sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quem arrisca e quem corre o risco

O site Transfermarkt, embora muito conhecido, nem sempre é totalmente rigoroso ao divulgar os valores envolvidos em transferências de jogadores. Mas o balanço dos dados que vão ser apresentados abaixo é tão claro que, mais milhão menos milhão, tudo aponta para uma conclusão: o FC Porto é de longe o clube em todo o mundo que melhor vende e valoriza jogadores.


Desde 2003, e embora haja sempre comissões, terceiras partes e encargos a descontar a este bolo (e alguns valores erradamente divulgados), o Transfermarkt diz que o FC Porto fez 828,91 milhões de euros com a venda de jogadores. Ou seja, quase 70 milhões de euros brutos por época. Se tivermos em conta que o segundo classificado da lista é o Real Madrid, com «apenas» 578,55 milhões (embora com muito menos jogadores vendidos), a diferença é altamente sugestiva.


No balanço, o FC Porto também é número um em todo o mundo: saldo positivo de 459,7M€, mais do dobro do que o Benfica, o segundo classificado da lista. É de realçar que o FC Porto, que tem um passivo e endividamento incomparavelmente inferior ao do Benfica,  gastou «apenas» mais 49M€ do que o rival nos últimos 12 anos, isto nas contas do Transfermarkt. Se tivermos em conta que o FC Porto, em 12 anos, conquistou 22 títulos (dos quais uma Liga Europa, uma Liga dos Campeões e 8 campeonatos), contra 14 do rival (dos quais 4 campeonatos e 6 Taças da Liga), é possível concluir que o superior palmarés do FC Porto justificaria os tais 49M€ que o Transfermarkt diz haver de diferença.

Sim, o FC Porto é o clube que melhor vende em todo o mundo. E no último ano e meio, o FC Porto conseguiu fazer uma venda bruta de jogadores que se aproxima dos 200 milhões de euros (a custo da perda de vários jogadores titularíssimos num curto espaço de tempo, casos de Otamendi, Fernando, Mangala, Danilo, Alex Sandro e Jackson). E para quem ainda acha que Lopetegui estava a dar desculpas ao lembrar a perda de titulares, basta dar um olhinho nesta estatística interessante. E antes de falarem na «exceção», convém recordar toda a saga que criou essa exceção. Há muitas coisas exigíveis, mas ser o primeiro a conseguir algo inédito ultrapassa esse campo.

Responsabilidade
desportiva e financeira
Dito isto, segue o óbvio: o objetivo do FC Porto, aos olhos de qualquer adepto, é ver o clube ganhar títulos. Enquanto adeptos, não queremos que um titular saia por 40M€: queremos que saia como campeão (num universo ideal nem quereríamos que saísse, mas percebemos o modelo). Por outro lado, é o ciclo que se repete: alguns jogadores têm que sair para que outros possam entrar. E esses que entram, já poderão sair como campeões.

E será essa a grande responsabilidade e desafio de 2015-16. Otamendi, Fernando, Mangala, Danilo, Alex Sandro e Jackson conquistaram coisas boas no FC Porto. Mas nenhum deles deixou o clube como campeão. Que quem ocupou os seus lugares lute para recuperar esse estatuto, é o desejo de todos nós. Ninguém está obrigado a ser campeão, porque ninguém ganha títulos por garantia. Pinto da Costa, em mais de 30 anos de presidência, já teve discursos assertivos, de extrema confiança, mas nunca prometeu títulos. Esse é o limite. Enquanto adeptos, não podemos exigir títulos, ninguém pode. Mas podemos e devemos exigir uma equipa que dê tudo, tudo pela concretização desse objetivo. Que saiba o que faz em campo, que saiba responder a qualquer adversidade e que acabe o jogo com a garantia de que foi feito tudo o que estava ao alcance para lutar pela vitória.

Afinal, o futuro do FC Porto está, mais do que possa parecer, nas mãos de Lopetegui e dos jogadores. No FC Porto não é qualquer treinador que é campeão: ser treinador no FC Porto é o trabalho mais difícil do mundo. Tudo isto porque o que permitiu ao FC Porto ganhar 19 títulos nos últimos 12 anos, e ser o clube mais titulado do século XXI, tem sido em grande parte as vendas milionárias. Jogadores de qualidade que se valorizam, saem e dão lugar a outros que continuam o ciclo. A verdade é que o modelo de gestão é da SAD, mas quem tem a responsabilidade de o fazer funcionar são os jogadores e o treinador.

Daí que seja incansável na defesa do treinador do FC Porto a partir do primeiro dia em que veja compromisso com o clube, qualidade e determinação em vencer e melhorar. As receitas operacionais da SAD não sustentam os próprios gastos (que, diga-se, também aumentaram para melhorar o plantel e reforçar as condições para cumprir o tal ciclo). E desde a criação do fair-play financeiro, o FC Porto começou a vender ainda mais jogadores (a preços também mais altos), pois ainda não se aproximou do necessário equilíbrio entre gastos e receitas. Por isso, tem que ser o trabalho da equipa técnica e dos jogadores, ano após ano, a permitir que o FC Porto resista financeiramente. Nem o melhor dirigente do mundo dá chuto na bola. Nem Beckenbauer, quando era presidente do Bayern, ia para os treinos dar explicações. Tal como os jogadores, talentosos por natureza, executam as ideias de um treinador, também é o plantel a executar as ideias da SAD.

No último ano, um punhado de jogadores e o trabalho do staff permitiu ao FC Porto gerar mais-valias que asseguram o cumprimento do orçamento e mínima estabilidade financeira. E se estão reunidas as condições financeiras, é tempo de apostar em força no sucesso desportivo.

Por isso, mais do que ganhar ao Marítimo, o FC Porto vai ter que mostrar o que não mostrou na última época nas visitas à Madeira: uma sede insaciável de vencer, uma equipa que sabe o que quer e como o vai conseguir, uma equipa de jogadores que sabem que se não suarem até à última gota merecem voltar ao Porto a nado. O fim, os títulos, satisfazem qualquer adepto. Mas não há maior orgulho dos que os meios - a raça, a mística, a luta, os pilares que simbolizam a história do clube - para chegar a esse fim. 

6 comentários:

  1. verdade, se os jogadores quiserem ganhamos.

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  2. .....como não tenho motivos para duvidar do que escreve e do que mostra, estou curioso em ler os comentários dos gestores da NET e aqueles com MBA...

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  3. Imbicto TdD,

    Gostaria de colocar uma questão que me parece pertinente...
    Concordando com o teor do artigo e sabendo da relação directa que existe entre rendimento desportivo e rendimento financeiro; sabendo ainda que já abordou a questão relativa ao empréstimo de Óliver, há meses, nos moldes que conhecemos, até que ponto mantém a posição de que negócios com os contornos do de Óliver, mesmo retirando-lhe o inegável rendimento desportivo, são financeiramente benéficos para o clube - nomeadamente depois deste lapso temporal em espera do retorno do médio e sem compensação (veja-se Casemiro) financeira ajustada ao valor de valorização a posteriori?

    Resumindo, caso isolado, ou a reincidir?

    Imbicto abraço!

    Imbicto Poema

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  4. Esta análise está correta, mas note-se que a política de contratações mudou nestes últimos anos, mais concretamente desde a chegada de Lopetegui. Por exemplo, ainda não sabemos as reais vantagens ou desvantagens de investir logo de entrada 20 milhões de euros num jogador, porque simplesmente nunca tinha acontecido. Estamos também a poucos dias de perceber se o negócio Adrián vai ser um problema ou não.

    As grandes vendas deste Verão foram feitas com jogadores que já cá estavam há alguns anos, ainda teremos de ver que saídas (e por que valores) terão os jogadores que entraram desde a época passada.

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  5. Mais um jogo na Madeira, mais do mesmo.

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  6. Segunda jornada e já a perder pontos. Uma vergonha. Cissocko, tello, Varela umas autênticas nódoas. Como disse miguel sousa tavares enquanto o varela for jogador do porto não vou ao dragão. Cantos ao primeiro poste. Substituição avançado por avançado. A precisar de ganhar. Continuo a dizer: Este treinador não presta.a melhor contratação que o Porto devia ter feito era num treinador e não em jogadores. Uma segunda parte deplorável. 3 guarda redes para quê?

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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