sexta-feira, 24 de junho de 2016

Joey Tempest está a chegar ao refrão

Não há adepto - adepto, não os populares cidadãos que se revelam em certames que envolvem a seleção nacional - que não sinta um vazio neste momento. A ânsia de que comece a pré-época e que o plantel comece a ganhar forma é superior a tudo.

Não há Europeu que possa preencher um adepto. Nós vivemos o dia a dia de um clube. Todas as semanas sofremos com esse clube. Temos rivais identificados e eternos. Uns são sócios desse clube, outros assumidos treinadores e/ou dirigentes de bancada que não passam sem debater a atualidade desse clube. Defendem, criticam, analisam. Já vibrámos com as conquistas desse clube e ultrapassámos as muitas derrotas. 

Não há comparação possível com uma seleção, seja ela qual for. Vemos essa seleção disputar uma grande competição de 2 em 2 anos. Não acompanhamos a atualidade da mesma, que só joga de meses a meses. Não há um rival claramente definido na luta por uma competição. Não há um estádio que possamos dizer que é a nossa casa. E a discussão mais recorrente parece ser sempre se deve jogar o jogador do clube A em vez do jogador do clube B. Não há paixão quando joga uma seleção. Nada que se pareça com a paixão de acompanhar um clube desde a infância.

Dizer «tenho orgulho em ser zimbabweano» é uma das coisas mais intrigantes da humanidade. É a mesma coisa que afirmar que tenho orgulho em ter nascido no Santa Maria. Que tenho orgulho em que me tenham cortado o cordão umbilical com uma tesoura Schumacher. Que tenho orgulho em que me tenham embrulhado num cobertor branco. Que tenho orgulho em ter nascido já com cabelo: nenhuma dessas escolhas foi feita por mim. Estava assim, pré-definido, desde o início. O orgulho deveria estar reservado para os feitos, as conquistas, as escolhas e o percurso que fazemos. Não pelo que é decidido sem a nossa intervenção.

Não ter orgulho em ser-se zimbabweano não é um atentado à pátria: é normal. Ninguém escolheu ser de determinada nacionalidade, por mais que se goste de determinado país ou cultura. Nasceu assim, pronto. E isso não diz nada da pessoa. E a partir daí, salvo alguma radicalização, estamos destinados a apoiar sempre o mesmo país. 

Com os clubes isso não é assim. Ninguém está condenado, ao berço, a ter que apoiar o mesmo clube. Reparem que todos os bebés choram quando nascem. Há quem diga que, de facto, as mães dão à Luz, que dá nome ao estádio do Benfica. Pois, é essa a causa de tanto choro: a ofensa por as nossas mães terem dado à Luz, em vez de terem dado ao Dragão. A escolha começa aí.

Seja por influência de um pai, um avô, amigos, a paixão por um clube constrói-se. Não são raros os casos de quem é adepto de um clube durante a infância, mas depois muda. Ou cresce. Escolhemos acompanhar um clube para toda a vida. Viver com ele o dia a dia, a pensar nele, a sofrer com ele. É algo que nunca existirá com uma seleção. Por mais que possamos ter orgulho quando entoamos Kalibusiswe Ilizwe leZimbabwe.

Quem se entusiasma, de facto, com o futebol de seleções talvez mate um pouco o bichinho. Para outros, é um defeso parado. Poucas mexidas no mercado de transferências, pois está tudo concentrado no Euro 2016 e na Copa América. O habitual.

Quando Lopetegui deu o primeiro treino, a 3 de julho de 2014, só tinha como jogadores novos Sami, Evandro e Óliver Torres. Era ano de Mundial 2014. Em ano de Euro 2012, Vítor Pereira começou a pré-época sem qualquer contratação, e só a 7 de julho recebeu a confirmação de que ia ter Jackson Martínez. E com Villas-Boas, em ano de Mundial 2010, no arranque de julho só havia Souza e Sereno. 

Nuno Espírito Santo, para já, tem Felipe, João Carlos Teixeira e Zé Manel (o único que a SAD ainda não confirmou) contratados. E falta uma semana para o final de julho. Ou seja, Nuno não tem menos caras novas do que tiveram Villas-Boas, Vítor Pereira e Lopetegui. E o facto de, a 24 de junho, ainda não haver muitos reforços confirmados não significa que a SAD não esteja a trabalhar nessa questão: simplesmente, em anos de Europeus ou Mundiais, é sempre assim. As coisas são tratadas mais lentamente, a pré-época arranca com poucos reforços e muitas dúvidas. Estranho era que 2016 fosse diferente.

Além disso, neste momento a maior preocupação é outra. Falta uma semana para o final do mês e da época contabilística 2015-16. Ou seja, a SAD terá forçosamente que vender jogadores nos próximos dias, de modo a cumprir o orçamento. Ainda que as provas na UEFA tenham deixado um buraco de cerca de 15M€, a maior preocupação é o resultado com transação de jogadores. 

Orçamento para a época 2015-16
Estavam orçamentos 72,591M€ e, no final do terceiro trimestre, a SAD tinha apenas 29,989M€. Ou seja, só para cumprir esta rúbrica, são necessários 42,6M€ nos próximos dias. O que está em causa não é apenas cumprir o orçamento, caso contrário não surpreenderia que o prejuízo transitasse para a próxima época, como foi feito com os buracões de 2011-12 e 2013-14. Neste caso, o que importa é o fair-play financeiro, pois a SAD não pode apresentar resultados negativos de mais de 8,6M€. 

Ontem vimos que a UEFA manteve o Galatasaray fora das competições europeias, devido a irregularidades no fair-play financeiro. O facto de o Sporting não ter sido excluído da Champions (antes disso há outras punições mais leves) provocou algum relaxamento na maneira como o fair-play financeiro é encarado, mas não devia. 

A UEFA monitoriza as contas do Sporting, penhorou os prémios da Champions e há um limite de 22 jogadores inscritos na lista A, ao invés dos habituais 25. Além disso, o Sporting fez uma grande reestruturação financeira, algo que não aparece no horizonte da SAD do FC Porto. Basta dizer que o Sporting, no final do 3º trimestre, gastou menos 17,7M€ em salários do que o FC Porto e gasta metade nos Serviços e Fornecimentos Externos (14,4M€). Isto entre duas SAD que geraram quase as mesmas receitas operacionais (57,4M€ para o FC Porto, 54,8M€ para o Sporting).

A operação Euroantas, ao contrário do que alguns ainda temem, já não vai ser repetida, pois não há tempo de o fazer até ao final de junho. Logo, o que tem que assegurar a concretização das mais-valias necessárias será mesmo a venda de jogadores. E ainda que a SAD já tenha começado a recorrer às receitas do patrocínio da MEO/PT (hipotecadas até 2017), o contrato de direito televisivos só entra em vigor a partir de julho de 2018. 

Como quando o orçamento foi elaborado a Altice e a NOS ainda não estavam decididas a apostar no futebol português, e como não haveria justificação para ir buscar receitas de 2018 para pagar o buraco de 2015-16, a SAD não iria nunca pensar nas receitas televisivas para pagar o orçamento esta época. Nas palavras de Fernando Gomes, o «contrato com a  PT permite gerir o FC Porto de outra forma». Isso foi entendido com um passo rumo à sustentabilidade, não como forma de hipotecar o futuro para tapar buracos do presente.

Uma semana de decisões para o presente e futuro do FC Porto. Nos próximos dias, não é tempo de pensar na porta de entrada, mas sim na de saída. Nem que seja para o Zimbabwe. It's the final countdown. E vá, que Portugal ganhe à Croácia. Celebrarei quase com a mesma satisfação como quando Sonkaya, Ibson e Ivanildo fizeram uma triangulação no Bessa antes de Hugo Almeida cruzar para a cabeça de Sokota, na última jornada de 2005-06. Foi um grande momento. 

17 comentários:

  1. Como é que vocês continuam a dar o Zé Manel como reforço garantido se nunca se viu alguma confirmação dessa contratação?
    Cumprimentos, e desta vez espero resposta!

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    1. Conforme é lido no texto: «Zé Manel (o único que a SAD ainda não confirmou)».

      De facto, a SAD não confirmou. O que não significa que o contrato não esteja assinado, algo já antecipado por toda a imprensa desportiva.

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    2. e ele já está a treinar com o restante plantel...

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  2. O golo nessa última jornada foi de Lisandro, não de Sokota.

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    1. Ninguém disse que Sokota fez golo. Até porque a jogada descrita não corresponde ao golo do Lisandro.

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  3. quando chegar ao refrão o que acontecerá? será o fim da Europa como a conhecemos?

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  4. É impossível fazer mais de 40 M ate a próxima semana.

    40 M vamos ver se fazemos ate ao fecho do mercado todo. Se calhar nem isso.

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  5. Excelente texto mais uma vez TdD. É bom saber criticar o que tem de ser criticado (contas) mas também acalmar o público com a parte das contratações, porque já há muita gente a desesperar. No fundo este desespero é normal depois de 3 épocas más e como foi dito no texto, a selecção não nos satisfaz. Como eu costumo dizer nunca mais é Agosto para ver o meu FCP!

    Aguardo ansioso a nova época com o NES (apesar de não ser a minha 1ª escolha) que achei interessante e os reforços/saídas que vão acontecer.

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  6. http://www.record.xl.pt/internacional/competicoes-de-selecoes/europeu/euro-2016/grupos/grupo-d/croacia/detalhe/antigo-selecionador-croata-diz-que-portugal-e-sporting-comparam-arbitros.html

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  7. Bom, nem sou TOC, nem tão pouco tenho formação académica na area da economia, complicado para quem faz contas com o "lápis atras da orelha" como eu, rebater o que quer que seja. Talvez falte à SAD do FC Porto um excelso e sublime Dr Angelino Ferreira´, ex-administrador da empresa municipal Gaianima onde deixou um legado extraordinário. Ou porque não resgatar à FPF o seu presidente, Dr Fernando Gomes da Silva, recentemente convertido ao benfiquismo!

    Relativamente à temporada que fazem alusão de V Pereira, o FC Porto nesse defeso do verão de 2012, contratou Jackson (foi oficializado e contratado, como referem e bem, uma semana após o começo dos trabalhos de pré-época), Fabiano, tinha sido contratado em Maio ("Em ano de Euro 2012, Vítor Pereira começou a pré-época sem qualquer contratação..."), Atsu e Kelvin regressaram do Rio Ave, tal como Abdoulaye que tinha estado em Coimbra, ou o Castro que esteve no Gijon também emprestado.

    Para sermos rigorosos, V Pereira em 2012/13 (Julho/Agosto 2012), recebeu 2 reforços : Fabiano, e Jackson, e contou com 4 regressos : Atsu, Kelvin, Castro e Abdoulaye. Todos começaram a pré-epoca desde o seu inicio, excepto Jackson que perdeu apenas uma semana de pré temporada. A 31 de Agosto de 2012, foi contratado o lateral Quinonez, opção sobretudo na equipa B!

    PT

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    1. Portanto, o «PT» prefere analisar Angelino Ferreira e Fernando Gomes pelos trabalhos que desempenharam fora do FC Porto.

      É legítimo, mas esperemos que no futuro, na hora de avaliar a obra de Jorge Nuno Pinto da Costa, tenha o bom senso de o julgar pelo que fez no FC Porto, e não, por exemplo, no ramo imobiliário na Cedofeita.

      Em relação a 2012, a informação está correta, pois Fabiano não integrou os trabalhos de pré-época no primeiro dia, apesar de ter sido contratado atempadamente. Fabiano juntou-se ao grupo de trabalho mais tarde. No primeiro treino da pré-época, Helton, Bracalli, Kadu e Stefanovic foram os guarda-redes à disposição de Vítor Pereira.

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  8. Uma duvida: A Sad não tem que tapar esse buraco de 15M da Champions com vendas de jogadores?

    Esses 15M não entram no prejuízo se não forem 'compensados' com vendas?

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  9. Mais um excelente texto TdD. Claro como a água e objetivo como sempre! que o euro 2016 passe o mais depressa possível, porque apesar de ser portugues a minha seleção é o meu porto e o meu clube é o porto! Como já alguem dizia,apoia te no que te deixa feliz... #VistodeAzuleBranco

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  10. Faltam 3 dias. Vamos atirar-nos de um precipício e esperar para ver o que nos calha em sorte quando cairmos.
    Na minha opinião, será o fim da Europa durante 2 épocas e tudo o que isso significa.
    Mas ninguém fala, ninguém discute. Não percebo. Ninguém percebe o problema Gigante que aí vem (este é o único local onde este tema é abordado)
    Eu queria acreditar num milagre, mas não vejo qual possa ser para que cumpramos o fair-play financeiro. Estamos nas mãos da UEFA. É rezar.

    Pedro

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  11. Caro TdD, não posso deixar de discordar da visão "ya" que atribui à selecção.
    Eu nasci Homem e poderia ter nascido mulher. Eu nasci saudável e poderia ter nascido com trissomia 21. Muita coisa nos pode estar predestinada à nascença. Mas somos nós que fazemos aquilo que somos. Somos nós que fazemos as coisas com que nos podemos orgulhar, ou não. Algo a que chamamos livre-arbítrio, como poderá decerto aprofundar numa leitura de Savater.
    A questão da selecção é uma visão demasiado claustrofóbica. Mesmo que abordassemos o próprio desporto nacional, continuavamos muito fechados em nós mesmos. A verdade verdadinha, é que nós como Portugueses deixamos muito a desejar em relação a outros povos. Temos uma falta de brio crónica em relação ao escudo da nossa bandeira. Como poderemos crescer como país, quando a maioria está de costas voltadas ao mesmo, muito mais preocupados com os próprios umbigos do que com a nação em geral.
    Politiquices àparte, estaria a ser hipócrita se não assumisse que o FCP me angustia, me tira mais o sono nos maus momentos, como me enche de felicidade e orgulho nos bons, quando comparado com a seleção nacional.
    Mas não será isso causa de termos um clube conquistador e vencedor, ao passo que a selecção não será mais um Paços de Ferreira? Na melhor das hipóteses, um Braga?
    A tal orfandade que refere, não se deverá mais ao facto de sermos uns eternos outsiders, do que propriamente ao treinador ou jogador a, b ou c?
    A selecção representa o país onde nascemos, e não é o folclore à volta do vaidoso de sempre, ou do maior barrete do Bayern, que me fará mudar a opinião.
    A mesquinhez com que a nação portista está a abordar esta campanha europeia, não me traz particular orgulho.
    Cumprimentos.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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