sábado, 27 de setembro de 2014

Soluções e problemas para Lopetegui rever

Nós últimos 10 títulos de campeão do FC Porto, só por duas vezes venceu em Alvalade (uma com Co Adriaanse, com o célebre golo de Jorginho, outra com Jesualdo, por 2-1 em 2008). Portanto, quando fazendo as contas para o título, um empate em Alvalade não é o problema. Empatar com o Boavista é que é desastroso. Empatar em casa do Sporting, não sendo um resultado que satisfaz o FC Porto, não há-de ser o problema nas contas para o título, sobretudo à 6ª jornada.
Danilo desequilibrou
no ataque

Primeira parte miserável do FC Porto. Não há outra forma de adjectivar, mas sofrer um golo aos 2 minutos, num clássico de grande pressão psicológica, torna sempre tudo complicado. Na segunda parte, Óliver Torres mostrou porque é que Lopetegui batalhou tanto para ter emprestado o menino que, se bem me recordo, os adeptos não queriam, porque se recusavam a valorizar jogadores para o Atlético. Meus caros, o Óliver é que está a valorizar o FC Porto.

Depois do remate do Capel à trave que até dá direito a manchete, o FC Porto tem 3 grandes ocasiões para ganhar o jogo: o remate do Herrera (que não é um jogador de ir do 8 ao 80 de um jogo para o outro, é um jogador que vai do 8 ao 800 no mesmo jogo), o penalty que fica por marcar por corte com o braço do Maurício (e devida expulsão) e o pecado de Tello, que define mal e é o motivo que levou a que não se afirmasse no Barcelona.

6 pontos perdidos em 3 jornadas, apesar das circunstâncias, é muito. É extremamente importante não desperdiçar mais pontos até ao clássico com o Benfica (o jogo de ontem mostrou que tanto Sporting como FC Porto não têm um sistema tão rotinado e assimilado como o rival - não é um problema de qualidade, mas de manter as mesmas rotinas e intensidade ao longo do jogo), ainda que venha aí uma série de jogos difíceis, já a começar com a receção a um Braga com sangue na guelra. E pelo meio já há Champions. 





Centrais (+) - Não foi pela ausência de Maicon que o FC Porto não ganhou. Indi esteve imperial, mesmo contra um ponta-de-lança que não é fácil de marcar e jogando no lado oposto. Marcano cumpriu, sempre sereno e de cabeça levantada, mas tem que melhorar no lançamento longo - não houve um passe dele que os alas tivessem conseguido recolher. Ainda na defesa, Danilo sentiu dificuldades na primeira parte, mas subiu de rendimento na segunda e criou o lance do jogo.
Quem está a valorizar quem

Banco bom (+/-) - De Óliver já não há muito a dizer: é titularíssimo no FC Porto e um jogador influente em todos os momentos do jogo. Tem que jogar, pois faz a equipa jogar como ninguém. Além de ser uma carraça a pressionar e a defender (coisa que falta a muito jovens portugueses), tem objectividade, tem visão de jogo e sabe desequilibrar ora em passe, ora em drible. Perfeito. Quanto a Tello, tem uma velocidade vertiginosa e com a mais simples finta consegue passar com a maior facilidade pelos adversários. Mas não define bem, a crítica que já é feita desde o início da época. Consegue fazê-lo melhor do que Quaresma, mas o seu raciocínio não acompanha a sua velocidade. E para mim, o pior nem foi o remate no minuto 92: foi o lance em que pode ir isolado para a grande área e decide atirar-se para o chão. Não sei se isto é resultado de uma época de treinos com Neymar, mas que não se repita a infeliz brincadeira.

Outros destaques (+) - Brahimi tentou. Muitas vezes individualmente, mas tentou. Consegue arrastar marcações, e com os seus movimentos interiores consegue ora orientar-se para a baliza, ora criar espaço para soltar a bola (capacidade que os outros extremos do FC Porto não têm, pelo menos a nível tão claro). Tem que se mais espotâneo a rematar quando faz a diagonal. Já Diego Reyes entrou bem na posição de trinco, que fez durante toda a formação, embora como sénior tenha passado para central. Com a lesão de Casemiro, Lopetegui terá que escolher Rúben Neves, Campaña  ou... Reyes. Mas os dois últimos não podem ir à Ucrânia, abrindo-se uma vaga para um jogador da lista B. Podstawski é mais fácil de pronunciar para os lados de Leste, não?





Em noite não
O miolo de Lopetegui (-) - Lopetegui voltou a juntar Casemiro, Rúben Neves e Herrera no meio-campo e os problemas repetiram-se. Sou adepto da rotação, mas só quando essa rotação é feita entre ideias que funcionam. Há que lembrar que foi assim que o FC Porto ganhou em Lille, mérito para isso. Mas Rúben ficou logo intranquilo com o golo do Sporting, Casemiro andou com as voltas trocadas com João Mário e Herrera, apesar de ser um poço incansável de energia, tem pouco critério a nível ofensivo. Resultado: este meio-campo não só não faz funcionar a equipa como não dá nada ao ataque. Nada. Brahimi tentou mudar isso na primeira parte, Óliver conseguiu fazê-lo na segunda. Com a lesão de Casemiro, o meio-campo vai ter forçosamente que mudar, mas seja quem for o homem mais recuado, Rúben e Herrera não podem ser os complementos.

Em noite não (-) - Que se passou, Alex? Absolutamente irreconhecível. Física e tacticamente, teve muitas dificuldades contra os extremos do Sporting.  Vai voltar a ser titular na Ucrânia, por isso é bom que tenha sido apenas uma noite má. A titularidade de Quaresma podia ter sido uma boa aposta, mas tudo saiu furado: tirou 2 cruzamentos e nada mais. E Jackson, aquele lance, a abrir a segunda parte, tem que dar golo. A primeira parte não censuro, pois não houve quem lhe desse a bola. E assim era difícil aproveitar as fragilidades da defesa do Sporting.





- Pinto da Costa dá hoje, às 20h15m, uma entrevista ao Porto Canal, onde vai abordar os temas quentes da actualidade. Depois faremos o devido balanço.

- Começa a profecção da desgraça: os fundos de transferências vão acabar e o futebol português vai perder toda a competitividade. E repetir-se-á isto enquanto não perceberem que tanto FC Porto como Benfica e Sporting já praticaram formas de financiamento alternativas, também com fundos de transferências, e vão poder continuar a fazê-lo. Um tema para mais tarde.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Caso João Moutinho para totós (e para quem quer fazer dos outros totós)


Abrir os sites desportivos, por esta altura, quase leva a crer que o Sporting x FC Porto de sexta-feira já tem vencedor. Mas não, o Sporting anunciou uma vitória junto da CA da Liga - uma decisão que curiosamente foi anunciada pelo Sporting, não pela CA. Mas quando nos lembramos que o Sporting votou na continuidade de Mário Figueiredo e que o presidente da CA da Liga, Armando Triunfante, declarou nula a reunião do G-18, em Fevereiro, para demitir Mário Figueiredo, o puzzle fica mais simples de encaixar. Adiante, fala-se numa «vitória» do Sporting.


Os adeptos do clube que demorou 6 anos para pagar Hélder Postiga ao FC Porto rejubilam. «Uma vitória», diz a imprensa. Afinal, o FC Porto vai ter que pagar a comissão que estava a ser deduzida. Mas cá vai uma perguntinha: porque é que não é notícia que o FC Porto ganhou o diferendo com o Sporting quanto ao mecanismo de solidariedade FIFA? Ups. Pois é, parece estar tudo entusiasmado com a vitória do Sporting na CA. E porque não falar da vitória do FC Porto no mesmo processo? O 1-0 para o Sporting, afinal, parece que no máximo é um 1-1.

O que está em causa é simples. O FC Porto explorou o facto da definição de «mais valia» ser ambígua. O acordo para a transferência com o Sporting convidava a duas interpretações, o FC Porto puxou pela que lhe convinha. Qual é o clube que não tenta defender ao máximo os seus interesses?

Portanto, o FC Porto disse que só tinha a pagar 2,841 milhões de euros. Estava aqui a descontar uma percentagem pelos direitos de formação e pelos serviços do agente. Nunca antes as mais-valias, salvo acordo prévio, permitiam que as despesas com terceiros fossem «abatidas». Estou em crer que a própria SAD do FC Porto sabia disso, mas tentou aproveitar a ambiguidade do termo «mais valia». Como Portugal é um país onde as pessoas passam na rua e não apanham notas de 20 euros quando as veem no chão, ou se apanham entregam nos perdidos e achados, certamente que haverá puristas chocados com isto.

Ora então, o que é notícia hoje é que o FC Porto vai ter que pagar 650 mil euros ao Sporting, que vão perfazer os 3,5 milhões da tal mais valia de 25% acima dos 11 milhões da transferência da maçã podre, que em três épocas de FC Porto ganhou tantos títulos de campeão como o Sporting em 34 anos e tantos títulos europeus como o Sporting em 108 anos de história. E faz-se a festa em Alvalade, porque afinal o FC Porto vai ter que pagar os 3,5 milhões na íntegra. Mas esperem lá...

Mau. Então o Sporting, que afinal exigia 4,039 milhões ao FC Porto, obteve uma vitória no CA porque afinal vai ter direito a mais 650 mil euros (a comissão deduzida da Gestifute), e não a mais 1,197 milhões como era exigido no relatório e contas? Eu compreendo que, enquanto portista, estou mais habituado a festejar do que os outros e que quem tem menos tem que encontrar felicidade nisso. Mas é impressão minha ou o FC Porto não vai ter que pagar os 547,047 mil euros que o Sporting exigia de direitos de formação do João Moutinho? 

Touché. Vitória para o FC Porto no caso João Moutinho, que não vai ter que pagar a totalidade dos 4,039 milhões de euros que o Sporting exigia. E no final do comunicado da SAD, num parágrafo discreto lá para baixo, o Sporting lá anuncia que não obteve razão no caso dos direitos de formação e que vai avançar para recurso. Quanto aos 650 mil euros da comissão de Jorge Mendes, bom proveito. Com jeitinho, dá para pagar meio ano de salário do Miguel Lopes. Não tens que agradecer, Miguel.

E como esta é uma vitória para o FC Porto, na véspera do clássico com o Sporting, tomo a liberdade de editar a página do jornal Record para uma versão mais factual e verdadeira.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A obrigação de ganhar em Alvalade

Mister,

Há uma frase, menos repetida nos últimos tempos, que diz que «no FC Porto qualquer treinador é campeão». Há poucas coisas que deteste mais do que essa frase. Ser treinador do FC Porto é o trabalho mais difícil e exigente do mundo. Por isso, prefiro sempre citar Vítor Pereira: «Não há quem resista no FC Porto sem competência». E o próprio Vítor Pereira é um exemplo de que às vezes nem a competência chega para resistir no FC Porto.

Sexta-feira temos visita a Alvalade. O primeiro clássico da era Lopetegui. E provavelmente o mister já ouviu coisas do género «o FC Porto está obrigado a ganhar em Alvalade». Não está.

A diferença entre
receber e conquistar
Nos últimos 7 jogos em Alvalade o FC Porto não ganhou nenhum. O Sporting, a jogar em casa, tem sido sempre o adversário mais difícil. Basta recuar até ao passado recente, em 2009-10. Nuno Espírito Santo tinha acabado de criar o «Somos Porto» e o Braga levou 5 no dia seguinte. Na jornada seguinte, o FC Porto perdeu 3-0 em Alvalade.

Nem a super-equipa de Villas-Boas, que tinha alguns dos melhores do Mundo e que conquistou Dublin, conseguiu ganhar em Alvalade. O Sporting, desde o último título, nunca teve um plantel melhor do que o FC Porto e esta época, sobretudo esta, não é excepção. Mas revelam-se sempre um osso duro de roer a jogar em casa.

Não são um bicho-papão, como não é nenhum clube que nos últimos 32 anos só ganhou mais um título de campeão do que o Boavista. Boavista esse que conseguiu pontuar no Dragão, contra todas as expectativas, o que serve de aviso. Determinação e confiança sim, arrogância e favas contadas não.

O mito de que o FC Porto tinha que ser campeão porque estava a fazer um investimento sem paralelo já caiu, pois o investimento do Benfica é semelhante em termos orçamentais. Por isso, viraram a agulha: o FC Porto está obrigado a ser campeão porque tem o melhor plantel e porque fizeram as vontadinhas todas a Lopetegui. Ora, escrevi acima que há poucas coisas que deteste mais do que a frase «no FC Porto qualquer treinador é campeão». Esta é uma delas: desvalorizar o que Lopetegui tem feito.

Lopetegui não teve nenhuma papinha feita no FC Porto, foi ele a cozinhá-la! Dos iniciados aos juniores, da equipa B ao Padroense, não houve nada em termos de organização e formação no clube que não tenha esmiuçado. Interferiu, apresentou alternativas, criticou construtivamente. 

Durante o mercado de transferências, podia ter feito o mail fácil: pedir X jogadores para Y posições e ficar em casa, de perna cruzada, à espera que o telefone tocasse com boas notícias. Mas não. Lopetegui não é só um treinador, é um manager. Envolveu-se no dia-a-dia da SAD como se de um dirigente se tratasse. Fez telefonemas, viagens, persuadiu jogadores que em condições normais não aceitariam a liga portuguesa com tanta facilidade. Porque o FC Porto é sempre uma tentação, mas a Liga portuguesa, com estádios com 1000 espectadores e anti-jogo constante, não é.

A estrutura, que como é óbvio manteve autonomia na sua gestão em termos de mercado, teve alguns méritos, sobretudo a contratação de Brahimi. Mas Lopetegui foi a grande revelação do defeso. Pinto da Costa delegou-lhe mais competências e responsabilidades do que a qualquer outro treinador precisamente porque viu algo que se destacava acima de todos os outros.
Obrigatório é fazer
as coisas bem

Em resposta à pior época do FC Porto, Pinto da Costa deposita em Lopetegui uma confiança que talvez só Pedroto teve. É o homem forte do homem mais forte do futebol português. E isso diz tudo. E precisamente por perceberem esta equação simples é que Lopetegui se está a tornar num alvo tão apetecível. Há uma sede danada para bater no treinador, tentar atacar logo com as primeiras críticas. Coisa que já era esperada, mas vinda de fora.

A crítica mais recente é a rotatividade. Se bem me lembro, os portistas andavam a suspirar por um tridente Brahimi-Tello-Jackson na frente. Feito. E não queriam que Casemiro, Rúben Neves e Herrera voltassem a ser titulares em conjunto. Feito. As apostas em Andrés Fernández e Marcano contra o Boavista? Perfeitas. 

Imaginem que Marcano ia agora fazer a sua estreia em Alvalade. Ter como primeiro jogo um clássico de grande dificuldade para o FC Porto iria representar uma pressão enorme para um jogador que nunca tinha jogado num grande clube. Assim, Marcano vai a Alvalade já com uma confiança acrescida, pois foi dos melhores contra o Boavista. Lopetegui está a ganhar jogadores para o futuro de uma época que será longa, lançando-os aos poucos no presente. Onde está algo de errado nisto, não sei. É este o plano desde o início da pré-temporada. Por isso é que Lopetegui quis e ajudou a construir um plantel com 2 jogadores por posição, altamente competitivo. Problema era se as coisas não estivessem a seguir o curso planeado.

Lopetegui não teve nada de mão beijada: conquistou-o. Tal como teve que conquistar o apoio neste espaço e agora o recebe de forma convicta e permanente. Não, não exigimos uma vitória em Alvalade, porque no futebol não se pode exigir ou prometer nada - palavra do presidente - sobretudo num contexto difícil como este clássico.

O que se exige é uma equipa de 11 guerreiros, que saiba o que fazer com e sem bola, que saiba explorar múltiplas soluções para tentar atacar o Sporting. Foi uma das promessas de Lopetegui, «vamos encontrar soluções para todas as situações do jogo». Por isso, explore-se mais o jogo interior, mister. Se fizermos bem a nossa parte, estaremos mais perto da vitória.

Não exijo a vitória. Mas exijo que a equipa dê tudo para o conseguir. Por outras palavras, confiança nos jogadores e confiança em Lopetegui. As malapatas são para ser quebradas, a confiança no FC Porto não. Sobretudo no FC Porto de Lopetegui.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A goleada ao BATE não é a única coisa pré-histórica

Tudo o que podia correr mal, correu. Coisas que não se podem evitar (o dilúvio e a pressão da equipa pequena e dos delegados da liga para que houvesse jogo), coisas que se podiam evitar (a entrada de Maicon é imprudente e pôs-se a jeito), coisas que deviam ter sido mais bem feitas (a exibição e gestão dos momentos do jogo).

Começando pela escolha do 11, a rotatividade do plantel que já dá que falar. Mister, isto das rotações, como já deve ter percebido, vai ser assim: enquanto a equipa ganhar, o mister vai ser o maior, aplaudido, elogiado, porque dá oportunidades a todos, por não haver titulares obriga todos os jogadores a trabalharem no limite e não há conformismos; se correr mal, como hoje, à primeira oportunidade vão cair-lhe em cima, porque não deixa a equipa ganhar uma base, rotinas e não há continuidade. A coisa vai ser mais ou menos assim.

Rotatividade: uma
falsa questão
O Andrés não teve trabalho nenhum na baliza e o Marcano foi o melhor do FC Porto. Se houve problema foi nas substituições, não na equipa titular, por isso falar num problema de rotatividade hoje não faz o menor sentido . Mas não conte com o bom senso de todos, mister. E não só da opinião pública. Rúben ou Casemiro? Tello ou Quaresma? Evandro ou Quintero? Isto já não é um problema da rotatividade, é uma discussão que vai existir sempre, seja qual for o 11. Não importa se é A ou B. Quando o FC Porto ganhar, Lopetegui vai ser aplaudido pelo que optou; quando não ganhar, vai ser criticado por aquilo que não escolheu. A coerência é uma coisa maravilhosa.

As substituições sim, já podem dar que falar. Percebo as alterações de Lopetegui. Não concordo, mas percebo. A entrada de Casemiro visava ter um jogador capaz de baixar para central enquanto servia de primeiro construtor, coisa que Marcano não consegue e num dia em que Rúben Neves, pela primeira vez, pareceu ter mesmo 17 anos. A entrada de Quaresma, a única das 3 que subscrevo, visava dar largura a uma equipa que estava a afunilar, e fê-lo bem, pois mesmo só estando 20 minutos em campo foi o jogador que mais cruzamentos fez (não havia, infelizmente, ninguém para os finalizar - Jackson não dá para tudo). E por fim a entrada de Ádrian, um jogador para dar largura na ala enquanto garantia um finalizador no segundo poste (ou pelo menos era essa intenção, pois nada disso aconteceu). Percebo, mas não concordo. 

O relvado ameaçava ser o problema, mas no decorrer do jogo parou de chover e a terra absorveu bem a chuva. O problema passou a ser a) a inferioridade numérica, b) a incrível dificuldade do FC Porto no início de construção (novamente, chegamos a perder 45 segundos só numa jogada a trocar a bola entre os defesas), c) não há uma mínima capacidade de meia-distância e só 25% dos remates foram à baliza (3 de Jackson e 2 de Brahimi, mais nenhum jogador rematou à baliza).

Por isso, quando amanhã abrirmos os jornais e lermos os destaques de que o FC Porto bateu o recorde de posse de bola (82%), o que vou ler não é algo positivo, mas negativo: uma equipa que tem tanta bola tinha obrigação de criar mais situações de finalização, de rematar mais à baliza. Claro tivemos oportunidades para marcar, mas como disse no início da época, «não vamos poder contar sempre com a pontaria de Jackson». Alguém tinha que aparecer e não apareceu. Podia ter sido Aboubakar? Podia... Mas Lopetegui terá entendido que fazer chuveirinhos contra uma equipa que estava enfiada na grande área não iria funcionar. A tal história: podemos perceber, mas não necessariamente concordar. E há uma linha ténue a separar a convicção da teimosia. 

Jackson não dá
para tudo
Ao fim de 20 minutos, comentava com um amigo que o FC Porto estava a jogar com um a menos. Isto porque o Boavista estava completamente resguardado e o FC Porto mantinha 2 centrais. Um não era necessário na saída de bola e o jogador que «sobrava» podia aproximar-se de Jackson, permitindo assim que o ponta-de-lança não tivesse que baixar tanto (Evandro hoje não conseguiu fazer a ligação). Ironicamente, veio a expulsão de Maicon, que obrigou a que baixasse o tal jogador para junto de Marcano na transição defensiva e que fosse depois o primeiro construtor.

Na expulsão de Maicon, o problema da discórdia não está na entrada. Foi imprudente e efectivamente atingiu o adversário, e se eu visse um jogador do FC Porto sofrer uma entrada daquelas era o primeiro a levantar-me (quem disser o contrário é pura hipocrisia). O problema está sempre na questão «e se fosse outro jogador a ter aquela entrada?», «E aquela entrada que foi igual e não deu cartão»?, etc. etc. Maicon estava a ser, a par de Brahimi e Jackson, um jogador de top 3 do FC Porto no início de época. A expulsão veio na pior altura.

O FC Porto teve as suas oportunidades, e Lopetegui fez questão de o dizer. Como foi dito, percebo, mas não concordo. O FC Porto não teve oportunidades suficientes. Se tivesse tido, teria ganho. Porque mesmo a jogar com 10, o Boavista é a pior equipa a nível técnico da liga, tão má que nem contra-atacar sabe. Tão má e tão pouco ambiciosa quem nem explorar o contra-ataque ou as bolas paradas quis. Não foi bom, e em 2 jornadas são 4 pontos perdidos.

Digo-o desde o início da época: vai ser uma corrida a 3 até ao fim e não há campeões em Abril, nem há passeio para ninguém. Continuo a achar o Benfica o mais forte rival na luta pelo título (o único jogador nuclear que perderam foi Garay, e quem quiser que coma a história de que estão enfraquecidos), mas as deslocações a Alvalade são sempre complicadas. Tanto que nem ao Sporting de Godinho Lopes ganhámos em Lisboa, e eles estavam bem pior do que são hoje. Nem com Vítor Pereira e Villas-Boas lá vencemos. Na sexta-feira, é necessário inverter a história. Lopetegui tem armas para isso, e mister, não é só a goleada ao BATE que já é pré-história.





Iván Marcano (+) - Uma bela surpresa. É certo que o Boavista pouco atacou, mas Marcano teve uma missão ingrata. Teve que lidar com a expulsão de Maicon, improvisar uma dupla de centrais com o médio-defensivo, e cometeu apenas uma falta no seu jogo de estreia no FC Porto. Raramente falhou um passe ou um corte. Está apto para fazer dupla com Indi em Alvalade - se jogarem dois centrais destros é perfeitamente normal, não sei em que universo pode ser um problema a dupla ser canhota.

Jackson Martínez (+) - Sim, hoje não teve a pontaria afinada. E não é obrigado a tê-lo em todos os jogos, pois nenhum ponta-de-lança o tem. Mas hoje viu-se um Jackson a fazer o trabalho sujo com nunca. Vimos Jackson fazer um sprint de 70 metros só para tentar apanhar um extremo do Boavista. Andou pelo chão, usou o corpo, gritou, meteu o pé, deu tudo em campo. No meio de tanto trabalho, merecia que hoje alguém resolvesse por ele. Uma nota elogiosa para Danilo e Ángel, que fizeram quilómetros para dar ao ataque aquilo que o meio-campo nunca conseguiu.





Falta definir (-) - Tello é um jogador veloz, com grande capacidade de drible curto. Mas aqui como em Barcelona, peca por não saber definir os lances da melhor maneira. Quando aborda o 1 para 1, Tello ainda não sabe o que vai fazer. Por norma isto é bom, pois diz muito da imprevisibilidade de um jogador, mas no caso de Tello é tão imprevisível que muitas vezes não sai passe nem remate. Tem que definir melhor, Tello. Nota para Brahimi, que apesar de ter tentado remar contra a maré, tem que aprender a soltar mais a bola, sobretudo quando já está cansado. Tem a ânsia dos craques, de querer resolver, mas de certeza que aos 80 minutos não tem a mesma capacidade física que aos 10. Não é uma crítica negativa, mas sim uma indicação para que aprenda a gerir a sua própria qualidade.

Brahimi: aprender
a jogar cansado
Dinâmica (-) - Quando as equipas jogam com 10 unidades, há tendência para afunilar muito o jogo. Os jogadores sentem-se assim mais próximos, com mais linhas de passe e apoio, e menos distantes na baliza. Mas contra uma equipa que defende como o Boavista, é preciso sobretudo manter as linhas abertas, nos dois flancos. Infelizmente, jogando com 10 o FC Porto não soube contrariar isso, algo que Lopetegui deveria ter explorado melhor. Quaresma, mesmo não sendo decisivo, conseguiu dar largura ao flanco. Resultado? Foi o jogador que mais cruzamentos fez. Infelizmente, a grande área é grande demais quando só há Jackson. Lopetegui quis que Ádrian aparecesse, mas não resultou.

Outros aspectos (-) - Dois livres directos de Rúben Neves, dois lances em que a bola foi para o segundo poste, dois lances em que todos os jogadores atacaram ao primeiro poste. Alguma coisa correu mal. Ou Rúben Neves bateu mal os dois livres, ou os jogadores não se movimentaram da melhor forma. Mister, sabe o que fazia o Costinha há uns anos no FC Porto? Deixava que toda a gente fosse para onde quisesse. Mas o segundo poste era sempre dele. Mister, tem que descobrir o seu Costinha. Porque mesmo que queira que batam as bolas para o primeiro poste, às vezes há-de sobrar uma para o segundo. E assim se ganha um jogo. E por favor, meta o Herrera e companhia a chutar à baliza, à entrada da grande área. O FC Porto quase não tem proveito na meia-distância. E há que colocar o meio-campo a oferecer mais ao ataque, pois caso contrário os laterais vão sempre acabar os jogos rebentados, ao tentar dar ao ataque aquilo que os médios não oferecem. Aquele 4-2-4 diante do BATE não merecia tornar-se pré-histórico e em jogos como hoje daria jeito.

Por fim, o óbvio: não há melhor maneira de curar uma desilusão num derby do que com uma alegria num clássico. Trabalhem, em quantidade e qualidade, para isso, pois o campeonato pode ser longo, mas a margem de erro nem por isso. É que 4 pontos já são pré-históricos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ricardo, um projecto de sucessão na forja

A renovação com Ricardo é uma notícia que recebo com agrado e à qual respondo com uma pergunta: com que Ricardo renovou o FC Porto? Com o lateral ou com o extremo?

A resposta mais natural será com ambos. Ricardo ganhou o lugar no plantel do FC Porto sobretudo graças à sua polivalência. À partida, Opare seria a alternativa a Danilo, e quanto aos extremos Tello, Ádrian, Quaresma, Brahimi e até Quintero partiam à frente de Ricardo. Mas o menino com voz de desenho animado lá se agarrou ao plantel e foi convocado para 6 dos 7 primeiros jogos da época.

O segundo da era
Lopetegui a renovar
Além de todo o potencial que apresenta, Ricardo distingue-se por tudo aquilo que um jovem deve ser: humilde, trabalhador, empenhado, que encontra no banco não uma resignação mas sim uma motivação - não é qualquer um que, aos 20 anos, tem direito ao banco no FC Porto. E quem está no banco, está mais perto do que qualquer outro de saltar para dentro das 4 linhas. Ricardo percebe isso, e bem.

Ricardo custou 1,6 milhões de euros por 80% do passe. Os encargos adicionais foram de 100 mil euros. Na atribulada época com Paulo Fonseca, esteve em 21 jogos, 11 como titular, fez quatro posições ao longo da temporada, 2 golos e 2 assistências. Para um miúdo então como 19 anos, num contexto de FC Porto, foi um início promissor.

Na pré-época surgiu a possibilidade de ser emprestado, mas convenceu Lopetegui. Tanto que é o segundo jogador a renovar contrato na era Lopetegui. O outro, Jackson Martínez, é essencial. Ser Ricardo o segundo a renovar não é um acaso, é um sinal da aposta que pode ser feita num futuro próximo.

Ricardo tinha contrato até 2018. Renovou por mais um ano, viu a sua situação salarial melhorada e fica com uma cláusula de rescisão de 25 milhões de euros. Do actual plantel, há 5 jogadores com contratos que terminam em 2016: Fabiano, Alex Sandro, Danilo, Kelvin e Quaresma.

Fabiano também vai renovar em breve e é um caso fácil de resolver. Quaresma estará quase a cumprir 33 anos quando terminar o actual contrato, por isso nada indica que vá renovar. Kelvin é mais peça de museu do que um atleta no qual o FC Porto pareça disposto a apostar - não há espaço para ele no plantel de Lopetegui e oxalá possa ser emprestado em Janeiro, caso contrário, desde o minuto 92 a única coisa que conseguiu fazer foi deitar 18 meses da sua carreira ao lixo. 

Lateral ou extremo?
Por fim, Danilo e Alex Sandro. Os 2 laterais mais caros da história do futebol português e duas das poucas trutas que a SAD mantém a 100%. Renovar com cada um deles será caro, não só pelos salários que já auferem (dos mais altos do plantel), como pelas intermediações envolvidas, a avaliar por aquilo que foram os encargos adicionais quando foram contratados.

É cedo para perceber em que contexto financeiro estará a SAD em Maio/Junho, depois de ter sido conhecida a operação Euroantas. Mas uma coisa é certa: ou renovam até lá, ou saem no próximo Verão. Os empresários de Danilo e Alex Sandro raramente aparecem publicamente e toda ou qualquer renovação será tratada em sigilo, como foi o caso de Ricardo. No caso de Alex Sandro, há 2 meses o empresário surgiu no Record a dizer que ainda não havia contactos para renovar. Nada mais se ouviu desde então.

O FC Porto já tem o sucessor de Alex Sandro no plantel principal: José Ángel. Rafa, o melhor lateral-esquerdo do último Europeu de juniores, é suplente na equipa B de um extremo que nem gosta de jogar a lateral, o que diz tudo dos planos que há de imediato para o miúdo (e não vou acrescentar nem mais uma linha sobre André Silva, apesar de aparecer todos os dias alguém a perguntar por ele - depois do «Perguntem ao Queiroz», digo «Perguntem ao Luís Castro»).

Sobra Danilo. Opare foi uma contratação com pouco risco, mas vai ter que suar até ter uma oportunidade para jogar na equipa principal. E digo isto porque Opare já não é a alternativa a Danilo: é o terceiro para a posição, pois Ricardo passou-lhe à frente.

Juntos até quando?
É este o projecto para Ricardo: ser o sucessor de Danilo. Quando, não sabemos. Danilo regressou à selecção do Brasil, está num clube que adora, e tal como Alex Sandro terá que passar por um processo que, até ao Verão, será decidido pela renovação ou pela saída. Idealmente todos gostávamos que fosse a renovação, mas com ou sem Euroantas, vamos ter que abrir o viveiro no Verão, como sempre.

Até 2016, Ricardo não vai ter espaço para jogar a extremo. Tello pode regressar a Barcelona em 2015, mas para isso o Barça teria que perder algum dos seus atacantes, e mais depressa voltarão a apostar em Deulofeu do que em Tello. Brahimi deve ficar por mais 2 anos (em breve falaremos sobre a questão da recompra), Ádrian dependerá do rendimento ao longo da época, e Quaresma continuará enquanto aceitar que não é ele e mais 10, é ele entre 25 ou 26. E além de Quintero, há outros projectos interessantes a lançar nas alas, como Otávio, Ivo Rodrigues ou Pité (de quem não temos falado muito, mas que pode surpreender muita gente, embora infelizmente se tenha lesionado).

Ricardo pode ser então o futuro lateral-direito do FC Porto. Tem tudo o que um lateral precisa na preponderância ofensiva, mas claro que ainda há muito a aprender defensivamente. Felizmente, está num plantel onde pode aprender com o novo titular da selecção brasileira, com um treinador que sabe trabalhar jovens e com uma estrutura que acredita nele. Afinal, quantas vezes se vê o FC Porto renovar com um jogador que ainda tinha 4 anos de contrato?

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Bater em mortos ou no ceguinho?

Entendo. Entendo que queiram desvalorizar a goleada de hoje. Afinal, o BATE não é um colosso da dimensão do Vitória de Setúbal. E Brahimi pode ter marcado hoje 3 golos engraçados, mas ainda tem que comer papinha até ter estaleca para ser um Talisca. E golear por 6x0 na Liga dos Campeões é peanuts quando comparado com um 5x0 num batatal do campeonato nacional. 

E Brahimi levou
a bola para casa
O BATE é a única equipa europeia que é campeã há 8 anos seguidos. Enquanto o Sporting andava a jejuar da Champions, os pobres de Borisov por cá andavam, a roubar pontos a equipas como Zenit, Juventus, Milan e Bayern Munique. Sim, ganharam ao Bayern Munique campeão europeu. Mas isto ao pé do inferno de Maribor é brincadeira de criança.

Percebo que queiram desvalorizar os 6x0 ao BATE. Afinal, isto de perceber o que é a Liga dos Campeões e o quão difícil é chegar a estes números não está ao alcance de todos. Só Barcelona e Real Madrid foram mais vezes à Liga dos Campeões do que o FC Porto, logo talvez entendam o que está em causa um pouquinho melhor. Até já jogaram contra o BATE, mas mesmo tendo orçamentos e jogadores de dimensão muito superior ao FC Porto, no caso do Real ficou-se por um 2x0, enquanto o Barça ganhou por 4x0. O BATE só levou 6x0 no Dragão porque são uns tipos porreiros, está visto. É uma coincidência que só hoje tenhamos marcado mais golos do que em toda a época passada na Champions.

Adiante, coisas sérias e o óbvio: este vitória sobre o BATE vale tanto como a vitória em Viena de há um ano. Aliás, o ano passado valia mais, pois foi uma vitória fora de casa. É um importante início a ganhar na Champions, mas só vale 3 pontos. Os jogos com Shakhtar e Bilbao vão ser intensos, equilibrados e só o melhor FC Porto, à imagem de hoje, cumprirá os seus objectivos.

Em Portugal, reinará a descredibilização sobre este FC Porto. Quando ganhar, ou é porque o adversário é frágil, ou porque estão obrigado a ganhar por causa do «investimento que fizeram», o mito que será alimentado ao ritmo da conveniência, desfeito aqui ou aqui. Mas numa análise mais distante, há quem até já espere demais do FC Porto. Para quem vive em França, por exemplo, e seguiu a beIN Sports, Papin e Desailly, dois dos melhores jogadores franceses de sempre, diziam que este FC Porto é forte candidato a ganhar a Champions. Para já, preocupo-me em que sejamos candidatos a ganhar ao Boavista. E depois ao Sporting. E depois ao Shakhtar. E adiante.

O FC Porto de Lopetegui estava de facto a criar poucas ocasiões de golo. Tinha muita bola, mas pouco golo. Hoje tudo mudou. Lopetegui avançou com um 4-2-3-1 que se transformava em 4-2-4, que baralhou por completo um BATE que vinha preparado para defender. Claro que o golo madrugador de Brahimi simplificou as coisas, mas durante todo o jogo o FC Porto foi ultra competente em todos os momentos.

Uma das críticas (se é que se pode chamar crítica) que vinha sendo feita a Lopetegui é que estava a abusar da rotatividade no início de época. Não apenas quanto ao plantel, mas quanto ao modelo de jogo. O modelo vinha sendo sempre o mesmo, a dinâmica é que variava. Desta vez, correu na perfeição. E oxalá seja esta matriz e dinâmicas que Lopetegui vai utilizar nos jogos em casa, pois 90% das equipas que visitarem o dragão vão levar o autocarro. Casemiro, Herrera e Rúben Neves não podem coexistir no mesmo meio-campo.





Enfim, Ádrian!
Defesa (+) - Ao fim de 7 jogos, 630 minutos e mais uns quantos descontos de futebol, só conseguiram bater o FC Porto com um penalty. Fabiano tremeu hoje em 2 lances, mas tem cumprido e bem, e para isso muito tem contribuído o quarteto de excelência que tem à sua frente. Maicon está um monstro, no melhor sentido, e ninguém se lembra de Mangala. Encontrou em Indi um amigo para a vida, um parceiro para toda a época. Complementam-se na perfeição, sobretudo porque Maicon perdeu 5 quilos e está muito mais rápido e ágil. Danilo cruza cada vez melhor, é perfeito no apoio ao ataque e raramente deixa o corredor descoberto, além de continuar forte nos movimentos interiores; Alex Sandro está a recuperar a regularidade da primeira metade de 2012-13 (José Ángel obriga a isso!) e continua comandar o TGV pelo lado esquerdo. Aliado a tudo isto, uma equipa muito competente na transição defensiva. Melhor era difícil.

Brahimi (+) - Que mais se pode dizer? Os adeptos começam a vê-lo com aquele aperto de quem sabe que está a tornar-se grande de mais para o nosso campeonato. Está a ter uma ascensão apoteótica, mas muito graças ao FC Porto. Ele próprio o disse: é o clube ideal para crescer, para potenciar as qualidades que já tinha no Granada. Nota-se que se sente realizado como nunca no FC Porto. Não só é um jogador acima da dimensão da liga portuguesa como já resolveu 2 vezes na Champions, com 4 golos em 2 jogos no dragão. O plano da SAD passa por mantê-lo pelo menos 2 anos e oxalá que assim o seja, pois são estes jogadores que levam público ao estádio. Mais do que o drible, a capacidade de orientação para a baliza é fora do comum. Um conselho, Brahimi: leva caneleiras até ao joelho para Domingo, porque não vão ter outra forma de te parar que não seja à Petit. Ou à Boavista de Pacheco.

Do 8 ou 80 ao ritmo
da goleada
Dinâmica dá cara nova (+) - Colocar o tridente Brahimi, Ádrian e Quaresma nas costas de Jackson foi a melhor decisão possível de Lopetegui. No meio-campo, Casemiro é um excelente lançador, embora ainda algo lento na reação à perda da bola. Herrera esteve bem na variação de flancos e em oferecer e criar linhas de passe, mas tem que mais rápido a executar. Neste meio-campo, tem que ter a capacidade de saber o que vai fazer à bola antes de a receber, algo que Óliver já faz. Quaresma ainda tem o bichicho de sentir que tem sempre que fazer algo a nível individual em todos os lances, mas integrou-se bem na dinâmica da equipa. A forma como festejou o 3º golo de Brahimi e o de Ádrian mostram que está a aprender a integrar-se no espírito colectivo, o grupo em prol das individualidades. 

Ádrian fez o golo que faltava, na nova função que Lopetegui criou para o potenciar. E bem, pois não só soltou o jogador como melhorou a equipa. Jackson voltou a picar o ponto e ainda atirou 2 vezes aos ferros, mantendo-se na excelente forma de início de época. Por outro lado, nem 8 nem 80: faltou uma referência na zona central entre o meio-campo e o ataque em alguns momentos de construção, disfarçada quando Brahimi fazia os movimentos interiores. O FC Porto desta vez não afunilou tanto o seu jogo, mas sobretudo porque não tinha miolo para o fazer. Deu para abrir alas para a goleada, mas como diz Lopetegui, «há que criar soluções para todas as situações».

Banco de milhões (+) - Um luxo poder ir buscar ao banco Evandro, Tello e Aboubakar, enquanto se dá descanso a 3 titulares. Evandro tem a inteligência, maturidade e estofo que todo o meio-campo de um campeão necessita num jogador. É apto para qualquer momento do jogo, a qualquer ritmo. Tello é um Fórmula 1 que escolheu ser futebolista, que consegue agitar sempre o jogo, forte nas diagonais, e voltou a oferecer uma assistência. Aboubakar fez aquilo que lhe está no ADN: golos. Não só alternativa como é concorrência e sucessor para Jackson.





BATEr em quem? (-) - Lopetegui para a rua, Quaresma tem que jogar!! Ah, não pode ser. Ádrian é um flop de 11 milhões que não joga!! Ah, também não dá. Este FC Porto não joga futebol de ataque!! Ok, também não. É que nem para uns assobiinhos deu, mister. Isto não se faz. Impliquem com a chuva, porque hoje não dá para mais. Um grande FC Porto, do primeiro ao último minuto.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Dois pesos, duas medidas

Quem leu o post anterior, e muitos já o fizeram e não apreciaram, conheceu desde já a postura que tenho em relação à arbitragem: uns dias seremos prejudicados, outros beneficiados, e não tenciono andar com uma balança atrás ao longo da época.

Sou o primeiro a defender que apitar jogos pela TV é muito fácil e que os árbitros têm uma tarefa dificílima. E precisamente por defender isso, exijo sempre máximo rigor e profissionalismo aos profissionais da arbitragem. Até que o leitor «DA» chamou à atenção para o facto de ter sido Valter Rufo a acompanhar o ataque do FC Porto na segunda parte (julgava ter sido José Braga). Entretanto surgiu nas redes sociais o seguinte perfil do auxiliar no Facebook.


Tudo bem, os árbitros podem assumir a preferência clubística. O mais conhecido árbitro português, Pedro Proença, é um assumido benfiquista e muito detestado para os lados da Luz. Daí que até nem atribuiria grande importância a este like no Facebook (a esposa?, a avaliar pela quantidade de likes em páginas eróticas e registos em sites de namoriscos online, tem mais motivos para estar preocupada). Mas se há coisa que não aprecio, são dois pesos e duas medidas.


O rival Benfica, há um ano, reclamou em comunicado que o árbitro de andebol Rui Rodrigues era um assumido portista no Facebook. Vários jornais fizeram disso notícia e o tema até discutido em programas televisivos dedicados a futebol foi.

Ora muito bem, para o Guimarães x FC Porto, jogo de líderes que valia a liderança, foi nomeado não só um árbitro que está no último ano de carreira e que nunca foi internacional, como também um assistente assumidamente benfiquista.

«Onde fica, assim, a credibilidade da modalidade?»

domingo, 14 de setembro de 2014

Não podemos melhorar a arbitragem, mas podemos melhorar o nosso futebol

«O mais difícil foi marcar um golo válido que não contou. Os árbitros são humanos e podem errar, mas houve dois erros importantes. Na primeira parte houve um penalty claro sobre o Brahimi que ficou por assinalar. É futebol. Eu erro todos os dias e eles também, mas espero que não errem mais», Julen Lopetegui.

Gosto demasiado de futebol para dedicar tempo de antena à arbitragem, demasiado para deixar que um campo tão polémico e subjectivo me estrague esse prazer. Tanto que nos primeiros cinco jogos da época não houve uma linha dedicada aos senhores das bandeiras e dos apitos. Hoje, por força das circunstâncias no empate 1x1 em Guimarães, a arbitragem vai ser tema, mas com uma abordagem que não vai ao encontro do quase sempre indissociável fanatismo.
José Braga em foco negativo

A memória no futebol é selectiva. Nenhum adepto gosta de nenhum árbitro. Todos se recordam de algum erro para apontar seja a que árbitro ou auxiliar for. Todos se recordam dos lances em que foram prejudicados, mas poucos se lembram quando foram beneficiados.

O erro faz parte do futebol, sobretudo na arbitragem. Uns dias há benefícios, outros nos prejuízos. Então entra a questão «mas uns são mais prejudicados do que outros». Tudo bem. Perguntem a um benfiquista quem é o mais prejudicado e ele responderá Benfica. Perguntem a um sportinguista e ele dirá que o Sporting. Perguntem a um portista e a resposta será o FC Porto. É, sempre foi e sempre será assim. É exactamente como uma religião: a sua é que é a verdadeira, os outros estão só profundamente enganados.

Por isso, não contem com este espaço para fazer tabelas de penaltys, comparar o que se passa aqui e noutros jogos, esquecer o que realmente importa usando a arbitragem como desculpa. O FC Porto não pode melhorar a arbitragem, mas pode melhorar o seu futebol. Prefiro focar-me na segunda. Se os jogadores acreditarem que não ganharam por culpa do árbitro, há relaxamento. Mas se forem avisados que têm que estar preparados não só para bater os adversários como para superar más equipas de arbitragem, o estímulo competitivo é maior e assim se cria o tal grito de revolta. 

Os dois penaltys no empate são indiscutíveis, há falta nos 2 lances. Na primeira parte pareceu ter havido ainda uma mão na bola de um jogador do Guimarães, mas pela TV e com zoom, linhas e slow motion é fácil arbitrar. Não estou a defender Paulo Baptista (que é um fraco árbitro, mas hoje teve 2 dos piores auxiliares da liga a trabalhar consigo, José Braga e Valter Rufo - se quiserem criticar a arbitragem comecem por aqui), mas a constatar a realidade. Arbitrar um jogo é extremamente difícil. Por um centímetro se acerta, por um centímetro se erra.

Brahimi está em linha: aceito as duas decisões
Isto a propósito do golo mal anulado a Brahimi. Ouve-se que é um fora de jogo escandaloso. Não concordo. É impossível ser um erro escandaloso porque o jogador está em linha. É isso sim um lance extremamente difícil de avaliar. Brahimi está inclinado com o corpo para a frente, em velocidade, e o auxiliar está mal posicionado (a maior crítica está aqui). Aceito que tanto seja anulado como aceitaria se fosse golo. É difícil de ajuizar, está em linha, e em linha basta uma cabeça mais adiantada ou um tronco mais recuado para fazer a diferença. E ao olho humano, numa fracção de segundos, é absolutamente impossível ser infalível nestes lances.

Isto não é uma defesa à arbitragem, é uma visão sobre futebol vs. arbitragem. Na primeira parte há um erro técnico pior do que o golo anulado: Brahimi estava isolado, foi puxado e rematou para defesa de Douglas. Aqui sim, há um erro técnico: Brahimi é puxado e o defesa perturba-o na finalização. O jogador não precisa de cair, a sua acção foi perturbada. Ele não desistiu do lance, mas não tinha que o fazer, porque a lei da vantagem não se aplica ao penalty. Aqui há um erro técnico grave, pois não só seria penalty como expulsão. No fora de jogo, no qual Brahimi está em linha, não vejo escândalo nenhum, pois é um lance em que até com a imagem parada gera dúvidas. Aceito o erro, não como portista, mas como amante do futebol com bom senso e sem memória selectiva.

O problema, como diz Lopetegui, não é que tenham errado hoje. É temer que errem mais vezes. Oxalá que não voltem a errar, pois tal como na época passada é um jogo onde há erros de arbitragens (o erro existe, mas só é decifrável pela TV e são lances de difícil análise - logo aceito) que provoca a primeira perda de pontos. 

Concentremo-nos naquilo que podemos melhorar: no nosso futebol. Porque a arbitragem não podemos melhorar. Apenas contar com o erro: seja contra nós, seja a nosso favor. «Sempre preparados» implica que estejamos preparados para tudo e para todos. Literalmente, para todos.


Brahimi (+) - Os principais lances de perigo do FC Porto saíram todos dos pés dele. É fortíssimo dos movimentos interiores com bola, muito rápido a rodar sobre o opositor directo e está a procurar cada vez mais a baliza (quatro finalizações na grande área, um golo anulado no tal lance duvidoso). A inspiração dele disfarçou alguma apatia da equipa em alguns momentos do jogo e novamente com dificuldades em construir.

Laterais (+) - Lopetegui está a dar uma tarefa difícil aos laterais. Tendo em conta que em vez de extremos jogaram alas interiores (Brahimi e Quintero), os laterais estavam obrigados a ter cuidados com os extremos rápidos do Vit. Guimarães e simultaneamente a ter que ser eles a dar profundidade pelo corredor. É uma missão extremamente exigente. Danilo não esteve bem na primeira parte, mas na segunda empurrou a equipa para a frente em diversos lances. Ángel por vezes complica quando está pressionado e ainda depende muito do pontapé para a frente, mas no ataque surgiu muito solto, deu grande profundidade a Brahimi e acabou por ser um dos melhores no FC Porto.


Meio-campo (-) - O Tribunal do Dragão já tinha «pedido», nos últimos 2 jogos, a titularidade de Evandro. À 3ª ainda não foi de vez para Lopetegui, que certamente concordará que Casemiro, Rúben e Herrera no mesmo meio-campo reduz a capacidade criativa do FC Porto no miolo a quase nada. Herrera não está a conseguir ser nem meio 8, quanto mais o "8 e meio" que Lopetegui quer que seja. O mexicano continua com as mesmas virtudes e defeitos de há um ano. Há dias em que sai bem, outros em que sai mal - um jogador com esta instabilidade não pode ser nuclear. Rúben Neves joga melhor como primeiro construtor e não tem intensidade para jogar na posição 8. Casemiro é um bom lançador na primeira fase, mas é demasiado impetuoso na abordagem aos lances e não cobre bem a rectaguarda. Percebe-se porque é que Lopetegui coloca este meio-campo: pretendia que fossem Brahimi e Quintero a surgir entre linhas para dar criatividade. Mas novamente foi a entrada de Evandro que deu ordem, critério de passe e visão de jogo a toda a largura do meio-campo. Não é o jogador de quem os adeptos guardam pósteres ou compram camisolas, mas neste meio-campo é neste momento a melhor solução.

O desgaste ao adversário (-) - Num programa de debate de TV ouvi um elogio ao FC Porto: «É uma equipa muito inteligente, pois desgasta o adversário e depois cai em cima dele na segunda parte». Não consigo perceber o que há de positivo aqui. As segundas partes não servem apenas para ganhar os jogos, servem para tentar fazer o que não se conseguiu na primeira. O FC Porto tem que entrar forte nas primeiras partes, tentar marcar logo cedo. Nos 10 golos desta época, só 2 foram marcados na 1ª parte. São 4,5 horas de futebol onde o FC Porto, mesmo defendendo bem, só fez 2 golos, por Rúben Neves e Jackson. 

A primeira parte não deve ser dedicada ao desgaste do adversário: deve ser dedicada a sufocá-lo. Para quê tentar resolver em 45 minutos se o podemos fazer em 90? A gestão e circulação de posse de bola é positiva, mas só se for utilizada para criar ocasiões de golo. O FC Porto teve hoje uma mão cheia de ocasiões, mas tem que criar e produzir mais. Muito mais. Só Brahimi agitou o jogo na primeira parte. Jackson, mais uma vez, está sempre a ser obrigado a baixar, em vez de ser solicitado em cruzamentos, porque a bola não chega a zonas de finalização.

Com um relvado mau como o de hoje e contra uma equipa pressionante, torna-se ainda mais complicado apostar neste futebol de circulação. Este é o modelo de jogo de Lopetegui e vai continuar a ser, mas este modelo deve ser usado como meio e não como fim: se queremos ter mais bola, é para que possamos criar mais situações de finalização. Não pode voltar a acontecer uma primeira parte como a de hoje. Jogámos no campo do líder e de uma equipa cheia de qualidade, onde poucos vão vencer este ano, mas a história do «desgaste do adversário» é o pior que se possa dizer.





Factor Aboubakar - Colocar mais avançados em campo não significa deixar a equipa mais perto do golo. O FC Porto não estava a conseguir levar jogo à frente. Pelo contrário, as jogadas com mais perigo nasciam das descidas de Brahimi e Jackson. Para jogar com dois pontas-de-lança, o FC Porto tinha que estar com grande caudal ofensivo e o adversário recuado no seu meio-campo. O que não aconteceu. Logo, não me incomoda que Aboubakar só tenha entrado para os descontos. Porque o problema não estava na frente, mas sim no meio-campo.

Ala ou meio?
Quintero - Curiosa a reacção de Lopetegui na conferência de imprensa. Quando questionado «porquê colocá-lo na ala se ele rende mais no meio?», a resposta foi a melhor possível: «Porquê, ele sempre que joga no meio joga bem»? O problema de Quintero não é jogar no meio ou na ala, é a falta intensidade. Tem que ser mais rápido a movimentar-se e a executar. Tem uma grande qualidade de passe, mas é lento. Tem que soltar mais rapidamente a bola, fazê-la circular, procurar Jackson na grande área (o que hoje era difícil, pois tinha que estar sempre a baixar). A finta de Quintero é quase sempre o corte para dentro, por isso tem que variar mais o seu jogo, e acima de tudo querer aprender e melhorar.

Sacudir a poeira - O FC Porto de Villas-Boas também perdeu os primeiros pontos em Guimarães. Não pode haver desânimo. Não vamos levantar a cabeça por uma simples razão: a cabeça não chegou a baixar. Não quero um drama por 2 pontos perdidos, nem quero desculpas com a arbitragem: quero que Lopetegui e a equipa percebam onde erraram hoje e como podem melhorar já na quarta-feira, contra o BATE.

sábado, 13 de setembro de 2014

Uns vão gostar de ler isto. Outros não.

«(...) Falar é fácil, gerir é mais complicado. Mas podemos voltar aos idos da década de 70, que mesmo com dívidas éramos um clube honrado e simpático. Quem nos tem conduzido merece algum crédito»

Este comentário de um leitor d'O Tribunal do Dragão serve de retoma à análise sobre a intenção da SAD «adquirir» 50% da Euroantas, pelos motivos já enunciados aqui. As reacções recolhidas nos comentários dividem-se entre os que estão insatisfeitos com esta opção da SAD e outros que não querem saber dela, que mantêm a confiança em que gere a SAD e limitam-se a querer desfrutar do futebol. Estão no seu direito, claro.

O modelo de Pinto da Costa
O treinador treina, o jogador joga, o dirigente gere, o adepto apoia. A ordem lógica clubística é esta. Mas algumas pessoas, pasmem-se, gostam de discutir, debater, aprofundar. Há os jogadores de bancada, os treinadores de bancada e os dirigente de bancada. Há quem discuta se deve jogar o Quaresma ou o Adrián; há quem discuta se deve Lopetegui jogar em 4-3-3 ou 4-4-2; e há quem discuta se deve a SAD seguir um caminho ou outro. Uma coisa chata chamada opinião e espírito crítico, algo sem o qual o FC Porto não seria o que é hoje.

Quem lê este espaço, nas últimas semanas leu um acumular de elogios à gestão da SAD, nomeadamente na construção e gestão do plantel. Ontem, pela primeira vez em várias semanas, leu-se uma crítica acesa a uma decisão da SAD. Soltou-se o pânico. Onde estava escrita uma crítica, sempre divida entre opinião e números, houve quem quisesse ler um atestado de incompetência à SAD. Porque, sei lá, dá jeito descredibilizar um espaço como este, que oferece conteúdos com uma profundidade crítica e analítica que, perdoem a arrogância (são palavras de alguns leitores), talvez nem na imprensa encontrem. Porque de vez em quando sai um post como «E o Dragão paga a factura». Foi um acto de gestão da SAD que não apreciei, após semanas a defender a estrutura quando muitos a condenavam por estar em suposto «all-in».

Isto na sequência de vários comentários, alguns impublicáveis, que colocaram a questão da seguinte forma: «É melhor a operação Euroantas ou voltarmos aos tempos em que não ganhávamos nada?» Pára tudo! É isso que está em causa? Vamos voltar a aprofundar o tema, para quem não tem problemas de semântica e está vidrado em semiótica.

As críticas e o lado negativo do recurso da SAD à Euroantas já foram enumeradas no post anterior. Como disse, há o lado positivo. Curiosamente, aqueles que apoiam (muito poucos) esta operação não recorreram ao lado positivo, decidiram sim atacar, descredibilizar e desvalorizar quem, com duas coisas escandalosas chamadas sentido crítico e opinião, decidiu questionar a decisão da SAD. Se calhar, são os mesmos que acharam legítimo assobiar Lopetegui por ter metido o Ricardo e não o Quaresma. Haja coerência.

Regressamos ao ponto de partida, a Euroantas. Uma sociedade absolutamente exemplar do FC Porto, que cumpriu rigorosamente todos os seus compromissos até hoje. Alguns adeptos da teoria da conspiração acusavam que o FC Porto escondia um enorme passivo na Euroantas. Falso! Os números revelados recentemente apontam para cerca de 20 milhões de euros, um valor perfeitamente normal, pois o financiamento termina em 2018. Para se ter uma ideia, a Benfica Estádio deve 76,153 milhões de euros e o plano de pagamento já foi duas vezes reestruturado, agora até 2024, e tê-lo-á que ser novamente.

Aprofundando um pouco mais, a SAD vai adquirir 50% da Euroantas por cerca de 55 milhões de euros, através da compra de 8,6 milhões de acções a um preço nominal de pouco mais de 6 euros. O FC Porto, o clube, fica assim em condições de subscrever o aumento de capital (ninguém disse que era algo mau, pois só uma empresa solvente como a FC Porto SAD pode aumentar o capital). A principal crítica que aqui foi feita, além da natural desilusão por ter que se recorrer ao mais valioso activo do clube, é que esta gestão parece uma solução de recurso e não algo planeado. Se fosse planeado, previamente assumido, os sócios não teriam que levar com esta granada e talvez percebessem melhor os motivos - que a SAD ainda terá oportunidade para explicar e, esperamos todos, justificar.

Quem arrisca mais,
ganha mais
Importa recordar que a SAD era credora do clube em cerca de 15 milhões de euros, portanto esta operação será também uma retribuição de crédito. Na caixa de comentários, em resposta a um leitor que procura ver o lado positivo, fiz questão de acrescentar que indirectamente o FC Porto fica a controlar 80% da Euroantas, pois a sua participação na SAD sobe para os 60% (sendo que os 20% que surgem nesta operação não conferem direito de voto). O clube, com esta operação, deverá ficar sem dívidas com a SAD, algo que pode ser visto como positivo. Para quem quiser contrapor, é este o caminho que devem seguir - não tentar abafar quem oferece crítica construtiva, coisa tão raras por estas andanças. É este o lado positivo.

Mais concretamente, em resposta ao leitor que afirmava que «quem nos tem conduzido merece algum crédito». Deixe-me discordar: não merece algum crédito, merece todo o crédito. E isto significa o quê? Que a massa adepta perca o sentido crítico? Que deixe de refletir? Que os jogadores, treinadores e dirigentes de bancada desapareçam? Então para que servem espaços como os blogues, não é para expor opinião? Ou será que é para abafar quem a profere?

Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa está a cumprir o 13º mandato no clube e, n'O Tribunal do Dragão, merece incondicional apoio. Ver na crítica à operação Euroantas um ataque directo ao presidente só está ao alcance de quem está desejoso por rotular este espaço como sendo inimigo e desestabilizador. Não, apenas opinador. Uma opinião entre tantas outras, que nada muda, mas que gostamos de expressar.

Mais concretamente, a propósito da gestão de Pinto da Costa. Quem acompanhou o presidente nos últimos 30 anos sabe perfeitamente como é a sua forma de operar: no limite. O FC Porto não é um clube propriamente poupador. É um clube que recolhe com uma mão e bate com a outra. E porquê? Porque em Portugal o clube com o maior orçamento é por norma o campeão nacional. Nos últimos 12 anos foi quase sempre assim. Portanto não, ninguém quer que o FC Porto perca competitividade de um dia para o outro.

Se repararem, nas duas épocas imediatamente a seguir à conquista da Liga dos Campeões o FC Porto teve prejuízos em ambas. Mas desde então, só voltou a ter prejuízos em 2011-12 e vai voltar a ter esta época. O saldo de títulos está à vista. Se quiserem comparar, o rival Benfica vem de prejuízos sucessivos nos últimos 5 anos e acumulou 83 milhões de prejuízo nesse período (mesmo que o passivo tenha aumentado ainda mais). Não há comparação possível entre o que ganha um clube e o que ganha o outro.

O que distingue Benfica e FC Porto dos maiores clubes de Holanda, Bélgica, Polónia, Suíça, Áustria e outros, países com um PIB maior do que Portugal, é o investimento que fazem. Mas o investimento, se não tiver controlo, já não é apenas investimento, é endividamento descontrolado. A operação Euroantas indica que a SAD encontrou o seu limite. Esta época, 2014-15, é o limite para atacar de forma tão agressiva a nível financeiro, pois forçou-nos a recorrer ao trunfo que nunca esperámos (pelo menos não os adeptos) tirar do baralho.

Aproveito também para indicar o «problema», ou desafio, se preferirem. A operação Euroantas não tem nada que ver com o ataque ao mercado, com os negócios Adrián, Brahimi ou Indi, nada. Claro que se Jackson ou Mangala tivessem sido vendidos até 30 de Junho talvez a operação não fosse necessária, pelo menos para já, mas o problema não está nas transferências de jogadores (onde o FC Porto continua a ser fortíssimo, mesmo devendo reduzir as apostas em Caballeros e Quiñones - investimentos que só são maus porque não houve aposta neles; apostar e correr mal admite-se, não apostar sequer já não). O problema está na relação proveitos vs despesas operacionais.

Um modelo para durar, mas
sempre possível de melhorar
Pegando no último relatório e contas da SAD, o FC Porto teve proveitos de 56,18 milhões de euros após o terceiro semestre. Quanto às despesas operacionais, chegam aos 74,392 milhões de euros. Quer isto dizer que o FC Porto, sem contar com as transferências, acumulou mais de 18 milhões de prejuízo nas suas actividades correntes em 2013-14.

E agora perguntam: qual é a novidade disto? Nenhuma, e têm razão. Este é o modelo do FC Porto há anos: o risco. Gastamos mais do que podemos, mas depois compensamos com as transferências de jogadores. É necessário um encaixe nunca inferior a 40 milhões de euros para manter a máquina a funcionar. Foi este modelo que fez do FC Porto a equipa com mais títulos no século XXI, logo é normal que se continue a apostar nele. Mas, imagine-se a loucura, gostava de ver um equilíbrio maior entre os gastos e as receitas operacionais.

O FC Porto gastou 39,39 milhões de euros com pessoal nos primeiros 9 meses. Menos do que o Benfica, é certo, e em Portugal já se sabe que quem paga mais está sempre mais perto das vitórias. Não é mito, é mesmo facto. O Benfica teve os seus dois maiores orçamentos de sempre em 2009-10 e 2013-14 e foi campeão nesses anos. Nos restantes anos, o FC Porto investiu sempre mais e foi sempre campeão, ainda que em 2011-12 e 2012-13 se tenha registado algum equilíbrio nos números, pois o Benfica percebeu que só podia competir com o FC Porto igualando a estratégia: investir mais. O Sporting acredita que pode fazê-lo gastando menos de metade e cá estaremos para ver - não me esqueci de si, Bruno, tenciono responder-lhe a 26 de Setembro.

Os custos com pessoal tiveram um peso de 53% até ao terceiro trimestre, mas não é o dado mais questionável. O fornecimentos e serviços externos, que não são descriminados e como tal não posso comentar com profundidade, tiveram um peso de 43%, de 31,672 milhões de euros. Certo, já sabemos que quem investe mais no plantel é mais bem sucedido. Mas isso também é aplicável aos serviços externos? Será mesmo necessário investir tanto nesta rubrica? 

Pinto da Costa não vai mudar, vai continuar a gerir o clube com agressividade, como sempre o fez. Não há legitimidade para condenar este modelo, pois foi com ele que o FC Porto passou de clube regional e um dos maiores do mundo. Mas dentro da gestão, há várias decisões a tomar. E eu concordo com a gestão, mas não tenho que concordar com todas as decisões dentro dessa mesma gestão. Tal como se calhar uns gostariam de ver jogar o Quaresma, mas outros preferem o Adrián. Partilhamos todos a mesma paixão, mas não temos que partilhar todas as ideias.

Longa vida ao FC Porto e a Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, e essa vida não se esgota em maio de 2015. Olhamos mais além, porque «já cá não está a viver, o Porto sem horizonte».

PS: Encerro com o título: uns gostaram de ler isto, outros não. Quanto a mim, uma vez mais, deu-me gozo escrever. E espero no Domingo estar novamente a escrever, desta vez sobre uma vitória do FC Porto.

PS1: Os números do negócio Otávio surgem finalmente: 3,25 milhões de euros por 50% do passe. Um investimento a médio prazo que terá, a seu tempo, a oportunidade de corresponder ao investimento, assim o desejamos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Yes we CAN

A CAN chama por ele
Opare ainda não saiu do departamento médico, Brahimi já caiu nas boas graças dos adeptos e Aboubakar está a deixar água na boca pelo que fez recentemente na selecção dos Camarões (três importantes e bons golos numa semana). Os três africanos do plantel começaram a época com diferentes graus de aproveitamento, mas todos com algo em comum: o FC Porto vai ter que «sobreviver» sem eles durante uns tempos.

Brahimi (Argélia) e Aboubakar (Camarões) vão certamente ser chamados à CAN'2015. São titularíssimos nas duas selecções e as estrelas maiores de cada equipa, e o apuramento deve ser fácil de alcançar. O Gana está em luta mais renhida no apuramento, mas mesmo que se qualifique não é certo que Opare seja chamado, pois perdeu a titularidade durante o Mundial'2014 e não está a jogar no FC Porto.

Os jogadores africanos trazem este problema bi-anual, que é a chamada à CAN. E não se pode esperar que seja todos como McCarthy, que em 2005-06 recusou ir à selecção para ficar a representar o FC Porto (é um regalo ver esta entrevista). Os jogadores têm o direito de representar o seu país, logo o FC Porto terá que se preparar para enfrentar o seguinte ciclo de jogos pelo menos sem Brahimi e Aboubakar.


Curiosamente (ou talvez não), o investimento tanto em Brahimi como em Aboubakar para esta época foi reduzido com as alienações de passes. Algo que faz sentido, na sequência do que tem sido a política mais dominante da SAD nos últimos 2 anos: esperar que os jogadores rendam e se afirmem no 11 titular e só depois comprar a totalidade do passe. Em 2013-14, não houve nenhum jogador contratado a 100%. Em 2014-15 ainda não é possível fazer o balanço, pela ausência de números oficiais, mas para já o único foi Martins Indi. Não se pode falar em nova política (desde Deco a Fernando, Lucho a Lisandro, Hulk a Falcao, todos estes jogadores não foram contratados a 100%), mas é o método encontrado para lidar com as limitações financeiras enquanto se garantem jogadores de craveira internacional.
Goleador na sombra
de Jackson

Caso a Argélia e/ou os Camarões cheguem à final, Brahimi e Aboubakar vão falhar 6 jornadas. Entre Janeiro e Fevereiro também vai haver Taças, mas Lopetegui, sobretudo na Taça da Liga, deverá apostar num misto de jogadores jovens e de menos utilizados. 

O problema estaria na Liga dos Campeões, onde o FC Porto tem um plantel limitado na lista A, com apenas 22 jogadores (três guarda-redes e David Bruno incluídos), mas a CAN não afecta a Champions. Para consumo interno, os que vão ficar são (devem ser) mais do que suficientes. Não esquecendo até lá a máquina de Lopetegui certamente estará mais afinada.

Mas há um dado importante a acrescentar: as férias de Natal. Não sabemos como Lopetegui vai gerir esta questão, mas não se pode repetir o erro do ano passado: os jogadores gozaram férias entre 21 e 27 de Dezembro e apresentaram-se em Alvalade numa condição física lastimável. Há que reduzir o período de descanso no Natal.

Em relação às ausências de Brahimi e Aboubakar, há alternativas de sobra.

Para substituir Brahimi nos flancos: Quaresma, Tello, Adrián, Ricardo, Kelvin, Quintero, Óliver, Otávio (equipa A); Fréderic, Ivo Rodrigues, Kayembé, Pité, Djim (equipa B); Luís Mata (sub-19).

Para substituir Brahimi no meio-campo: Evandro, Quintero, Óliver, Otávio (equipa A); Leandro Silva, Pité, Pavlovski, Tiago Rodrigues (equipa B); Élvis e Cléver (sub-19).

Para substituir Aboubakar no ataque: Adrián (equipa A); André Silva, Gonçalo, Roniel, Idrisa (equipa B); Leonardo Ruiz, Tony Djim (sub-19); Rui Pedro (sub-17).

Com as ausências devido à CAN, não há dois ou três problemas. Há uma dúzia de soluções.