Na época passada, o Benfica perdeu os 2 clássicos com o FC Porto, tendo ainda perdido por 3x0 em casa com o Sporting. Acabou por ser campeão. Isto diz desde logo que não é pelo resultado de ontem que o FC Porto reduz ou aumenta as suas hipóteses na luta pelo título. Na verdade, até as aumenta como nunca no que toca a termos exibicionais: vimos um FC Porto vulgarizar o Benfica durante grande parte do jogo, numa das poucas vezes esta época em que mostrou fibra de campeão.
Infelizmente, o minuto 92 dá para os dois lados. Um detalhe decidiu o jogo, e transformou uma exibição que estava a encher de orgulho todos os portistas na típica enxurrada de críticas que não existiriam se Herrera não tivesse cometido aquele erro, ou se não tivessem metido Herrera em campo, ou se tivessem vendido Herrera. Um único erro é pretexto para encontrar mil e um responsáveis, ainda que a exibição tenha sido exatamente a mesma. A exibição, sim, merece nota positiva. O resultado, infelizmente, não.
O FC Porto já perdeu 9 pontos em 10 jornadas. Na época passada, em 34 jogos, o Benfica perdeu apenas 14 e o Sporting 16. A equipa já perdeu muitos pontos, uns de mãos beijada e outros por erros de arbitragem, e as contas - que é o que conta sempre para a história - começam a ficar complicadas.
É sabido, desde o início, que esta não é uma época em que o FC Porto se tenha preparado convenientemente para o título, desde a forma como foi gerida a pré-época à escolha dos marujos para este leme. Mas o que mais custa é que a equipa mostrou ontem capacidade, muita capacidade, e fez quase até ao final os adeptos acreditarem que aquele jogo podia ser um ponto de viragem.
No final, fica (quase) tudo na mesma. Dentro de campo sinais muito positivos até determinada altura, nas contas tudo igual. Na verdade, infelizmente não fica tudo na mesma: o FC Porto deixa de depender de si próprio na luta pelo título. Seria difícil sob qualquer circunstância, ontem complicou-se um pouco mais, ironicamente no dia em que o FC Porto mais força e argumentos mostrou para se chegar à frente. É futebol... e mais umas coisas.
Óliver Torres (+) - Podem falar de Nuno Espírito Santo, de Herrera ou de Artur Soares Dias. Mas o momento-chave foi este: o FC Porto morreu quando Óliver Torres saiu de campo. Pensemos naquilo que foram os primeiros 5 minutos do FC Porto em campo: primeira posse de bola, Maxi manda um balão para a frente; segunda posse, mais um biqueiro para a frente; terceira bola, balão de Felipe para André Silva; quarta bola, cruzamento de Alex Telles a meio do meio-campo; quinta bola, mais um balão de Felipe para a frente. Estes foram os minutos iniciais do FC Porto e foram assustadores, pois davam a ideia de que o FC Porto ia jogar à imagem do que vinha sendo hábito para NES. Mas tudo mudou, graças a Óliver.
O FC Porto começa a crescer quando deixa de mandar o chutão para a frente e Óliver começa a baixar mais para ir buscar a bola. Foi aí que o FC Porto cresceu: médio a vir buscar a bola e a iniciar a transição rápida e apoiada com a bolinha no chão. Óliver fez um jogo simplesmente sensacional, tendo mantido toda a equipa a funcionar à sua volta. Colou a bola ao pé, distribuiu-a, arrastou os jogadores do Benfica, progrediu, meteu o FC Porto a jogar na órbita da grande área. Aos 67 minutos, saiu de campo. O FC Porto não voltou a ser o mesmo.
Machadada final (-) - Uma pequena retrospetiva de jogos contra o Benfica. Em 2003, Mourinho tirou Alenichev e meteu Tiago. Ninguém o acusou de ser medroso. Na Supertaça de 2004, Víctor Fernández tirou Quaresma e meteu Bosingwa. Ninguém o acusou de ser defensivo. Em 2011, na Luz, Villas-Boas trocou Falcao por Maicon. Ninguém o acusou de ter medo.
O que têm estes 3 jogos em comum? O FC Porto ganhou ao Benfica. Por isso, ninguém ousou criticar a opção defensiva tomada pelo treinador. Aconteceria exatamente o mesmo se o jogo ontem tivesse terminado aos 91 minutos. Se aquele golo de Lisandro não tem acontecido, todos estariam satisfeitos com NES, a fundamentar teorias de crescimento da equipa e a elogiar a sua estratégia. Como o FC Porto não venceu, voltou tudo a cair em cima do treinador, naquele tal ciclo vicioso.
A diferença? Nos três jogos referidos, estamos a falar de uma alteração de Fernández, outra de Mourinho e outra de Villas-Boas. Neste caso, as três alterações de NES deram sinais ao FC Porto para recuar. Foram três alterações defensivas. Nuno Espírito nem sequer ousou refrescar o ataque. Não, todos os sinais dados para dentro de campo foram para recuar. Por isso, o problema não foi tirar Jota para meter Herrera. O problema foi que aquela já era a terceira alteração de cariz defensivo. A melhor maneira de defender um 1x0 é esticar o jogo, refrescar o ataque, manter quem segure a bola na frente. Nuno preferiu recuar.
Nuno Espírito Santo foi o que tem sido desde que chegou ao FC Porto: um treinador com mentalidade demasiado pequena. Um treinador que foi o que não podia ser: pequeno. E esta é a crítica que sumariza tudo: quando Rui Vitória começou a mexer na equipa, o Benfica melhorou. Quando Nuno começou a mexer na equipa, o FC Porto piorou. Provavelmente, muitos não teriam ou subscreveriam estas críticas se o FC Porto tivesse ganho. Mas é por isso que O Tribunal do Dragão opinou negativamente muitas vezes em relação ao pensamento e estratégia de NES mesmo após bons resultados. Porque quando se perde pontos é muito fácil apontar o dedo e criticar; difícil é conseguir ter sentido crítico durante as vitórias, de modo a alertar para coisas que podem acontecer no futuro se a equipa não mudar. Ontem foi uma delas. Se o FC Porto cumprir alguns dos seus objetivos, não será «graças a». Será «apesar de».
Nem Brahimi nem Depoitre para segurar a bola na frente. Não, Nuno quis recuar. Sentiu medo de um Benfica que tinha sido quase inofensivo até então. Em sua defesa, era lógico que, após a entrada de André Horta, o FC Porto tinha que reforçar o meio-campo. E fê-lo bem, com Rúben Neves. Mas e depois? Que sinais foram dados à equipa? O FC Porto deixou de pressionar a saída de bola do Benfica e, com isso, deixou o adversário crescer. É claro que nenhuma equipa joga 90 minutos de alta rotação, mas faltou capacidade ao FC Porto para gerir o jogo com e sem bola e manter o Benfica no seu meio-campo. E isso começa no trabalho do seu treinador.
Agora, Herrera. Cometeu um erro, um erro que custou caro. Ingrato para um jogador que é capitão do FC Porto e que sempre teve uma conduta profissional irrepreensível. Errou. No último jogo frente ao Benfica, fez um golo e foi o melhor em campo, tendo sido decisivo na vitória na Luz. Ontem conheceu o outro lado da moeda.
Todos sabem que Herrera, no FC Porto, não é peixe na água. Mas já teve grandes jogos, já teve grandes momentos de forma, já revelou utilidade em vários momentos nos últimos 3 anos. Mas talvez seja possível concordar com uma coisa: provavelmente, nenhum leitor d'O Tribunal do Dragão recusaria uma proposta de 30M€ por Herrera. Se calhar nem de 20M€. Portanto, quem considerou que rejeitar 30M€ e manter Herrera era a melhor estratégia é que deveria opinar sobre isto. Ninguém imaginaria que o jogador cometesse aquele erro, mas aconteceu. Não foi um auto-golo, não foi um penalty, não foi uma expulsão. Foi um corte mal calculado, como tantos acontecem em todos os jogos. Este veio na pior altura e para o pior jogador possível (se tivesse sido Rúben Neves, Óliver ou André Silva, ninguém lhes dirigiria um décimo das críticas).
Paragem para as seleções, depois do jogo mais amargo da época. Porquê tanta amargura? Porque vimos que o FC Porto era capaz. E uma equipa que vulgariza de tal forma o tricampeão durante (quase) 90 minutos não pode baixar as armas por causa de um erro.

























