quarta-feira, 16 de março de 2016

Confiança

Em primeiro lugar, há que saudar todos os sócios que marcaram presença em massa na AG. Muitos de pé, ainda mais à porta e outros tantos que, por diversos motivos de força maior, não possam ter estado no evento. Mas houve uma preocupação comum: o presente e futuro do FC Porto. E o clube está vivo. A maior prova disso não foram as respostas que foram dadas na AG, mas sim a manifesta inquietação por parte da massa adepta.


E aqui se vê que o que está em causa não é meramente a ausência de títulos. Sejamos francos, muitos dos adeptos lançam críticas sobretudo quando o FC Porto não está a vencer. Se vencer, muitos deixam de se interessar pelos diversos temas que envolvam a SAD. 

Mas ontem ficou claro que o que está a inquietar os adeptos do FC Porto não é apenas (ou sobretudo) os maus resultados no futebol: é esta postura de indiferença face aos diversos temas, desde a arbitragem aos poderes controladores do futebol português; a defesa pública ao FC Porto; a eventual existência de conflitos de ordem interna; os planos para o futuro imediato.

Pinto da Costa teve o cuidado de tentar responder às muitas perguntas, mesmo sem ser particularmente revelador e, em muitos casos, dizendo que desconhecia ou não sabia. Em alguns casos não havia outra maneira senão ir ao encontro do politicamente correto. Por exemplo, a questão sobre a existência de conflitos entre Alexandre Pinto da Costa e Antero Henrique. Como é óbvio, em planeta algum Pinto da Costa iria admitir o contrário. E até seria pertinente afirmar que era uma não-questão. Afinal Antero Henrique é membro da administração da SAD do FC Porto; Alexandre Pinto da Costa não, é um indivíduo externo ao FC Porto. Logo, não pode ser um conflito interno. Bastava Pinto da Costa dizer que o filho não tem voz ativa no quotidiano da SAD...

Num clube que está unido e em prol do mesmo objetivo, o ideal até seria defender a sua administração ao invés de um empresário que, segundo o próprio, é tratado como tantos outros agentes de futebol pelo FC Porto. Se não há sintonia absoluta no Conselho de Administração, nada mais funciona.

Pinto da Costa já teve a oportunidade de dizer no Porto Canal que Alexandre Pinto da Costa não é mais do que um empresário que só representava um rapaz dos juniores (Rui Pedro, mas na verdade já nem é esse o caso). O mais interessante seria então perceber o seu papel na condição de intermediário de várias transferências do FC Porto. Isso será um tema interessante de aferir aquando da apresentação da proposta para o 14º mandato. 

Num regime presidencialista, é normal que Pinto da Costa seja sempre o máximo responsável. Mas Pinto da Costa deu a entender que (já) não controla tudo o que se passa em seu redor no FC Porto. Terá sido a primeira vez que o fez publicamente. O presidente disse por exemplo que não conhece os conteúdos do Dragões Diário. 

Mas o Dragões Diário assume posições oficiais do FC Porto. E se Pinto da Costa desconhece em que posição oficial o FC Porto se assume, é preocupante. A palavra de Pinto da Costa tem que ser sempre a primeira e última a ser tida em conta, pois é o presidente. Para quem não se recorda, em setembro, quando Vítor Baía falou do alegado telefonema a Luís Filipe Vieira, o próprio presidente falou ao Dragões Diário para desmentir o tema. Se Pinto da Costa falou ao Dragões Diário para reagir a afirmações de um adepto e antiga glória do FC Porto, certamente que é de esperar que faça o mesmo perante quaisquer ataques externos. E além disso, mesmo que Pinto da Costa não leia tudo o que o Dragões Diário escreve, sabe perfeitamente quem delegou para essas funções. Mas segundo o e-mail citado pelo associado que falou neste caso, o Dragões Diário remete tudo para os «superiores» e diz que só escreve o que mandam. Em que ficamos?

Pinto da Costa também disse desconhecer que Vítor Serpa e António Magalhães tenham sido convidados para a gala dos Dragões de Ouro. Ok. O diretor do jornal A Bola até fez questão de elogiar, nessa semana, a grande mudança do FC Porto, que tinha passado a ser um clube exemplar e profissional, enquanto Sporting e Benfica andavam em guerrilhas. Por outras palavras, tínhamos voltado a ser aquele clube simpático e porreiro de antes dos tempos de Pedroto. Não se sabe então quem convidou Vítor Serpa e António Magalhães, mas Pinto da Costa garantiu que o clube não voltará a fazê-lo. Se o garantiu, é porque foi detetado o erro.

A história do Ferrari e de Lopetegui voltou a ser comentada. Como já aqui foi tratada, não vale a pena repetir - o ex-treinador do FC Porto se quiser que se defenda ou desminta. Mas ficou a ideia clara de que já não havia confiança em Lopetegui desde o ano passado, e ainda assim a mesma foi reforçada publicamente duas semanas antes do treinador ser despedido. Mas estamos a entrar em território também já debatido. Só que falar em «inadaptação ao futebol português», ao fim de 18 meses, não faz sentido.

O presidente admitiu ainda que sendo uma AG do clube, não da SAD, levou a que não se aprofundasse alguns temas. Nenhum dos associados que teve a palavra falou na questão do contrato de Rúben Neves, mas diga-se que não é uma situação nova nem se trata de um ato isolado. Falar sobre a política de contratações/renovações do clube implicaria outro enquadramento, que levaria horas a discutir. Além disso, Pinto da Costa admitiu que não controla tudo o que se passa no FC Porto. E de facto, a renovação de Rúben Neves não tem a sua assinatura, e se há autonomia entre outros membros do Conselho de Administração, seria interessante ouvi-los também falar. No caso de Pinto da Costa, sobre a questão Alexandre Pinto da Costa, poderia sim questionar-se o porquê de ser o presidente a assinar a transferência de Atsu para o Chelsea e depois aparecer a Energy Soccer, do filho, no papel de intermediária. Mas nem as perguntas nem as explicações aprofundaram-se nesse campo.

Pinto da Costa culpou então as arbitragens e condenou o consulado de Vítor Pereira. Só é de lamentar que não sejam assumidas mais posições públicas neste sentido. O FC Porto não pode ser o clube que diz que não ganha por causa dos árbitros; mas não pode ser o clube que fica mais escandalizado por perder 2 ou 3 jogos do que por rival ser beneficiado numa dúzia deles. Equilíbrio é a chave. Rever as culpas próprias tendo sempre em consideração os fatores externos.

Noutro campo, Pinto da Costa criticou comentadores como Rodolfo Reis, Manuel Serrão ou Guilherme Aguiar. Descobrimos que Pinto da Costa passou a ver estes programas, pois o presidente sempre afirmou, nas suas intervenções públicas, que não via este tipo de debates televisivos e que até os repugnava. Ora se Pinto da Costa sempre tratou este tema com indiferença, porquê agora imputar responsabilidades a pessoas que não estão diretamente ligadas ao FC Porto? Se o clube quer estar melhor representado nos programas em causa, então que faça como Benfica e Sporting e indique os seus comentadores.

A livre crítica, sobretudo por pessoas que não estão diretamente ligadas ao FC Porto, não pode ser censurada. Uma coisa é fazer o que Carlos Abreu Amorim fez: não foi dar opinião, foi fazer acusações generalizadas, que têm que ser sustentadas. Porque uma coisa é estar no campo da opinião, sustentando-a com factos; outra é limitar-se a chavões para lugares comuns, como «varria esta gente toda». Ok, varria. Mas varria porquê? Desconhecendo se Manuel Serrão, Rodolfo Reis ou Guilherme Aguiar fizeram essas acusações, se estão nos seus programas a título pessoal, então o FC Porto não pode intervir. Aliás, eles estão lá enquanto adeptos do FC Porto. Logo, pode muito mais rapidamente um adepto anónimo do FC Porto insurgir-se contra isso do que o próprio clube a nível oficial. 

Outra questão, e que Pinto da Costa abordou pela segunda vez, tem a ver com a relação portugueses no plantel vs. mística. O presidente do FC Porto comparou a equipa de 2011 a esta, lembrando que Rolando, Moutinho e Varela jogaram a final de Dublin, e que agora Danilo, Rúben e André André têm sido muito utilizados por Peseiro. Fazer uma comparação destas é surreal.

O FC Porto não ganhou a Liga Europa por ter o Rolando, o Varela e o Moutinho. Ganhou por, além destes jogadores, ter Otamendi, Álvaro Pereira, Fernando, Guarín, Hulk, Falcao.. E a mística não está na nacionalidade: está na devoção que cada profissional tem perante o FC Porto. Nenhum adepto pensa que ser português e advir da formação do clube é sinónimo de mística. Não é. A mística está no profissionalismo, na devoção, na qualidade e num contexto competitivo favorável. Um tema que não faz o menor sentido. James e Hulk não sabiam o que era mística, mas tinham classe mundial nos pés. Se experimentarem contratar mais destes, de certeza que ninguém se queixa que não há mística. Mas quando se vai buscar ao Marítimo um pacote quase ao preço por que chegaram James ou Hulk (cujos contornos também nunca foram os mais claros, é verdade, mas o Incrível acabou por valer cada cêntimo)...

Por fim, dizer que essa tentativa do jornal A Bola, sabe-se lá por ideia de quem, tentar criar um clima de intimidação e conflito, ao referir que as claques iam aparecer em peso e que a AG iria aquecer, foi tão triste quanto mal sucedida. Houve algum barulho de ruído típico (mais em tom crítico a membros do Conselho de Administração do que numa tentativa de abafar quem falava, diga-se), mas no final levantaram-se questões que tocaram nas feridas. Só uma das intervenções nada acrescentou, limitando-se ao chavão de jura de amor eterno. E é de realçar que os momentos que motivaram mais euforia e aplausos vieram das questões colocadas, não das respostas que foram dadas. 

No final, há quem tenha gostado das intervenções de Pinto da Costa, e há quem sinta que pouco ou nada foi explicado, que ficou muita coisa por dizer e que foi assustadora a forma como o presidente do FC Porto admitia que não sabia ou desconhecia alguns temas. A reter fica isto: os associados do FC Porto jamais deixarão o clube cair. E isso não é confiar eternamente cegamente em quem está à frente do clube: é puxar por eles, no sentido de manter um sentido crítico presente. É verdade, temos que estar todos unidos: mas essa união só funciona se estiver assente num projeto vitorioso, de clarividência, transparência, com que todos se identifiquem e em que todos remem para o mesmo lado, colocando o clube à frente dos interesses pessoais. A maior prova de que o FC Porto está vivo, (in)felizmente, acabou por nascer da sua massa associada.

Ficamos agora à espera que Pinto da Costa e restantes parceiros apresentem o seu programa para o 14º mandato. E aí caberá a cada associado perceber se está a votar no programa para os próximos 4 anos ou se está a votar em memórias e desejos do passado. Os associados deixaram claro que querem continuar a confiar em Pinto da Costa. E isso não é uma confiança que deve ser dada como garantia, mas sim que deve ser correspondida e honrada. Confiança não só pelo passado, mas sobretudo pelo futuro próximo.

Como Sardoeira Pinto terminava: Viva o Futebol Clube do Porto!

PS: Nas 24 horas seguintes à Assembleia Geral, o FC Porto emite um comunicado a questionar o serviço público da RTP, outro contra a postura do Sindicato de Jornalistas no caso da agressão a um operador de câmera (um problema de civismo, não de clubismo, e que o autor dos atos seja devidamente identificado e punido à margem do FC Porto) e Pinto da Costa fala ao JN para abordar a «vigarice» que afastou o FC Porto do título passado. Vimos mais ações em 24 horas do que em largos dias. Que seja para continuar.

11 comentários:

  1. vamos ver se nao e sol de pouca de dura, para "votante" ver.
    a apatia surreal dos ultimos 3 anos custou nos pelo menos 2 titulos.
    o colinho reina a seu belo prazer.
    ha muitas pontas soltas pelo que diz dessa AG.
    preocupa me determinada bluegosfera ainda emprenhar plas palavras do nosso NGP.
    O FCP esta vivo pelos socios nao pela SAD. se esta for a mesma nos proximas 4 anos, e bom que acorde, pq se nao quase desejo ir a liga europa pra varrer as sanguessugas que so querem milhoes.
    afonso

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  2. Portanto foi muita parra e pouca uva. Muitas perguntas poucas respostas. Faltou uma coisa pelo que me parece. O murro na mesa e exclamar: Estamos de volta.o Porto está de volta.

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    1. Estás a ver o PdC a dar um murro na mesa agora? Quantos ossos da mão é que ele quebrava?

      Os adeptos do Porto têm de cair na real: ele não é mais o mesmo (ciclo da vida, normal) e a juntar a isso já ganhou tudo o que havia para ganhar, já atingiu todos os objetivos. Agora, simplesmente, está a usufruir do privilégio que por direito próprio conseguiu, de terminar os seus dias a fazer aquilo que mais gosta (para além do «pilim» e da manutenção dos seus e do seu estatuto, claro). Sabes aquele tipo de velhote artesão, já muito caduco, com muitas dificuldades de locomoção, mas que apesar disso se levanta todos os dias de manhã para realizar o mesmo ofício que fez toda a sua vida, mas agora em vez de produzir 20 peças de artesanato por dia como fazia nos seus velhos tempos, produz apenas duas, duas e meia, e por vezes mal? Mas isso, para ele, não interessa, porque o objetivo não é mais o resultado, mas sim poder continuar a realizar-se a fazer aquilo que gosta de fazer. Este é o PdC atualmente. Agora junta-lhe a isto um monte de pessoas que dependem dele, desde a sua família a toda a estrutura da SAD e conhecidos e amigos, porque se ele sair saem todos, mais o próprio conforto de ser presidente do FCPorto ao invés de estar num lar de terceira idade ou em casa a morrer de ócio, e facilmente chegamos àquilo que é o PdC hoje em dia e o que são os seus interesses. A própria estória do Lopetegui foi mais uma estória de amizade que outra coisa qualquer. Mais do que treinador do Porto era o amigo do PdC que lhe fazia companhia nas viagens da equipa.

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    2. presidente honorário e questão resolvida.

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  3. houve 2 pontos que não percebi do teu post:

    - críticas aos adeptos.
    escreves tu: "Aliás, eles estão lá enquanto adeptos do FC Porto. Logo, pode muito mais rapidamente um adepto anónimo do FC Porto insurgir-se contra isso do que o próprio clube a nível oficial."
    e concordamos todos. mas o clube não se insurgiu a nível oficial. Pinto da Costa fez uma crítica à maneira como os próprios adeptos tratam o clube actualmente, crítica essa feita internamente numa AG do clube. se veio cá para fora essa resposta foi porque pessoas como tu o publicaram (nada contra, atenção).

    - a história da mística
    escreves tu: "Um tema que não faz o menor sentido. James e Hulk não sabiam o que era mística, mas tinham classe mundial nos pés."
    e foi exactamente isso que Pinto da Costa disse, que não faz sentido a crítica de que não há mística no plantel. podemos criticar a qualidade do plantel actual mas neste caso a comparação foi bem feita.

    de resto, dizer que foi uma boa AG porque teve bem mais intervenção do que as anteriores. e é este ponto que eu quero tocar. quando se criticam os dirigentes do clube devemos olhar para nós próprios primeiro. são constantes as acusações que eles adormeceram à sombra do sucesso. e os adeptos, não o fizeram também?

    que este momento seja o acordar do clube, de todos nós, adeptos e dirigentes, e que ao invés de andarmos a apontar o dedo a outros portistas e apontemos a quem nos ataca diariamente.

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  4. Ao Tribunal do Dragão:
    Eu convivo muito bem com o exercer de opinião democrática e nesse sentido é justo dizer-vos que gosto do vosso blog e que espero que continuem por muito tempo porque na minha modesta opinião, vozes criticas são essenciais e pq ate hoje parece-me q teem prestado um serviço aos adeptos.
    Ha adeptos sobre os quais tenho a melhor das opiniões q não concordam, por razões q entendo...cada um de nos é independente e forma sua opinião livremente.
    No sentido do gosto q tenho em ler-vos, deixem-me fazer um repto, assinem! Terminem com o anonimato, para mim grande parte do mal do FCPorto tem a ver com um nao assumir uma linha de comunicação clara e de grande dinâmica, tamvem nos blogs q cada vez mais são relevantes deveria haver full disclosure nem deveria haver razao para o contrario.
    Espirito critico e honestidade intelectual vao ser fundamentais nos próximos tempos mas o compromisso assumido com o clube sem anonimatos também. É a minha opinião, nao vos voltarei a massar com este ponto, mas acho q deviam pensar nisto para o futuro próximo.
    Grato pela vossa dedicação.
    Miguel Alexandre.

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    1. ó moço, deixa-te de merdas carago!

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    2. Neste ponto concordo com o Miguel Alexandre. Claro que não conhecemos a vida dos outros, e há pessoas que mantêm o anonimato para não serem incomodadas no trabalho e na sua vida pessoal, é legítimo. Mas podendo sair do anonimato, é sempre melhor.

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    3. Insistes em querer bater à porta do homem, Saul?

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    4. Deixa lá o mensageiro e foca - te na mensagem.
      Mais preocupante do que n se saber quem escreve é sabermos que muitos dos que gravitam na ôrbota da Sad fazem da especulação na venda de bilhetes, da ameaça e da coacção modus oppetandi

      Qt custou marega e qt rendeu de comissão? ?

      Que saia do anonimato quem meteu essa fortuna ao bolso

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  5. O problema é que a gente que rodeia Pinto da Costa e tem cada vez mais peso na direção do clube e, sobretudo, da SAD não sente o que é o FC Porto nem tão pouco percebe o que é o FC Porto tão bem quanto o Presidente. Já vimos que quando Pinto da Costa se afasta um pouco as coisas descambam.
    É uma direção segura por um único homem, como sempre foi, o problema é que esse homem está a perder as forças e não encontrou um substituto ao seu nível, bem pelo contrário.
    Ao menos nas modalidades o cenário é diferente, há pessoas muito capazes e os resultados demonstram-no.

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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