quinta-feira, 16 de junho de 2016

Realidades diferentes, realidades iguais

Sempre ouvimos, e é sabido, que não há comparação entre o poderio económico dos clubes ingleses e o dos clubes portugueses. Por exemplo, a Premier League acabou de pagar 117 milhões de euros ao Leicester, entre direitos televisivos, prémio de participação, classificação final e outras variáveis. O Arsenal foi quem mais ganhou: 126 milhões. E o Aston Villa, a pior equipa, levou para casa 83 milhões de euros.

Isto não são as receitas totais de um clube: é somante aquilo que a Premier League paga aos seus clubes. Só o Aston Villa, através das receitas da Premier League, ganha mais do que todas as receitas operacionais do FC Porto para a época 2015-16 (57M€ ao fim do terceiro trimestre).

Não há comparação possível. Daí que também seja interessante perceber se essa diferença se reflete no mercado de transferências, nomeadamente nas intermediações pagas a empresários. Os resultados são no mínimo curiosos.

Valores em milhões de euros
Como referência, estão identificadas as receitas e comissões pagas pelos 8 clubes mais ricos da Premier League em 2014-15. No caso de FC Porto e Benfica, estão contabilizadas todas as receitas de 2014-15 (receitas operacionais e mais-valias com jogadores), enquanto que no que toca às comissões estão incluídos os números revelados pela FPF. Números precisos, por se referirem unicamente a comissões.

Por exemplo, algumas análises às contas do FC Porto indicam que a SAD pagou 13,17M€ em comissões nos primeiros 9 meses desta época. Não é verdade. Não é verdade pois os «encargos relacionados com aquisições de passes de jogadores» não incluem apenas comissões, há também prémios de assinatura para os jogadores, serviços jurídicos/legais, direitos de imagem e afins. Daí que não seja possível, através do R&C, aferir quanto foi de facto para empresários.

O período em análise da FPF não se refere a uma época desportiva completa, mas sim a um ano, de 1 de abril de 2015 a 31 de março de 2016. Ou seja, isto inclui todas as contratações feita para a época 2015-16, mais as contratações de janeiro. Já as receitas são referentes à época desportiva 2014-15 completa.

A primeira conclusão é que FC Porto e Benfica pagam comissões acima dos clubes ingleses na relação receitas vs. pagamentos a empresários. Liverpool, Manchester United, City, Chelsea e Arsenal têm obviamente mais despesas, pois falamos de clubes que conseguem contratar um jogador por mais de 40, 50 ou 60 milhões. Mas as suas receitas são imensamente superiores. Logo há um despesismo acima da média da Liga Inglesa levado a cabo por FC Porto e Benfica.

É claro que as comissões têm relação direta com as transferências, não com as receitas. Mas a capacidade de um clube investir em transferências está diretamente ligada às receitas que gera. Um clube com menos receitas não tem tanta disponibilidade para o mercado e, consequentemente, para despesas com intermediações.

Na relação comissões vs. aquisições, as despesas são muito mais elevadas. Para o 3º trimestre de 2015-16 houve um impacto de 23,5%. Em 2014-15, 12,85%. Em 2013-14, o recorde, 25,07%. A época 2013-14 foi a mais saudável, com apenas 5,45%, depois de em 2011-12 ter sido de 19,55%. Tendo em conta que a política do FC Porto, anunciada pelo próprio presidente, assenta em comissões de «5 a 10%», vemos que os números estão acima da média.

Sobretudo porque é fácil enquadrar uma comissão de 5 a 10% numa transferência, mas nas renovações de contrato ou na contratação de jogadores a custo zero já não há um valor movimentado para se definir a tal percentagem. 

Neste momento, a média do FC Porto na relação aquisições vs. encargos é superior à de clubes como Manchester City (7,67%), Manchester United (12,54%) e Liverpool (16,10%), tendo como referência os seus negócios de 2014-15. Estamos a falar de clubes com capacidade de receitas imensamente superior. 

De realçar que a época 2014-15 foi aquela em que a SAD teve maiores receitas (com o recorde de 82,5M€ em mais-valias e receitas operacionais de 89,2M€). Ou seja, a percentagem de 6,3% é muito conservadora. Pois se estivesse relacionada com as receitas de 2015-16, seria certamente superior. 

Em 9 meses, o FC Porto chegou sensivelmente a metade das receitas de 2014-15. Nos primeiros nove meses, a SAD gerou 93,4M€. Para surpresa de alguns, o FC Porto não foi o clube que, globalmente, mais gastou: esse continua a ser o Benfica, que no 3º trimestre teve custos totais de 131,6M€, mais 200 mil euros do que o FC Porto. Mas o Benfica gerou receitas de 122,3M€, essencialmente graças à grande diferença de proveitos operacionais (95,4M€ para 57,4M€), agravada pelos resultados na Champions. 

Um clube português gastar mais das suas receitas do que um endinheirado clube inglês em serviços de intermediação não rima com sustentabilidade. Bons exemplos? Uma vez mais, a época 2010-11. Ou até a época 2012-13, que teve encargos de 5,45% de um total de 46,5M€ em aquisições. Ou qualquer uma das épocas do ciclo do último tetracampeonato. Ou pouco/nada do que foi feito nos últimos três anos. Viver à grande e à inglesa é que não.

PS: Sejam dadas as boas-vindas a João Carlos Teixeira e Felipe, oficialmente confirmados como jogadores do FC Porto. É essencial os reforços começarem a pré-época tão cedo quanto possível, sobretudo por se tratar de uma nova realidade para ambos. Estando já duas caras confirmadas, falta esclarecer o caso de Zé Manel: nem anúncio de contratação, nem desmentido da mesma. Decidam-se.

15 comentários:

  1. Salvo melhor opinião, a sua análise encontra-se enviesada. O rácio para ser comparável,deveria ser calculado dividindo as comissões pelas receitas de vendas de jogadores. não se expurgariam,de todo o modo, as receitas pagas nas compras. Mas compreendo que seja difícil ter a informação, nomeadamente para os clubes ingleses. Concorda comigo?
    Ainda assim a sua conclusão é válida e elucidativa da magnitude das comissões pagas pelo FCP.
    Como sempre, excelente post.
    Manuel Fonseca

    ResponderEliminar
  2. Penso que faz algum sentido que as comissões pagas pelo Fcporto sejam maiores em comparação com a liga inglesa. Todos os jogadores, (ou a maior parte) se tem uma proposta de Inglaterra prefere ir para la do que ir para uma liga inferior, mesmo que o clube seja muito bom. Há um esforço maior para que o jogador fique no Fcporto do que numa equipa inglesa. E se as comissões são maiores, os empresários irão fazer uma maior pressão para que um jogador aceite a proposta mais benéfica (para o empresário). Não sei se me consegui explicar bem.

    É sem dúvida alguma o melhor blog/site do nosso clube. OBRIGADO

    ResponderEliminar
  3. um outro factor a levar em consideração será o facto de tanto o FCP como os coisinhos serem mais vendedores e compradores do que o Liverpool (por ex.) e, portanto, terem de pagar a mais gentinha. O Liverpool pode gastar 50M num jogador, o FCP pode até gastar os mesmos 50M mas em 10 jogadores, logo mais gentinha a quem pagar a comissãozinha. digo eu, que percebo pouco disso :)

    ResponderEliminar
  4. Será que temos que pagar mais comissões para esses jogadores virem para o Porto ao invés de irem para outro lado?

    ResponderEliminar
  5. Caros vamos falar claro?

    O outsider Leicester, vai receber 120 M€ da direitos televisivos, e eu pergunto, estará este modesto Clube da Liga Inglesa dependente de empresários, quer na compra ou venda de Atletas? Pagam, ou vendem, sem estar tão dependentes de empresários!

    Querem outro exemplo? O Bayern de Munique, será que paga comissões chorudas a Empresários? Se as paga, são comissões residuais, justamente porque eles tem arcaboiço financeiro!

    Somos um pequeno e pobre País da Europa do Sul, e no Futebol vivemos muito acima das nossas possibilidades (vejam o nosso PIB, um indiocador precioso), quanto a mim, deveriamos ser um País formador, tal como a Belgica ou a Holanda, todavia, os Fundos, (ou os poços sem fundo...), financiam o porco, porém, os Clubes engordam o mesmo, ainda curam os 4 presuntos, mas os Clubes apenas ficam com as orelhas, o rabo, as tripas, ou o sangue, porque o pata negra segue para os Fundos!

    E agora eu pergunto, o Portismo está habituado a ovas de esturjão, e será que o sócio/adepto se resigna a não ter qualidade no Plantel? Todavia, sabemos que essa qualidade tem chegado com a liquidez dos tais "poços sem fundo..."

    Falam em 10/11 e em 12/13 neste post, mas recordo ue em 10/11 com AVB, o FC Porto investiu cerca de 30/35 M€ no reforço do plantel : Moutinho, James, Otamendi, Souza e Walter consumiram esses mais de 30 M€ de investimento. Em contraste, como referem e bem, no ultimo ano em que o FC Porto foi Campeão, 12/13, apenas foram investidos cerca de 9 M€ em Jackson, as aquisições então foram os regressados, Atsu, Kelvin, Abdoulaye, Castro, ou os experimentados Izmailov ou Liedson que vieram ao FC Porto completar um PPR, mas recordam-se do banco do FC Porto na Luz num empate a dois golos em 12/13? Fabiano, Abdloulaye, Castro, Izmailov (com 15 dias de FC Porto), Tózé, Sebá e Kelvin (4 deles andavam pelo FC Porto B), e em 12/13 Vítor Pereira com um bom onze, e com escassas opções fez verdadeiros milagres, o que não aconteceu com AVB em 10/11, dois anos antes, isto em termos de investimento no plantel!

    O Talisca, consta que será vendido para a China por 25 M€, e eu pergunto, se o Mendes vender o Quintero pelos mesmos 25M€, vamos chorar as comissões de 6/7% que o Mendes cobra por valorizar um Activo em Mercados emergentes?!

    PT

    ResponderEliminar
  6. Ate faz sentido. FCPorto e Benfica são clubes "formadores" em comparação aos gigantes ingleses. Logo, terão de ser tanto FCPorto como Benfica a pagar maiores % pois são eles que na altura de vender o jogador vão ter o devido retorno financeiro. Salvo casos como James e Di Maria que mesmo estando em clubes grandes (vamos admitir que o James saiu de um clube grande embora sendo infinitamente inferior ao FCPorto) foram vendidos por valores ainda superiores..

    Luis Rosalino

    ResponderEliminar
  7. Não sei o ordenado não influencia também nas comissões que um empresário pede.

    De facto os ordenados pagos pelos clubes ingleses não tem nada haver com o que clubes como o Porto pode pagar.

    Li algures que há empresários que cobram uma percentagem do ordenado aos jogadores por eles agênciados, não sei se é verdade ou não!

    ResponderEliminar
  8. Apenas curiosidade.. Porquê comparar com a liga inglesa? Porque não, por exemplo, comparar com a liga logo aqui ao lado, a espanhola? Falta de acesso a dados?

    Como já disseram é normal que seja mais fácil atrair jogadores para a liga inglesa, daí a importância dos empresários ser menor. O próprio poder negocial que um United tem é diferente de um grande português, os empresários e os próprios jogadores têm mais respeito.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A Liga Inglesa tem uma regulamentação severa para controlar essse tipo de movimentos financeiros

      Eliminar
  9. Pergunta off-topic:

    Vejo muita gente a criticar a operação Euroantas (que parece ser novamente a escapatória para o cenário actual), mas não percebo qual o problema do estádio passar a ser detido pela SAD. Se alguém me puder esclarecer agradecia.

    Pedro R.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se a SAD falir o Estadio e o patrimonio da Euroantas é chamado a responder pelas dividas.
      Basicamente o FCP ficará na idade da Pedra perdendo tudo

      Eliminar
  10. " o FC Porto não foi o clube que, globalmente, mais gastou: esse continua a ser o Benfica"

    Na CS o que é que ouve acerca deste assunto? zero (ou o contrário)

    Em relação às comissões...até já é assunto 'mainstream' que pagamos muitas comissões. O benfica pagou quase o mesmo valor, segundo a fpf, e o que é que se diz/escreve? zero.

    Só prova o poder da CS, dos comentadores, dos jornais, etc...O que interessa não é a realiade...é o que se diz. Até porque o comum adepto ouve apenas o que certas pessoas dizem e aceita como verade absoluta.

    É assim...que em Portugal se diz que o FCP esbanja dinheiro (que até é verdade) e paga muitas comissões, enquanto o benfica aperta o cinto, está em contenção e coisas do género.

    ResponderEliminar
  11. É de mim ou podemos concluir que em epocas vitoriosas as comissões baixam e quando temos epocas fracas as mesmas sobem? Será por toda a gente gostar de estar no lado do vencedor para se promover e como tal aceitar vir por menos dinheiro? Apesar de serem numeros de alguma forma preocupantes, tambem me parecem logicos. Depois de 3 anos de seca, e de esperar que muita gente se sinta reticente em vir. Deveriamos apostar em trazer aqueles que querem vir para jogar e não aqueles que querem vir para ganhar dinheiro!

    Parabéns pelo blog e continuação do bom trabalho!

    Abraço

    ResponderEliminar
  12. A análise é interessante mas creio que não se podem tirar muitas conclusões.
    A estrutura de receitas é muito diferente nos clubes ingleses e nos portugueses pois neste último caso o peso das receitas com vendas de jogadores é maior. Para ser comparável deveria ter-se em conta um rácio comissões pagas / valor das transacções com jogadores (compras +vendas).
    Também os clubes ingleses são mais compradores e os portugueses mais vendedores o que enviesa a análise.

    ResponderEliminar
  13. A pressão é enorme em cima desta SAD e apelo a todos os portistas de bem que continuem a apertar o torniquete.
    Devemos saber o que se passa financeiramente no clube e tornando todas as movimentações mais claras possiveis.

    Pessoalmente acho que sempre que existir uma transferencia o R&C deveria separar todos os movimentos financeiros por categorias.
    Separar por "valor de aquisição de passe" e "encargos com aquisições" é curto e manifestamente desadequado.

    Deve se saber o que foi pago pelo passe, aos intermediarios(a cada 1 e que valor), o que foi pago por premio de assinatura ao jogador , as despesas administrativas(notariado, emolumentos) quando assim se verifiquem.

    Esta direcção não tem alternativa ou começa a fazer as coisas mais basicas para recuperar a confiança ou á proxima contrariedade isto vai correr mesmo muito mal

    ResponderEliminar

De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

Quem confundir liberdade de expressão com injúria, insulto, mentira ou difamação não passará pelo lápis azul. Todo o spam será apagado. Comentários anónimos são susceptíveis de não serem publicados. Nicknames são permitidos.