que tinha os dias contados? O próprio Brahimi, por já não estar com a cabeça no FC Porto? Felizmente, Brahimi não fez falta no playoff da Champions, mas fez muita falta em Alvalade. 

E do lado contrário podemos ver exemplos que envergonham o FC Porto - aliás, não envergonham o FC Porto, envergonham sim quem tomou estas decisões para o clube. Slimani estava vendido ao Leicester, mas jogou contra o FC Porto e marcou; e há bem pouco tempo, Matic também já estava vendido ao Chelsea, ainda fez birra numa manhã de clássico, mas foi a jogo e ajudou a derrotar o FC Porto.

Pobre do portista que aceitar que Benfica e Sporting façam mais para ganhar os seus jogos do que o FC Porto. Isso é inaceitável! O FC Porto tinha um ativo valioso nos seus quadros que não estava a utilizar. Quem inibiu a sua utilização deve assumir responsabilidades. Podia haver a hipótese/necessidade de sair, mas que estivesse integrado e a jogar até então. Compreender-se-ia a sua ausência se o FC Porto já tivesse um sucessor/alternativa, mas não tinha. Ou tinha Adrián López, que chegou a estar dispensado na equipa B. Uma explicação sobre este caso, é o mínimo que se pode pedir, sobretudo com a imprensa inglesa a afirmar que o FC Porto recusou 40M€ por Brahimi. Depois de termos testemunhado, na novela Rafa-Braga-Benfica-Araújo (só para não dar um exemplo do FC Porto), que um simples empresário pode deitar um negócio que estava feito a perder por causa de uma comissão, seria bom o FC Porto explicar por que é que Brahimi acabou por não sair. Não finjam que não se passa nada. Estamos em 2016, na era da comunicação. 

E agora tem que começar a reabilitação de Brahimi, percebendo que pode ser o maior reforço para o FC Porto esta época. Vai ser um grande desafio para Nuno Espírito Santo, recuperar o jogador. Tem todas as caraterísticas que podem interessar a NES, mas em janeiro vai para a CAN, e não está com ritmo competitivo. Se estiver bem, se estiver comprometido com o FC Porto (não é fácil, pois é um jogador que estava convencido de que ia sair - não estamos a falar de um jogador que estava a jogar e que mantinha a mera expetativa de sair), Brahimi pode ser um grande reforço. Até lá, que se explique a sua ausência. E não deixem Nuno Espírito Santo em fogo cruzado, a responder por decisões que não tenham sido tomadas por ele.

E agora vamos ao último negócio do defeso - tirando Areias, mais um entre muitos negócios difíceis de compreender que o FC Porto tem vindo a fazer com o V. Guimarães nos últimos anos, tendo o único de facto pertinente sido a contratação de Ricardo Pereira. Seria, sem dúvida, interessante o FC Porto revelar a cláusula de compra que tem de Areias. Interessante ou chocante. Mas ei, pode dar sorte: a última vez que o FC Porto teve um Areias em campo ganhou ao Chelsea. E era Nuno o guarda-redes. Pronto, está explicado. 

Qualidade =/= preço
Boly não é o perneta que muitos querem fazer parecer. Pelo contrário, Boly tem qualidade. É certo que não é Mangala, mas o FC Porto sabia perfeitamente que, se o City recebesse uma proposta melhor, Mangala deixaria de ser hipótese. Esperar para 31 de agosto para reforçar a defesa - estamos a reforçar a defesa ou a mudar a dupla de centrais? -, isso sim, é de uma enorme preocupação. Sobretudo depois das irrisórias justificações publicadas para que o negócio de Boly tenha sido congelado/abortado no início do mês: de que o jogador tinha feito demasiadas exigências. Sim, sim. Porque um tipo que há um ano estava no Braga B ia roer a corda com os dentes todos. Claro, claro. 

Mas Boly vale, à data de hoje, uma avaliação de 8M€? Não, não vale. Não só porque isso torná-lo-ia o defesa-central mais caro da história do FC Porto e uma das maiores vendas da história do Braga. Depois de quase mais uma comidela, que seria o negócio Rafa (em boa hora o FC Porto não o fez), António Salvador volta a rir-se na hora de negociar com o FC Porto. Faz uma boa venda e fica com uma dupla de centrais bastante boa de jogadores dispensados pelo FC Porto (Ricardo Ferreira, que infelizmente está lesionado e era/é o melhor defesa do Braga, e André Pinto). 

Todos os jogadores comprados pelo FC Porto nesta janela de transferências chegaram com uma avaliação entre 6 e 8M€. Foi assim com Boly, Depoitre, Layún, Felipe e Alex Telles. O resto dividiu-se entre empréstimos e jogadores em free-agent (considerem mudar esta expressão para expensive-agent). Como se explica então que o FC Porto, tendo dificuldades financeiras, só tenha comprado jogadores na casa dos 6M€?

Aqui já se reflete o quão mal a SAD está a lidar com o fim da partilha de passes imposto pela FIFA. Há três épocas, o FC Porto dificilmente absorveria a totalidade dos passes de todos estes jogadores. Neste caso, é logo obrigado a comprar os 100%, pelo que todas as compras estão a ser inflacionadas nesse sentido. Além disso, são contratações cujo maior impacto (no que toca ao pagamento a outros clubes) não é imediato. O que explica que se prefira o caro, a pagar mais tarde, em detrimento do mais barato, mas a pagar mais agora. É perceber, mas não é concordar.

É de recordar que os centrais mais caros da história do FC Porto (Indi e Reyes) foram emprestados. Felipe, o 3º mais caro, está a adaptar-se. Marcano está a fazer um grande início de época, mas não é difícil adivinhar que, ao primeiro erro, metem-lhe a cabeça na guilhotina. À partida, pensando em Boly, Marcano e Felipe, é natural que se mantenha a dupla de centrais atualmente titular. Mas quando chega um central de 8M€, por norma tem que jogar. Não faz muito sentido NES encostar Marcano na sua melhor fase, tal como não fará sentido um central de 8M€ não jogar. Certo é que passamos a ter, pelo menos, 3 centrais para o totobola, pois Reyes e Chidozie (que continua no clube) não contavam para Nuno. 

É bom não esquecer que Boly, há um ano, estava na lista de dispensáveis do Braga. Depois de ter mostrado algumas coisas boas no Auxerre (ainda que não esquecendo que, mesmo após duas épocas na Ligue 2, nenhum clube francês lhe quis pegar - atenção à condição física!), saiu e foi para a equipa B. Só teve a oportunidade de fazer um jogo na equipa A. No arranque da época 2015-16, Paulo Fonseca deu-lhe uma oportunidade e Boly agarrou-a. Fez uma boa época, mas apenas isso: uma boa época. E de repente já merece ser o defesa mais caro da história do FC Porto, do Braga e de todo o futebol português?

A história de que os jogadores valem o que os clubes pagam por eles é muito gira, mas é para clubes que respiram saúde financeira, não para o FC Porto, que vem acumulando prejuízos colossais. Os clubes que não dependem de mais-valias para subsistir, esses sim, podem pagar o que quiserem; mas para quem, além de depender de mais-valias, nem sequer fez essas mesmas mais-valias, não.

Dito isto, enunciemos as qualidades de Boly. Sim, porque Boly tem qualidade. O que está em causa é o preço aplicado ao contexto. Boly é um central que joga muito bem na dobra. Antecipa-se muito bem, corta muitos lances em antecipação, chega facilmente primeiro aos cruzamentos, ganha quase tudo pelo ar. Além disso, Boly mostrou, em Braga, ser bastante competente no primeiro passe. Não inventa. É o típico central que limpa tudo. 

Mas há o lado contrário. Boly joga muito melhor na dobra do que na marcação, e tem muitas dificuldades quando é forçado a manter posição. No 1x1, Boly (ainda) treme muito, chega a ser duro de rins. Tudo o que seja para limpar, contem com Boly. Mas se um avançado vai para cima dele, a coisa complica-se. Aí Boly já não é um especialista no desarme. 

No Braga, Boly preocupava-se sobretudo em limpar e afastar as bolas da grande área. Para o lado que estivesse virado, fazia o corte. E faz isso muito bem. Mas no FC Porto não vai poder ser assim. O FC Porto não mete simplesmente a bola para fora. Bolas cortadas pela linha lateral, ou pela linha de fundo, só em caso de extrema necessidade. Aqui, Boly tem que transformar um desarme num início de construção. Recuperar e sair a jogar. Vai ser uma nova realidade para ele. Por isso, sim, Boly tem qualidade; mas não tem qualidade que valha o que custa, e há muitos aspetos no seu jogo que vão necessitar de maturação. 

Como o FC Porto teve boas referências de Boly enquanto profissional - soube esperar pela sua oportunidade em Braga -, oxalá chegue com toda a disponibilidade para aprender e evoluir. O fardo do que custou não estará sobre ele. 

Alternativa
Quanto à composição do plantel do FC Porto, há uma limitação no ataque: André Silva não tem suplente. Porque Depoitre não é suplente de André Silva: é uma alternativa a André Silva. São coisas diferentes. Porque o FC Porto não pode jogar da mesma forma tendo André ou Depoitre em campo. Tendo André Silva em campo, o FC Porto tem um avançado com grande amplitude de jogo, que sabe cair nos flancos, vem buscar jogo atrás e consegue acelerar no último terço. Depoitre não corresponde a esse perfil. Depoitre é um homem para segurar a bola mais próximo da grande área e impor a sua capacidade física. O FC Porto, em função do avançado que estiver em campo, vai jogar de diferentes formas. 

Com a chegada de Óliver Torres e a possível recuperação de Brahimi, o FC Porto fica com outros argumentos para lutar pelos seus objetivos. Mas isso não invalida que uma pré-época assumidamente iniciada em Abril deste ano não podia espelhar tamanha desorganização e má gestão. Não tivesse o FC Porto conseguido o apuramento para a Champions e as coisas podiam estar bem mais feias. E não era preciso muito para isso acontecer: bastava apanhar um Tiago Martins em Roma. 

Tendo em conta que o FC Porto ainda cedeu vários jogadores (uma vez mais, o FC Porto não comunicada nada aos adeptos, que só vão sabendo das saídas de jogadores através da imprensa), vamos deixar essa análise para um próximo post, até porque com a pausa para os jogos internacionais será tempo de deixar Nuno Espírito Santo e o plantel trabalharem. Mas alguém se lembra de Helton?

Muitos adeptos esquecem que Helton ainda é um profissional assalariado do FC Porto. Helton não terminou a carreira, nem rescindiu contrato. A única coisa que a SAD e Helton informaram, num comunicado conjunto, foi que Helton não integraria o plantel de 2016-17. À data de hoje, não havendo ainda confirmação contrária, Helton é um futebolista do FC Porto que não tem colocação. Como o é Quintero, por exemplo. Se não fosse pedir muito, resolver as coisas com o ex-capitão do FC Porto calhava bem.

Dispensemos o clichê do vamos à luta com os que temos. Havíamos de ir com quem? Com os que não temos? Tem que ser dessa forma, não poderia ser de outra. 1/8 da Liga dos Campeões, tentar lutar pelo título até ao final e entrar na Liga dos Campeões, fazer os possíveis para regressar ao Jamor. Em cada jogo, deixar claro que o FC Porto esgotou todas as armas à sua disposição para ganhar. É o mínimo que se pode pedir. E o máximo também. Força, equipa.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Uma nova escola

Já é por demais conhecida a história de Alexandre Gomes, filho de José Fontelas Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem, e que foi este ano contratado pelo Sporting. Vamos admitir a extrema coincidência de uma pessoa com forte influência na arbitragem ter um filho a jogar nos juvenis do Sporting. O miúdo é por certo o último a ter culpa de coisa alguma.

Mas o problema é quando se começa a formar um ligeiro padrão. No final de maio, Luciano Gonçalves chega à presidência da APAF. E depois do clássico entre Sporting e FC Porto, teve a sua primeira grande intervenção pública nessa condição. Disse isto.

«Não faz sentido, semana após semana, este tipo de críticas à arbitragem. Na nossa opinião, o Tiago Martins fez uma grande arbitragem no seu primeiro clássico». 

A bem da verdade, não foi a primeira vez que se pronunciou sobre a arbitragem. Depois das críticas do Benfica à arbitragem de Manuel Oliveira, veio a público dizer isto: «Criticar o árbitro, dizer que ele errou faz parte, é o mundo do futebol. Agora daí a levantar este ambiente de crispação junto dos árbitros e dos dirigentes da arbitragem é completamente errado. O ambiente criado pelo presidente do Benfica é desnecessário». Ena, um líder da APAF a mandar o presidente do Benfica ter cuidado com o que diz? Bravo! Como pode alguém criticar o presidente do Benfica? Hmmm...

Entretanto, José Fontelas Gomes saiu da APAF para o Conselho de Arbitragem. Luciano Gonçalves fazia parte da sua lista e foi então apoiado por Fontelas Gomes, por ser visto como uma solução de «continuidade». Elogie-se a sua intenção de tornar públicos os relatórios dos árbitros. Por certo, todos temos curiosidade em ver o que disse Tiago Martins no seu relatório de jogo. 

Mas a sintonia com José Fontelas Gomes vai muito além da arbitragem. Pois, Fontelas Gomes não é o único a ter um filho a jogar no Sporting. 



Não precisamos de mais do que fazer o exercício de imaginar o que se diria se Fontelas Gomes e Luciano Gonçalves tivessem os seus filhos a jogar no FC Porto. Quantos e quantos conflitos de ética tentariam descobrir? Neste caso, silêncio absoluto. 

Luciano Gonçalves fez carreira de árbitro, embora nunca ao mais alto nível. Mas teve também outras profissões. Por exemplo, no passado recente, era distribuidor independente da Herbalife, uma empresa de suplementos nutricionais. Não há problema nenhum em sê-lo, logicamente. 

Mas uma vez mais, é de uma extrema e inocente coincidência ver um dos parceiros da Herbalife, promovido pelo próprio Luciano Gonçalves...


Não sabemos o que levava aquele batido do Slimani, mas deve ser rico em nutrientes que fortalecem as articulações do cotovelo. Há mais, desde apresentações a televisão de boa qualidade (tudo publicações de Luciano Gonçalves nas redes sociais tornadas públicas). 


E no final, um bom manjar sabe sempre bem. 


Mau seria Luciano Gonçalves não aproveitar a visibilidade do terceiro maior clube português para promover a marca com a qual trabalhava. Fez ele muito bem. Mas é interessante imaginar como seria chegar ao Olival e ver os jogadores do FC Porto a brindar com herbalife, com filhos de pessoas influentes da arbitragem em Portugal nos escalões de formação, o Sporting a queixar-se da arbitragem e depois fazermos todas as ligações aqui descritas.

A terminar, uma questão: alô, FC Porto? Está aí alguém?

Mais do que um clássico

Achar que Nuno Espírito Santo é um treinador mais ou menos adequado para o FC Porto é um tema distante de recolher unanimidade (e que à imagem de qualquer antecessor seu, a sua disparidade crescente estará sempre ligada aos maus resultados, tenha ou não culpa deles). Mas todos podem concordar com uma coisa: Nuno Espírito Santo não era, de todo, o treinador ideal para este jogo. Ricardo Costa seria mais adequado. Ou, se estiver muito ocupado, Obradovic.

Há obviamente que saber diferenciar as coisas. O FC Porto pode e deve sempre protestar quando se sente lesado pelas arbitragens. Deve é saber onde acaba a culpa dos árbitros e onde começa a responsabilidade do próprio clube, desde os jogadores ao treinador, passando obviamente pela direção. 

Os adeptos portistas não podem viver na bipolaridade de criticar tudo quando perdem e de desculpar e esquecer tudo quando ganham. Quase parecia um sacrilégio, nos últimos dias, afirmar que as expulsões na Roma tiveram uma forte influência no play-off da Champions. Pois com certeza que tiveram! Três jogadores expulsos numa eliminatória da UEFA é histórico. Foi só por causa das expulsões que o FC Porto foi à Champions? Com certeza que não. Mas tiveram grande influência? Claro que sim! Experimentem jogar com 9 e depois comparem. 

A equipa que ganhou à Roma tinha sido a mesma que não ganhou contra 10 no Dragão, que esteve a perder em Vila do Conde e que ganhou à rasca ao Estoril. E é a mesma que esteve a dominar em Alvalade, até ao golo do empate, e que levou um autêntico banho de bola na segunda. Breaking news: há muitos números entre o 8 e o 80. 

Quando o FC Porto ganha, quem tem espírito crítico não pode nunca deixar de identificar onde estão lacunas, onde se pode melhorar, o que foi feito de mal. Se o próprio treinador faz isso, por que não hão-de os treinadores de bancada de o fazer? Da mesma forma que, quando o FC Porto perde, há certamente alguns aspetos positivos, e coisas a partir das quais o FC Porto pode crescer. Os adeptos viverem nesse limbo entre a euforia e a depressão faz lembrar os tempos clássicos de Sporting e Benfica nos anos 90 e primeira década do século XXI. Haja um maior equilíbrio. 

Vamos começar por aí. É normal o FC Porto ter maus resultados em Alvalade. Sim, é normal. Já lá vão 8 anos desde que o FC Porto não ganha em Alvalade. É o estádio mais difícil em Portugal para o FC Porto. Não se podem tirar ilações definitivas por os jogadores e Nuno Espírito Santo não terem conseguido ganhar hoje. Villas-Boas não conseguiu, Vítor Pereira não conseguiu, Lopetegui não conseguiu. É um estádio difícil para nós. Não é este resultado que vai sentenciar coisa alguma.

Logo, o que está em causa não é o resultado, ou a exibição. É perceber quantas das coisas negativas que vemos neste jogo são repetições das últimas semanas ou meses. E perceber se estamos à procura de prolongar o estado de graça de início de época, ou se temos mesmo demonstrações cabais de que há um FC Porto a crescer e pronto a assumir-se na luta pelo título. 

Durante 15 minutos, vimos um FC Porto destemido, capaz de enervar o Sporting e ganhar vantagem. Vimos erros de arbitragem estarem relacionados com a reação do Sporting. Vimos um FC Porto demasiado anjinho a partir daí. E vimos um FC Porto que pouco ou nada fez (não em termos de atitude e empenho, mas de futebol jogado) para tentar ganhar o jogo na segunda parte. Tudo merece ser analisado e tido em conta. Ontem não estava tudo bem, hoje não está tudo mal. Mas em finais de Agosto, renovam-se (ou reafirmam-se) as expetativas de início de época: assim será muito difícil lutar pelo título, e os próximos três dias podem dizer muito sobre isso. 

É óbvio que a arbitragem de Tiago Martins teve um critério díspar, em prejuízo do FC Porto. Nem sequer é a questão dos golos a estar em causa. No primeiro, não há mão de Gelson. No segundo, segundo o que diz o FC Porto no seu próprio site oficial, «a bola embate no braço de Bryan Ruiz». Ora se a bola embate no braço, não há falta. Falta há se for o braço a embater na bola. Em causa está sim o momento da falta (ou falta dela) que precede o primeiro golo, agressões não punidas, as cotoveladas de Coates ou Slimani, fora-de-jogo mal tirado e um árbitro que cedeu à pressão das bancadas.

Mas toda esta situação já era prevista. A ascensão de Tiago Martins na arbitragem já tinha sido tema aqui, entre muitos outros temas aos quais o FC Porto sempre pareceu alheio e que agora dão os seus frutos. Até o bandeirinha! Mas lá está, o problema do FC Porto são os blogues que dividem, são os blogues que andam a expor estas situações há imenso tempo. Não fossem esses e o FC Porto ontem teria ganho e Tiago Martins até seria capaz de fazer uma arbitragem limpa.

A entrada em campo (+) - O golo acabou por ser um justo prémio para a audácia e pressão do FC Porto. Que bem entrou a equipa na partida. Pressionou o Sporting logo no seu início de construção, obrigou-os a errar na saída de bola, conseguiu profundidade no meio-campo adversário e criou desde cedo situações de perigo. Estava tudo a correr mal ao Sporting: Jesus queria preencher o meio-campo, mas o FC Porto tinha ganho o setor logo no início. É claro que o FC Porto não ia conseguir aguentar sempre este ritmo. Faltava saber se haveria capacidade de, no momento do Sporting assumir o jogo (porque esse momento ia chegar), o FC Porto seria capaz de o controlar. Não foi. Tudo pode ter começado no apito de Tiago Martins, mas há muitas responsabilidades a serem assumidas pelo FC Porto. 

A entrada de Óliver (-) - Não, não é uma crítica ao jogador. É concluir que tudo, tudo aquilo que o FC Porto fez durante a pré-época e até hoje, para pouco ou nada serviu. Reparem, Óliver chega ao FC Porto apenas na sexta-feira. Faz o primeiro treino, e dois dias depois já é chamado a jogar um clássico de elevada exigência, onde o FC Porto estava a perder? Óliver não só não conhece as ideias de Nuno Espírito Santo como Nuno não tinha um jogador com as caraterísticas de Óliver. Óliver chega e passa à frente de todos os jogadores que estiveram a fazer a pré-época, ainda por cima para jogar na ala! É melhor? Com certeza que sim. Mas não está rotinado, não está adaptado à equipa e nem sequer fez uma pré-época decente (Óliver não jogava há um mês). Não raras vezes víamos Óliver a desentender-se com Herrera, com Otávio, com os laterais, não percebendo que movimentações os colegas iam fazer. Não é culpa dele. Foi lançado às feras. Chega, faz dois treinos e salta logo para um clássico. Isso não diz coisas particularmente boas das convicções que NES tem da sua pré-época; isso ou sente tão pouca confiança nas soluções que tinha que decidiu lançar já Óliver. De qualquer forma, preocupante.

O banco (-) - Qualquer equipa decente, que se preze e que lute por títulos, tem um defesa no banco. Não estamos a pedir muito: estamos a pedir um defesa no banco! Que diz isto? Que o FC Porto só tem 2 centrais que contem para Nuno Espírito Santo. Chidozie e Diego Reyes não parecem ser opção. Repare-se que NES prefere não os ter no banco e ficar sem defesas suplentes. Isso diz muito da falta de confiança neles. Ah e tal, o Danilo pode baixar para central se acontecer alguma coisa. Ai é? Pior ainda! Assim, se há uma lesão na defesa, o FC Porto já não tem que mexer apenas num setor, tem que mexer em dois! Então, que dizer da situação dos centrais suplentes, sobretudo de Reyes? Ou o culpado é NES, por não tirar proveito das unidades que tem; ou o treinador não tem culpa nenhuma, pois as alternativas são simplesmente más, a ponto de preferir nem ter defesas no banco. Nem é preciso falar de Lima Pereira, Aloísio, Jorge Costa ou Fernando Couto. Em 2011 tínhamos Otamendi, Mangala, Maicon e Rolando. Hoje temos Felipe e Marcano. Nenhuma equipa é campeã com apenas 2 centrais que contem para o totobola.

A ausência de Brahimi (-) - Slimani já está vendido? Pouco importa. Vai a jogo, marca, distribui porrada, ajuda a sua equipa a vencer e vai à vidinha dele. Ainda é jogador do Sporting? Então toca a tirar proveito do ativo do clube. E então que faz o FC Porto? Tem Brahimi encostado desde o início da época, à espera que o levem. Não há justificação para isto. O FC Porto não tem melhor do que Brahimi e nem sequer está a usar o jogador. Na segunda parte, o FC Porto não faz um remate para Rui Patrício defender. Nem um! Tirando um rasgo de Otávio, não houve ali nada que fizesse o FC Porto sentir que ia haver um desequilíbrio que podia dar golo. Será que com Brahimi seria mais fácil? Nunca saberemos. Mas o FC Porto não tinha melhor e acabou o jogo a ter que confiar que Adrián e Depoitre, saídos do banco, iam ser abre-latas. Confrangedor. A gestão do caso de Brahimi é amadorismo, ponto. Ah e tal, mas o FC Porto precisa de vender, e se o Brahimi se lesionar já não há transferência! Vejam bem o drama que foi para o Sporting usar Slimani. Aparentemente, estavam mais preocupados em ganhar o jogo ao FC Porto do que em temer que Slimani se lesionasse. Vejam lá que preferiram que a sua equipa tivesse todas as condições possíveis para ganhar um jogo do que deixar uma transferência em risco por causa de uma lesão. Estes tipos sportinguistas são mesmo esquisitos. Usar todas as suas armas para ganhar um clássico? Coisa tão estranha para estes lados.

A entrada de Depoitre (-) - Quanto tempo esperou Nuno por Depoitre? Foi através desta questão que O Tribunal do Dragão analisou a contratação do ponta-de-lança. E ontem refletiu-se a falta de preparação para jogar com um avançado destas caraterísticas. Depoitre e André Silva não sabiam onde se posicionar. A partir do momento em que o FC Porto muda para 4x4x2, ninguém percebeu muito bem qual espaço ocupar, que movimentos fazer. Há um lance que ilustra tudo: Layún cruza e André Silva e Depoitre vão os dois à mesma bola. Nenhum deles percebeu muito bem qual deveria ser a sua função num 4x4x2, que deixou Herrera e Danilo sozinhos para um meio-campo que estava a ser controlado pelo Sporting. Um esquema que claramente não foi devidamente preparado.

Falta de reação (-) - O FC Porto teve uma excelente entrada em campo. O Sporting estava a ser completamente entalado. Então Jorge Jesus responde: passa Bruno César para o meio e o FC Porto nunca mais volta a tomar conta do jogo. Que fez Nuno Espírito Santo para reagir? Objetivamente, nada. A entrada de Óliver Torres já foi descrita, a de Depoitre também e a aposta em Adrián era o pouco mais que se podia fazer. Taticamente, Nuno Espírito Santo entrou a ganhar, mas desde os 15 minutos nunca mais houve uma resposta da equipa. Um Óliver inadaptado e um Depoitre sem ensaio para este 4x4x2 foram as respostas vindas do banco. Lá está: culpa do treinador, que não soube reagir, ou as armas que tinha à disposição é que não eram boas o suficiente para reagir?

Outras notas (-) - Façam uma coisa: peguem nos alemães do Bielsa, espalhem uns 50 pelos Olival e obriguem os avançados do FC Porto a driblá-los sempre que apanharem um pela frente. Podemos começar por aqui. Brahimi podia enervar com as suas rotundas, mas passava pelos adversários, ou arrastava a bola para outro lado (e com ela, arrastava também o adversário). Perto do final do jogo, há dois lances em que Adrián não sabe muito bem como deve passar pelo defesa. E era uma situação em que, passando o defesa, ou ficava com via aberta para o remate ou para o último passe. Este é também um aspeto de jogo no qual André Silva tem que melhorar: a capacidade de 1x1. Muitas vezes, goste-se ou não de o ouvir (na verdade, ninguém gosta), o FC Porto está a jogar como equipa pequena. 

A segunda linha está sempre demasiado recuada. Depois dos 20 minutos, sempre que o FC Porto recuperava a bola, estava em zonas demasiado recuadas. E a pressa de meter uma transição rápida não funcionava. Só nos minutos iniciais, e uma vez na segunda parte, é que o FC Porto conseguiu meter bolas em profundidade para André Silva. E está a ser um reportório demasiado fraco ofensivamente: o FC Porto está a depender de bolas em profundidade para o seu avançado, coisa que não víamos há anos no Dragão. André Silva não tem culpa de ser mal servido, mas dessa forma terá que melhorar muito no 1x1, pois a equipa está a depender dele. Não devia. 

O último aspeto negativo: a ausência de agressividade em vários momentos do jogo. O meio-campo do FC Porto nunca se conseguiu impor fisicamente. Danilo não chega para tudo, mas ser agressivo não é ser apenas um matulão e meter o corpo. O Sporting jogou sempre nos limites da agressividade, sabendo que o árbitro deixava. O FC Porto não foi tão agressivo. Tanto que o Sporting fez praticamente o mesmo número de faltas, mas conseguiu levar o dobro dos cartões do FC Porto. O FC Porto foi anjinho. Um outro exemplo: Depoitre estava à espera para entrar. E demorou um tempo considerável a fazê-lo. Porquê? Porque o banco do Sporting montou uma feira e o quarto árbitro teve que estar na zona a acalmar e a averiguar a situação. Enquanto isso, Depoitre esperava para entrar. Foi preciso ir Rui Barros chamar João Pinheiro, árbitro esse que também já tinha sido aqui destacado. Estas pequenas coisas também contam.

A análise ao jogo é publicada mais de 24 horas depois de o clássico ter terminado. Bem, conclusão. Rui Gomes da Silva, numa mera e também asquerosa demonstração clubística, foi mais rápido a ter uma resposta do presidente Pinto da Costa do que a arbitragem de Tiago Martins em Alvalade. Perder um clássico, à 3ª jornada, em casa de um rival, não tira ninguém da luta pelo título. Mas houve bem mais do que um clássico. E se ouvir Pinto da Costa falar só depois das vitórias pode ser um bom sinal - é sinal de que há vitórias -, não ouvi-lo depois de uma derrota diz que pode haver algo diferente: deixar de ser o presidente das vitórias para passar a ser o presidente das... vitórias. Igual, só a expressão. A diferença entre manifestar-se para ganhar, ou ganhar para manifestar-se. Os portistas estão habituados a mais, o FC Porto precisa de mais. Não esperem pela próxima rasteira para isso acontecer.