sábado, 14 de fevereiro de 2015

O jogo das diferenças

Porque falar da luta pelo título é falar de FC Porto e Benfica, a análise à vitória de hoje começa com uma citação do treinador do rival. «Foi o melhor jogo no estádio da Luz», Jorge Jesus, depois do Benfica vencer o Guimarães por 3x0. A estatística diz sempre muito pouco. Ou, por vezes, o suficiente. No quadro abaixo, vemos os números do Benfica na sua vitória contra o Guimarães. No segundo quadro, os números do FC Porto.

Benfica - Guimarães (3x0)
FC Porto - Guimarães (1x0)
Os chatos dos números muitas vezes não passam disso: números. E o futebol é sempre mais do que 2+2=4, é sempre mais do que um quadrado com três vértices. Mas neste caso particular, o que dizem os números é que o FC Porto de «serviços mínimos» consegue ter mais posse de bola, mais remates e apenas menos uma ocasião de golo do que o melhor Benfica da época no estádio da Luz. O dado mais importante: o melhor Benfica da época deixou que o Guimarães rematasse 12 vezes na Luz e que criasse 4 oportunidades de golo. Já o FC Porto que venceu pela margem mínima não deixou o Guimarães criar uma única oportunidade de golo no Dragão.

Tudo isto para dizer para que não há resignação possível. O Benfica versão 2014-15 não é melhor do que o FC Porto. Não joga melhor futebol. Está numa situação confortável na luta pelo título, e sabemos que teremos que sofrer até ao fim, mas não digam que não é possível. Ninguém. O FC Porto também está na situação em que está por alguns erros cometidos no passado. Mas esses erros estão a ser corrigidos, por Lopetegui e pelos jogadores. A nossa luta não se esgota num campeonato, mas a luta por este campeonato está longe de estar esgotada. Podemos não ter tudo para ser campeões, mas temos que dar tudo para o ser. Se fizermos a segunda parte, a primeira torna-se mais fácil.





Iván Marcano (+) - Lopetegui explicou que 6 jogadores estiveram a antibióticos a meio da semana, um deles Indi. Em Basel é normal que Indi regresse, mas temos cada vez mais razões para estar satisfeitos com Marcano. É provavelmente o melhor central no início de construção (rápido, de cabeça levantada e forte no passe longo (mete a bola 4  vezes nos extremos com passes de 40 metros)), raramente faz faltas, é forte na marcação e tem tudo o que um central de equipa grande deve ter. Uma grande valia desportiva para o FC Porto.

Casemiro (+) - O caceteiro foi o jogador que mais faltas sofreu hoje. Sim, comete muitos excessos, mas pela 2ª jornada consecutiva é dos melhores. Com Herrera e Óliver em constante movimento, foi ele a segurar o meio-campo, a dar linha de apoio mais atrás, foi muito agressivo na reacção à perda de bola e após a entrada de Rúben Neves vimo-lo em zonas ainda mais adiantas a pressionar. Já se nota evolução e já tem algo com que justificar a titularidade. 

Óliver Torres (+) - Nada de novo: divinal. Mete a bola onde quer, quando Lopetegui quer, como a equipa precisa. Se o Barcelona tiver um olheiro em condições, em vez que entregar o relatório sobre o Danilo entrega um sobre o Óliver, com pena nossa. É um predestinado e é difícil acreditar que tenha feito 20 anos há pouco tempo e que ainda haja quem ache que não serve para determinados modelos de jogo. Óliver é bom em qualquer modelo de jogo. Se não é, o problema é do modelo, pois este pirralho faz sempre parte da solução.

Evolução (+) - Aquilo que faz do tiki-taka um sistema quase infalível não é apenas a capacidade imensa de fazer 50 passes seguidos, mas sim a forma como a equipa se posiciona de modo a reagir logo à perda da bola. O FC Porto de Lopetegui está fortíssimo neste segundo ponto, na reacção à perda da bola. É a nota de maior evolução até aqui. O FC Porto ganha várias bolas no meio-campo do adversário, muitas vezes logo na primeira linha de pressão, feita pelos avançados. Havia um problema no início da época, que era a forma como isso deixava as costas da defesa expostas. Problema corrigido.

Palavra de mister (+) - O treinador pode pensar no jogo seguinte. Os jogadores não. E muitas vezes para obrigar os jogadores a não pensarem no jogo seguinte, o próprio treinador vê-se forçado a não o fazer. Foi isso que Lopetegui fez. Lopetegui não pensou uma única vez nem em Basel, nem no Sporting. Lopetegui esteve quase 10 minutos a tentar corrigir o posicionamento de Herrera. Fartou-se e tirou-o. No mesmo minuto tira Brahimi, depois de este ter perdido uma bola que deu origem a um contra-ataque do Guimarães. Não poupou ninguém. Depois, há os 3 cartões a Danilo, Alex Sandro e Casemiro. Nenhum deles provocou o cartão e pensar o contrário só ao alcance de iluminados na carequinha. Depois, Lopetegui novamente forte no discurso na conferência de imprensa. Lopetegui está a adaptar-se cada vez melhor à realidade do FC Porto e, muito importante, à realidade do futebol português.

Outros destaques (+) - O Herrera da primeira parte é essencial e rasgou o meio-campo do Guimarães. Danilo e Alex Sandro estiveram bem no apoio ao ataque, embora muitas vezes faltasse a combinação com o extremo. Brahimi, por ironia, fez o golo que lhe foi anulado na primeira volta. Quaresma não consegue ultrapassar um único lateral em velocidade no 1 para 1 junto ao flanco, mas quando vem para zona interior ou procura logo o cruzamento mostra a sua utilidade neste contexto. Jackson hoje não marcou, mas fez o que sempre faz: trabalho incansável e um farol para o resto da equipa. A entrada de Ruben Neves voltou a ser essencial para dar tranquilidade à equipa.





Quem não mata ... (-) - A intenção de Lopetegui depois do intervalo era compreensível: descansar com bola, construir de forma mais lenta, obrigar o Guimarães a abrir e a subir para depois meter o 2-0. O FC Porto deixou de fazer a pressão que fez na 1ª parte. E isso podia ter custado caro. Fazer isso com apenas 1-0 no marcador é arriscado. Basta uma bola perdida na grande área para custar um golo. O FC Porto teve oportunidades para fazer o 2-0 na primeira parte, mas não o fez. Antes de descansar, é preciso matar o adversário. Fará parte da evolução da equipa controlar o jogo de forma mais pautada, mas hoje houve um risco, apesar de nunca ter perdido o controlo.

Bolas paradas (-) - Houve ali uma tentativa de formar uma barreira atrás de uma barreira, um lance estudado, num livre do Casemiro. Mas de resto mantêm-se as críticas de sempre. O FC Porto aproveita mal os pontapés de canto e os livres cruzados para a grande área. Na Champions, as bolas paradas podem fazer a diferença. Nota-se pouco trabalho de casa da equipa neste aspecto.

Readaptar (+/-) - É verdade que temos um Quaresma mais maduro, mais forte tacticamente e que, diz-se, é dos jogadores mais empenhados nos treinos e cresceu muito psicologicamente com Lopetegui. Hoje foi dos jogadores que mais vezes procurou desequilibrar e cruzar, mas há algo que urge rever: a tentativa de ultrapassar o lateral no 1 para 1 junto ao flanco. Quaresma não ganha um lance em velocidade aos laterais do campeonato português. Já tem 31 anos e são pouquíssimos os extremos do futebol mundial que ainda têm o pico que se pede no 1 para 1 com esta idade. Quaresma não é excepção. Quando vem para zona interior e aposta no drible mais curto, torna-se um jogador importante. Evoluiu muito no futebol de primeiro toque e no apoio ao meio-campo, mas tem que deixar de tentar rasgar no 1 para 1 pelo flanco, pois não tem velocidade para ultrapassar os laterais. Readaptar é necessário.


8 comentários:

  1. Escassez de golos para tamanha diferenca entre as equipas. Primeira parte muito boa com alta rotação posse pressao. Segunda parte com menos fulgor em que so com a entrada de ruben a equipa melhorou. Boa exibição no geral mas uma palavra para casemiro.
    A brutal entrada do cafu teve a mesma consequência que por exemplo a banal falta do alex ou danilo.....
    Continuação de bom trabalho

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  2. Concordo com tudo que escreveste menos com um ponto: o das bolas paradas. Pessoalmente noto uma evolução da equipa neste ponto. Para além do livre do Casemiro, recordo-me do livre indireto marcado na pequena-área (lance estudado entre Quaresma e Danilo), dum crazamento ao 2º poste onde ocorre um desvio que o Maicon falha escandalosamente e outros lances que notam algum trabalho neste aspeto.

    De resto, é manter a atitude e qualidade contra o Basileia para sair de lá com um resultado positivo (empate com =/> de 2golos/vitória)

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  3. Onde consegue esses dados estatísticos? Melhores cumrprimentos

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  4. ~Eu só queria deixar uma questão... não se arranja 20M€ para comprar o Óliver??

    Se existe jogador que certamente o merece e que facilmente iria ser vendido pelo dobro é ele e mais importante que ser vendido é mesmo o que este menino faz ao nosso meio campo...

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  5. Para além da capacidade do Oliver enquanto jogador, outra coisa que me impressiona é a entrega dele e a vontade de ganhar. É sempre o que mais vibra com os golos, seja dele ou dos colegas. Se eu não soubesse quem era diria que é Portista desde pequenino, tal é a forma como joga, dando sempre a impressão que o faz com amor à camisola. Isto vindo de um Espanhol formado em Madrid tem muito que se lhe diga. Quem sabe ele não se afeiçoou já um pouco a este clube e esta cidade e fica por cá mais uma época. Eu acredito que com os jogadores que o Atlético tem ainda é prematuro o regresso dele no final da época. É para andar demasiado pelo banco. Ou talvez venha a ser incluído num negócio por outro jogador do Porto. Quem sabe se não é já o negócio do Jackson.

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    1. Não era mal engendrado, Jackson por Óliver, mais uns valentes trocos para adquirir outro ponta!...Está feito. Vendido!

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    2. Ou então, Jackson por Oliver + Raul Jimenez :)

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  6. Creio que o Vitória que jogou contra o Benfica fosse superior. Neste jogo não contaram com o A.André e os transferidos Hernani e Traoré.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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