domingo, 17 de abril de 2016

Dia de eleição

O FC Porto é um clube único, e isso aplica-se também ao seu processo eleitoral. Os associados do FC Porto não estão habituados a eleições porque, nos últimos 30 anos, a maioria nunca sentiu necessitar delas. Pinto da Costa sempre foi o homem pelo qual a massa portista se guiou.

Hoje não volta a ser muito diferente. Neste momento, a maioria dos adeptos do FC Porto quer mudanças. Mas querem que essas mudanças sejam levadas a cabo por Pinto da Costa, o único presidente do nosso futebol que consegue ser eleito com um currículo e não com um projeto eleitoral. Convenhamos, nenhum outro pode ser eleito por currículo, pois nenhum outro tem o currículo de Pinto da Costa. Mas os últimos três anos de FC Porto em pouco honraram não só o historial do clube mas a própria obra de Pinto da Costa.

Pinto da Costa tem 78 anos, terá 82 no final do mandato, e está perto de se tornar o presidente há mais anos à frente de um clube europeu (Santiago Bernabéu esteve 35 no Real Madrid). O 14º mandato pode muito bem ser o último de Pinto da Costa à frente do clube. Porque a obra de Pinto da Costa é eterna, mas nenhum homem o é.

A caminho do 14º mandato
Em 2012 Pinto da Costa dizia ao L'Équipe que pretendia deixar a presidência do FC Porto num prazo de cinco anos, ou seja em 2017. Foi na altura uma afirmação que fazia sentido - o seu mandato acabaria em 2016, mas os estatutos do FC Porto previam que a direção pudesse continuar mais um ano caso não houvesse uma lista concorrente; assim sendo, Pinto da Costa sairia em 2017.

Mas a alteração de estatutos do FC Porto aumentou os mandatos para quatro anos, e a direção prescindiu assim do direito que teria a ter o tal ano extra. Isso significa que Pinto da Costa assume um compromisso com o clube e os sócios até 2020, não até 2017, pois nenhum associado vai eleger o presidente pensando em que este possa sair antes do tempo - nenhum mandato pode servir para ganhar um campeonato e sair pela porta grande, mas sim para o cumprir na sua totalidade.

Na altura, aquando da alteração de estatutos, poucos terão discutido os efeitos que isto traria aquando do 14º mandato. E o mesmo se poderá dizer a propósito do processo eleitoral. Como muitos portistas nunca sentiram necessidade de precisar de eleições, são muitos os que agora estranham a forma como o FC Porto conduz os atos eleitorais.

O regulamento eleitoral, que cumpre os termos do artigo 50 dos estatutos do FC Porto, não recebeu qualquer tipo de objeção até há bem pouco tempo. Sim, o FC Porto é um clube completamente ultrapassado nos seus atos eleitorais, indigno para um clube que tem associados espalhados por todo o muno.

Só pode votar quem comparece no Dragão, o que afasta muitos interessados do ato eleitoral, pelas mais diversas indisponibilidades geográficas. O voto online, bem como a possibilidade de votar através das diversas casas do FC Porto espalhadas pelo país, deveria ser uma realidade já para o ato eleitoral de 2020. Não se aceita de outra forma. De certeza que há portistas que queriam votar em Pinto da Costa e não puderam; tal como outros queriam fazer o seu voto de protesto e não o puderam fazer. 

O FC Porto sente que nunca precisou de eleições, mas um dia vai precisar. Neste momento não há rivais pois ninguém aguenta o peso/responsabilidade de antecipar o fim da era Pinto da Costa no clube. Qualquer candidato que avance para a presidência do FC Porto seria, neste momento, considerado um inimigo do clube pela massa adepta. Pois desafiar Pinto da Costa é desafiar o FC Porto, sentem. Homem e clube confundem-se há anos, mas um dia o FC Porto vai ter que viver, a todos os níveis, sem Pinto da Costa; e nesse dia terá que ter um ato eleitoral adequado.

De facto, é uma manifesta hipocrisia só agora que o FC Porto «bateu no fundo» (palavras do presidente) criticar o ato eleitoral. Há um ano poucos ou ninguém se lembraram de o fazer. Isso é ponto assente. Mas ainda assim há a destacar, por exemplo, o boletim azul para a eleição dos corpos gerentes, no qual é particularmente difícil riscar ou escrever alguma mensagem que inutilize o boletim. Já na folha da eleição para o Conselho Superior, branca, é fácil de o fazer.

Não há também o local mais adequado para votar. As eleições são organizadas com a lógica de que, como só há uma lista, então só se vota nessa lista. A própria explicação das bonitas meninas nas urnas, dando a indicação de que «é só meter o boletim na urna porque só há uma lista», deixa um tanto a desejar. O Dragão não está preparado para receber pessoas que não queiram votar em Pinto da Costa; mas o clube não é de Pinto da Costa; Pinto da Costa é que é presidente do clube por vontade e decisão dos sócios.

Neste caso, só escreve e só vai às mesas quem não vota a favor de Pinto da Costa, ou que opte pelo ato de riscar alguns dos nomes das listas. Mesas corridas aos olhos de toda a gente não são mesas de voto. Sobretudo porque o artigo 3 do Regulamento Eleitoral diz claramente que a eleição é feita por «escrutínio secreto». Se alguém vai às mesas e saca da sua caneta, ou se é só receber o boletim e entregar, o secretismo deixa muito a desejar.

Mas lá está, sempre foi assim. É uma manifestação de hipocrisia, pois em 2013, quando Pinto da Costa foi eleito com mais de 99% dos votos expressos, não terá havido muitas críticas ao ato eleitoral. Por isso, aqui fica o desejo de que as coisas sejam severamente corrigidas no próximo ato eleitoral, com ou sem Pinto da Costa (o próprio Miguel Bismarck já admitiu rever a impossibilidade de votar em branco). O FC Porto tem que ser um clube preparado para eleições, coisa que não é, porque nunca sentiu necessidade de ser.

Quanto às eleições propriamente ditas, O Tribunal do Dragão foi abordado em dois sentidos: um para declarar apoio a Pinto da Costa antes das eleições; outro para publicitar um movimento de apelo ao voto nulo, como forma de protesto pelo trabalho feito nos últimos anos e como alerta para a SAD. Os dois casos foram descartados, pois O Tribunal do Dragão é um espaço de «defesa, crítica e análise ao FC Porto», não é um espaço para a promoção de sentidos de voto em atos eleitorais.

Pinto da Costa já foi elogiado e já foi criticado neste espaço. Porque aqui não se julgam as pessoas: julgam-se sim as ações e os atos de gestão - que por sua vez podem dizer muito de determinada pessoa. Pinto da Costa, enquanto presidente do FC Porto, já foi muitas vezes aclamado e defendido neste espaço; mas Pinto da Costa, enquanto candidato à presidência do FC Porto, está sujeito ao mesmo que os outros - os traços gerais da sua candidatura (não se pode falar em programa eleitoral) foram explicados no Porto Canal e foram devidamente analisados aqui, tal como se faria se o Manuel Joaquim quisesse candidatar-se à presidência do FC Porto. 

Pinto da Costa disse, genericamente, o que pretende para o 14º mandato. O resto é a palavra dos sócios, a mais importante em todo o processo. Mas podemos reconhecer que todos os associados, sejam os que entregam o boletim, sejam os que sacam da caneta, querem o mesmo: que o FC Porto volte a vencer e a orgulhar os seus adeptos pela personificação de mística, garra, honra e sede de vencer. No final das contas, há dois grandes grupos de associados: aqueles que continuam a acreditar em Pinto da Costa; e aqueles que querem acreditar uma última vez em Pinto da Costa. E haverá ainda certamente aqueles que queriam acreditar, mas não receberam sinais suficientes por parte do presidente nos últimos meses, o que também será uma posição legítima.

Pinto da Costa pode não voltar a ter outro mandato para corresponder a essa confiança. A boa notícia é que, a partir de hoje, terá 4 anos pela frente para reerguer não só o clube como a sua obra. Com o reconhecimento que os associados não estão a votar nele para premiar o seu passado, mas sim para regressar às vitórias no 14º mandato. 

Esta pode não ser a eleição em que Pinto da Costa recebe menos votos (essa ocorreu em 1991, quando Martins Soares conseguiu pouco mais de 20%), mas poderá ser aquela que mais votos nulos teve. Cabe a Pinto da Costa decidir o que quer fazer: ou ignorar quem não votou nele, pois não precisou desses votos para ser reeleito; ou tentar reconquistar a confiança desses associados, tentando unificar o clube e os adeptos, em vez de ignorar/criticar quem o contesta. Se seguir a segunda, o presidente já entra a ganhar no 14º mandato.

14 comentários:

  1. Vamos ter confiança amigos portistas vamos voltar a dominar o nosso futuro ser azul abraços a todos os verdadeiros portistas.

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  2. Muito bom artigo. Está cá tudo. Só não entende quem não quiser. Tribunal do Dragão obrigado pelo excelente blogue
    Saudações Portisras

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  3. O que interessa agora é que JNPC, após a sua reeleição, volte à fórmula que deu sucesso ao DRAGÃO (capacidade da sad, do seu treinador e do departamento de scouting do clube escolherem jogadores relativamente baratos de qualidade e a partir daí montar uma equipa competitiva).
    Por outro lado, fala-se que muitos sócios PORTISTAS não tiveram condições para votar. Então só se usa a tecnologia no museu? Não se entende, como também não se percebe a inexistência da DRAGÃOTV (canal de FORTE propaganda/marketing da marca FCPORTO e de "ataque" aos nossos adversários).

    Luís (O do José Peseiro)

    P.S.

    Espero que JJ não venha treinar o AZUL E BRANCO, era a ruína completa.

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    1. o JJ no fundo é boa pessoa, veja que ele ontem foi expulso porque o golo do slimani foi em fora-de-jogo e ele mandou o arbitro abrir os olhos. honestidade e humildade a toda a prova ;)

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  4. Vamos lá ver se com esta contestação (ainda) envergonhada o homem acorda e muda de política pois se não fizer no final destes 4 anos arrisca-se a sair pela porta dos fundos e nós que não confundimos o clube com quem o dirige queremos é voltar aos tempos de vitórias.

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    1. Os sócios do Barcelona tiveram mais 3% que o Martins dos Santos.
      Tanta campanha para lincharem o homem e não passam duns arruaceiros da contestação.

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  5. Pinto da Costa, em quem acabei de votar e sem riscar nenhum nome das duas listas, porque, além do Presidente e do Reinaldo (recuso-me a fazer juízos de valor sobre pessoas, só porque dizem cobras e lagartos, como Antero Henriques, que me é desconhecido), não conheço ninguem, sabe, pressinto saber, que dificilmente acabará este mandato se não implementar as reformas necessarias para o Clube retomar a senda dos êxitos. Continuo a reconhecer-lhe inteligência, capacidade e sagacidade para levar a cabo esta missão porque, ao contrário de outras crises, saberá das mudanças de mentalidades, comparativamente com outras gerações, dos sócios, adeptos ou acionistas, que hoje em dia não podem, nem devem, ser diferenciados, pois tanto uns como outros são potenciais, ou não, clientes e divulgadores da marca FC Porto. Será igualmente muito mais difícil, pois o inimigo primeiro e posteriormente o rival, atalharam caminhos tendentes a mais depressa ganharem. Mas confio e será uma derrota, igualmente, para mim se não conseguirmos dar a volta. Foi por acreditar que fui votar.
    É verdade não existir privacidade alguma no local de voto, mas devia.

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  6. Nas últimas eleições também houve um só candidato.
    Pergunto
    O acto eleitoral processou-se de maneira diferente ?

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  7. tem visto o q o postistas anonimos tem feito? alguma coisa dqilo lhe parece possivel?

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  8. Olá
    Pasmei com a explicação dada por Pinto da Costa para muitos dos votos nulos...tinham escrito «Força Presidente»....
    Sem comentários....
    Cumprs
    Augusto

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  9. Acho que há uma pequena confusão neste post que convém esclarecer. Há muita gente que tal como eu, com 27 anos de sócio nunca tinha ido votar. Nunca senti necessidade de o fazer. E que por esse motivo desconhecia o processo eleitoral. E não é por desconhecer antes, e conhecer apenas agora, que deixo de poder manifestar a minha indignação pela forma como decorre o processo. E isso não faz de mim nenhum hipócrita.

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  10. Na próxima época um dos 3 guarda-redes que o FC Porto comprar anualmente terá de ser o Rui Silva

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  11. Parabens ao Tribunal do Dragão ! Mais uma vez clara analise imparcial. Apenas falta aqui analisar um terceiro cenário: Pinto da Costa, quer mas não pode! Passo a explicar, Pinto da Costa com a inteligencia e experiencia que lhe são reconhecidas, já viu á muito tempo qual ou quais os problemas do FC Porto. Por isso, mais do que ninguém ele quer mudar, algerar e voltar á formula de suceso do passado. Sim, quer! Mas não Pode. E não pode porquê? Porque tudo vai ficar na mesma. Porque as pessoas são as mesmas. Porque nada vai mudar na prática. Pinto da Costa e o FC Porto estão "refens" de uma maquina ou "estrutura" pesadissima , com varias centenas de pessoas empregues, todas elas direta ou indoretamente controladas por Antero Hemrique! Ou seja, o Presidente sabe que tem que mudar, quer mudar, mas não pode mudar! É impensável despedir e mandar embora centenas de pessoas da tal "estrutura" que estão TODAS elas controladas direta ou indiretamente por Antero. Por isso, na prática , por mais que Pinto da Costa tente em afirmar que "Batemos e no fundo e temos que mudar" na prática, ainda não batemos mesmo no fundo e nada vai mudar. Aliás é sintomático ouvir as declarações ontem á noite de Pedro Marques Lopes ( amigo pessoal de Antero) quando defende não só mais autonomia para Antero, como espante-se : " não há problema se para o ano voltar-mos a não ganhar nada!" Dito isto, por quem é o HMV ( hes master voice) de Antero está tudo mais que claro. Nada vai mudar. Tudo na mesma. Antero cada vez com mais poder. E ...." Não há problema se para o ano não ganhar-mos nada outra vez!"
    Pinto da Costa não pensa assim. Quer mudar. Mas não pode mudar. Infelizmente o futuro é cinzento... Pinto da Costa e o nosso FC Porto estão refens da "estrutura" pesadissima que em lugar de ter resultados dinanceiros e desportivos, não só acumula prejuizos de milhões como não ganha nada.... E como foi dito ontem no Porto Canal por PML "não há problema!"
    Há problema sim! E muito! Não queremos ver o Porto refém de ninguém, muito menos de uma "estrutura" milionária e á vista de todos.... Incompetente!

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  12. Que grande texto, que grande análise, que grande artigo. Parabéns!

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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