sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A casa está blindada. Falta aproveitá-la.

Havia tempo para um volte-face. Faltava haver vontade, ou neste caso um pequeno esforço para isso. André Silva tinha o direito de exigir que fosse tão valorizado com qualquer jovem avançado sul-americano que o FC Porto vá buscar lá fora, sem com isso pisar o risco da burguesia (e ser valorizado não significa receber mais dinheiro, mas sim ter oportunidades para mostrar o seu valor). E o FC Porto tinha o dever de lutar tanto por André Silva como o faria por qualquer outro jovem avançado estrangeiro.

O futuro passa por aqui
Quando todos querem o mesmo, tudo é possível e mais fácil de alcançar. Preparar terreno para acusar o jogador de ser mercenário ou ingrato seria conveniente, mas André Silva sempre quis jogar e renovar pelo FC Porto. Já regressou aos relvados no último jogo da equipa B e agora o jornal O Jogo confirma que a renovação está perto de se concretizar. Se já não houvesse entendimento, não teria voltado a jogar pela equipa B. Assim resta esperar a oficialização da notícia há muito ansiada.

André Silva é um dos jogadores mais acarinhados por quem acompanha a formação. É impossível saber hoje o que poderá vir a ser: se um Fernando Gomes, o rei de todos os goleadores, ou um Bock, que na formação fazia carradas de golos e nunca jogou na primeira liga. Não interessa a futurologia. Interessa o que André Silva é à data de hoje: um ponta-de-lança de enorme potencial, de características únicas, português, portista, de qualidade... e nosso. Já é nosso.

O FC Porto não pode abraçar o romantismo de pensar em viver da formação. É possível ser-se bem sucedido na formação por duas vias: ou os jovens chegam à equipa principal e ajudam a ganhar títulos. Ou ou jovens evoluem o suficiente para depois serem vendidos por grandes quantias para outros clubes.

Tendo em conta que só se pode chamar uma boa formação a quem cumpra um ou dois desses pontos, o FC Porto tem uma boa formação. Porque os jogadores que chegam à equipa principal conseguem ganhar diversos títulos e depois ainda saem a preços consideráveis. Nos últimos anos houve um decréscimo, inegável, pois a SAD tem apostado mais em comprar bronze fora. Mas há prata em casa, que também pode ser transformada em ouro. A boa formação esteva sempre por cá. Falta é aproveitá-la.

Com a renovação de André Silva, o FC Porto tem a próxima geração de jogadores, de transição dos sub-19 para o primeiro ano de sénior, completamente blindada. Falta que sejam aposta. 

Nos últimos 3 anos, excluindo os jogadores que transitavam dos sub-19 e os da equipa A que rodavam na B, o FC Porto contratou 15 estrangeiros para a equipa B (contando com os deste ano, que como é óbvio ainda não tiveram espaço para mais do que a B). Desses todos, só Sebá e Kayembé foram lançados na equipa A. Sebá fê-lo quando estava emprestado. Kayembé fez um jogo a extremo e agora joga a lateral na equipa B. Isto não é fazer uma boa gestão da equipa B, nem de ataque ao mercado.

Se vêm do estrangeiro, tem que ser por terem mais qualidade do que os que já cá estão. E se têm mais qualidade, não podem chegar, passar um ano ou dois na equipa B e irem à sua vida. Há que haver uma aposta consistente. Acima de tudo, contratar jogadores que melhorem a profundidade e potencial dos quadros do clube, mas sem andar a tapar lugares aos que já cá estão.

Ser aposta não é apenas meter jogadores da B a jogar na equipa A à maluca. A aposta começa não na utilização, mas sim na gestão de recursos humanos. Apostar na formação é deixar que ela tenha o seu espaço competitivo, não necessariamente na equipa A, mas nos respectivos patamares. Primeiro na equipa B, cuja principal função deve ser dar o primeiro ano de seniores aos sub-19, não contratar camiões de jogadores que não são melhores do que os que já cá estão. Quando o estímulo competitivo estiver esgotado na equipa B, porque não um empréstimo a um clube da primeira liga? Há muitos casos de sucesso comprovados neste modelo no FC Porto.

E isto chega a propósito da posição de ponta-de-lança. Não é momento para falar de mercado, mas num clube como o FC Porto, que assume que depende de mais-valias para subsistir, é sempre necessário pensar mais adiante. Se Jackson Martínez sair, todos os portistas concordam que há em Aboubakar um diamante em bruto e capaz de assumir a posição 9. E depois?

Entre Kléber, Walter, Ghilas e Caballero, o FC Porto tem mais de 16 milhões de euros investidos. Ainda que seja pouco provável que sejam aposta para 2015-16, são activos que ainda têm que ser rentabilizados ao máximo, seja desportiva, seja financeiramente.

Antes do mercado, há que
aproveitar os recursos
Gonçalo Paciência precisa de futebol de primeira liga e que as lesões o deixem em paz. Se estivesse a jogar com regularidade lá fora, já seria o novo Ibrahimovic. Assim é difícil aproveitar o seu potencial. André Silva está a fazer o primeiro ano de senior e também vai precisar de jogar com regularidade doravante, até para recuperar o tempo perdido nos últimos 3 meses.

Seria interessante encontrar espaço competitivo para Rui Pedro na equipa B já no próximo ano. Ainda tem idade de sub-17, mas a história de queimar etapas é uma lenga-lenga. Os jogadores evoluem quando são testados num patamar superior, não quando as suas qualidades são obrigadas a obedecer àquilo que diz o BI. Ruiz também pode saltar para a equipa B... se o FC Porto o decidir comprar. Tem mostrado alguns apontamentos de qualidade, mas tudo depende do preço.

Tudo isto para dizer que antes de ir ao mercado, é preciso arrumar a casa. Perceber que papel terá cada jogador antes da nova época. Encontrar espaço competitivo para cada um destes talentos. E então sim, se for benéfico, contratar quem melhore a profundidade ou qualidade no plantel. Sempre seguindo a regra que devia estar afixada: se vem de fora, tem que ser melhor do que quem cá está.

10 comentários:

  1. Espero de facto que tenhamos uma boa fornada...
    Dessa forma podemos deixar os emprestados irem embora sem os ter que comprar e depois de terem feito o trabalho de "segurar o barco" enquanto os jovens evoluem:
    Oliver - Otavio
    Casemiro - Ruben Neves
    Campana - Tomas
    Tello (2 anos) - Ivo

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  2. E TdD nem nos podemos esquecer do aumento da carga salarial que essa opção nos tem valido...

    Sinceramente este ano não percebi patavina da arrumação do plantel A e B.

    Ou melhor, entento apenas e só na perpectiva que Lopetegui fez uma equipa A sem sequer pensar ou contar com a equipa B, daí termos 28 Jogadores no plantel A.

    Mas as opções de contratações na B foram horriveis... Tirando Lichnovsky que é uma posição defecitária a nível de formação, ficamos com o Siemann para suplente do Zé António(!!) e também fomos buscar o Diogo Carlos para suplente do nosso quase Quarentão... caricato no mínimo!

    Na Baliza, vem o Gudinõ para ir para os juniores sentar o Andorinha (fantástico!) e ficou o Vitór Garcia mais um ano com renovação de empréstimo, apesar das hipoteses serem nulas!

    Veio o Malthe Johansen(mais um central) para ir jogar nos juniores(?!?!) e roubar espaço de progressão aos nossos (ou será que estamos tão mal que nem nos escalões mais baixos temos centrais com potencial?).

    No meio disto tudo o Verdasca é que perdeu espaço de jogo na equipa B, que poderia já ir jogando este ano de vez em quando, tal e qual fez o Ivo, Rafa, André Silva e Tomás no decurso da última época... E estou a referir apenas o Verdasca mas estão muitos mais juniores a serem privados de minutos na Equipa B à conta com estas más gestões.

    Veio o Braima Candé, para chatear o Sporting?

    Depois ficamos com o Pavlovski mais um ano por empréstimo para continuar a não ser aposta... enfim...

    E ainda contratamos os irmãos Djim, por alguma razão que não se afigura fácil de perceber...

    Assim só de fininho são 9 jogadores completamente desnecessários...

    E ainda poderia questionar a contratação do Ruiz, pois nem sem avançados de raiz na B ele é chamado para jogar e depois é assim que querem testar os jogadores em cenários mais competitivos? E já sem mencionar que está a tirar espaço ao Rui Pedro para jogar mais vezes pelos Juniores.

    Enfim... muita gente desnecesária que só cá está a atrapanhar e sem adicionar nada de jeito e se juntarmos com as aquisições da equipa A que só estão a tapar a progressão natural da B para a A (Kelvin, Opare, Adrian, Ricardo Nunes e os próprios Otávio, Campanã e Evandro ) então isto é uma festa de má gestão dos capitais que de si, já são reduzidos.

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    1. Apesar de concordar no geral, existem alguns pontos em que tenho de discordar. Na questão dos centrais, o que foi feito era quase obrigatório, pois a nossa fornada de jovens centrais não tem grande qualidade, apenas o Verdasca mostra potencial para vir a dar bom jogador.
      O Gudiño já se viu que é um excelente guarda redes e quando assim é não vejo nenhum problema com a vinda de estrangeiros o mesmo se passa com o Ruiz que já se mostrou um ponta de lança com instinto goleador, temos o Rui Pedro é certo mas de lembrar que ele ainda é juvenil e já tá num patamar superior.

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    2. Pedro

      Daqui a 1 ano falamos...

      O Vitor Garcia é um bom lateral direito e vê-se o aproveitamento que lhe demos... o mesmo com o Sebá e o Seri.

      O Mikel foi considerado para ser uma opção para Trinco mas logo se apressou a contrar Casimiro e Campanã para o taparem

      Isto mostra uma politica clara de aquisições anuais para preencher areas defecitárias e não (nem nunca foi/tem sido politica do clube, promover atletas a partir da equipa B).

      Se pode mudar com o Lopetegui? Pode mas para isso é necessário uma mudança séria no paradigma e não esperar que o Ivo tenha motivação no máximo para jogar na equipa B e sonhar com o plantel da A, quando tem 6 extremos à sua frente e ainda sabe que o Óliver também dá lá uma perninha antes dos extremos de raiz, como Kelvin ou Ricardo.

      Portanto estou curioso se o FCP vai permitir inverter esta matriz de negócio puro onde o jogador é uma mercadoria transaccionável com entrada e saída rapidissimas e onde a progressão dos atletas não é tida em conta.

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  3. Independentemente da naturalidade, há uma coisa que gosto de ver: a atitude dos jogadores que estejam concentrados a 100% a ajudar o clube. Nomeadamente quando todos os dias assediam o Brahimi com grandes clubes europeus, da-me muito gosto de ver as respostas dele. Quem diz Brahimi diz outros jogadores que mal chegam ao clube e não precisam de levar nas orelhas para aprender, ou seja, sao jogadores à porto. Mais diretamente aos jovens jogadores, para nós seria muito melhor ter jovens jogadores portugueses a evoluis do que estrangeiros, so que ha uma coisa que nao sei se corresponde a verdade mas que a minha intuiçao me diz: os estrangeiros como vêm de fora concentram-se mais na evoluçao, isto é, seguem mais a risca o seu trabalho dentro e fora do horario de treino (sendo que têm menos desconcentraçoes à sua volta) e sendo assim por muito que gostemos de ver portugueses a evoluir o que conta sao os resultados e uma equipa como o FCP que tem mentalidade sempre para ganhar nao costuma haver segundas hipoteses. Aliás, exigentes como sao os adeptos que às vezes assobiam com a equipa a ganhar (maldade minha agora kkkk), a margem de erro fica muito curta.

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  4. Caro TD
    Uma vez mais perspectiva de forma absolutamente correcta a questão da formação e sua "utilidade" no clube, quer numa perspectiva desportiva quer sobretudo financeira já que parece haver unanimidade de pontos de vista relativamente ao caminho a percorrer no que ao futuro e viabilidade financeira dos clubes Portugueses diz respeito...mas questiona-se - e parece-me que com toda a legitimidade- : como é que isto encaixa nos diversos" interesses"( para não ser deselegante ) associados ás transferências de jogadores - alguns de qualidade mais que duvidosa - estrangeiros? Não sei se me fiz entender com clareza...portanto há que olhar para os casos dos Andrés Silvas deste país - veja-se os casos das selecções sub-21 e dos muitos que ficando de fora teem igualmente potencial para lá estar - na posse de todos os elementos para se poder perceber algum extremar de posições...e faço notar que não tenho nada que ver com o jogador!Só mais uma achega: Siemman e Johanssen??!!Então e o Verdasca- só para citar um de um clube com enorme potencial na formação de jovens centrais ? Braima Candé ??! A quem se fez frete? É que a concretização efectiva da sua utilidade não justifica tais investimentos...pelo menos assim parece! A terminar: felicito uma vez mais o autor deste blog pela sua clarividência e assertividade na maioria dos comentários/opiniões aqui emitidas.... sudações portistas e bom dia para todos! JDuarte

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  5. Nem sempre é obrigatório serem melhores do que os que estão por cá.
    Se forem do nível do Ivo e do Gonçalo podem vir quantos formos capazes de trazer.

    E depois mesmo sendo da casa, para a equipa B, só deve ir, quem tiver depois de analise, potencial ,para pelo menos, a nossa 1ª divisão. Abaixo disto nada.

    Há de facto no nosso futebol juvenil um lote de miúdos prometedores o que revela trabalho positivo mas atenção, nada de criar expectativas demasiado altas para todos...

    E no 1º ano do reaparecimento das equipas B, foi preciso trazer jovens estrangeiros " a mais" porque não havia quantidade e qualidade suficiente, para disputar a Liga de Honra com alguma segurança.

    E já agora o Sebá, o Vitor (defesa esquerdo) e o Seri não eram nada piores que muitos dos que já eram nossos.

    .

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  6. Muito boa crónica, nada a apontar, mais uma vez, excelente avaliação e explicação.

    Abraços

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  7. É uma excelente notícia. Contudo podemos ter a casa blindande, mas esta está num caus.

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  8. Será a equipa técnica do PORTO B a ideal para jogadores como IVO, PACIÊNCIA, MIKEL,TOMAS, A.SILVA etc. ?? Gostava duma resposta/análise do TdD

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