quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As diferenças entre Mangala e Ola John

O timing é uma coincidência maravilhosa, é certo. Mangala foi transferido em agosto de 2014, e na altura já se levantavam questões sobre os valores da sua transferência, mas a FIFA só se lembrou agora, neste tempos tão quentinhos para o futebol nacional, de decidir analisar se há base para uma investigação. E também não é inocente o facto de a FIFA, enquanto entidade íntegra e transparente, estar completamente falida, logo terá que atacar alguns clubes e julgar algumas práticas para restaurar alguma credibilidade. 

Muito bem. O que estará em causa é perceber se a Doyen Sports teve influência na transferência de Mangala para o Manchester City. É um dos efeitos secundários dos leaks. E daí percebemos o porquê de só terem sido divulgados, em matéria de Benfica, documentos a envolver a Doyen e Ola John.

A influência da Doyen
Para quem tiver acesso ao Financial and Economic Rights Participation Agreement (ERPA) de Mangala e Ola John, pode notar a grande diferença entre os pontos 6.2 dos dois contratos. Começam exatamente com a mesma frase: «The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain». No caso do ERPA de Mangala, este ponto termina assim. Mas no do Benfica não. O Benfica acrescenta isto:

«The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain, and shall be strictly prohibited from contacting or interfering in any way whatsoever, either directly or indirectly, with any of the parties (other than the club) with is directly or indirectly involved in the negotiations of the potencial transfer, except with the written permission of the club».

Voilá. No mesmo artigo (6.2) no contrato do FC Porto, essa informação não aparece. O Benfica está, neste ponto, mais bem protegido no seu acordo do que o FC Porto, o que só levanta uma questão: quem se esqueceu deste pormenor? Se o FC Porto está mais próximo da Doyen do que o Benfica (normal, tendo em conta que Mangala foi um sucesso, tal como vai ser Brahimi, e Ola John uma enorme desilusão para o fundo), como se justifica que o mesmo artigo proteja muito mais o Benfica do que o FC Porto?

Por outro lado, assim se percebe o porquê de a Football Leaks só ter ainda um contrato online: precisamente este de Ola John. Serve isto como termo de comparação para tentar entalar o FC Porto na transferência de Mangala para o City e alegar que a Doyen teve interferência no processo. Mas como veremos mais abaixo, não correu como desejariam.

O que há a fazer? Para começar, não, o FC Porto não pode delegar à Doyen a iniciativa de uma transferência. Todos sabem isso. « (...) Article 18bis par. 1 of the RSTP, which states that “[n]o club shall enter into a contract which enables any other party to that contract or any third party to acquire the ability to influence in employment and transfer-related matters its independence, its policies or the performance of its teams.» O FC Porto só tem que explicar, se a FIFA o convidar a isso, que a Doyen não assumiu iniciativa em nada e somente colaborou com a parte que lhe cabia.

O FC Porto queria vender Mangala. O Manchester City queria comprar Mangala. O Manchester City oferecia uma excelente proposta ao FC Porto. Jorge Mendes estava no papel de intermediário. E então assim se fez a transferência. O que há aqui de errado? Nada.
Nélio Lucas

Levantaram-se questões sobre o valor pelo qual Mangala foi vendido. O FC Porto comunicou a sua parte: 30,5M€ por 56,67% do passe. Deste valor o FC Porto tirou o mecanismo de solidariedade FIFA, a intermediação para Jorge Mendes e os prémios de fidelidade a Mangala. Soube-se que a determinada altura a Robi Plus teria direito a 10%, mas esta sociedade de D'Onofrio e Delmenico deixou de ter esta participação muito antes da transferência para o City (a imprensa belga chegou a falar de uma suposta compra dos 10% por parte da própria Doyen, que as partes não quiseram confirmar). No R&C, o FC Porto acrescentou que «o clube comprador assumiu a obrigação de pagar diretamente à Doyen a proporção que esta entidade detinha sobre os direitos económicos do jogador».

Como se sabe, a Liga Inglesa só admite a inscrição de jogadores se o clube comprador absorver a totalidade do passe. Por isso o Manchester City tinha que comprar os 100% do passe de Mangala. E assim o fez. Comprou a sua parte ao FC Porto e a restante parte à... Doyen. Se a Doyen tinha 33,33% e se a sua quota era necessária à concretização da transferência, como esperavam que a Doyen não interferisse na transferência? É claro que tinha que interferir. E numa liga exigente como a inglesa, onde até é necessário licenças de trabalho, alguém acredita que a inscrição de Mangala teria sido aceite se não estivesse tudo muito bem claro (e logo após a reportagem da France 2, que tantas suspeitas levantou)? 

No acordo, o FC Porto declarou que reservava a um entendimento entre o City e a Doyen a questão da parcela que faltava no passe de Mangala. Ao contrário do que a Bloomberg escreve, não foram 54 milhões, como é lógico, pois não é por os 56,67% do FC Porto terem valido 30,5M€ que a restante parcela tem que ter valor proporcional. Isto é uma não questão, e nem é o que está em causa.

O FC Porto, se a FIFA assim o exigir, só tem que expor que era intenção dos dois clubes, City e FC Porto, transferir Mangala, e que para tal acontecer a Doyen teria que ser implicada nas negociações. Agora, por muito que possa estar limitado a jogadores do catálogo da Doyen, por possíveis dificuldades de investimento a curto prazo, o FC Porto não poderá nunca delegar à Doyen a iniciativa ou total responsabilidade de negociar, por sua conta, um jogador para o FC Porto. Isso não, nunca. Por outro lado, é normal os clubes delegarem a empresários procurações para negociar X jogador com X clube.

20 ou 45M€?
Se a FIFA quiser explicações, o FC Porto só terá que as prestar. De livre e espontânea vontade, pois aqui ninguém pode ficar de rabinho entalado entre as pernas, como basicamente tem sido assumido pelo Benfica nos últimos tempos, desde a Liga Aliança às ofertas ilegais a árbitros. E ao contrário do que se tem verificado neste último, o FC Porto, na questão Doyen/Mangala, não deve ter nada a esconder. 

Ah! O facto do ERPA de Ola John ter sido divulgado e de continuar online tem um propósito claro. Mas atenção àquilo que se possa entender como a influência de um fundo num determinado clube. No contrato do Benfica, está dito que a Doyen e o clube concordam que uma oferta de 20M€ seria mais do que razoável para vender Ola John. Mais, diz que se o Benfica não aceitar uma eventual proposta de 20M€ por Ola John terá que indemnizar a Doyen Sports em 100% do valor.

Mau! Então se a Doyen pretende uma indemnização no caso de o Benfica recusar 20M€, não estará a condicionar ou influenciar o seu futuro? Se João Cancelo e Ivan Cavaleiro, sem terem feito nada de relevante na equipa principal do Benfica, valem 15M€ cada, não me digam que um internacional holandês, que já foi eleito dos melhores jogadores da Eredivisie, até era seguido pelo Manchester United e que até significou um investimento elevado por parte do Benfica não vale um bocadinho mais.

Aliás! Por mais que esta frase esteja batida, Luís Filipe Vieira disse e repetiu isto: «Nenhum jogador sairá sem serem cumpridas as cláusulas de rescisão». Ora Ola John tinha uma cláusula de rescisão de 45 milhões de euros. Então como raio é que o Benfica permite um acordo com a Doyen em que estipula que uma proposta de 20M€ já era um montante razoável para a transferência?

Vá, um bocadinho de rigor. No Regulamento do Estatuto de Transferências de Jogadores sobre o TOP, no artigo 18 a FIFA diz que «No club shall enter into a contract which enbales the counter club/counter clubs, and vice versa, or any third party to acquire the ability to influence in empolyment and transfer related matters its independence, its policies or the perfomance of its teams».

Ora se Vieira só vende pela cláusula, se o Benfica coloca uma cláusula de 45M€ em Ola John e se depois acorda com a Doyen a possibilidade de uma saída por 20M€, em que ficamos? Não está a Doyen também a interferir no Benfica? E não aceitou o Benfica entrar num acordo que levanta estas questões, violando o trecho acima referido? É que a Doyen, pelo menos, não forçou o FC Porto a aceitar propostas de menos de metade do valor da cláusula de rescisão de Mangala.

FIFA, já que estão com a mão na massa, aproveitem e analisem isto também. 

9 comentários:

  1. Clap Clap Clap. Muito bem explicado. Já se sabe que nestes momentos há sempre uma fonte anónima na comunicação social portuguesa que assegura que vamos ser impedidos de competir, comprar, vender e tudo o que eles queiram, depois é o que se vê.

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  2. O anormalmente conhecimento que demonstra em todas as análises é profundo e correcto.

    Dou os meus parabéns pelo rigor, clareza, precisão e objectividade com que aborda os assuntos.

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  3. Esta gente ligada, directa ou indirectamente, ao clube campeão da corrupção em Portugal, ainda não percebeu, certamente por suma cretinice, que dificilmente apanharão em falso o FCP - só por incompetência, já que graças ao constante escrutínio, por eles imposto, isso dificilmente acontecerá, no entanto é perceptível o nervosismo e a vontade de meter o FCP na cegada na qual estão metidos, porque apesar de terem indicações para fazerem de morto, é provável o esfacelar do pseudo prestígio.

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  4. Serviço público, well done.

    LAeB
    http://doportocomamor.blogspot.pt/

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  5. Se como afirma o Benfica está mais protegido no seu acordo do que o FC Porto, quem se terá esquecido deste pormenor? Penso que terá sido quem fez o contrato do FCP que terá sido assinado por alguém em representação do mesmo. Não vejo quem mais poderia ter sido. Por isso as dúvidas só podem surgir de quem não redigiu bem o contrato.
    Não percebi uma coisa, qual é o propósito de continuar online o contrato do Ola John?

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  6. Grande TdD, brilhante! E assunto encerrado, by the way.

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  7. Repúdio! Este seu Post deveria ser imediatamente retirado. Então está a ofender a honra e o bom nome de Eusébio da Silva Ferreira?! Um homem com honras de Panteão? Toda a gente sabe que o Benfas é um clube sério, que é incapaz de incitar à violência e que nunca procurou menorizar os outros clubes e as suas derrotas invocando erros de arbitragem.
    seja rigoroso: não custa nada.
    Que galhofa.
    Agora a sério. Obrigado por informar. obrigado por utilizar este blog para esclarecer e dar informações. Obrigado por ir bem mais além do que a imprensa escrita alegadamente especializada em desporto.
    Um abraço
    SOMOSPORTO

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  8. Até porque um clube que fecha o ano anterior com um prejuízo de 40M, basta apresentar este facto para provar quem é que tinha todo o interesse em vender urgentemente o jogador.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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