segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Grandes e pequeno

Na época passada, o Benfica perdeu os 2 clássicos com o FC Porto, tendo ainda perdido por 3x0 em casa com o Sporting. Acabou por ser campeão. Isto diz desde logo que não é pelo resultado de ontem que o FC Porto reduz ou aumenta as suas hipóteses na luta pelo título. Na verdade, até as aumenta como nunca no que toca a termos exibicionais: vimos um FC Porto vulgarizar o Benfica durante grande parte do jogo, numa das poucas vezes esta época em que mostrou fibra de campeão.

Infelizmente, o minuto 92 dá para os dois lados. Um detalhe decidiu o jogo, e transformou uma exibição que estava a encher de orgulho todos os portistas na típica enxurrada de críticas que não existiriam se Herrera não tivesse cometido aquele erro, ou se não tivessem metido Herrera em campo, ou se tivessem vendido Herrera. Um único erro é pretexto para encontrar mil e um responsáveis, ainda que a exibição tenha sido exatamente a mesma. A exibição, sim, merece nota positiva. O resultado, infelizmente, não.

O FC Porto já perdeu 9 pontos em 10 jornadas. Na época passada, em 34 jogos, o Benfica perdeu apenas 14 e o Sporting 16. A equipa já perdeu muitos pontos, uns de mãos beijada e outros por erros de arbitragem, e as contas - que é o que conta sempre para a história - começam a ficar complicadas. 

É sabido, desde o início, que esta não é uma época em que o FC Porto se tenha preparado convenientemente para o título, desde a forma como foi gerida a pré-época à escolha dos marujos para este leme. Mas o que mais custa é que a equipa mostrou ontem capacidade, muita capacidade, e fez quase até ao final os adeptos acreditarem que aquele jogo podia ser um ponto de viragem.

No final, fica (quase) tudo na mesma. Dentro de campo sinais muito positivos até determinada altura, nas contas tudo igual. Na verdade, infelizmente não fica tudo na mesma: o FC Porto deixa de depender de si próprio na luta pelo título. Seria difícil sob qualquer circunstância, ontem complicou-se um pouco mais, ironicamente no dia em que o FC Porto mais força e argumentos mostrou para se chegar à frente. É futebol... e mais umas coisas.




Óliver Torres (+) - Podem falar de Nuno Espírito Santo, de Herrera ou de Artur Soares Dias. Mas o momento-chave foi este: o FC Porto morreu quando Óliver Torres saiu de campo. Pensemos naquilo que foram os primeiros 5 minutos do FC Porto em campo: primeira posse de bola, Maxi manda um balão para a frente; segunda posse, mais um biqueiro para a frente; terceira bola, balão de Felipe para André Silva; quarta bola, cruzamento de Alex Telles a meio do meio-campo; quinta bola, mais um balão de Felipe para a frente. Estes foram os minutos iniciais do FC Porto e foram assustadores, pois davam a ideia de que o FC Porto ia jogar à imagem do que vinha sendo hábito para NES. Mas tudo mudou, graças a Óliver.

O FC Porto começa a crescer quando deixa de mandar o chutão para a frente e Óliver começa a baixar mais para ir buscar a bola. Foi aí que o FC Porto cresceu: médio a vir buscar a bola e a iniciar a transição rápida e apoiada com a bolinha no chão. Óliver fez um jogo simplesmente sensacional, tendo mantido toda a equipa a funcionar à sua volta. Colou a bola ao pé, distribuiu-a, arrastou os jogadores do Benfica, progrediu, meteu o FC Porto a jogar na órbita da grande área. Aos 67 minutos, saiu de campo. O FC Porto não voltou a ser o mesmo.


À Porto (+) - Ser Porto não é ganhar sempre, mas tem que ser lutar sempre para ganhar. Ontem, os jogadores deixaram claro que deram tudo, tudo para ganhar. Lutaram por cada bola, pressionaram o adversário, meteram o pé, fizeram cara feia nos sprints, jogaram com objetividade durante a maior parte do jogo e contagiaram os adeptos com a sua garra e crer. Excelente atitude, a todos os níveis. Ontem, não mereciam aquele soco no estômago. Nada a apontar na entrega e dedicação da equipa. 

Outros destaques (+) - Mais um bom jogo de Alex Telles. Ganhou quase todos os lances pelo seu corredor, apoiou o ataque, acelerou o jogo a partir do seu flanco e ainda roubou 6 bolas. Está num bom momento. Danilo Pereira, mais do mesmo: foi o principal recuperador de bolas e foi sempre a garantia de equilíbrio num meio-campo de alta rotação. Diogo Jota fez um golo e a sua versatilidade em campo foi sempre uma arma útil ao FC Porto (ora caía no flanco, ora desequilibrava em zona interior). Seria interessante descobrir por onde andam os indignados pela contratação de este suposto benfiquista. Corona decidiu várias vezes mal e mostrou muita hesitação, mas agitou o jogo, fez diagonais perigosas e com ele em campo o FC Porto tinha sempre uma via para criar perigo. Palavra também para mais um jogo limpo e autoritário de Marcano, a disponibilidade de André Silva e o empenho de Otávio no meio-campo. Mereciam muito mais. 





Machadada final (-) - Uma pequena retrospetiva de jogos contra o Benfica. Em 2003, Mourinho tirou Alenichev e meteu Tiago. Ninguém o acusou de ser medroso. Na Supertaça de 2004, Víctor Fernández tirou Quaresma e meteu Bosingwa. Ninguém o acusou de ser defensivo. Em 2011, na Luz, Villas-Boas trocou Falcao por Maicon. Ninguém o acusou de ter medo.

O que têm estes 3 jogos em comum? O FC Porto ganhou ao Benfica. Por isso, ninguém ousou criticar a opção defensiva tomada pelo treinador. Aconteceria exatamente o mesmo se o jogo ontem tivesse terminado aos 91 minutos. Se aquele golo de Lisandro não tem acontecido, todos estariam satisfeitos com NES, a fundamentar teorias de crescimento da equipa e a elogiar a sua estratégia. Como o FC Porto não venceu, voltou tudo a cair em cima do treinador, naquele tal ciclo vicioso.

A diferença? Nos três jogos referidos, estamos a falar de uma alteração de Fernández, outra de Mourinho e outra de Villas-Boas. Neste caso, as três alterações de NES deram sinais ao FC Porto para recuar. Foram três alterações defensivas. Nuno Espírito nem sequer ousou refrescar o ataque. Não, todos os sinais dados para dentro de campo foram para recuar. Por isso, o problema não foi tirar Jota para meter Herrera. O problema foi que aquela já era a terceira alteração de cariz defensivo. A melhor maneira de defender um 1x0 é esticar o jogo, refrescar o ataque, manter quem segure a bola na frente. Nuno preferiu recuar. 

Nuno Espírito Santo foi o que tem sido desde que chegou ao FC Porto: um treinador com mentalidade demasiado pequena. Um treinador que foi o que não podia ser: pequeno. E esta é a crítica que sumariza tudo: quando Rui Vitória começou a mexer na equipa, o Benfica melhorou. Quando Nuno começou a mexer na equipa, o FC Porto piorou. Provavelmente, muitos não teriam ou subscreveriam estas críticas se o FC Porto tivesse ganho. Mas é por isso que O Tribunal do Dragão opinou negativamente muitas vezes em relação ao pensamento e estratégia de NES mesmo após bons resultados. Porque quando se perde pontos é muito fácil apontar o dedo e criticar; difícil é conseguir ter sentido crítico durante as vitórias, de modo a alertar para coisas que podem acontecer no futuro se a equipa não mudar. Ontem foi uma delas. Se o FC Porto cumprir alguns dos seus objetivos, não será «graças a». Será «apesar de». 

Nem Brahimi nem Depoitre para segurar a bola na frente. Não, Nuno quis recuar. Sentiu medo de um Benfica que tinha sido quase inofensivo até então. Em sua defesa, era lógico que, após a entrada de André Horta, o FC Porto tinha que reforçar o meio-campo. E fê-lo bem, com Rúben Neves. Mas e depois? Que sinais foram dados à equipa? O FC Porto deixou de pressionar a saída de bola do Benfica e, com isso, deixou o adversário crescer. É claro que nenhuma equipa joga 90 minutos de alta rotação, mas faltou capacidade ao FC Porto para gerir o jogo com e sem bola e manter o Benfica no seu meio-campo. E isso começa no trabalho do seu treinador.

Agora, Herrera. Cometeu um erro, um erro que custou caro. Ingrato para um jogador que é capitão do FC Porto e que sempre teve uma conduta profissional irrepreensível. Errou. No último jogo frente ao Benfica, fez um golo e foi o melhor em campo, tendo sido decisivo na vitória na Luz. Ontem conheceu o outro lado da moeda.

Todos sabem que Herrera, no FC Porto, não é peixe na água. Mas já teve grandes jogos, já teve grandes momentos de forma, já revelou utilidade em vários momentos nos últimos 3 anos. Mas talvez seja possível concordar com uma coisa: provavelmente, nenhum leitor d'O Tribunal do Dragão recusaria uma proposta de 30M€ por Herrera. Se calhar nem de 20M€. Portanto, quem considerou que rejeitar 30M€ e manter Herrera era a melhor estratégia é que deveria opinar sobre isto. Ninguém imaginaria que o jogador cometesse aquele erro, mas aconteceu. Não foi um auto-golo, não foi um penalty, não foi uma expulsão. Foi um corte mal calculado, como tantos acontecem em todos os jogos. Este veio na pior altura e para o pior jogador possível (se tivesse sido Rúben Neves, Óliver ou André Silva, ninguém lhes dirigiria um décimo das críticas). 

Paragem para as seleções, depois do jogo mais amargo da época. Porquê tanta amargura? Porque vimos que o FC Porto era capaz. E uma equipa que vulgariza de tal forma o tricampeão durante (quase) 90 minutos não pode baixar as armas por causa de um erro.  

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Domingo não podemos ser pequenos

Quem segue a máxima «o importante é ganhar» teve um festim. O FC Porto não podia falhar contra o Club Brugge - e não falhou. Pleno de 6 pontos na dupla jornada, subida a um lugar de acesso aos 1/8 da Champions e possibilidade de, à 5ª jornada, garantir matematicamente a qualificação. Bem bom. Só falta reconhecer que, com este futebol, não vamos iniciar a próxima semana a menos de cinco pontos do Benfica e temos que nos questionar o que é que vamos exatamente tentar fazer nos 1/8 da Liga dos Campeões.

Ganhámos, ótimo. Vimos a equipa conseguir o objetivo dos 3 pontos. E também vimos um FC Porto a defender o 1x0 em casa contra o Brugge. Fechadinho, recuado, dando a bola ao adversário. Equipa sem ambição, sem personalidade, sem vontade de fazer o adversário tremer ou de matar o jogo. Um FC Porto que insiste a jogar como equipa pequena, uma vez mais por decisão própria e não por supremacia do adversário. 

É preocupante a incapacidade do FC Porto em que se assumir com bola, de ter mais ambição em procurar o 2x0 do que em defender o 1x1, em não deixar o adversário sequer sonhar com uma bola bombeada que possa valer o empate. «Mas as equipas do Nuno Espírito Santo jogaram sempre assim». Sim, é verdade. Mas é de esperar, quiçá com alguma ingenuidade, que em novembro já haja algum tipo de mudança nesse sentido, até porque de outra forma a época não acabará bem. E se calhar nem a semana.

Ficam os 3 pontos, o objetivo primordial, e um apuramento essencial completamente ao alcance do FC Porto. Basta uma (difícil) vitória na Dinamarca para o FC Porto cumprir um objetivo de época, financeiro e desportivo. Mas não será com estes meios que se celebrarão fins. 




Danilo Pereira (+) - Por este andar, os «Bonés» correm o risco de ser substituídos pelos «Danilos» ou pelos «Pereiras», tamanha a insistência que tem tido para aparecer neste espaço. Para começar, é o jogador do FC Porto com melhor eficácia de passe na Champions: 93%. É o 2º jogador que mais faltas arranca (atrás de Otávio) e joga com uma segurança e limpeza incríveis: faz apenas em média uma falta por jogo. Danilo dá tudo ao meio-campo do FC Porto: referência no início de construção, dimensão física, capacidade de acelerar o jogo, progressão com bola (embora tenha que se limitar, por razões de equilíbrio, nesse aspeto) e uma cada vez mais insistente tentativa de meia-distância. Poucas vezes falha um drible (à atenção dos avançados) e revela-se um exemplo em todos os aspetos. Uma pergunta: alguém se lembra de Fernando?


André Silva (+) - O golo foi fortuito, mas a movimentação antes do cabeceamento revelou bem o seu faro para o golo na grande área. Uma vez mais, André Silva foi vítima da trabalheira que é ser avançado do FC Porto: corre, corre, corre. Seja para a baliza, seja para dar apoio atrás, seja para descair nos corredores, seja para pressionar os defesas. André Silva é neste momento o avançado que mais corre na Liga dos Campeões. A bem da verdade, há 3 com mais quilómetros: Griezmann, Cafú e Marcelinho, mas tratam-se de 3 avançados que jogam em equipas de declarado esquema de contra-ataque, com o avançado a jogar muitas vezes em profundidade. André Silva também é solicitado em profundidade muitas vezes, mas movimenta-se de forma muito mais ampla. Já agora: André Silva atingiu um pico de velocidade de 30km/h. Segundo um estudo da FIFA de 2015, só 10 jogadores corriam acima desta velocidade em 2015. Que não corra para muito longe daqui em 2017, é o desejo que fica. E em 2018. E em 2019. Já perceberam a ideia?

Outros destaques (+) - Belo jogo da dupla Marcano e Felipe. O Club Brugge conseguiu entrar 30 vezes na grande área do FC Porto, fruto do deixa jogar que tem sido uma imagem de marca nesta equipa. Felizmente, os centrais poucas vezes foram batidos. Para a segurança defensiva também muito contribuiu Casillas e a exibição competente de Maxi Pereira e Alex Telles (melhor no ataque). Foi o primeiro jogo de Champions em que o FC Porto não sofreu golos. Muito graças à ação defensiva da equipa e aos seus intervenientes.




Pequenos (-) - Este FC Porto treme porque quer. Este FC Porto teme os adversários porque quer. Este FC Porto confunde o gerir o jogo sem bola com o entregar toda a iniciativa de jogo ao adversário e, com isso, sujeitar-se a deixar fugir uma vitória num erro. Parece haver uma espécie de trauma generalizado recente do FC Porto em relação à posse de bola. Mas o futebol obedece a este simples princípio: só marca golos quem tem bola, e que não tem bola arrisca-se a sofrer. Se o FC Porto deixa o Club Brugge ter bola à vontade, está a expor-se a um risco enorme.

O Club Brugge saiu do Dragão com mais posse de bola, mais passes completos, melhor eficácia de passe, apenas menos 2 remates à baliza e apenas menos 4 cruzamentos. Porque o FC Porto quis, porque o FC Porto deixou. Esta insistência de querer fazer do FC Porto uma equipa pequena, que não conhece outro modelo que não o chuto em profundidade, deveria preocupar toda a gente, começando pelo seu treinador. Mas não, o FC Porto parece querer fazer disso uma imagem de marca. Compreender-se-ia num Camp Nou ou num Santiago Bernabéu. Mas em casa? Contra o Club Brugge? O argumento que mais clamavam para a contratação de NES era o «ser Porto». O FC Porto já jogou melhor, já jogou pior, mas nunca jogou com mentalidade tão pequenina. Isto não é ser Porto.

Para esquecer, Héctor (-) - Podemos dizer que meter Herrera a jogar pela ala direita, querendo que ele faça o que Corona e Brahimi aparentemente não podem fazer de início, não é a maneira de aproveitar as caraterísticas de Herrera. Mas já o vimos fazer bons jogos ali, boas coisas. Ontem, terá sido o seu pior jogo em muitos meses. Não ganhou uma bola dividida, esteve perdulário no passe e só se destacou em algumas bolas que recuperou no seu meio-campo. Querer transformar um transportador de jogo num pensador também tem tudo para correr mal, mas ontem não foi um bom dia para Herrera. Um dia a não repetir no clássico. Noite também longe de ser produtiva para Óliver, Otávio e Jota, com a garantia de que contra o Benfica será necessário muito, muito, muito mais.


A fechar, vamos recordar as palavras do último treinador do FC Porto campeão: Vítor Pereira: «O Benfica paga caro a alteração de ADN frente ao FC Porto». Ele sabia do que falava. Por isso, Nuno Espírito Santo, não queiras alterar o ADN do FC Porto no domingo. O FC Porto não é uma equipa pequena, o FC Porto não pode jogar como uma equipa pequena. Não temos que temer o Club Brugge nem o Benfica: temos que fazê-los temer o FC Porto. Não estamos a pedir/exigir nada mais que não seja não ter medo, não pensar pequeno, não deixar o Benfica sentir que pode fazer o que quer no Dragão. Não pode. O FC Porto não é uma equipa pequena. O FC Porto não pode ser uma equipa pequena. O FC Porto não é uma equipa pequena. O FC Porto não pode ser uma equipa pequena. Há que meter isto na cabeça. Nem que seja preciso escrever mil vezes num quadro. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

E isto, é da nossa conta?

Ficámos recentemente a saber, através do presidente Pinto da Costa, que o Benfica ganhar um campeonato à conta das arbitragens, não só pelas decisões dentro de campo como pelas ofertas que violam os regulamentos fora dele, é algo que não diz respeito ao FC Porto - mesmo que seja o FC Porto o lesado nesta história.


Assim sendo, é caso para perguntar. O que se passou no Bonfim, já diz respeito ao FC Porto? Passámos de uma situação em que o FC Porto podia terminar o clássico na liderança da Liga para uma situação em que o Benfica pode sair do Dragão com 8 pontos de avanço. O Benfica nunca, nunca teve 5 pontos de avanço sobre o FC Porto à 9ª jornada. É a primeira vez, e com uma quantidade anormal de lesões no plantel. 

Podemos resumir tudo isto ao penalty não assinalado? Não. Mas é um facto que o FC Porto foi lesado nesse jogo por essa decisão. O problema é que o FC Porto já entrou naquele ciclo vicioso anteriormente aqui comentado: sempre que houver 2 ou 3 vitórias consecutivas, vai haver muita confiança, vão chover elogios ao treinador, dizer que afinal o plantel tem valor suficiente e que os críticos têm é que estar calados; ao primeiro deslize, volta a cair tudo em cima do treinador, porque não presta, porque não é Porto, porque é uma vergonha o jogador A, B e C jogarem nesta equipa. Já não vamos sair deste ciclo vicioso. Vai estar tudo, tudo dependente dos resultados. Mesmo que não consigam compreender que a diferença entre um bom e um mau resultado pode ser um ressalto, uma defesa, uma bola no ferro, um penalty - a exibição é exatamente a mesma!

O FC Porto tinha 27 vitórias consecutivas sobre o V. Setúbal e ganhou todos os jogos no Bonfim desde 1998. Até sábado. Tudo por causa do penalty? Não, certamente não. O problema não é apenas o que aconteceu ao minuto 84, mas também o que aconteceu até ao minuto 84. A equipa construiu as suas oportunidades, podia perfeitamente ter ganho o jogo. Não foi aquele jogo estéril onde o FC Porto não dava ares de ser capaz de ganhar a um V. Setúbal que só pretendia defender. Mas foi novamente um jogo em que o FC Porto demonstrou pouquíssima clarividência, e poucos sinais da mesma a partir do banco. 

Fomos prejudicados? Sim. Tivemos ocasiões para ganhar? Sim. Jogámos ao nível exigido nesta fase? Não. O FC Porto tem alguma coisa a ver com a obra de João Pinheiro em Setúbal? Não sabemos. Que o diga o presidente Pinto da Costa, ou então alguém do FC Porto que faça algo mais do que aquilo que qualquer adepto pode fazer: sacar um frame, ir ao paint, fazer uma bolinha e meter no Facebook. É essa a resposta do FC Porto? Fazer aquilo que qualquer adepto pode fazer? Terminemos, que isso também não deve ser da nossa conta. 





Danilo Pereira (+) - É incansável em campo e os elogios à sua postura também. Ganhou metros no terreno e deixou claramente a impressão que poderia ir mais além, mas tinha instruções para não subir em demasia, pois era o único a segurar o meio-campo. E com a saída de Herrera (era o jogador com mais cortes, recuperações de bola e desarmes em campo até ao momento da sua substituição, mas lá está, estava a fazer um excelente trabalho defensivo, mas a colaborar pouco no ataque - por outro lado, quem tem Óliver, Jota, André Silva e Otávio à frente, devia reunir criatividade e versatilidade suficiente para fazer estragos), Danilo ficou ainda mais desapoiado. Cumpriu novamente e vem sendo o melhor jogador do FC Porto nas últimas semanas.


Felipe (+) - Sabemos que algo correu mal quando destacamos um central contra uma equipa defensiva como o V. Setúbal. Com Marcano desta vez numa noite má (cometeu imensos erros na saída de bola), Felipe limpou tudo à entrada da grande área, foi forte no jogo aéreo e ainda foi ao ataque tentar o golo. Exibição segura, limpa e bem conseguida. Os elogios à sua exibição acabam por ser uma crítica à equipa: o V. Setúbal pouco fez no ataque, mas ainda assim os dois jogadores que mais se destacaram foram de caraterísticas defensivas. Nota ainda para Layún, novamente o principal municiador do ataque e o jogador que mais lances de perigo criou. 





Desacerto (-) - O FC Porto rematou, rematou muito. Mas rematou quase sempre mal. Em mais de 20 remates do FC Porto, só 3 foram à baliza. Nesses 3 Bruno Varela brilhou, mas nem sequer podemos dizer que o guarda-redes do V. Setúbal fez uma super exibição, pois a verdade é que a esmagadora maioria dos remates do FC Porto saíam todos por cima ou ao lado. Em toda a segunda parte, pior ainda: Bruno Varela só fez uma defesa. Uma. Em 45 minutos em que o FC Porto jogou no meio-campo do adversário. Pouquíssimo.

Pinheirinho (-) - Façamos contas. O FC Porto entrou, ao longo da partida, 55 vezes na grande área do V. Setúbal. 55! Fez mais de 30 cruzamentos. André Silva e Diogo Jota não estavam a conseguir ganhar bolas de cabeça. Então, para que serve um ponta-de-lança de 1,91m, que só por acaso é o 2º ponta-de-lança mais caro da história do FC Porto? Pois é. Pinto da Costa chutou de pronto a responsabilidade da contratação de Depoitre para Nuno, mas alguém já percebeu que deu asneira. E essa conclusão é tirada da pior forma possível: não pelo que Depoitre faz em campo, mas por nem sequer lhe darem a hipótese de entrar num jogo em que as suas caraterísticas fariam sentido. Nos últimos 7 jogos, Depoitre só teve direito a jogar 25 minutos contra o Gafanha. Foi para isso que o sr. D'Onofrio andou em viagens-relâmpago, de rastos, a suar e a fazer a Madre Teresa de Calcutá corar de inveja?

A euforia (-) - Muitos leitores perguntaram por que é que O Tribunal do Dragão não fez comentários sobre o célebre quadro de Nuno Espírito Santo. Simples, pois aquilo foi um fait-divers, uma mão cheia de nada, uma teoria oca para entreter, um exercício de banalidade. De que falava Nuno Espírito Santo? De compromisso, de cooperação, de comunicação, de união, de determinação, de atitude. Ora, estas 6 caraterísticas não descrevem um jogador à Porto: o que descrevem é toda e qualquer equipa de futebol que se preze! Conhecem uma equipa de sucesso que não tenha tido compromisso? Onde não tenha havido união? Onde não tenha havido atitude? Não há compromisso sem determinação e atitude; não há união sem cooperação. Isto é uma teoria para um livro do Luís Campos, não para discurso direto de um treinador do FC Porto! Se Nuno tivesse feito aquela apresentação depois de uma derrota, os mesmos que lhe acharam graça provavelmente ridicularizariam a sua apresentação. Quando precisamos de quadros para explicar teorias, quando o maior problema é a prática... Mas há quem tenha visto nisto uma «aula». Aula? Se querem aulas, o melhor seria mesmo técnico-táticas.

A segunda parte vai de encontro a algo já aqui muitas vezes comentado: os portistas, sendo os adeptos mais exigentes do mundo, também se tornaram uma massa que se empolga com muito pouco. Aquele tal ciclo vicioso. Precisamos de ser otimistas, precisamos de estar motivados, mas a forma como se passaram a valorizar vitórias que outrora seriam vistas como normais ou banais é preocupante. Nuno falou em «euforia dos adeptos». Euforia? Euforia? Não, a sério, euforia!? O FC Porto ganhou categoricamente na Choupana, ao Nacional, por 4x0. Bom jogo. Ganhou contra o Gafanha, como seria de esperar em qualquer dia que ganhasse. Ganhou em Brugge com um penalty em cima do final, caso contrário já teria os oitavos da Champions hipotecados. E ganhou em casa ao Arouca, algo que também deveria ser encarado como normal. Nuno descobriu euforia nos adeptos depois destes resultados? Ou o treinador lê mal as coisas, ou foram de facto os adeptos do FC Porto que se habituaram a muito pouco.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O orçamento do FC Porto 2016/17

O teor do último post terá sido mal interpretado por alguns leitores. O Tribunal do Dragão não pretende mudar o seu registo na bluegosfera: o exemplo do post de ontem, no caso com André Silva como figura, é apenas um exemplo de possível complementaridade aos conteúdos do blogue. Se há uma coisa em que este espaço aposta desde o início é numa diversidade de conteúdos (sempre tendo o futebol como denominador comum), e o exemplo de ontem era apenas mais um passo nesse sentido.

Disto isto, vamos ao orçamento para 2016-17. Os números podem ser comparados ora com base naquilo que era o orçamento há um ano, ora com base nos resultados do final da época 2015-16. Vamos tomar os dois últimos orçamentos como referência - comparar plano com plano, em vez de comparar resultado com plano, embora as duas coisas possam perfeitamente ser feitas.

Orçamento proposto para 2016-17
Há um ano, a SAD apontava para proveitos operacionais de 85,44M€. Agora, apontam para 98,415M€. É uma previsão animadora, pois a SAD consegue orçamentar receitas fixas quase nos 100M€. É claro que entre a previsão e a execução há um passo a dar (em 2015-16, a SAD ficou cerca de 10M€ abaixo da meta), mas o caminho para a sustentabilidade começa aqui: aumentar as receitas operacionais para reduzir a necessidade de venda de jogadores.

É claro que há uma receita que não é fixa: a Liga dos Campeões. Por norma, temos 3 equipas a jogar para 2 vagas. A presença na Liga dos Campeões não pode ser dada como uma meta garantida ano após ano. As receitas na UEFA não deveriam ser encaradas como essenciais para a sustentabilidade, mas sim como o extra que permita dar algum conforto à gestão da SAD.

No entanto, aparentemente bastará garantir os 1/8 desta edição da Liga dos Campeões. A SAD orça 30M€ de receitas na UEFA. Estão já garantidos 12M€ (+2M€ pelo playoff), 2M€ na fase de grupos (no cenário mais otimista, podem ser conseguidos mais 4,5M€ com três vitórias), e o apuramento para os 1/8 vale 5,5M€. Se a equipa conseguir essa meta, mais as receitas de market-pool, os 30M€ estarão quase conseguidos, o que reduz a pressão (não desportiva, mas financeira) de ter que assegurar o apuramento para a Champions 2017-18 (os 12M€ do apuramento não são incluídos neste orçamento, portanto). 

A SAD propõe-se a ultrapassar pela primeira vez os 15M€ em receitas de publicidade e as receitas de TV sobem 5M€ na previsão (não esquecendo que as receitas da PT/Altice já começaram a ser usadas na gestão de 2015-16). O aumento destas duas rúbricas é fundamental.

Quanto aos custos, não há redução por parte da SAD. Pelo contrário, a SAD prevê gastar mais em salários do que previa há um ano, com os custos salariais a terem uma estimativa de 69,5M€. Mas o pior está novamente nos Fornecimentos e Serviços Externos: uma subida de 5,6M€, para uns incomportáveis 38,5M€. Isto resulta em custos de 116,5M€

São portanto os custos operacionais mais altos da história da SAD, superando os que estavam previstos em 2014-15 (114,2M€). É também o terceiro orçamento suicida apresentado consecutivamente. No primeiro ano, a boa Champions, a valorização em massa do plantel e as vendas de jogadores como Jackson, Danilo e Mangala permitiram à SAD cumprir um orçamento de elevado risco. No segundo ano, o desastre anunciava-se e terminou com o maior prejuízo da história do futebol português. Agora, a SAD não só volta a arriscar como eleva ainda mais o risco. 

Ainda assim, como dado positivo nota-se a previsão de uma redução do défice operacional: de 22,3M€ para 18,1M€. Em 2014-15 o défice era de 25M€, por isso tem havido uma ligeira descida. Mas ainda insuficiente, sobretudo tendo em conta a extrema necessidade que continua a existir da venda de jogadores.

Vamos então ao problema... semântico. No orçamento de 2015-16, a SAD informou apenas de que precisava de um resultado com transações de passes de 72,59M€. Este ano expôs a informação de maneira diferente: necessita de proveitos de 115,781M€ e terá custos de 47,201M€. No final, aponta-se para um resultado operacional novamente na casa dos 18M€, para fazer face a juros que estão na casa dos 16M€ anuais.

Orçamento aprovado para a última época
A imprensa anunciou em massa a necessidade de fazer proveitos de 115,781M€ com jogadores. Nasceu logo a questão: são proveitos? São mais-valias? São vendas brutas? A verdade é que a SAD apresentou um cruzamento entre proveitos e custos, enquanto há um ano especificou apenas o resultado. Ou seja, podemos estar a falar de uma necessidade de um resultado com transações de passes de 68,58M€, uma redução de 5,5% face ao ano anterior. Um decréscimo muito reduzido, sobretudo se não der sinais de ser progressivo. 

O resultado com transações de passes de jogadores foi de apenas 7,1M€ na época passada, e na época anterior (na qual o FC Porto bateu o recorde de vendas) tinha sido de 51,12M€. Ou seja, o resultado esperado para esta época tem que ser maior do que o das duas últimas épocas juntas. Mas estamos a falar de resultado de transações, não de mais-valias. No que toca a mais-valias, na última época foram de 40,22M€, e em 2014-15 tinham sido de 86,4M€. Como nos orçamentos propostos pela SAD o termo mais-valias não é utilizado, temos que nos guiar pelo resultado da transação de passes. Por outras palavras, no final da época é bom que Jorge Mendes se prepare, pois é possível que tenha muito trabalhinho... E é bom que os corações dos portistas também estejam preparados, pois a ideia anunciada de manter os melhores jogadores durante mais anos não combina em nada com este orçamento. 

O resultado negativo de 2015-16 transita para este exercício, tal como o resultado de 2013-14 transitou para a época 2014-15. Nada de novo neste assunto. 

Quanto à última proposta da ordem de trabalhos, a entrada Eduardo de Vítor Rodrigues na SAD... Não aparenta ter grande lógica. Saiu Antero Henrique, administrador e número 2 (ou não, esse é o Maxi Pereira) da SAD, e o Conselho de Administração propõe para o seu lugar... um administrador não executivo. Portanto, tecnicamente Antero Henrique não é substituído no cargo de administrador executivo da SAD. Há várias formas de questionar isto, sendo uma delas: se não é necessário ninguém para substituir Antero Henrique nas funções executivas, então o que estava ele a fazer na SAD? Ou então, que polivalência é essa do restante Conselho de Administração que dispensa uma sucessão executiva?

É uma escolha de Pinto da Costa, que disse que não gostava de misturar política com futebol, mas o passado recente na composição do Conselho de Administração diz o contrário. Tirando o presidente, o CA passa a ter 3 administradores executivos e três não executivos. Até 2015 havia apenas, além do presidente, três executivos e um não executivo. Curiosidade para perceber em que medida a adição de dois administradores não executivos ao quadro da SAD vai ter influência.

Certamente que todos estarão na expetativa de ver os conhecimentos que Eduardo de Vítor Rodrigues tem de sociologia (área na qual fez todo o percurso académico) serem aplicados ao FC Porto. Era para isso que Auguste Comte, Montesquieu e Marx se levantavam de manhã: para que chegasse o dia em que a sociologia e o futebol se sentassem à mesa. O futuro dirá se um dia veremos o futuro administrador não executivo entregar um Dragão de Ouro a Marco António Costa. Mas é sem dúvida algo que se encaixa na realidade atual: sermos uns porreiros e uns amigalhões de quem um nos quis mal. O FC Porto perdeu o campeonato de 2014-15 por causa das arbitragens; os árbitros receberam ofertas ilícitas por parte do Benfica; mas o FC Porto não tem absolutamente nada a dizer sobre o kit Eusébio, e isso é reafirmado uma, duas, três vezes. O «Make love, not war» afinal não era uma ferramenta de combate à Guerra no Vietname, mas sim uma filosofia para o FC Porto atual. 

O presente orçamento e demais propostas do Conselho de Administração vão a votos a 17 de Novembro, em AG de acionistas, e será com certeza aprovado por larga maioria. Por norma, seriam manifestados desejos de cumprir este orçamento... para nunca mais ter que o repetir. Mas isso seria muito 2014. Ou muito 2015. 

Siga para o campo, pois vem aí um ciclo de jogos de máxima dificuldade e importância, nos quais o FC Porto vai jogar pelo 1º lugar e pelos 1/8 da Champions num curto espaço de tempo. Estar em crise mas ter oportunidade de estar na luta por todos os objetivos da época é uma crise que muitos desejariam ter. Há condições para inverter o rumo. Pelo menos dentro de campo. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Dez coisas sobre André Silva


- Entre os 18 maiores campeonatos da Europa, nenhum outro jogador de idade inferior a 21 anos (André vai festejá-los a 6/11) tem mais golos do que André Silva.

- Desde o bis no Jamor, André Silva fez 21 golos em 24 jogos, contando com a pré-temporada. 

- Sempre que André Silva marcou na Liga, o FC Porto ganhou (21 pontos em 21 possíveis).

- O penalty que André Silva marcou em Brugge permitiu ao FC Porto ganhar 1 milhão de euros... Ou seja, mil vezes mais do que o valor que o FC Porto pagou ao Salgueiros pela sua contratação (taxa de compensação de mil euros).

- Há 20 anos que um avançado português não fazia 7 golos em 8 jornadas pelo FC Porto. O último tinha sido Domingos Paciência.

- Na luta pela Bota de Ouro, tirando os campeonatos de coeficiente reduzido, só dois avançados têm mais golos do que André Silva (Dzeko e Modeste).

- André Silva foi o único jogador do FC Porto no espaço de 88 anos a fazer um hat-trick por Portugal.

- André Silva tem um golo a cada 138 minutos pela equipa principal na Liga. Média superior à de Hulk, Lisandro, Domingos, Postiga, Derlei...

- André Silva é o 3º jogador que mais corre no FC Porto nas competições europeias, atrás de Layún e Óliver.

- André Silva teve intervenção direta em 44% dos golos do FC Porto na Liga e nenhum outro jogador participou (com remate ou último passe) em mais golos. 

PS: Se apreciarem este tipo de posts, com menos análise/opinião e com uma compilação de curiosidades ou estatísticas (retiradas de sites como Goalpoint, UEFA, WTV, Opta, Zerozero, etc.), o Tribunal do Dragão passará a fazê-los com alguma frequência. 

domingo, 23 de outubro de 2016

Artistas em dupla e a solo

Contra uma das equipas mais irritantes deste campeonato, alérgica a tudo o que não seja jogar com linhas recuadas, 10 jogadores atrás da linha da bola e só sair do seu meio-campo em pontapé longo, o FC Porto passou sem problemas um teste contra um adversário que ganhou no Dragão no ano passado, no mesmo dia em que o Tondela foi tirar pontos a Alvalade. São estes pontinhos que podem fazer muita diferença nas contas finais. 

Desta vez sem Otávio, voltou a estar em evidência outro bromance no FC Porto: Jota e André Silva, um a construir e outro a matar, numa exibição positiva a todos os níveis, direta ao pódio das melhores da temporada. Agora vem aí o mais difícil: não a visita ao Bonfim, onde o FC Porto ganhou todos os jogos que lá disputou desde 1998, mas as receções a Brugge e Benfica. Uma coisa de cada vez.





Saber ter a bola (+) - Contra uma equipa que não procura ter bola, o melhor a fazer é... tê-la. O FC Porto entrou pressionante, a obrigar o Arouca a desfazer-se da bola na primeira linha e com bastante equilíbrio a meio-campo: Herrera mais adiantado (quanto mais perto estiver de Danilo, pior), Óliver constantemente a procurar a bola no espaço e Danilo Pereira, uma vez mais, a segurar o meio-campo pelo pescoço. Com Jota a baixar, Corona a sair para zonas interiores e André Silva a arrastar marcações, o FC Porto termina a primeira parte com 78% de posse de bola e, mais importante, não se limitou a trocá-la - apostou em circulá-la tendo a baliza como destino. Na segunda parte o FC Porto voltou a sofrer uma quebra, ao entregar a iniciativa de jogo ao Arouca e deixar o adversário ter bola, mas sem que isso significasse lances de perigo para o adversário. Casillas só teve que se preocupar em não morrer de frio.

Um liberta o outro
Jota & André (+) - Por muito que André Silva tenha a disponibilidade de cair nos flancos, progredir com bola e tentar arriscar no 1x1, nada será melhor do que ter o nosso Ás de trunfo no seu habitat na natural: no coração da grande área, prontinho para dar o último toque. No primeiro golo, não cometeu o erro de se precipitar no remate: atirou para o lado oposto do defesa e marcou com tranquilidade. No segundo, colocou-se no sítio certo, ao fugir para as costas do defesa do Arouca e ganhar o lance de cabeça. Oportunista, entre os principais campeonatos da UEFA só um jogador tem mais golos do que André Silva (Modeste, do Colónia). Se quiserem contar com a pré-época e jogos de seleções, são 21 golos em 24 jogos. 

Há a destacar a forma como Diogo Jota soube descobrir André Silva nos dois lances: o primeiro com alguma felicidade, mas no segundo a colocar a bola na perfeição. Jogo muito inteligente de Jota, que teve que se dividir entre municiador de André Silva e homem que recuava para Herrera aparecer na grande área. Além de conferir verticalidade, dinâmica e maior capacidade de largura ao ataque do FC Porto, dispensa que seja André Silva a ter que fazer essa função. Resultado: em dois lances em que era preciso o avançado cair na ala (que era o que André Silva fazia até há bem pouco tempo), foi Jota a fazê-lo... e André Silva assim pôde ficar na área, pronto a faturar.


A revolta de Brahimi (+/-) - O que têm em comum Quaresma, Hulk ou Brahimi? Deliciaram os adeptos com grandes golos, grandes jogadas. E levaram muita gente ao desespero por quererem fazer tudo sozinhos, por se agarrarem em demasia à bola. Um dia aplaudidos, no outro assobiados. Um dia, tanto Quaresma como Hulk perderam a cabeça e, a quente, ripostaram contra a bancada, com gestos que não são bonitos. Ontem foi a vez de Brahimi fazê-lo.

Entrou e lançou a jogada do 2x0. Depois tentou o lance individual, uma, duas vezes. Abusou, e para isso há um treinador para repreendê-lo no banco e mandá-lo soltar a bola. O que não era necessário era, uma vez mais, um jogador do FC Porto ser assobiado na própria casa quando a equipa está a vencer. Aqueles 90 minutos deveriam ser sagrados, de rumo único. Não estamos a falar de gestão desportiva, da política da SAD, de comissões ou de qualquer outro assunto debatível fora do relvado: estamos a falar de um jogo, de 90 minutos, da equipa. No final do jogo, podemos tomar as considerações que quisermos, fazermos as mais diversas análises técnico-táticas, criticar os jogadores que quiserem. Mas isso não deveria acontecer durante 90 minutos.

A hipocrisia de um assobio
Brahimi marcou aquele incrível golo pela mesma razão que foi assobiado minutos antes: por ser Brahimi, por ser individualista, por ter pensado o mesmo que Maradona ou Messi pensaram um dia: «Esta só acaba na baliza». Foi um brilhante golo, genial, e depois Brahimi pisou os limites nos festejos. E com razão: os mesmos que o assobiaram por ter tentado o lance individual estavam a aplaudir por Brahimi ter concluído... um lance individual. Hipócrita, no mínimo. Brahimi está a viver uma situação difícil no FC Porto - estava convencido (e não apenas ele) que ia sair, acabou por ficar sem ter lugar garantido no 11, e ainda encontra adeptos que em vez de tentarem colaborar na reabilitação do jogador o assobiam quando a equipa está a ganhar.  Assobiar um jogador capaz de fazer golos assim não rima com proveito. Até porque não há assim tantos. 

Outros destaques (+) - Mais uma exibição imaculada de Marcano, também com Felipe uns furos acima dos últimos jogos. Layún ganhou definitivamente o lugar do lado direito, embora neste flanco não possa ser tão influente nos movimentos interiores (ainda assim, lançou o lance do 1x0). Danilo Pereira está também a atravessar um grande momento, próprio de quem parece ter sido uma combinação dos genes de Costinha, Paulo Assunção e Fernando. Nuno, desta vez, bem a mexer na equipa: a equipa ressentiu-se da saída de Óliver durante algum tempo, mas Rúben Neves acabou por dar serenidade ao meio-campo e Brahimi entrou para participar em 2 golos.





O factor Telles (+/-) - O FC Porto fez 15 cruzamentos na primeira parte. Nove deles foram de Alex Telles. Não fez um mau jogo, mas há várias coisas que têm que ser limadas neste processo. Se Alex Telles cruza tanto, tem que cruzar melhor. Têm sido poucos os cruzamentos realmente proveitosos do seu pé esquerdo. Está a ter a capacidade de aparecer muitas vezes em zona avançada, mas os lances acabam invariavelmente com um cruzamento. É Telles que só cruza ou são essas as instruções que recebe?

Era sabido que Nuno quer os laterais a dar largura. Logo, isso explica que Alex Telles não faça movimentos interiores quando tem oportunidade. Até porque se há Otávio ou Corona naquela zona, Telles tem que dar o espaço interior. Mas é preciso alguma flexibilidade: se Alex Telles tem mais possibilidades de criar perigo cortando para dentro do que cruzando, então deve fazê-lo. Estar invariavelmente a meter bolas na grande área, quando só temos André Silva para jogar de cabeça, não tem muito proveito. A rever. 

15 minutos à Corona (+/-) - Corona entrou com tudo e logo nos minutos iniciais esteve perto de fazer um grande golo. Depois do quarto hora, quiçá até por alguma limitação física, desapareceu. Corona teve bola, conseguia passar pelos adversários, mas depois faltou sempre algo: não aparecia o passe, não aparecia o remate, não se enquadrava com a baliza. Em compensação, depois entra Brahimi com tudo. Corona e Brahimi têm alternado boas entradas a partir do banco com titularidades de subrendimento. Quando - ou se - os 15 minutos se multiplicarem, o FC Porto pode encarar o médio prazo com maior otimismo, não esquecendo que no final do ano Brahimi deve ir à CAN, e Varela ontem jogou os primeiros 11 minutos em 2 meses (e aparentava já haver adeptos fartos dele, embora não jogasse desde agosto). Por isso, arrebita, Tecatito, que bem precisamos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Formação, Manel e desculpas

Começando por não uma, não duas, mas três excelentes notícias. A renovação dos contratos de dois membros da nossa excelente geração de Diogos e de Afonso Sousa, neto de um campeão de Viena. Diogo Dalot é o protótipo de lateral-direito moderno. Não há memória do FC Porto ter, na sua formação, um lateral da sua idade e qualidade. Não é por acaso que aos 16 anos já tinha sido chamado aos treinos da equipa A por Lopetegui (tal como por exemplo Paulo Fonseca chamou Rúben Neves quando tinha 16). São chamadas que premeiam a qualidade e potencial de grandes promessas, muito diferente de por exemplo ver Musa treinar com a equipa A do FC Porto esta época (não jogou ainda nem um minuto na B). Quanto mais cedo Dalot começar a jogar num patamar acima, melhor. 

Uma boa aposta
Diogo Queirós, capitão campeão europeu de sub-17, é candidato a reeditar a escola de grandes defesas centrais do FC Porto. Forma boa dupla com o homónimo Leite, já tem uma estampa física considerável para a sua idade, lê bem o jogo e já tem sido um dos destaques da Youth League. Outro jogador que só tem a ganhar em subir de patamar mais cedo (a equipa B tem dado sucessivas oportunidades a centrais estrangeiros, sem grande sucesso - no curto prazo, é tempo de privilegiar a formação neste setor).

Sobra então Afonso Sousa. É mais novo, tem bons genes futebolísticos, jogador de recorte técnico e que joga com grande envolvência coletiva (um exemplo, vejam este golo marcado por Afonso ao Tondela, que também mostra como é que se abatem autocarros). Vai ter que ganhar dimensão física (ainda só tem 16 anos), essencial para a sua afirmação (há o exemplo de Vítor Andrade, um dos maiores talentos do FC Porto durante a formação, mas a quem faltou essa dimensão na transição para sénior - não é ainda um caso perdido, fica a nota). 

Assinaladas estas três boas notícias, falemos de um rapaz já muitas vezes mencionado neste espaço. Chama-se Rui Pedro, tem 18 anos e é o melhor marcador da UEFA Youth League. É há muito visto como um potencial avançado de futuro no FC Porto, tendo inclusive sido destacado para o Projeto Jogador de Elite. Pep Lijnders, na avaliação que fez dele, comparou-o desta forma com Gonçalo Paciência: «O Rui Pedro não faz o impossível, como Gonçalo, mas é melhor no domínio do possível».

Um pequeno Falcao
Por outras palavras, Rui Pedro talvez não tenha, ainda, a capacidade de inventar um golo com uma grande finta, uma rabona, um túnel ao adversário ou um slalom que só acaba na baliza. Mas tem aquela ratice que nos leva a descrever os avançados que estão sempre no sítio certo, que marcam em meia oportunidade, que se antecipam e movimentam na perfeição, que pressiona e está sempre a mexer-se no ataque. Há quem lhe veja coisas de Falcao, mas todos sabemos o quão perigosas são essas comparações.

Rui Pedro, para quem não se recorda, começou a época a jogar na equipa B. Uma aposta que fazia todo o sentido - os nossos melhores jovens têm que jogar em escalões acima. Mas depois do fim de agosto, Rui Pedro deixou de jogar na equipa B. Porquê? Chegou Areias, emprestado pelo V. Guimarães. O FC Porto nunca se pronunciou sobre o absurdo que seria enquadrar uma cláusula de compra de mais de 500 mil euros sobre este jogador, por isso vamos pular esta consideração. Meramente hipotética, claro. 

O FC Porto passou a apostar em Areias como ponta-de-lança da equipa B. É titular há 6 jornadas e marcou um golo. Rui Pedro voltou aos juniores. Logo, atrasam o desenvolvimento de Rui Pedro para estar a utilizar um jogador emprestado pelo V. Guimarães que, perdão, não justifica que o FC Porto secunde a aposta em Rui Pedro para estar a valorizar um jogador em nada superior a, por exemplo, Tomané. Com a pequena diferença de que Tomané ainda conseguiu ser titular em Guimarães, fez alguns golos, enquanto Areias não contou para a equipa A do Vitória... onde joga Marega.

Na última época fez 9 golos na equipa B, na anterior tinha feito 14. Justifica-se a aposta? Não. Qualquer avançado, jogando com regularidade no FC Porto B, marca uma dúzia de golos sem grandes problemas. Quem não se lembra de Dellatorre? Avançado brasileiro de qualidade sofrível, mas que conseguiu ser titular toda a época na equipa B, levando até a que muitos considerassem que valia a pena avançar para a compra do seu passe. O futuro, como sempre, foi bem esclarecedor. Mas rezam as crónicas que Dellatorre está a deslumbrar na Liga Tailandesa. 

Justifica-se?
Areias não é, à data de hoje e muito provavelmente de amanhã, uma solução que dê mais perspetivas de presente e futuro do que Rui Pedro. E pior ainda: Areias está emprestado pelo V. Guimarães! Nem sequer é um jogador do FC Porto! E já agora, quanto custaria mesmo ficar com Areias? Pois é. A gestão deste caso é tudo aquilo que o FC Porto não deve fazer na sua formação e equipa B.

Rui Pedro voltou aos sub-19 para estar num escalão que não oferece competitividade. Nos sub-19, já não vai aprender muito mais. À 10ª jornada, a equipa de juniores já leva 8 pontos de vantagem na liderança. Não vai haver estímulo competitivo até à fase final. Até lá, Rui Pedro podia estar a jogar na bem mais competitiva Segunda Liga, mas não, joga o avançado que não serviu para a equipa A do Guimarães. Isto não é ser simpático com Areias (na última vez que tivemos um Areias em campo, até ganhámos ao Chelsea de Mourinho), que de certeza quer lutar pelo seu espaço e ganhar o seu lugar, mas estamos a falar da gestão de ativos da formação do FC Porto. Areias nem sequer é jogador do FC Porto. E será uma surpresa se for no futuro. Podia ser o Areias, podia ter o Tomané. O problema é que Rui Pedro está a ser ultrapassado por quem não é melhor. 

E agora uma história. Era uma vez o Manel. O Manel tinha uma mercearia. Era um negócio rentável, bem sucedido. O Manel por vezes importava produtos caros, mas conseguia vendê-los a compradores que tinham mais dinheiro. Tudo corria bem ao Manel. Mas em 2014, o Manel viu-se perante um grande problema. A sua mercearia deu um prejuízo de 40,7 mil euros, o maior que alguma vez tinha dado. O Manel ficou em apuros, pois sabia que uma entidade que seguia as suas contas não ia admitir um prejuízo tão grande no ano seguinte. O problema nem era apenas o resultado líquido, mas sim o cruzamento entre passivo e ativo. 

O Manel fez o que nunca esperaram que fizesse. Hipotecou a sua casa. Isso iria permitir ao Manel que a sua mercearia ficasse com um ativo muito mais superior. O Manel deu por si a ter a sua mercearia com capitais próprios de 83,1 mil euros no final de 2015. Problema resolvido!, pensou. Em 2015, a mercearia do Manel até deu um lucro de cerca de 20 mil euros!

Mas passou-se mais um ano e o Manel viu a sua mercearia voltar a dar prejuízo. Foram 58,4 mil euros, o maior que alguma vez deu. E de repente, a hipoteca feita pelo Manel em 2014 começou a perder o seu efeito. Acontece que os 83,1 mil euros que tinha de capitais próprios em 2015 passaram, no espaço de um ano, a ser de apenas 25,8 mil euros. 

O Manel tem um prejuízo acumulado de quase 80 mil euros desde 2014 e conseguiu que os seus capitais próprios fossem reduzidos em quase 70% no espaço de um ano, tendo agora apenas 25,8 mil euros. Problema? Não. O Manel, otimista, está feliz, pois tem 25,8 mil euros. Fim da história. 

PS: Durante meses, O Tribunal do Dragão deu o seu contributo no caso dos vouchers, da Liga Aliança e em diversos temas a envolver léxicos como colinho, arbitragem e derivados do sistema. Hoje, é tempo de apresentar as devidas desculpas por se ter dado a todo esse trabalho. Tudo aquilo que contribuiu, diretamente ou indiretamente, fora de campo (ou dentro, ao ritmo do apito) para que o Benfica fosse tricampeão, não diz respeito ao FC Porto. Assim o afirmou o presidente, que diz que o caso dos vouchers, uma prática do Benfica que não tem defesa em nenhum regulamento, não diz respeito nem interessa ao FC Porto. Assim sendo, as desculpas por todo o tempo que os leitores d'O Tribunal do Dragão perderam a ler aqui sobre temas que não interessam ao FC Porto. Aqui fica uma informação mais útil e talvez mais importante: uma caixa de 48 pastilhas de Rennie tem um PVP de 4,95€. Coisas que importam.