domingo, 23 de novembro de 2014

Só ele sabe porque não fica em casa

Ele está em todo o lado. Dá conferências em Londres onde promete inovadoras experiências interactivas para os adeptos que já se praticam no Estádio do Dragão, vai aos Emirados falar de futebol de praia, passa pela África do Sul e pelos EUA e é recebido como um Messias na UEFA, a avaliar por este pequeno texto do jornal Record. Seja qual for o final de época, o Sporting já deve ser campeão em milhas acumuladas.

Fim dos fundos: eles riem-se
Mas isto a propósito do visionário Bruno de Carvalho que deixou a FIFA e a UEFA a seus pés com as suas propostas anti-fundos. Só se lamenta que Bruno de Carvalho não tenha sido tão visionário aquando das eleições para a LPFP (bastava escolher um candidato e ter o apoio de três clubes para concorrer contra Luís Duque). Se há tanta visão para o futuro do futebol português, porque não nem uma sugestão? É a chamada gestão à José Régio. Bruno de Carvalho não sabe para onde vai, mas sabe que não vai por aí (e por aí entenda-se o sentido de voto de FC Porto e Benfica).

Mas não deixa de ter pensamento estratégico. O caso mais interessante foi a entrevista com os directores dos 3 jornais desportivos. Chamou-os para uma entrevista que rapidamente se tornou num ataque, onde utilizou um inteligente jogo de palavras para iludir os desatentos. Cumpriu os seus objectivos: atacou os 3 directores e os sportinguistas rejubilaram, espumaram-se, celebraram. Rejubilaram tanto que esqueceram-se por um momento do 8º lugar na liga. Bruno de Carvalho sabe chamar as atenções para si próprio e fazer com que se esqueçam do importante. Acreditem, não é fácil fazer isto. Tem mérito.

Mas quando o tema são os fundos, já não se trata de desviar as atenções. Trata-se mesmo de ignorância face ao que aí vem. Continuam a tratar Bruno de Carvalho como o valente cavaleiro da cruzada contra os fundos, que vai acabar com os fundos na UEFA e na FIFA. Percebe-se este empenho de Bruno de Carvalho: enquanto Benfica e FC Porto mantiverem parceiros estratégicos, o Sporting não cheira. Mas a Bruno de Carvalho interessa corrigir rapidamente o erro que fez no Sporting: fazer com que mais nenhum fundo queira negociar com o clube.

Porque é isso que está em causa. Não é só o Sporting a romper com os fundos. São os fundos que já não querem negociar com o Sporting. A maneira como rasgam o contrato com a Doyen Sports, tratando tal como um empréstimo sem taxa de juro que ia triplicar ou quadruplicar o lucro da instituição, mostra que não tem uma SAD pronta a honrar os compromissos que assina. Nenhum parceiro quer negociar com um clube assim.

Por isso é tão conveniente a história de que os fundos vão acabar. Mas é tão conveniente como mal contada. A FIFA não vai proibir os fundos de investimento, vai proibir a partilha de passes com fundos de investimento. Os fundos vão continuar a existir, como sempre. Na prática o que acontece é que os fundos vão passar a operar como se fossem uma instituição bancária: avançam com o financiamento da contratação e depois são reembolsados, ou com taxa de juro previamente definida, ou a troco de uma percentagem de uma futura transferência. Já ouviram a aquela história de que os fundos são proibidos em Inglaterra? Ouviram mal. O que não é permitido é o third-party ownership. Os fundos existiam, exitem e continuarão a existir, em todos os campeonatos.

Portanto a história do herói Bruno de Carvalho, que anda a batalhar na FIFA e na UEFA, é para inglês ver. Vai acabar a partilha de passes por terceiros. Mas os fundos vão continuar a operar como instituições bancárias. E vão continuar a financiar transferências para clubes onde saibam que a) os jogadores vão ser valorizados; b) os clubes vão cumprir os compromissos assumidos.

O Sporting, além de rasgar contratos quando lhe apetece, não valoriza os jogadores para um patamar que Benfica e FC Porto alcançam. Em toda a sua história o Sporting só vendeu um jogador acima dos 15 milhões, foi há 7 anos e até lhes foi emprestado de graça. E para fazer a segunda maior venda da sua história em 2010 o Sporting teve que vender o seu capitão ao FC Porto. Que interesse podem os fundos ter num clube assim?

A dependência dos fundos não é saudável para ninguém. Mas que são importantes para conseguir jogadores como Mangala, James ou Brahimi, são. O que se pedia era a transparência do processo. Coisas tão simples como a) conhecer os accionistas ligados aos fundos; b) revelar logo no momento da alienação quanto custa recuperar o passe; c) definir uma taxa máxima de valorização dos activos. Três coisas tão simples que acabavam com o problema. Mas sabem porque é que estas 3 coisinhas nunca foram opção? Porque nem a FIFA nem a UEFA têm interesse.

A FIFA e a UEFA querem que os fundos continuem a existir, porque é um negócios paralelo que envolve centenas de milhões. Vai proibir o third-party ownership, mas os fundos vão continuar a operar. Não muda nada. Bater palminhas por se fechar uma janela quando a porta continua aberta? A única porta que se fechou foi para o Sporting, e foi dos fundos.





- A saudade de ver o nosso FC Porto jogar é tanta que para ter tema tive que o centrar em Bruno de Carvalho. Isto porque não posso aceitar a sugestão de um estimado amigo portista, que sugeriu que falasse sobre os elogios a Pinto da Costa em Angola. Ver o FC Porto, na presença do seu presidente, ser reconhecido lá fora é sempre importante. Mas para quem tanto se queixa de imprensa tendenciosa e do regime, dedicar uma única palavra ao Jornal de Angola seria de uma hipocrisia e falta de coerência considerável. Pobre do FC Porto no dia em que necessitar de um panfleto estatal para massajar o ego. Fica a nota por Pinto da Costa mais uma vez exportar a imagem do FC Porto no estrangeiro, com expectativas de ver se terá importado algo.

- Não li a entrevista de Lopetegui à UEFA. Mas o jornal Record diz algo como «seremos campeões ou lutaremos até ao fim» e esta frase deixou alguns portistas incomodados, por Lopetegui admitir a possibilidade de não ser campeão. Claramente um motivo para indignação, ora vejamos o que disse Guardiola em meados de 2011-12: «Ser campeón? Solo queda luchar hasta el final». Ou então o que diz Mourinho depois de passar para a frente da liga inglesa em 2013-14: «Não somos candidatos ao título, o City é que tem obrigação de ser campeão». Seguindo a coerência, Guardiola e Mourinho não têm capacidade para treinar o FC Porto, porque são treinadores que admitem não ser campeões. Ah, esperem, são mind-games para aliviar a pressão sobre a equipa? Ah, tudo bem! Que pena que Lopetegui não tenha feito o mesmo na sua entrevista à UEFA... [Irony alert]. 

8 comentários:

  1. Caro Tribunal,

    Completamente de acordo, subscrevo.

    Relevo a ultima parte. Se fosse Mourinho ou Guardiola tudo bem. Sendo Lopetegui aqui d'el rey que ele não vale nada. Enfim, não sei até quando vamos continuar a bater nos nossos de uma forma gratuita,

    Abraço azul e branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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  2. Sobre a última parte, pergunto-me se alguma vez no nosso clube será possível levar a cabo um projeto de 2 ou 3 anos mesmo que não sejamos campeões em algum desses anos. Como Mourinho está a fazer no Chelsea por exemplo (não foi campeão no ano passado e continuou, sendo o Chelsea um clube também conhecido pelo "temperamento" com os seus treinadores).

    Estamos (generalidade dos adeptos) com um grau de exigência tão grande que 1) não admitimos que um treinador não campeão continue e pior 2) até com os treinadores campeões queremos correr com eles (Vítor Pereira é um exemplo gritante).

    Desejo naturalmente que o FC Porto seja campeão este ano, e desejo que Lopetegui continue cá para levar este projeto desportivo em frente. Temo é que se por acaso perdermos o título, nem que seja a 1 ou 2 pontos do Benfica, os adeptos não o tolerem e se faça uma revolução em cima de outra revolução.

    Sobre o tal senhor presidente dos rivais de Alvalade, subscrevo o conteúdo.

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  3. Completamente de acordo com a totalidade do post e sobretudo na parte em que fala da hipocrisia da imprensa do regime em Portugal, e depois irmos "beber" elogios a outro que tal!!!!

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  4. não leste a entrevista que Julen Lopetegui concedeu à 'champions matchday'?
    convido-te a fazê-lo aqui :D

    abr@ços
    Miguel | Tomo II

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    1. e em portugues nao se arranja? :)

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    2. Muito agradecido, Miguel. Sempre atento!

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  5. Caro Tribunal do dragao: há um par de dia comentei neste artigo,o que ficou a espera de moderacao.

    Afinal, o lápis azul só deixa passar vozes acríticas....

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    1. Não. O lápis azul não deixa passar injúrias, insultos, difamações ou falsidades. E isso de aparecerem leitores com problema de pigmentação aqui não pega. Mas tendo em conta que não faço ideia de quem se trata, nem de que comentário fez, sugiro tentar comentar sem violar nenhuma das regras, chamemos-lhe assim, indicadas no blogue. De certeza que terá mais sorte perante o lápis.

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