quinta-feira, 12 de março de 2015

Do risco ao jackpot

Triunfo dos protagonistas
«No início desta aventura da Liga dos Campeões, em agosto, não tínhamos bilhete para esta competição». Lopetegui já o disse e importa sempre recordar. Havia um enorme peso em cima da equipa técnica e do plantel. Se por um lado a SAD apostou em elevar claramente a qualidade do plantel (e tinha que o fazer), muita dessa responsabilidade e pressão recaiu sobre Lopetegui e os jogadores.

Tudo isto porque a SAD definiu que o FC Porto ia apurar-se pelo menos para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões e ia garantir a qualificação directa para 2015-16. Para se ter noção da pressão que recaía sobre Lopetegui e os jogadores, basta dizer que se o FC Porto não superasse o playoff deixaria de ganhar 21M€ de prémios da UEFA já garantidos desde então (a Liga Europa rende muito pouco financeiramente). E se não tivesse bem encaminhado o apuramento directo para 2015-16, seriam menos 8,6M.

Por isso, aquela história de que o treinador deve simplesmente concentrar-se no treino não encaixa minimamente no FC Porto. Havia um enorme risco e esperanças depositadas em Lopetegui. Tinha plantel para superar todos os adversários até aqui? Com certeza. Mas da teoria à prática vai uma enorme diferença. Todas as épocas há exemplos disso, de grandes equipas que caem aos pés de equipas teoricamente mais fracas na Champions. 

Daí que todo o mérito e louvor seja pouco. Temos que ter a convicção absoluta que vamos entrar directamente na Champions em 2015-16. E com isso, aquilo que Lopetegui e os jogadores já garantiram foi que a SAD não tivesse um buraco extra de mais de 30M€ nas contas de 2014-15. Porque nunca, nunca dependemos tanto da receita europeia como esta época, conforme podemos ver no quadro abaixo.


Claro que a receita de 2014-15 está inflaccionada pelos 8,6M€ do acesso à Champions entrarem apenas esta época (os 2,1M€ do playoff entraram em 2013-14). Mas nada estava garantido no início da época. Nem quartos, nem oitavos, nem sequer a fase de grupos. O plantel tem mais qualidade, mas era totalmente novo. E também chegou um treinador que de facto pouco conhecia do futebol português e ia viver praticamente a sua primeira experiência a nível de clubes. Existia risco a todos os níveis, mas todos os obstáculos foram ultrapassados e as melhores expetativas superadas.

No que toca aos prémios da UEFA, em 2014-15 o FC Porto já garantiu 21M€ (os 2,1M€ do play-off entraram em 2013-14). Além disso, a SAD já orçamentava o acesso directo em 2015-16, por isso já conta com mais 8,6M€. Só em prémios, então Lopetegui e os jogadores já garantiram 29,6M€, que supera as expectativas da SAD.

As receitas operacionais (estimadas em 89,22M€) vão ser maiores do que o esperado. Com base no historial do que tem sido a gestão da SAD, isto não significa uma redução da necessidade de mais-valias, mas sim um reforço para os gastos operacionais ou para o ataque ao mercado. Tendo em conta que o FC Porto muito dificilmente deixará de vender os tais dois titulares no fim da época, esta boa campanha na Champions fortalece teoricamente as possibilidades de reforçar o plantel. Investindo, claro, em quem já cá está.
Expectativas superadas

É cedo para pensar nas meias-finais e é impensável orçamentar uma receita além dos 1/8 da Champions. Mas os ganhos até vão ser superiores aos 29,6M€. Não só pela receita de bilheteira, o mediatismo e a valorização dos jogadores na maior montra europeia, mas também pelo market pool.

As regras da UEFA no que toca ao market pool defendem os países que mais pagam pelos direitos televisivos. Portugal é dos países que menos recebe. Para se ter noção, a Juventus há um ano foi eliminada na fase de grupos e recebeu 32M€. O FC Porto, com este apuramento para os 1/4, se receber um décimo desse valor já será bom.

O market pool vai ter que ser dividido entre FC Porto, Benfica e Sporting. Ter três clubes na mesma edição da Champions é prejudicial nesta perspectiva. O campeão nacional em título tem por norma uma percentagem superior. Por exemplo, em 2011/12 o FC Porto foi eliminado na fase de grupos e recebeu quase 2,8M€, um pouco mais do que o Benfica, que foi aos 1/4. Este ano, como há 3 clubes portugueses na Champions, não podemos esperar grandes ganhos (em 2015-16 será superior). Felizmente, a equipa além de ter feito uma excelente fase de grupos ainda conseguiu apurar-se para os 1/4. Era impossível pedir mais e melhor.

Há ainda a empatia entre clube e adeptos. Esta época já tivemos 3 jogos de Champions com assistência acima dos 38 mil adeptos (contra o Lille foram mais de 45 mil, contra o Basel 43 mil), coisa que não tivemos em nenhum dos 6 jogos europeus de 2013-14. A juntar a isto há a sempre importante valorização dos jogadores. Mesmo jogando sem os dois frutos mais apetecidos (Danilo e Jackson Martínez) e sem o motor que meteu a máquina de Lopetegui a funcionar (Óliver), o FC Porto faz uma exibição que recolhe elogios em toda a Europa e valorizou activos seus (sobretudo Alex Sandro e Herrera) e outros sobre os quais tem uma palavra a dizer (Casemiro e Tello).

Notável. Financeiramente, já ninguém duvida, os objectivos vão ser cumpridos, com extremo mérito de Lopetegui e dos jogadores. Desportivamente, que ainda é ou deve ser o foco principal do FC Porto, continuamos na luta contra adversidades que todos conhecem. Mas porque fazer análises pós-jogo é fácil, diga-se (neste caso reafirme-se) já que Lopetegui já deu todas as provas de que merece continuar o seu trabalho no FC Porto na próxima época. A saúde desportiva e financeira do clube agradece.

O jackpot não saiu na Champions. Saiu no treinador.

8 comentários:

  1. E a publicidade nas camisolas no próximo ano, achas que os valores em causa vão divergir dos deste ano?
    Aindã não ouviste nenhum rumor face a possíveis patrocinadores?

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  2. Isso está tudo correcto. O único problema que eu vejo é que os custos operacionais já disparam em 6 meses relação ao orçamentado. No fim do ano com os prémios poderão ultrapassar os 6M de desvio negativo para o orçamentado. Confirma?

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  3. TdD, o tema dos patrocinios está na ordem do dia. Tem alguma ideia de que tipo de patrocinio teremos para o ano , Nacional vs Estrangeiro, e de que ordem de grandeza estamos a falar.
    Já agora como estão os outros "grandes"?
    Pelo que leio uns devem ter os Emirates, os outros qualquer um que lhes pague 500 €...

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  4. subscrevo cada palavra tua.

    abr@ço
    Miguel | Tomo III

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  5. É muito importante acertarmos rapidamente as nossas contas com excelentes vendas, "desfazendo-nos" de jogadores incapazes de acrescentar seja o que for, e compras ajuizadas, se possível dentro das nossas receitas, de resto é proporcionar a Lopetegui condições para nos fazer felizes.

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  6. Boas, porque é que em 2015-2016 o market pool será superior para os portugueses?

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    Respostas
    1. Deixe que a UEFA anuncie a 27 de Março os resultados da violação do Sporting do fair-play financeiro.

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    2. Não acredito que isso irá acontecer

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De e para portistas, O Tribunal do Dragão é um espaço de opinião, defesa, crítica e análise ao FC Porto, que aborda a atualidade desportiva e financeira de clube e SAD, bem como do futebol português.

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